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Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
Migração, sofrimento psíquico e estratégias defensivas “dos que migram” e
“dos que ficam”
Migration, psychological distress and defensive strategies “of those who
migrate” and “of those who are”
Polyana Felipe Ferreira da Costa¹; Marcelo Saturnino da Silva¹*
1
Faculdade de Integração do Sertão, Serra Talhada – PE – Grupo de Pesquisa em Migração,
Saúde e Direito/FIS.
Resumo: Anualmente milhares de trabalhadores nordestinos migram para os canaviais do
Estado de São Paulo onde se submetem ao árduo trabalho do corte de cana-de-açúcar.
Partindo de uma perspectiva Dejouriana, buscou-se, averiguar, a partir dos relatos dos
trabalhadores e seus familiares, os impactos da migração e da atividade de cortar cana-deaçúcar sobre a subjetividade desses sujeitos. Metodologicamente, realizou-se uma pesquisa
qualitativa, de cunho etnográfico através da observação participante e entrevistas semiestruturadas com trabalhadores-migrantes do município de Princesa Isabel (PB) e do Alto
Sertão do Pajeú (PE) e em algumas cidades de destino desses trabalhadores, especificamente
Novo Horizonte e Sales (SP). Os dados apontam que o sofrimento psíquico é algo presente
tanto para os trabalhadores que migram, como para os familiares, corroborando, assim a
hipótese de que o alto preço do desenvolvimento apregoado pelos defensores do agronegócio
tem sido pago com a saúde física e mental, quando não com a própria morte dos trabalhadores
brasileiros.
Palavras-chave: Cana-de-açúcar, trabalhadores-migrantes, sofrimento psíquico.
Abstract: Yearly thousands of workers northeastern migrate to the sugar plantations in São
Paulo where they undergo the hard work of cutting sugar cane. From the perspective
dejouriana, sought, ascertain, from the accounts of workers and their families, the impacts of
migration and activity of cutting sugar cane on the subjectivity of these individuals.
Methodologically, there was a qualitative research, ethnographic participant observation and
semi-structured interviews with migrant workers, the city of Princesa Isabel (PB) of the high
Sertão of Pajeú (PE) and in some cities of destination those workers, and specifically Novo
Horizonte e Sales (SP). The data indicate that psychological distress is this something for the
workers who migrate, as for the family, supporting thus the hypothesis that the high price of
development touted by proponents of Agribusiness paid to physical and mental health, if not
with death of Brazilian workers.
Keywords: Cane sugar, migrant workers, mental suffering.
Autor para correspondência: Marcelo Saturnino da Silva. Rua João Luiz de Melo, 2110. n° 2110. Bairro:
Tancredo Neves CEP: 56909-205. Serra Talhada – PE, Brasil. e-mail: [email protected]
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INTRODUÇÃO
O artigo focaliza a migração dos
nordestinos para os canaviais do Estado de
São Paulo, a qual ocorre em determinada
época do ano (Fevereiro – Dezembro),
delimitada pelo tempo da colheita de canade-açúcar, sendo que, ao final da safra,
estes sujeitos tendem a retornar aos seus
municípios de origem, configurando assim,
uma migração sazonal, já que caracterizada
pelas estações do ano.
Para quem apenas ouviu falar em
canaviais fica difícil aceitar que em pleno
século XXI, quando a agroindústria
canavieira vive um processo de expansão e
mecanização, seja necessário discutir a
relação existente entre a atividade de cortar
cana-de-açúcar e os adoecimentos físicos e
mentais aos quais os trabalhadores do setor
estariam
susceptíveis.
No
entanto,
concorda-se com Novaes (2007, p.90)
quando o mesmo afirma que: “O processo de
modernização nas usinas de cana-de-açúcar, não
gerou benefícios para os trabalhadores, uma vez
que a usina passa a exigir uma alta produtividade
em seu trabalho. Há dez, ou quinze anos, a média
de cana cortada era de seis toneladas por
trabalhador por dia. Hoje se contratam
trabalhadores que cortam, no mínimo, doze
toneladas de cana por dia. Intensificou-se o ritmo e
a jornada de trabalho”.
A atividade de cortar cana-deaçúcar exige muita força física e
habilidades manuais com o instrumento de
trabalho, o facão ou podão. O trabalhador
precisa, dentre outras coisas, obedecer ao
ritmo de trabalho prescrito, acompanhar a
intensidade da produção, vencer os perigos
e insalubridades próprios do trabalho etc.
Alessi e Scopinho (1994) afirmam
que “o trabalho manual na colheita de
cana-de-açúcar representa riscos à saúde
dos trabalhadores, devido às altas
temperaturas, chuvas, presença de poeiras,
provenientes da fuligem da cana, de
animais peçonhentos” etc. Há também
risco acentuado de acidentes de trabalho
em decorrência do manuseio do facão .
São inúmeros os casos de
adoecimentos físicos que acometem os
trabalhadores-migrantes
nas
usinas
canavieiras paulistas e o mais assustador é
número de trabalhadores mortos por
exaustão física.
Segundo denúncias da Pastoral do
Migrante, sediada em Guariba/ SP, o
excessivo esforço imposto durante a
jornada de trabalho supostamente teria
causado a morte de 22 trabalhadores nos
canaviais paulistas no período de 2004 a
2008 (SILVA, 2010).
Outro desgaste bastante prevalente,
mas ainda pouco visível na literatura, é o
mental. Este, quando aparece, está
relacionado ao ritmo acelerado do corte da
cana que, por sua vez, se relaciona a forma
de
pagamento
do
salário,
por
produtividade. No entanto, sabe-se que
além das condições de trabalho, as
condições de moradia e a própria viagem
podem afetar a saúde mental e desencadear
o sofrimento psíquico.
Por outro lado, os familiares (os
que ficam) dos trabalhadores-migrantes
também tendem a serem acometidos pelo
sofrimento
psíquico
relacionado,
geralmente, à saída de um integrante da
família (pai, irmão, filho, esposo)
acarretando saudades, angústias e medos a
que esta ausência induz.
Buscou-se, portanto, averiguar, a
partir dos relatos dos migrantes e seus
familiares, os impactos da migração e da
atividade de cortar cana-de-açúcar sobre a
subjetividade desses sujeitos na tentativa
de compreender o sofrimento psíquico e os
mecanismos de defesas utilizados por esses
indivíduos para permanecerem nas
organizações
de
trabalho
e
não
desestabilizarem sua saúde mental.
Pretende-se também entender o sofrimento
psíquico compartilhado por seus familiares
(os que ficam) e quais as estratégias
utilizadas para suportar tal sofrimento sem,
necessariamente, chegarem à loucura.
METODOLOGIA
O estudo traz dados relativos aos
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municípios de origem dos trabalhadoresmigrantes da região de Princesa Isabel / PB
e do Alto sertão do Pajeú /PE, assim como
dos municípios de destino (Sales e Novo
Horizonte / SP), sendo que foram feitas
observações mais aprofundadas em apenas
um dos municípios de origem (Tavares –
PB) e de destino (Novo Horizonte – SP).
Realizou-se
uma
pesquisa
qualitativa, de cunho etnográfico, a qual
permite “compreender o modo de vida das
pessoas ou grupos, na sua própria perspectiva,
envolvendo estudo disciplinado, mediante a
observação, a descrição, documentação e análise
do estilo de vida ou padrões específicos de uma
cultura” (SPRADLEY, 1980; LEININGER,
1985; MINAYO, 1993).
Enquanto
instrumental
metodológico fez-se uso da observação
participante e da entrevista semiestruturada, considerados os dois pilares da
etnografia, visto que a primeira, abarca o
comportamento, os gestos, os silêncios e, o
segundo, permite o acesso a fala e,
portanto, as representações dos sujeitos
pesquisados.
O
critério
utilizado
para
delimitação da amostra foi o da saturação,
isto é, quando o conteúdo expresso pelos
pesquisados começaram a se repetir,
finalizou-se a coleta dos dados.
A análise dos dados foi realizada a
partir da análise temática por meio da qual
foi possível descobrir os núcleos de sentido
da comunicação (MINAYO, 1994).
Vale ressaltar que todos os
procedimentos realizados durante a
pesquisa foram fundamentados no que
dispõe a Resolução n. 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde (livre consentimento
dos entrevistados, participação livre e
voluntária etc.) e aprovados no Comitê de
Ética de Patos – PB (nº 042/2011).
Todos os informantes tiveram sua
identidade preservada e, para tanto,
utilizamos nomes fictícios, garantindo-se,
dessa forma, o anonimato dos participantes
bem como o sigilo das informações.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
O SOFRIMENTO DA PARTIDA
O sofrimento enfrentado pelos
trabalhadores-migrantes e seus familiares
foi analisado em três etapas distintas: o
momento da partida (locais de origem), do
trabalho (locais de destino) e do retorno
(locais de origem).
Passar-se-á, a partir de agora, a
análise da primeira etapa, a partir da
observação participante, realizada no
momento da partida de trabalhadoresmigrantes da região de Princesa Isabel-PB
em direção a região de Novo Horizonte SP para exercer a atividade de colheita de
cana-de-açúcar. O seguinte trecho do diário
de campo é revelador do item em análise.
O cenário da pequena cidade do interior
da Paraíba [Princesa Isabel] era de muita
agitação, parecia um terminal rodoviário.
Muitas pessoas chegavam e deixavam
malas, bolsas, caixas, sacos, garrafões etc.
Parecia que um grande espetáculo estava
para acontecer. Sabíamos que naquela
quarta-feira (dita popularmente como
quarta- feira de cinzas) uma usina
localizada na região de Novo Horizonte –
SP organizava a partida de vinte e quatro
(24) ônibus lotados, todos eles, de
trabalhadores-migrantes
que
seriam
transportados para os municípios de
destino, no interior paulista.
A busca por esse tipo de
trabalhador tem início, geralmente, no mês
de janeiro de cada ano, quando um
funcionário do setor de recursos humanos
da usinas chega à região de origem visando
recrutar trabalhadores para a safra da cana.
Este funcionário conta com a colaboração
de indivíduos que já trabalharam em safra
anteriores, são os informantes, isto é, os
que vão informar e colaborar no
recrutamento e, consequentemente, na
formação de novas turmas para a nova
safra.
A maior parte dos trabalhadores
recrutados são jovens, na faixa etária de 17
a 30 anos (81%), com baixa escolaridade,
já que a maioria (52%) apresenta apenas o
ensino
fundamental
incompleto,
e
residentes na zona rural (sítios) (69%) dos
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seus respectivos municípios de origem.
Entre os trabalhadores recrutados,
os que têm acima de 30 anos formam uma
minoria (19%), o que pode ser explicado
pela característica do trabalho na colheita
da cana, cuja penosidade não favorece a
inserção de trabalhadores mais velhos,
além de que, as próprias empresas acabam
fazendo opção pelos mais jovens, visto
como mais capazes de responder as atuais
exigências de produtividade.
Relatos dos próprios trabalhadores
permitem perceber que grande parte dos
que acumulam um longo histórico como
cortador de cana, acumulam igualmente
várias enfermidades, a exemplo de Valdeci,
49 anos, ex-cortador de cana, oriundo do
município de Tavares que após quinze (15)
safras no corte da cana-de-açúcar foi
acometido por três patologias: Doença de
Chagas, Hérnia testicular e, por último,
Depressão.
Na maioria dos relatos dos
trabalhadores-migrantes é comum o
desinteresse
pelos
estudos,
isso
provavelmente está relacionado à escassez
de empregos nas cidades de origem.
Sem contar que o baixo índice de
escolaridade diminui cada vez mais a
chance de inserção desses jovens em
outros setores do mercado de trabalho
(SILVA, 2007).
Os relatos dos trabalhadores
também esclarece que a migração está
relacionada a busca
“por suprir as
necessidades”, a “ falta de outras opções”,
em seus lugares de origem, o que favorece
a mobilidade visando, sobretudo, “ganhar
dinheiro”, “comprar uma moto”, “uma
casa”, “ ser bem visto pelos familiares”,
“se divertir” etc.
Todos migram por algum motivo,
por alguma razão. Partem movidos pela
esperança de um amanhã melhor; partem
levando e deixando saudades; partem
sofrendo... Mas, os que ficam (familiares e
amigos) também sofrem... Como se pode
entrever dos seguintes trechos do diário de
campo da pesquisadora, no momento da
partida dos trabalhadores.
À medida que os ônibus chegavam as
bagagens eram levadas. Mas, não eram
apenas bagagens. Levavam saudades,
medos e expectativas.
As lágrimas
corriam nas suas faces, os sorrisos, os
beijos e as paixões apimentavam as
esquinas da cidade. Percebíamos que esse
sofrimento era compartilhado. Os que
ficavam também sentiam, sofriam, gemiam
e choravam. Assistíamos as despedidas, os
abraços, as lágrimas, as trocas de olhares
tristonhos e esperançosos. Em um
determinado momento observamos que
duas mulheres e uma criança que
passavam pela rua choravam de forma
desesperadora. Eu muito comovida
perguntei aos que estavam do meu lado: “
Será que elas são família do homem que
sofreu os tiros?” (Tínhamos acabado de
sermos imformados que um homem tinha
sofrido PAF- Perfuração por arma de
fogo). Rapidamente um homem me
respondeu: “É nada é só porque os
homens estão indo embora”. O homem que
me respondeu era o motorista do ônibus.
Para o motorista do ônibus e para
muitos outros expectadores a migração é
um processo lucrativo... Para o trabalhador
e para a sua familia, a migração não é algo
tão desejado, pois a mesma causa
sofrimento, dor e medo entre os que
partem e também entre os que ficam.
ENTRE A MARCAÇÃO DA USINA E A
DEFESA DO MIGRANTE
No segundo momento da pesquisa
realizou-se uma viagem de campo
exploratória até as cidades de destino dos
trabalhadores que anualmente migram para
os canaviais do Estado de São Paulo (Novo
Horizonte e Sales- SP). Nessa etapa os
focos principais foram os trabalhadoresmigrantes (os que migram) e a própria
organização do trabalho nas quais os
mesmos estão inseridos, assim como, a
relação existente entre a organização do
processo de trabalho e os impactos no
funcionamento psíquico desses sujeitos. A
seguir, trechos do diário de campo da
pesquisadora.
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O sofrimento dos que migravam era
visível. Ao acompanharmos uma família de
migrantes (durante três dias e três noites)
que iriam trabalhar nos cafezais do Estado
de Minas Gerais, mas que já tinham
experiência no corte da cana-de-açúcar
era possível perceber o cansaço da longa
viagem na face e no olhar de todos. Nós
pesquisadores também experimentávamos
tal sofrimento. Além de que estávamos
preocupados em relação a ilegalidade do
reboque que transportava as bagagens,
pois o mesmo estava sem documentação e
corria-se o risco da policia rodoviária
apreender o reboque e as malas ficarem
retidas. Com isso todos ficavam
apreensivos, agitados e preocupados com
os postos de fiscalizações mais rigorosos
durante o percurso. Mas, o motorista já
conhecia todos os horários e locais mais
adequados e assim desviava o percurso.
Sabe-se que a própria viagem pode
causar o sofrimento dos que migram. São
vários os casos de ilegalidade durante o
recrutamento dos trabalhadores-migrantes
para o interior do Estado de São Paulo,
desde as péssimas condições dos ônibus
até a sobrecarga de bagagens e de pessoas.
Muitas
vezes,
por
conta
das
irregularidades, os ônibus que transportam
esses trabalhadores são retidos pela polícia
rodoviária federal, são casos como os
relatados por dona Arlinda, presidente do
Sindicato dos trabalhadores rurais de Santa
Cruz da Baixa Verde: “uma turma de
migrantes ficou retida em Petrolina, devido
às péssimas condições do ônibus e da não
legalidade da viagem”.
Instigados
a
avaliarem
as
condições das viagens, os trabalhadores
assinalam para o desconforto: é
desconfortável, dizem, expressão esta que
se torna compreensível quando se vive a
dolorosa experiência de três dias, com
poucos intervalos e num veículo sem
condições mínimas de segurança e
conforto. Nessas condições não é raro a
desestabilização psíquica de trabalhadores
já durante o percurso até os locais de
destino. São casos como o relatado no
diário de campo da pesquisadora.
No caminho fomos conversando com
Júnior (motorista da van) que falou sobre
o caso de um cortador de cana que surtou
antes de chegar ao canavial do Estado de
São Paulo. Júnior afirma que o cortador
de cana foi em direção ao motorista tomou
a direção do veiculo e acabou virando o
ônibus com vários
trabalhadoresmigrantes.
Vários estudos têm chamado a
atenção para “os impactos da migração
sobre a saúde (física e mental) dos que
migram” (CARVALHO, 2008). Philo e
Parr (2004) explicam que “a experiência
migratória como um todo pode ser
altamente ameaçadora para o bem-estar
mental ou emocional do sujeito,
principalmente, quando as pressões se
combinam com fatores de risco, o que
pode afetar inclusive a saúde mental”.
Acredita-se que “um dos fatores de risco
que
pode
contribuir
para
o
desencadeamento do sofrimento psíquico é
um trabalho desestruturante, ou seja, um
trabalho que, ao invés de representar o
enriquecimento e a satisfação, corrói o
desejo dos trabalhadores”. (DEJOURS,
1992).
Além disso, há que se atentar
também, para a frustração das expectativas
dos trabalhadores como fonte de
sofrimento psíquico, tal como abordado
por Silva (2007). Para a autora, é inclusive
visando
atenderem
suas
próprias
expectativas, bem como a de seu grupo
social, que o migrante tende a se submeter
às formas de trabalho mais degradante,
uma vez que a não submissão representaria
a quebra de valores socialmente
compartilhados tais como a virilidade e a
macheza colocando em risco o provimento
do grupo familiar e, consequentemente, o
papel do ‘provedor’.
Mas, é necessário frisar que tal
frustração pode ter inicio bem antes do
trabalho, pois, no caso em estudo, é
comum a usina alugar casas para os
trabalhadores (descontando posteriormente
no salário do trabalhador) ou em alguns
casos prometerem e frustrarem a
expectativa do trabalhador, como relata um
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trabalhador-migrante, no trecho abaixo
transcrito.
Eles prometeram casa e cesta básica. E
disseram que quando chegássemos estava
tudo certo, mas quando chegamos lá não
tinha nem casa, nem comida. Levaram-nos
para um povoado chamado Pinto Aceso (7
km da cidade). Chegamos lá umas onze
horas da noite e levaram a gente para um
vão (era um clube desativado), lá não
tinha água, nem luz. Deitamos em cima de
uns lençóis e muitos de nós amanhecemos
doentes (Marcos, 23 anos, trabalhadormigrante, natural de Tavares-PB).
Com o relato acima deixa claro, no
momento
do
recrutamento
dos
trabalhadores são realizadas promessas
pelos
funcionários
das
empresas
canavieiras, as quais nem sempre são
cumpridas. A essa frustração inicial podem
ser acrescentadas pressões e fatores de
risco próprios da organização do trabalho
(canaviais paulistas), as quais se combinam
com as condições e relações de trabalho no
eito da cana e ainda, com a ausência dos
familiares, constituindo um quadro de
pressões que, em muitos casos, ocasionam
o sofrimento psíquico, chegando mesmo a
desestabilização psíquica dos sujeitos,
pois, como alerta Milanesi et al (s/d):
O trabalhador, inserido numa determinada
organização do trabalho, desenvolve uma
carga psíquica resultante das excitações
exógenas e endógenas às quais é
submetido constantemente, estas cargas
psíquicas são acumuladas, culminando na
chamada tensão psíquica.
As condições de trabalho no corte
da cana-de-açúcar apresentam muitas
vezes perigos para a saúde física e mental
dos trabalhadores. Para comprovar tal
realidade foi realizada uma visita ao local
de trabalho dos cortadores de cana-deaçúcar, numa das usinas localizadas na
região de Catanduva – SP. A seguir trecho
do diário de campo da pesquisadora.
Foi o momento de aproximarmos da
realidade, da dureza do trabalho e das
verdes folhas dos canaviais. Lá
encontramos sujeitos azulados cobertos
com chapeis, óculos, luvas, caneleiras e
botinas. O pouco que víamos eram os
olhos, a identidade do ser humano e o suor
que escorria sobre uma face grudada de
carvão. Eles debruçavam-se sobre um eito
de cana- de -açúcar e como muita
agilidade agarravam o facão e
derrubavam montes de canas sobre o solo
de um enorme canavial. Na pausa para o
almoço, que dura aproximadamente uma
hora, avistei uma refeição (arroz, feijão e
carne) derramada no solo do canavial,
imaginei que a comida preparada às
quatro horas da manhã não tinha resistido
ao calor dos raios solares e estava
estragada.
Ainda, sobre as condições de
trabalho,
os
trabalhadores-migrantes
tendem a assinalar que “o serviço é pesado
e força muito”. (Geraldo, 36 anos,
trabalhador-migrante) Sabe-se que o
trabalho de cortar cana-de-açúcar exige do
trabalhador muita força física e destreza do
corpo e da mente, pois o trabalhador
realiza movimentos repetidos de flexões e
extensões com o corpo. “O facão precisa estar
seguro na mão e os músculos do braço são
trabalhados com muita força e agilidade”
(ALVES,
2007;
NOVAES,
2007;
MENEZES; SILVA 2007)
Para Dejours (1993) “um trabalho
repetitivo sob pressão de tempo ou no
trabalho por peças, não há, absolutamente,
lugar para descarga das tensões nervosas,
têm-se, então, nestes casos, um acúmulo de
energia psíquica que se torna fonte de
desprazer”. Assim, é que ao analisar um
relato de outro trabalhador-migrante foi
possível verificar alguns riscos associados
ao trabalho do corte da cana-de-açúcar,
como tão bem afirma Marcos, 23 anos,
trabalhador-migrante oriundo de Tavares:
Faça chuva ou faça sol, frio, disposto ou
indisposto tem que ir e se não for é ruim
pra gente. O trabalho é pesado, se esforça
muito e chega em casa cansado tem que
lavar roupas e fazer comida. A gente
ganha bem, mas não vamos por prazer,
vamos por necessidade. Além de que
vamos trabalhar para os outros e é
estresse para o corpo e para a mente, leva
reclamação.
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Na fala de Marcos é possível
enumerar alguns dos riscos a que os
cortadores de cana estão susceptíveis no
trabalho nos canaviais, como por exemplo,
os fatores climáticos (riscos físicos):
“Faça chuva ou faça sol, frio”. O
trabalhador tem que cortar cana-de-açúcar
independente
da
disposição
ou
indisposição. Além disso, Marcos afirma
que o trabalho é pesado e precisa de muito
esforço. Ele também relata que “tem que
lavar roupas e fazer comida”, o que aponta
para uma dupla jornada de trabalho. O
risco psicológico é demonstrado na
seguinte frase: “Além de que vamos
trabalhar para os outros e é estresse para o
corpo e para a mente, leva reclamação”.
Percebe-se que o “estresse” está
relacionado à subordinação do trabalhador,
obrigado a trabalhar para os outros e,
portanto, para a falta de autonomia no
trabalho. E realmente o trabalhador sofre
para se adaptar a essa relação de
subordinação, pois vai contra as
tradicionais relações nos seus locais de
origem, em seus roçados onde o
trabalhador tem domínio sobre o seu
trabalho e seu ganho. A esse respeito vale a
pena mesmo que de passagem, “fazer
menção ao ethos camponês tal como
trabalhado por vários estudiosos do
campesinato brasileiro” (WANDERLEY,
2009; SABOURIN, 2009).
Outro fator que está na origem dos
sofrimentos psíquicos é a rígida divisão do
trabalho existente entre os cortadores de
cana e os demais membros que constitui a
organização do trabalho. São divisões
marcadas pela hierarquia com forte caráter
de dominação e de subordinações que são
construídas no cotidiano do trabalho.
Dejours (1992) entende que a organização
do trabalho não é apenas “a divisão das
tarefas entre operadores, ritmos impostos e
os modos operatórios prescritos, mas
também e, sobretudo, a divisão dos
homens para garantir esta divisão de
tarefas, representada pelas hierarquias, as
repartições de responsabilidades e os
sistemas de controle”. Nesse sentido, Silva
(2010, p.111) explica como funciona a
hierarquização,
as
repartições
de
responsabilidades nos canaviais do Estado
de São Paulo.
Cada turma possui um empreiteiro, que
também assume a função de motorista e
dois fiscais, denominados respectivamente
de fiscal um (01) e fiscal dois (02). O fiscal
um (01) atua como auxiliar do fiscal dois
(02). Compete ao fiscal dois (02) fiscalizar
o serviço, fazer o apontamento (a chamada
dos trabalhadores). Por volta do meio dia
o empreiteiro que é o mesmo motorista,
mede a cana cortada por cada trabalhador
e registra a produção diária de cada
trabalhador. Cada turma possui um
terceiro fiscal, denominado fiscal de frente.
Acima do fiscal de frente fica o
encarregado agrícola. Acima do fiscal do
encarregado agrícola, por sua vez, está o
Supervisor Agrícola e, acima deste, o
departamento de Recursos Humanos da
empresa
Retornando o dialogo com Dejours
(1994) pode-se salientar que “quanto mais
rígida for a organização do trabalho, maior
será a divisão de tarefas, menor o
significado deste trabalho e maior
sofrimento”. Esse sentimento tem origem
no hiato entre a organização do trabalho e
o desejo dos trabalhadores.
Nos canaviais do Estado de São
Paulo os trabalhadores-migrantes acabam
sendo subordinado a vários sujeitos na
cadeia hierárquica. São considerados “os
dominados”, “os humilhados”, “os
marcados”, tratados muitas vezes como
animais, forçados a calarem os berros e
apenas seguirem as ordens ditadas pelos
seus superiores. A expressão, “a gente solta
o pega dos peões no eito”, utilizada por um
fiscal de uma das usinas do interior de São
Paulo remete ao universo dos vaqueiros no
qual o termo “soltar o pega” faz referência
a atividade de soltar o gado na caatinga.
Tal como os animais bovinos, os
trabalhadores não são apenas soltos, mas
igualmente, marcados e ferrados, como
relatado por João, 55 anos, trabalhadormigrante, natural de Tavares: “Você não
pode falar nada, pois se você disser alguma
coisa você é quem fica marcado”.
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Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
Para “marcar” os trabalhadores a
usina dispõe de mecanismos de controle
que inicialmente podem ser representados
pela própria forma de pagamento, ou seja,
o pagamento dos trabalhadores é
equivalente a quantidade de cana-deaçúcar cortada por dia. O trabalhador
pouco produtivo, ou seja, aquele que corta
uma pequena quantidade de cana pode
ficar marcado e inclusive ser incluído na
“lista
negra”
que
é
anualmente
confeccionada pela usina.
Como já apresentado na introdução
do artigo, as usinas não contratam
trabalhadores que cortem menos de doze
toneladas de cana por dia. Por outro lado, a
própria organização do trabalho estimula o
aumento da produtividade através de
políticas no setor de recursos humanos, que
oferecem premiações aos trabalhadores
mais produtivos. Segundo Novaes (2007)
em determinadas usinas, os prêmios
oferecidos no final das safras aos
“campeões de produtividade” chegam a
refrigeradores, modernos aparelhos de
televisão e até carros novos.
Pensando nas premiações e no
ganho recebido ao final da quinzena
(quinze dias de trabalho) a maioria dos
trabalhadores-migrantes são impulsionados
a cortar sempre mais e a ganhar sempre
mais. Em troca da obtenção de uma alta
produtividade os trabalhadores tendem a
ultrapassar os seus limites corporais e
mentais. Não são raros os casos de
trabalhadores que desmaiam, sentem
câimbras, desidratam, cansam, gripam,
sentem dores na coluna, dores nas
articulações, que se cortam, que sofrem
psiquicamente. Além desses, o corpo do
trabalhador apresenta outros sinais e
sintomas
que
acabam
marcando,
maltratando e algumas vezes causando as
mortes nos canaviais.
Outras
formas
de
controle
utilizadas pelas usinas do setor canavieiro
são as punições. De acordo com Silva
(2010) “essas punições variam desde
broncas dos fiscais, advertências, ganchos
até demissões por justa causa”.
Os trabalhadores que forem
“marcados” terão seus nomes incluídos
numa lista negra elaborada pela usina e
conseqüentemente ficam impossibilitados
de serem contratados para a próxima safra.
Durante a pesquisa teve-se a possibilidade
de observar a separação das carteiras de
trabalho de acordo com a “lista negra”. O
nome dos trabalhadores eram listados de
acordo com categorias de perversidades,
como por exemplo: Agitador, Bagunceiro,
Faltou muito, Pouco produtivo e outros.
Relatos dos próprios trabalhadores
sinalizam tais sistemas de controle a que os
mesmos estão subordinados. Heitor, 25
anos, trabalhador-migrante natural de
Tavares assinala: “Quando o peão não
agüenta mais, leva gancho ou tem que
trabalhar forçado”, o que também é
enfatizado por João, 55 anos, trabalhadormigrante oriundo do município Tavares:
Olha só como eles humilham o cabra, a
gente tem cortar a cana dentro do eito.
Depois que corta tem que fazer o monte
bem direitinho, depois a máquina (o
guincho) vem e empurra tudo, desmancha
tudo que a gente fez. E se a gente não fizer
certo leva um gancho.
A relação de atividades citadas por
João faz parte do trabalho exercido pelos
trabalhadores nos canaviais, até porque, tal
atividade não se restringe apenas ao corte
da planta, mas envolve, igualmente, a
limpeza da cana cortada e sua organização
em
“montes”
ou
“eiras”,
como
especificado por Alves (2007), para quem
o trabalho no corte da cana envolve um
conjunto de outras atividades: (a) a
limpeza da cana, com a eliminação de seu
pendão; (b) o transporte da cana até a linha
central do eito (3ª linha), e (c) a arrumação
da cana, depositada na terceira linha, para
o carregamento mecânico. Traduzindo para
uma linguagem informal utilizada pelos
trabalhadores o primeiro movimento é
conhecido como “fazer ponteiro”, já o
segundo e o terceiro movimento são
conhecidos como “fazer os montes”.
Os
trabalhadores,
quando
instigados a falarem sobre o trabalho,
23
Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
tendem a realçar a humilhação a que estão
sujeitos, assim é que João (55 anos)
enfatiza que é muita humilhação o trabalho
no corte da cana- de açúcar, comentando,
em seguida, o que aconteceu com seu filho
mais velho, Jackson (28 anos).
Um dia um fiscal disse uma piada para
Jackson e ele não gostou e acabou
dizendo: “Meu amigo porque você é fiscal
e eu só cortador de cana eu sou homem
igual a você”, depois o fiscal colocou
Jackson para pegar uma mula durante três
dias. Davi (irmão do meio) trabalhava na
mesma turma e chorou de ódio na roça
quando viu o irmão sofrendo. Nessa hora
ele segurou o facão e disse que ia cortar o
pescoço do fiscal. A sorte foram os amigos
que disseram para ele deixar pra lá.
.
O fato de Jackson ser obrigado a
cortar cana durante três dias consecutivos
numa mula remete a um tipo de punição
concedida pelo fiscal, pois a mula
representa um terreno inclinado e muito
dificultoso de se trabalhar. No entanto,
sabe-se que a máquina (colhedeira) não
consegue trabalhar nesses locais mais
inclinados e esse serviço é especifico do
trabalhador manual. Mas, quando o
trabalhador “pega uma mula” ele acaba se
esforçando muito mais do que nos dias
normais, consequentemente, cortando uma
menor quantidade de cana-de-açúcar.
Davi, outro filho de João, vendo o
sofrimento do seu irmão Jackson, “chorou
de ódio na roça”. Podemos entender este
choro como uma primeira tentativa
utilizada por Davi para liberar as tensões
psíquicas. Além do choro, outra estratégia
utilizada foi a agressividade, visando
canalizar a tensão psíquica. “Ele segurou o
facão e disse que ia cortar o pescoço do
fiscal”. A utilização da agressividade
enquanto estratégia defensiva “é algo
comum entre os pilotos de caça”
(DEJOURS, 1992). No entanto, no
contexto aqui examinado, tal estratégia
funciona dando vazão a sentimentos que,
na impossibilidade de serem expressos,
poderiam acarretar danos psicológicos.
Numa perspectiva Dejouriana, o
sofrimento “é um espaço clínico
intermediário que marca a evolução de
uma luta entre funcionamento psíquico e
mecanismo de defesa por um lado e
pressões organizacionais desestabilizantes
por outro, com o objetivo de conservar um
equilíbrio possível, mesmo se ele ocorra ao
preço do sofrimento” (DEJOURS, 1993).
Em outras palavras, quando um
trabalhador encontra-se submetido a
pressões organizacionais, ele utiliza o seu
funcionamento
psíquico
e
elabora
mecanismos de defesas para combater o
sofrimento e, dessa forma, camuflá-lo,
demonstrando um estado de normalidade.
Considerando o livro “Migrantes:
Trabalho e trabalhadores no Complexo
Agroindustrial Canavieiro”, organizado
pelos professores Roberto Novaes e
Francisco Novaes os cortadores de canade-açúcar são os heróis do agronegócio
brasileiro. O que remete a idéia de
heroísmo enquanto tema comum entre
esses trabalhadores, principalmente nas
pequenas cidades do interior do Nordeste,
onde homens fortes, viris, corajosos
deslocam-se para trabalhar num árduo
trabalho, sendo expostos a inúmeros
fatores de risco.
Outra estratégia defensiva utilizada
pelos
trabalhadores-migrantes,
aqui
considerados, é a rede de amizades.
Retornando o relato de João (55 anos)
pode-se perceber o apoio oferecido pelos
amigos. “A sorte foram os amigos que
disseram para ele deixar pra lá”. Os amigos
são
importantes
como
elementos
apoiadores nos momentos dramáticos,
funcionando também como um elo que se
preserva com os locais de origem, afinal,
migra-se em grupo e não sozinho, assim,
esse refúgio encontrado na figura dos
amigos também pode ser considerada uma
estratégia defensiva para o sujeito não
desestabilizar psiquicamente. Conforme
pode ser atestado pelo relato de Marcos (23
anos, trabalhador-migrante, natural de
Tavares), o qual assinala: “a sorte são os
amigos que mandam o cabra ter paciência
e ficam dizendo que já está perto (final da
24
Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
safra)”. Assim, por disporem dessa rede de
amizade, torna-se mais fácil lidar com a
saudade e as adversidades do tempo da
safra, como afirma Ednaldo (27 anos,
trabalhador-migrante, natural de Tavares):
“A saudade bate, mas a gente ocupa com
alguma coisa. Vai assistir, ouvir uma
música, faz um churrasco com os amigos”.
O dia do churrasco é considerado
por muitos trabalhadores como “o dia da
saudade”. O churrasco geralmente é
realizado no dia de sábado, onde todos os
trabalhadores se reúnem nos barracos
(locais de moradia) para conversarem,
cantarem,
brincarem,
dançarem
e
consumirem bebidas alcoólicas, o que
certamente contribui para tornar suportável
o tempo da safra, levando a vivenciarem a
passagem do tempo de forma mais rápida.
Em
estudo
realizado
com
trabalhadores da construção civil, Barros
(2003) verificou que “para amenizar o
sofrimento psíquico, esses trabalhadores
fazem uso de brincadeiras, canções e
conversas. Quando estão sozinhos, eles
pensam na família, mulher, filhos, dívidas
e planos para o futuro como estratégia para
amenizar o sofrimento, fazendo ‘passar o
tempo’ e o serviço render mais”.
Alguns trabalhadores fazem uso de
outra estratégia para que o tempo passe
mais rápido. São trabalhadores como seu
João (55 anos, trabalhador-migrante,
oriundo de Tavares) que utilizam-se da
bebida alcoólica e dos espaços dos bares,
para esquecer os infortúnios. Em suas
palavras: “No meu caso eu vou ao bar e
pego uma cervejinha para esfriar a mente”.
O alcoolismo, ou seja, o uso abusivo de
bebidas alcoólicas é muito freqüente nas
cidades de destino desses trabalhadores.
Não são raros os casos de transtornos
mentais e comportamentais devidos ao uso
de álcool. Foi exatamente essa patologia
que acometeu um trabalhador do município
de Tavares. Valdeci, 43 anos, trabalhadormigrante durante quatorze (14) safras,
oriundo do município de Tavares – PB, pai
de seis filhos, sendo quatro homens e duas
mulheres. Dos homens, três são casados e
são cortadores de cana. E das mulheres,
uma é casada e também já migrou para
acompanhar o marido. Apenas dois filhos
(um rapaz e uma moça) permanecem na
casa paterna.
Relatos dos amigos de Valdeci
apontam que ele fazia uso da bebida
alcóolica (no caso, da pinga) antes mesmo
de ir para o eito, no próprio eito e também
no barraco. E não eram raros, ainda
segundo os amigos, os dias em que
Valdeci brigava com as pessoas que
estavam em sua volta, que dizia que tinha
alguém querendo matá-lo. Relatos dos
amigos dão conta ainda que certo dia, o
mesmo teria fugido do barraco e passado a
noite no canavial. Recentemente, durante a
safra de 2010, o mesmo teria colocado
fogo no barraco, queimando todas as ropas
e documentos seus e dos companheiros,
provocando um prejuizo estimado, ainda
pelos amigos, em oitenta mil reais (R$
80.000,00), uma vez que o fogo teria
atingido
estabelecimentos comerciais
vizinhos ao barraco: uma casa lotérica,
uma loja de roupa e um escritório de
advogacia.
Foi somente após ter provocado
este incêndio que os amigos de Valdeci
perceberam que o mesmo estava
desestabilizado psíquicamente
e que,
inclusive, necessitava de atendimento
psíquiátrico. No caso de Valdeci, o
alcoolismo (estratégia defensiva) não foi
suficiente para neutralizar as tensões
psíquicas, assim, o que era “apenas”
sofrimento psíquico evoluiu para a esfera
da desestabilização psíquica. Mesmo
considerando que no local de origem o
trabalhador já fazia
uso de bebidas
alcoólicas acredita-se que no local de
destino quando se agrupam o conjunto de
pressões psíquicas expostas pelo trabalho e
pela própria migração, o uso do álcool,
pode ter sido mais acentuado, além de que
sugere-se também que leve-se em conta
que no local de origem, mesmo já fazendo
uso de substãncias alcoólicas, não há
registro, na história do trabalhador, desse
tipo de comportamento “destrutivo”, o
25
Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
qual, acredita-se, mesmo que a título de
hipótese, deve estar relacionado as
pressões advindas das condições e relações
de trabalho nos canaviais, as quais não
encontraram outro mecanismo de vazão.
Nesse sentido, vale a pensa
enfatizar que estudos realizados por
Dejours (1992) confirmam que “o
alcoolismo é uma estratégia defensiva
utilizada como uma saída individual frente
à ansiedade relativa a sobrevivência e que
pode ocasionar um destino mental e
somático particulamente grave”. Ou seja, o
uso do alcoolismo como estratégia
defensiva leva um desequilibrio físico e
mental bem mais rápido do que outras
estratégias defensivas.
Além das estratégias já citadas,
existe outra muito comum entre os
trabalhadores, a saber, a naturalização dos
adoecimentos. O trabalhador utiliza o
corpo e a mente para realizar o trabalho do
corte da cana-de-açúcar, ou seja, o corpo é
quem produz. Quando o corpo está doente
ele não produz. Então, é comum o
trabalhador negar ou naturalizar a doença
para continuar trabalhando. Para Dejours
(1992) “a naturalização da doença é
comum entre os trabalhadores do
subproletariado, já que para essa parcela da
população
a
doença
remete
a
‘vagabundagem’, pois o corpo só pode ser
aceito no silêncio dos orgãos”. Ou seja,
somente o corpo que trabalha, o corpo
produtivo dos homens são aceitos. Nas
palavras de um trabalhador-migrante: “Eu
mesmo nunca adoeci, aqui acolá dava uma
gripe, no mês de maio, mas eu procurava o
médico do sindicato” (Messias, 40 anos,
natural o município de Tavares), o que é
partilhado também por Geraldo (36 anos,
trabalhador-migrante, oriundo de Tavares)
para que, “Caimbrã sempre dá, é normal”.
Sintetizando, percebe-se que o
trabalhador-migrante está submetido a
pressões organizacionais do processo
migratório e do trabalho nos canaviais do
Estado de São Paulo e acabam utilizando o
seu funcionamento psíquico e elaborando
mecanismos de defesa para camuflar/
combater tal sofrimento.
Quando isso não acontece, a energia
pulsional é acumulada no aparelho
psíquico podendo se refletir no
corpo,
sobretudo,
mediante
o
desencadeamento de perturbações e fadiga
física”. (DEJOURS, 1992).
Por outro lado acredita-se que o não
trabalho, ou seja, a permanência dos
trabalhadores nos locais de origem pode
ser desencadeador do sofrimento psíquico.
Dejours (1993) afirma que quando um
sujeito não faz nada, não quer fazer nada, e
se mantém em uma inatividade quase total,
geralmente é sinal, do ponto de vista
psiquiátrico, que ele está doente.
ENTRE A DOR DA SOLIDÃO E A
DEFESA DOS QUE FICAM
A partir de agora será analisado o
sofrimento entre os que ficam (os
familiares dos trabalhadores-migrantes).
Este sofrimento, na maioria das vezes, está
relacionado à saída de um integrante da
família (pai, filho, irmão, esposo, etc).
Visando apreender tal sofrimento tomamse como base duas histórias de vida, ambas
com graus diferentes de parentescos, mas
com relações comuns, o sofrimento
psíquico.
A primeira é a história da esposa de
um cortador de cana, Rosa, a qual, na
época do nosso encontro, no ano de 2009,
tinha 26 anos e residia no sítio São João
dos Pilotos, na cidade de Santa Cruz da
Baixa Verde – PE. Rosa é casada e tem um
filho de três anos. Desde o ano de 2001 o
seu esposo (Juarez, 27 anos) migrava
consecutivamente para o interior do Estado
de São Paulo, com exceção do ano de
2006, quando a mesma estava grávida e
insistiu para que o marido não migrasse,
“não a deixasse sozinha”.
Ela relata que não foi fácil
convencer o seu esposo para não migrar e
que foi necessário ameaçar realizar um
aborto caso contrário. A mesma não se
arrepende, pois sabia que precisava do
apoio do marido naquele momento, uma
26
Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
vez que a gravidez foi muito complicada:
“Eu inchei muito, quando minha barriga
estava de três meses parecia está de seis
meses, eu sofri muito, pensei que ia
morrer, pensei que meu filho era doente”.
Ao nascimento percebeu-se que Renato [o
filho] foi acometido por uma hérnia
testicular. Em seguida foi realizado uma
cirurgia e acompanhamento médico
durante três anos.
No ano de 2007, Juarez retornou
aos canaviais e Rosa queixa-se que
praticamente criou Renato sozinha. Ela
afirma: “Ele nunca trocou uma fralda, nem
deu uma mamadeira e quando voltou o seu
filho já estava comendo com as próprias
mãos”. Por outro lado, ela diz que o seu
filho sofre muito, pois todas as vezes que o
telefone toca Renato pergunta se é o pai e
“quando ele [o pai] voltará para casa”.
O sofrimento de Rosa também é
perceptível e transparece no ritmo do
corpo, deixando entrever sinais de um
estado depressivo. Em vários momentos da
entrevista ela relatou que diariamente não
tem vontade de comer, nem de dormir e
que geralmente busca ocupar o tempo
cuidando
do filho,
dos afazeres
domésticos, plantando e vendendo banana,
fazendo crochê e sabão.
De São Paulo, o seu esposo
controla as finanças oriundas das
atividades realizadas por Rosa, desvelando
assim a natureza das relações entre homens
e mulheres e as formas pelas quais se
efetiva o controle de gênero mesmo numa
situação de distância geográfica. Assim,
para Rosa quem é esposa de cortador de
cana não pode arrumar as unhas, nem os
cabelos, pois a notícia pode ser
transmitida, em pouco tempo, para a
cidade de destino (São Paulo). A fofoca
acaba, então, funcionando como um
excelente mecanismo para controlar “as”
que ficam, sobretudo quando se pode
contar com os avanços tecnológicos
(celulares). Nas palavras de Rosa:
Tem horas que eu fico chorando, porque
não passeio, não vou para uma festa. Só
uma vez fui levar Renato ao parque, mas
de oito horas tive que voltar e quando foi
oito horas em ponto ele ligou para saber
se eu estava em casa, e para confirmar ele
mandou eu colocar o CD de Roberto
Carlos para escutar a música que ele mais
gosta, a mesma coisa acontece quando eu
vou para a feira, eu já dei a proposta: ou
ele me leva o ano que vem ou nós vamos se
separar”.
Rosa também relata que tinha medo
de dormir sozinha, pois estava desconfiada
que alguns homens queriam assaltá-la, pois
sabiam que seu esposo estava ganhando
melhor. Inclusive ouvia pessoas batendo na
porta e destelhando a casa. Para tentar
solucionar o problema ela comprou um
revolver e foi avisar ao delegado que se
desconfiasse de qualquer coisa, ela mesma
tomaria as providências.
O perigo e o medo enfrentado por
Rosa, a ausência do esposo e do pai, para
Renato, a sobrecarga de atividades e o
controle de gênero na cidade de origem
provavelmente são fatores responsáveis
para o desencadeamento do sofrimento
psíquico enfrentado por Rosa e por seu
filho e também por muitas mães, mulheres,
irmãs e filhas de cortadores de cana.
A esse respeito Silva e Menezes
(2010, p. 296) anotam que a saída do
elemento masculino implica num aumento
da carga de trabalho feminino, pois, a
migração leva a redefinições dos espaços
de dentro e do fora, ou seja, da casa
(atividades domésticas e educação
familiar) e do roçado (cultivo da terra e
colheita dos frutos). Eles acrescentam que:
Além da responsabilidade pela casa e
roçado, as mulheres que ficam enfrentam
também a solidão, o isolamento. Por não
disporem da companhia de seus esposos,
não podem freqüentar determinados
espaços, a exemplo das festas, sob pena de
terem sua reputação colocada em risco.
A ausência da figura paterna
representa uma fonte de sofrimento para os
filhos, sobretudo quando estes são
menores, e a própria ausência da figura
masculina no espaço de moradia favorece
o afloramento do medo “de morar
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Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
sozinha”, “do medo de ser assaltada” etc.
O sofrimento se torna ainda mais
visível quando a mesma relata sobre o fato
de “não se arrumar” e de “não passear”.
Sendo inclusive controlada nos momentos
de saída através de uma música que é
ouvida pelo marido que se encontra do
outro lado da linha telefônica (celular).
Juarez (esposo de Rosa) apesar de está tão
longe geograficamente acaba bem perto
socialmente, pois ele consegue controlar a
situação. De acordo com Menezes e Silva
(2010) o “tempo da espera”, isto é, tempo
em que as mulheres esperam o retorno dos
seus homens, pode ser pensado como uma
instituição social, ou seja, algo instituído
pela sociedade e que deve ser vivido, pela
mulher, a partir da obediência a
determinadas regras, como abrir mão de
certos espaços sociais (festas).
O conjunto dos fatores acima
apresentados com certeza torna-se fonte de
sofrimento psíquico para mulheres e
homens que ficam. Ferreira e Mendes (no
prelo) definem “o sofrimento como uma
vivência intensa e duradoura, na maioria das vezes
inconsciente, de experiências dolorosas como
medo, angústia e insegurança”.
Sabe-se que para lidar com o
sofrimento tende-se a fazer o uso de
estratégias defensivas. No caso em estudo,
pode-se detectar a tentativa de “ocupar o
tempo”, ou seja, realizar várias atividades
(cuidar do filho, dos afazeres domésticos,
plantar e vender banana, fazer crochê e
sabão) para que o tempo passe mais rápido
ou para que não se veja o tempo passar.
Como Penélope, na literatura grega,
tecendo os fios esperava o seu marido por
vinte anos ainda que não pudesse saber ao
certo se ele estava vivo e se, estando vivo,
voltaria. Rosa também tece os fios e faz o
seu crochê. Assim, tecendo ela espera o
marido; tecendo, o tempo passa... Mas,
para tecer fios é necessário “paciência”...
Além da paciência, as mulheres
procuram algumas fontes de refúgio. Uma
delas é a igreja, local considerado
“aceitável” e freqüentável pelas mulheres
cujos esposos, noivos e namorados estão
distantes. Como Lúcia, 29 anos, esposa de
trabalhador-migrante, oriunda de Tavares
assinala: “Para passar a saudade eu sempre
vou à igreja e na casa das amigas”. Outra
fonte de refúgio é “a casa das amigas”, ou
o grupo informal de apoio, constituídos por
outras mulheres que estão vivenciando a
mesma situação de espera. As mulheres se
visitam,
conversam,
compartilham
sofrimentos e se ajudam mutuamente,
tornando toleráveis seus sofrimentos
psíquicos.
Algumas
mulheres
acabam
migrando com os esposos para as cidades
de destino, outras optam pela separação e
algumas são obrigadas a esquecer que um
dia já tiveram esposos, pois “ele não
manda mais notícias” ou “ele nunca mais
voltou”. As memórias precisam ser
apagadas e a dor da separação torna-se
inevitável. A separação, em alguns casos,
pode ser absoluta, as constantes mortes
envolvendo cortadores de cana, seja por
exaustão física, por envolvimento em
confusões no próprio local de trabalho ou
de moradia, ou outros espaços de lazer
causam dores e sofrimentos principalmente
para as mães e os que ficaram [esposas e
filhos], os quais recebem os corpos dos
pais, esposos e filhos. Nesse sentido vale a
pena citar trechos do diário de campo da
pesquisadora:
Assisti tal sofrimento ao acompanhar
desde 2009 a dor de uma mãe que recebe
no mês de setembro o seu filho, Augusto,
23 anos,, que foi assassinado na cidade de
destino (Borborema – SP). Dona
Carminha tinha 54 anos era agricultora e
residia no sítio Domingos Ferreira,
município de Tavares, era casada e mãe de
onze filhos (sendo cinco homens e seis
mulheres). Todas as mulheres são casadas
e moram na cidade de Santa Cruz do
Capibaribe – PE, onde trabalham
confeccionando roupas. Dos homens
quatro cortavam cana, sendo dois casados
e três solteiros. Um deles reside na casa
paterna. O seu esposo também é
agricultor.
Às oito horas da manhã da quintafeira, (28 de setembro de 2009), Dona
Carminha estava enterrando o corpo do seu
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Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
filho na cidade de Tavares. Enquanto seus
outros filhos, também cortadores de cana,
Luís, João Paulo e Diassis, continuaram
trabalhando e derramando as suas lágrimas
nos canaviais. Diassis não conseguiu
terminar a safra e no dia primeiro (01) de
Outubro resolveu voltar para a casa
materna. Segundo Dona Carminha, Diassis
era muito apegado a Augusto e por isso,
estava sofrendo muito. Em suas palavras:
Eu estou achando ele muito deprimido. Ele
era muito brincalhão, não parava quieto,
tirava brincadeira com todo mundo, mas
hoje ele está muito nervoso, estressado,
calado, não quer comer, não liga mais o
som, não quer ficar dentro de casa, e
quando fica não para de cheirar as roupas
de Augusto.
Para os que permaneceram em São
Paulo também foi difícil suportar o
sofrimento. João Paulo confirma: “Eu
tinha medo de ficar doído da cabeça
quando olhava pra aquelas canas, até
porque fui eu que o ensinei a cortar cana,
às vezes fico me lembrando da viagem,
quando eu olhava para a bolsa dele, a gente
só trazia a bagagem”.
A intensidade do sofrimento dessa
família aumentou no ano de 2010, quando
descobriram que Dona Carminha estava
acometida por um tumor maligno no
estômago. Os familiares relatam que ela
tinha gastrite nervosa e, segundo eles,
depois que Augusto faleceu ela piorou
muito: “Quanto mais ela ficava nervosa,
mais dor sentia, chegou a vomitar uma
borra avermelhada”. Realizou uma
cirurgia, mas infelizmente, no dia 05 de
dezembro de 2010 morre também a mãe do
ex-cortador de cana.
A dor de perder um filho para Dona
Carminha e de perder um irmão para João
Paulo, Diassis e Luís é um fator
impulsionador do sofrimento psíquico. As
tensões psíquicas acumuladas entre os
integrantes da família são bem maiores do
que em outros casos. Pode-se observar nas
falas: “estou achando ele depressivo”, “eu
tenho medo de ficar doído da cabeça”.
Para liberar tantas tensões psíquicas
a via de canalização precisa ser bem maior.
Ainda que a título de hipótese, sugere-se
que a rápida progressão do tumor de Dona
Carminha tenha relação com a tentativa de
liberar a tensão psíquica por uma via
somática. A gastrite nervosa que já existia
colaborou para uma evolução mais
acentuada da patologia. Em outras
palavras, sugere-se que a evolução da
doença teria sido mais lenta se a mesma
não estivesse lidando com o sofrimento
psíquico.
Vale salientar que não são apenas
os adultos que convivem com a dor da
perda. As crianças também sofrem com a
dor da morte dos pais, assim, durante
pesquisa de campo, conhecemos duas
crianças (05 e 07 anos) filhas de Fabiano,
36 anos, ex-cortador de cana do município
de Santa Cruz da Baixa Verde – PE, o qual
sofreu um acidente de trânsito e morreu no
primeiro ano em que migrou para os
canaviais paulistas. A sua esposa
(Fernanda, 33 anos) relata que, após a
morte do esposo, todos os dias as suas
filhas fazem a mesma pergunta: “Mãe, já
está perto de pai chegar”?
Os filhos esperam os pais; as
mulheres, seus esposos; as mães, seus
filhos... Às vezes, eles não chegam e a
expectativa é frustrada, ao invés do ente
amado, vêm a dor e o sofrimento que são
compartilhados. Para a mãe de um cortador
de cana a morte é vivenciada na própria
migração. Dona Severina, 73 anos, natural
de Tavares – PB, mãe de três cortadores de
cana assinala: “Quando eles vão, fica tudo
morto, como se todo mundo tivesse
morrido. Só se alegram quando eles
começam a chegar”.
A tristeza e a alegria, o medo e a
confiança, as lágrimas e os sorrisos são
emoções vivenciadas intensamente durante
os intervalos das safras entre os que ficam.
Seja mãe, pai, filho, esposa e amigos, todos
experienciam a dor da morte na saída e a
alegria do nascimento na chegada.
CONCLUSÃO
29
Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011.
Diante da análise realizada neste
artigo, constata-se que os trabalhadoresmigrantes e seus familiares são vítimas do
sofrimento
psíquico
e
para
não
desestabilizarem fazem uso de várias
estratégias defensivas.
Antes de chegarem ao local de
trabalho os que migram enfrentam o
desconforto da viagem e a frustração de
promessas
não
cumpridas
pelos
funcionários da usina. No eito da cana são
submetidos a condições de trabalho
perpassadas por fatores de riscos, relações
de subordinações, divisões rígidas de
trabalho, mecanismos de controle, a
exemplo das metas de produtividade, e
punições que “marcam” e “mutilam” os
corpos e as mentes dos trabalhadores,
ocasionando o sofrimento psíquico. Para
camuflar e suportar tal sofrimento os
trabalhadores-migrantes fazem uso de
estratégias
defensivas,
como
a
agressividade, a paciência, o alcoolismo e
a naturalização dos adoecimentos.
Os que ficam também sofrem com
a saída de um integrante da família (pai,
irmão, filho, esposo etc.). Essa ausência
ocasiona sofrimento que está relacionado à
sobrecarga de atividades, ausência da
figura paterna e controle de gênero. Sendo
que o sofrimento é ainda mais acentuado
nos casos de mortes envolvendo cortadores
de cana.
Deste modo, contata-se que o
desenvolvimento das usinas canavieiras do
sudeste do país é regado não apenas a suor,
mas, sobretudo, pelo sofrimento dos que
partem e dos que ficam. Assim, o alto
preço do desenvolvimento apregoado pelos
defensores do agronegócio tem sido pago
com a saúde física e mental, quando não
com a própria morte dos trabalhadores
brasileiros. Nesse sentido, a luta por outras
condições e relações de trabalho no espaço
dos canaviais, bem como a luta por outras
opções de trabalho e renda em seus lugares
de origem, é também a luta por menos
sofrimento e por mais saúde dos
trabalhadores-migrantes
e
de
seus
familiares. Fazer saúde, nesse sentido, é
mais do que prestar assistência, mas
implica, antes de tudo, na busca dos elos,
muitas vezes não tão visíveis, entre saúde,
adoecimento e trabalho. Tal como
Penélope,
somos
também
nós,
profissionais de saúde, confrontados com o
grande desafio de desatarmos os nós,
historicamente atados, entre condições de
vida, trabalho e adoecimento, e ao mesmo
tempo tecermos também outros bordados,
onde a vida, e não a morte esteja mais
presente.
REFERÊNCIAS
ALESSI, N. P.; SCOPINHO, R. A. A saúde
do trabalhador do corte da cana de açúcar.
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