REVISTA EDUCAÇÃO &
TECNOLOGIA
Edição especial em comemoração aos 100 anos da Universidade
Tecnológica Federal do Paraná.
SUSTENTABILIDADE NA ACADEMIA:
CONTRIBUIÇÕES DO GRUPO DE PESQUISA
“TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE – TEMA”, DA
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO
PARANÁ - UTFPR
Periódico Técnico-Científico do Programa de Pós-Graduação
em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do ParanáUTFPR
CURITIBA
JUNHO / 2009
UTFPR
1
Fonte Indexadora Nacional
Sumários de Educação FEUSP – Faculdade de Educação de São Paulo-SP
Fonte Indexadora Estrangeira
Índice Bibliográfico CLASSE – Citas Latinoamericanas en Ciencias Sociales y
Humanidades. UNAM, México
REVISTA EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA. Periódico Técnico-Científico do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal
do Paraná-UTFPR – ano 01, Abril, 1997- Curitiba: Universidade Tecnológica
Federal do Paraná (antigo CEFET-PR).
Edição especial em comemoração aos 100 anos da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná.
Capa: Eloy Fassi Casagrande Jr. e Area41 Design
Diagramação: Area41 Design
ISSN 1516-280X
1. Educação – Periódicos
2. Tecnologia – Periódicos
1.Universidade Tecnológica Federal do Paraná
CDD 371.307805
CDU 37 + 6 (5)
2
SUMÁRIO
PREFÁCIO ................................................................................................................. 5
APRESENTAÇÃO .................................................................................................... 7
SOBRE OS ARTIGOS .............................................................................................. 9
TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE NO PROGRAMA DE
PÓS-GRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA NA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ - UTFPR - PEGADAS
HISTÓRICAS
Maclovia Corrêa da Silva (1); Eloy Fassi Casagrande Junior (2) ............................. 11
EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO MEDIADOR:
AS DISSERTAÇÕES NA PÓS-GRADUAÇÃO DA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Alessandra Aparecida Pereira Chaves (1); Letícia Lopes Koehler (2); Samira
Leme (3); Maclovia Corrêa da Silva (4); Eloy Fassi Casagrande Jr. (5) ................... 17
A DISCUSSÃO DA SUSTENTABILIDADE NAS PRODUÇÕES ACADÊMICAS DE NÍVEL STRICTO SENSU DA UTFPR: ÊNFASE NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Andressa Ferrari (1), Carina Zamberlan Flores (2), Eloy Fassi Casagrande
Junior (3) Maclovia Corrêa da Silva (4) ................................................................... 26
A ACADEMIA VAI A COMUNIDADE: DISCUTINDO AS RELAÇÕES
ENTRE DISSERTAÇÕES DE MESTRADO E PROJETOS
COMUNITÁRIOS
Henry Belchior da Cunha (1); Maclovia Correa da Silva (2); Eloy Fassi
Casagrande Jr. (3) ..................................................................................................... 43
ENERGIA E O ENSINO DA ENGENHARIA NA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ-UTFPR: DESAFIOS PARA
SE ALCANÇAR A SUSTENTABILIDADE
Antonio Carlos Cassilha (1); Eloy F. Casagrande Jr. (2); Maclovia Corrêa
da Silva ...................................................................................................................... 50
3
A EXPERIÊNCIA DE UM PROCESSO DE INOVAÇÃO DE
TECNOLOGIA PARA SANEAMENTO VOLTADO PARA O CONCEITO
DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Tamara Simone van Kaick (1); Eloy Fassi Casagrande Junior (2) ............................ 58
GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS NA UTFPR-CAMPUS CURITIBA
EM TRABALHOS ACADÊMICOS DO DAQBI
Valma Martins Barbosa(1); Eloy Fassi Casagrande Júnior (2); Gabriele
Lohmann (3) .............................................................................................................. 66
A ABORDAGEM AMBIENTAL EM CURSOS DE GRADUAÇÃO EM
DESIGN: AS CONSIDERAÇÕES DO MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO
E CULTURA E OS MÉTODOS DE QUATRO ESCOLAS DO SUL DO
BRASIL
Celso Luiz Podlasek (1); Libia Patricia Peralta Agudelo (2); Rodrigo
Ribeiro da Silva (3); Eloy Fassi Casagrande Junior (4); Elaine Garcia de
Lima (5); Liliane Iten Chaves (6) .............................................................................. 77
IMPLANTANDO
PRÁTICAS
SUSTENTÁVIES
NOS
CAMPI
UNIVERSITÁRIOS: A PROPOSTA DO “ESCRITÓRIO VERDE” DA
UTFPR
Eloy Fassi Casagrande Junior (1); Vania Deeke (2) .................................................. 93
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PREFÁCIO
O ano de 2009 reveste-se de importância impar na história da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Prestes a vivenciar o seu marco centenário, no mês de
setembro próximo, a Instituição, como Universidade desde 2005, procura caminhar a
passos largos na direção do cumprimento de sua função institucional maior, ancorada
no inter-relacionamento sinérgico entre ensino, pesquisa e extensão.
Pautada nos bons legados de um passado vitorioso, a UTFPR vem planejando continuamente o seu futuro, sem se esquecer de concentrar suas forças no enfrentamento
salutar dos inúmeros e mutantes desafios que assolam o mundo atual.
Ao longo de sua trajetória, notadamente de forma mais intensa nos últimos anos,
a Instituição não deixou de acompanhar e participar, mesmo que de forma tênue, dos
movimentos e das ações globais destinados a alertar e a preparar a população sobre a
necessidade da disseminação da educação ambiental e, por conseguinte, do respeito
aos preceitos que norteiam a conquista da tão sonhada sustentabilidade.
Concebida como uma Universidade especializada, por campo do saber, a primeira
Universidade Tecnológica brasileira experimenta a intrigante dicotomia entre incentivar todas as formas de desenvolvimento tecnológico e, ao mesmo tempo, envidar
esforços no sentido de evitar, ou ao menos atenuar, os impactos deste desenvolvimento
sobre a qualidade de vida do homem no Município, no Estado, no País e no Planeta
como um todo.
Recentemente, o Campus Curitiba sediou o primeiro encontro alusivo à quarta edição dos “Círculos de Diálogo dos Oito Jeitos de Mudar o Mundo”, realizado em prol
dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Promovido em parceria com o
Serviço Social da Indústria (SESI), o “Movimento Nós Podemos Paraná” e o Conselho
Paranaense de Cidadania Empresarial do Sistema Federação das Indústrias do Estado
do Paraná (FIEP), além do United Nations Volunteers Programme (UNV), reuniu trabalhos que envolveram duas centenas de estudantes, que poderão receber certificação
da UNV ao desenvolverem trabalhos de conclusão de curso, estágios supervisionados,
projetos de extensão e todas as formas de atividades complementares, as quais impliquem projetos, práticos ou teóricos, que envolvam os Objetivos do Milênio.
Na esteira desta preocupação mundial, o Grupo de Pesquisa “Tecnologia e Meio
Ambiente - TEMA”, do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE, do
Campus Curitiba da UTFPR, vem se destacando na liderança e na condução de discussões que visam à tomada de decisões e à busca incessante por soluções preditivas,
5
preventivas e corretivas para o problema, seja no seu aspecto social, ambiental e/ou
econômico.
Ao assumirmos a Diretoria do Campus, no mês de setembro de 2008, fomos procurados por um grupo de colegas liderados pelos Professores Eloy Fassi Casagrande
Junior e Maclovia Côrrea da Silva, coordenadores do TEMA e organizadores da coletânea de artigos em tela, com o objetivo de traçarmos uma política de trabalho a ser
desenvolvida em nosso meio e pelos entes da comunidade acadêmica. Como resultado,
consta em nosso Plano de Gestão 2008-2012 apoio para o projeto e implantação de
um Escritório Verde, o qual ficará responsável pelo fomento, coordenação e acompanhamento de todas as atividades concernentes à boa prática do desenvolvimento
sustentável.
Por fim, temos plena convicção de que o conjunto desses artigos, neste número
da Revista Educação & Tecnologia, muito contribuirá para o fortalecimento de uma
cultura interna cada vez mais voltada para as reais necessidades do cidadão moderno,
inseridas no contexto de uma sociedade mais verde e mais preocupada com o futuro
de todos.
Marcos Flávio de Oliveira Schiefler Filho
Diretor do Campus Curitiba da UTFPR
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APRESENTAÇÃO
A crise sócio-econômica e ambiental que o Planeta atravessa coloca em discussão
o nosso atual modelo de desenvolvimento e exige uma reflexão de todos os setores da
sociedade sobre a desejável sustentabilidade. Esta reflexão é demandada pela Agenda
21 – o documento resultado da ECO-92, ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992, que estabeleceu diretrizes para que governos, empresas, instituições de ensino e organizações
não-governamentais, pudessem cooperar no estudo de soluções globais e locais para os
problemas sócio-ambientais.
Neste cenário, o papel da educação formal praticada nas Instituições de Ensino
Superior (IES) deve ser avaliado, buscando estimular a implantação de instrumentos
que apoiem o desenvolvimento sustentável. No Paraná, vemos a Agenda 21 representada através de seu fórum permanente organizado pela Secretaria do Estado do Meio
Ambiente (SEMA), que também coordena o Pacto 21 das IES, unindo a comunidade
acadêmica nesta tarefa.
Já no início deste século, vimos a Organização das Nações Unidas – ONU, através
de suas representações voltadas para a educação, UNESCO e UNU, decretar de 2005
a 2014, a “Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável - DESD”, incentivando ações para que se ampliem o escopo da sustentabilidade nos diversos níveis
de ensino.
Nesta coletânea de artigos que recuperam uma memória de discussões ambientais nascidas no grupo de pesquisa Tecnologia e Meio Ambiente-TEMA, do Programa
de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE, da Universidade Tecnológica Federal do
Paraná-UTFPR, queremos afirmar o compromisso da UTFPR para com os objetivos
da Agenda 21 e a DESD. Aqui se poderá apreciar levantamentos, avaliações e análises
criticam de como se discute, se pesquisa, se ensina e aprende sobre sustentabilidade
na UTFPR.
Também queremos prestar uma homenagem ao idealizador do PPGTE, professor
João Augusto Souza de Almeida Bastos e sua preocupação com os rumos da educação
e da inovação tecnológica no Brasil. O Professor João Augusto nos fez conscientes da
importância da interdisciplinaridade como ferramenta para compreender as relações
humanas para produzir e se apropriar dos saberes e do conhecimento científico. Enquanto coordenador do PPGTE, ele sempre esteve pronto para nos atender, e incansavelmente disposto a nos incentivar nas atividades de ensino e pesquisa.
A sua idéia central para o Programa era elaborar um projeto “guarda-chuva” que
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abrangesse a apropriação do conhecimento em todas as “variedades” de interesses de
pesquisa dada as diferentes formações do corpo docente. Outra ação louvável e complementar do seu trabalho foi a criação da Revista “Educação e Tecnologia” e de coletâneas, nas quais publicou diversos artigos que nos ajudam a enriquecer as discussões
em sala de aula e nos grupos de pesquisa.
Na sua concepção de educação tecnológica, as instituições de ensino necessitam
aprofundar reflexões sobre conceitos e metodologias que permitam acompanhar o progresso técnico, e que eles possam ser introduzidos em conteúdos programáticos de
modo a formar profissionais qualificados que nas suas ações sejam capazes de analisar
suas práticas.
A construção do conhecimento, segundo o Prof. Dr. Ademar Heemann, um dos
idealizadores da criação do grupo Tecnologia e Meio Ambiente – TEMA, em 2001,
juntamente com a Profa Dra Libia Patricia Peralta Agudelo, faz parte do processo
ensino/aprendizagem. Pare ele, há vínculos muito próximos entre a aquisição do conhecimento e a forma como ele acontece. A complexidade dele nos aponta para sua incompletude e seu constante avanço. O lado racional e o lado individual deste processo
de apropriação tornaram-se também um controlador de ações sobre o meio ambiente.
Com a intenção de se pensar nesse movimento de forma crítico-reflexiva, os líderes
do grupo TEMA procuram, juntamente com os participantes, reunir, nesse número da
Revista Educação & Tecnologia, as produções da UTFPR que potencializaram discussões sobre a racionalização da natureza, manipulada, transformada e em desordem.
Os trabalhos dissertativos relatam como as ferramentas tecnológicas e humanas foram
utilizadas para desvendar constatações reducionistas, e também procuram fazer referências e sugestões de olhares sobre aspectos novos ou desconhecidos delas.
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Sobre os artigos
O artigo de abertura apresenta uma retrospectiva dos fatos que antecederam a criação do grupo de estudos Tecnologia e Meio Ambiente e o apoio teórico que continua
permeando os objetivos do TEMA. A interdisciplinaridade foi sempre parte integrante
das práticas de pesquisa, e fundamenta o intercâmbio entre ciência, tecnologia e ambiente. No artigo que trata da Educação Ambiental como instrumento mediador, os
autores fizeram um levantamento das produções da Universidade Tecnológica Federal
do Paraná que abordam o tema. Verificou-se que em num período de um pouco mais
de dez anos, a produção é pequena, mas as sementes foram lançadas no sentido da
formação de valores socioambientais.
A discussão da sustentabilidade nas produções acadêmicas da Universidade Tecnológica Federal do Paraná é um trabalho de compilação que mostra o quanto a instituição precisa de uma política pedagógica a qual venha a favorecer debates sobre o
assunto nos seus diferentes cursos. Os autores concluíram que dentre 1.000 teses e
dissertações defendidas, somente 5% delas estão relacionadas à temática ambiental.
A análise de quatro dissertações sobre projetos comunitários e o trabalho produtivo
com o uso de recursos naturais de maneira branda é o assunto que lidera o artigo sobre
as relações entre academia e comunidades. O repasse de conhecimentos aliou-se ao
saber fazer e transformou-se em habilidades e competências para produção de objetos,
os quais passaram a fazer parte da complementação dos ganhos familiares de pessoas
com baixa renda.
As inovações tecnológicas para a área de saneamento ambiental é o tema do artigo
que gerou o projeto de uma estação de tratamento de esgoto por zona de raízes. O
processo foi aplicado e despertou interesse de uma comunidade do litoral paranaense.
Outro artigo que versa sobre a gestão ambiental é o que examina os conflitos provindos
dos resíduos gerados pelo Campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do
Paraná. Os autores ressaltam que uma compreensão mais aprofundada sobre a implantação de um Programa de Gerenciamento é necessária para seu sucesso.
Na perspectiva de avaliar as dificuldades que os cursos de graduação de engenharia
e de design da Universidade Tecnológica Federal do Paraná e de outras instituições
possuem para inserir nos seus currículos as questões de sustentabilidade e de Educação
Ambiental, os autores de dois artigos levantaram as disciplinas dos cursos oferecidos
como material de análise. Eles concluíram que a interdisciplinaridade pode ser um
dos caminhos para desenvolver um novo perfil de formação, o qual é capaz de disse9
minar soluções e dar repostas para problemas sociais, tecnológicos e ambientais. As
formações que os cursos oferecem ainda não são relevantes no sentido de coerência de
conteúdos, reformulações de ementas e criação de oportunidades para novos tópicos
e olhares. Além disso, é preciso pensar sobre como os novos profissionais vão ser recebidos pelas empresas e como eles podem usar, nas suas atividades, os princípios de
sustentabilidade.
No último artigo desta coletânea se aborda o conceito de greencampi – campi sustentáveis, um movimento que vem crescendo em todo o mundo, onde as universidades
começam a refletir através de sua política interna administrativa e na sua infraestrutura
a preocupação com o meio ambiente. Se apresenta aqui a proposta de implantação de
um Green Office – Escritório Verde para o campus Curitiba da UTFPR, onde são sugeridos programas que vão desde a gestão adequada dos resíduos gerados pela instituição
até a intervenção nos projetos arquitetônicos dos novos edifícios a serem construídos,
orientando-os para os princípios da construção sustentável. O argumento é de que a
universidade é vista como formadora de opinião na sociedade, portanto deve dar o bom
exemplo para todos.
Uma sustentável leitura a todos.
Eloy Fassi Casagrande Jr. e
Maclovia Côrrea da Silva
Coordenadores do Grupo de Pesquisa TEMA e organizadores da coletânea
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TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE NO PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM TECNOLOGIA NA UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA
FEDERAL DO PARANÁ – UTFPR – PEGADAS HISTÓRICAS
Maclovia Corrêa da Silva (1); Eloy Fassi Casagrande Junior (2)
(1) Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR,
doutora em Planejamento Urbano e Regional pela FAUUSP;
(2) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR.
RESUMO
Neste artigo apresenta-se e se discute a inserção de questões ambientais em um programa de mestrado em tecnologia. O ambiente acadêmico, fundamentado na interdisciplinaridade, que permitiu a criação do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da
Universidade Tecnológica Federal do Paraná pelo Professor João Augusto Bastos, é o
sustentáculo de atividades com a efetiva integração de pesquisas e formação de competências. A convergência de horizontes no sentido de ampliar as relações de intercâmbio
entre a tecnologia, o homem e a natureza trouxe para o Programa a inserção de debates
sobre a criação humana. Com a organização do Grupo de Pesquisa Tecnologia e Meio
Ambiente – TEMA no programa reforça-se práticas educativas interativas entre as
realidades do mundo do trabalho e as conseqüências para o meio ambiente da produção dos bens biológicos e culturais. Ao desenvolver a capacidade de pensar, de ler, de
analisar temas que tratam da questão ambiental, os estudantes e professores passam a
ter uma melhor compreensão da função ética e humana de seus atos enquanto cidadão
do Planeta.
1. INTRODUÇÃO
A multiplicação de modelos de comportamentos crítico-reflexivos nasce de temas,
de intenções de pesquisa, e do ambiente para o exercício do pensamento científico, integrado com as realidades socioeconômica e ambiental. Docentes e discentes dispostos
a superar limitações e prontos para abraçar o exercício e o aprendizado interdisciplinar
resolveram desenvolver um espaço de pesquisa acadêmica em nível de pós-graduação,
na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, para preencher um vazio e construir
coletivamente o conhecimento.
O Programa de Pós Graduação em Tecnologia, interdisciplinar, possui três linhas
de pesquisa – Tecnologia e Trabalho, Tecnologia e Interação e Tecnologia e Desenvolvimento, cujos eixos norteadores estão inseridos em dimensões teóricas, dentre elas a
da Educação Ambiental, construções sustentáveis, e da Sustentabilidade. As propostas
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de trabalho para os estudos ambientais do Mestrado de Tecnologia, concentradas na
linha de pesquisa Tecnologia e Desenvolvimento, têm sido um desafio de ensino já que
a questão ambiental, na ordem hierárquica de prioridades, ainda fica aquém do raciocínio da lucratividade das transações econômicas.
A tecnologia, se aliada à conservação e preservação do meio ambiente, provoca
mudanças econômicas, socioambientais e políticas. Os obstáculos do desenvolvimento
tecnológico e sustentável no País são requisitos para se investir no pesquisador, em instituições, programas institucionais e grupos de pesquisadores. Nos cursos de mestrado
interdisciplinares strictu-sensu, que garantem a permanência da continuidade da pesquisa, e da criação de grupos de pesquisa, crescem os interesses pelos estudos ambientais, ainda que em pequena escala, se comparado com as outras áreas de pesquisa.
A cristalização do pensamento reflexivo sobre o grupo de pesquisa Tecnologia e
Meio Ambiente – TEMA permitiu expandir as discussões sobre meio ambiente, ciência e a tecnologia. Elas circulam pelas relações de interlocutores que interpretam, ensinam, e aprendem saberes e conhecimentos. A inserção da linha ambiental nos cursos
de pós-graduação fez parte dos objetivos do TEMA – Tecnologia e Meio Ambiente
desde 2001 - quando a sigla incluía as questões éticas - TEEMA – Tecnologia, Ética, Epistemologia e Meio Ambiente. O professor Ademar Heemann, idealizador do
TEEMA, juntamente com a professora Libia Patricia Peralta Agudelo1 , conseguiram
aglutinar pesquisadores que atuavam na área sócio-ambiental para fazer o diálogo com
a tecnologia. Ambos ancoraram o grupo com suas posturas enquanto críticos e pensadores no sentido de desenvolver, junto com os participantes, o diálogo entre as áreas do
saber e as diferentes interpretações da tecnologia enquanto elemento social das ações
humanas sobre a natureza.
O pesquisador Ademar Heemann acredita que trabalhar com a consciência da interdisciplinaridade, não obstante as limitações disciplinares, e do próprio conhecimento
do educador, pode “imprimir uma nova dimensão ao seu trabalho, [possibilitando sua
inserção] em um núcleo maior de compreensão da realidade” (1998, p. 16). O Grupo
TEMA continuou sua trajetória nesta linha e hoje funciona como um elo condutor
no desenvolvimento de pesquisas sobre o meio-ambiente e tecnologia. Ele contempla
problemas referentes às necessidades urbanas de Curitiba e da Região Metropolitana, e
investe na ciência, na tecnologia e na visão estratégica de políticas públicas educacionais de modo a aprofundar as interações entre educação, humanismo e natureza. Outra
questão fundamental das ações do Grupo e que seus pesquisadores se preocupam em
situar a tecnologia no contexto histórico valorizando a reflexão educacional e procurando transpor a perspectiva linear das relações entre o mercado e o desenvolvimento
econômico. Trabalhar a inclusão social, o entendimento profundo dos atos humanos,
a cidadania e a reflexão têm garantido a permanência e a continuidade da pesquisa
interdisciplinar na Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
1. A professora Libia Patricia Peralta Agudelo, PhD é em Ecologia da Paisagem e Geoprocessamento, e
professora da Unibrasil, e o professor Ademar Heemann é doutor em Educação pela Universidade Estadual
de Campinas e professor Sênior da Universidade Federal do Paraná. Ambos foram professores visitantes
do PPGTE/UTFPR entre os anos 2001e 2004.
12
2. PEGADAS HISTÓRICAS
Na década de 1990, o Professor Doutor João Augusto Bastos2 , preocupado e orientado para realizar ações dentro das políticas de educação científica, vinculadas à tecnologia, projetou a viabilidade de um curso para estabelecer relações entre educação,
ciência e tecnologia. Naquele momento ele era funcionário do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ. Quando ele se debruçou sobre a
empreitada, as primeiras iniciativas se voltaram para um levantamento das instituições
federais, estaduais e locais que estavam promovendo pesquisas sobre o tema. A conclusão foi que muitos programas nacionais de pós-graduação em educação investiam
em pesquisas nessa área do conhecimento sem estabelecer diálogos freqüentes com a
tecnologia, mas as redes de escolas técnicas, agrotécnicas, centros de educação tecnológica careciam de um espaço de discussão condutor de movimentos para desenvolver
pesquisas que enfrentassem o desafio da interdisciplinaridade.
No CNPQ, o Centro de Política Científica e Tecnológica foi estruturado para impulsionar o fluxo das decisões de ordem estratégica e política. Parte da energia foi
lançada para um campo pleno de fendas e segmentações, porém a força e a dedicação
de pesquisadores trouxeram a cristalização dos investimentos na educação técnica, no
trabalho e na educação tecnológica. Da manifestação do processo à realização houve a
compreensão do que seria a trilogia Ciência, Educação e Tecnologia.
Era interesse do Professor João Augusto Bastos, enquanto pesquisador, estimular a
dinâmica da troca de conhecimentos na educação tecnológica. Ele precisava escolher
um espaço físico para colocar suas idéias em prática. Primeiramente, era preciso situar
no país um Centro Federal de Educação Tecnológica – CEFET - avançado, o qual pudesse implementar as políticas do CNPQ e os mecanismos de interrelação eficientes,
os quais permitissem a pujança de novas experiências institucionais.
O CEFET-PR, hoje a primeira Universidade Tecnológica Federal do Paraná, situado na cidade de Curitiba, apresentava em 1994 um corpo docente e um discente dispostos a superar limitações, prontos para abraçar o exercício e o aprendizado interdisciplinar, e desenvolver um ambiente de pesquisa acadêmica em nível de pós-graduação.
Era preciso reconhecer que havia uma luta que se anunciava, mas os pesquisadores
da Instituição portavam em suas mãos as ferramentas para construir coletivamente o
conhecimento proposto e desejado. O professor João Augusto Bastos, na frente desse
excepcional desafio, uma obra de arte, conseguiu reunir as forças externas e internas
dos dirigentes da Instituição, dos representantes de órgãos governamentais, e dos peritos de instituições de fomento, e dar formas e contornos para os desenhos e projetos
de um programa de mestrado capaz de espelhar as relações entre educação, ciência,
tecnologia, e inovação tecnológica.
3. TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE
Ainda que as questões ambientais não apareçam explicitamente no corpo da orga2. O pesquisador e professor concluiu seu doutorado na França, no Institut Catholique de Paris, e o seu
texto versou sobre o conhecimento como categoria analítica. Ele foi o fundador do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
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nização do PPGTE na década de 90, elas encontravam-se nas tramas da interdisciplinaridade. Havia uma comunicação pensada entre as áreas. Uma composição hábil entre
Inovação tecnológica, educação tecnológica e criatividade não se contrapuseram às novas formas de produzir, e nem às propostas de desenvolvimento do país que respeitam
o meio ambiente. Explicitamente, essas idéias aconteceram de uma forma diferenciada, e perdurou o espírito da integração de áreas para gerar novos conhecimentos.
Os esforços se reuniram na pesquisa e admitiu-se a livre circulação entre a educação e a natureza. A vertente educacional estaria incumbida de apoiar os estudos
científicos sobre sustentabilidade, e a construção de novos paradigmas alicerçaria as
discussões entre professores e alunos. Assim pensou o professor João Augusto Bastos
quando aceitou a participação do professor Eloy Fassi Casagrande Jr. e suas pesquisas
na área ambiental, no PPGTE, em 1997. Concretizava-se o início da construção de
pontes para atravessar mares dantes nunca navegados, reproduzindo as palavras do
poeta Camões quando abordou as navegações portuguesas para os continentes americanos no século XVI.
Antes mesmo do atual debate global sobre a possibilidade de um “desenvolvimento
sustentável”, Schumacher (1973), autor de “Small is Beautifull”, defendia “uma tecnologia com face humana”, que pudesse ser intermediária (intermediate technology),
contrária a uma tecnologia automatizada de larga escala, controlada por grandes organizações e de alto custo financeiro. Também chamada de “Tecnologia Apropriada”,
esta apresenta uma mudança de enfoque do “serviço da ciência” para a sociedade, em
que transformações culturais, sociais e políticas ocorrem para implantar-se condições
para uma produção local, com recursos da mesma área, e participação direta de uma
comunidade, sem a relação de hierarquia que caracteriza a chamada “tecnologia de
ponta” (CASAGRANDE JR, 2004).
A educação, a inovação tecnológica, o desenvolvimento, a gestão, os processo produtivos industriais apresentam outro lado da moeda: poluição, devastação, emissão
de gases, contaminações, resíduos e alterações climáticas. No livro “Colapso – como
as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso”, o geógrafo Jared Diamond nos relata com dados históricos e científicos como ocorreu o “eco-suicídio” de grandes civilizações, isto é, as que exploraram em excesso os recursos naturais, movidos pela
necessidade ou pela imprevidência, caminharam para o fracasso e sua total extinção.
Ao contrário daquelas, que entenderam a tempo que a continuidade da vida estava intimamente associada às suas capacidades de se adaptarem às mudanças. Sociedades que
souberam cuidar dos seus recursos naturais foram mais bem sucedidas ao se anteciparem quanto às alterações climáticas e ambientais de modo a conseguiram superá-las.
(DIAMOND, 2006).
Foi a iniciativa de dinamizar as pesquisas no PPGTE que funcionou como uma
alavanca para os desafios do intercâmbios entre as áreas de conhecimento. “O Programa nasceu sob a égide da inovação” (BASTOS, 2006), destacando a modalidade da
formação educacional. Então, é preciso preparar especialistas para trabalhar dentro dos
princípios da sustentabilidade ambiental e empresarial.
As questões ambientais passam a interferir nas formas de produzir, vender e com14
prar. Hoje, fala-se em madeira certificada, em selo verde, em água limpa, em participação em programas de responsabilidade social, e em formas de alcançarmos a cidadania. Dentro do difícil diálogo com a linha de pesquisa “tecnologia e desenvolvimento”,
formada nos anos 1999/2000, pela sua natureza de trabalhar com exclusividade os
processos do segmento industrial privilegiando a instrumentalidade, a funcionalidade,
a técnica, foram introduzidos mais especialistas para reforçar a área do meio ambiente
na produção social e industrial.
É impossível sonhar com um pensamento homogêneo que sustente as relações sociais. Por isso, vivemos a realidade de uma crise entre pensadores, responsável pela
fragmentação das idéias do corpo docente na área do desenvolvimento do PPGTE. O
desenvolvimento pode acontecer sem agredir a natureza e os seres humanos. “Não é
produção para aumentar o capital, mas para promover a sociedade e a inclusão social”
(BASTOS, 2006).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O risco de segmentar está presente na biologia da vida. Então como resgatar a
visão global das três linhas de pesquisa – trabalho, interação e desenvolvimento - do
PPGTE? O grande corpo desses tentáculos é a educação, diz o professor João Augusto
Bastos. O processo precisa ser reinventado. Precisamos acordar a “Bela Adormecida”
para informá-la que já não podemos mais contemplar a natureza sem a tecnologia, e
que nessa paisagem existem obras humanas que se interpõem na visão do horizonte.
Para Casagrande Jr. (2004), a interação entre inovação e educação tecnológica ajustada a nossa realidade e associada aos princípios do desenvolvimento sustentável, é
o que poderíamos chamar de inovação tecnológica sustentável. Esta pode acontecer
através de estratégias de transição construídas sob uma plataforma de práticas interdisciplinares. Assim como, através de esforços inter-institucionais para que haja uma
ecologização de orgãos públicos de educação, sociedade civil e iniciativa privada, para
que as sirvam de agentes de transformação e implantação de processos sustentáveis.
Recuperar o tema da educação interativa, isto é, da inovação, da tecnologia e do
meio ambiente, significa abandonar as discussões ambivalentes de progresso e do domínio da natureza. Ela se estende para os campos das pesquisas científicas e políticas
que formam o cidadão pensante, capaz de mudar sem se ofender, nem sentir dor pelo
que ele mesmo fez ao Planeta. O problema de pensar, de enfrentar a contradição, de
perceber as transformações operadas hoje nas diferentes ciências da natureza e do homem está na força da incerteza sobre a certeza. Uma comunidade científica que aspira
ao saber, à verdade usufrui de uma liberdade capaz de incluir o ser humano, o sujeito
individual, a cultura, a sociedade no sentido de mobilizar os princípios e as potencialidades construtoras do conhecimento considerando os antagonismos e os conflitos
presentes nas práticas do pesquisador observador-conceptor.
5. REFERÊNCIAS
AGUDELO, P.& HEEMANN, A. Tecnologia, Sociedade e Meio Ambiente: instrumentos para uma abordagem ambiental conceitual e operacional integrada. Publica15
ção do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE-CEFET-PR (Coletânea
“Educação e Tecnologia CEFET-PR). Curitiba: Editora do CEFET-PR, 2001, 256p.
BASTOS, J. A. O Programa de Pós-Graduação em Tecnologia do Centro Federal de
Educação Tecnológica CEFET-PR: história e perspectivas. In: Revista Educação &
Tecnologia. Curitiba: CEFET-PR, 2003, n. 6, p. 11-52.
CASAGRANDE JR, E. F. Inovação Tecnológica e Sustentabilidade: Possíveis Ferramentas para uma necessária interface. Revista Educação & Tecnologia. Tecnologia,
Energia e Sustentabilidade. Centro Federal de Educação tecnológica do Paraná. n.8,
2004.
DIAMOND, J. Colapso - Como as Sociedades Escolhem o Fracasso ou o Sucesso- São
Paulo: Record, 2006
ENTREVISTA com o Professor João Augusto Bastos cedida para Maclovia Corrêa da
Silva no dia 17 de outubro de 2006 no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da
Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
HEEMANN, A. Natureza e Ética. Curitiba, Ed. da Universidade Federal do Paraná,
1998.
PALESTRA realizada em 2001 no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE-CEFET-PR pelo coordenador e idealizador do PPGTE, professor João Augusto
S.L.A. Bastos.
REVISTA EDUCAÇÃO & TECNOLOGIA. Tecnologia, Energia e Sustentabilidade.
Curitiba, Centro Federal de Educação tecnológica do Paraná, n.8, 2004.
SCHUMACHER, E. F. Small is Beautifull. London: Blond & Bridges, 1973.
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EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO MEDIADOR:
AS DISSERTAÇÕES NA PÓS-GRADUAÇÃO DA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Alessandra Aparecida Pereira Chaves (1); Letícia Lopes Koehler (2); Samira
Leme (3); Maclovia Corrêa da Silva (4); Eloy Fassi Casagrande Jr. (5)
(1) Pedagoga da Rede Municipal de Ensino de Curitiba, aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia - PPGTE/UTFPR
2) Jornalista, participante do Grupo de Pesquisa Tecnologia e Meio AmbienteTEMA/PPGTE
(3) Bióloga, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE/
UTFPR
(4) Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR,
doutora em Planejamento Urbano e Regional pela FAUUSP;
(5) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR
RESUMO
A Educação Ambiental (EA) é vista como instrumento mediador para unir os esforços
necessários à mudança de comportamento para a melhoria das condições ambientais
do planeta e a manutenção da vida. O presente artigo pretende apresentar, a partir da
produção acadêmica de programas de Pós-Graduação da UTFPR, como temas correlacionados à Educação Ambiental e ao meio ambiente assumem tendências de pensamento que circulam pela tecnologia, indústria, consumo e práticas culturais de forma
sistêmica. Essas correlações resultam em diversas formas de interação nos mais variados ambientes que compõe a comunidade acadêmica. Através das pesquisas e debates
busca-se fomentar estudos no âmbito da pós-graduação no sentido de abranger a educação ambiental, o meio urbano e a sustentabilidade. Nas produções dissertativas dos
estudantes, pode-se observar a preocupação na formulação de procedimentos para o
ser humano e o ambiente que o acolhe, dando à educação ambiental um papel relevante
na resolução de conflitos.
1. INTRODUÇÃO
As novas tecnologias, disponíveis no cotidiano da humanidade exigem das pessoas
uma reciclagem constante de conhecimentos voltados para a incorporação de técnicas,
criando assim uma dependência de produtos e serviços ofertados. Essas transformações permeiam vários segmentos da sociedade, entre eles as instituições de ensino,
desde a Educação Infantil até aos cursos de Pós-Graduação. As instituições de ensino
procuram fazer ajustes aos cristalizados conceitos de disciplinas, grade curricular e
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conhecimentos registrados como basilares para a formação do ser social, embora estas
transformações sejam lentas, ainda correm o risco de perder o foco de seus objetivos,
como educar para a cidadania, a solidariedade, a cooperação, a criticidade, o diálogo,
o respeito à pluralidade cultural e ao meio ambiente. É papel fundamental das instituições de ensino fazer com que o estudante perceba-se como parte integrante, dependente e agente transformador do ambiente (BRASIL, 2000).
No ensino superior, o estudante opta por uma carreira profissional, que poderá ou
não seguir por toda sua vida e a instituição de ensino deve nortear sua prática pedagógica, de forma a estabelecer o estreitamento entre a sociedade, carreiras profissionais
e os princípios da instituição. As disciplinas ofertadas precisam voltar-se para a formação do ser integralmente, fazendo-o perceber-se como transformador da realidade
social, ambiental, econômica e tecnológica. Dessa forma pode ser necessário mudar
paradigmas que estão enraizados nas ementas curriculares das instituições de ensino,
para que as mesmas não fiquem alienadas às mudanças dos diversos segmentos da
sociedade.
Para discutir temas que perpassam pelas aproximações entre as disciplinas e o meio
ambiente, na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR foi criado em
2001 um espaço de discussão representado por um Grupo de Estudos e Pesquisa em
Tecnologia & Meio Ambiente (TEMA), o qual é composto por docentes e discentes do
Programa de Pós-graduação em Tecnologia, PPGTE, além de outros membros convidados. O CNPQ – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
incentiva os programas de pós-graduação a criar grupos de pesquisa no sentido de
fomentar atividades de descoberta de novos conhecimentos e saberes.
O objetivo do TEMA é examinar as questões ambientais com mais profundidade, sintetizar idéias, reunir os conhecimentos de professores e estudantes sobre Meio
Ambiente, além de questionar enfoques de temáticas conflitantes como as relações
entre Tecnologia e Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Gestão Rural e Urbana, Educação Tecnológica e Ambiental, Sistemas de Gestão Ambiental, Métodos de
Avaliação de Impacto Ambiental, Conflitos Sócio-Ambientais e Programas e Políticas
Ambientais. Além disso, procura-se levar para a pesquisa de campo muitos debates,
trabalhando com metodologias de levantamento de dados que permitem situar os problemas locais que atingem as populações e apresentar soluções sustentáveis.
O Grupo TEMA participa de simpósios, seminários, congressos e debates sobre
Educação Ambiental e Sustentabilidade e reestrutura idéias para produzir novos saberes e conhecimentos. A interação entre estudantes, professores e demais pesquisadores
de diversas áreas do conhecimento, facilita a compilação de informações e o surgimento de novos saberes.
1. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA UTFPR
Reigota (2006, p.10) defende que a Educação Ambiental "deve ser entendida como
educação política, no sentido em que ela reivindica e prepara os cidadãos para exigir
justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e
com a natureza". O homem não está sozinho, não vive sozinho, ele é interdependente
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das outras espécies animais, vegetais e dos minerais e por isso precisa preservá-las.
Este entendimento de inter-relacionamento homem-natureza foi abortado pelo pensamento cartesiano, base da ciência e do ensino até o momento atual. Apesar da crise
ambiental ser percebida por grande parte da pela sociedade, observa-se que a Educação
Ambiental ainda não acontece de forma transversal nos cursos de graduação e de pósgraduação da UTFPR. Geralmente, nos cursos de graduação que têm grande ênfase na
tecnologia, a discussão ambiental é colocada em disciplinas isoladas que não abordam
o contexto daquele curso na qual está inserida. Este é o caso, por exemplo, das “Ciências do Ambiente” ministrado nos cursos de engenharias, não focando especificamente
nos impactos sócio-ambientais relacionados as técnicas e tecnologias ensinadas na
engenharia.
No caso da pós-graduação, se têm iniciativas de linhas de pesquisa que foram propostas por professores que atuam na área ambiental. E muitos casos, também acabam
por trabalhar na sua linha sem ter uma interface com as outras linhas de pesquisa. Para
se entender este processo, basta verificar na tabela 1 o baixo número de dissertações
defendidas que tem uma relação direta e indireta com a educação ambiental, encontradas exclusivamente num único programa.
A Educação Ambiental deve contribuir para a mudança de olhares sobre a natureza,
sobretudo quando ela for uma ação educativa com enfoque sócio-ambiental. Nesse
processo sucedem-se (re)significações de práticas, as quais concorrem para serem bem
sucedidas quando voltadas para a consecução de objetivos e resultados que reduzam as
contradições entre o real e o ideal (FLORIANI, 2007).
Os assuntos relacionados com Desenvolvimento Sustentável, Meio Ambiente, Pegada Ecológica e Preservação da Natureza, não precisam ser tratados numa disciplina específica, mas podem ser abordados de forma interdisciplinar. Segundo Floriani
(2004, p. 36):
[...] no campo socioambiental, os fundamentos teóricos da produção do conhecimento estão associados com metodologias alternativas, como da interdisciplinaridade,
que é entendida como a articulação de diferentes disciplinas para melhor compreender
e administrar situações de acomodação, tensão ou conflito explícito entre as necessidades humanas, as práticas sociais e as dinâmicas naturais.
Nos últimos anos, pós-graduandos da UTFPR fizeram suas pesquisas aliando assuntos diversos ao meio ambiente, desenvolvimento sustentável, entre outros temas
da área ambiental e tais pesquisas, frente à realidade, vêm motivar uma ampliação da
discussão sobre essa temática.
2. CONTRIBUIÇÕES DOS PÓS-GRADUADOS DA UTFPR PARA AS
DISCUSSÕES AMBIENTAIS
Falar sobre questões ambientais no senso comum pode parecer ser simples
mas analisar a complexidade das soluções, exige a ajuda da ciência e da tecnologia.
Quando adquirimos um produto ou usufruímos de um serviço, não contabilizamos nos
seus valores os efeitos da poluição, a exploração de recursos naturais e ainda qual será
o destino dos lixos gerados pelas indústrias e pelos seres vivos. Por isso a importância
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de se pesquisar e compartilhar informações confiáveis sobre os impactos ambientais
das ações humanas para produzir artefatos.
Essa preocupação é o núcleo das recentes discussões na sociedade, e os pós-graduandos da UTFPR que se dedicaram a desenvolver as idéias de Educação Ambiental
como instrumento mediador de soluções, focaram suas pesquisas em assuntos relacionados a esta problemática. Em pesquisa virtual realizada na Biblioteca de Pós-Graduação da UTFPR, através do site3 (Busca: Livre - Ordenação: por título - Biblioteca
de Pós-Graduação - Tipo de Obra: Dissertações), foram encontrados trabalhos que
abordavam de forma ampla a questão ambiental, porém verificou-se que nove autores
voltaram suas pesquisas mais categoricamente para os temas da Educação Ambiental,
do Meio Ambiente e da Sustentabilidade, conforme mostra o gráfico a seguir:
Figura 1 - Resultados da pesquisa com três palavras-chave
Gráfico 1: Áreas das produções acadêmicas do PPGTE entre 1997 e abril/2009.
Fonte: Elaborado pelos Autores
Fonte: http://biblioteca.utfpr.edu.br/pergamum/biblioteca/index.php
Delimitado o tema de estudo à Educação Ambiental, das 21 dissertações, foram escolhidos nove textos cujos títulos contêm as palavras-chave “educação” e “ambiental”,
usadas juntas ou separadamente. Para facilitar a análise dos conteúdos e a verificação
dos enfoques escolhidos para exame, eles foram classificados em três categorias: a)
educação formal e informal; b) energia e mudança de comportamento; e c) resíduos
sólidos urbanos. Na Tabela 1 estão sintetizados os tópicos tratados pelos autores e a
incidência de registros encontrados para cada categoria idealizada.
3. Site de busca da biblioteca consultado: http://biblioteca.utfpr.edu.br/pergamum/biblioteca/index.php
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Tabela 1 – Relação das dissertações da pós-graduação da UTFPR que tratam de
educação ambiental
Fonte: http://biblioteca.utfpr.edu.br/pergamum/biblioteca/index.php
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As dissertações mencionadas na Tabela 1 configuram-se numa importante fonte
de pesquisa para as pessoas que pretendem aprofundar seus conhecimentos na área
ambiental. Outra forma de ampliar o conhecimento sobre o tema é verificar como os
autores das dissertações fizeram uso dos conceitos, definições e teorias registrados nos
livros, nos sites e na legislação. Nesse artigo se faz um sobrevôo sobre os pontos principais dos trabalhos a fim de estimular a curiosidade dos leitores e apresentar, de uma
forma geral, as percepções e interpretações das questões ambientais.
Na dissertação “Abordagem ambiental: perspectivas e possibilidades, uma
prática pedagógica integradora”, Carletto (1999) remete à adoção de metodologias
que podem propiciar a aprendizagem ambiental no contexto da educação profissional
e tecnológica. A autora entrevistou professores e alunos do antigo CEFET-PR e alunos
paranaenses participantes do Fórum Infanto-Juvenil do Meio Ambiente do Mercosul.
Os resultados apontam caminhos para a inserção da abordagem ambiental no processo
educativo.
Moraes (2000) em seu estudo “Um espaço comunicativo entre a tecnologia ambiental, a engenharia química e a educação tecnológica” fundamenta conceitos de tecnologia ambiental, engenharia química e educação tecnológica ao apontar para um
ponto de interseção entre estes campos de conhecimento, sempre buscando o estado da
arte no que lhes refere. O autor usa o pensamento habermasiano para definir um ponto
de convergência entre eles, a fim de proporcionar-lhes uma base ética comunicativa.
Por fim, o trabalho aponta para práticas determinantes na construção de disciplinas
obrigatórias voltadas ao meio ambiente.
Erbe (2001) em sua dissertação “Resíduos dos serviços de saúde: riscos, gestão e
soluções tecnológicas” relata que foi à Alemanha buscar soluções tecnológicas para a
questão dos resíduos que pudessem ser aplicadas no Brasil. Ela realizou parte de sua
pesquisa na cidade de Freiburg e a pesquisa de campo foi realizada no Brasil, abordando questões sobre a água potável e a falta de políticas públicas para o gerenciamento
de recursos hídricos.
Mello (2001) em seu trabalho “A questão do formalismo no discurso oficial da
educação ambiental”, relata que a elaboração e implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs apresenta indícios de formalismo no discurso oficial da
educação ambiental. (BRASIL, 2000). A autora destaca que a caracterização do formalismo serve de alerta para que a inclusão do tema meio ambiente nos currículos seja
vista com cautela, não só pelo conteúdo contraditório que possa apresentar, mas pela
forma como a mesma é conduzida.
Segundo Souza (2002), em sua dissertação “Análise da aplicação da educação ambiental formal e informal em áreas de mananciais: um estudo de caso em um município
da região metropolitana de Curitiba” há necessidade de que as diretrizes de educação
se estendam para os educadores da Escola, passando também pelos alunos e as famílias
envolvidas, fato este que pode melhorar as questões educacionais em relação ao meio
ambiente, principalmente para se entender como valorizar os recursos hídricos.
Shafa (2003) em seu trabalho “Mudança de comportamento, elemento essencial na
conservação de energia” fez uma pesquisa de campo que teve como objetivo verificar
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como o uso final de energia é gerenciado nos edifícios comerciais de Curitiba, para
posteriormente “apresentar recomendações, inspiradas nos estudos bibliográficos, sobre uma melhor valorização da energia e dos recursos naturais, com base em interação,
cooperação e compromisso com o nosso futuro comum”.
A pesquisadora Fischer (2004) em sua dissertação “Energia elétrica: um indutor de
mudanças na comunidade da vila da barra do Superagui – entorno do Parque Nacional
do Superagui – Paraná”, constatou que os novos modelos de exploração da área da
Serra do Mar, impostos pela atividade turística, são diferentes daqueles dos nativos
daquela região, que eram marcados pelas relações com a natureza. Ela afirma em seu
trabalho que “a existência da eletricidade e de artefatos tecnológicos, bem como a
presença do turista, estão provocando tensões múltiplas em aspectos do cotidiano dos
moradores”. Sua preocupação está fundamentada no fato de a Vila da Barra do Superagüi ficar no entorno de uma unidade de conservação de proteção integral no bioma da
Mata Atlântica, o Parque Nacional do Superagüi.
Gonzalez (2006) em sua dissertação “Educação pela ação ambiental: a coleta seletiva de resíduos em um departamento de instituição superior de ensino” contribui com
modelos de questionários e levantamentos para aqueles pesquisadores que queiram
enfatizar a importância de discutir as inter-relações entre pressupostos da Educação
Ambiental e a coleta seletiva de resíduos sólidos. Também houve destaque para a Tecnologia, que segundo o autor, é fator determinante na complexidade dos sistemas de
coleta seletiva.
A autora da dissertação “Educação ambiental, arte e tecnologia: ações educativas
de aproveitamento de resíduos sólidos urbanos”, Oliveira (2007), discorre sobre o desenvolvimento de práticas para ações de Educação Ambiental que podem ser idealizadas por meio de oficinas, e aplicadas para grupos de pessoas da educação formal e
informal, unindo saberes e conhecimentos de arte e tecnologia.
A pesquisadora Guelbert (2008), em sua dissertação denominada “Proposta de modelo de desenvolvimento socioambiental para municípios de pequeno porte a partir do
gerenciamento integrado dos resíduos sólidos urbanos (GIRSUs)”, propôs um modelo
de gerenciamento dos resíduos que visa à inclusão social, geração de emprego e renda
e melhoria na qualidade de vida de pessoas que atuam na coleta de materiais recicláveis.
Essas pesquisas comentadas acima fundamentam discussões que estão sendo desenvolvidas no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, sob a orientação de professores interessados em articular a tecnologia com as questões ambientais. Mesmo
que a semente ainda esteja germinando, o importante é alimentá-la para que haja um
crescimento de interesse sobre o tema. O importante é pesquisar e divulgar como a
Universidade Tecnológica Federal do Paraná está atenta às mudanças necessárias para
preservar e conservar o meio ambiente e fazer uso de seu potencial educativo para
colaborar com a vida de todos os habitantes do Planeta.
2. CONSIDERAÇÕES
É essencial o desenvolvimento de pesquisas que envolvam questões relacionadas
23
com meio ambiente, sustentabilidade e educação ambiental a fim de atualizar e procurar refazer os conceitos pré-formulados pela humanidade ainda presa ao extrativismo e
abrir caminhos para construir novos conceitos e reflexões sobre as ações humanas.
O Grupo de Pesquisa TEMA ao apoiar o desenvolvimento de discussões na área
ambiental colabora com os interesses de pesquisadores preocupados em contribuir
para um mundo mais sustentável, e busca transformar e inserir diferentes olhares às
pesquisas na UTFPR. As dissertações analisadas apontam para esforços, mesmo que
espaçados no tempo, no sentido de refletir sobre um espectro de temas que se voltam
para o comportamento, atitudes e hábitos dos seres humanos os quais requerem mudanças e adaptações às necessidades das gerações presentes e futuras.
Em todo o mundo, nas mais distantes localizações, as escolas, sejam elas espaços
de educação formal ou informal, práticas ou teóricas, têm tido papel fundamental na
elaboração de projetos de pesquisa, no desenvolvimento das ações humanas, as quais
podem se estender para resolução de conflitos e das contradições presentes na área
ambiental. Através da Educação Ambiental, enquanto instrumento mediador torna-se
possível disseminar ensinamentos que solidifiquem os saberes e conhecimentos das
relações homem e natureza. O estímulo dos alunos para a mudança de hábitos condizentes com os princípios de sustentabilidade pode nascer na mais tenra idade, e seguir
durante a construção e a formação de valores socioambientais.
3. REFERÊNCIAS
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Curitiba: Editora e Gráfica Expoente, 2006.
BRASIL. PCN’s. Parâmetros curriculares nacionais: apresentação dos temas transversais: ética. Secretaria de Educação Fundamental. Rio de Janeiro, 2000.
CADERNOS DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE. N. 1. Interdisciplinaridade, meio ambiente e desenvolvimento: desafios e avanços do ensino e da pesquisa. Curitiba: Editora UFPR, 2004.
CARLETTO, M. R.. Abordagem ambiental: perspectivas e possibilidades de uma prática pedagógica integradora. 1999. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná,
Curitiba, 1999.
ERBE, M. C. L.. Resíduos dos serviços de saúde: riscos, gestão e soluções tecnológicas. Dissertação. 2001. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de
Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba:
2001.
FISCHER, D. Energia elétrica: um indutor de mudanças na comunidade da vila da barra do Superagüi - entorno do parque nacional do Superagüi - Paraná. 2004. Dissertação
(Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba: 2004.
FLORIANI, D & KNECHTEL, M. Educação ambiental, epistemologia e metodologias. Curitiba: Vicentina, 2003.
GONZALEZ, C. E. F. Educação pela ação ambiental: a coleta seletiva de resíduos só24
lidos em um departamento de instituição superior de ensino. 2006. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade
Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2006.
GUELBERT, T. F. Proposta de modelo de desenvolvimento socioambiental para municípios de pequeno porte a partir do gerenciamento integrado dos resíduos sólidos
urbanos (GIRSU’s). 2008. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de PósGraduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba,
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HAWKEN, P. LOVINS, A. LOVINS, H. Capitalismo Natural: criando a próxima revolução industrial. São Paulo: Cultrix, 2007.
MELLO, L. M. de. A questão do formalismo no discurso oficial da educação ambiental. 2001. Dissertação. (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em
Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba: 2001.
MORAES. P. E. S. Um espaço comunicativo entre a tecnologia ambiental, a engenharia química e a educação tecnológica. 2000. Dissertação (Mestrado em Tecnologia)
–. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do
Paraná, Curitiba: 2000
OLIVEIRA, M. V. de. Educação Ambiental, arte e tecnologia: ações educativas de
aproveitamento de resíduos sólidos urbanos. 2007. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal
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REIGOTA, M. O que é educação ambiental. São Paulo: Brasiliense, 2006.
SHAFA, M. Mudança de comportamento: elemento essencial na conservação de energia. 2003. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação em
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SOUZA, L. A. de: Análise da aplicação da educação ambiental formal e informal em
áreas de mananciais: um estudo de caso em um município da região metropolitana de
Curitiba. 2002. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) –. Programa de Pós-Graduação
em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba, 2002.
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ. Biblioteca. Disponível em: <www.ct.utfpr.edu.br/biblioteca> Acesso em 28 abr
25
A DISCUSSÃO DA SUSTENTABILIDADE NAS PRODUÇÕES
ACADÊMICAS DE NÍVEL STRICTO SENSU DA UTFPR: ÊNFASE NA
CONSTRUÇÃO CIVIL
Andressa Ferrari (1), Carina Zamberlan Flores (2), Eloy Fassi Casagrande
Junior (3) Maclovia Corrêa da Silva (4)
(1) Arquiteta, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE,
UTFPR;
(2) Arquiteta, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Engenharia CivilPPGEC, UTFPR;
(3) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Prof. do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR;
(4) Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR,
doutora em Planejamento Urbano e Regional pela FAUUSP.
RESUMO
A sustentabilidade é um conceito global que traz a necessidade de um melhor aproveitamento de todos os recursos sem esgotá-los, garantindo as necessidades das gerações
futuras. Dentro do contexto da problemática sócio-ambiental, cada vez mais são necessárias ações individuais, coletivas, públicas e privadas para um crescimento consciente, se fazendo necessário um maior incentivo a temática dentro das instituições de
ensino. Este artigo trata do problema da inserção da discussão da sustentabilidade e de
questões ambientais no que se refere à reflexão e aos problemas de pesquisa abordados
por estudantes de pós-graduação (mestrado) na UTFPR. Através de um levantamento
de dados sobre dissertações e teses, produzidos dentro da instituição, se faz uma avaliação do crescimento ou decréscimo de trabalhos relacionados ao tema “sustentabilidade” e as áreas aos que se relacionam (tecnologia, construção civil, agronegócios,
entre outros). A conclusão é que de mais de 1000 teses de dissertações defendidas em
08 programas analisados até 2009, somente cerca de 5% estão relacionadas a temática
ambiental e a sustentabilidade. Se por um lado têm-se um avanço da discussão ambiental na sociedade, ainda se necessita de uma política pedagógica de ensino e pesquisa
mais efetiva para que a sustentabilidade seja entendida como um tema transversal na
pós-graduação da UTFPR.
1. INTRODUÇÃO
A necessidade do homem de ocupar os espaços, construir cidades, o advento da
revolução industrial e também do capitalismo fez com que a preocupação com os recursos naturais e com a degradação ambiental não fosse um fator predominante a ser
pensado até poucas décadas atrás. Muitos problemas decorrentes de um modelo ultra26
passado de desenvolvimento refletem hoje conseqüências de uma ocupação e crescimento acelerados impossíveis de serem escondidas ou deixadas de lado. A observação
de problemas de ordem social, econômica, política e ambiental junto a uma nova conscientização da humanidade vem trazendo um aumento nas discussões daquilo que é ou
não é sustentável para o crescimento dos países e suas economias. Hoje o homem se
encontra num momento de alto nível tecnológico, com tendências a um crescimento
ainda maior, porém, esse desenvolvimento tecnológico requer recursos naturais, financeiros, humanos, e também precisa de limites incorporando valores ambientais de
grande importância. O presente trabalho trata do problema da inserção desta discussão
e do conceito de sustentabilidade nos programas de pós-graduação da Universidade
Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) como forma de aumentar a conscientização
da comunidade acadêmica sobre os efeitos de nossas ações e nosso modelo de consumo. Neste sentido, grupo de pesquisa da UTFPR em Tecnologia e Meio Ambiente
(TEMA), ligado a um dos programas da pós-graduação da instituição, tem como objetivo estimular a reflexão sobre o modelo tecnológico adotado e seus impactos ambientais e sócio-econômicos, dentro da universidade e na sociedade como um todo.
2. SUSTENTABILIDADE NA CONSTRUÇÃO CIVIL
O entendimento da sustentabilidade ainda é bastante recente nas atividades relacionadas à construção civil, mas já ocupa um espaço nas preocupações globais sobre
o meio ambiente. O setor é responsável por gerar grande quantidade de resíduos e ser
grande consumidor de recursos naturais não renováveis, principalmente água e energia, gerando graves impactos ambientais, tais como: uso descontrolado e até mesmo
desnecessário de recursos; destino impróprio de efluentes e resíduos sólidos; uso de
materiais tóxicos, impermeabilidade do solo, entre outros.
O setor hoje consome cerca de 40% de energia do mundo, colocando-o, portanto
como um significativo contribuinte para o problema do aquecimento global. Conforme
dados apresentados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas o setor é
responsável por grande parte da emissão de gases do efeito estufa (CURCI e WEISS,
2008).
Somente o cimento é a terceira maior fonte de emissão de dióxido de carbono do
planeta, atrás apenas da geração de energia elétrica e transporte, sendo responsável por
7 a 10% do total de emissões deste gás (CONPET, 2005).
A produção de materiais da construção civil também está associada as emissões
de Gases do Efeito Estufa (GEE). Em uma das pesquisas realizada realizadas no Programa de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE da UTFPR, calculou-se a emissão de
dióxido de carbono (CO2) resultante da construção de uma casa de interesse social de
40 m2, da COHAPAR - Companhia de Habitação do Paraná. Considerando algumas
variáveis de processos e uso energia, o estudo analisou a emissão de CO2 associada a
produção dos materiais convencionais utilizados em casa populares, como o cimento,
cal, metal, areia, pedra brita, tijolo e telha cerâmica, ficando demonstrado que em média se tem cerca de nove toneladas de CO2 emitidos por casa construída. (STACHERA
e CASAGRANDE JR., 2007).
27
A proposta da construção sustentável (greenbuilding) é vista como uma solução
para minimizar ou mesmo eliminar estes problemas. Conforme Stang (2005) uma
construção sustentável é aquela que é projetada, construída, renovada, operada e até
mesmo reusada de uma forma ecológica e eficiente, com o objetivo de proteção da
saúde e bem estar do ocupante. Isso só é possível através do uso de fontes de energia
mais eficientes e que reduzam o impacto sobre o meio ambiente.
Existe a necessidade de mudança no quadro que se apresenta, e ela se inicia com
uma formação adequada dos profissionais que estão entrando no mercado de trabalho
e atitudes práticas da construção civil, além de políticas de regulamentação e fiscalização de obras, técnicas construtivas e materiais, que começam a serem desenvolvidas
com a exigência de um novo mercado.
Dentro desse contexto, o mercado internacional normalizou a temática da sustentabilidade nas construções, através de vários tipos de certificações. Esses selos voluntários, em geral trabalham dentro de critérios de avaliação de projetos e edificações
contextualizados nas seguintes temáticas: Localização do empreendimento, gerenciamento de água e resíduos, materiais e recursos, qualidade do ambiente interno, energia
e atmosfera, manutenção predial, entre outros. O Brasil importou dois desses modelos, que ainda estão em fase de adaptação, a saber: o certificado LEED (Leadership
in Energy and Environment Design), de origem norte-americana emitido pelo World
Green Building Council (WGBC), e o processo francês HQE (Haute Qualité Environnementale), AQUA em português. Como para os aparelhos eletrodomésticos onde o
selo do PROCEL - Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica já estabelece parâmetros para a eficiência energética, está se apostando na certificação quanto à
eficiência ecológica das construções. Apesar da restrição destes exemplos, eles são os
primeiros passos que o setor começa a dar rumo a uma consciência ambiental.
O CBCS (Conselho Brasileiro de Construção Sustentável), constituído desde 2007,
também trabalha na conscientização a respeito da sustentabilidade dentro do setor da
construção civil, contemplando uma visão sistêmica da problemática envolvendo questões sociais, econômicas, ambientais e da cadeia produtiva da indústria do setor e sua
inter-relação com os setores financeiro, governamental, acadêmico e a sociedade.
3. PRODUÇÕES ACADÊMICAS NÍVEL STRICTO SENSU
DEFENDIDAS NA UTFPR
Levando em conta todos os setores do aprendizado e não apenas o setor da construção civil, verificamos em que aspectos surgem as discussões ambientais e o desenvolvimento sustentável nos trabalhos da UTFPR, em todos os seus campus. Na maioria destes trabalhos está a preocupação com o meio ambiente, não necessariamente
incluindo o conceito de sustentabilidade, por isso foi feita uma análise mais restrita
enumerando os trabalhos com as duas temáticas.
Dentro dos trabalhos levantados encontramos muitos estudos relacionados à questão da eficiência energética dos edifícios, conforto ambiental, materiais, resíduos, e
ciclo de vida de produtos. Todos estes temas se relacionam direta ou indiretamente à
ocupação humana no que diz respeito ao setor de construção civil.
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O programa de pós-graduação nível stricto sensu possui hoje oito cursos em atividade. O programa de pós-graduação em Engenharia Elétrica e Informática Industrial (CPGEI) foi o primeiro programa de mestrado da UTFPR, criado em 1991 com
três áreas de concentração: Engenharia Biomédica, Informática Industrial, Telemática,
contando atualmente com 502 dissertações defendidas. Em 1999, iniciou o doutorado
e hoje tem 42 teses defendidas.
O Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE) teve seu mestrado iniciado
em 1995 e tem sua área de concentração em Tecnologia e Sociedade. É o programa
mais interdisciplinar da UTFPR, oferecendo três áreas de pesquisa: Tecnologia e Desenvolvimento, Tecnologia e Interação e Tecnologia e Trabalho, sendo que tema de
meio ambiente é tratado mais diretamente por professores que compõem a linha de
Tecnologia e Desenvolvimento. Até março de 2009, teve 282 dissertações defendidas,
sendo que o doutorado iniciado em 2008 ainda não tem trabalhos defendidos.
Em 1999 se iniciou o programa de Engenharia Mecânica e Materiais (PPGEM)
oferece quatro áreas de conhecimento para o desenvolvimento de pesquisas: Engenharia de Manufatura, Engenharia de Materiais, Engenharia Térmica e Mecânica de
Fluídos. Até abril de 2009, teve 114 trabalhos concluídos.
O programa de Engenharia de Produção (PPGEP), foi iniciado em 2003 no campus
de Ponta Grossa, com 110 trabalhos defendidos até março de 2009. Ao todo são 1.050
trabalhos defendidos na UTFPR até a presente data, maio de 2009.
Os programas de Pós-Graduação em Engenharia Civil (Campus de Curitiba), Engenharia Elétrica (Campus de Pato Branco), Agronomia (Campus Campo Mourão) e
em Ensino de Ciência e Tecnologia (Campus Ponta Grossa), ainda não possuem trabalhos acadêmicos, pois iniciaram suas aulas recentemente (2009, 2009, 2006 e 2008
respectivamente). O programa de Engenharia Civil (PPGEC) é o primeiro na UTFPR
a ter uma linha de pesquisa diretamente relacionada ao tema, recebendo o nome de
Sustentabilidade e Recursos Hídricos.
O programa de mestrado do PPGTE possui dissertações defendidas a partir de 1997,
mas somente após o ano de 2001 surgem trabalhos que discutem a sustentabilidade e
os problemas ambientais com maior ênfase. Entre 1997 e 2000 foram levantadas apenas quatro dissertações em que se começa a colocar determinadas preocupações, duas
relacionadas à construção civil e duas relacionadas à educação. Após 2001 observa-se
uma maior quantidade de trabalhos relacionados, porém, um número ainda pequeno
comparando-se a produção anual de dissertações. São ao todo 47 trabalhos sob essa
problemática, sendo 23 deles sobre sustentabilidade e 24 sobre questões ambientais em
inúmeros aspectos. (ver gráficos 1 e 2).
Faz-se necessário ressaltar que o PPGTE tem um maior número de teses defendidas
na área ambiental devido o objetivo de seu criador, Professor João Augusto Bastos, que
visava estabelecer as relações entre educação, ciência e tecnologia numa perspectiva
interdisciplinar. Sendo um crítico do modelo de educação tecnológica implantado no
Brasil, comparado muitas vezes a um “adestramento tecnológico”, o Professor João
Augusto viu no PPGTE a possibilidade de pesquisadores desenvolverem num ambiente interdisciplinar a reflexão crítica de como ocorre a interação do ensino e da pesquisa
29
com a educação e a inovação tecnológica. Em 1997, foi proposta a inclusão da dimensão ambiental no programa pelo professor Eloy Fassi Casagrande Jr., trazendo para
área posteriormente outros professores.
Gráfico 1: Áreas das produções acadêmicas do PPGTE entre 1997 e abril/2009.
Fonte: Elaborado pelos Autores
Para Silva e Bastos (2008), as dimensões histórico-cultural, econômico-social, e
ambiental das concepções de tecnologia ajudam a entender os significados do processo
deconstrução do ensino. Assim chega-se à reflexão crítica, partindo da essência, até
ruptura do simples saber-fazer. Os segmentos produtivos da sociedade relacionam-se
com a tecnologia e com o ensino, e hoje, precisam também atrelar suas atividades às
práticas de sustentabilidade.
Gráfico 2: Comparativo das pesquisas do PPGTE entre a área ambiental e sustentável
e outros temas no período de 1998 à 2008.
Fonte: Elaborado pelos Autores
O programa em Engenharia Mecânica e de Materiais possui cinco trabalhos, todos
relacionados ao meio ambiente, abrangendo temas como o ciclo de vida dos materiais,
impacto ambiental dos produtos e resíduos.
O programa de Engenharia de Produção conta com apenas seis trabalhos na área
30
da sustentabilidade e meio ambiente, tratando de problemas como eco-eficiência, reaproveitamento de resíduos, eficiência energética, ciclo de vida e outros; não havendo
uma coesão de temas.
Conforme o gráfico 3, podemos observar qual a porcentagem da temática nos diferentes programas citados anteriormente.
Gráfico 3: Abordagem da sustentabilidade e questões ambientais nas pesquisas de
stricto sensu da UTFPR.
Fonte: Elaborado pelos Autoress
O programa de Engenharia Elétrica e Informática Industrial, em funcionamento
desde 2005, não apresenta até o momento trabalhos diretamente voltados à sustentabilidade.
Em resumo, destes 1.050 trabalhos acadêmicos defendidos até a presente data
(maio de 2009), sendo dissertações e teses, somente 58 abrangem questões voltadas ao
meio ambiente ou sustentabilidade. Isso representa somente 5% do total (ver gráfico
4). Esses dados são preocupantes, tendo em vista que tivemos uma Agenda 21 em 1992
que preconizava uma conscientização da população e somente nove anos mais tarde
começamos a pensar na temática dentro da universidade.
Gráfico 4: Dissertações e Teses defendidas na UTFPR.
Fonte: Elaborado pelos Autores
31
Também temos de considerar o não cumprimento da a Lei nº 9.795, de 27 de abril
de 1999, que dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental. Vê-se claramente as dificuldades para que as diretrizes da lei sejam
inseridas em todos os níveis de ensino, do fundamental ao superior e, quando inserida,
ainda não alcança o sucesso que almeja. Professores associam este fracasso ao fato de
que as ‘pessoas ainda não estão conscientizadas do problema ambiental’. Para Sato
(2007) o problema está em compreender a Educação Ambiental como um instrumento
metodológico da gestão ambiental ao invés de ter sua essência ontoepistemológica,
propriamente dita. A dimensão ambiental é percebida, mas não se inscreve em uma
prática pedagógica transformadora.
A maior parte das dissertações que discute o conceito de sustentabilidade está no
PPGTE, sendo que destas, a questão de resíduos é focada freqüentemente. Dentro desta abordagem encontramos uma grande diversidade de sub-temas, como a reciclagem
nas indústrias de plásticos de Curitiba e região, o esgoto sendo tratado por meio de
zonas de raízes, os riscos dos resíduos dos serviços de saúde, o óleo de frituras como
biodiesel para a produção de energia, a emissão de CO2 no setor de construção civil
e o aproveitamento de resíduos sólidos urbanos. Relacionados ao tema da informação
estão discussões sobre o urbanismo e a lei de uso do solo, o design de produtos sustentáveis, design de móveis e as ferramentas para potencializar práticas inovativas. Outro
tema bastante abordado foi o conforto ambiental, havendo inúmeros trabalhos relacionados com a verificação da eficiência energética de edificações, outros com a poluição
sonora e também com características do clima e do paisagismo sobre a temperatura.
Os demais trabalhos trazem questões sobre o consumo energético, o consumo de água
e seu aproveitamento, agronegócios e produtos orgânicos, educação ambiental, entre
outros.
O gráfico 5 apresenta o levantamento das diferentes áreas que são abordadas nas
pesquisas de todos os programas anteriormente enumerados.
Gráfico 5: áreas das pesquisas abordadas nos programas do PPGTE, PPGEP e PPGEM.
Fonte: Elaborado pelos Autores
32
Quatro temas diretamente relacionados à construção civil foram as pesquisas em
torno de construções em terra crua visando a eficiência energética da edificação (2002),
a quantificação da emissão de CO2 associada a materiais convencionais utilizados na
construção de casas de interesse social (2006), formas inovadoras de gestão para a
qualidade e a produtividade na construção civil (1998), e um estudo exploratório sobre
um conjunto habitacional popular em Curitiba (1998). Poucos trabalhos falam de técnicas construtivas de menor impacto ambiental, faltando dissertações que explicitam
tecnologias limpas, materiais, como a madeira, por exemplo, construções sustentáveis,
entre outras proposições.
Pode-se pressupor que um dos motivos pela falta de interesse por pesquisas deste gênero, estaria na falta de informação e questionamento provenientes das áreas
de formação. Numa avaliação das grades curriculares dos cursos de engenharia, por
exemplo, se encontra apenas disciplinas isoladas tratando da questão ambiental e do
desenvolvimento sustentável de forma pontual, sem que haja uma transversalidade do
tema. Devemos lembrar que os programas stricto sensu são em geral interdisciplinares,
porém mesmo em outros campos do conhecimento a preocupação ambiental e os fatores que daí decorrem não estão presentes na maioria das dissertações.
Uma das poucas iniciativas na área da graduação que procurou estimular a discussão da sustentabilidade no Departamento Acadêmico de Construção Civil (DACOC),
foi programa de intercâmbio de alunos do curso com universidades americanas, coordenado pelo Professor Dr. Eloy Fassi Casagrande Jr. Denominado de “Consórcio
Sustentabilidade Brasil – Estados Unidos CAPES FIPSE”, deste faziam parte o curso
de Engenharia de Produção Civil da UTFPR, o curso de arquitetura da PUCRS, e cursos afins da University of Texas, at Austin e Ball State University (BSU), no estado de
Indiana, dos Estados Unidos. Com verbas da CAPES e FIPSE, o programa possibilitou bolsa de estudos por um semestre para 23 estudantes brasileiros (14 da UTFPR e
nove da PUCRS) e 11 americanos (mais o custo das passagens aéreas), que em média
cursavam três a quatro disciplinas relacionadas a questões ambientais, assim como a
participação em estágios, projetos de extensão e pesquisas.
Esta ação permitiu uma reflexão sobre o tema dentro do DACOC, surgindo no
seu programa de mestrado (PPGEC), a linha de pesquisa Sustentabilidade e Recursos
Hídricos.
4. CONCLUSÃO
A partir da análise dos dados levantados, constata-se que apesar da temática da
sustentabilidade e dos problemas ambientais serem considerados importantes na atualidade, a produção acadêmica na UTFPR sobre o tema é pequena. Somente 5% dos
trabalhos em nível stricto sensu trama de discussões sobre o meio ambiente. Nesta
perspectiva, além disso, observa-se nas dissertações que o tema foi abordado de modo
generalista mesclando conceitos de tecnologia e natureza. A preocupação ambiental,
porém não deixou de ser o ponto de partida para o pensamento interdisciplinar na busca de soluções para os problemas propostos.
Analisando mais especificamente o setor de construção civil, visão para a qual este
33
trabalho está direcionado, constatou-se que apenas 7% das produções acadêmicas se
referem mais diretamente ao tema, lembrando que o setor é grande responsável pela
geração de impactos. Porém, outros temas estão indiretamente relacionados, como
água e energia por exemplo. Seria importante fazer uma análise quantitativa dos alunos provenientes do setor construtivo, sejam arquitetos, engenheiros ou profissionais
afins, para quantificar e qualificar as dissertações e teses que se relacionam ao assunto,
além de verificar se as pessoas com esta formação estão inseridas nos programas de
pós-graduação, direcionando suas pesquisas para esta área de conhecimento.
Compreendemos que há uma diferença fundamental entre o entendimento das definições de sustentabilidade e das questões ambientais. O conceito de sustentabilidade
necessariamente inclui a preocupação ambiental, juntamente com os fatores econômicos e humanos. A questão ambiental não necessariamente inclui conceitos de um
desenvolvimento sustentável, sendo mais ampla e com uma visão mais aprofundada
do meio ambiente.
Enfim, a importância da temática ambiental e sustentável é de suma relevância em
toda e qualquer área da atividade humana. As exigências quanto ao respeito de parâmetros de sustentabilidade na construção civil são maiores, em especial por ser uma
atividade que faz parte das necessidades básicas dos indivíduos, seja moradia, ambiente de trabalho, de lazer, seja pela sua amplitude e desdobramento quanto ao consumo
de materiais da natureza. As nas cidades como um elemento macro das sociedades
são construídas por profissionais que lidam no seu cotidiano com o conhecimento e
os saberes. Questões como construção civil, uso sustentável dos recursos, recursos
renováveis, constrangimentos das leis biofísicas fazem parte dos conhecimentos necessários para resolver situações de uso de tecnologias e de ações sobre o ambiente
natural. Vale lembrar que a universidade, é o espaço onde existe um ambiente voltado
para a educação em excelência e isto a caracteriza como uma instituição responsável
pelas mudanças de pensamento e de ações por meio de uma reorientação das grades
curriculares e das ementas de disciplinas.
5. REFERÊNCIAS
Trabalhos acadêmicos nível stricto sensu defendidos na UTFPR quantificados
no presente artigo
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Curitiba, 2008.
42
A ACADEMIA VAI A COMUNIDADE: DISCUTINDO AS RELAÇÕES
ENTRE DISSERTAÇÕES DE MESTRADO E PROJETOS COMUNITÁRIOS
Henry Belchior da Cunha (1); Maclovia Correa da Silva (2); Eloy Fassi Casagrande Jr. (3).
(1) Arquiteto, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE/UTFPR;
(2) Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR,
doutora em Planejamento Urbano e Regional pela FAUUSP;
(3) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR
RESUMO
Com o agravamento dos problemas mundiais de ordem sócio-econômica e ambiental,
as instituições universitárias vêm recebendo críticas pelo seu isolamento e pela falta de
comprometimento com os resultados e resoluções para os conflitos e contradições que
se apresentam na sociedade tecnológica. Na visão contemporânea, o papel das instituições superiores de ensino passa por uma transformação, e estas estão sendo apontadas
como colaboradoras da inclusão e da formação de profissionais alicerçados na mentalidade de cidadãos de cidades globais. O objetivo deste estudo é apresentar pesquisas
realizadas por alunos orientados por professores da linha de pesquisa Tecnologia e Desenvolvimento, do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) que abordam as questões sócio-ambientais
relacionadas à problemática de capacitação profissional e inclusão social de grupos de
pessoas caracterizados como “interessados” em participar de comunidades enquanto
agentes com afinidade profissional. Nestas pesquisas foram observados casos de ações
que buscaram promover a utilização de recursos naturais de maneira branda, na perspectiva de preservação e conservação do meio ambiente, com a finalidade de produção
de objetos e de geração de renda. As quatro dissertações analisadas encontram-se alicerçadas na premissa de que a técnica e o saber-fazer, se aliados ao conhecimento da
academia, podem produzir o aperfeiçoamento de habilidades e competências e auxiliar
na redução dos impactos decorrentes da fabricação de produtos, tornando-os condizentes com os objetivos de sustentabilidade e qualidade de vida.
1. RELAÇÕES ENTRE ACADEMIA E COMUNIDADES
A Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), dentro de seu Programa de Pós-Graduação em Tecnologia (PPGTE), stricto sensu, promove a produção de
trabalhos acadêmicos em diversas áreas do conhecimento seja na ciência aplicada ou
na ciência pura. Enquanto esta discute as questões teóricas pertinentes a fundamentos
43
da tecnologia e suas diversas perspectivas, aquela incentiva a relação de pesquisa de
extensão da universidade com a sociedade.
No PPGTE, o grupo de pesquisa Tecnologia e Meio Ambiente (TEMA) estuda as
relações entre os conhecimentos sobre a problemática ambiental e suas implicações no
campo dos saberes em comunidades locais. A perspectiva volta-se para a orientação
de trabalhos, pesquisa ação, envolvendo instituições acadêmicas, governamentais e
ONG’s na direção de encontrar soluções apoiadas pela tecnologia para problemas de
conservação e preservação da natureza e da cultura local.
As propostas das dissertações que trabalham com a cultura material convergem
para o estudo de técnicas do saber fazer aliadas aos conhecimentos da academia. Na
produção de novos usos para os materiais são criados artefatos que coadunam com a
preservação dos recursos naturais e a demanda de mercado local. Os trabalhos discutem as questões de preservação do meio ambiente, a exploração de temas como as
fibras naturais, materiais recicláveis e a organização do trabalho no Estado do Paraná.
A primeira dissertação, da mestra em Tecnologia, Helena Akemi Umezawa, O uso
potencial do bambu para o desenvolvimento sustentável local: Estudo de caso da Colônia Parque Verde, Fazenda Rio Grande – PR (2002) faz uma avaliação sócio-econômica do potencial de uso do bambu encontrado na Colônia Parque Verde, uma área
de 416,26 ha, dentro do município de Fazenda Rio Grande, Região Metropolitana de
Curitiba (RMC). As diversas possibilidades do uso do bambu na região dentro de uma
cadeia produtiva, que poderia, em tese, melhorar a renda de pessoas na Região, podem
ser observadas na Figura 1.
Figura 1: Potencial econômico do uso do bambu na Fazenda Rio Grande
Fonte: UMEZAWA (2002)
44
Num trabalho de campo de amostragem e através de fotos aéreas foi levantada a
quantidade de bambu de 10 propriedades, onde se constatou a existência de aproximadamente 1,5 ha de bambu japonês tipo Mosso (Phyllostachys pubescens) plantados nos
anos 60, quando da instalação das famílias. Nas visitas ao local também foi possível
verificar o relevo dos terrenos, tipo de solo e possibilidade de eventual expansão das
plantações que poderiam ocupar uma média de 20% da área cultivável das propriedades (UMEZAWA, 2002).
Dados da dissertação de mestrado de Umezawa que apontaram para a possibilidade
de o bambu da região poder gerar produtos e renda as populações menos favorecidas
economicamente e o resultado de quatro anos de pesquisa sobre o bambu na UTFPR,
embasaram o projeto aprovado no IX Prêmio Banco Real / UNISOL 2004, coordenado
pelo Professor Eloy Fassi Casagrande Jr., para propostas de Desenvolvimento Sustentável, com ênfase em Geração de Renda´, tendo o mesmo recebido R$20.000,00 para
sua implantação.
Com a verba foi possível viabilizar os insumos e mobilizar consultores para treinamento na área específica. Uma equipe de acadêmicos da UTFPR recebeu treinamento
sobre como produzir objetos de bambu, para que pudesse ensinar a comunidade a confeccionar produtos com esta matéria prima. As oficinas foram realizadas em dois bairros do município de Fazenda Rio Grande, no Parque Verde e no bairro Gralha Azul.
A segunda dissertação que aborda a questão comunidade-universidade teve o Projeto Bambu da Fazenda Rio Grande como objeto de estudo e foi desenvolvida pela
mestre em Tecnologia Janete Lúcia Conci. Intitulada A Constituição de Grupos de
Trabalho Alternativo e a Intermediação da Tecnologia no Município de Fazenda Rio
Grande (2007), a pesquisadora analisa as questões do cotidiano de dois grupos de
trabalho nos bairros “Parque Verde e Gralha Azul”, situados no município de Fazenda
Rio Grande (RMC).
Esta iniciativa procurou trabalhar alternativas tecnológicas que viessem a contribuir com a superação da dependência econômica de pessoas com baixa renda. As relações humanas e sócio-econômicas travadas por ocasião da participação da UTFPR
neste processo sob a coordenação do Professor Eloy Fassi Casagrande Jr., desde a
capacitação, articulação do grupo, escolha do produto, o propósito de formação de
uma cooperativa, resultaram na formação de dois grupos de trabalho. A organização
e apropriação do conhecimento provieram da equipe multidisciplinar composta por
professores e alunos dos cursos de Engenharia e Tecnologia da Construção Civil, Desenho Industrial, Engenharia Mecânica, Química Ambiental da UTFPR. Também foram realizadas parcerias com professores e alunos do curso de Agronomia da Pontifica
Universidade Católica - PUC-PR e do curso de Engenharia Florestal da Universidade
Federal do Paraná - UFPR.
Além disso, a forma de organização dos saberes e a apropriação do conhecimento
podem ser responsáveis pela melhoria do saber fazer. Segundo Bastos:
A organização artesanal está circunscrita ao entorno do trabalho, que se caracteriza
pelo domínio da concepção vinculada à execução. Através de seu trabalho, o artesão
liga-se ao mundo e à sociedade, pois o ato produtivo não é um momento isolado da
45
existência. É a sua vida por inteiro, expressa por um conjunto de atividades (BASTOS,
1998, p.122).
Nos grupos de trabalho analisados no texto de Conci (2007) os artesãos acompanharam o processo inteiro da confecção das peças. As habilidades individuais são sinalizadoras da hierarquia e das diferentes funções no processo de produção. Os vínculos
de comprometimento dos componentes do grupo são por vezes imprescindíveis para
a sua continuidade. O conhecimento tácito torna-se evidente na prática do fazer como
cita Bastos:
O saber “tácito” não está em contradição com o saber formal, mas dele é distinto e
demonstra certas peculiaridades. As mudanças organizacionais que vêm ocorrendo no
campo do trabalho, em função de definição de novos paradigmas, são fontes inesgotáveis de conhecimentos (BASTOS, 1998, p. 26).
Tanto as relações cotidianas, quanto as relações Universidade-Comunidade, e as interferências na tentativa de formação de um grupo de trabalho na manufatura do bambu
como matéria prima renovável e preservação de recursos ambientais, acrescentaram
idéias para as pessoas enfrentarem os desafios de coesão dos artesãos, do mercado de
produtos, da padronização de acabamentos para comercialização em grande escala, e
a regularidade de encomendas.
Esse tema também foi desenvolvido em dissertação com outros enfoques. O acesso
ao conhecimento e a participação da academia, setores públicos e iniciativa privada
é o palco do cenário da dissertação da pesquisadora Elisete Ferreira. Ela observou
o trabalho de um grupo de catadores de papel de Curitiba durante o ano de 2007,
que recebeu uma capacitação profissional, e estudou as Dinâmicas de Apropriação do
Conhecimento por Famílias de Catadores de Material Reciclável: Políticas Públicas,
Projetos e Tecnologias Sociais (2008).
O estudo abrangeu ações com catadores no “Projeto Papel Social”, de arte, técnica
e tecnologia, voltadas para geração de emprego e renda, e coordenado pela Dra. Libia Patricia Peralta Agudelo, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) através do edital do Edital CT-AGRO/CT-HIDRO/
MCT/CNPq, que busca estimular a execução de projetos de extensão. As desigualdades sociais oriundas das incertezas no mercado de trabalho e economia globalizada
geram passivos sociais que à margem do sistema produtivo esperam sua re-inserção
no mercado formal de trabalho. A produção de bens e serviços conforme Paul Singer
(1999) abriu as portas do pequeno negócio e pode ser uma forma de equilibrar o mercado de trabalho. A exclusão social é processo e não uma condição, segundo Castells
(2003), que acredita que os excluídos podem romper esses limites e mudar sua posição, no entanto isto depende de ações conjuntas interinstitucionais.
O conceito de projeto social utilizado advém de Pampolini Jr. (2001) que visualiza
as políticas de responsabilidades sociais com a finalidade de diminuir os déficits sociais por meio da “implementação de ações substanciadas e empreendimentos organizados e realizados a partir de um cronograma de ações, objetivando a minimização das
carências apontadas” (PAMPOLINI JR., 2001, p. 75).
No Projeto, as vantagens das inovações tecnológicas refletiram na beleza, na esté46
tica e no design presentes na modelagem da massa de papel maché, no aproveitamento de embalagens descartadas, no reuso de material catado, na aplicação de moldes,
formas, tintas, colas, barbantes e fios. As práticas revelaram aspectos de apropriação
do conhecimento em projetos sociais com a intermediação de organizações não governamentais.
Os Projetos Sociais não conseguem alcançar seus objetivos se forem pensados isoladamente, pois necessitam de políticas, leis, programas que caminhem em paralelo. A
interação entre estruturas políticas e sociais permite que os projetos existam, possibilitando a avaliação e criação de novas atuações das políticas públicas.
Na quarta dissertação analisada, a ênfase foi dada ao estudo da técnica e o saberfazer aliados à produção industrial. Na pesquisa Arte e Técnica: na Fabricação de Móveis de Vime; saberes, práticas e ofício: um estudo de caso (2004), da Mestra Marina
Ribas Lupion, a fabricação de produtos com o vime considerou a possibilidade de crescimento do setor de fibras e suas potencialidades. O uso dos materiais ecologicamente
corretos seguiu não só uma tendência, mas manteve uma preocupação mais ampla com
a sustentabilidade do planeta. Vê-se a busca por produtos duráveis e biodegradáveis
para que não ocorra o impacto sobre o meio ambiente.
No que se refere à dissertação é relevante lembrar que a compreensão de arte e
de técnica representam conceitos que possuem uma tênue linha em sua separação A
proximidade nos conduz, por precaução, a mencionar um e naturalmente referenciar o
outro. Segundo GAMA (1986), a palavra técnica teve sua origem no grego “techné” e
significava arte, e posteriormente ela foi substituída pela palavra técnica.
Vale destacar a colocação, pois o ser humano na realização de sua arte precisa utilizar-se da técnica assim como em todas as suas atividades de trabalho que se expressam
também como arte. Segundo o autor, compreende-se que a técnica é
o conjunto de regras práticas para fazer coisas determinadas, envolvendo a habilidade do executor e transmitidas, verbalmente, pelo exemplo, no uso das mãos, dos
instrumentos e ferramentas e das máquinas. Alarga-se freqüentemente o conceito para
nele incluir o conjunto dos processos de uma ciência, arte ou ofício, para obtenção de
um resultado determinado com o melhor rendimento possível (GAMA, p.30, 1986).
Esta formulação é sobremaneira central para que haja o entendimento de que o
trançado do vime é a prática de um ofício, no sentido, do domínio de uma técnica e de
uma arte que estão contidas na habilidade das mãos dos artesãos e que resultam nas
tramas, nas formas e no segredo do saber fazer ressaltando-se ainda, seu domínio sobre
os meios de produção. Com estes artesãos do vime encontramos a reminiscência dos
ofícios coloniais, na mais pura expressão de uma arte advinda dos imigrantes italianos.
Segundo LUPION (2005, p.133), “reitera-se assim, que a dimensão histórica da técnica torna-se imprescindível para alcançar a compreensão da essencialidade do trabalho
humano, pois ela permite àqueles que buscam através do rigor científico, conhecer o
substrato da atividade humana por excelência.” Há que se reconhecer nesta atividade,
portanto a técnica presente em todos os estágios de produção, ou seja, no cultivo, no
tratamento, e no beneficiamento.
47
2. CONCLUSÃO
Ao analisar o contexto de dissertações que tratam das relações entre a comunidade
e instituição de ensino superior, reconhece-se que a técnica é uma ação que colabora para interar saberes e conhecimentos daqueles que estão voltados para o processo
ensino-aprendizagem. A natureza e seus bens naturais, as pedras, o barro, madeira, a
água, o ar e todos os materiais podem ser trabalhados e processados repetidamente.
Os resíduos sólidos resultantes da produção de artefatos, ou aqueles a serem descartados por serem considerados como rejeitos, quando entendidos como matéria prima,
transformam-se em produtos e geram renda.
As pessoas de baixa renda, se treinadas para mudar o olhar sobre materiais, acrescentam aos seus saberes, conhecimentos que os permitem avançar na escala social.
Nos trabalhos analisados, verificou-se a potencialidade de recursos naturais, como o
bambu, e os diferentes produtos que podem ser feitos a partir dele. Também foi verificado que pessoas com pouca qualificação profissional podem aprender noções de arte e
técnica necessárias para alcançar resultados surpreendentes na produção de artefatos.
Vale destacar que intervenções de profissionais na geração de arte, técnica e tecnologia aproximam o saber da ciência e as práticas multidisciplinares, as quais contribuem para a formação de cidadãos. A Universidade, ao acatar projetos de uso dos
materiais ecologicamente corretos, duráveis e biodegradáveis está colaborando com
a diminuição do impacto sobre o meio ambiente e a sustentabilidade do planeta. As
relações Universidade-Comunidade precisam se intensificar no sentido de elaboração
de projetos e pesquisas que visem à formação de grupos de trabalho e capacitação
profissional e inclusão social.
REFERÊNCIAS
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interação. Curitiba: CEFET-PR, 1998, p.119-134.
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Lisboa: 2003.
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LUPION, Marina Ribas. Arte e Técnica: na Fabricação de Móveis de Vime; saberes,
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práticas e ofício: um estudo de caso. Curitiba: PPGTE, 2004.
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LUPION, Marina Ribas et all. Cultivo e trançado do vime: a visão da formação profissional. Brasília: Cenário Rural II, Coronário, 2005.
PAMPOLINI Jr, Homero. Uma abordagem qualitativa sobre o entendimento de empresários paranaenses acerca da responsabilidade social e as respectivas repercussões
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(Mestrado em Engenharia da Produção) - Universidade Federal de Santa Catarina.
Florianópolis, 2001.
PELIANO, J. C. Acumulação de trabalho e mobilidade do capital. Brasília: UNB,
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SINGER, Paul. Globalização e desemprego. São Paulo: Contexto, 1999.
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Grande-PR. 2002. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) - Programa de Pós-graduação em Tecnologia, Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Curitiba.
49
ENERGIA E O ENSINO DA ENGENHARIA NA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ-UTFPR: DESAFIOS PARA SE
ALCANÇAR A SUSTENTABILIDADE
Antonio Carlos Cassilha (1); Eloy F. Casagrande Jr. (2); Maclovia Corrêa da
Silva
(1) Arquiteto, Professor do Departamento Acadêmico de Engenharia Eletrotécnica-DAELT/UTFPR;
(2) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR
(3) Professora do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR,
doutora em Planejamento Urbano e Regional pela FAUUSP
RESUMO
Os impactos sócio-ambientais decorrentes da produção de energia elétrica concentrada
nos combustíveis fósseis se agravaram nas últimas trinta décadas. A humanidade enfrenta hoje sue maior desafio diante do aquecimento global e suas trágicas conseqüências. A formação de engenheiros do futuro, que possam ter um conhecimento profundo
de tecnologias que reduzam estes impactos deve ser prioridade no sistema de ensino
atual para que se possa alcançar a sustentabilidade. Este artigo procura mostrar a dificuldade da abordagem deste tema em algumas universidades onde persiste a concentração do ensino focado nas tecnologias e energias convencionais, analisando o caso
do Departamento Acadêmico de Eletrotécnica – DAELT, da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná - UTFPR. Conclui-se que é preciso iniciar um movimento em direção a mudanças pedagógicas e curriculares que possam modificar a forma de geração
e distribuição da energia, integrar as antigas energias com as novas formas de pensar
a estrutura econômica existente, acelerar a implantação dos programas de eficiência
energética e disseminar as energias renováveis e produção mais limpa.
1. INTRODUÇÃO
O Brasil possui forte base hidráulica na sua matriz energética e uma abundante matéria prima para a geração de energias alternativas de fontes renováveis com moderna
legislação que incentiva a diversificação. Mas necessita de um amplo debate considerando as implicações ambientais na escolha das formas de geração de energia (Banco
Mundial, 2008). A produção e o consumo de energia são ambientalmente impactantes, e a formação ambiental é um “saber emergente” (LEFF, 1998), com instituições
de ensino ainda formando profissionais incapacitados para lidar com os problemas
sócio-ambientais. Casagrande Jr. (2001) afirma que a questão ambiental exige uma
50
abordagem metodológica focado na capacitação de professores, revisão de grades curriculares e do conteúdo de ementas das disciplinas.
O Ministério de Educação e Cultura - MEC, desde 1992, enfatiza a necessidade do
comprometimento das instituições no processo para a educação ambiental. A educação
dos engenheiros do futuro tem sido objeto de estudos e preocupações internacionais
(NAC, 2004) assim como da ABENGE - Associação Brasileira de Educação em Engenharia (1982), ao descrevê-lo como sólido em ciências básicas e na operação de
sistemas complexos, mas com compreensão interdisciplinar dos problemas administrativos, econômicos, sociais e do meio ambiente. É imperativo ir além dos aspectos
legais e burocráticos. O contínuo desenvolvimento tecnológico e as mudanças da sociedade exigem do ensino, particularmente, em engenharia, mudanças além da simples
alteração de grades curriculares, aquisição de equipamentos para laboratórios ou de
bibliotecas atualizadas.
O debate internacional de um estilo sustentável de desenvolvimento que teve início
em Estocolmo e consolidou-se no Rio, supera a ingênua visão da suficiência do conhecimento científico, na perspectiva tecnocrática, para tratamento da crise ambiental. O
engenheiro a ser formado pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná deve estar
preparado para discutir e propor soluções aos desafios contemporâneos na área de
conversão, transporte e uso final das mais diversas formas de manifestação de energia,
em uma perspectiva de sustentabilidade. A proposta central do presente artigo é caracterizar que os moldes tradicionais das especialidades na graduação de engenharia da
UTFPR, principalmente na área de eletrotécnica, precisam contribuir para a ampliação
da consciência ambiental dos graduandos da instituição de ensino.
2. A TEMÁTICA AMBIENTAL
A dimensão ambiental não é ideologicamente neutra, nem está alheia, a interesses
econômicos e sociais. Os padrões de consumo influenciam a sustentabilidade energética, como afirma Goldemberg (1998), bem como a organização espacial e urbana das
nossas cidades contribui de forma decisiva para a ineficiência energética (COHEN,
2003). E, no mundo acadêmico as estratégias educativas, segundo Leff (1999), implicam na necessidade de reavaliar, e atualizar, os programas de educação que não tem
encontrado soluções adequadas para a inserção de temas ambientais.
O engenheiro do futuro necessita de conhecimento profundo de uma tecnologia, de
conhecer e relacionar conteúdos, métodos, teorias ou outros aspectos do conhecimento
tecnológico. Mas, também, de um processo educativo orientado para a sustentabilidade. Permanecer apenas na integração de vários temas seria manter a realidade atual não
transformando o conhecimento tecnológico em uma perspectiva de mudança social.
Os processos que podem economizar energia e recursos, diminuir poluição, aumentar produtividade com distribuição equitativa de renda e evitar desperdício de capital,
passam pela educação e inovação tecnológica norteadas pela conservação ambiental
(CASAGRANDE JR., 2001). Ela perpassa todas as disciplinas e todos os níveis do
sistema educativo já que o cerne da questão é epistemológica (LEFF, 1998).
A prática educativa articulada com a problemática ambiental, não deve ser vista
51
como um adjetivo, mas como filosofia pedagógica focada na conscientização, mudança de comportamento e atitudes, desenvolvimento de competências, capacidade
de avaliação e participação. O desafio dos futuros egressos será o de pensar novos
conceitos de metrópoles auto-suficientes, e de um novo perfil energético dos produtos, das infra-estruturas, das edificações, dos equipamentos. Daqui a 25 anos, as edificações terão que funcionar como fábricas de energia, além de abrigarem pessoas
(RIFKTIN, 2009). Contudo, a prática de ensino nos programas dos cursos superiores,
como constata Barbieri (2004), resumem-se a atividades típicas de controle de fim do
processo. Enfatiza-se a discussão de normas e legislação relativas à gestão ambiental,
a realização de atividades isoladas de coleta seletiva de lixo ou de comemorações do
dia do meio ambiente. Muitas vezes, a simples transferência mecânica de experiências
que tiveram êxito em locais com condições ambientais, econômicas, sociais e culturais
diferentes. É importante ressaltar, que estas ações não auxiliam no desenvolvimento
sustentável.
Nas recomendações sobre Educação Ambiental, da Conferência das Nações Unidas para o Ambiente Humano (Estocolmo-Suécia, 1972), foi reconhecido o ensino
como instrumento estratégico necessária à geração de conhecimentos interdisciplinares e formação profissional. Os Seminários Nacionais sobre Universidade e Meio Ambiente, desde 1986, discutem métodos e mecanismos de ensino e pesquisa adequados à
questão ambiental. Sem dúvida, é imperativo o incentivo à pesquisa e desenvolvimento para a disseminação de produção mais limpa e eficaz de energia. Neste sentido a
educação e a informação através das instituições locais são componentes vitais para o
sucesso de qualquer programa de sustentabilidade energética (EEA, 2001).
Imagina-se que o engenheiro na área eletrotécnica deve dominar todas as formas de
energia que compõem a matriz energética brasileira - seja ela renovável, como hídrica,
solar, eólica ou de biomassa, seja não renovável, obtida de petróleo, carvão, gás natural
ou material radioativo. Deve ser um profissional voltado à pesquisa e estratégias para o
setor energético visto que planeja, analisa e desenvolve sistemas de geração, transporte
ou transmissão, distribuição e uso da energia. Entre suas atribuições está a avaliação de
necessidades de uma região ou setor desenvolvendo projetos econômicos e socialmente viáveis, buscando soluções seguras e sustentáveis, que não agridam o meio ambiente. Também deve poder coordenar programas de uso racional de energia.
3. A CADEIA DE VALOR DOS CONHECIMENTOS
A transição entre a primeira revolução industrial e a segunda pode ser emblematicamente representada pela passagem do uso do vapor para o mundo novo da eletricidade. Agora estamos próximos de dar inicio ao terceiro movimento, a revolução verde. O
desafio da chamada terceira revolução industrial é o de superar o obstáculo de integrar
as antigas energias com as novas formas de pensar a estrutura econômica existente. O
desafio é converter as novas tecnologias em meios pelos quais seja possível dissociar o
crescimento econômico da degradação ambiental.
A produção e distribuição de energia global irão duplicar a procura até 2050. Um
dos grandes desafios é fazer com que este suprimento seja feito de forma sustentável a
52
partir de fontes renováveis. No Paraná as próximas duas décadas sinalizam para uma
demanda crescente de consumo de energia e a necessidade da melhoria na eficiência
energética pelo lado da demanda ou, pelo lado da oferta, aumento da participação de
fontes renováveis na matriz energética (MORAES, 2005). No Brasil ainda predomina
a energia hidráulica na geração de energia elétrica em um cenário internacional em que
a tendência mundial é de apoio às fontes de energias limpas.
O setor elétrico brasileiro, antes baseado no planejamento centralizado, foi privatizado e dividido em quatro segmentos: geração, transmissão, distribuição e comercialização. A legislação brasileira passou a estimular iniciativas de absorção de fontes de
energia renovável na matriz energética nacional. O PROCEL - Programa Nacional de
Conservação de Energia Elétrica veio para promover ações de educação, etiquetagem,
gestão energética municipal, iluminação pública, gestão de eletricidade na indústria
e em edificações e saneamento ambiental. Na promoção de aumento das fontes de
energia renováveis, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica
- PROINFA, patrocinado pelo Ministério das Minas e Energia- MME, que objetiva aumentar a participação da energia eólica, biomassa e de pequenas centrais hidrelétricas
- PCHS a serem incorporados ao Sistema Elétrico Integrado Nacional - SIN.
Neste ambiente, a educação na área energética, deve contribuir de forma decisiva
para superar o dilema entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental. As
propostas e práticas pedagógicas devem estar centradas na conscientização do educando, na mudança de atitude e comportamento, no desenvolvimento de competências, na
capacidade de avaliação e participação, em um processo de novas leituras e interpretações, voltado para mudanças e novas possibilidades de ação. A educação é componente
vital para o sucesso de um programa energia renovável. Nas Diretrizes Curriculares
Nacionais para o Ensino de Graduação em Engenharia, o Conselho Nacional de Educação (2002), descreve como deve ser o perfil do formando. Ele precisa ter formação
generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitada a absorver e desenvolver novas
tecnologias e seus aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais, com
visão ética e humanística, para atender as demandas da sociedade.
Neste sentido existem alguns exemplos de formação profissional que fortalecem a
compreensão deste futuro profissional. O Programa Interunidades de Pós-Graduação
em Energia da Universidade de São Paulo que se caracteriza por um esforço interdisciplinar do IEE, EP, FEA e IF no sentido de formar profissionais voltados às questões
vinculadas à disponibilidade de energia, seus usos e seus impactos sobre a sociedade e
sobre o meio ambiente. O programa propõe-se a fornecer os meios e as possibilidades
de análise e avaliação dos sistemas energéticos existentes, das possíveis alternativas e
as conseqüências sócio-econômicas e ambientais de sua produção e utilização.
O Laboratório de Eficiência Energética em Edificações, vinculado ao Núcleo de
Pesquisa em Construção (Departamento de Engenharia Civil) da Universidade Federal
de Santa Catarina, atua visando reduzir o consumo específico de energia em edificações novas e existentes, através da implantação de novas tecnologias de iluminação,
condicionamento de ar e isolamento térmico. O LabEEE encontra-se ligado aos Laboratórios de Conforto Ambiental (LABCON/Arquitetura), Meios Porosos e Proprieda53
des Termofísicas dos Materiais (LMPT/Eng. Mecânica) e de Energia Solar (LABSOLAR) através de projetos conjuntos.
Nesta linha colaborativa entre disciplinas ou setores de uma ciência, na busca por
soluções que conciliem desenvolvimento econômico, proteção ambiental e redução
das desigualdades globais, encontramos os exemplos da Universidade Federal do
ABC, a primeira instituição de ensino superior do Brasil a adotar o bacharelado interdisciplinar no curso de engenharia de emergia. Ainda, os cursos de graduação, em funcionamento a partir de 2007, da Universidade de Brasília, voltados para o suprimento
e otimização energética, cuidando dos respectivos impactos ambientais; o bacharelado
em Engenharia em Energia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Estadual
do Rio Grande do Sul, que forma profissionais capazes de planejar, implementar, otimizar e manter sistemas de geração de energia, visando a seu melhor aproveitamento
em processos industriais, com ênfase na sustentabilidade econômica e ambiental.
O curso da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais-PUC-MG, proposto
para formar profissionais aptos a exercer as atividades referentes ao planejamento, à
concepção, à análise, ao projeto, à implantação, à manutenção, à operação e à gestão
de sistemas destinados ao suprimento energético e ao uso de energia em atividades
sócio-econômicas, de forma técnica, econômica, social e ambientalmente sustentável,
e o curso de Engenharia de Energia da Universidade Federal Rural do Semi-Árido,
formando engenheiros para atuar na geração de energia com a preocupação com o
meio ambiente.
É possível verificar que a formação do engenheiro do futuro, passa por um conhecimento profundo de tecnologias que reduzam os impactos ambientais para que se possa
alcançar a sustentabilidade. Vamos analisar agora o caso da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná onde apesar dos esforços de mudanças curriculares, ainda persiste a
concentração do ensino focado nas tecnologias e energias convencionais.
4.
O CASO DO DEPARTAMENTO ACADÊMICO DE
ELETROTÉCNICA DA UTFPR
Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), instituição de educação
tecnológica existente desde 1909, o curso de engenharia Industrial Elétrica é um dos
primeiros cursos de graduação de engenharia plena ofertados pela instituição. Implantado em 19794 a partir da transformação do curso de Engenharia de Operação em
Engenharia Industrial Elétrica, a preocupação maior nesta transição, conforme relata
Porto Alegre (1997) foi a de criar uma grade curricular que além de aproveitar os professores do agora extinto curso, e que fosse voltado para as necessidades das indústrias
locais, não havendo espaço, após a estruturação do currículo para as disciplinas chamadas de cunho humanistas.
A segunda reformulação do currículo do curso aconteceu em 1987, e nasceu da
instigação da coordenação e de um grupo de professores do curso. Porto Alegre (1997)
4. Para detalhada descrição do curso ver PORTO ALEGRE, Laize Marcia S. O currículo do curso de
engenharia industrial elétrica - habilitação eletrotécnica, numa instituição de educação tecnológica. 1997,
em http://www.ppgte.cefetpr.br/dissertacoes/1997/laize.pdf
54
observa a falta de uma estratégia definida para trabalhar a orientação curricular, mas
diferentemente do primeiro, com preocupação de compor um conjunto de disciplinas
interligadas em vez de formadas por disciplinas isoladas como no currículo anterior.
De novo não havia espaço para as disciplinas humanísticas. Desde a segunda reformulação em 1987 até 1993, somente pequenas alterações foram feitas nos conteúdos das
disciplinas. Com o incentivo da direção geral e da direção de ensino, e em função de
informações provenientes da indústria e da própria instituição, após visitar algumas
universidades na área de engenharia no país, procurou-se enfocar uma nova revisão
curricular em que fosse prioridade a preparação do aluno para o mundo futuro.
A ênfase deveria estar na formação técnica do aluno, procurando sanar as deficiências na área gerencial e na área humanística. Desta vez estas deficiências foram cobertas com a inclusão da disciplina de Filosofia da Ciência e da Tecnologia. As diferenças
em relação ao currículo anterior eram mais de ordem qualitativa do que quantitativa.
O conteúdo era colocado como mais moderno, geral e orientado para um tratamento
sistêmico da engenharia.
Ao longo destes anos o curso de Engenharia Industrial Elétrica sofreu modificações
curriculares, para atualização e adequação dos cursos as Diretrizes Curriculares Nacionais atendendo as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Engenharia
Mas, entre as justificativas dos diferenciais do curso elencados nenhum deles colocava
a visão ou o desenvolvimento de uma consciência a respeito da sustentabilidade. O
currículo atual, o quarto desde a criação do curso, procura adequar e aperfeiçoar o
ensino às necessidades regionais e à nova realidade tecnológica com conteúdos que
atendem a formação humanística.
A filosofia generalista do currículo fortalece a formação básica e procura através de
disciplinas optativas atender questões de novas tecnologias e necessidades locais traduzidas em cinco áreas concentradas em eletrônica industrial, energia em edificações,
sistemas elétricos, sistemas de potência e produção industrial. Espera-se, contudo, que
uma visão multidisciplinar e interdisciplinar seja proporcionada pelos Trabalhos de
Conclusão de Curso - TCC, os quais foram estruturados para integrar as atividades da
engenharia no contexto social e ambiental. Enfatiza-se que será através da aplicação
dos conhecimentos na área de informática, na área de gestão, economia e administração que será possível fortalecer um profissional com as competências, habilidades e
atitudes que o tornem apto a trabalhar em concessionárias de energia, de telefonia, na
automação e controle, em projetos, manutenção e instalações industriais, comerciais
e prediais.
Analisando os trabalhos apresentados sob a forma de TCC, publicados na página
do Departamento, vê-se a maneira como a educação ambiental está inserida nas preocupações dos egressos. Do ano de 2001 a 2004, estão relacionados 37 trabalhos de
conclusão de curso; destes nove deles têm temas relacionados à eficiência energética
ou manutenção. A orientação é feita por cinco diferentes professores, sendo que somente um deles é orientador de metade destes trabalhos. Esta visão resumida não fica
distante da realidade nacional. O resultado pode ser medido no Catálogo Analítico de
Teses e Dissertações sobre o Ensino de Ciências no Brasil, documento que contém os
55
resumos de 572 dissertações e teses, defendidas entre 1972 e 1995. Constata-se que a
Educação Ambiental foi estudada, em 36 trabalhos sendo que, somente dois deles, faz
a relação com o ensino de graduação (MEGID-NETO, 1998).
Vale lembrar que o departamento de eletrotécnica possui ainda um grupo de pesquisa na área de eficiência energética, originário de uma parceria com a COPEL –
Companhia Paranaense de Energia que resultou na formação de duas turmas de especialização. Ainda, existe, um grupo de professores que mantém atividades na área de
manutenção. O curso procura manter convênios de troca de informações com universidades tecnológicas européias, como o acordo de cooperação existente com a Universidade de Oldenburg, Alemanha, firmado em 2007, na área de energias renováveis
para países em desenvolvimento. Alguns alunos e professores já participaram deste
convênio para trocar experiências.
5. CONCLUSÃO
O objetivo deste artigo foi observar a inserções em trabalhos acadêmicos do pensamento ambiental em um curso de graduação na área de engenharia eletrotécnica
na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. O desenvolvimento sustentável e os
avanços que a moderna tecnologia possibilitam é um desafio para que se possa converter as novas tecnologias em meios que seja possível dissociar o crescimento econômico
da degradação ambiental. Fundamental é a temática ambiental inserida nos projetos
pedagógicos. Contudo para se tornar efetiva a presença de questões ambientais nos
currículos, é preciso que haja a adesão da idéia por docentes, graduandos, e gestores
da instituição. O acesso a informação não implica em ações efetivas na temática ambiental, a não ser que haja uma inserção nas políticas didático-pedagógicas dos cursos
e da Universidade. Pois a decisão pelos temas ambientais precisa da colaboração da
interdisciplinaridade e dos setores heterogêneos; da troca de experiências, no sentido
de que a soma delas venha a fortalecer um grupo interdisciplinar e interdepartamental. Na base desta necessária mudança comportamental encontram-se os problemas de
motivação política, de cunho legal, financeiro, de capacitação tecnológica que possam
desenvolver um novo perfil de formação necessário à disseminação de tecnologias
mais limpas, que promovam a eficiência energética.
6. REFERÊNCIAS
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57
A EXPERIÊNCIA DE UM PROCESSO DE INOVAÇÃO DE
TECNOLOGIA PARA SANEAMENTO VOLTADO PARA O CONCEITO
DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA UNIVERSIDADE
TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Tamara Simone van Kaick (1); Eloy Fassi Casagrande Junior (2)
(1) Bióloga, Drª em Meio Ambiente e Desenvolvimento, professora Adjunto 1
do Departamento Acadêmico de Química e Biologia da Universidade Tecnológica
Federal do Paraná-UTFPR;
(2) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE da UTFPR
RESUMO
O presente artigo aborda a experiência do PPGTE/UTFPR, no desenvolvimento de
pesquisa interdisciplinar voltada para a inovação de uma tecnologia para saneamento.
A proposta de inovação de uma estação de tratamento de esgoto por zona de raízes,
foi realizada dentro de um contexto específico, para atender às necessidades de comunidades da Ilha Rasa, município Guaraqueçaba/PR, inserido em uma área de proteção
ambiental. O desenvolvimento da pesquisa, iniciado em 1999, com a construção de
uma estação piloto utilizou metodologias sociais e técnico-científicas para analisar os
resultados. O projeto gerou diversas outras propostas de pesquisa, devido às potencialidades observadas, que foram realizadas por outras universidades. A comunidade e
instituições gestoras da região acompanharam os resultados até o ano de 2001, quando
foi finalizado o projeto. Este processo indicou que a tecnologia desenvolvida mostrouse apropriada para a localidade, no entanto, a mobilização para a replicação da tecnologia para as comunidades não ocorreu. O mesmo processo foi aplicado pelo projeto
de extensão da UFPR na Vila da Ilha das Peças à partir de 2005, e no decorrer do ano
de 2009, observa-se uma mobilização da comunidade na busca de recursos e parcerias
para a replicação e apropriação da tecnologia para toda a Vila.
1. INTRODUÇÃO
O saneamento é uma condição primordial para a promoção de dois aspectos: a
saúde de uma população e a qualidade ambiental (WHO-UNEP, 2004). A qualidade
da água consumida pela população e o tratamento adequado do esgoto são dois fatores
que podem alterar significativamente o perfil de sustentabilidade de uma comunidade,
tornando-os elementos chave na proposta de desenvolvimento (MACHADO e KLEIN,
2006; VAN KAICK, 2007).
O Brasil desenvolveu o Plano Nacional de Saúde e Ambiente no Desenvolvimento
58
Sustentável em 1995, com o objetivo de garantir o direito de todos os cidadãos a saúde
e ao ambiente equilibrado e saudável, no contexto do desenvolvimento sustentável
baseado nos princípios da universalidade, eqüidade e integralidade (MS, 1995). Esta
política deveria ter como prioridade o monitoramento da qualidade da água, do ar, do
solo, a prevenção de desastres naturais e acidentes com produtos perigosos e, ainda,
juntamente com a vigilância epidemiológica, a atuação sobre fatores de riscos biológicos. A articulação entre a vigilância epidemiológica, sanitária e da saúde ambiental
deveria interagir com as políticas e ações dos órgãos ambientais, de saneamento e
gestores de recursos hídricos, visando à proteção de mananciais de abastecimento e
sua bacia contribuinte, além de estar articulado com as políticas dos órgãos de defesa
do consumidor (MS, 2006).
Os responsáveis pelo monitoramento deste processo, precisam de indicadores adequados para identificar tendências, de forma a poder sinalizar para o público, assim
como para aqueles que são os responsáveis pelo direcionamento das políticas públicas, os aspectos fundamentais ou prioritários do processo de desenvolvimento, especialmente as variáveis que afetam a sustentabilidade de tais dinâmicas (MARTÍNEZ,
2007; VAN KAICK, 2007).
Portanto, os indicadores de saneamento deveriam permitir avaliar de forma quantitativa e qualitativa os resultados relacionados às ações implementadas, para direcionar
de forma adequada as políticas de desenvolvimento local. Esta avaliação também se
refere á escolha de estruturas adequadas de saneamento que devem ser implantadas
para atender as especificidades de cada região com o objetivo de identificar os efeitos
qualitativos da ação. Atualmente, os indicadores de saneamento estão voltados para
avaliar o aspecto quantitativo, ou seja, a amplitude da ação, mas não consegue indicar o efeito qualitativo desta mesma ação, conforme indicado pelo Plano Nacional
de Saúde e Ambiente no Desenvolvimento Sustentável (VAN KAICK; MACEDO e
PRESZNHUK, 2005).
2. CENÁRIO ATUAL DO SANEAMENTO BÁSICO NO BRASIL
Os pesquisadores Rezende e Heller (2002), por meio da análise histórica da implantação da política de saneamento no Brasil, concluíram que o governo consegue
atender com condições básicas de saneamento uma parcela significativa da população
urbana e mantêm o foco de suas ações neste setor. Com isto se excluí a parcela da população que está inserida em favelas e periferias urbanas, municípios menores dos Estados mais pobres e a população rural em geral, onde as condições estruturais diferem
da concepção de implantação de sistemas convencionais e coletivos de saneamento.
Conforme demonstram os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
– IBGE (2006), obtidos por meio do censo de 2000, a população rural é composta por
31.355.208 habitantes (representam 18,62% da população total brasileira), sendo que
cerca de 22,7% destes habitantes recebem água tratada; 3,7% são atendidos com rede
coletora de esgoto e 12,3% possuem o seu esgoto tratado por meio de fossa séptica.
Os números já indicam a fragilidade na qual esta população vive em relação ao saneamento.
59
Esta condição demonstrada pelo IBGE, talvez, se deva ao fato de não estar bem
claro como direcionar as políticas de saneamento para atender esta população ainda desassistida com soluções alternativas às convencionais, que sejam tecnicamente e
economicamente sustentáveis, tanto no que se refere á implantação, ao monitoramento
e manutenção destes sistemas (REZENDE E HELLER, 2002; VAN KAICK, 2007).
Da mesma forma, os atuais indicadores de saneamento podem conferir uma distorção do cenário de determinadas comunidades rurais, mantendo-as assim na inércia do
desenvolvimento, pelo fato de não demonstrarem a degradação da saúde e da qualidade
ambiental que as estruturas inadequadas de saneamento podem causar (VAN KAICK;
MACEDO e PRESZNHUK, 2005).
A discussão sobre como prover com saneamento adequado à população rural dos
países em desenvolvimento, já havia sido abordada em diversas conferências específicas sobre o tema, como a Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente de
1992, na cidade de Dublin (Irlanda), e a Conferência Internacional sobre Melhoramento da Sustentabilidade dos Projetos de Água e Saneamento na Área Rural, realizada em
Cuzco (Peru), em 1999. Nestes dois eventos foi dada ênfase na importância da gestão
dos serviços de saneamento a ser realizada nos níveis mais baixos, como, por exemplo, no nível comunitário ou de família, denominado então de princípio com enfoque
na demanda. Este princípio é considerado componente chave para a sustentabilidade
destes sistemas na zona rural, independente do tipo de tecnologia a ser apropriada para
garantir o resultado eficiente em saneamento básico (IWSC, 2004).
Durante a Conferência Mundial de Água Doce, realizada em 2001 em Bonn (Alemanha), foi reconhecido oficialmente o princípio do enfoque baseado na demanda
como a forma mais viável de implantar processos de gestão para sistemas descentralizados de saneamento para a zona rural. A adoção deste tipo de procedimento implicaria na capacitação das comunidades para a administração e monitoramento, o que de
certa forma influi nas estruturas de poder local pela descentralização dos serviços, e
requer uma re-estruturação na forma convencional de investimentos, que até então são
direcionados para sistemas coletivos (WSP, 2004).
3.
A PESQUISA PARA A INOVAÇÃO E A SUA INTERFACE COM A
INTERDISCIPLINARIDADE
Atentos ao objetivo das Instituições de Ensino Superior de desenvolver pesquisas
conforme indicado na Agenda 21, especificamente no capítulo 31 intitulado “ A comunidade científica e tecnológica”, o Programa de Pós-graduação em Tecnologia – PPGTE da Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR difundem a abordagem
multidisciplinar com a intenção de desenvolver uma comunidade científica e tecnológica atenta ao conceito de Sustentabilidade. Desta forma, as pesquisas realizadas
neste programa estão focadas na integração entre a ciência e a tecnologia, buscando
responder sempre a pergunta: para quê e para quem, independente da categorização da
tecnologia a ser pesquisada.
Para a área de desenvolvimento de tecnologias ambientais e inovação tecnológica,
a busca de determinadas pesquisas se deu no contexto das tecnologias apropriadas
60
e suas formas de repasse de informação do conhecimento e capacitação para o uso,
transformação, monitoramento e replicação desta tecnologia. Uma das experiências
exitosas que foram realizadas com este enfoque e procurando atender a adequação de
saneamento nas áreas rurais foi o caso da pesquisa com a estação de tratamento de esgoto por meio de zona de raízes. Esta pesquisa integrou as metodologias da pesquisaação com a técnico-científica clássica voltada para a inovação de uma tecnologia já
concebida em países europeus.
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo, no qual
os pesquisadores e os participantes representativos da situação - ou do problema - estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo (THIOLLEN, 1994). A pesquisa
técnico-científica clássica utilizou a análise dos parâmetros convencionais necessários
para comprovar a eficiência no tratamento de esgoto, utilizando técnicas de coleta e
métodos de análise aceitos pelo órgão ambiental do Estado, atendendo as exigências
do mesmo.
Segundos os autores Darrow e Pam (1981) e Bastos (1998), a tecnologia é considerada como uma linguagem que provoca ações sociais, justamente porque a mesma
estabelece um compromisso com resultados sociais, proporcionando benefícios para
a população onde ela se desenvolve. Além do enfoque social e tecnológico, durante o
desenvolvimento da pesquisa, ainda foi necessário criar uma rede de pesquisas interdisciplinares, que desencadearam o processo de adaptação de uma tecnologia pré-existente em um processo de inovação da tecnologia de zona de raízes, e a apresentação da
mesma para os gestores públicos ligados aos órgãos ambientais.
Para tanto foram realizadas parcerias internas com os Departamentos Acadêmicos
da Construção Civil (DACOC) e de Química e Biologia (DAQBI), e parcerias externas
com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) por meio dos Departamentos de Farmácia e Botânica; com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e Universidade Positivo e seus respectivos cursos de Biologia; com a Fundação Nacional de
Saúde de Paranaguá (FUNASA); Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Instituto Ambiental do Paraná (IAP), Secretaria de
Estado do Estadual do Meio Ambiente (SEMA) e a organização não governamental
(ONG) Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).
4. TECNOLOGIA PARA QUÊ E PARA QUEM?
O direcionamento da pesquisa-ação se dá na área de saneamento na zona rural que
está inserida uma área de proteção ambiental (APA) de Guaraqueçaba, mais precisamente na Ilha Rasa. Na Ilha Rasa, entre os anos de 1984 a 2003, vinha sendo realizado
um Projeto de Saúde Comunitária coordenado pela ONG SPVS. Os objetivos deste
projeto foram propiciar a melhoria da qualidade de vida da população de pescadores
tradicionais que vivem em 4 comunidades, buscando recursos para implantação de um
sistema de abastecimento de água potável, capacitação de agentes de saúde e mães
para tratos de higiene e atendimentos básicos de saúde. Quando o sistema de abastecimento de água foi inaugurado em 1997 (parceria com a Companhia de Saneamento do
61
Paraná - SANEPAR e SPVS), surge à questão: como tratar o esgoto produzido pelos
banheiros que a FUNASA instalaria para cada residência? Algumas das residências
encontravam-se tão próximas da linha de maré, que a influência das águas era uma
constante e impedia a instalação de um sistema de tratamento de esgoto convencional
que utiliza fossa séptica seguido de um sumidouro.
Conhecendo o problema da falta de tecnologia para atender 16% das residências que
estavam localizadas em áreas que sofrem inundação diária pela maré (SPVS, 1999), foi
realizada a parceria com a UTFPR/PPGTE com a FUNASA e SPVS para realizar a implantação de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) piloto por zona de raízes na
linha de maré. Desta necessidade real, surgiu a oportunidade de pesquisa que resultou
na inovação de uma tecnologia já conhecida na Alemanha (Pflanzenkläranlagen), para
atender as condições climáticas, geográficas e sociais daquela localidade.
A pesquisa foi iniciada tendo como problema básico a definição da estrutura externa da ETE, a busca de materiais para compor o filtro físico do filtro, assim como a
identificação de uma planta nativa da ilha que pudesse atender as condições de tratamento que deveriam configurar a zona de raízes, que faz parte da composição do filtro
biológico da mesma. A adaptação da forma construtiva e dos filtros da ETE compõem
a pesquisa técnico-científica, e envolvem diversas pesquisas na área biológica e de
construção civil, que ao final indicam a viabilidade da ETE para o tratamento de esgoto
(VAN KAICK, 2002).
Anterior à fase técnico-científica, havia sido iniciado o processo da pesquisa-ação,
em que por meio da integração com a ONG SPVS, FUNASA, SANEPAR, IBAMA e
SEMA, foram realizadas reuniões com a comunidade para discutir a forma de administração, monitoramento e manutenção do sistema de abastecimento de água potável.
O problema indicado pela comunidade e pela FUNASA estava voltado na falta de
estruturas alternativas daquelas que estavam sendo implantadas para o tratamento de
esgoto. Nos fóruns de discussão ficou estabelecida, entre as instituições e a comunidade, a necessidade de buscar alternativas para o tratamento de esgoto (SPVS, 1999).
Neste momento indicou-se a possibilidade de desenvolvimento de uma ETE por
zona de raízes piloto na Ilha Rasa, com o objetivo de pesquisar e definir um protótipo
capaz de suprir esta lacuna. A indicação da residência na qual seria realizada a pesquisa, o comprometimento da comunidade e das instituições parceiras, ocorreu nestes
fóruns de discussão, cujas definições e resultados foram registrados em atas das Associações de Moradores da Ilha Rasa (VAN KAICK, 2002).
Portanto, o desenvolvimento da pesquisa se dá em acordo e abrangendo uma necessidade apresentada pela comunidade local, e pela falta de opção de tecnologias
apropriadas para aquela situação, pelos órgãos competentes pelo saneamento daquela
região. Como a tecnologia ainda não estava completamente definida e a ETE por zona
de raízes teria a conotação de um sistema piloto, todo o processo de pesquisa e seus resultados deveriam ser repassados para todos os componentes interessados, sendo este
realizado principalmente nas assembléias das associações de moradores. A parceria
realizada com os professores das escolas municipais da Ilha Rasa e a SPVS, com os
quais foi realizado um trabalho conjunto de educação ambiental voltado para o tema
62
saneamento durante o período de 1999 até 2001, que foi o período compreendido pela
pesquisa, também se mostrou um excelente meio de comunicação entre os pesquisadores e comunidade.
Os órgãos ambientais como o IBAMA, SEMA e IAP estabeleceram contato com a
tecnologia e podem avaliar a sua aplicabilidade, a FUNASA como instituição que na
época era responsável pelo atendimento da estrutura de esgotamento sanitário, também
reconheceu a tecnologia como viável para a aplicação em diferentes localidades. A
ONG SPVS assumiu a tecnologia como apropriada e utiliza a mesma em suas Reservas
Particulares do Patrimônio Natural - RPPNs como sistema de esgotamento sanitário.
As universidades desenvolveram as suas pesquisas, durante o período vigente entre
1999 a 2001 na seguinte proporção: UTFPR/PPGTE – duas dissertações de mestrado
em inovação tecnológica, DACOC dois trabalhos de pesquisa apresentados durante a
expotec (1999 e 2000 – premiados); UFPR - uma dissertação de mestrado na Botânica;
Universidades Católica e Positivo – duas monografias de final de curso da Biologia; e
duas pesquisas de iniciação científica uma pela UTFPR/DAQBI e outra pela Universidade Católica, desenvolvida no curso de Biologia.
5. CONCLUSÃO
Durante o período de três anos do desenvolvimento da pesquisa da ETE por zona
de raízes na Ilha Rasa, o processo de pesquisa-ação se deu de forma conjunta e concomitante à pesquisa técnico-científica, o que permitiu uma experiência da construção
de uma tecnologia que integra o pensamento de Schumacher (1983), para o qual o potencial tecnológico e científico deveria estar inserido em uma estrutura organizacional
e política, capaz de proporcionar um tal grau de intimidade com a tecnologia que a
mesma pudesse resolver problemas básicos e reais, e realizar transformações sociais.
A interface com os órgãos gestores responsáveis pelo saneamento e controle da
qualidade ambiental da região, a possibilidade de discutir a problemática do saneamento do ponto de vista da comunidade e o desenvolvimento de pesquisa voltada à
inovação tecnológica, possibilitou uma gama de diversas experiências que tornaram o
processo interdisciplinar em suas diversas faces (VAN KAICK, 2002).
Na comunidade beneficiada pela pesquisa foram geradas diversas atividades escolares com o tema, e a apresentação de um dos resultados no V Congresso Ibero Americano de Educação Ambiental, realizado em 2005 na cidade de Joinville/SC. Também
foram construídas mais duas ETEs por zona de raízes na Ilha Rasa à partir de 2002,
porém não foram monitoradas.
Apesar do esforço entre instituições e participação da comunidade, não se obteve
êxito no sentido de realizar uma replicação mais ampla da tecnologia para atender todas as residências da Ilha Rasa, e principalmente aquelas (16%) que estavam situadas
na área da linha de maré. A experiência da Ilha Rasa indicou resultados positivos no
sentido de demonstrar os benefícios da interdisciplinaridade, parcerias inter-instituicionais e interface entre as metodologias da pesquisa social e técnico-científica no
desenvolvimento e inovação de tecnologia, mas não se mostrou suficiente para propor
uma mobilização de pudesse dar um alcance maior na aplicação da tecnologia.
63
Porém, esta experiência está sendo replicada em outra ilha da APA de Guaraqueçaba, a Ilha das Peças, pelo projeto de extensão da UFPR, por meio do Centro de Estudos
do Mar com o Laboratório Sócio – Ambiental. Este projeto iniciou o processo em 2005
e atualmente, no ano de 2009, está observando uma mobilização da comunidade para a
busca de recursos financeiros para a implantação de um projeto que possa atender toda
a população da Vila da Ilha das Peças com o tratamento de esgoto por zona de raízes.
O que se observou por meio da comparação entre os projeto da Ilha Rasa com o
projeto da Ilha das Peças, é que o fator ‘tempo’ é elemento fundamental para a formação do conhecimento, adaptação e aceitação da tecnologia pela comunidade e instituições gestoras locais, para que a mesma possa internalizar e se apropriar da tecnologia
fim de utilizá-la para benefício local.
6. REFERÊNCIAS
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65
O PROGRAMA DE GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS NA
UTFPR-CAMPUS CURITIBA E A CONTRIBUIÇÃO DE TRABALHOS
ACADÊMICOS DO DAQBI
Valma Martins Barbosa(1); Eloy Fassi Casagrande Júnior (2); Gabriele
Lohmann (3)
(1) Doutora em Química (Físico-Química), Professora efetiva do Departamento
Acadêmico de Química e Biologia, DAQBI, UTFPR,
(2) PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Prof. do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia PPGTE, UTFPR
(3) Graduada em Tecnologia em Química Ambiental. Mestranda do Programa de
Pós-Graduação em Engenharia Civil, PPGEC, UTFPR.
RESUMO
A gestão ambiental engloba diversos procedimentos obrigatórios, desde o atendimento
da legislação ambiental até a fixação de políticas ambientais que visem a conscientização dos integrantes de uma organização. Dentre eles, há de se resolver o problema dos
resíduos gerados em qualquer ambiente que haja atividade humana vinculada a produção, comércio, serviços de atendimento ao público, educação, saúde, etc. Este artigo
tem como objetivo principal apresentar o histórico, as ações e os desafios encontrados
para a implantação do Programa de Gerenciamento de Resíduos do Campus Curitiba
(PGRCC) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná-UTFPR. Também apresenta
o caso dos resíduos gerados no Departamento Acadêmico de Química e Biologia da
UTFPR- Campus Curitiba e os trabalhos de professores a alunos associados ao tema.
Como conclusão se percebe que apesar do avanço na questão e do aumento da conscientização sobre o problema, há ainda um grande caminho a percorrer para se resolver
de forma efetiva o problema da gestão de resíduos.
1. INTRODUÇÃO
A gestão ambiental vem se destacando em diversos setores da sociedade como o
empresarial e, mais recentemente o da educação (TAUCHEN e BRANDLI, 2006). Aliada a gestão ambiental surge o gerenciamento de resíduos que segundo Tenório e
Espinosa (2004) engloba o manejo, coleta, transporte, acondicionamento, tratamento
e disposição final dos resíduos, e os aspectos relacionados ao planejamento, à fiscalização e à regulamentação. Para Monteiro et al (2001) significa o envolvimento de
diferentes órgãos da administração pública e da sociedade civil no propósito de realizar
a limpeza urbana, a coleta, o tratamento e a disposição final de resíduos.
Gerir corretamente os resíduos além de facilitar a destinação final, significa também
66
trabalhar na não geração, minimização, reuso, reciclagem e tratamentos que muitas
vezes podem ser executados no próprio local de origem como, por exemplo, a bioestablização da parte orgânica, cuja disposição inadequada acarreta em diversos problemas
como poluição do solo, da água e do ar e problemas de saúde pública (FRÉSCA, 2007;
OLIVEIRA, 2007; LORA, 2002; PICHTEL, 2007).
Implantar um Plano de Gerenciamento de Resíduos (PGR) é um grande desafio
para toda empresa, grandes departamentos comerciais, shopping centers, órgãos públicos, instituições de ensino, entre outros, tendo em vista a complexidade do tema que
envolve o conhecimento sobre o impacto dos resíduos gerados e mudanças de atitudes
e comportamentos.
Este artigo versa sobre a origem e execução do Programa de Gerenciamento de
Resíduos do Campus Curitiba (PGRCC) da UTFPR a partir de trabalhos que já foram
desenvolvidos até o presente momento os quais se referem à gestão e tratamento de
resíduos gerados no próprio Campus. Sendo que se destacam o trabalho desenvolvido
pelo Departamento Acadêmico de Química e Biologia (DAQBI) e o desenvolvimento
de trabalhos e pesquisas nesta linha.
O ambiente para resgatar a história desta importante ação ocorre através do Grupo
de Pesquisa em Tecnologia e Meio Ambiente (TEMA) vinculado ao Programa de PósGraduação em Tecnologia (PPGTE), que estimula a reflexão sobre as relações entre
tecnologia e meio ambiente. Por tratar-se de um grupo interdisciplinar, este também
tem integrantes de pesquisadores e professores de diversos departamentos da UTFPR,
alguns dos quais estiveram envolvidos como o PGRCC.
O grupo TEMA apresenta, dentre seus objetivos, o de reunir discentes e docentes
das três linhas de pesquisa do PPGTE e convidados para conhecer os interesses individuais de cada participante, estabelecer metodologias de trabalho focalizadas no intercruzamento de interesses, estimular a interdisciplinaridade partindo de interesses comuns e subsidiar os saberes e conhecimentos da academia e da comunidade externa.
2.
O PAPEL DAS UNIVERSIDADES NO GERENCIAMENTO DOS
SEUS RESÍDUOS
De acordo com Amaral et al (2001) “as Universidades, como instituições responsáveis pela formação profissional de seus estudantes e, consequentemente, pelo seu
comportamento como cidadãos do mundo, devem também estar conscientes e preocupadas com este problema”.
Jardim (1998) afirma que a universidade não pode ficar alheia a sua posição como
geradora de resíduos visto que este fato pode afetar considerável sua imagem pois
esta avalia (e geralmente acusa) os impactos causados por outros geradores externos
a ela. Para o autor é o momento das instituições de ensino superior, considerando seu
importante papel na sociedade, implementarem seus programas de gerenciamento de
resíduos.
Estes fatos apontam para a necessidade do comprometimento das instituições de
ensino com a gestão de seus resíduos, estas devendo buscar medidas para gerenciar
adequadamente seus resíduos tornando-se modelo para a sociedade. Neste aspecto no
67
Campus Curitiba da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) vários trabalhos e ações já foram desenvolvidos no que refere ao gerenciamento de resíduos,
sendo o Departamento de Química e Biologia (DAQBI) um destaque quanto ao desenvolvimento de projetos e pesquisas nesta linha.
2.1 O GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS NA UTFPR
Desde 1988 diversas ações visando à minimização de resíduos foram adotadas,
dentre as quais o reaproveitamento de madeira para artesanatos como apagadores, caixa de giz, suporte de canetas e a confecção de blocos de rascunho com restos de papel.
Em 2000, houve uma tentativa de implantação de um sistema de coleta seletiva e sensibilização quanto à utilização de boas práticas ambientais.
No ano de 2004, iniciava-se um movimento para propor um gerenciamento melhor
dos resíduos, quando o antigo CEFET – Unidade Curitiba foi convocado pela Prefeitura Municipal de Curitiba, através da Secretaria Municipal do Meio Ambiente, a elaborar de um Programa de Gerenciamento de Resíduos Sólidos conforme previsto no Art.
33 do Decreto Municipal 983/2004. Foi então criada uma comissão para a elaboração
deste, formada pelos docentes Cássia Maria Lie Ugaya, Eloy Fassi Casagrande Junior
, Fátima de Jesus Bassetti, Valma Martins Barbosa, pelos servidor técnico-administrativo Luiz Carlos Frangullys, presidida pela docente Maria Cristina da Silva. Na ocasião
foi feita a quantificação e classificação dos resíduos gerados nos departamentos e setores da instituição, para isto estes foram orientados quanto ao preenchimento uma ficha
a qual possibilitou inventariar os resíduos gerados. Estes pertencendo tanto a Classe I
(perigosos) quanto Classe II A e Classe II B (não perigosos não inertes e inertes) podem ser observados na Tabela 1.
Tabela 1- Quantificação e classificação de resíduos gerados diariamente na
UTFPR-Campus Curitiba em 2004
68
Fonte: Programa de Gerenciamento de Resíduos do Campus Curitiba (2004)
A implantação do plano iniciou-se em maio de 2005 com a instauração de uma
comissão, com duração de um ano, formada pelos docentes: Maria Cristina da Silva,
Marcelo Real Prado, pelos servidores técnico-administrativos Luiz Carlos Frangullys,
Rui Carlos Filho, Rozana de Holanda Pinto, a estagiária Karen Pedrosa do Curso Superior de Tecnologia em Química Ambiental, presidida pela docente Valma Martins
Barbosa.
A comissão teve como primeiro objetivo atender a legislação vigente, capacitando
os funcionários da Instituição quanto aos procedimentos corretos de gerenciamento
dos resíduos e as implicações legais. Nesta etapa foi feita a regularização da documentação necessária para o PGRCC, como a licença de transporte de resíduos perigosos
pelo IAP (5), elaboração e apresentação por escrito do PGRCC à Prefeitura Municipal
de Curitiba, e os demais documentos apresentados pelas empresas contratadas para
tratamento e disposição final dos resíduos do Campus. Foi também orientado quanto
69
às formas de coleta e armazenamento de vários resíduos perigosos.
Foram diretrizes da comissão de gestão:
• racionalizar o consumo de material;
• evitar desperdícios;
• minimizar a quantidade de resíduos perigosos gerados;
• prevenir e reduzir os riscos à saúde e/ou ao meio ambiente;
• implantar o programa de coleta seletiva conscientizando as pessoas a aderirem
a este e aperfeiçoar a segregação dos resíduos).
Foi estipulada a forma de coleta seletiva de acordo com as características e possibilidades do Campus no momento. Devido à diversidade dos resíduos e da grande
quantidade de departamentos acadêmicos e administrativos, observou-se a inviabilidade de aplicar a coleta seletiva de resíduos segundo CONAMA 275 para a Instituição
como um todo. Por isso, foi adotado o critério das centrais de coleta seletiva em pontos
estratégicos e, nos demais ambientes, foi implantada a separação dos resíduos ditos
orgânicos e recicláveis através de recipientes diferenciados em marrom e bege, respectivamente, devidamente rotulados.
Dessa forma, foi realizada a identificação e a quantificação do número de lixeiras
necessárias para implantação do plano de gerenciamento, num total de 662, sendo que
545 lixeiras de resíduos recicláveis, 117 de resíduos orgânicos e cinco conjuntos de
cinco lixeiras coloridas para áreas de maior circulação de pessoas.
Foram elaboradas campanhas educativas envolvendo funcionários, servidores e
corpo docente. A campanha “Unidos Separemos” foi a primeira a ser implantada com
a participação efetiva dos alunos do curso de Comunicação Empresarial e Institucional. A segunda campanha foi “Separe seu papel, ele não é lixo”. Os funcionários e os
novos alunos participaram de treinamentos, com a orientação para o correto manejo
dos resíduos na UTFPR. Buscou-se a interação de docentes e discentes de diferentes
cursos para que houvesse um desenvolvimento maior da responsabilidade ambiental
de cada gerador dentro da instituição.
No trabalho de conclusão de curso de Emerson Shigueo Sugimoto e Marcella Bieites Marinho da Silva (2007), sob orientação das professoras Valma e Maria Cristina,
foi feito um diagnóstico do andamento do gerenciamento de resíduos do Campus. Este
trabalho possibilitou a atualização e um maior detalhamento do inventário dos resíduos
gerados nos diversos departamentos de acordo com as atividades desenvolvidas. Com
base nesta problemática, o trabalho visou estabelecer rotinas quanto ao gerenciamento
dos resíduos. Para tanto, foi elaborado um manual para a aplicação do Programa de
Gerenciamento de Resíduos de Campus Curitiba (PGRCC) com o objetivo de facilitar
o desempenho das atividades relacionadas aos resíduos, tornando simples a adaptação
de qualquer novo servidor ou colaborador. Cada instrução foi confeccionada de acordo
com os requisitos exigidos por normas e legislação vigentes e segundo as necessidades
de adaptação, as quais foram verificadas através de análise da situação atual do programa existente.
No segundo semestre de 2007 nova comissão anual foi criada tendo como presidente a docente Valma Martins Barbosa e demais integrantes: docentes Maria Cristina
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da Silva e Fátima de Jesus Bassetti, os servidores técnico-administrativos, Luiz Carlos
Metz, Leila Milani e Carlos Wellington Tenório de Araújo e as estagiárias Gabriela
Kirsch e Bárbara Vieira de Souza. Um dos principais objetivos desta fase foi o aprimoramento e ampliação do manual do Programa de Gerenciamento de Resíduos de
Campus Curitiba (PGRCC).
Esta comissão elaborou nove documentos complementares e revisou os procedimentos específicos para cada tipo de resíduo e/ou ação, e criou mais seis procedimentos específicos para o estagiário do programa. Tais documentos/procedimentos têm
como objetivo definir claramente as responsabilidades de cada área e também do pessoal administrativo, servindo de suporte para a correta aplicação e gerenciamento do
programa, conforme Tabela 02.
Tabela 02 – Listagem de Documentos e Procedimentos
71
Para que o PGRCC tivesse êxito, foi renovada a campanha de educação ambiental
para correto descarte do lixo, com a criação de novos rótulos referentes aos resíduos recicláveis e orgânicos e, um cartaz educativo/informativo acima de cada par de lixeiras,
reciclável/orgânico, que foram distribuídos em locais estratégicos pelo campus.
Para estimular a conscientização de todos, instaurou-se uma campanha em alguns
departamentos da instituição, com a rotulagem de ao menos duas lixeiras para tal.
Os departamentos que já faziam a devida separação receberam os rótulos padrão do
PGRCC utilizados no resto da instituição. Alguns departamentos não mostraram interesse, porém a maioria foi favorável.
Com o intuito de evitar incêndios nos cinzeiros criou-se a campanha “Cinzeiro não
é lixo”, incentivando o correto descarte de restos de cigarros. Foram afixados cartazes
acima de cada cinzeiro.
Durante as várias campanhas ambientais/educacionais promovidas, paralelamente
foi realizado com os funcionários responsáveis pela limpeza, treinamento, onde abordou-se a coleta seletiva, o correto descarte de resíduos e principalmente a importância
dos funcionários para a manutenção do programa. Após o treinamento observou-se
maior entrosamento destes com o programa. Várias ações no sentido de divulgar o
programa de modo mais satisfatório foram feitas: criou-se uma logomarca para o Programa de gerenciamento de resíduos e também um e-mail institucional: pgrcc-ct@
utfpr.edu.br.
A comissão teve participação efetiva na EXPO UT 2007 de 3 a 5 de outubro de
2007, dando explicações de caráter informativo sobre a coleta seletiva e correto descarte dos resíduos dentro e fora da instituição abrangendo toda comunidade visitante.
Ao final do mesmo ano, realizou-se uma pesagem dos resíduos recicláveis durante
uma semana, cujos resultados foram quantificados para a atualização do inventário de
resíduos sólidos.
72
Diante da verificação da mistura de resíduos nos conjuntos da coleta seletiva (lixeiras amarela, verde, azul, vermelha e marrom), rótulos com desenhos foram afixados
abaixo de cada denominação: metal, vidro, papel, plástico e orgânico, promovendo
uma acentuada melhora no descarte correto de resíduos nestes recipientes.
3.
TRABALHOS DESENVOLVIDOS PELO DEPARTAMENTO DE
QUIMICA E BIOLOGIA NA ÁREA DE GERENCIAMENTO
Ao longo deste período alunos e professores do DAQBI têm realizado trabalhos
envolvendo tanto resíduos gerados no Campus, assim como também os específicos de
suas atividades, oriundos de aulas práticas e de pesquisas.
No ano 2004, um grupo de professores (Sérgio Oldakoski e Valma Martins Barbosa) e os estagiários (Lucila Adriani Coral, Paula Broering Gomes e Christian deAssis
Pereira) viram a necessidade de dar um destino correto aos resíduos químicos gerados nos laboratórios do DAQBI, que a muito vinham sendo coletados e simplesmente
misturados e armazenados. Estes resíduos formam classificados na medida do possível
de acordo com suas características físico-químicas e pesados totalizando aproximadamente uma tonelada que foi encaminhada para um aterro industrial licenciado. Posteriormente foi feito um levantamento dos resíduos rotineiramente gerados e verificou-se
a possibilidade minimização. Tal atitude é uma realidade na disciplina de química analítica, antes maior geradora, em que se opera atualmente em micro-escala. Os estágiários Yara Jurema Barros e Juarez Falcato Vecina realizara levantamentos periódico dos
resíduos, identificando-os e realizaram alguns testes de tratamentos e recuperação.
A partir daí surgiu o Programa de Gerenciamento de Resíduos Laboratoriais proposto por Barbosa, Fortunato e Lubachewski (2006), o qual visou a minimização, tratamento dos resíduos, segregação, armazenamento e rotulagem adequados. Verificouse com isso que alguns resíduos depois de tratados poderiam ser reutilizados ao invés
de simplesmente descartado. Aos resíduos de difícil tratamento foi recomendado o
armazenamento a espera de envio para o aterro industrial. Caroline Zanello no trabalho
de iniciação cientifica estudou outros processos de tratamento e recuperação de resíduos, propôs melhorias às práticas laboratoriais e analisou custos referentes a estes.
No Laboratório de Microbiologia, do DAQBI, semestralmente são gerados volumes variáveis de resíduos de corantes (principalmente corantes de Gram) que são armazenados em frascos de plásticos de polietileno de alta densidade (PEAD) dentro
do próprio laboratório e periodicamente são encaminhados à destinação final. Ciente
da grande quantidade gerada, dos custos para destinação e da necessidade de um prétratamento antes do descarte, Saldanha e Nozu (2007) deram início a estudos de tratabilidade destes corantes por meio da biodegradação fúngica e processos oxidativos
avançados (POAs). Os resultados obtidos demonstraram que o processo combinado de
cultivo submerso seguido de peroxidação com irradiação ultra-violeta foram eficientes
na remoção de cor e degradação de aromáticos dos resíduos da coloração de Gram
analisado.
Um estudo de tratamento para os resíduos líquidos da usinagem do DAMEC (Departamento de Mecânica) foi proposto por Estrugala e Conceição (2008). O filtro lento
73
de areia com carvão ativado mostrou-se o mais eficiente no tratamento do fluido de
corte promovendo uma boa separação agua óleo num dispositivo simples de baixo
custo.
Lohmann (2008) através do acompanhamento da coleta dos resíduos sólidos verificou algumas não conformidades na coleta seletiva no Campus e percebeu a necessidade de um programa de Educação Ambiental continuada que envolva toda comunidade.
Neste mesmo trabalhou apresentou uma proposta de tratamento para os resíduos sólidos orgânicos através da bioestabilização acelerada, a qual foi acompanhada e monitorada por parâmetros como pH, temperatura, aeração e umidade. Foram realizadas
duas bateladas as quais utilizaram dois reatores, ambos com sistema e injeção de ar. Os
ensaios permitiram a obtenção de um produto com as características de um composto
obtido por um processo completo de compostagem, sem a formação de chorume, exalação de odores e proliferação de larvas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um programa de gerenciamento de resíduos deve ser constantemente revisado,
aprimorado e estar sempre sintonizado com as normas e legislações vigentes. Mas para
efetiva concretização deste, assim como evitar problemas com a fiscalização dos órgãos ambientais e pela prefeitura local, é necessário que os procedimentos feitos pelo
PGRCC sejam aprovados pela direção, sendo incluídos no regulamento da instituição
para sua adequada funcionalidade e execução.
Um controle eficiente do fluxo de resíduos na UTFPR é essencial para uma gestão
eficaz e para tal o envolvimento de toda comunidade da UTFPR é de estrema importância, pois só desta forma o Programa de Gerenciamento pode ser realmente efetivado,
criando indiretamente responsabilidades ao gerador (comunidade). Fora destas condições, as ações do PGRCC correm o risco de ficarem isoladas e sem efeito.
Os trabalhos desenvolvidos pelo DAQBI comprovam que o gerenciamento dentro
da universidade é um trabalho viável apesar da demanda de tempo e a princípio envolver custos. Também demonstram a possibilidade de alguns tratamentos do que é
gerado no Campus.
Com o aprimoramento e desenvolvimento de mais pesquisas neste segmento a
UTFPR estará cumprindo com o seu papel perante a sociedade servindo de exemplo
e contribuindo com a busca de tecnologias não somente direcionadas a produção e
serviços, mas que também proporcionem melhor qualidade ambiental.
5. REFERÊNCIAS
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Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Programa de Gerenciamento de Resíduos da UTFPR-Campus Curitiba (PGRCC). Manual do PGRCC. Curitiba, 2007. 18 p.
76
A ABORDAGEM AMBIENTAL EM CURSOS DE GRADUAÇÃO EM
DESIGN: AS CONSIDERAÇÕES DO MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO E
CULTURA E OS MÉTODOS DE QUATRO ESCOLAS DO SUL DO BRASIL
Celso Luiz Podlasek (1); Libia Patricia Peralta Agudelo (2); Rodrigo Ribeiro da Silva (3); Eloy Fassi Casagrande Junior (4); Elaine Garcia de Lima (5);
Liliane Iten Chaves (6)
(1) Designer, Mestre em Tecnologia, Doutorando do Programa de Pós-Graduação
em Tecnologia-PPGTE, UTFPR, Coordenador do Curso de Design de Produto da
Universidade de Caxias do Sul
(2) Designer, PhD em Ecologia da Paisagem, Profa do Curso de Design da UNIBRASIL
(3) Designer, Mestrando Programa de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE,
UTFPR, Professor do Curso de Design da Universidade Tuiuti
(4) Designer, PhD em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia-PPGTE, UTFPR
(5) Designer, Mestre pela UFPR, Professora do Curso de Design da UTFPR
(6) Designer, Mestre em Tecnologia, Dra em Desenho Industrial e Comunicação
Multimedial, Professora do Curso de Desenho Industrial da UFPR
RESUMO
O ensino de design no Brasil, nos cursos de graduação, ainda não está completamente adequado para a abordagem sistematizada dos diversos aspectos ambientais que
permeiam a prática da profissão. Observa-se que, os projetos pedagógicos da maioria
dos cursos superiores de design ofertados no país, quando fazem qualquer menção a
respeito, deixam pouco explícito como estas questões irão ser desenvolvidas ao longo
de todo período de aprendizado. Em geral, estas atribuições acabam ficando a cargo
do corpo docente de cada instituição, que se bem intencionado muitas vezes possui
falta de preparo específico para inserir a abordagem ambiental na prática projetual.
Da mesma forma observa-se que, em alguns casos as precárias condições técnicas dos
próprios cursos, os impedem de alcançar resultados ideais. No entanto, observa-se
que algumas instituições têm revertido esta situação e que importantes avanços estão
sendo conquistados no sentido de melhor introduzir as variáveis ambientais de forma
sistematizada na prática projetual. Este artigo irá abordar como o Ministério de Educação e Cultura - MEC faz a menção sobre as questões ambientais para os cursos de
graduação em design no Brasil, bem como os resultados que alguns cursos da Região
Sul do Brasil estão alcançando e seus métodos quando trabalham com os problemas
ambientais no ensino de design.
77
1. INTRODUÇÃO
A partir dos anos de 1960 o design começou a sofrer severas críticas em sua postura de trabalho, quando ficou relacionado que os designers, especialmente nos países
ricos, eram responsáveis por desenvolver produtos que estimulavam o consumismo e o
desperdício. Nos anos de 1970, Viktor Papanek foi um dos críticos que mais apontou
para este problema, e articulou diversas ações para que o design, ainda incipiente nos
países em desenvolvimento, não sofresse a mesma sorte de influências.
No Brasil, o design teve sua primeira escola a partir da fundação da ESDI (Escola
Superior de Desenho Industrial), com o início de suas atividades no Rio de Janeiro em
1962. Seu modelo de ensino teve como influência o design europeu, especialmente
pela linha alemã representada pelas escolas da Bauhaus e de Ulm. A ESDI surgiu em
meio a grandes ondas de entusiasmo político de progresso e rivalidades entre pensamentos de direita e esquerda da política nacional da época (DENIS, 2004).
Com uma evolução tímida nas décadas seguintes, o design ganhou uma proporção
maior de cursos e importância no cenário nacional, após a queda de barreiras protecionistas dos anos de 1990, as quais levaram diversos setores da economia brasileira à enxergar o design como um elemento capaz de promover inovação e competitividade.
As discussões sobre o meio ambiente e design no Brasil possuem uma derivação da
emergência que tornou-se evidente e publicada com mais ênfase nos últimos 20 anos.
Já a presença de referenciais e orientações ambientais, em projetos pedagógicos, trilha
um caminho de evolução tardia, mas que começa a ganhar destaque e importância com
resultados que podem tornar-se promissores de acordo com o entendimento e a preparação que as instituições de ensino e o corpo docente possuam para abordar o problema
ambiental no design brasileiro.
2. ENSINO DE DESIGN
Atualmente existem cerca de mais de 4855 cursos superiores no País, que possuem
formação nas modalidades de bacharelado e tecnólogo, em áreas específicas como produto, gráfico, moda, interiores, entre outras, ou simplesmente em design. O Ministério
da Educação e Cultura do Brasil dispõem de diretrizes e resoluções específicas para o
ensino do design, orientando quanto a conteúdos e cargas horárias mínimas desejadas
para este curso na graduação.
As diretrizes6 servem como uma orientação geral mínima deixando a critério de
cada projeto pedagógico e instituição de ensino superior a modelagem pedagógica
destes conteúdos. Já a última resolução7 do bacharelado estabelece uma carga horária
mínima de 2400 horas e a resolução do tecnólogo8 uma carga horária de 1600 horas.
Especificamente sobre questões ambientais são encontradas menções somente nas diretrizes, e em dois momentos:
5. Fonte INEP: acesso em http://www.educacaosuperior.inep.gov.br/funcional/busca_curso.stm em
18/04/2009.
6. Nº 5, de 8 de Março de 2004.
7. Nº 2, de 18 de Junho de 2007.
8. CNE/CES 436/2001.
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Art. 4º O curso de graduação em Design deve possibilitar a formação profissional que revele competências e habilidades para:
[…] VIII – visão histórica e prospectiva, centrada nos aspectos
sócio-econômicos e culturais, revelando consciência das implicações econômicas, sociais, antropológicas, ambientais, estéticas e éticas de sua atividade.
e
Art. 5º O curso de graduação em design deverá contemplar, em
seus projetos pedagógicos e em sua organização curricular conteúdos e atividades que atendam aos seguintes eixos interligados
de formação:
I- conteúdos básicos: estudo da história e das teorias do Design
em seus contextos sociológicos, antropológicos, psicológicos e
artísticos, abrangendo métodos e técnicas de projetos, meios de
representação, comunicação e informação, estudo de relações
usuário/objeto/meio ambiente, estudo de materiais, processos,
gestão e outras relações com a produção e mercado.
A íntegra desta diretriz, apesar de ampla e aberta, possui uma vocação mais explícita na ligação do design com questões de produção e mercado, e a preocupação
ambiental está imersa paralelamente a outros valores sem maiores destaques.
3. PROJETOS PEDAGÓGICOS
Muitos profissionais de design estarão trabalhando no Brasil nos próximos anos a
partir do que apreenderam em cursos superiores nacionais descritos através de projetos
pedagógicos redigidos atualmente. De acordo com a carga horária estipulada pelas
Diretrizes, um aluno iniciando seu curso em 2010 terá encerrado esta etapa de sua formação entre 2013 e 2015, e necessitará de mais alguns anos para adquirir maturidade
profissional. É possível arriscar que este profissional obtenha em 2020 uma capacidade
completa de atuação.
Esta perspectiva merece uma atenção especial, pois basta tentarmos imaginar como
estará o cenário nacional e mundial em relação aos problemas ambientais. Existe a
possibilidade de estarmos em uma situação mais grave, exigindo alterações imediatas
de postura, ou trabalhando para minimizar e recuperar danos passados e prevenindo
os danos futuros.
Em qualquer situação, a necessidade de um profissional adequado que saiba lidar
com as questões ambientais é um elemento decisivo em qualquer projeto pedagógico
atual de design, pois o resultado de sua eficiência será medida nas gerações futuras
desses profissionais.
Porém, um dos pontos mais observados na construção de um projeto pedagógico,
especialmente em algumas instituições particulares, é apenas a carga horária mínima.
Carga horária significa tempo de curso e investimento por parte do aluno. É sabido
que diversas instituições oferecem cursos de graduação explicitando uma jornada de 2
79
ou 2,5 anos9 . Quando esta prática toca em cursos de design, ao menos tempo implica
em conteúdos reduzidos, e somado à pouca ênfase da diretriz, a questão ambiental
torna-se uma abordagem superficial, sem importância e descontextualizada no projeto
pedagógico.
Outro problema percorre a formação do corpo docente das instituições. A maioria
dos professores atuais formaram-se nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Raros eram os
cursos nestas épocas que faziam qualquer menção ao problema ambiental. Não que
estes professores ignorarem o assunto por completo, porém não possuem formação
capaz de apresentar conceitos, metodologias e técnicas capazes de abordar o assunto
plenamente em sala de aula.
Com estas análises, a responsabilidade de tratar de assuntos ambientais em cursos
de design cabe inteiramente às instituições de ensino, visto que as diretrizes e resoluções do MEC não conseguem uma indução direta. Como o pressuposto das diretrizes
é deixar os conteúdos abertos para as instituições elaborarem seus projetos de curso,
a inserção da variável ambiental nos cursos de design pode ocorrer através de dois
modos básicos:
a) criação de disciplinas que tratem especificamente destes conteúdos;
b) diluir o problema ao longo de toda a matriz curricular.
A primeira opção pode sofrer dos mesmos efeitos que outros conteúdos específicos apresentam em projetos pedagógicos: a falta de correspondência com os demais conhecimentos e competências do design. As disciplinas ambientais, quando são
lecionadas separadamente, podem trazer a ilusão de que o problema ambiental não é
uma preposição obrigatória. O ensino em condições isoladas, especialmente das disciplinas de projeto, poderá fazer com que o aluno assuma que a variável ambiental não
possui a mesma importância do que outros assuntos comuns em projetos de design,
como a ergonomia, materiais, especificações técnicas, e outros.
Todavia, diluir as questões ambientais num projeto pedagógico requer, além de
escrever estes pressupostos, ter um corpo docente conhecedor do projeto e com a preparação adequada para a função. Certamente que notícias e informações acerca do
problema ambiental também atuam como agentes sensibilizadores, porém para poder
atuar como profissional devidamente preparado para enfrentar este problema é necessário que exista um planejamento pedagógico anterior, em que assuntos demonstrem
importâncias de correlações.
Deste modo, parece que as duas opções estão fadadas a poucos resultados concretos, porém, a opção de diluir o problema na matriz de ensino é a que está colhendo
maiores resultados no momento, pois atua através de uma ação sistêmica que estendese por toda formação acadêmica.
4.
A ABORDAGEM EM ALGUMAS DAS ESCOLAS DE DESIGN DE
CURITIBA
4.1 A abordagem do Curso de Design da Universidade de Caxias do Sul
9. Especialmente em cursos de titulação de Tecnólogo, cuja carga horária mínima é de 1600 horas no
design.
80
O curso de Design de Produto da Universidade de Caxias do Sul oferece uma condição de comparação interessante entre estes dois modos básicos de implantar a discussão ambiental em um projeto pedagógico.
Esta Instituição possui dois projetos com duas matrizes curriculares distintas, a
629F e a 629G, que respectivamente fizeram a abordagem por disciplina e diluição ao
longo do projeto. A matriz 629F faz menção direta ao meio ambiente em seus capítulos
de Referenciais Epistemológicos, Referenciais Técnico-Científicos e Perfil do Egresso,
além de citar as diretrizes do MEC, cujos conteúdos foram mencionados anteriormente. Além disso, possui as disciplinas de Ecodesign e Sistemas de Gestão Ambiental.
No projeto pedagógico da matriz curricular 629G está explícito em seus “Referenciais Orientadores” o compromisso com o meio ambiente, ou melhor, com o desenvolvimento sustentável. Porém, esta menção não se estende às nomenclaturas e ementas,
surgindo nos conteúdos programáticos das disciplinas de Projeto. A idéia é que a sustentabilidade ou questões ambientais posicionem-se em igualdade de importância com
outros elementos analíticos do design.
O curso 629F foi extinto em 2008 e formou 29 alunos. O 629G entrou em substituição e começou a formar profissionais em 2008, com cerca de três formados e mais 46
no último ano de curso com seus projetos finais em andamento. A melhor comparação
entre os alcances ambientais conseguidos pelos dois cursos pode ser medida pelos
temas e resultados demonstrados nos projetos finais de curso. Da matriz 629F, apenas
um dos 29 projetos fizeram menção direta ao meio ambiente e à sustentabilidade. Os
demais tinham enfoques predominantemente econômicos.
Dos três egressos da matriz 629F, um tinha preocupação direta com o meio ambiente, e dos demais 46 com projetos em andamento, 14 utilizam o meio ambiente e
o desenvolvimento sustentável como principal enfoque de trabalho. Apenas deve-se
ressaltar que o tema e as abordagens são livres e o aluno é que monta o escopo teórico
para seu projeto. Estes dados demonstram um ganho quantitativo de projetos de design
preocupados com o meio ambiente e com a adoção do modelo de diluição de conteúdo
ao longo do projeto.
4.2 A abordagem do Curso de Design da Universidade Tecnológica Federal do
Paraná (UTFPR)
A Universidade Tecnológica Federal do Paraná - UTFPR possui um Departamento
de Desenho Industrial - DADIN, no qual atualmente funcionam três cursos ligados a
área, sendo dois de Tecnologia e um de Bacharelado. Os cursos de Tecnologia são os
de Tecnologia em Design Gráfico e o de Tecnologia em Design de Móveis, que no presente momento está em curso, mas não está sendo ofertado desde o segundo semestre
de 2007, e o curso de Bacharelado em Design – um curso que abrange tanto a área
visual, quanto a de produto, que iniciou sua primeira turma em 2007.
Os cursos de Tecnologia são cursos de 2400 horas, distribuídas em seis semestres,
contando com Estágio Obrigatório e Trabalho de Conclusão de Curso - TCC, com
entradas de 22 alunos pela manhã e 22 alunos a noite, por semestre. Já o curso de
bacharelado é um curso de 3405 horas, distribuídas em 8 semestres também incluindo
81
o estágio e o TCC. No início eram ofertadas 25 vagas por semestre no período diurno, mas a partir do primeiro semestre de 2009, passaram a ser ofertadas 44 vagas por
semestre, devido às novas regras do Programa de Apoio ao Plano de Reestruturação e
Expansão das Universidades Federais - REUNI.
De acordo com a grade curricular dos cursos, não existem disciplinas voltadas
diretamente aos temas que tratam de desenvolvimento sustentável, meio-ambiente,
sustentabilidade e afins. O que ocorre na realidade são direcionamentos em algumas
disciplinas, pelos próprios professores que tem algum envolvimento com o tema, e
principalmente nas disciplinas de Projeto. Por este motivo não é viável identificar o
foco trabalhado, sem uma pesquisa mais aprofundada. Conforme o ementário dos cursos pode-se identificar que os cursos de tecnologia possuem uma disciplina – design,
cultura e sociedade - ofertada no sexto período que tem como competências um direcionamento a sustentabilidade.
Competências Design, Cultura e Sociedade: “Situar no contexto
histórico-cultural as diversas formas de manifestação da profissão de design. Analisar de forma crítica as formas de desenvolvimento e sustentabilidade de culturas materiais diversas.
E o curso de Bacharelado possui uma disciplina – gestão do design - no quinto
período que analisa os aspectos ambientais do produto e uma disciplina – teoria do
design quatro – no oitavo período que enfoca a sustentabilidade e o ciclo de vida dos
produtos.
Ementa Gestão do Design: design operacional: empreendedorismo, designer empresário, ferramentas de gestão de design;
design estratégico: visão sistêmica do design na estratégica da
empresa, formação focada na gestão de design, organizações de
sucesso em gestão de design, princípios norteadores de gestão
de design estratégico, modelo para gestão de design, design e
competitividade, conhecimentos das conexões entre os fatores
condicionantes do projeto: processos de fabricação, aspectos
econômicos, ambientais, psicológicos e sociológicos do produto.
Ementa Teoria do Design 4: teorias e conceitos de design e sustentabilidade; o desenvolvimento e a sustentabilidade de culturas
materiais diversas; implicações de aspectos culturais e sociais no
ciclo de vida dos produtos.
Contudo pode-se observar que estes temas são enfatizados de alguma forma, verificando o resultado dos TCC, que no total de 228 trabalhos defendidos, 28 foram
focados para esta área de interesse. Sendo que o Curso de Tecnologia em design de
Móveis possui uma vertente mais forte, tendo num total de 98 trabalhos defendidos, 26
relacionados ao tema, sendo dois relativos ao uso de madeira reflorestada e certificada, 11 relativos ao incentivo e uso de materiais alternativos como fibras naturais, um
de análise de impactos ambientais, cinco voltados para a utilização de resíduos, três
focados no restauro de móveis, dois ligados diretamente ao tema de sustentabilidade,
1 ao design ecológico e um direcionado a população de baixa renda. Já o Curso de
Tecnologia em Design Gráfico não parece ter um interesse maior na área, já que de 130
82
trabalhos defendidos, somente dois possuem um direcionamento, através do projeto
gráfico de alguma atividade focada na conservação da natureza e na sustentabilidade.
Com relação ao curso de Bacharelado em Design, ainda não é possível fazer este
tipo de verificação, pois a primeira turma ainda está no quinto período e não houve
defesa de TCC. Observando os cursos de design da UTFPR, é possível observar que
existe uma preocupação com a sustentabilidade e suas vertentes, mas caso existissem
disciplinas mais focadas no assunto os resultados poderiam será ainda melhores do que
os encontrados no momento.
4.3 A abordagem do Curso de Design da Universidade Tuiuti do Paraná
(UTP)
A UTP possui no departamento de Ciências Exatas e Tecnologia, três cursos de
Design nas habilitações de Design Gráfico, Design de Produto e Design de Moda.
Segundo o seu projeto pedagógico a grade curricular tem como objetivo:
(...) objetivo dos cursos de Design da Universidade Tuiuti do
Paraná é formar profissionais com amplo conhecimento acerca
dos meios, materiais e linguagem do design. Que estejam aptos a
criar produtos que atendam às necessidades da sociedade; possibilidades de produção e melhoria da qualidade de vida.(...).10
Nas grades curriculares atuais os Cursos de bacharelado em Design constituem-se
de seis semestres sendo ofertadas 50 vagas para cada uma das habilitações. Até 2007 o
currículo dos cursos de Design era de oito semestres, porém uma proposta foi aprovada, por seu colegiado para a redução de oito para seis semestres dos cursos com enxugamento nos conteúdos de disciplinas que apóiam a prática projetual. Houve, também,
o enxugamento na quantidade de horas para as disciplinas de Metodologia Projetual
de 72 horas semestrais para 54 horas semestrais. Atualmente os cursos possuem um
total de 2412 horas.
Tendo em vista a diminuição no número de horas totais do curso, algumas disciplinas que até então possuíam um número mínimo de horas de estudo como: Semiótica e
Representações de Produtos, entre outras, foram reduzidas a um semestre ou a um número de horas insuficiente para que se tenha pleno domínio das técnicas de trabalho.
Com relação a disciplinas que tratem de temas como o desenvolvimento sustentável, meio-ambiente, sustentabilidade e agenda 21, os mesmos concentram-se quando
ocorrem em temas de projetos na disciplina de Metodologia de Projeto, sendo aplicados de forma isolada e por iniciativa própria dos professores da disciplina, não permitindo, assim, a relação dos conteúdos por parte dos discentes com as outras disciplinas
apresentadas.
Não há um efetivo planejamento e/ou desenvolvimento de práticas de educação
ambiental, tampouco uma discussão sobre assuntos pertinentes a produtos sustentáveis, ciclo de vida de produtos, considerações sobre o descarte e as conseqüências em
decorrência do não desenvolvimento de tais produtos.
10. Fonte:http://www.utp.br/cursos/facet/DM/Estrut%20curric%20DM%202008.pdf. Acesso em
19/04/2009
83
O curso de Design Gráfico desenvolve aplicativos digitais e impressos tais como
embalagens, catálogos, livros, revistas folhetos etc., sem que haja uma preocupação
com as matérias-primas utilizadas, processos de produção e descarte destes produtos,
assim como as conseqüências do desenvolvimento de tais produtos e a sua decomposição no meio-ambiente.
O curso de Design de Produto desenvolve produtos de produção em massa que
possuem grande impacto ambiental quando descartados. São estes: eletrodomésticos,
móveis e máquinas, dentre outros. A grande maioria deles é desenvolvida sem que
haja preocupação com relação à sustentabilidade tanto no seu processo de fabricação,
com materiais recicláveis, matérias-primas de baixo impacto ambiental quanto no seu
uso e descarte.
O curso de Design de Moda desenvolve produtos de moda que utilizam materiais
diferenciados, inovação no uso desses produtos e no desenvolvimento de coleções de
trajes para fins diversos, além de acessórios. Porém, com pouca ou nenhuma preocupação em relação aos tecidos, ao uso de produtos orgânicos no desenvolvimento de seus
materiais e principalmente na formação da mentalidade dos futuros profissionais do
mercado de moda, onde este, por si só, é incompatível com a questão da sustentabilidade, por ter a obsolescência como ponto de partida para as coleções.
Não existe uma disciplina de eco-design na grade curricular que permeia e discute
assuntos referentes à educação ambiental, LCD (Life-Cycle Design) e processos sustentáveis. Em decorrência desse vácuo de conhecimento existente, a academia, que é
o principal meio de formação de profissionais para a sociedade, forma “analfabetos
ecológicos”, colocando no mercado profissionais despreparados para atuar em projetos
com a visão sistêmica, onde a questão sócio-ambiental deve ser inserida.
Recentemente em 2009, foi feita uma proposta à coordenação do Curso de design
de Moda para a implementação de uma disciplina que possa discutir a questão de moda
e sustentabilidade, assim como as questões referentes ao consumismo e suas aplicações nas práticas profissionais do curso.
Desde 2007, a Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) é signatária do Pacto 21 Universitário11, que através de seu conselho busca promover atividades que visam educar,
conscientizar e promover a construção de ações sócio-ambientais de acordo com os
propósitos da Agenda 21. Apesar da iniciativa louvável, a falta de disciplinas que
possam discutir e permear tais pontos faz com que os esforços e o comprometimento
da Universidade com o Pacto 21 Universitário sejam minimizados dificultando sobremaneira a plena consolidação das atividades propostas.
4.4 A abordagem do Curso de Design da UniBrasil (Faculdades Integradas do
Brasil)
A Unibrasil- Faculdades Integradas do Brasil iniciou o seu curso de Design com a
proposta inovadora de habilitar de forma conjunta os alunos em Design de Produto e
Design Gráfico. A maior parte dos cursos de Design existentes na atualidade, separam
11. O Pacto 21 Universitário é uma iniciativa da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Paraná
(SEMA) para unir as Instituições de Ensino Superior do estado em torno dos objetivos da Agenda 21.
84
estas duas habilitações por considerar o seu foco pouco interligado. No entanto, o idealizar do Curso da Unibrasil, Professor Marcio Brasil, acredita que na realidade, a atual
demanda do mercado de design exige que o profissional integre de forma equilibrada
as duas competências de design. Mesmo que, depois, no decorrer da sua atuação profissional, o aluno venha a optar por um destes dois aspectos, acredita-se que esta formação integrada venha a fortalecer e abrir maiores perspectivas de trabalho aos jovens
designers sem restringir desde o início da sua carreira a sua atuação profissional.
O Curso foi fundado em 2003 e conta atualmente disciplinas distribuídos em oito
períodos e durante dois turnos, o matutino e o vespertino. O Curso conta hoje com
aproximadamente 300 alunos distribuídos da seguinte forma: 110 alunos (37%) no
período da manhã e 190 (63%) no período noturno. Esta distribuição reflete de forma
generalizada um perfil de aluno que já se encontra inserido no mercado de trabalho e/
ou alunos que realizam diversas atividades e estudam no contra-turno disponível. O
Curso de Design da Unibrasil está, portanto, ainda em formação, sendo que apenas
em setembro de 2008 o mesmo foi avaliado durante dois dias consecutivos por uma
Comissão do MEC para efetivar o seu reconhecimento tendo obtido o Conceito quatro.
Esta mesma comissão avaliadora disse que o curso de Design da Unibrasil apresenta
estrutura condizente com as diretrizes curriculares em Design e em consonância com
as demandas do mercado local (Unibrasil, 2008). 12
De forma similar ao observado em outras universidades, existe na Unibrasil a prática de inserir conceitos ambientais diluídos em outras disciplinas por iniciativa dos
próprios docentes. No entanto, existe um diferencial fundamental, já que durante o 5º
período existe na grade obrigatória a disciplina de Meio Ambiente e Design. Esta disciplina é ofertada no momento em que os alunos já se encontram maduros no processo
de aprendizado e depois de terem tido estímulos anteriores não específicos nas outras
disciplinas como ilustrado a seguir.
O corpo docente do Curso de Design da Unibrasil conta atualmente com 23 professores, sendo que pelo menos oito abordam de foram sistemática assuntos de cunho
ambiental nos seus conteúdos e problemas propostos. Isto significa que quase 35% do
corpo docente introduz a questão na sua prática de ensino. Considera-se que, o reflexo
disto é maior do que esta percentagem, já que um mesmo professor costuma lecionar
de duas a quatro disciplinas aproximadamente distribuídas ao longo dos vários períodos do Curso. Num primeiro levantamento foi verificado que conceitos de cunho ambiental como fractais, sustentabilidade, reciclagem, uso de materiais mais ecológicos,
etc., são abordados em disciplinas que usualmente não tratariam estes aspectos tais
como Percepção Visual (Professor MA. Jorge Luiz Kimieck), Projeto I (Professor Ciro
Andrade), Ergonomia (Professora MA. Adriana Laufer), Modelaria (Professor Fabio
Fontoura), Projeto Gráfico (Professora MA. Sieglinde Piper) e Tipografia (Professor
MA. Manoel Schroeder).
12 Noticia do site da Unibrasil obtida em http://www.unibrasil.com.br/noticias/detalhes.asp?id_noticia=3703. Acesso Maio de 2009. “O Projeto Pedagógico do Curso (PPC) apresenta-se em acordo com a
missão da Instituição e fundamenta-se em dois eixos destinados à capacitação intelectual e profissional do
aluno”.
85
Observa-se ainda, que a questão ambiental é sistematicamente introduzida nas matérias de Projeto de Produto tais como Metodologia do Projeto de Produto I e II ,
ministradas pela Profa. Debora Jordão e ainda mais especificamente, na disciplina de
Metodologia do Projeto III, conduzida pela Profa. Dra. Líbia Patrícia Peralta Agudelo,
Designer e Ph.D em Ecologia da Paisagem e Recursos Naturais, portanto experiente
em design para a sustentabilidade. A professora tem abordado a questão de ecológica
complementada-a com a inserção sistemática de preocupações sociais baseadas em
problemas reais. Buscou-se com isto inserir o aluno em uma problemática real, tirando-o do contexto único de sala de aula teórica e confrontando-o com necessidades sociais básicas às quais freqüentemente se encontram associados aspectos ambientais.
Um caso ilustrativo aconteceu com a Turma do quarto período do segundo semestre de 2008, onde o tema base seria o redesign da cultura material dos imigrantes que
compõem o Estado do Paraná. Durante a pesquisa, ficou muito claro para o aluno, que
muitos dos materiais utilizados pelos imigrantes de inicio de século para a fabricação
de móveis e acessórios utilitários encontram-se hoje em extinção como são os casos da
madeira do Pinheiro do Paraná (Araucária angustifólia) e da Imbuia (Ocotea porosa).
Esta sensibilização levou os alunos a efetuarem o redesign destas peças utilizando
conceitos de ciclo de vida ou LCD (Life Cycle Design) escolhendo madeiras que não
tivessem o seu corte legalmente restrito e que, ao mesmo tempo se assemelhassem em
acabamento, cor e textura às originais. No caso, optou-se pelo uso de Pinus certificado
FSC ou mesmo eucalipto com selo de certificação de Manejo fornecido pelo IBAMA
com tingimento apropriado, entre várias outras.
Figura 01. Mesa em madeira certificada FSC lembrando os bordados da etnia ucraniana. 13
13. Trabalho apresentado pelas alunas Pámela, Renata, Emanuella do 4º período de 2008.
86
Figura 02. Cadeira em madeira recuperada lembrando o tramado de enxamel da etnia
alemã. 14
Já durante o 5º período, a professora Agudelo, assume a disciplina obrigatória e
específica relativa ao tema em questão, intitulada Meio Ambiente & Design. Neste
caso se considera que é oferecida uma grande vantagem competitiva ao aluno, no sentido de possibilitar a introdução sistemática dos conceitos ambientais, econômicos e
sociais na sua prática projetual. Também a Professora. Agudelo assume durante o 6º
período a disciplina de Projeto do Produto II o que possibilita a continuidade da inserção e fundamentação destes conceitos no processo de ensino e durante o preparo das
propostas de TCC.
4.4.1 Conteúdos abordados na Disciplina de Meio Ambiente & Design
Os conceitos ambientais são, portanto, formalmente e de forma sistemática introduzidos no Curso através da Disciplina de Meio Ambiente & Design. Esta disciplina
aborda os aspectos gerais das principais questões ambientais, fazendo uma retrospectiva histórica, alertando sobre o relativo curto espaço temporal em que as questões
ambientais foram introduzidas formalmente na agenda global, isto é somente a partir
da década de 1980.
A disciplina avança introduzindo os conceitos de biônica ilustrando as suas aplicações desde a Escola Alemã de Ulm até as atuais possibilidades do uso de biônica
no design de produtos e processos industriais. Esta aula é reforçada com a presença
viva de animais, plantas e insetos em sala de aula e a presença de um especialista em
comportamento adaptativo animal.
14. Trabalho apresentado pelos alunos Anselmo, Guilherme e Jefferson do 4º período de 2008.
87
3
1
2
Figura 03. Estudo inicial de sistemas biônicos do escorpião (Tityus serralatus) e adaptação em produto de design15
Busca-se aqui estabelecer o vínculo claro entre a função e o mecanismo, levando o
aluno a pensar de forma mais funcional os mecanismos naturais e não somente na mera
transferência estético-formal de objetos da natureza em produtos de design biônico.
1- Observação mecanismos de equilíbrio do opilião
2- Definição de Produto usando mecanismos biônicos observados no opilião
3- Produto Final renderizado para aplicação de Análise de Ciclo de Vida
Figura 04. Projeto finalizado de cadeira para auditórios e/ou salas de espera com mecanismos de equilíbrio e suspensão biônicos.16
15. Trabalho dos alunos Diego Freitas, Leonardo Neto, Thiago Kolodge e Ayres Landal do 5º período orientados pela Profa. Dra. Líbia Patrícia Peralta Agudelo na disciplina específica Meio Ambiente & Design.
16. Trabalho dos alunos Anselmo da Silva, Guilherme Valadares Paixão, Jefferson e Everton Dias do 5º
período orientados pela Profa. Dra. Líbia Patrícia Peralta Agudelo na disciplina específica Meio Ambiente
& Design.
88
A seguir, abordam-se os princípios de Design e Ciclo de Vida, como propostos
pelos designers Ezio Manzini e Carlo Vezzoli em seu livro” O Desenvolvimento de
Produtos Sustentáveis”. Aqui o aluno deve conceber um produto sustentável no sentido
de considerar a minimização dos seus potencias impactos negativos no meio ambiente
e a sociedade, sendo ao mesmo tempo viáveis economicamente. Isto é, inclui a consideração do seu Ciclo de Vida, desde a extração (Pré-produção) e processamento das
matérias primas escolhidas, o seu processamento industrial (Produção), o seu transporte e logística (Distribuição) e a sua vida útil (Uso) até a seu descarte (Disposição
Final) procurando com que os componentes possam ser reciclados, reutilizados ou
mesmo descartados mas minimizando os seus potenciais impactos sociais, econômicos
e ambientais ( MANZINI E VEZZOLI, 2002).
4.4.2 Resultados preliminares
Estas práticas dentro do Curso de design da Unibrasil, acredita-se tenham surtido
os efeitos de educar novos designers sobre a importância e necessidade de se pensar
a produção industrial de uma forma mais consciente, eficiente e viável. Um indicador
positivo a este respeito pode ser prematuramente comemorado ao se avaliar as propostas de TCCs desenvolvidas atualmente pela 1ª Turma de prospectos formados do Curso
de design da Unibrasil. De 20 propostas de TCC atualmente em desenvolvimento, quatro (20%) abordam integralmente um tema de conteúdo sobre design sustentável sendo
que um (5%) aborda a questão ambiental parcialmente e cinco (25%) não abordam a
questão especificamente mas têm orientações para a escolha de processos e matérias
menos impactantes nos meios ambiental e social. Isto no dá um panorama de 50% dos
trabalhos de TCC da Unibrasil tratando ou abordando de forma correta as questões
ambientais inerentes ao designer.
4.5 A questão ambiental no curso de Design, área de produto da UFPR
No caso do curso de design, área de produto, da Universidade Federal do Paraná
(UFPR), optou-se em apresentar aqui dados sobre o tema do design para a sustentabilidade ao invés da questão ambiental, por ser esta mais abrangente. A análise que segue
foi construída através da observação das grades horárias, das ementas de disciplinas
e relação de títulos de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC). Os dados levantados
não refletem a profundidade com que o tema do design para a sustentabilidade é tratado no curso, na área de produto, porém são os dados numéricos à disposição. Para um
resultado mais denso seria necessária uma pesquisa qualitativa de maior cunho.
Na grade horária atual do curso encontra-se a disciplina de Design Sustentável.
Esta disciplina é ofertada desde 2006, quando ocorreu a implantação do novo currículo. Antes disto, não existia na grade curricular da área de produto uma disciplina
diretamente relacionada ao tema. A disciplina de Design Sustentável é optativa, isto é,
não obrigatória, contemplando 60 horas17 aulas e representando três créditos (Departamento de Design da UFPR, 2009). O professor responsável da cadeira é professor
17.É preciso esclarecer que o aluno do curso de design, área de produto, deve cumprir 240 horas em disciplinas optativas, durante os quatro anos de curso.
89
Aguinaldo dos Santos, PhD. Tal disciplina é oferecida uma vez por ano, sendo de
caráter semestral. Ela é freqüentada por alunos cursando qualquer dos quatro anos,
constando, porém, na grade horária do quarto ano. Na ementa da disciplina fica claro
que a abordagem dada é a de contemplação de todo o ciclo de vida do produto para a
inserção de requisitos ambientais no desenvolvimento de um produto. Nas outras disciplinas o tema do design para a sustentabilidade, quando abordado, é feito a partir de
iniciativa própria do professores responsáveis.
Para compreender a motivação dos alunos quanto a este tema foram consultados os
títulos de 629 Trabalhos de Conclusão do Curso (TCC), a partir do ano de 1978. Este
total representa a soma dos trabalhos das áreas de produto e gráfico, porém os títulos
aqui selecionados são da área de produto. Apenas quatro (quatro) TCCs da área de
produto apresentam no título as palavras design para a sustentabilidade ou sustentabilidade. Além destes, que focalizam declaradamente a preocupação no tema do trabalho,
20 (vinte) TCCs apresentam no título algum argumento relacionado ao tema do design
para a sustentabilidade:
• um com título do produto com prefixo eco;
• cinco tratam da reutilização de material;
• nove tratam do uso de material de baixo impacto;
• um trata do da perspectiva social do desenho industrial;
• dois tratam da coleta seletiva;
• um desenvolve uma bicicleta como alternativa para a mobilidade dos centros
urbanos;
• um desenvolve um Sistema Produto-Serviço.
É preciso sublinhar que estes 24 (vinte e quatro) trabalhos foram selecionados
a partir do título e que, certamente, outros TCCs tiveram alguma preocupação em
relação ao design para a sustentabilidade, porém esta não está explicitada no título.
Observou-se um aumento dos títulos de TCCs que incorporam temas afins ao design
para a sustentabilidade, a partir do ano de 1999. Esta temática tem sido motivo de
reflexão em muitos dos projetos dos estudantes, não sendo, porém, item obrigatório a
ser considerado nos TCCs.
Um grande avanço em relação à importância do tema no curso aconteceu em 2003,
quando foi fundado o Núcleo de Design e Sustentabilidade, alocado no mesmo departamento acima citado, com recursos do projeto aprovado no edital Verde-Amarelo/
TIB FINEP 01/2002. Tal Núcleo, coordenado pelo ProfessorAguinaldo dos Santos,
tem desenvolvido inúmeros projetos relacionados ao tema do design para a sustentabilidade, ampliando seu campo de ação para as dimensões sociais e econômicas da
sustentabilidade, além da dimensão ambiental. O núcleo faz pesquisas aplicadas, tendo
como parceiros diversas empresas e instituições18 (Núcleo de Design e Sustentabilidade, 2009). O núcleo exerce uma forte influência nos alunos, seja graduandos quanto
pós-graduandos, possibilitando a prática real quanto a esta temática.
Um levantamento do quadro docente permite constatar que na graduação do curso
18. Para maiores informações sobre parceiros e projetos do Núcleo de Design Sustentável favor consultor
o site: http://www.design.ufpr.br/nucleo
90
de Design da Universidade Federal do Paraná, dois são os professores que possuem
suas pesquisas diretamente relacionadas com o tema do design para a sustentabilidade:
professor Aguinaldo dos Santos, PhD e professora Liliane Iten Chaves, PhD. O primeiro realizou sua pesquisa de pós-doutorado e a segunda sua pesquisa de doutorado junto
à unidade de pesquisa DIS – Design e Inovação de Sistemas para a Sustentabilidade
– com professor Carlo Vezzoli, da faculdade de design do Politécnico di Milano, Itália.
Além destes professores que exercem pesquisas com temas diretamente relacionados à
questão da sustentabilidade nas suas diversas dimensões, outros professores desenvolvem pesquisas em suas áreas, tendo como tema transversal as questões do design para
a sustentabilidade, dentre estes os professora Dulce Fernandes, Dra.; professora Dulce
Albach, Msc; professor Dalton Razera, Dr.; professor Antonio Fontoura, Dr.; professor
Naotake Fukushima (Especialista).
Os dados acima apresentados não representam a profundidade com que o tema é
tratado no curso de Design – área produto – da UFPR. Porém, a vivência no ambiente
permite constatar que existe uma grande sensibilidade ao tema, seja por parte dos
alunos, dos professores e da própria instituição. A importância do design para a sustentabilidade no curso pode ser evidenciada pela forte presença do núcleo de Design
e Sustentabilidade em âmbito nacional, sendo este referência em todo Brasil e com
visibilidade internacional. O tema é, sem dúvida, urgente e relevante para o curso de
design da UFPR.
5. CONCLUSÃO
A inserção do problema ambiental no ensino de design necessita de uma abordagem sistêmica ao longo dos cursos de graduação. Esta abordagem exige que o projeto
pedagógico esteja preparado para discutir estas questões, aliado a um corpo docente
que esteja habilitado para lidar com estes conteúdos.
Com certeza estas articulações só poderão prevalecer quando a própria instituição
de ensino reconhecer a importância do tema em suas ações. O modelo atual de ensino
de design assemelha-se ao encontrado em outras áreas da economia ou da sociedade,
que parecem aguardar um acontecimento mais agudo para promover mudanças, no entanto observam-se iniciativas concretas neste sentido em algumas poucas instituições.
O ensino, como um elemento de mercado, transmitido por professores desconectados de uma visão sistêmica do curso, mostra muita semelhança com os diversos
produtos e objetos prejudiciais à sociedade e ao meio ambiente. A educação e o ensino, mesmo que pagos e sendo fonte de lucro para alguns setores, é uma das melhores
construções de cenários promissores para o futuro.
Deixar de lado as discussões dos problemas ambientais em qualquer curso de design é uma possibilidade que não pode mais ser apreciada em nenhuma escola, especialmente quando prevemos que este profissional estará atuando num cenário cujas
exigências da emergência ambiental serão mais evidentes e contundentes que as atuais.
Os resultados preliminares observados nos cursos de Design, que introduzem a questão ambiental de forma sistemática, mostram projetos robustos e mais conectados com
91
as realidades sociais, ambientais e de mercado. Isto, além de capacitar melhor os novos
profissionais os torna mais aptos para fornecer uma melhor reposta para as atuais e
futuras demandas do mercado.
6. REFERÊNCIAS
DENIS, Rafael Cardoso. Uma introdução à história do design. 2.ed. rev. ampl. São
Paulo: Edgard Blücher, 2004.
MANZINI, Ezio; VEZZOLI, Carlo. O Desenvolvimento de Produtos Sustentáveis.
São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002.
UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL. Projeto Pedagógico do Curso de Design de
Produto: Grade 629F. Bento Gonçalves, 2000.
___________. Projeto Pedagógico do Curso de Design de Produto: Grade 629G. Bento Gonçalves, 2007.
___________. Projeto Pedagógico do Curso de Design Gráfico: Grade 662G. Bento
Gonçalves, 2008.
Web Sites consultados
Núcleo de Design e Sustentabilidade. Disponível em http://www.design.ufpr.br/nucleo/index.php?site=nucleo.htm . Acesso 08/05/2009
PPGDesign UFPR . Disponível em http://www.design.ufpr.br/mestrado/ Acesso em
08/05/2009.
Departamento de Design da UFPR. Disponível em http://www.design.ufpr.br/. Acesso
em 08/05/2009
UNIBRASIL – Universidades Integradas do Brasil. Curso de Design da UniBrasil
obtém bons resultados junto ao MEC. Disponível em http://www.unibrasil.com.br/noticias/detalhes.asp?id_noticia=3703 Acesso em 19/05/2009
UTP - Universidade Tuiuti do Paraná. Curso de Design de moda- Grade Curricular
- http://www.utp.br/cursos/facet/DM/Estrut%20curric%20DM%202008.pdf. Acesso
em 19/04/2009
UTP - Universidade Tuiuti do Paraná. UTP assina “Pacto 21 Universitário - http://
www.utp.br/noticias.asp?codnoticia=5535. Acesso em 19/04/2009
92
IMPLANTANDO PRÁTICAS SUSTENTÁVIES NOS CAMPI UNIVERSITÁRIOS: A PROPOSTA DO “ESCRITÓRIO VERDE” DA UTFPR
Eloy Fassi Casagrande Júnior (1); Vania Deeke (2)
(1) Phd Em Engenharia de Recursos Minerais e Meio Ambiente, Professor do
Programa de Pós-Graduação em Tecnologia – PPGTE, Universidade Tecnológica
Federal do Paraná.
(2) Arquiteta, Mestranda do Programa de Pós-Graduação Em Tecnologia - PPGTE, Universidade Tecnológica Federal do Paraná.
RESUMO
Face ao aumento dos impactos sócio-ambientais derivados do aquecimento global
e demais problemas causados pelo homem e o atual modelo de desenvolvimento, as
Instituições de Ensino Superior (IES) tem um importante papel a cumprir para dar-se
um rumo seguro ao desenvolvimento sustentável. Para servi como exemplo a toda a sociedade, esta preocupação da IES deve refletir na sua infra-estrutura física, administração e linha pedagógica. A sustentabilidade pode ser ensinada pelo método tradicional
de professor e sala de aula, pela pesquisa e extensão. A inserção de temas ambientais
transversas nas disciplinas de graduação é uma das formas a se adotar, mas também
pode ser transmitida pelo conhecimento tácito, pois estudos demonstram que retemos
apenas de 10% a 20% do que ouvimos ou lemos, contra 80% do que experimentamos.
A estrutura física e administrativa, considerando o planejamento dos campi e de seus
edifícios dentro do conceito de “greenbuilding”, tem sido uma prática adotada por
IES no exterior e algumas no Brasil. Além de seu currículo explícito, toda IES possui
outro, implícito, que consiste em seus terrenos, edifícios e operações que precisam
se adequar a esta realidade. Este artigo apresenta a proposta de implantação de um
“Green Office” (Escritório Verde) na Universidade Tecnológica Federal do Paraná,
campus de Curitiba, para implantar uma política ambiental universitária que vão desde
projetos pedagógicos e administrativos até diretrizes de arquitetura e construção sustentável para estruturas existentes e novas. Acredita-se que estas medidas, por sua vez,
demandarão novos produtos, comportamentos e processos, exigirão novas pesquisas e
contribuirão para formar uma “cultura sustentável”.
1. INTRODUÇÃO
O alerta sobre o aquecimento global e as conseqüências das mudanças climáticas,
a possibilidade de aumento de refugiados ambientais, os impactos sócio-econômicos
negativos vinculados à globalização, levam os profissionais de diversos setores da sociedade a discutir a adoção de parâmetros sustentáveis globais e locais para gestão,
93
produção, consumo.
Como exemplo, podemos citar a indústria de construção civil que está entre os modelos de produção e consumo mais ineficientes. Globalmente, o setor consome de 12 a
16% da água; 25% da madeira florestal; de 30% a 40% da energia e 40% da produção
de matéria-prima extrativa. Também é responsável por 20% a 30% da produção de
gases do efeito estufa; 40% do total dos resíduos, dos quais de 15% a 30% são depositados em aterros sanitários. Além de que 15% dos materiais são transformados em
resíduos durante a execução da obra. (CIB/CSIR, 2002).
Segundo Sachs (1986), para um desenvolvimento com qualidade de vida e gestão
racional do ambiente seria necessário eliminar a poluição resultante da pobreza, e, ao
mesmo tempo, adotar medidas para evitar que o crescimento econômico e o desenvolvimento industrial tenham repercussões desfavoráveis na sociedade e no ambiente.
Desde a Conferência das Nações Unidas em Estocolmo (1972), o Relatório da Comissão Brundtland, em 1987, e principalmente após a Agenda 21 lançada na Eco 92,
realizada no Rio de Janeiro, em 1992, o parâmetro “sustentabilidade” vem crescendo
em relevância na avaliação de processos econômicos, de tecnologias e de assentamentos humanos.
O movimento pela sustentabilidade contém um apelo intrínseco pela racionalização, e sua apropriação pelo capitalismo globalizado faz com que a criação de “negócios
verdes” seja uma manifestação que busca se adaptar aos novos tempos. Tudo pode ser
reconstruído, replanejado, redefinido, redimensionado, racionalizado, e isso representa
mercados novos para novos serviços, produtos e métodos. A partir da década de 80, se
viu um aumento de metodologias no campo da gestão ambiental, assim como nas leis
que protegem o meio ambiente.
Termos como Biocidades, Arquitetura Bioclimática, Biomimetismo, Construções
Sustentáveis, ecodesign e outras tendências da procuram rever conceitos que se consolidaram, principalmente ao longo do Século XX, e propõem visões sistêmicas da
edificação, focadas na interação desta com o ambiente, com usuário, com a cidade e a
cultura local.
Os princípios da sustentabilidade aplicados pela arquitetura à construção civil estão
sustentados em teorias como a do Capitalismo Natural (HAWKEN, 1999), TNS - The
Natural Step (ROBERT, 2000), Gerenciamento Ecológico (CAPRA e al.1993), Metodologia ZERI – Zero Emission Research Initiatives (PAULI, 1998), apontadas por
Casagrande Jr (2004) como orientação ao desenvolvimento da arquitetura e da construção sustentável. O conceito cradle-to-cradle (múltiplos ciclos de vida) diferente
do cradle-to-grave (ciclo de vida único) e a responsabilidade social corporativa são
relevantes para a empreitada. Tal fundamento objetiva formar uma nova mentalidade,
em que a sustentabilidade deixe de ser vista como aspecto negativo: quer por questão
de custo, quer por qualidade, e passe a constituir valor agregado.
Nos Centros Universitários Sustentáveis, se vê os chamados greencampi (campi
sustentáveis), que já se constituem uma realidade nos Estados Unidos, Europa, Austrália e Nova Zelândia. Principalmente nos Estados Unidos, os campi universitários assumem função ainda mais relevante, por se tratarem de verdadeiras vilas, uma vez que
94
englobam também as moradias dos estudantes. A grande maioria dessas universidades
possui um Green Oficce, escritório voltado à administração de práticas sustentáveis
nos campus, onde manutenção, economia de energia, redução de consumo de água,
reciclagem, são temas enfocados, entre outros.
Pode-se observar a existência de ações que vão da separação e reciclagem de resíduos até a construção de novos prédios ou retrofits (reformas) que contemplem as recomendações do LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), certificação
voluntária coordenada pelo WGBC (World Green Building Council) para construções
sustentáveis presentes em países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Japão, México e Índia. Na mesma linha há orientações para greencampi da Association for the
Advancement of Sustainability in Higher Education (AASHE), a Higher Education
Associations Sustainability Consortium (HEASC), e a University Leaders for a Sustainable Future (ULSF). (HEASC, 2007).
Atualmente, no Brasil, um comitê de especialistas discute a adaptação do sistema
de certificação LEED, que através do Green Building Council Brasil (GBCB), busca
parâmetros para um selo que respeite as características do setor da construção civil
no país. Em 2007, tivemos a criação do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção
Sustentável, de caráter mais institucional e que tem como missão “disseminar o desenvolvimento e a implementação de conceitos e práticas mais sustentáveis e que contemplem as dimensões social, econômico e ambiental da cadeia produtiva da indústria da
construção civil”.
De acordo com CBCS (2007), o setor da construção civil, com a participação de
15% do PIB, apresenta os maiores e mais diversos impactos ambientais. A construção
e a manutenção da infra-estrutura do país consomem até 75% dos recursos naturais
extraídos, sendo a cadeia produtiva do setor a maior consumidora desses recursos. A
quantidade de resíduos da construção e demolição é estimada em torno de 450 kg/hab/
ano ou cerca de 80 milhões de toneladas por ano, o que impacta o ambiente urbano e
as finanças municipais. A operação dos edifícios no Brasil é responsável por aproximadamente 18% do consumo total de energia do país e 50% do consumo de energia
elétrica, e 21% do consumo da água.
2.
O EDIFÍCIO COMO PEDAGOGIA E ÍCONE DA
SUSTENTABILIDADE
A Carta Copernicus -- Carta Patente da Universidade para o Desenvolvimento Sustentável – está ancorada nas Estratégias do Programa Copernicus (Cooperation Programm for Environmental Resaerch in Nature and Industry trought Cooerdinated University Studies ) e no documento Campus Blueprint for a Sustainable Future (1994),
e foi redigida no primeiro encontro Campus Earth Summit, realizado na Universidade
de Yale, EUA, em abril de 1994. (KRAEMER, 2005). Durante o evento, mais de 500
estudantes, docentes e administradores de faculdades de 120 universidades americanas
e de 29 internacionais discutiram e partilharam informações sobre a forma de redesenhar a educação e as práticas ambientais dos Campi.
Na Carta Copernicus, há várias recomendações, reforçando a idéia de promover o
95
uso do campus como laboratório experimental e modelo de desenvolvimento sustentável. Esse ato coletivo leva a concluir que em um país em desenvolvimento, o engajamento de universidades tecnológicas é ainda mais significativo, uma vez que suas
próprias edificações podem propiciar projetos de pesquisa que contribuam para gerar
novas tecnologias e para criar um novo modelo de desenvolvimento socioeconômico.
Para David Orr (2004), toda escola, colégio ou universidade, além de seu currículo
explícito descrito em seu catálogo, possui outro, que poderíamos chamar de currículo
implícito e que consiste em seus edifícios, terrenos e operações. De acordo com educadores e psicólogos, nós, humanos, retemos de 10 a 20 % do que ouvimos ou lemos,
e aproximadamente 80% do que experimentamos (CORTESE, 2000). Assim, como a
infra-estrutura urbana repercute na sociedade em seu conjunto, a infra-estrutura que os
estudantes observam nos campi, como eles se movem (transporte), o que eles comem,
como eles se relacionam uns com os outros, como eles “vivenciam” determinados
espaços, a noção de tempo e espaço que constroem são aspectos que influenciam sua
capacidade de imaginar melhores alternativas.
O processo de construção do Adam Lewis Center no Oberlin College, nos Estados
Unidos, dos arquitetos William McDonough e John Todd --- o primeiro “green building” a ser construído em um campus e que recebeu a certificação Gold do LEED --- é
descrito por Orr (2006) em seu livro Design on the Edge - The making of a High-Performance Building. Além dos aspectos técnicos do projeto, é destacado a perseverança
do grupo idealizador do projeto e a conquista do envolvimento de toda a instituição,
relatando sucessos e obstáculos, desde a aprovação da instituição até a obtenção de
recursos. Ilustra a quebra de paradigmas – o processo de uma mudança institucional –
por meio de um aprendizado coletivo e uma política econômica do design, descrevendo como a idéia do Adam Lewis Center se originou e como se tornou realidade.
Para Lundvall (2001), indivíduos e organizações que solucionam conjuntamente
problemas, ao final de um projeto específico, terão partilhado o conhecimento original
do parceiro, do mesmo modo que terão partilhado o novo conhecimento tácito gerado
pelo trabalho conjunto. Portanto, é imperativa a assimilação de práticas sustentáveis
por meio dos edifícios e operações dos campi universitários, utilizando seu design e
sua rotina de operação como ferramenta educacional.
3.
O DESAFIO DE SE IMPLANTAR CAMPI SUSTENTÁVEIS NO
BRASIL
A sociedade e o mercado demandam profissionais capazes de superar os atuais
desafios. Uma universidade comprometida com desenvolvimento sustentável, ao articular políticas de inovação na área socioambiental, desenvolve pesquisas científicas
baseadas em novas tecnologias num contexto sistêmico e passa a exercer efeitos de
polarização regional e nacional, tornando-se referência.
Pode-se afirmar que esta preocupação é refletida por alguns arquitetos pioneiros,
como se observa na obra do arquiteto Severiano Porto, que defendia uma arquitetura
utilizando baixa tecnologia (lowtech sustainable architecture), acrescida de novos produtos e conhecimentos tecnológicos e científicos.
96
Profissional à frente do seu tempo, há trinta anos, quando ainda não se falava em
sustentabilidade na arquitetura, Porto idealizou projetos com conceitos e estratégias
bioclimáticas, com uma arquitetura de forte feição regionalizada, destacando o uso da
madeira em sua permanente busca da relação construção e natureza, sem descartar o
concreto, o aço e a alvenaria. Um dos maiores exemplos, é seu projeto para o Campus
da Universidade Federal de Manaus (UFAM), construída no começo dos anos 70, onde
utilizou como estratégias de projeto soluções passivas de conforto térmico como o
efeito chaminé, ventilação cruzada, coberturas duplas e independentes (colchão de ar),
dentre outras idéias. (FINESTRA, 2008).
Infelizmente, temos poucos exemplos como estes no Brasil, onde a grande maioria
dos campi projetados não adota a arquitetura e construções sustentáveis. Como ainda
estamos num processo de convencimento da importância destas práticas para aqueles
que dirigem IES públicas e privadas, se têm apenas algumas IES que começam a pensar nesta direção.
Segundo Tauchen e Brandli (2006), os casos de gestão ambiental em âmbito universitário, encontrados no Brasil e no mundo, na maioria das vezes constituem práticas
isoladas em situações que a instituição já está implementada e funcionando. Esses
autores identificaram a iniciativa de quatro universidades brasileiras voltadas à gestão
ambiental:
a) Universidade Vale do Rio dos Sinos (Unisinos); por meio do Projeto Verde
Campus, é a primeira universidade da América Latina a ser certificada segundo a ISO
14001;
b) Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) criou uma coordenadoria de
Gestão Ambiental para promover uma política de gestão ambiental responsável e privilegiou o ensino como busca contínua para melhorar a relação entre o homem e o
ambiente, trazendo a comunidade como parceira desta proposta (Projeto Sala Verde).
Também se destaca o Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE),
que atua visando reduzir o consumo específico de energia em edificações novas e existentes, através da implantação de novas tecnologias de iluminação, condicionamento
de ar e isolamento térmico. O LabEEE em parceria com a Eletrosul, é responsável pela
construção da “Casa Eficiente” -- um centro de demonstração de estratégias construtivas utilizadas de acordo com o padrão de uso da edificação, funcionando como uma
vitrine de tecnologias de ponta em eficiência energética e conforto ambiental para
residências.
c) Fundação Universitária Regional de Blumenau (FURB), cujo Sistema de Gestão
Ambiental implica uma estrutura organizacional com a responsabilidade de implementar seus objetivos;
d) Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que se empenha para
implementar um SGA.
Tais iniciativas fazem constatar a busca de intervenções para fazer frente à preocupação crescente das universidades em busca de um desenvolvimento sustentável, não
apenas no ensino como também em práticas corretas, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência ambiental e abrindo portas para construções sustentáveis.
97
Tauchen e Brandli (2006) também apontam ações a serem incorporadas a um SGA,
dentre as quais se destacam:
a) assessoria ambiental, com levantamento de aspectos e impactos ambientais;
b) gestão de recursos: ambientais, envolvendo energia, água, qualidade e conforto
térmico;
c) gestão de resíduos e prevenção da poluição;
d) construção sustentável e plano diretor definindo todos os prédios a serem implantados;
e) compras de materiais e equipamentos considerando critérios ambientais;
f) educação integrada a aspectos ambientais, por meio da sensibilização ambiental,
formação, informação de currículo e projetos de investigação sobre temas SGA;
g) declarações e relatórios ambientais para uma fase posterior ao SGA. Entre os
muitos benefícios de um SGA, tais autores salientam a verificação de uma economia
real pelo melhoramento da produtividade e da redução do consumo de energia, água e
materiais de expediente.
Ainda, é fator de economia o cumprimento às exigências estabelecidas pela legislação ambiental, o que implica redução de riscos de incorrer em penalidades ou gerar
passivos ambientais, além da melhora da imagem externa da instituição, pela evidência
de práticas sustentáveis e geração de oportunidades de pesquisa.
Nos últimos dois anos, também houve iniciativas em outras universidades brasileiras: a Universidade Federal de São Carlos (UFScar) tem o seu novo campus Sorocaba,
que está pautado pelo desenvolvimento sustentável desde o planejamento da ocupação
do terreno, passando pelos métodos construtivos empregados, chegando até aos projetos pedagógicos dos cursos e aos temas de pesquisa. Concluída sua primeira fase de
implantação em março de 2008, provavelmente tornar-se-á o primeiro Greencampus
brasileiro. Em uma área de 700 mil metros, abrangerá sete cursos, com mais de 700
vagas. Nessa primeira fase, foram concluídos quatro edifícios de salas de aula que
abrigam os cursos de Ciência da Computação e Ciências Econômicas.
Por sua vez, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) promoveu em 2005 o
concurso para o projeto arquitetônico de seu campus a ser instalado na APA da Represa
Billings - São Paulo, cujo edital exigia que o projeto contemplasse sustentabilidade.
Uma equipe formada por jovens arquitetos paranaenses venceu o concurso.
Além dessas, a Universidade de Passo Fundo (UPF) está implantando o SGA, com
o desenvolvimento de práticas sustentáveis, dentre as quais se destacam: eficiência
energética, pela geração própria de energia nos horários de pico e interrupção de fornecimento, substituição de equipamentos de iluminação por modelos mais eficientes,
controles de efluentes em sua estação de resíduos líquidos ETE anaeróbico, controle de
consumo e reuso da água, programa de reciclagem de resíduos, uso de papel reciclado
entre outros. (FRANDOLOSO, 2007).
A Universidade de Campinas (UNICAMP) também está ocupada com questões
de sustentabilidade, de maneira que institui seu Plano Diretor que visa à ordenação e
ocupação do uso do solo para integrar ações que proporcionem qualidade de vida no
campus, mitigando problemas derivados de uma ocupação desordenada ao longo de
98
quarenta anos.
Também há iniciativas como o projeto de ampliação do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento da Petrobrás (CENPES), no Rio de Janeiro, que terá 23 novos laboratórios totalizando cerca de 150 mil metros quadrados de construção a serem concluídos
em 2009. De acordo com Abreu (2008), gerente de Projetos e Suprimentos da Engenharia da Petrobrás, esses novos edifícios do Centro “incorporam conceitos de ecoeficiência e utilização de materiais de menor impacto no meio ambiente, tendo como
referência de construção verde (origem do material, distância de transporte, modo de
aplicação, entre outros) o padrão americano e europeu”.
A criação dos centros universitários sustentáveis se justifica por dois motivos principais: a real redução dos impactos ambientais causados por sua construção e uso (diminuição da pegada ecológica) e pela importância do edifício sustentável em si, como
agente catalisador no processo de educação para um modo de vida mais sustentável,
ética, social e ambientalmente mais responsável. Pelo modo como usam o espaço, os
estudantes passarão a conhecer novas tecnologias, materiais e práticas, tornando-se
replicadores da sustentabilidade.
Desse modo, arquitetos, designers e engenheiros são agentes transformadores da
sociedade em que vivem. Como organizadores do espaço construído ao homem, muito
podem contribuir para minimizar o impacto socioambiental. Tecnicamente capacitados
para desenvolver projetos sustentáveis e conscientes de sua importância, poderão transmitir esses conceitos tanto a empreendedores da construção civil quanto a gestores de
instituições de ensino ou cidadãos comuns, que talvez ainda não tenham despertado
para essas prementes questões.
4.
A PROPOSTA DO “ESCRITÓRIO VERDE” DO CAMPUS
CURITIBA DA UTFPR
No Campus Curitiba da UTFPR tem-se um histórico de iniciativas de programas
que lidam com questão ambiental, a saber, o Programa de Pesquisa em Tecnologias
Sustentáveis (TecSus), criado em 2002, numa iniciativa do Grupo de Pesquisa TEMA
– Tecnologia e Meio Ambiente (PPGTE); o núcleo de meio ambiente que agrega professores do Departamento Acadêmico de Construção Civil (DACOC), assim como
grupos semelhantes que podem ser encontrados nos Departamento Acadêmico de Química e Biologia (DAQBI), de Mecânica (DAMEC), de Economia e Gestão (DAEGE),
além de programas em andamento como o PGRCC – Programa de Gerenciamento de
Resíduos do Campus Curitiba.
Também se pode destacar o sucesso dos eventos TECSUS – Ciclo de Palestras e
Oficinas em Tecnologias Sustentáveis, realizados em 2002 e 2008, como mais de 250
participantes em cada um19. Assim como o “Consórcio Sustentabilidade Brasil-Estados Unidos CAPES/FIPSE”, ocorrido de 2004 a 2007, coordenado pelo professor Dr.
Eloy F. Casagrande Jr., do DACOC. Um programa de intercâmbio que envolveu alunos do curso de Engenharia de Construção Civil com duas universidades americanas,
(University of Texas, em Austin e Ball State University, em Indiana) permitindo que
19 Em 2009, se realizará o III TECSUS em parceria com a Embrapa Florestas
99
14 estudantes tivessem bolsa de estudos para durante seis meses cursarem disciplinas
e projetos extra-classes que envolviam a construção sustentável nos Estados Unidos.
Hoje, alguns destes estudantes se tornaram professores na UTFPR e outro desenvolvem mestrados no tema (CASAGRANDE et al, 2008).
Todos estes apresentam resultados positivos, porém vem acontecendo de forma
isolada, sem que haja uma integração de ações e de departamentos. Isto dificulta tanto
a pesquisa interdisciplinar, como a implantação de programas internos. Um dos problemas detectados para a continuidade dos programas está na forma como são implantados os programas através de comissões temporárias de professores e técnicos administrativos, que após atingir seus objetivos voltam as suas atividades profissionais.
O mesmo se pode dizer dos resultados de pesquisas desenvolvidas na graduação
(Trabalhos de Conclusão de Curso-TCCs e bolsas de Iniciação Científica) e na pósgraduação (especialização e mestrado), que contribuem para diretrizes de eficiência
energética, economia de água, tratamento adequado de resíduos, etc, no campus Curitiba, que apenas ficam em forma de diagnóstico sem aplicação direta na instituição.
Um dos desafios da instituição será o compromisso que assumirá a partir de
2009, com a assinatura do Pacto 21 Universitário, que juntamente com várias universidades paranaenses, estabelece uma parceria com a Secretaria do Estado do Meio
Ambiente do Paraná (SEMA), para que se implantem ações contempladas na Agenda
21, tanto a nível interno, como externo.
Diante deste quadro, é proposto por professores que atuam na área ambiental do
campus de Curitiba da UTFPR, a implantação do “Escritório Verde”. Este integraria
todas as ações acima descritas sob um programa permanente – Tecnologia com Sustentabilidade - TECSUS, que responderia diretamente a diretoria do Campus Curitiba,
tendo poderes institucionais para o desenvolvimento e a implantação da política ambiental da instituição.
O Campus Curitiba da UTFPR, hoje em expansão da sua infra-estrutura para o
Bairro de Campo Cumprido – Campus Ecoville, poderia inovar o modelo de campus
universitário no Paraná, implantando uma política de gestão coerente com os princípios da sustentabilidade (eco-eficiência), inclusive nas suas novas edificações (construções sustentáveis). De imediato o “Escritório Verde” tem como proposta desenvolver
os seguintes programas, a médio e longo prazo:
•
CAZA - Carbono Zero na Academia - Visa estabelecer diretrizes para sustentabilidade nas edificações já existentes e novas construções que vão deste a substituição
de materiais para redução do impacto ambiental, passando pela eficiência energética, o
uso racional da água e gestão de resíduos em reformas e obras internas.
•
REZTO – Resíduo Zero: Tecnológico e Orgânico - Uma continuidade do
PGRCC que avaliou os resíduos gerados pelos departamentos da UTFPR e agora deve
implantar os procedimentos para sua coleta, armazenamento, re-uso, reciclagem e tratamento adequado.
•
TRECO – Tratando Resíduos Eletrônicos e da Computação - Estudar soluções para reaproveitamento e tratamento apropriado de computadores e equipamentos periféricos defasados e sem uso que ocupam espaço na instituição (diretrizes do
100
governo federal e leis estaduais já abordam a questão - Lei Estadual 15.851/2008).
Possibilidade de trabalho com a comunidade/cooperativas em projeto de extensão universitária.
• COMPRA VERDE – Implantar políticas de compras sustentáveis para a instituição, incluindo nos editais requisitos ambientais específicos dependendo de
cada material e equipamento.
• SELO VERDE UTFPR – Desenvolver projeto que estabeleça diretrizes para
“emissão de certidões de procedimentos ecologicamente corretos” para produtos, equipamentos, etc, testados e aprovados por profissionais da UTFPR.
5.
O “ESCRITÓRIO VERDE” COMO UM ESTIMULADOR DE CAMPI
SUSTENTÁVEIS
A principal diferença entre um edifício sustentável e um edifício convencional
está na visão sistêmica inerente à própria sustentabilidade. Convencionalmente, há
o modelo de projeto linear. Até este momento, a UTFPR tem desenvolvido projetos
convencionais para seus campi, dentro do modelo linear. Seria proposta do “Escritório
Verde” trabalhar junto ao Departamento de Projetos (DEPRO), da instituição para o
desenvolvimento de edificações sustentáveis, dentro do Programa CAZA.
Neste caso, é preciso que os todos os profissionais envolvidos compreendam a
edificação com um pensamento sistêmico, como projeto integrado, em que as etapas
deixam de ser lineares (Figura 01) e os diversos profissionais interagem em todo o
processo. No projeto integrado(Figura 02), os responsáveis pelos projetos complementares devem ser consultados durante a criação, e não somente após a conclusão do
projeto executivo, como habitualmente ocorre.
Figura 1 - Modelo de projeto linear
Como o projeto é o ponto de partida do ciclo de vida do edifício, presume-se que
surjam dos arquitetos soluções mitigadoras de seus impactos; pois as definições dessa
primeira fase implicarão nas conseqüências das fases seguintes. Quanto maior a interação dos especialistas, melhor será o produto final. O “Escritório Verde” seria o regente
de um conjunto de ações, envolvendo o conhecimento de cada especialista para criar
um novo saber, coletivo e interdisciplinar – o projeto sustentável.
101
Figura 2 - Visão Sistêmica: Projeto Integrado
O Campus Curitiba, espaço principal da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), localizado no centro de Curitiba, cujas instalações ocupam toda a área
física do terreno, já não consegue atender às necessidades de seus departamentos. Assim, a instituição poderá ter alguns de seus departamentos e a própria reitoria transferida para o Campus Ecoville, em um novo terreno na região Oeste da cidade.
Localizada num setor estrutural da cidade, a cinco quilômetros do centro histórico,
a área é dividida pela via expressa, que contém uma canaleta exclusiva para os ônibus
do transporte público e duas vias laterais ao transporte privado. Em um dos terrenos,
no lote 01, já existe um bloco de salas e laboratórios, desenvolvido ainda com métodos
convencionais, e outro está em fase de implantação.
Concentramo-nos no lote 01(31.360,00 m²), pois o lote 02, (27.029,00 m²) está
destinado à futura Reitoria e a área de pesquisa. A instituição chegou ao consenso de
que serão transferidos para o novo Campus os Departamentos Acadêmicos da Construção Civil e de Química e Biologia, com salas de aula e laboratórios específicos, cujas
atividades geram grandes quantidades de resíduos.
Para este propósito, foi formada uma comissão de professores dos dois departamentos que elaboraram o modelo de infraestrutura que gostariam que os abrigasse no
futuro, sendo a arquitetura sustentável, um dos critérios a serem adotados.
A topografia do local permite que seja criada facilmente uma estação de tratamento
de resíduos químicos oriundos dos laboratórios e também tratamento dos efluentes
sanitários. Essas estações de tratamento dos resíduos no próprio local contribuirão de
maneira efetiva para tratar efluentes, promovendo a qualidade ambiental, como também serão recursos didáticos “vivos”, in-locco, para as atividades acadêmicas pertinentes aos cursos que ali serão ministrados.
Outro aspecto relevante é a redução do consumo de água, o reuso e o aproveitamento da água da chuva na irrigação do próprio campus. As tubulações seriam de
polipropileno (sistema de termo-fusão). Foram previstos locais adequados para o lixo
orgânico e reciclável, resíduos tóxicos, óleo de cozinha e resíduos da construção civil
(laboratórios e canteiro de obras). Também está considerada a coleta seletiva e uma
unidade de compostagem para os resíduos orgânicos, procedimentos fundamentais
para aumentar a vida útil do aterro sanitário da cidade e manter a higiene e saúde do
local e do meio ambiente.
A tipologia arquitetônica e os materiais utilizados seriam especificadas conforme
os critérios de gestão de ciclo de vida, do processo de fabricação aos impactos ambientais por eles gerados, incluindo o consumo energético e as emissões de CO2 gerada
pelo seu transporte.
Um dos desafios encontrados na implantação de um campus universitário sustentá102
vel no sul do Brasil, relativo à arquitetura, é o fato de que a edificação deverá propiciar
conforto térmico tanto para baixas quanto para altas temperaturas. De fato, a variação
térmica diária atinge grandes amplitudes, o que levou ao desenvolvimento de estratégias projetuais sustentáveis, com técnicas passivas de conforto térmico e valorização
da iluminação natural, que possibilitam a melhora da qualidade do ar interno e externo.
Assim, seriam considerados: o aquecimento solar passivo, a vegetação e paisagismo,
sempre com o objetivo da eficiência energética, como o uso de placas solares para
aquecer a água.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As justificativas para se implantar o “Escritório Verde”, do campus de Curitiba da
UTFPR está na necessidade da universidade se renovar e atender a novas demandas da
sociedade. Não se trata somente de uma “moda ecológica”, mas sim do exemplo que
as instituições de ensino devem dar como formadores de opinião que são.
Consideramos que os benefícios ao ambiente decorrentes de uma proposta sustentável e a melhora da qualidade de vida dos usuários não devem ser precificados, pois
seu valor ultrapassa o aspecto monetário. Ainda assim, estimamos que esse investimento “extra” pagar-se-á, uma vez que estratégias adotadas para reduzir o consumo de
água, energia e outras práticas darão retorno do investimento em pouco tempo.
Entendemos que devemos romper paradigmas e também ultrapassar barreiras impostas pelos sistemas de licitações e pregões impostos para a administração pública. É
preciso ressaltar os benefícios econômicos que a administração sustentável traz com o
tempo, na economia de recursos garantidos por este processo. Estes fatos são comprovados por estudos e pesquisas desenvolvidas dentro da própria instituição.
Devemos saber defender melhor estas idéias diante daqueles que ditam regras administrativas já ultrapassadas para o Século 21, demonstrando que uma gestão ambiental coerente dentro de instituições públicas pode ser economicamente viável, onde o
dinheiro dos contribuintes são gastos com inteligência.
Os programa propostos pelo “Escritório Verde”, assim como as diretrizes sustentáveis de projeto apresentadas para o Campus Ecoville de Curitiba, poderão servir
de modelo para o desenvolvimento dos projetos dos outros 10 campi da UTFPR no
interior do Paraná, promovendo a disseminação da gestão ambiental universitária e
da construção sustentável no Brasil. A disseminação do conceito de sustentabilidade
aplicado na instituição poderá contribuir, ainda, para a formação de uma consciência
mais elevada, através de uma postura de como estar no mundo, pois pode evidenciar as
bases da valorização da vida para as atuais e futuras gerações.
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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