REDISCUTINDO PROCESSOS E PROCEDIMENTOS. Uma experiência na elaboração de planos diretores urbanos sócios ambientais. Prof. Dr. Emmanuel Antonio dos Santos Arquiteto e urbanista, Doutor pela FAU USP, professor de Paisagismo nas disciplinas de História e Teoria do Paisagismo; de Projeto de Paisagismo e de Planejamento Ambiental na Faculdade de Engenharia e Arquitetura e Urbanismo; de Planejamento nas disciplinas de Teoria e Metodologia do Planejamento Urbano e Regional, e de Produção Social do Espaço Urbano no Curso de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional da UNIVAP - Universidade do Vale do Paraíba e Professor Adjunto de Arquitetura e Urbanismo do Curso de Engenharia Civil Aeronáutica do ITA – Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos, S. P. e-mail: [email protected] Resumo O presente texto apresenta a reflexão sobre uma experiência do autor na elaboração de Plano Diretor em um município do interior do estado de São Paulo, em um cenário pré-aprovação da Lei do Estatuto da Cidade. Argumenta-se a possibilidade à época de elaboração de planos, rediscutindo-se processos e procedimentos então adotados, procurando evidenciar e enfatizar aqueles menos usuais utilizados e as possibilidades de sua apropriação como modo de pensar a constituição da urbanização que contemple desde os agentes e atores, já por demais estudados, mas especialmente dos aspectos de paisagem e ambiente como categorias norteadoras no processo de elaboração de planos de apropriação do território. Discutem-se outros olhares para os procedimentos de diagnose e prognose, assim como as bases de apoio para a sua consecução, retomando-se a idéia da necessidade de elaboração dos planos em diversas e múltiplas escalas indicando a pertinência da visão inter escalar. Introdução Passados mais de dez anos da elaboração e promulgação do Plano Diretor de São José dos Campos e após os desdobramentos de sua revisão, ocorrida em 2006 em função da necessidade de sua adequação pós-aprovação da lei do Estatuto da Cidade, pensa-se seja necessário e oportuno retomar o processo originário de sua elaboração com o intuito de rediscutir processos, procedimentos, abordagens e pertinências. A oportunidade se justifica, em face de percebermos que a propalada necessária revisão, em verdade parece ter-se constituído muito mais em cumprimento de obrigação legal do que momento de discussão para aprofundamento da pertinência da aplicação de mecanismos e procedimentos para a viabilização da política urbana relativamente avançada já previstos no plano naquela ocasião. Confirmam-se diagnósticos fisiográficos sem contundo aprofundar e rever análises opta-se por aplicação simplificada dos instrumentos de política urbana e mais do que tudo o processo participativo timidamente iniciado, dadas as condições colocadas à época, sequer se amplia e se solidifica. Metodologia e informações utilizadas Utiliza-se para o presente trabalho o Plano Diretor de 1995 e o texto final de sua revisão em 2006, além das atas de reuniões de debates e de participação popular. Confrontam-se os dois textos, tomando como referência a Tese de Doutorado do autor onde a partir de argumentação ampla se discutem os diversos tipos e modalidades de planos diretores pensados e referenciados no urbanismo. Como procedimento auxiliar para as reflexões finais, procura-se apoio em registros gráficos e fotográficos como apoio e leitura dos processos. Reflexões sobre os resultados Entende-se que face às exigências de caráter sócio ambiental presentes no Estatuto da Cidade, as quais os novos e antigos planos devem se adequar e procurar cumprir no que tange ao equacionamento do uso e da ocupação dos solos, inclusive para totalidade do município e não tão somente para as áreas urbanas, procedimentos, processos e abordagens em sua elaboração precisam ser rediscutidos e em muitos casos reorientados. Como se entende que a abordagem sócio ambiental foi o “mote”, elemento estruturante e norteador daquela experiência de 1995, a qual colocava a necessidade de elaboração de um plano de estruturação geral articulado com planos específicos de unidades territoriais menores, os quais possibilitariam a apreensão por parte do cidadão das questões de interesse e mais prementes, por se tratar de sua escala de visibilidade e apropriação – o bairro -, promovendo-se a interação escalar, pensa-se que os princípios ambientais estariam dessa forma garantidos em um processo de apreensão sócio espacial ambiental, nesse sentido constituía-se em oportunidade se não totalmente inovadora, ao menos em experiência de aplicação relativamente avançada e por que não pioneira em relação ao contexto regional no qual se insere. Como então foi possível montar essa concepção sócio espacial ambiental? De que maneiras e com quais paradigmas e procedimentos de análise se conta para essa forma de abordagem? Qual ou quais podem ser os elementos de que se pode lançar mão como idéia-força central quando se busca uma organização espacial sócio ambientalmente mais equânime? Essas questões, centrais, no nosso entender, nos tomam de assalto em face de compreensão e necessidade de intervenção nos espaços de assentamento humano que retomamos e rediscutimos a seguir. Reconstruindo uma noção de totalidade A administração democrática e popular reafirmando o seu compromisso de garantir a ampla participação da população em todas as esferas de decisão como exercício de cidadania, vem a público apresentar para discussão, por todos os segmentos da sociedade, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado para o Município de São José dos Campos. Essa iniciativa, mais do que um compromisso formal, se baseia no entendimento de que a Cidade é o resultado do esforço conjunto de todos os seus habitantes, que a constroem a partir de vivências diárias, nas atividades econômicas, produtivas e sociais. Nesse sentido entendemos que uma Cidade melhor, só se concretizará na medida em que sejam criadas condições para o pleno exercício da cidadania, em cenário de justiça e equilíbrio sócio-ambiental. O Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado, ora denominado “Um Plano da Cidade Para a Cidadania”, apresenta propostas de profundas transformações no modo como produzimos a cidade, procurando com isso atingir os principais objetivos norteadores de sua elaboração (Abertura do PDDI SJC, 1994). A idéia de se elaborar um plano que viesse a atender aos pressupostos de justiça e equilíbrio sócio - ambiental garantindo a participação popular, como ao final ficou expresso no texto de abertura do Plano Diretor - 95, levantava a necessidade de se adotar um novo procedimento, o qual mesmo não se pretendendo um novo paradigma, ao menos sinalizava a exigência de repensar os outros procedimentos até então adotados na execução de todas as etapas preliminares já encaminhadas e também a revisão dos aspectos práticos e teóricos conceituais norteadores para a continuidade dos trabalhos. Contava-se à época, com farto material constituído de dados estatísticos, sócio – econômico e físico territorial consolidado em um relatório intitulado Plano Preliminar, cujos levantamentos e análises haviam contado com a colaboração da UNESP / Rio Claro através de contrato de assessoria. Somados a esse relatório, havia ainda o conjunto das sugestões colhidas durante uma primeira audiência pública realizada em Outubro de 1991 registrada oficialmente em livro ata. Portanto não seria o caso de iniciar-se do zero com o costumeiro trabalho de levantamento de dados e as dificuldades para proceder às análises preliminares, posto que estas tarefas já houvessem sido concluídas. A luz dessa situação inicial pode-se parecer que a principal atividade a ser desenvolvida estaria mais restrita a uma coordenação de sistematização de dados com revisão de análises e elaboração final do projeto de lei. Percebia-se que, também para os técnicos, ficara a impressão de que o “próximo passo”, expressão bem usual quando se trata de cumprir etapas de trabalho -, seria partir imediatamente para a redação do texto final do plano, organizando os capítulos do relatório existente em diagnóstico e prognóstico concluindo com a redação preliminar do projeto de lei. Isso evidentemente colocava um embaraço, com os técnicos de um lado desejosos de dar continuidade às atividades, cumprindo mais uma etapa de trabalho finalizando com o projeto de lei; de outro lado, passada aquela primeira impressão, manifestava-se o desejo de buscar procedimentos que pudessem apresentar resultados mais relacionados com os aspectos de paisagem como indicadores dos desenhos dos espaços. Afortunadamente, para contornar e vencer essa situação podia-se contar com um clima de cooperação que propiciou a manifestação geral de um real interesse em participar das discussões em novas bases. Esse envolvimento foi sem dúvida de fundamental importância para que se atingissem os novos objetivos. Complementando esse quadro mais favorável, a qualidade do relatório do qual constava uma exaustiva e detalhada interpretação dos dados coletados, a sua subdivisão em setores e áreas de interesse, mas sem, contudo contar com uma conclusão que encerrasse mais do que análises uma idéia de plano, - evidentemente essa ausência é compreensível, dado que não compete necessariamente às assessorias e nem é mesmo muito desejável que a elas seja delegado "fechar" o conteúdo do plano -, permitia retomar a discussão sobre quais seriam os procedimentos mais adequados para elaborar a partir daí, o plano. Com quais instrumentos dever-se-ia contar, o que seria desejável contemplar no tocante a organização do território, e mais do que tudo com que pressupostos teórico - conceituais deverse-ia trabalhar para atingir os objetivos iniciais colocados de adotar a paisagem como fator que pode contribuir de maneira muito significativa com a estruturação do espaço e consequentemente também como idéia - força central do planejamento porque busca incluir a paisagem na compreensão dos processos de apropriação e transformação urbanos e como vetor da inclusão nos mais diversos níveis. Mais do que ser necessariamente inovador ou original procurava-se evitar apriorismos sem conduzir os procedimentos necessariamente deste ou daquele modo, não assumindo como as mais ou menos adequadas quaisquer das maneiras mais usuais de se elaborar planos. Dessa maneira procurava-se evitar pré condições muito rígidas, as quais poderiam inclusive logo de princípio induzir a descartar procedimentos os quais mesmo que aparentemente conservadores se bem conduzidos e empregados podem ser úteis. Não menos preocupante era o fato de se contar, com já se disse, com os levantamentos e análises de outras áreas e setores da administração que chegavam a nós filtrados e consolidados na forma de demandas a serem atendidas. Percebe-se, nesse caso, que os denominados trabalhos ou equipes mutli disciplinares bastante comuns nessas oportunidades, ao se organizarem de modo a levantarem as especificidades das situações e áreas que lhe são afetas e encaminhá-las para serem atendidas conforme o entendimento específico que lhe é próprio se torna indicadores para um desenho de atendimento dessas demandas. Isso pode configurar um cenário de menor abrangência, desde que atende demanda gerando demanda sem corrigi-las e sem desenhar um cenário que propicie a sua mudança. O que se aponta, é que a correção ou mudança exige que a multi disciplinaridade se manifeste no espaço, desde o momento da identificação dos processos que formam as demandas, os quais são possíveis de ler na paisagem, através da qual é possível identificar onde ocorrem, como ocorrem porque ocorrem e com que configurações ocorrem, até o momento das proposições para a sua readequação ou transformação qualitativa, manifestando-se não só em novos equipamentos ou serviços, mas, sobretudo em paisagens que conformam e informam a mudança na organização sócio espacial. Assim sendo, não se querendo adotar soluções paradigmáticas, sejam elas sofisticadas, ou simplistas, se fazia necessário descobrir a quais elementos iniciais de análises se deveriam atribuir prioridade. Não se tratava de buscar outras categorias somente pela busca empírica de um modo diferenciado como já se disse. O que se buscava era identificar fundamentalmente quais as soluções estruturais, qual a categoria chave capaz de se colocar como idéia-força central, posto que... “Soluções funcionais são subordinadas em sua eficácia duradoura a soluções estruturais”...(Milton Santos,1999), e que todavia se acreditava essas últimas poderiam ser identificadas numa abordagem em que o viés seria o da paisagem e ambiente. Num cenário de compromisso quase obrigatório de finalização burocrática de um lado e de possibilidades de inovações de outro, nada mais apropriado do que procurar a inovação e se iniciar as discussões a partir do que se mostrava como elemento propiciador desta, ou seja, os aspectos mais relacionados com a paisagem e ambiente. Percebia-se, contudo, a partir das experiências com planos diretores, que apesar de em quase todos os modelos de planos até então conhecidos descrições do meio natural, dos impactos das ações humanas sobre estes, das fontes causadoras e dos problemas decorrentes da poluição em seus mais diversos aspectos, estarem presentes em maior ou menor grau, o são normalmente, associadas, sem explicar muito bem como, nem com que sentido de ações integradas e integradoras das populações como o meio, ao que se convencionou chamar de “qualidade ambiental”. Ora se tem a impressão que nos capítulos de meio ambiente são utilizados os dados de levantamentos fisiográficos como ilustração, que de todo modo serviria para justificar certas tomadas de decisão geralmente muito discutíveis, ora a impressão é de que se referem a preocupações com o intemperismo e suas relações com as recorrentes catástrofes e as correspondentes ações mitigadoras, ora são excelente objeto de apoio para imprimir uma sofisticação elegante e pseudo científica no discurso dos políticos. Ou seja, quase sempre aparecem com uma clareza quase científica pela qualidade dos dados e das fontes utilizadas, mas, sobretudo, sendo utilizados para apontar mais um aspecto que precisa funcionar direito para que tudo corra bem. Tomada a decisão de assumir a paisagem como idéia – força central (SOUZA, Marcelo L., 2002, 556 p.), com o cuidado em se evitar a sua utilização nos mesmos moldes usuais conforme criticamos como base preliminar selecionou-se os aspectos de fisiografia, a partir dos quais se entendia seria possível estabelecer inicialmente certa familiaridade com os temas mais usuais como relevo, hidrografia, cobertura vegetal, antropização enquanto componentes estruturais da conformação de um território, mais do que simples estudo corográfico. Menos ainda como nos vários momentos da história da urbanização quando se consideram as especiais características do sítio como óbice a serem evitados ou atrativos naturais a serem exclusivamente apropriados, seja em função da faixa de renda seja pela acessibilidade, e que refletem desse modo mais do que má vontade deliberada, a incapacidade em incorporar de fato a paisagem no processo de pensar e propor a urbanização tanto no que se refere ao planejamento da urbanização quanto ao seu desenho. Exemplificam essa incapacidade as citações como segue: .... ”Mesmo desempenhando eventualmente papel demográfica e territorialmente secundário, os atrativos do sítio natural têm constituído importante fator de atração da expansão urbana. A importância desse fator decorre especialmente do fato de ele – ao contrário das vias regionais – atraírem população de alta renda”...., ... ”Há, entretanto, outros casos nos quais o sítio natural não só apresenta grande beleza, como também parece interminável. Por essas características transformaram-se em traço típico da metrópole brasileira: são os casos das orlas de alto-mar”....(Villaça, 1998, p.107) ... ”Como a estrutura existente, que representa enorme capital social a ser aproveitado ao máximo, foi enormemente influenciada pelas condições topográficas, o critério de economicidade levará também, se bem trabalhado, a um resultado paisagístico altamente conveniente, com acentuação de vales, colinas, e espinhaços, regulação dos ventos e das linhas visuais”....(Cândido Malta, 1998, p.101) ....”Diante do alastramento das epidemias, a medicina elaborou a teoria do contágio, desenvolvendo a idéia de que a propagação das doenças se dava em função da presença de um meio inadequado. Inicialmente se estudou o meio físico – tipos de solo, topografia, direção dos ventos, presença de praias, rios, pântanos -, promovendo uma classificação de locais mais ou menos propícios para a produção de doenças”....(Rolnik, 1997 p. 39,40) Procura-se inversamente, incorporar as questões de paisagem tratando-se os elementos das bases naturais enquanto uma daquelas forças a ocupar papel significativo na conformação da distribuição espacial da urbanização, nos desenhos dos espaços e na aparência dos lugares, contribuindo dessa maneira de fato com o processo de pensar o planejamento que venha a concorrer para a obtenção da tão desejada qualidade ambiental. ....”A análise dialética exige que a estruturação territorial seja encarada como um, processo e, como tal, sua abordagem é efetuada em termos de movimento, e o movimento das estruturas urbanas é sempre fruto da atuação de várias forças que atuam em sentidos diferentes com intensidades diferentes. O que cabe analisar são as forças presentes, suas origens e intensidades”.... ....Esse movimento só será captado se juntarmos a geografia e a história”....(Villaça, 1998, p. 133) Assim ao pensar em força, é das interferências da história sócio econômica que incidem sobre uma base físico territorial e que se realiza no tempo, que se fala....”a história econômica e social e, de maneira geral, o tempo (em síntese, após a última glaciação, isto é, depois que o homem consegue marcar com sua presença a evolução da ecosfera) contribuem de forma essencial para o desenrolar dos processos que configuram o pano de fundo dos problemas ambientais”...(Jolliver et Pavé, 1997, p.102) A reaproximação com os elementos do suporte fez-se possível através da retomada do relatório preliminar no qual constava um capítulo bastante detalhado de fisiografia. No entanto este apresentava um claro quanto às possibilidades de utilização desses dados e dessas análises por parte do arquiteto e mais especificamente do planejador, ainda que os dados coletados, as análises e as descrições explicativas da base física territorial com a terminologia específica da geografia e da geologia fossem de qualidade indiscutível. Não que essas descrições não sejam necessárias e por vezes até desejáveis, via de regra estão presentes em todos os tipos de planos e talvez até em função das dificuldades de interpretação para seu uso de modo mais objetivo e pragmático por parte do arquiteto e do urbanista, em muitos casos findam por serem utilizadas a título de simples ilustrações, ou mesmo descrições para sustentar justificativas de decisões que sem elas pareceriam carecer de consistência, ou até mesmo como conjunto de elementos que de alguma maneira deveriam ser considerados na hora da adoção dos padrões usuais para urbanização, tais como a proteção das margens dos córregos e a adoção dos índices de áreas verdes por habitante e tantos outros. A necessidade de compreender as características próprias dos elementos das bases naturais e a identificação de uma maneira pela qual estas pudessem, nos seus diversos níveis, ser incorporadas no processo de urbanização, passou a ser então a diretriz básica do modo de pensar o processo de urbanização e do planejamento. Para tanto se tornou necessário rever posturas mais simplificadas e disposição para entender que é possível a adequação(1) simultânea do suporte e das intervenções antrópicas não só quando da inevitabilidade de ocupação e usos, mas igualmente, que ao considerar esses aspectos em uma dimensão de totalidade, tanto da perspectiva do suporte – meio ecológico – quanto das ações humanas – antropização –, a discussão que se coloca passa a ser menos centrada em opções de caráter maniqueísta e mecanicista com as eternas dúvidas e intermináveis digressões entre o certo e o errado, o permitido e o proibido. Contrariamente, propõe-se a priori que o ato de usar é permitido sempre. Busca-se desse modo possibilitar a conversão de limitações em potencialidades através da identificação das possíveis intensidades, diversidade e complementaridade para os usos, da sua localização e distribuição preferencial e da indicação dos desenhos correspondentes para ocupações. Essa postura pressupõe também rever o que se entende por ocupação e uso. Geralmente ao se utilizar dessas expressões está-se referindo aos aspectos de utilização exclusivamente produtivo econômico e comercial - do território, determinados segundo um conjunto conhecido de opções com desenhos muito restritos, decorrendo como conseqüência feições “padronizadas”. Propõe-se amplificar a sua aplicação ao entender-se a ocupação e uso referindo-se a uma gama mais variada e menos utilitarista de opções e desenhos, incluindo aí desde o conceito mais usual que atribui à ocupação e ao uso indistintamente a idéia de local de posse e de trabalho socialmente produzido nos quais as atividades se realizam, até a idéia mais elástica de apropriação e usança, as quais permitem falar em apropriação e uso social do território, sem com isso querer dizer necessariamente uma ocupação e um uso no sentido físico. Procura-se com isso incorporar os diversos níveis de permanência de situações em estados menos processados normalmente associados à idéia de beleza, de notabilidade, de inusitado, e com aparência natural, por que conferem “qualidade aos lugares”. Essa postura permite análises e reflexões com resultados que não só incorporam de fato, como por vezes privilegiam os elementos das bases naturais para a indicação das intensidades desejáveis. Indicando também possibilidades de propor morfologias menos padronizadas, já que as oportunidades de ocupações e usos seriam mais do que correlatos às limitações e potencialidades próprias do território, invenções de formas e modos para antigos e novos usos, (1) O Conceito de adequação utilizado aqui é tomado o de HENDERSON, Lawrence J. The Fitness of the Environment, The Mac Millan Company, New York, 1913, p.22. Apud Mc HARG, por entender-se que é o que melhor responde aos nossos interesses: “O conceito darwiniano de adequação pressupõe uma relação mútua entre o organismo e o meio”. Para esta relação, a adequação do meio é um componente tão importante como à adequação que surge do processo de evolução orgânica; e, no caso de certas características fundamentais, o meio, tal como chegou a constituir-se é o melhor suporte para a vida. Utiliza-se também o conceito de co desenvolvimento e co operação desenvolvido em JACOBS, Jane, A natureza das Economias, BECCA, São Paulo, 2002. onde se discute que a vida é possibilitada por dádivas da natureza tais como o sol a água e os outros componentes do meio natural, por meio dos mais diversos processos pelos quais os homens devido a sua capacidade de engendrar delas se apropriam. procurando com isso não uma morfologia específica pré concebida, mas morfologias para o ambiente e paisagem. A obtenção dessas morfologias tornou-se possível a partir do resultado da inter-relação de uma necessária gama de usos em correspondência a uma inevitável gama das características do suporte em que se contempla desde as situações encontradas no território com aparência muito próxima do natural, portanto muito pouco ou quase nada processadas; situações com aparência medianamente próxima do natural, portanto com grau médio de processamento, e as situações com aparência muito distante do natural, portanto com alto grau de processamento e artificialidade. Dessa forma os desenhos – morfologias - resultantes guardam estreita correspondência com o grau / nível de processamento, possibilitando assim a ocupação e uso de todo o território, mas de modo a garantir por intermédio da diversidade de intensidade algumas das “qualidades” de ambiente e paisagem mais usualmente desejadas, quais sejam: a garantia da manutenção dos recursos hídricos, da cobertura vegetal, do relevo, da beleza do sítio e da forma da distribuição espacial da urbanização. Os vários graus de processamento, que se relacionam com os vários graus das aparências, das diversas formas de controle ou falta deste, da ocupação e uso, e dos desenhos resultantes, não são de per se maus ou bons, mais adequado procurar entender que são decorrentes do modo em como são pensados e produzidos os nossos espaços, como aparece de maneira bastante clara na citação que se segue: ....”E será preciso atentar que não são a urbanização e a industrialização, em si, como se tem apontado freqüentemente, os réus da questão. É no modo em que em nossas organizações sociais se insere a urbanização e a industrialização”....(Magnoli, 1987) É também no modo como se percebe, se entende, e se inserem os elementos das bases naturais enquanto ambiente e paisagem nas nossas urbanizações que se deve buscar a compreensão, incorporação e proposição de desenhos da urbanização mais adequados em termos paisagísticos e ambientais. Em busca de uma aproximação com a particularidade Na tradicional geometria euclidiana, quanto mais perto se olha para um objeto, mais simples ele fica. Já o objeto fractal é “auto–similar” – ao ter uma parte ampliada, apresenta semelhança exata com o todo, a chamada simetria da escala....(Ricardo Bonalume Neto, Folha de São Paulo, 08/03/99). Se a parte contém o todo, pode-se então dizer que o inverso também é verdadeiro, portanto, quando se pensa que ao organizar-se a totalidade de uma dada paisagem está-se o fazendo com independência e com isenção em relação as questões referentes às suas partes e/ou particularidades, incorre-se em um equívoco de origem. Nesse sentido, entende-se que o todo organizado é formado pela articulação de um conjunto de partes e/ou particularidades que se organiza em estreita correspondência com a totalidade. Acredita-se, portanto, seja possível verificar nas partes e/ou particularidades as diretrizes e indicações mais gerais oriundas da totalidade organizada, as quais têm, ainda que de modo preliminar, o papel de contribuir de maneira preponderante nas suas configurações. Continuando nessa mesma linha, pensa-se também, que de uma maneira geral não é possível estabelecer um todo organizado, sem pensar simultaneamente na organização das partes e/ou particularidades, acreditando-se que só é possível atingir organizações consistentes de totalidades e particularidades quando essas dizem respeito às questões de urbanização, ao se adotar uma abordagem em que a aproximação com o objeto se faça em um movimento pendular. Isto é, fazendo o trânsito o tempo todo do geral para o particular e dialeticamente retornando do particular para o geral, num continuum que pelas suas peculiaridades intrínsecas pressupõe se colocar as questões em relação ao todo e ao particular sempre e necessariamente de modo simultâneo. Ou seja, essa “aproximação e afastamento”, passam a ser movimentos dotados de, um mesmo e único olhar, pois que a aproximação é realizada sob o pano de fundo do que se percebeu durante o afastamento, do mesmo modo que o afastamento traz consigo os elementos da aproximação. As soluções oriundas desse procedimento de análise nem sempre, ou quase nunca, são pensadas a priori. Em verdade é desejável que não o sejam desde que se pensa que os resultados a serem obtidos devam ser dependentes das relações estabelecidas e identificadas entre os vários objetos e as diversas escalas utilizadas para as análises. Colocados os procedimentos acima, caberia então rever a pertinência do subtítulo desse capítulo, pois que apresenta uma contradição. Uma aproximação com a particularidade, expressa a existência de duas instâncias, dois momentos claramente separados e, portanto independentes. Esses momentos seriam então um complementar ao outro, no sentido de um completar o que não foi feito, e/ou o que o outro não cobriu, assim o primeiro seria sempre parcial e inconcluso necessitando do segundo – um outro – para se realizar. Essa característica de inconclusão de um lado se manifesta quando os planos se propõem a indicar diretrizes muito gerais indicando as tão usuais tendências de crescimento, normalmente expressas por vetores ilustrando as direções preferenciais e os números do incremento populacional desejado e esperado segundo as projeções. De outro lado, com o intuito de “adequar” essas tendências “mitigando” os possíveis “impactos negativos”, são apresentadas apenas as localizações preferenciais para o crescimento e as “ações” necessárias para a realização desse crescimento tanto esperado quanto almejado, remetendo para uma segunda instância a necessidade de proceder aos estudos que deveriam ser desenvolvidos para a indicação dos usos e níveis de ocupação mais adequados e a elaboração dos projetos. Não se trata da questão, sempre pertinente, do uso de escalas e procedimentos mais apropriados para esse ou aquele fim conforme a dimensão do território e a abrangência de soluções requeridas e os correspondentes níveis de detalhamento. Nesse caso em particular, o das divisões escalares convencional, o que está em jogo é o nível de informações, análises e diretrizes que cada situação peculiar requer. Nessa mesma linha, os projetos, por seu turno, podem ou não ser aqueles considerados como os mais necessários segundo o papel que possam desempenhar na configuração da distribuição espacial e na forma da urbanização, sujeitando-se a serem priorizados segundo critérios que dizem respeito somente ao atendimento das pressões dos grupos de interesses mais bem organizados, excluindo-se desses o grosso da população, desde que sabe-se que o processo de participação popular não é ainda necessariamente uma prática incorporada no sistema de planejamento em suas diversas etapas, nem mesmo na gestão dos recursos públicos em nosso país. No caso que se demonstra, a indicação de diretrizes mesmo que gerais são também específicas desde que ao serem determinadas no todo incidem nas partes e vice versa, uma retro alimentando a outra. E também devido a contemplar um plano/projeto integrado e integrador desde que as configurações espaciais são resultantes da integração dos processos sociais com a apropriação dos elementos da natureza e dos desejos dos que usufruem os espaços. As idéias de integrado e integrador, são aplicadas nesse contexto, para auxiliar entender a idéia de plano como projeto. Um plano é também um projeto, não só pela vontade de dar nomes às coisas, assim como não tão somente pela necessidade que sentem os seus autores como também os teóricos que se dedicam ao assunto, de explicitar que o projeto urbanístico dada a sua complexidade e as peculiaridades das escalas com as quais se trabalha se realiza necessariamente na dimensão do plano. O plano é projeto, sobretudo quando o projeto das partes/ particularidades está presente a priori na maneira de pensar e elaborar o plano, e também quando, o projeto das partes como conjunto de idéias de possíveis e desejáveis desenhos acompanha o processo de elaboração do plano/projeto. Isso faz pensar as idéias de integrado e integrador. Do mesmo modo, o uso da idéia de integrado com o sentido de integrador, não é um artifício semântico, nem tampouco se está recorrendo a formas estilísticas, ou outros que tais da linguagem escrita, o que se propõe é que se desloque à compreensão de uma ótica conservadora de integrado como resultado de análises, sínteses, diagnóstico e proposições urbanísticas que de tão amplas, possuiriam a capacidade de cobrir todos os aspectos daquelas áreas do conhecimento as quais se convencionou tomar como importantes para o planejamento, para um entendimento de integrado com o sentido de integrador, menos por se tratar de uma justaposição, ainda que complexa, de um dado conjunto de aspectos que foram tomados de trabalhos multi disciplinares, como já apontado, mas como a possibilidade de pensar e agir de modo concomitante nas diversas escalas. Portanto trata-se muito mais de uma abordagem que requer pensar e agir sempre de modo tautócrono, o que permite que as soluções e suas correspondentes configurações guardem estreita similitude, respondendo dessa forma tanto à contradição geralmente presente nos planos que afasta o projeto urbano, do lugar e da paisagem do cotidiano, como das diretrizes mais globais. Acredita-se que este procedimento difere de outros que se põem como utilizando da “aproximação e afastamento” e de análises do “particular e do geral”, por que de uma maneira geral esses tratam as duas instâncias se não de modo separado, como fases sucessivas, e não como movimento, portanto de modo diácrono. Difere também das proposições nas quais se acredita que, feitas somente às análises mais gerais, se poderia resolver bem a morfologia da urbanização através do planejamento local fazendo-se como que uma colagem de intervenções as quais desenhariam um todo ao final, como nos “puzzles”. Somado a isso, acrescenta-se que naqueles casos não se fala em simultaneidade e sim em passos dados em sucessão e justaposição, o que demonstra uma provável parcialidade, inclusive porque os elementos mais usuais de paisagem e ambiente como os espaços livres, os cursos deágua e as áreas vegetadas, viriam comparecer para complementar o resultado formal de um projeto a ser executado a posteriori. Desse modo não fazendo parte daquele grupo de categorias que se usadas nas análises podem contribuir para a compreensão da configuração da urbanização. No mais das vezes cria-se a priori uma ruptura que leva a uma quase impossibilidade de articulação entre o particular e o geral. A articulação que se propõe tem como objetivo dentre outros, além da necessária redistribuição das melhores vantagens urbanas que se constituíram historicamente como meios de dominação e acumulação no jogo da urbanização, propiciar a incorporação dos elementos de paisagem no processo de tomada de decisões com vistas ao desenho da urbanização, reflexo de um plano de urbanização oriundo de um processo de planejamento onde as contribuições dos aspectos de paisagem e ambiente se façam presentes. Referências Bibliográficas SANTOS, Emmanuel A. As paisagens do plano e os planos da paisagem: da paisagem no planejamento ao planejamento com a paisagem. Tese de Doutorado. São Paulo, FAU USP, 2002, 206 p. SOUZA, Marcelo L. Mudar a cidade. Uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2002, 556 p. VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo, Nobel/FAPESP, 1998, 373 p. - Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado. 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