15 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. Migração, sofrimento psíquico e estratégias defensivas “dos que migram” e “dos que ficam” Migration, psychological distress and defensive strategies “of those who migrate” and “of those who are” Polyana Felipe Ferreira da Costa¹; Marcelo Saturnino da Silva¹* 1 Faculdade de Integração do Sertão, Serra Talhada – PE – Grupo de Pesquisa em Migração, Saúde e Direito/FIS. Resumo: Anualmente milhares de trabalhadores nordestinos migram para os canaviais do Estado de São Paulo onde se submetem ao árduo trabalho do corte de cana-de-açúcar. Partindo de uma perspectiva Dejouriana, buscou-se, averiguar, a partir dos relatos dos trabalhadores e seus familiares, os impactos da migração e da atividade de cortar cana-deaçúcar sobre a subjetividade desses sujeitos. Metodologicamente, realizou-se uma pesquisa qualitativa, de cunho etnográfico através da observação participante e entrevistas semiestruturadas com trabalhadores-migrantes do município de Princesa Isabel (PB) e do Alto Sertão do Pajeú (PE) e em algumas cidades de destino desses trabalhadores, especificamente Novo Horizonte e Sales (SP). Os dados apontam que o sofrimento psíquico é algo presente tanto para os trabalhadores que migram, como para os familiares, corroborando, assim a hipótese de que o alto preço do desenvolvimento apregoado pelos defensores do agronegócio tem sido pago com a saúde física e mental, quando não com a própria morte dos trabalhadores brasileiros. Palavras-chave: Cana-de-açúcar, trabalhadores-migrantes, sofrimento psíquico. Abstract: Yearly thousands of workers northeastern migrate to the sugar plantations in São Paulo where they undergo the hard work of cutting sugar cane. From the perspective dejouriana, sought, ascertain, from the accounts of workers and their families, the impacts of migration and activity of cutting sugar cane on the subjectivity of these individuals. Methodologically, there was a qualitative research, ethnographic participant observation and semi-structured interviews with migrant workers, the city of Princesa Isabel (PB) of the high Sertão of Pajeú (PE) and in some cities of destination those workers, and specifically Novo Horizonte e Sales (SP). The data indicate that psychological distress is this something for the workers who migrate, as for the family, supporting thus the hypothesis that the high price of development touted by proponents of Agribusiness paid to physical and mental health, if not with death of Brazilian workers. Keywords: Cane sugar, migrant workers, mental suffering. Autor para correspondência: Marcelo Saturnino da Silva. Rua João Luiz de Melo, 2110. n° 2110. Bairro: Tancredo Neves CEP: 56909-205. Serra Talhada – PE, Brasil. e-mail: [email protected] 16 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. INTRODUÇÃO O artigo focaliza a migração dos nordestinos para os canaviais do Estado de São Paulo, a qual ocorre em determinada época do ano (Fevereiro – Dezembro), delimitada pelo tempo da colheita de canade-açúcar, sendo que, ao final da safra, estes sujeitos tendem a retornar aos seus municípios de origem, configurando assim, uma migração sazonal, já que caracterizada pelas estações do ano. Para quem apenas ouviu falar em canaviais fica difícil aceitar que em pleno século XXI, quando a agroindústria canavieira vive um processo de expansão e mecanização, seja necessário discutir a relação existente entre a atividade de cortar cana-de-açúcar e os adoecimentos físicos e mentais aos quais os trabalhadores do setor estariam susceptíveis. No entanto, concorda-se com Novaes (2007, p.90) quando o mesmo afirma que: “O processo de modernização nas usinas de cana-de-açúcar, não gerou benefícios para os trabalhadores, uma vez que a usina passa a exigir uma alta produtividade em seu trabalho. Há dez, ou quinze anos, a média de cana cortada era de seis toneladas por trabalhador por dia. Hoje se contratam trabalhadores que cortam, no mínimo, doze toneladas de cana por dia. Intensificou-se o ritmo e a jornada de trabalho”. A atividade de cortar cana-deaçúcar exige muita força física e habilidades manuais com o instrumento de trabalho, o facão ou podão. O trabalhador precisa, dentre outras coisas, obedecer ao ritmo de trabalho prescrito, acompanhar a intensidade da produção, vencer os perigos e insalubridades próprios do trabalho etc. Alessi e Scopinho (1994) afirmam que “o trabalho manual na colheita de cana-de-açúcar representa riscos à saúde dos trabalhadores, devido às altas temperaturas, chuvas, presença de poeiras, provenientes da fuligem da cana, de animais peçonhentos” etc. Há também risco acentuado de acidentes de trabalho em decorrência do manuseio do facão . São inúmeros os casos de adoecimentos físicos que acometem os trabalhadores-migrantes nas usinas canavieiras paulistas e o mais assustador é número de trabalhadores mortos por exaustão física. Segundo denúncias da Pastoral do Migrante, sediada em Guariba/ SP, o excessivo esforço imposto durante a jornada de trabalho supostamente teria causado a morte de 22 trabalhadores nos canaviais paulistas no período de 2004 a 2008 (SILVA, 2010). Outro desgaste bastante prevalente, mas ainda pouco visível na literatura, é o mental. Este, quando aparece, está relacionado ao ritmo acelerado do corte da cana que, por sua vez, se relaciona a forma de pagamento do salário, por produtividade. No entanto, sabe-se que além das condições de trabalho, as condições de moradia e a própria viagem podem afetar a saúde mental e desencadear o sofrimento psíquico. Por outro lado, os familiares (os que ficam) dos trabalhadores-migrantes também tendem a serem acometidos pelo sofrimento psíquico relacionado, geralmente, à saída de um integrante da família (pai, irmão, filho, esposo) acarretando saudades, angústias e medos a que esta ausência induz. Buscou-se, portanto, averiguar, a partir dos relatos dos migrantes e seus familiares, os impactos da migração e da atividade de cortar cana-de-açúcar sobre a subjetividade desses sujeitos na tentativa de compreender o sofrimento psíquico e os mecanismos de defesas utilizados por esses indivíduos para permanecerem nas organizações de trabalho e não desestabilizarem sua saúde mental. Pretende-se também entender o sofrimento psíquico compartilhado por seus familiares (os que ficam) e quais as estratégias utilizadas para suportar tal sofrimento sem, necessariamente, chegarem à loucura. METODOLOGIA O estudo traz dados relativos aos 17 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. municípios de origem dos trabalhadoresmigrantes da região de Princesa Isabel / PB e do Alto sertão do Pajeú /PE, assim como dos municípios de destino (Sales e Novo Horizonte / SP), sendo que foram feitas observações mais aprofundadas em apenas um dos municípios de origem (Tavares – PB) e de destino (Novo Horizonte – SP). Realizou-se uma pesquisa qualitativa, de cunho etnográfico, a qual permite “compreender o modo de vida das pessoas ou grupos, na sua própria perspectiva, envolvendo estudo disciplinado, mediante a observação, a descrição, documentação e análise do estilo de vida ou padrões específicos de uma cultura” (SPRADLEY, 1980; LEININGER, 1985; MINAYO, 1993). Enquanto instrumental metodológico fez-se uso da observação participante e da entrevista semiestruturada, considerados os dois pilares da etnografia, visto que a primeira, abarca o comportamento, os gestos, os silêncios e, o segundo, permite o acesso a fala e, portanto, as representações dos sujeitos pesquisados. O critério utilizado para delimitação da amostra foi o da saturação, isto é, quando o conteúdo expresso pelos pesquisados começaram a se repetir, finalizou-se a coleta dos dados. A análise dos dados foi realizada a partir da análise temática por meio da qual foi possível descobrir os núcleos de sentido da comunicação (MINAYO, 1994). Vale ressaltar que todos os procedimentos realizados durante a pesquisa foram fundamentados no que dispõe a Resolução n. 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (livre consentimento dos entrevistados, participação livre e voluntária etc.) e aprovados no Comitê de Ética de Patos – PB (nº 042/2011). Todos os informantes tiveram sua identidade preservada e, para tanto, utilizamos nomes fictícios, garantindo-se, dessa forma, o anonimato dos participantes bem como o sigilo das informações. RESULTADOS E DISCUSSÕES O SOFRIMENTO DA PARTIDA O sofrimento enfrentado pelos trabalhadores-migrantes e seus familiares foi analisado em três etapas distintas: o momento da partida (locais de origem), do trabalho (locais de destino) e do retorno (locais de origem). Passar-se-á, a partir de agora, a análise da primeira etapa, a partir da observação participante, realizada no momento da partida de trabalhadoresmigrantes da região de Princesa Isabel-PB em direção a região de Novo Horizonte SP para exercer a atividade de colheita de cana-de-açúcar. O seguinte trecho do diário de campo é revelador do item em análise. O cenário da pequena cidade do interior da Paraíba [Princesa Isabel] era de muita agitação, parecia um terminal rodoviário. Muitas pessoas chegavam e deixavam malas, bolsas, caixas, sacos, garrafões etc. Parecia que um grande espetáculo estava para acontecer. Sabíamos que naquela quarta-feira (dita popularmente como quarta- feira de cinzas) uma usina localizada na região de Novo Horizonte – SP organizava a partida de vinte e quatro (24) ônibus lotados, todos eles, de trabalhadores-migrantes que seriam transportados para os municípios de destino, no interior paulista. A busca por esse tipo de trabalhador tem início, geralmente, no mês de janeiro de cada ano, quando um funcionário do setor de recursos humanos da usinas chega à região de origem visando recrutar trabalhadores para a safra da cana. Este funcionário conta com a colaboração de indivíduos que já trabalharam em safra anteriores, são os informantes, isto é, os que vão informar e colaborar no recrutamento e, consequentemente, na formação de novas turmas para a nova safra. A maior parte dos trabalhadores recrutados são jovens, na faixa etária de 17 a 30 anos (81%), com baixa escolaridade, já que a maioria (52%) apresenta apenas o ensino fundamental incompleto, e residentes na zona rural (sítios) (69%) dos 18 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. seus respectivos municípios de origem. Entre os trabalhadores recrutados, os que têm acima de 30 anos formam uma minoria (19%), o que pode ser explicado pela característica do trabalho na colheita da cana, cuja penosidade não favorece a inserção de trabalhadores mais velhos, além de que, as próprias empresas acabam fazendo opção pelos mais jovens, visto como mais capazes de responder as atuais exigências de produtividade. Relatos dos próprios trabalhadores permitem perceber que grande parte dos que acumulam um longo histórico como cortador de cana, acumulam igualmente várias enfermidades, a exemplo de Valdeci, 49 anos, ex-cortador de cana, oriundo do município de Tavares que após quinze (15) safras no corte da cana-de-açúcar foi acometido por três patologias: Doença de Chagas, Hérnia testicular e, por último, Depressão. Na maioria dos relatos dos trabalhadores-migrantes é comum o desinteresse pelos estudos, isso provavelmente está relacionado à escassez de empregos nas cidades de origem. Sem contar que o baixo índice de escolaridade diminui cada vez mais a chance de inserção desses jovens em outros setores do mercado de trabalho (SILVA, 2007). Os relatos dos trabalhadores também esclarece que a migração está relacionada a busca “por suprir as necessidades”, a “ falta de outras opções”, em seus lugares de origem, o que favorece a mobilidade visando, sobretudo, “ganhar dinheiro”, “comprar uma moto”, “uma casa”, “ ser bem visto pelos familiares”, “se divertir” etc. Todos migram por algum motivo, por alguma razão. Partem movidos pela esperança de um amanhã melhor; partem levando e deixando saudades; partem sofrendo... Mas, os que ficam (familiares e amigos) também sofrem... Como se pode entrever dos seguintes trechos do diário de campo da pesquisadora, no momento da partida dos trabalhadores. À medida que os ônibus chegavam as bagagens eram levadas. Mas, não eram apenas bagagens. Levavam saudades, medos e expectativas. As lágrimas corriam nas suas faces, os sorrisos, os beijos e as paixões apimentavam as esquinas da cidade. Percebíamos que esse sofrimento era compartilhado. Os que ficavam também sentiam, sofriam, gemiam e choravam. Assistíamos as despedidas, os abraços, as lágrimas, as trocas de olhares tristonhos e esperançosos. Em um determinado momento observamos que duas mulheres e uma criança que passavam pela rua choravam de forma desesperadora. Eu muito comovida perguntei aos que estavam do meu lado: “ Será que elas são família do homem que sofreu os tiros?” (Tínhamos acabado de sermos imformados que um homem tinha sofrido PAF- Perfuração por arma de fogo). Rapidamente um homem me respondeu: “É nada é só porque os homens estão indo embora”. O homem que me respondeu era o motorista do ônibus. Para o motorista do ônibus e para muitos outros expectadores a migração é um processo lucrativo... Para o trabalhador e para a sua familia, a migração não é algo tão desejado, pois a mesma causa sofrimento, dor e medo entre os que partem e também entre os que ficam. ENTRE A MARCAÇÃO DA USINA E A DEFESA DO MIGRANTE No segundo momento da pesquisa realizou-se uma viagem de campo exploratória até as cidades de destino dos trabalhadores que anualmente migram para os canaviais do Estado de São Paulo (Novo Horizonte e Sales- SP). Nessa etapa os focos principais foram os trabalhadoresmigrantes (os que migram) e a própria organização do trabalho nas quais os mesmos estão inseridos, assim como, a relação existente entre a organização do processo de trabalho e os impactos no funcionamento psíquico desses sujeitos. A seguir, trechos do diário de campo da pesquisadora. 19 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. O sofrimento dos que migravam era visível. Ao acompanharmos uma família de migrantes (durante três dias e três noites) que iriam trabalhar nos cafezais do Estado de Minas Gerais, mas que já tinham experiência no corte da cana-de-açúcar era possível perceber o cansaço da longa viagem na face e no olhar de todos. Nós pesquisadores também experimentávamos tal sofrimento. Além de que estávamos preocupados em relação a ilegalidade do reboque que transportava as bagagens, pois o mesmo estava sem documentação e corria-se o risco da policia rodoviária apreender o reboque e as malas ficarem retidas. Com isso todos ficavam apreensivos, agitados e preocupados com os postos de fiscalizações mais rigorosos durante o percurso. Mas, o motorista já conhecia todos os horários e locais mais adequados e assim desviava o percurso. Sabe-se que a própria viagem pode causar o sofrimento dos que migram. São vários os casos de ilegalidade durante o recrutamento dos trabalhadores-migrantes para o interior do Estado de São Paulo, desde as péssimas condições dos ônibus até a sobrecarga de bagagens e de pessoas. Muitas vezes, por conta das irregularidades, os ônibus que transportam esses trabalhadores são retidos pela polícia rodoviária federal, são casos como os relatados por dona Arlinda, presidente do Sindicato dos trabalhadores rurais de Santa Cruz da Baixa Verde: “uma turma de migrantes ficou retida em Petrolina, devido às péssimas condições do ônibus e da não legalidade da viagem”. Instigados a avaliarem as condições das viagens, os trabalhadores assinalam para o desconforto: é desconfortável, dizem, expressão esta que se torna compreensível quando se vive a dolorosa experiência de três dias, com poucos intervalos e num veículo sem condições mínimas de segurança e conforto. Nessas condições não é raro a desestabilização psíquica de trabalhadores já durante o percurso até os locais de destino. São casos como o relatado no diário de campo da pesquisadora. No caminho fomos conversando com Júnior (motorista da van) que falou sobre o caso de um cortador de cana que surtou antes de chegar ao canavial do Estado de São Paulo. Júnior afirma que o cortador de cana foi em direção ao motorista tomou a direção do veiculo e acabou virando o ônibus com vários trabalhadoresmigrantes. Vários estudos têm chamado a atenção para “os impactos da migração sobre a saúde (física e mental) dos que migram” (CARVALHO, 2008). Philo e Parr (2004) explicam que “a experiência migratória como um todo pode ser altamente ameaçadora para o bem-estar mental ou emocional do sujeito, principalmente, quando as pressões se combinam com fatores de risco, o que pode afetar inclusive a saúde mental”. Acredita-se que “um dos fatores de risco que pode contribuir para o desencadeamento do sofrimento psíquico é um trabalho desestruturante, ou seja, um trabalho que, ao invés de representar o enriquecimento e a satisfação, corrói o desejo dos trabalhadores”. (DEJOURS, 1992). Além disso, há que se atentar também, para a frustração das expectativas dos trabalhadores como fonte de sofrimento psíquico, tal como abordado por Silva (2007). Para a autora, é inclusive visando atenderem suas próprias expectativas, bem como a de seu grupo social, que o migrante tende a se submeter às formas de trabalho mais degradante, uma vez que a não submissão representaria a quebra de valores socialmente compartilhados tais como a virilidade e a macheza colocando em risco o provimento do grupo familiar e, consequentemente, o papel do ‘provedor’. Mas, é necessário frisar que tal frustração pode ter inicio bem antes do trabalho, pois, no caso em estudo, é comum a usina alugar casas para os trabalhadores (descontando posteriormente no salário do trabalhador) ou em alguns casos prometerem e frustrarem a expectativa do trabalhador, como relata um 20 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. trabalhador-migrante, no trecho abaixo transcrito. Eles prometeram casa e cesta básica. E disseram que quando chegássemos estava tudo certo, mas quando chegamos lá não tinha nem casa, nem comida. Levaram-nos para um povoado chamado Pinto Aceso (7 km da cidade). Chegamos lá umas onze horas da noite e levaram a gente para um vão (era um clube desativado), lá não tinha água, nem luz. Deitamos em cima de uns lençóis e muitos de nós amanhecemos doentes (Marcos, 23 anos, trabalhadormigrante, natural de Tavares-PB). Com o relato acima deixa claro, no momento do recrutamento dos trabalhadores são realizadas promessas pelos funcionários das empresas canavieiras, as quais nem sempre são cumpridas. A essa frustração inicial podem ser acrescentadas pressões e fatores de risco próprios da organização do trabalho (canaviais paulistas), as quais se combinam com as condições e relações de trabalho no eito da cana e ainda, com a ausência dos familiares, constituindo um quadro de pressões que, em muitos casos, ocasionam o sofrimento psíquico, chegando mesmo a desestabilização psíquica dos sujeitos, pois, como alerta Milanesi et al (s/d): O trabalhador, inserido numa determinada organização do trabalho, desenvolve uma carga psíquica resultante das excitações exógenas e endógenas às quais é submetido constantemente, estas cargas psíquicas são acumuladas, culminando na chamada tensão psíquica. As condições de trabalho no corte da cana-de-açúcar apresentam muitas vezes perigos para a saúde física e mental dos trabalhadores. Para comprovar tal realidade foi realizada uma visita ao local de trabalho dos cortadores de cana-deaçúcar, numa das usinas localizadas na região de Catanduva – SP. A seguir trecho do diário de campo da pesquisadora. Foi o momento de aproximarmos da realidade, da dureza do trabalho e das verdes folhas dos canaviais. Lá encontramos sujeitos azulados cobertos com chapeis, óculos, luvas, caneleiras e botinas. O pouco que víamos eram os olhos, a identidade do ser humano e o suor que escorria sobre uma face grudada de carvão. Eles debruçavam-se sobre um eito de cana- de -açúcar e como muita agilidade agarravam o facão e derrubavam montes de canas sobre o solo de um enorme canavial. Na pausa para o almoço, que dura aproximadamente uma hora, avistei uma refeição (arroz, feijão e carne) derramada no solo do canavial, imaginei que a comida preparada às quatro horas da manhã não tinha resistido ao calor dos raios solares e estava estragada. Ainda, sobre as condições de trabalho, os trabalhadores-migrantes tendem a assinalar que “o serviço é pesado e força muito”. (Geraldo, 36 anos, trabalhador-migrante) Sabe-se que o trabalho de cortar cana-de-açúcar exige do trabalhador muita força física e destreza do corpo e da mente, pois o trabalhador realiza movimentos repetidos de flexões e extensões com o corpo. “O facão precisa estar seguro na mão e os músculos do braço são trabalhados com muita força e agilidade” (ALVES, 2007; NOVAES, 2007; MENEZES; SILVA 2007) Para Dejours (1993) “um trabalho repetitivo sob pressão de tempo ou no trabalho por peças, não há, absolutamente, lugar para descarga das tensões nervosas, têm-se, então, nestes casos, um acúmulo de energia psíquica que se torna fonte de desprazer”. Assim, é que ao analisar um relato de outro trabalhador-migrante foi possível verificar alguns riscos associados ao trabalho do corte da cana-de-açúcar, como tão bem afirma Marcos, 23 anos, trabalhador-migrante oriundo de Tavares: Faça chuva ou faça sol, frio, disposto ou indisposto tem que ir e se não for é ruim pra gente. O trabalho é pesado, se esforça muito e chega em casa cansado tem que lavar roupas e fazer comida. A gente ganha bem, mas não vamos por prazer, vamos por necessidade. Além de que vamos trabalhar para os outros e é estresse para o corpo e para a mente, leva reclamação. 21 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. Na fala de Marcos é possível enumerar alguns dos riscos a que os cortadores de cana estão susceptíveis no trabalho nos canaviais, como por exemplo, os fatores climáticos (riscos físicos): “Faça chuva ou faça sol, frio”. O trabalhador tem que cortar cana-de-açúcar independente da disposição ou indisposição. Além disso, Marcos afirma que o trabalho é pesado e precisa de muito esforço. Ele também relata que “tem que lavar roupas e fazer comida”, o que aponta para uma dupla jornada de trabalho. O risco psicológico é demonstrado na seguinte frase: “Além de que vamos trabalhar para os outros e é estresse para o corpo e para a mente, leva reclamação”. Percebe-se que o “estresse” está relacionado à subordinação do trabalhador, obrigado a trabalhar para os outros e, portanto, para a falta de autonomia no trabalho. E realmente o trabalhador sofre para se adaptar a essa relação de subordinação, pois vai contra as tradicionais relações nos seus locais de origem, em seus roçados onde o trabalhador tem domínio sobre o seu trabalho e seu ganho. A esse respeito vale a pena mesmo que de passagem, “fazer menção ao ethos camponês tal como trabalhado por vários estudiosos do campesinato brasileiro” (WANDERLEY, 2009; SABOURIN, 2009). Outro fator que está na origem dos sofrimentos psíquicos é a rígida divisão do trabalho existente entre os cortadores de cana e os demais membros que constitui a organização do trabalho. São divisões marcadas pela hierarquia com forte caráter de dominação e de subordinações que são construídas no cotidiano do trabalho. Dejours (1992) entende que a organização do trabalho não é apenas “a divisão das tarefas entre operadores, ritmos impostos e os modos operatórios prescritos, mas também e, sobretudo, a divisão dos homens para garantir esta divisão de tarefas, representada pelas hierarquias, as repartições de responsabilidades e os sistemas de controle”. Nesse sentido, Silva (2010, p.111) explica como funciona a hierarquização, as repartições de responsabilidades nos canaviais do Estado de São Paulo. Cada turma possui um empreiteiro, que também assume a função de motorista e dois fiscais, denominados respectivamente de fiscal um (01) e fiscal dois (02). O fiscal um (01) atua como auxiliar do fiscal dois (02). Compete ao fiscal dois (02) fiscalizar o serviço, fazer o apontamento (a chamada dos trabalhadores). Por volta do meio dia o empreiteiro que é o mesmo motorista, mede a cana cortada por cada trabalhador e registra a produção diária de cada trabalhador. Cada turma possui um terceiro fiscal, denominado fiscal de frente. Acima do fiscal de frente fica o encarregado agrícola. Acima do fiscal do encarregado agrícola, por sua vez, está o Supervisor Agrícola e, acima deste, o departamento de Recursos Humanos da empresa Retornando o dialogo com Dejours (1994) pode-se salientar que “quanto mais rígida for a organização do trabalho, maior será a divisão de tarefas, menor o significado deste trabalho e maior sofrimento”. Esse sentimento tem origem no hiato entre a organização do trabalho e o desejo dos trabalhadores. Nos canaviais do Estado de São Paulo os trabalhadores-migrantes acabam sendo subordinado a vários sujeitos na cadeia hierárquica. São considerados “os dominados”, “os humilhados”, “os marcados”, tratados muitas vezes como animais, forçados a calarem os berros e apenas seguirem as ordens ditadas pelos seus superiores. A expressão, “a gente solta o pega dos peões no eito”, utilizada por um fiscal de uma das usinas do interior de São Paulo remete ao universo dos vaqueiros no qual o termo “soltar o pega” faz referência a atividade de soltar o gado na caatinga. Tal como os animais bovinos, os trabalhadores não são apenas soltos, mas igualmente, marcados e ferrados, como relatado por João, 55 anos, trabalhadormigrante, natural de Tavares: “Você não pode falar nada, pois se você disser alguma coisa você é quem fica marcado”. 22 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. Para “marcar” os trabalhadores a usina dispõe de mecanismos de controle que inicialmente podem ser representados pela própria forma de pagamento, ou seja, o pagamento dos trabalhadores é equivalente a quantidade de cana-deaçúcar cortada por dia. O trabalhador pouco produtivo, ou seja, aquele que corta uma pequena quantidade de cana pode ficar marcado e inclusive ser incluído na “lista negra” que é anualmente confeccionada pela usina. Como já apresentado na introdução do artigo, as usinas não contratam trabalhadores que cortem menos de doze toneladas de cana por dia. Por outro lado, a própria organização do trabalho estimula o aumento da produtividade através de políticas no setor de recursos humanos, que oferecem premiações aos trabalhadores mais produtivos. Segundo Novaes (2007) em determinadas usinas, os prêmios oferecidos no final das safras aos “campeões de produtividade” chegam a refrigeradores, modernos aparelhos de televisão e até carros novos. Pensando nas premiações e no ganho recebido ao final da quinzena (quinze dias de trabalho) a maioria dos trabalhadores-migrantes são impulsionados a cortar sempre mais e a ganhar sempre mais. Em troca da obtenção de uma alta produtividade os trabalhadores tendem a ultrapassar os seus limites corporais e mentais. Não são raros os casos de trabalhadores que desmaiam, sentem câimbras, desidratam, cansam, gripam, sentem dores na coluna, dores nas articulações, que se cortam, que sofrem psiquicamente. Além desses, o corpo do trabalhador apresenta outros sinais e sintomas que acabam marcando, maltratando e algumas vezes causando as mortes nos canaviais. Outras formas de controle utilizadas pelas usinas do setor canavieiro são as punições. De acordo com Silva (2010) “essas punições variam desde broncas dos fiscais, advertências, ganchos até demissões por justa causa”. Os trabalhadores que forem “marcados” terão seus nomes incluídos numa lista negra elaborada pela usina e conseqüentemente ficam impossibilitados de serem contratados para a próxima safra. Durante a pesquisa teve-se a possibilidade de observar a separação das carteiras de trabalho de acordo com a “lista negra”. O nome dos trabalhadores eram listados de acordo com categorias de perversidades, como por exemplo: Agitador, Bagunceiro, Faltou muito, Pouco produtivo e outros. Relatos dos próprios trabalhadores sinalizam tais sistemas de controle a que os mesmos estão subordinados. Heitor, 25 anos, trabalhador-migrante natural de Tavares assinala: “Quando o peão não agüenta mais, leva gancho ou tem que trabalhar forçado”, o que também é enfatizado por João, 55 anos, trabalhadormigrante oriundo do município Tavares: Olha só como eles humilham o cabra, a gente tem cortar a cana dentro do eito. Depois que corta tem que fazer o monte bem direitinho, depois a máquina (o guincho) vem e empurra tudo, desmancha tudo que a gente fez. E se a gente não fizer certo leva um gancho. A relação de atividades citadas por João faz parte do trabalho exercido pelos trabalhadores nos canaviais, até porque, tal atividade não se restringe apenas ao corte da planta, mas envolve, igualmente, a limpeza da cana cortada e sua organização em “montes” ou “eiras”, como especificado por Alves (2007), para quem o trabalho no corte da cana envolve um conjunto de outras atividades: (a) a limpeza da cana, com a eliminação de seu pendão; (b) o transporte da cana até a linha central do eito (3ª linha), e (c) a arrumação da cana, depositada na terceira linha, para o carregamento mecânico. Traduzindo para uma linguagem informal utilizada pelos trabalhadores o primeiro movimento é conhecido como “fazer ponteiro”, já o segundo e o terceiro movimento são conhecidos como “fazer os montes”. Os trabalhadores, quando instigados a falarem sobre o trabalho, 23 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. tendem a realçar a humilhação a que estão sujeitos, assim é que João (55 anos) enfatiza que é muita humilhação o trabalho no corte da cana- de açúcar, comentando, em seguida, o que aconteceu com seu filho mais velho, Jackson (28 anos). Um dia um fiscal disse uma piada para Jackson e ele não gostou e acabou dizendo: “Meu amigo porque você é fiscal e eu só cortador de cana eu sou homem igual a você”, depois o fiscal colocou Jackson para pegar uma mula durante três dias. Davi (irmão do meio) trabalhava na mesma turma e chorou de ódio na roça quando viu o irmão sofrendo. Nessa hora ele segurou o facão e disse que ia cortar o pescoço do fiscal. A sorte foram os amigos que disseram para ele deixar pra lá. . O fato de Jackson ser obrigado a cortar cana durante três dias consecutivos numa mula remete a um tipo de punição concedida pelo fiscal, pois a mula representa um terreno inclinado e muito dificultoso de se trabalhar. No entanto, sabe-se que a máquina (colhedeira) não consegue trabalhar nesses locais mais inclinados e esse serviço é especifico do trabalhador manual. Mas, quando o trabalhador “pega uma mula” ele acaba se esforçando muito mais do que nos dias normais, consequentemente, cortando uma menor quantidade de cana-de-açúcar. Davi, outro filho de João, vendo o sofrimento do seu irmão Jackson, “chorou de ódio na roça”. Podemos entender este choro como uma primeira tentativa utilizada por Davi para liberar as tensões psíquicas. Além do choro, outra estratégia utilizada foi a agressividade, visando canalizar a tensão psíquica. “Ele segurou o facão e disse que ia cortar o pescoço do fiscal”. A utilização da agressividade enquanto estratégia defensiva “é algo comum entre os pilotos de caça” (DEJOURS, 1992). No entanto, no contexto aqui examinado, tal estratégia funciona dando vazão a sentimentos que, na impossibilidade de serem expressos, poderiam acarretar danos psicológicos. Numa perspectiva Dejouriana, o sofrimento “é um espaço clínico intermediário que marca a evolução de uma luta entre funcionamento psíquico e mecanismo de defesa por um lado e pressões organizacionais desestabilizantes por outro, com o objetivo de conservar um equilíbrio possível, mesmo se ele ocorra ao preço do sofrimento” (DEJOURS, 1993). Em outras palavras, quando um trabalhador encontra-se submetido a pressões organizacionais, ele utiliza o seu funcionamento psíquico e elabora mecanismos de defesas para combater o sofrimento e, dessa forma, camuflá-lo, demonstrando um estado de normalidade. Considerando o livro “Migrantes: Trabalho e trabalhadores no Complexo Agroindustrial Canavieiro”, organizado pelos professores Roberto Novaes e Francisco Novaes os cortadores de canade-açúcar são os heróis do agronegócio brasileiro. O que remete a idéia de heroísmo enquanto tema comum entre esses trabalhadores, principalmente nas pequenas cidades do interior do Nordeste, onde homens fortes, viris, corajosos deslocam-se para trabalhar num árduo trabalho, sendo expostos a inúmeros fatores de risco. Outra estratégia defensiva utilizada pelos trabalhadores-migrantes, aqui considerados, é a rede de amizades. Retornando o relato de João (55 anos) pode-se perceber o apoio oferecido pelos amigos. “A sorte foram os amigos que disseram para ele deixar pra lá”. Os amigos são importantes como elementos apoiadores nos momentos dramáticos, funcionando também como um elo que se preserva com os locais de origem, afinal, migra-se em grupo e não sozinho, assim, esse refúgio encontrado na figura dos amigos também pode ser considerada uma estratégia defensiva para o sujeito não desestabilizar psiquicamente. Conforme pode ser atestado pelo relato de Marcos (23 anos, trabalhador-migrante, natural de Tavares), o qual assinala: “a sorte são os amigos que mandam o cabra ter paciência e ficam dizendo que já está perto (final da 24 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. safra)”. Assim, por disporem dessa rede de amizade, torna-se mais fácil lidar com a saudade e as adversidades do tempo da safra, como afirma Ednaldo (27 anos, trabalhador-migrante, natural de Tavares): “A saudade bate, mas a gente ocupa com alguma coisa. Vai assistir, ouvir uma música, faz um churrasco com os amigos”. O dia do churrasco é considerado por muitos trabalhadores como “o dia da saudade”. O churrasco geralmente é realizado no dia de sábado, onde todos os trabalhadores se reúnem nos barracos (locais de moradia) para conversarem, cantarem, brincarem, dançarem e consumirem bebidas alcoólicas, o que certamente contribui para tornar suportável o tempo da safra, levando a vivenciarem a passagem do tempo de forma mais rápida. Em estudo realizado com trabalhadores da construção civil, Barros (2003) verificou que “para amenizar o sofrimento psíquico, esses trabalhadores fazem uso de brincadeiras, canções e conversas. Quando estão sozinhos, eles pensam na família, mulher, filhos, dívidas e planos para o futuro como estratégia para amenizar o sofrimento, fazendo ‘passar o tempo’ e o serviço render mais”. Alguns trabalhadores fazem uso de outra estratégia para que o tempo passe mais rápido. São trabalhadores como seu João (55 anos, trabalhador-migrante, oriundo de Tavares) que utilizam-se da bebida alcoólica e dos espaços dos bares, para esquecer os infortúnios. Em suas palavras: “No meu caso eu vou ao bar e pego uma cervejinha para esfriar a mente”. O alcoolismo, ou seja, o uso abusivo de bebidas alcoólicas é muito freqüente nas cidades de destino desses trabalhadores. Não são raros os casos de transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de álcool. Foi exatamente essa patologia que acometeu um trabalhador do município de Tavares. Valdeci, 43 anos, trabalhadormigrante durante quatorze (14) safras, oriundo do município de Tavares – PB, pai de seis filhos, sendo quatro homens e duas mulheres. Dos homens, três são casados e são cortadores de cana. E das mulheres, uma é casada e também já migrou para acompanhar o marido. Apenas dois filhos (um rapaz e uma moça) permanecem na casa paterna. Relatos dos amigos de Valdeci apontam que ele fazia uso da bebida alcóolica (no caso, da pinga) antes mesmo de ir para o eito, no próprio eito e também no barraco. E não eram raros, ainda segundo os amigos, os dias em que Valdeci brigava com as pessoas que estavam em sua volta, que dizia que tinha alguém querendo matá-lo. Relatos dos amigos dão conta ainda que certo dia, o mesmo teria fugido do barraco e passado a noite no canavial. Recentemente, durante a safra de 2010, o mesmo teria colocado fogo no barraco, queimando todas as ropas e documentos seus e dos companheiros, provocando um prejuizo estimado, ainda pelos amigos, em oitenta mil reais (R$ 80.000,00), uma vez que o fogo teria atingido estabelecimentos comerciais vizinhos ao barraco: uma casa lotérica, uma loja de roupa e um escritório de advogacia. Foi somente após ter provocado este incêndio que os amigos de Valdeci perceberam que o mesmo estava desestabilizado psíquicamente e que, inclusive, necessitava de atendimento psíquiátrico. No caso de Valdeci, o alcoolismo (estratégia defensiva) não foi suficiente para neutralizar as tensões psíquicas, assim, o que era “apenas” sofrimento psíquico evoluiu para a esfera da desestabilização psíquica. Mesmo considerando que no local de origem o trabalhador já fazia uso de bebidas alcoólicas acredita-se que no local de destino quando se agrupam o conjunto de pressões psíquicas expostas pelo trabalho e pela própria migração, o uso do álcool, pode ter sido mais acentuado, além de que sugere-se também que leve-se em conta que no local de origem, mesmo já fazendo uso de substãncias alcoólicas, não há registro, na história do trabalhador, desse tipo de comportamento “destrutivo”, o 25 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. qual, acredita-se, mesmo que a título de hipótese, deve estar relacionado as pressões advindas das condições e relações de trabalho nos canaviais, as quais não encontraram outro mecanismo de vazão. Nesse sentido, vale a pensa enfatizar que estudos realizados por Dejours (1992) confirmam que “o alcoolismo é uma estratégia defensiva utilizada como uma saída individual frente à ansiedade relativa a sobrevivência e que pode ocasionar um destino mental e somático particulamente grave”. Ou seja, o uso do alcoolismo como estratégia defensiva leva um desequilibrio físico e mental bem mais rápido do que outras estratégias defensivas. Além das estratégias já citadas, existe outra muito comum entre os trabalhadores, a saber, a naturalização dos adoecimentos. O trabalhador utiliza o corpo e a mente para realizar o trabalho do corte da cana-de-açúcar, ou seja, o corpo é quem produz. Quando o corpo está doente ele não produz. Então, é comum o trabalhador negar ou naturalizar a doença para continuar trabalhando. Para Dejours (1992) “a naturalização da doença é comum entre os trabalhadores do subproletariado, já que para essa parcela da população a doença remete a ‘vagabundagem’, pois o corpo só pode ser aceito no silêncio dos orgãos”. Ou seja, somente o corpo que trabalha, o corpo produtivo dos homens são aceitos. Nas palavras de um trabalhador-migrante: “Eu mesmo nunca adoeci, aqui acolá dava uma gripe, no mês de maio, mas eu procurava o médico do sindicato” (Messias, 40 anos, natural o município de Tavares), o que é partilhado também por Geraldo (36 anos, trabalhador-migrante, oriundo de Tavares) para que, “Caimbrã sempre dá, é normal”. Sintetizando, percebe-se que o trabalhador-migrante está submetido a pressões organizacionais do processo migratório e do trabalho nos canaviais do Estado de São Paulo e acabam utilizando o seu funcionamento psíquico e elaborando mecanismos de defesa para camuflar/ combater tal sofrimento. Quando isso não acontece, a energia pulsional é acumulada no aparelho psíquico podendo se refletir no corpo, sobretudo, mediante o desencadeamento de perturbações e fadiga física”. (DEJOURS, 1992). Por outro lado acredita-se que o não trabalho, ou seja, a permanência dos trabalhadores nos locais de origem pode ser desencadeador do sofrimento psíquico. Dejours (1993) afirma que quando um sujeito não faz nada, não quer fazer nada, e se mantém em uma inatividade quase total, geralmente é sinal, do ponto de vista psiquiátrico, que ele está doente. ENTRE A DOR DA SOLIDÃO E A DEFESA DOS QUE FICAM A partir de agora será analisado o sofrimento entre os que ficam (os familiares dos trabalhadores-migrantes). Este sofrimento, na maioria das vezes, está relacionado à saída de um integrante da família (pai, filho, irmão, esposo, etc). Visando apreender tal sofrimento tomamse como base duas histórias de vida, ambas com graus diferentes de parentescos, mas com relações comuns, o sofrimento psíquico. A primeira é a história da esposa de um cortador de cana, Rosa, a qual, na época do nosso encontro, no ano de 2009, tinha 26 anos e residia no sítio São João dos Pilotos, na cidade de Santa Cruz da Baixa Verde – PE. Rosa é casada e tem um filho de três anos. Desde o ano de 2001 o seu esposo (Juarez, 27 anos) migrava consecutivamente para o interior do Estado de São Paulo, com exceção do ano de 2006, quando a mesma estava grávida e insistiu para que o marido não migrasse, “não a deixasse sozinha”. Ela relata que não foi fácil convencer o seu esposo para não migrar e que foi necessário ameaçar realizar um aborto caso contrário. A mesma não se arrepende, pois sabia que precisava do apoio do marido naquele momento, uma 26 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. vez que a gravidez foi muito complicada: “Eu inchei muito, quando minha barriga estava de três meses parecia está de seis meses, eu sofri muito, pensei que ia morrer, pensei que meu filho era doente”. Ao nascimento percebeu-se que Renato [o filho] foi acometido por uma hérnia testicular. Em seguida foi realizado uma cirurgia e acompanhamento médico durante três anos. No ano de 2007, Juarez retornou aos canaviais e Rosa queixa-se que praticamente criou Renato sozinha. Ela afirma: “Ele nunca trocou uma fralda, nem deu uma mamadeira e quando voltou o seu filho já estava comendo com as próprias mãos”. Por outro lado, ela diz que o seu filho sofre muito, pois todas as vezes que o telefone toca Renato pergunta se é o pai e “quando ele [o pai] voltará para casa”. O sofrimento de Rosa também é perceptível e transparece no ritmo do corpo, deixando entrever sinais de um estado depressivo. Em vários momentos da entrevista ela relatou que diariamente não tem vontade de comer, nem de dormir e que geralmente busca ocupar o tempo cuidando do filho, dos afazeres domésticos, plantando e vendendo banana, fazendo crochê e sabão. De São Paulo, o seu esposo controla as finanças oriundas das atividades realizadas por Rosa, desvelando assim a natureza das relações entre homens e mulheres e as formas pelas quais se efetiva o controle de gênero mesmo numa situação de distância geográfica. Assim, para Rosa quem é esposa de cortador de cana não pode arrumar as unhas, nem os cabelos, pois a notícia pode ser transmitida, em pouco tempo, para a cidade de destino (São Paulo). A fofoca acaba, então, funcionando como um excelente mecanismo para controlar “as” que ficam, sobretudo quando se pode contar com os avanços tecnológicos (celulares). Nas palavras de Rosa: Tem horas que eu fico chorando, porque não passeio, não vou para uma festa. Só uma vez fui levar Renato ao parque, mas de oito horas tive que voltar e quando foi oito horas em ponto ele ligou para saber se eu estava em casa, e para confirmar ele mandou eu colocar o CD de Roberto Carlos para escutar a música que ele mais gosta, a mesma coisa acontece quando eu vou para a feira, eu já dei a proposta: ou ele me leva o ano que vem ou nós vamos se separar”. Rosa também relata que tinha medo de dormir sozinha, pois estava desconfiada que alguns homens queriam assaltá-la, pois sabiam que seu esposo estava ganhando melhor. Inclusive ouvia pessoas batendo na porta e destelhando a casa. Para tentar solucionar o problema ela comprou um revolver e foi avisar ao delegado que se desconfiasse de qualquer coisa, ela mesma tomaria as providências. O perigo e o medo enfrentado por Rosa, a ausência do esposo e do pai, para Renato, a sobrecarga de atividades e o controle de gênero na cidade de origem provavelmente são fatores responsáveis para o desencadeamento do sofrimento psíquico enfrentado por Rosa e por seu filho e também por muitas mães, mulheres, irmãs e filhas de cortadores de cana. A esse respeito Silva e Menezes (2010, p. 296) anotam que a saída do elemento masculino implica num aumento da carga de trabalho feminino, pois, a migração leva a redefinições dos espaços de dentro e do fora, ou seja, da casa (atividades domésticas e educação familiar) e do roçado (cultivo da terra e colheita dos frutos). Eles acrescentam que: Além da responsabilidade pela casa e roçado, as mulheres que ficam enfrentam também a solidão, o isolamento. Por não disporem da companhia de seus esposos, não podem freqüentar determinados espaços, a exemplo das festas, sob pena de terem sua reputação colocada em risco. A ausência da figura paterna representa uma fonte de sofrimento para os filhos, sobretudo quando estes são menores, e a própria ausência da figura masculina no espaço de moradia favorece o afloramento do medo “de morar 27 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. sozinha”, “do medo de ser assaltada” etc. O sofrimento se torna ainda mais visível quando a mesma relata sobre o fato de “não se arrumar” e de “não passear”. Sendo inclusive controlada nos momentos de saída através de uma música que é ouvida pelo marido que se encontra do outro lado da linha telefônica (celular). Juarez (esposo de Rosa) apesar de está tão longe geograficamente acaba bem perto socialmente, pois ele consegue controlar a situação. De acordo com Menezes e Silva (2010) o “tempo da espera”, isto é, tempo em que as mulheres esperam o retorno dos seus homens, pode ser pensado como uma instituição social, ou seja, algo instituído pela sociedade e que deve ser vivido, pela mulher, a partir da obediência a determinadas regras, como abrir mão de certos espaços sociais (festas). O conjunto dos fatores acima apresentados com certeza torna-se fonte de sofrimento psíquico para mulheres e homens que ficam. Ferreira e Mendes (no prelo) definem “o sofrimento como uma vivência intensa e duradoura, na maioria das vezes inconsciente, de experiências dolorosas como medo, angústia e insegurança”. Sabe-se que para lidar com o sofrimento tende-se a fazer o uso de estratégias defensivas. No caso em estudo, pode-se detectar a tentativa de “ocupar o tempo”, ou seja, realizar várias atividades (cuidar do filho, dos afazeres domésticos, plantar e vender banana, fazer crochê e sabão) para que o tempo passe mais rápido ou para que não se veja o tempo passar. Como Penélope, na literatura grega, tecendo os fios esperava o seu marido por vinte anos ainda que não pudesse saber ao certo se ele estava vivo e se, estando vivo, voltaria. Rosa também tece os fios e faz o seu crochê. Assim, tecendo ela espera o marido; tecendo, o tempo passa... Mas, para tecer fios é necessário “paciência”... Além da paciência, as mulheres procuram algumas fontes de refúgio. Uma delas é a igreja, local considerado “aceitável” e freqüentável pelas mulheres cujos esposos, noivos e namorados estão distantes. Como Lúcia, 29 anos, esposa de trabalhador-migrante, oriunda de Tavares assinala: “Para passar a saudade eu sempre vou à igreja e na casa das amigas”. Outra fonte de refúgio é “a casa das amigas”, ou o grupo informal de apoio, constituídos por outras mulheres que estão vivenciando a mesma situação de espera. As mulheres se visitam, conversam, compartilham sofrimentos e se ajudam mutuamente, tornando toleráveis seus sofrimentos psíquicos. Algumas mulheres acabam migrando com os esposos para as cidades de destino, outras optam pela separação e algumas são obrigadas a esquecer que um dia já tiveram esposos, pois “ele não manda mais notícias” ou “ele nunca mais voltou”. As memórias precisam ser apagadas e a dor da separação torna-se inevitável. A separação, em alguns casos, pode ser absoluta, as constantes mortes envolvendo cortadores de cana, seja por exaustão física, por envolvimento em confusões no próprio local de trabalho ou de moradia, ou outros espaços de lazer causam dores e sofrimentos principalmente para as mães e os que ficaram [esposas e filhos], os quais recebem os corpos dos pais, esposos e filhos. Nesse sentido vale a pena citar trechos do diário de campo da pesquisadora: Assisti tal sofrimento ao acompanhar desde 2009 a dor de uma mãe que recebe no mês de setembro o seu filho, Augusto, 23 anos,, que foi assassinado na cidade de destino (Borborema – SP). Dona Carminha tinha 54 anos era agricultora e residia no sítio Domingos Ferreira, município de Tavares, era casada e mãe de onze filhos (sendo cinco homens e seis mulheres). Todas as mulheres são casadas e moram na cidade de Santa Cruz do Capibaribe – PE, onde trabalham confeccionando roupas. Dos homens quatro cortavam cana, sendo dois casados e três solteiros. Um deles reside na casa paterna. O seu esposo também é agricultor. Às oito horas da manhã da quintafeira, (28 de setembro de 2009), Dona Carminha estava enterrando o corpo do seu 28 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. filho na cidade de Tavares. Enquanto seus outros filhos, também cortadores de cana, Luís, João Paulo e Diassis, continuaram trabalhando e derramando as suas lágrimas nos canaviais. Diassis não conseguiu terminar a safra e no dia primeiro (01) de Outubro resolveu voltar para a casa materna. Segundo Dona Carminha, Diassis era muito apegado a Augusto e por isso, estava sofrendo muito. Em suas palavras: Eu estou achando ele muito deprimido. Ele era muito brincalhão, não parava quieto, tirava brincadeira com todo mundo, mas hoje ele está muito nervoso, estressado, calado, não quer comer, não liga mais o som, não quer ficar dentro de casa, e quando fica não para de cheirar as roupas de Augusto. Para os que permaneceram em São Paulo também foi difícil suportar o sofrimento. João Paulo confirma: “Eu tinha medo de ficar doído da cabeça quando olhava pra aquelas canas, até porque fui eu que o ensinei a cortar cana, às vezes fico me lembrando da viagem, quando eu olhava para a bolsa dele, a gente só trazia a bagagem”. A intensidade do sofrimento dessa família aumentou no ano de 2010, quando descobriram que Dona Carminha estava acometida por um tumor maligno no estômago. Os familiares relatam que ela tinha gastrite nervosa e, segundo eles, depois que Augusto faleceu ela piorou muito: “Quanto mais ela ficava nervosa, mais dor sentia, chegou a vomitar uma borra avermelhada”. Realizou uma cirurgia, mas infelizmente, no dia 05 de dezembro de 2010 morre também a mãe do ex-cortador de cana. A dor de perder um filho para Dona Carminha e de perder um irmão para João Paulo, Diassis e Luís é um fator impulsionador do sofrimento psíquico. As tensões psíquicas acumuladas entre os integrantes da família são bem maiores do que em outros casos. Pode-se observar nas falas: “estou achando ele depressivo”, “eu tenho medo de ficar doído da cabeça”. Para liberar tantas tensões psíquicas a via de canalização precisa ser bem maior. Ainda que a título de hipótese, sugere-se que a rápida progressão do tumor de Dona Carminha tenha relação com a tentativa de liberar a tensão psíquica por uma via somática. A gastrite nervosa que já existia colaborou para uma evolução mais acentuada da patologia. Em outras palavras, sugere-se que a evolução da doença teria sido mais lenta se a mesma não estivesse lidando com o sofrimento psíquico. Vale salientar que não são apenas os adultos que convivem com a dor da perda. As crianças também sofrem com a dor da morte dos pais, assim, durante pesquisa de campo, conhecemos duas crianças (05 e 07 anos) filhas de Fabiano, 36 anos, ex-cortador de cana do município de Santa Cruz da Baixa Verde – PE, o qual sofreu um acidente de trânsito e morreu no primeiro ano em que migrou para os canaviais paulistas. A sua esposa (Fernanda, 33 anos) relata que, após a morte do esposo, todos os dias as suas filhas fazem a mesma pergunta: “Mãe, já está perto de pai chegar”? Os filhos esperam os pais; as mulheres, seus esposos; as mães, seus filhos... Às vezes, eles não chegam e a expectativa é frustrada, ao invés do ente amado, vêm a dor e o sofrimento que são compartilhados. Para a mãe de um cortador de cana a morte é vivenciada na própria migração. Dona Severina, 73 anos, natural de Tavares – PB, mãe de três cortadores de cana assinala: “Quando eles vão, fica tudo morto, como se todo mundo tivesse morrido. Só se alegram quando eles começam a chegar”. A tristeza e a alegria, o medo e a confiança, as lágrimas e os sorrisos são emoções vivenciadas intensamente durante os intervalos das safras entre os que ficam. Seja mãe, pai, filho, esposa e amigos, todos experienciam a dor da morte na saída e a alegria do nascimento na chegada. CONCLUSÃO 29 Saúde Coletiva em Debate, 1(1), 15- 30, out. 2011. Diante da análise realizada neste artigo, constata-se que os trabalhadoresmigrantes e seus familiares são vítimas do sofrimento psíquico e para não desestabilizarem fazem uso de várias estratégias defensivas. Antes de chegarem ao local de trabalho os que migram enfrentam o desconforto da viagem e a frustração de promessas não cumpridas pelos funcionários da usina. No eito da cana são submetidos a condições de trabalho perpassadas por fatores de riscos, relações de subordinações, divisões rígidas de trabalho, mecanismos de controle, a exemplo das metas de produtividade, e punições que “marcam” e “mutilam” os corpos e as mentes dos trabalhadores, ocasionando o sofrimento psíquico. Para camuflar e suportar tal sofrimento os trabalhadores-migrantes fazem uso de estratégias defensivas, como a agressividade, a paciência, o alcoolismo e a naturalização dos adoecimentos. Os que ficam também sofrem com a saída de um integrante da família (pai, irmão, filho, esposo etc.). Essa ausência ocasiona sofrimento que está relacionado à sobrecarga de atividades, ausência da figura paterna e controle de gênero. Sendo que o sofrimento é ainda mais acentuado nos casos de mortes envolvendo cortadores de cana. Deste modo, contata-se que o desenvolvimento das usinas canavieiras do sudeste do país é regado não apenas a suor, mas, sobretudo, pelo sofrimento dos que partem e dos que ficam. Assim, o alto preço do desenvolvimento apregoado pelos defensores do agronegócio tem sido pago com a saúde física e mental, quando não com a própria morte dos trabalhadores brasileiros. Nesse sentido, a luta por outras condições e relações de trabalho no espaço dos canaviais, bem como a luta por outras opções de trabalho e renda em seus lugares de origem, é também a luta por menos sofrimento e por mais saúde dos trabalhadores-migrantes e de seus familiares. Fazer saúde, nesse sentido, é mais do que prestar assistência, mas implica, antes de tudo, na busca dos elos, muitas vezes não tão visíveis, entre saúde, adoecimento e trabalho. Tal como Penélope, somos também nós, profissionais de saúde, confrontados com o grande desafio de desatarmos os nós, historicamente atados, entre condições de vida, trabalho e adoecimento, e ao mesmo tempo tecermos também outros bordados, onde a vida, e não a morte esteja mais presente. REFERÊNCIAS ALESSI, N. P.; SCOPINHO, R. A. A saúde do trabalhador do corte da cana de açúcar. In: ALESSI, N. P. et al. (org). Saúde e trabalho no Sistema Único de Saúde. São Paulo: Hucitec, 1994, p. 121- 151. ALVES, F. Migração de trabalhadores rurais do Maranhão e Piauí para o corte de cana em São Paulo: será esse um fenômeno causal ou recorrente da estratégia empresarial do Complexo Agroindustrial Canavieiro In: NOVAES, J. R.; ALVES, F. 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