XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 FORMAÇÃO DE PROFESSORES E TECNOLOGIA: UMA EXPERIÊNCIA EM VIGOR, NO CURSO DE PEDAGOGIA DE UMA UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DE SÃO PAULO Lucila Pesce (Unifesp) Valéria Sperduti Lima (Unifesp) Clecio Bünzen Jr. (Unifesp) Resumo Considerando as atuais políticas públicas brasileiras de formação de professores da Educação Básica – que sinalizam que o uso pedagógico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) deve ser tematizado, no âmbito das licenciaturas – o artigo reflete sobre o papel da área “Educação e Tecnologia”, na formação dos professores da Educação Básica. O quadro teórico de referência fundamenta-se em estudos e pesquisas sobre Formação de Educadores e Cibercultura e baliza o trabalho com a formação de educadores para o uso pedagógico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), desenvolvido por professores do curso de Pedagogia, de uma universidade federal do estado de São Paulo. Os estudos da área sinalizam que os programas de formação de educadores necessitam alargar seus parâmetros, de modo a perceber o exercício docente como prática social intimamente relacionada aos seus determinantes contextuais. Aí incide a relevância da área “Educação e Tecnologia”, nas licenciaturas, tendo-se em vista a ostensiva presença das TIC nos determinantes contextuais do educador contemporâneo. A área “Educação e Tecnologia”, relatada analiticamente no presente artigo, ergue-se em meio à linha de pesquisa “Inclusão Digital e Formação de Professores” e a três disciplinas eletivas: “Tecnologia, Comunicação e Educação”; “Linguagem, Gêneros do Discurso e Mídias Digitais”; “Projetos Colaborativos de Aprendizagem integrados às Tecnologias de Informação e Comunicação”. O artigo finaliza, destacando que o trabalho nesta área de conhecimento é primordial à formação dos professores da Educação Básica, quando não se submete à racionalidade instrumental, mas, ao contrário, busca um diálogo profícuo entre três esferas: os desdobramentos da sociedade da informação e do conhecimento na constituição dos sujeitos sociais contemporâneos, a fluência tecnológica e a reflexão sobre as implicações do uso pedagógico das TIC nas ações educacionais. Palavras-chave: políticas públicas; formação de educadores; tecnologias da informação e comunicação. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001474 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 Introdução Considerando as atuais políticas públicas brasileiras de formação de professores, o artigo reflete sobre o papel da área “educação e tecnologia”, na formação dos professores da Educação Básica. O quadro teórico de referência fundamenta-se em estudos e pesquisas sobre Formação de Educadores e Cibercultura e baliza o trabalho com a formação de educadores para o uso pedagógico das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), desenvolvido por professores do curso de Pedagogia, de uma universidade federal do estado de São Paulo. O artigo finaliza, destacando que o trabalho nesta área de conhecimento é primordial à formação dos professores da Educação Básica, quando não se submete à racionalidade instrumental, mas, ao contrário, busca um diálogo profícuo entre três esferas: os desdobramentos da sociedade da informação e do conhecimento na constituição dos sujeitos sociais contemporâneos, a fluência tecnológica e a reflexão sobre as implicações do uso pedagógico das TIC nas ações educacionais. 1. Contexto político No contexto sócio-histórico das atuais políticas públicas de educação, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores de Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena (Brasil, 2001) versam, no item 3.2.7, sobre a ausência de conteúdos relativos às tecnologias da informação e comunicação, em boa parte dos cursos brasileiros. Ao fazê-lo, o documento deixa claro que, assim como o uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) situa-se como importante recurso para a Educação Básica, por conseguinte o mesmo deve valer para a formação de professores que atuam neste nível de educação. O documento salienta, neste mesmo item, a relevância de os cursos imprimirem “... sentido educativo ao conteúdo das mídias, por meio da análise, da crítica, e da contextualização, que transformam a informação veiculada, massivamente, em conhecimento” (p. 25). E ainda Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001475 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 2 destaca: “urge, pois, inserir as diversas tecnologias da informação e das comunicações no desenvolvimento dos cursos de formação de professores...” (p. 25). Em linha de raciocínio convergente com este entendimento, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de Pedagogia (BRASIL, 2006) destacam que o egresso deste curso deverá estar apto a: relacionar as linguagens dos meios de comunicação à educação, nos processos didático-pedagógicos, demonstrando domínio das tecnologias da informação e comunicação adequadas ao desenvolvimento de aprendizagens significativas (artigo 5º., inciso VII). Em sintonia com os dois documentos oficiais mencionados acima, o projeto de lei relativo ao Plano Nacional de Educação - PNE 2011-2020, de Dezembro de 2010, destaca, nos itens 3.11; 7.11; 7.13; 12.15 e 14.9, a relevância do trabalho com as TIC, nos distintos níveis, esferas e dimensões da educação, de modo a abarcar tanto alunos quanto professores. Ao refletir sobre o modo como as TIC foram consideradas no Documento Final da Conferência Nacional de Educação (CONAE), entendido como balizador da elaboração das diretrizes do PNE 2011-2020, Zuin (2010) traz importantes reflexões. A primeira delas diz respeito à ambiguidade das TIC, quando pensadas no contexto educacional. Como todo e qualquer instrumental apropriado pelo capital, as TIC podem colaborar com o fortalecimento do controle social ou das práticas democráticas, a depender do enfoque que se dê. Outra importante reflexão trazida pelo pesquisador é o incentivo que o Sistema Nacional de Educação (SNE) e o documento referência da CONAE trazem à utilização das TIC, nas diferentes esferas educacionais, com destaque para as pesquisas online e para os intercâmbios científicos e tecnológicos das instituições de ensino e das universidades. O documento referência da CONAE faz menção à política de formação e valorização dos profissionais da educação, inclusive por intermédio dos dispositivos digitais: No contexto atual há uma crescente demanda por elevação da qualificação do/da trabalhador/a, assim como por uma concepção de educação democrática e mais polivalente, que contribua para a formação ampla, garantindo, além de bom domínio da linguagem oral e escrita, o desenvolvimento de competências e habilidades para o uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC). (CONAE, 2010, p. 125). O aludido documento referência esclarece, no excerto, a necessidade do domínio das TIC, no âmbito da formação inicial e continuada de educadores, imbricando-o ao capital Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001476 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 3 cultural demandado dos cidadãos do século XXI. Como se pode observar, as políticas públicas brasileiras de formação de professores da Educação Básica sinalizam que o uso pedagógico das TIC deve ser tematizado, no âmbito das licenciaturas. 2. Formação de professores Em refuta à educação bancária, que, dentre outros aspectos, gera a prática educativa voltada à adaptação do educando à realidade imutável, Freire (1997) situa os educadores como leitores críticos de si e de suas circunstâncias e defende a posição radical democrática do professor, que almeja, a um só tempo, a diretividade (ao dizer não à licenciosidade para com os alunos) e a liberdade (ao dizer não ao autoritarismo). Tal posição radical democrática coaduna-se com a assertiva de que aluno e professor formam-se mutuamente, o que pode e deve ocorrer no tocante à fluência tecnológica. Em sintonia com tais ideias, Giroux (1997), ao perceber os professores como intelectuais transformadores, opõe-se à hegemônica racionalidade tecnocrática e instrumental, que cinde os teóricos – que conceituam, planejam e organizam o currículo – dos professores, que o implementam e o executam. Em contrapartida, defende a perspectiva praxiológica, mediante a qual o professor situa seus alunos como sujeitos de pesquisa. Goodson (1995) também destaca a necessidade de dar a vez e a voz do professor, em seu desenvolvimento profissional. Ao fazê-lo, situa a dimensão pessoal, como ponto de partida para o desenvolvimento profissional. Em congruência com o postulado dialógico, Tardif (1997) percebe a construção dos saberes docentes em relação estreita com a prática profissional. Contudo, adverte que esta relação, apesar de sintonizar a educação com as demandas sociais, não deve se submeter à lógica capitalista do mercado globalizado, que vem aligeirando os processos educativos, para atender ao ritmo em que se processam as mudanças na contemporaneidade. Os indicadores apontados balizam a reflexão de que os programas de formação de educadores necessitam alargar seus parâmetros, de modo a perceber o exercício docente como prática social intimamente relacionada aos seus determinantes contextuais. É justamente aí que incide a relevância da área “Educação e Tecnologia”, nas licenciaturas, tendo-se em vista a ostensiva presença das TIC nos determinantes contextuais do educador contemporâneo. Nesse sentido, vale destacar o alerta que Sandholtz et al. (1997) trazem acerca de como os cursos de formação de professores para o uso pedagógico das tecnologias preservam o status quo instrucional. Isso porque Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001477 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 4 a maioria deles concentra-se mais no aprendizado técnico-operacional, que na perspectiva de integração das TIC ao currículo escolar. A pesquisa comparativa de Coll (2010), partindo do discurso Mundial transformador das TIC para a análise real deste discurso na prática escolar, vem ao encontro deste alerta, apontando para a precariedade na incorporação das TIC nas escolas, a necessidade de se ofertar cursos de formação de professores que busquem vincular a incorporação das TIC a uma revisão do currículo, levando-se em conta as práticas socioculturais próprias da sociedade da informação associadas a essas tecnologias. É justamente aí que incide o trabalho da área de Educação e Tecnologia do curso de Pedagogia da universidade em questão: no desvelar das contradições inerentes às TIC, como todo e qualquer aparato apropriado pelo capital, buscando refletir sobre os limites e as possibilidades de uma utilização pedagógica das TIC voltada à emancipação dos sujeitos sociais. 3. Cibercultura Há mais de dez anos, Steven Johnson (1997) esclarece que a coexistência da comunicação de massa e da inovação criativa faz com que as interfaces digitais impactem, sobremaneira, a forma como pensamos e nos comunicamos. Com isso, o estudioso sinaliza o papel fulcral que o design de interface exerce na sociedade contemporânea. A afirmação de mais de uma década tem sido vivenciada por muitos de nós, nas mais distintas esferas do nosso cotidiano. À mesma época, o cientista social Manuel Castells (1996) – amparado em pesquisas realizadas nos Estados Unidos, Ásia, América Latina e Europa – reflete sobre os desdobramentos da tecnologia da informação nas atuais organizações societárias. Ao fazê-lo, anuncia que, na cultura da virtualidade real, assistimos à integração da comunicação eletrônica e ao fim da hegemonia da audiência de massa, em virtude do surgimento das redes interativas. No mesmo período, Pierre Lévy (1997) acena que, analogamente à escrita e à imprensa, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) trazem consigo um novo modo de pensar o mundo e de conceber as relações com o conhecimento. Nesse cenário, a simulação erige-se como modo de conhecimento próprio da Cibercultura. Os games e ambientes imersivos, como Second Life, ratificam a oportuna observação de Lévy. Lucia Santaella (2004) salienta que a interação insere-se na medula dos processos cognitivos, nos ambientes de rede. Amparada nos estudos de Bakhtin e Peirce, a pesquisadora destaca que o dialogismo traz nova luz para se compreender a Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001478 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 5 interatividade e seu papel no desenvolvimento do perfil cognitivo do leitor imersivo. Nesse intertexto, a autora declara: “... assim como as operações realizadas no ciberespaço externalizam as operações da mente, as interatividades nas redes externalizam a essência mais profunda do dialogismo...” (SANTAELLA, 2004, p. 172). Rita de Cássia Oliveira (2005) traz também uma interessante reflexão sobre o sensorium da juventude contemporânea. Ao situar cultura como prática social, a pesquisadora negrita que as produções simbólicas são constituídas no cotidiano vivido. Para a autora, as transformações da técnica e do modo de produção imbricam-se às transformações do sensorium, entendido como modos de percepção e da experiência social. Amparada nas reflexões de Martín-Barbero (1997), Oliveira sinaliza que as transformações das técnicas trazem repercussões diretas sobre a experiência cultural e, por conseguinte, sobre a forma de vivenciar, perceber e expressar a realidade sensível. Sem deixar de ter em conta a exclusão digital de muitos jovens, a pesquisadora chama atenção para o sensorium da geração @. Segundo Oliveira, o sensorium juvenil ergue-se em meio ao nomadismo, a linguagens multimidiáticas e a uma nova percepção de tempo, a partir da experiência da simultaneidade, instantaneidade e fluxo. Nessa perspectiva, novamente ancorada em Martín-Barbero (1998), a autora acena que a plasticidade neuronal dos jovens contemporâneos os dota de grande facilidade para o manuseio da tecnologia. As considerações de Johnson (1997), Castells (1996), Lévy (1997), Santaella (2004) e Oliveira (2005) fornecem subsídios à reflexão sobre a formação de educadores para o uso pedagógico das TIC, em face das implicações da Cibercultura para a formação contemporânea. 4. A área de Educação e Tecnologias no curso de Pedagogia de uma universidade federal do estado de São Paulo A área de Educação e Tecnologias ofertada a alunos da Pedagogia, como disciplinas do próprio curso, e a alunos de outras licenciaturas, como disciplinas integrantes do domínio conexo, ergue-se em meio a três disciplinas eletivas. É oportuno esclarecer os princípios que norteiam a metodologia do trabalho da área: reflexão sobre a prática docente, a partir do uso da linguagem hipermidiática; incentivo à participação dos alunos; incentivo à investigação e busca de informações; desenvolvimento da aprendizagem colaborativa (por meio de interações presenciais e online). Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001479 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 6 As aulas são desenvolvidas em situações que buscam favorecer o debate coletivo dos temas propostos, tendo como procedimentos didáticos: aulas expositivas dialogadas; estudo dirigido; consulta bibliográfica; trabalho em grupo; vivência em dispositivos digitais; apresentação de pré-projetos, que prevejam o uso das TIC no contexto escolar. Como já dito, os temas delineados em cada uma das disciplinas são trabalhados em meio à vivência de suportes midiáticos, como vídeos, ambientes virtuais de aprendizagem (plataforma Moodle) e palestras junto a pesquisadores convidados, por meio de webconferências veiculadas no ambiente Flash Meeting (Open University). O processo avaliativo das disciplinas é contínuo, com comentários das atividades desenvolvidas pelos alunos, individualmente e em grupo. A avaliação individual busca contemplar uma reflexão sobre a relevância das disciplinas à formação do aluno, como futuro profissional da educação. Como avaliação em grupo, a área Educação e Tecnologia volta-se à elaboração, apresentação e socialização de pré-projetos, que prevejam o uso das TIC no contexto escolar, tendo como ponto de partida a materialidade histórica de uma escola real. Entende-se que tais instrumentos de avaliação situam-se como pedras basilares do trabalho aqui relatado. Tal entendimento ampara-se na suposição de que estes instrumentos de avaliação têm potencial para colaborar com a meta reflexão do aluno sobre o seu processo de formação para o uso pedagógico das TIC e, também, para que ele consiga atribuir sentido e significado aos conceitos trabalhados na área. 4.1. Tecnologia, Comunicação e Educação Prevista no projeto pedagógico original do curso de Pedagogia da universidade em tela, a disciplina é oferecida no primeiro semestre do ano letivo, nos turnos vespertino e noturno. A disciplina tem por finalidade promover uma reflexão sobre a educação na sociedade do conhecimento, com destaque para as práticas educacionais desenvolvidas com o uso das TIC e suas implicações no trabalho docente e na construção do conhecimento nos ambientes digitais. Para tanto, a disciplina trabalha com os seguintes temas: concepções e abordagens de uso das TIC; TIC como recurso educacional; o perfil cognitivo do leitor imersivo nos ambientes digitais; o papel do professor, em face da sociedade do conhecimento; limites e possibilidades da formação online de educadores; TIC e Plano Nacional de Educação. Contemplando as premissas teóricas que suportam o trabalho da área, a disciplina prevê, como trabalho final, a elaboração de um pré-projeto educacional imbricado ao uso de interfaces digitais. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001480 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 7 4.2. Linguagem, Gêneros do Discurso e Mídias Digitais A disciplina é oferecida no segundo semestre do ano letivo, alternando um ano no turno vespertino e outro no noturno. Tematiza as novas configurações da linguagem, em face das mídias digitais, com destaque para as práticas de letramento digital que podem ser desenvolvidas no âmbito educacional, a partir da exploração da linguagem hipermidiática e dos gêneros do discurso. Para tanto, a disciplina trata dos seguintes temas: interatividade, gêneros do discurso e mídias digitais; o perfil sociocognitivo do leitor imersivo nos ambientes digitais; oralidade, escrita e hipermídia; letramento digital e disciplinas escolares. Contemplando as premissas teóricas que suportam o trabalho da área, a disciplina prevê como trabalho final, a elaboração de um pré-projeto de utilização, no contexto escolar, de linguagens hipermidiáticas e/ou de exploração dos gêneros do discurso veiculados nas mídias digitais. 4.3. Projetos Colaborativos de Aprendizagem integrados às Tecnologias de Informação e Comunicação A disciplina é oferecida no segundo semestre do ano letivo, alternando um ano no turno vespertino e outro no noturno. Tem por finalidade a identificação da educação por meio de projetos; a integração entre os conceitos de comunidade de aprendizagem, interação, interatividade, cooperação e colaboração; o entendimento e a discussão de técnicas de aprendizagem colaborativa; a análise de estruturas de atividades colaborativas de aprendizagem e discussão sobre suas possibilidades de uso integrado às TIC; análise de projetos de aprendizagem com enfoque nos conteúdos curriculares dos ensinos fundamental e médio; a construção de projetos colaborativos de aprendizagem para o ensino fundamental e médio. A disciplina prevê como trabalho final, a elaboração de um projeto colaborativo integrado ao uso das TIC com enfoque nos conteúdos curriculares dos ensinos médio e fundamental. 4.4. Práticas Pedagógicas Programadas O curso de Pedagogia da universidade em tela prevê que as horas de prática sejam trabalhadas em duas dimensões: Práticas Pedagógicas Programadas e Residência Pedagógica. Nos dois últimos anos do curso, o aluno dedica-se ao estágio supervisionado, denominado Residência Pedagógica, por sua característica singular, em relação às práticas hegemônicas de estágio supervisionado. Os professores das distintas áreas estão in loco, junto com seus alunos, acompanhando o trabalho desenvolvido nas escolas de uma Secretaria Municipal de Educação, com quem a universidade mantém um convênio Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001481 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 8 de cooperação técnica. Nos dois primeiros anos, os alunos cursam as Práticas Pedagógicas Programadas (PPP). A ideia é ofertar ao aluno um leque de opções, para desenvolver tais práticas, em espaços de educação formal ou não formal. Os professores envolvidos com a PPP apresentam suas propostas de trabalho, vinculadas às suas respectivas linhas de pesquisa e os alunos optam por uma delas. A área de conhecimento “Educação e Tecnologia” apresenta a linha de pesquisa Inclusão Digital e Formação de Professores. Ofertada a alunos do primeiro termo, no primeiro semestre letivo do ano, a linha de pesquisa prevê, práticas de leitura e discussão sobre a temática inclusão digital no contexto escolar e sua relação com a formação de professores. A visita à escola prevê observação in loco e registro, em diário de campo, para posterior elaboração do relatório de avaliação diagnóstica. A tematização do conhecimento é realizada mediante visita preliminar a uma escola de educação básica, para identificar os seguintes indicadores: a) envolvimento da gestão escolar para com o processo de inclusão digital de alunos e comunidades interna e externa à escola; b) projeto pedagógico da escola e o uso das TIC como um dos recursos inerentes às atividades pedagógicas na contemporaneidade; c) ações de formação docente para a incorporação das TIC ao repertório de estratégias didáticas; d) abertura da escola a ações de inclusão digital voltadas à comunidade que a entorna. Em continuidade ao trabalho desenvolvido no primeiro semestre letivo, a linha de pesquisa ofertada aos alunos do segundo termo prevê práticas de leitura e discussão sobre temas a ela relacionados, tais como: inclusão digital, elaboração de projetos, estilos de aprendizagem, potencialidades técnico-pedagógicas dos recursos midiáticos, dentre outros. A intenção é que os alunos, com base no relatório diagnóstico elaborado no semestre anterior, retornem à escola que se situou como campo de observação, para apresentar o relatório. É proposto ao aluno reforçar os avanços observados na escola e pensar, com a comunidade escolar, em estratégias de enfrentamento dos aspectos que ainda se situam como desafios a serem enfrentados, no âmbito da inclusão digital. Esse esforço em conjunto deve resultar na elaboração de projetos educacionais que prevejam o uso de dispositivos midiáticos. Cada uma das ações inerentes à área Educação e Tecnologia, nas disciplinas e nas Práticas Pedagógicas Programadas, articula-se organicamente ao todo, uma vez que cada uma delas, embora traga uma contribuição específica, também carrega consigo uma marca identitária: o estudo das características da sociedade da informação e do Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001482 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 9 conhecimento e seus desdobramentos na constituição da identidade dos sujeitos sociais contemporâneos; a articulação entre fluência tecnológica e reflexões sobre apropriação das TIC ao cotidiano docente. A articulação dessas dimensões de formação é primordial a um processo formativo significado aos licenciandos. Considerações finais A construção da identidade docente é um fenômeno dinâmico, de caráter intersubjetivo, que engloba as relações estabelecidas entre crenças, valores e concepções sobre o que ele acredita ser o fazer docente, em um contexto específico. O professor possui uma base de conhecimentos necessária ao desempenho da docência, que vai sendo construída e alterada durante toda sua vida profissional. Esse processo de aprendizagem é delineado e caracterizado, de acordo com os contextos em que atua. A formação docente dialógica cunha-se na ousadia de se formar no devir, o que implica abertura para o novo e a premissa de que aluno e professor constituem-se mutuamente, enquanto sujeitos sociais inacabados. A partir da premissa de que se faz necessário formar-se no devir, este artigo convida os leitores a refletir sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma proposta de formação inicial de professores da Educação Básica para incorporar, com leitura crítica, as TIC ao cotidiano professoral. Os princípios que norteiam a metodologia de formação devem considerar uma perspectiva de investigação, que valoriza a reflexão sobre a prática docente, a partir de questionamentos que resgatam as realidades e experiências dos participantes. Esta metodologia propõe pensar a prática professoral, com base nas particularidades e nas potencialidades do uso pedagógico das TIC e na valorização da participação colaborativa dos sujeitos sociais envolvidos: professores, alunos e gestores escolares. Vale também resgatar a ideia já anunciada no início do texto de que a formação de educadores para a incorporação das TIC ao cotidiano professoral deve buscar engendrar uma articulação orgânica entre a percepção dos aspectos socioculturais da sociedade da informação e do conhecimento, a capacitação para a fluência tecnológica e as ações de formação voltadas às reflexões educacionais. A fluência tecnológica de modo algum deve se sobrepujar às reflexões educacionais sobre as novas práticas sociais, que podem ser construídas no âmbito educacional, mas integrar-se a elas. A articulação dessas três esferas de formação é basilar à defesa da centralidade do papel do professor, nos Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001483 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 10 processos formativos, em convergência com as ideias do documento referência (CONAE, 2010, p. 69). Os apontamentos sobre a relevância de uma formação contextualizada amparam-se na premissa de que não existem modelos a serem seguidos, no âmbito da formação de educadores para a incorporação das TIC ao fazer pedagógico. Cabe a cada universidade buscar seus caminhos de formação, a partir das características singulares da comunidade universitária, do projeto político-pedagógico da universidade e do curso em questão. As considerações até então trazidas à baila conduzem a algumas proposições, à guisa de contribuir com o debate sobre os fundamentos da formação inicial de professores da Educação Básica, para incorporar as TIC no seu cotidiano profissional. Defende-se a ideia de que as ações de formação devem buscar uma estrutura que propicie a leitura crítica das circunstâncias micro e macro-estruturais do trabalho docente, com vistas a aproximar estes profissionais, mobilizando-os ao enfrentamento conjunto dos desafios que se lhes apresentam. Advoga-se a perspectiva de formação de professores, na Pedagogia e demais licenciaturas, pautada na construção da autonomia do docente, como condutor de todas as etapas do processo educativo, em diálogo constante com seus parceiros. Em face da relevância das ações de “formação de qualidade social" (CONAE, 2010), resta aos cursos de Pedagogia o desafio de se criar circunstâncias favoráveis à construção de significações docentes críticas e reflexivas sobre o seu cotidiano profissional inclusa a utilização pedagógica das TIC. Não há como negar a relevância das TIC à formação dos educadores contemporâneos. Entretanto, se, por um lado, não cabe refutar as TIC, por outro, cabe ampliar a compreensão crítica desse instrumental, sem exorcizá-lo e, tampouco, entronizá-lo como panacéia de todos os males da educação. Cumpre perseguir um trabalho que releve a construção de saberes, para que a formação para o uso crítico e reflexivo das TIC na educação seja significativa ao licenciando. Nessa perspectiva, a formação docente para a apropriação crítica das TIC deve pautar-se em encaminhamentos que tentem garantir a apropriação do saber socialmente legitimado (que, nos dias de hoje, inclui a fluência tecnológica), desde que se despoje da fetichização da técnica. É necessário buscar uma formação para apropriação crítica das TIC à prática pedagógica, apartada da racionalidade tecnocrática reificadora das práticas tradicionalistas e, ao contrário, voltada à construção da práxis emancipadora, para além do discurso vanguardista inócuo. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001484 XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas - 2012 11 Longe de pretender esgotar todos os aspectos atinentes ao universo da formação inicial de professores da Educação Básica para o uso crítico e consciente das TIC em sua prática professoral, o presente texto tem o intuito de instigar o debate sobre os desafios que se impõem a essa arena de formação docente, para que as ações a ela inerentes se afastem da dimensão operacional e se aproximem da dimensão culturalista da Educação. No atual momento sócio-histórico da educação brasileira, em que vigoram políticas de fomento à utilização das TIC junto à formação inicial de professores da Educação Básica, faz-se míster este debate, para que se imprimam ações convergentes com uma proposta de formação significativa aos licenciandos, em refuta à formação aligeirada e em busca da “formação de qualidade social” (CONAE, 2010, p. 84). Esse é o sentido que se tem buscado auferir ao trabalho desenvolvido na área de Educação e Tecnologia vinculada ao curso de Pedagogia da universidade federal em questão. Referências BRASIL. Parecer CNE/CP 09/2001, de 8 de maio de 2001. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores de Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena. Ministério da Educação, Brasília, DF, 8 mai. 2001. BRASIL. Parecer CNE/CP 01/2006, de 16 de maio de 2006. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, licenciatura. Ministério da Educação, Brasília, DF, 16 maio 2006. BRASIL. Plano Nacional de Educação - Projeto de Lei nº 8.035 de 2010. Aprova o Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020 e dá outras providências. CASTELLS, Manuel. The rise of network society. Oxford: Blackwell Publishers, 1996. COLL, César; MAURI, Teresa; ONRUBIA, Javier. 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Os principais objetivos dessa formação definem a dinâmica adotada: orientar o gestor na implementação de uma ação interventora no seu âmbito escolar, refletir sobre a correspondente articulação do processo participativo e democrático e construir um saber contextualizado. Para atender a tal demanda é necessária uma visão mais complexa e sistêmica da ação gestora, na qual a dinâmica da escola é compreendida como um sistema vivo e autoorganizativo, uma cultura em permanente construção, alimentada pelas relações interpessoais e trabalho coletivo. O objetivo da pesquisa é retratar o processo de construção desses saberes no decorrer do uso do diário de bordo do ambiente virtual. Neste recurso interativo, as narrativas dos participantes desvelam a riqueza da comunicação intersubjetiva e o processo intrasubjetivo de construção e significação da realidade. O percurso reflexivo dos gestores é interpretado segundo os referenciais do pensamento complexo, a partir do teor das narrativas de três participantes do curso, os quais desvelam suas trajetórias de reelaboração da prática vivenciada e a tomada de consciência do seu fazer. O potencial formativo do diário de bordo ganhou relevância na medida em que permitiu o acompanhamento de processo de formação dos gestores. O estudo valoriza a questão da sensibilidade estética na formação, necessária aos projetos comprometidos com a autonomia e emancipação, visto que essa estética tem sido desvalorizada em detrimento de uma formação mais técnica. Palavras-chave: formação online; diário de bordo; gestão escolar; ambiente virtual de aprendizagem; complexidade. Junqueira&Marin Editores Livro 3 - p.001487