Satisfação do Consumidor com Produto de Consumo Tecnicamente Complexo, Essencialmente Intangível, Altamente Experimental e Efetivamente Envolvente: um estudo com usuários organizacionais. Autoria: Rafael Lucian, Simone Maria da Silva Lima, Anne Karmen Gomes Teixeira Resumo O presente estudo investigou os usuários organizacionais dos produtos de consumo tecnicamente complexos, essencialmente intangíveis, altamente experimentais e efetivamente envolventes (CIEE) com o intuito de identificar os antecedentes da satisfação que mais contribuem para esta resposta no segmento especificado. O objetivo principal foi mensurar e avaliar simultaneamente os antecedentes teóricos/empíricos da satisfação, junto a usuários organizacionais de softwares. Estudos recentes apontam que para uma melhor explicação da satisfação, as pesquisas devem abordar os aspectos hedônicos (emocionais) no consumo, além da expectativa e performance (desconfirmação), como antecedentes teóricos da satisfação. A metodologia teve caráter exploratório-descritivo, constituída de duas etapas: (a) qualitativa, com o uso de entrevistas pessoais e desk research; e (b) quantitativa, com a aplicação de um survey que mensurou os antecedentes da satisfação para produtos CIEE. Através da aplicação de análises multivariadas foi possível identificar que as emoções não contribuíram significantemente para a satisfação dos usuários de softwares, sendo, entretanto, este papel atribuído aos aspectos de qualidade percebida, confiabilidade e funcionalidade do software organizacional utilizado. Introdução Diante de um cenário empresarial de extrema competitividade, os consumidores se tornam mais exigentes, levando as organizações a investirem constantemente na busca e implementação de programas visando à conquista da satisfação (UELTSCHY E KRAMPF, 2001). Assim, o estudo da satisfação surge como um tema bastante atual e relevante para qualquer tipo de empresa. Relacionada positivamente a aspectos como lealdade à marca, repetição de compra, comunicação “boca a boca” favorável e lucratividade, a satisfação dos consumidores é hoje uma premissa para que as organizações atuem com êxito no mercado dinâmico e competitivo. Cardozo (1965) é apontado como o pioneiro no estudo da satisfação, embora o tema tenha surgido como uma área legítima de pesquisa associada ao marketing em 1972 (CZEPIEL et. al, 1980). Desde então, a relevância do construto pode ser observada através dos inúmeros estudos realizados, que contribuíram substancialmente para a formação de uma teoria madura da satisfação do consumidor (OLIVER, 1997; YI, 1991). Dessa forma, esta pesquisa contribui especialmente para as empresas que produzem o produto CIEE, através da compreensão dos parâmetros de satisfação do consumidor empresarial de softwares (usuários). Sua aplicação prática pode viabilizar um maior entendimento do consumidor, contribuindo para um trabalho focado na sua satisfação e, conseqüentemente, para o aumento da expectativa de sucesso destas empresas. Os conceitos de satisfação e marketing são intrinsecamente relacionados. A definição de Kotler (2000) comprova a afirmação: “Marketing é o processo de planejar e executar a concepção, a determinação do preço, a promoção e a distribuição de idéias, bens e serviços para criar negociações que satisfaçam metas individuais e organizacionais” (p.30). Avaliar a satisfação é uma atitude pró-ativa da empresa. Constatado que apenas um em cada dezenove clientes insatisfeitos apresenta suas reclamações à empresa (BATESON e HOFFMAN, 2001), mensurar a satisfação é uma maneira de acompanhar a adequação da 1 prestação de serviços às necessidades do consumidor, proporcionando assim uma visão mais próxima à realidade que a organização vivencia. Henning-Thurau e Klee (1997) destacam que por mais de duas décadas a satisfação do consumidor tem sido um assunto de intensa discussão nas áreas de pesquisa do comportamento do consumidor e de marketing. A partir de meados da década de 70, conferências anuais têm sido realizadas na área de satisfação do consumidor nos Estados Unidos (HUNT, 1977), com publicação de trabalhos a partir de 1981 no “Journal of Customer Satisfaction, Dissatisfaction and Complaining Behavior”. Diante do intenso e variado trabalho sobre o tema, hoje se encontram disponíveis vários conceitos sobre satisfação. Oliver (1981) a definiu como uma avaliação da “surpresa” inerente à aquisição de um produto/serviço e/ou à experiência de consumo. Alguns pesquisadores do comportamento do consumidor vêm procurando entender o processo de resposta de satisfação em diversas situações de compra de produtos e serviços, bem como na experiência de consumo (OLIVER: 1977, 1980ab, 1981, 1989, 1993a, 1993a; OLIVER E GERALD, 1981; OLIVER E WINER, 1987; OLIVER E DESARBO, 1988; OLIVER E SWAN, 1989; PARASURAMAN et al., 1985, 1988, 1991a, 1991a, 1994a, 1994b, WESTBROOK e OLIVER, 1991). No entanto, não foram encontrados trabalhos publicados em journals ou revistas técnicas nacionais referentes ao estudo do comportamento do consumidor/marketing que lidem especificamente com a problemática da satisfação dos consumidores usuários de softwares. Esta pesquisa pretende suprir esta lacuna na literatura brasileira do marketing, no momento que busca resposta para a seguinte problemática: dentre os determinantes da satisfação identificados nesse estudo (atributos de desempenho dos softwares e emoções), quais os que mais contribuem para a satisfação dos clientes usuários de produtos CIEE? Desta forma, o objetivo geral do presente estudo será a mensuração da satisfação e dos antecedentes teóricos desta resposta pós-compra, visando identificar quais as dimensões que mais contribuem para a satisfação do consumidor de produtos CIEE entre usuários organizacionais. As dimensões que mais contribuem na determinação da resposta de satisfação no segmento de produtos CIEE (softwares) no Brasil são desconhecidas. Assim, esta pesquisa justifica-se inicialmente pela avaliação dos antecedentes da satisfação junto a uma tipologia de produtos complexa para análise por parte dos consumidores, o que poderá oferecer um direcionamento em termos de foco ao cliente para as empresas de tecnologia que produzem softwares, e que em muitos casos não dispõem de um departamento de marketing. Conclui-se que o tema da pesquisa é atual, na medida em que trata de dois aspectos relevantes para as empresas contemporâneas: a satisfação do consumidor e a utilização de produtos com base tecnológica, como softwares. Conhecer a satisfação dos usuários de softwares pode contribuir para a compreensão de diversas empresas do setor – que está em expansão no país – sobre os desejos e necessidades dos seus consumidores, desenvolvendo produtos mais adequados e, conseqüentemente, incrementando o seu potencial de êxito. A Satisfação do Consumidor Churchill e Surprenant (1982) citam que o conceito de satisfação do consumidor ocupa uma posição central no pensamento e na prática do marketing. A satisfação é considerada a maior saída da atividade do marketing e serve de ligação para o processo de compra e consumo, que culmina com fenômenos pós-compra tais como a mudança de atitude, repetição de compra e lealdade à marca. A centralidade deste conceito é refletida por sua inclusão na definição de marketing, onde lucros são gerados através da satisfação dos desejos e necessidades do consumidor (CHURCHILL E SURPRENANT, 1982, p. 491). A disseminação de estudos na área, no entanto, também vem acarretando a formação de novos esquemas metodológicos e críticas ao paradigma dominante que rege a mensuração 2 da satisfação. Para Giese e Cote (2000), os diversos estudos existentes promoveram uma grande variação do conceito de satisfação, dificultando uma mensuração padronizada que permita comparar os dados empíricos coletados. Este é, segundo os autores, o “efeitocamaleão”. Para evitar a ocorrência deste fenômeno, os autores mencionados sugerem que parâmetros de mensuração estabelecidos sejam passíveis de adequação entre os objetos de estudo, apresentem a sua definição de satisfação a partir dos tópicos em comum entre os diversos conceitos já adotados e tenham como referência uma pesquisa junto a consumidores. Oliver (1981, p. 26) já constatava o desafio de se obter um conceito exato para satisfação, mesmo naquelas disciplinas possuidoras de uma longa tradição em pesquisa de satisfação. Por exemplo, o referido autor cita que a satisfação do indivíduo é um estado emocional positivo ou prazeroso resultante da avaliação do próprio trabalho. Além disso, nestes estudos, a satisfação é tida como sendo função da relação percebida entre o que uma pessoa quer do trabalho e o que esta percebe como sendo ofertado e necessário. Howard e Sheth (1969, p.145) afirmaram que a satisfação é o estado cognitivo do comprador de estar sendo adequada ou inadequadamente recompensada pelo sacrifício que teve de realizar. Hunt (1977) concluiu, após a realização de uma síntese sobre os sentimentos expressos na primeira conferência de satisfação do consumidor realizada nos Estados Unidos, que a satisfação é uma avaliação traduzida de modo que o produto ou experiência de consumo foi tão boa quanto se esperava que fosse; de fato, uma avaliação de uma emoção. Teorias mais recentes, como o Paradigma Balanceado (FOURNIER e MICK, 1999), sugerem que a coleta de dados seja através da observação direta e entrevistas em profundidade, a fim de que o pesquisador capture aspectos que normalmente o modelo da desconfirmação das expectativas não considera como o papel cultural, o estado de satisfação pessoal do consumidor e a influência dos grupos de referência na formação da avaliação da satisfação. Giese e Cote (2000) também sugerem que se extrapole do paradigma da desconfirmação das expectativas, a fim de compreender aspectos do processo que ultrapassem a avaliação do produto em si. Seguindo estas sugestões, o presente estudo abordará os aspectos das emoções no consumo, das teorias da equidade e da atribuição como antecedentes da satisfação do consumidor. No modelo teórico proposto por Oliver (1997) constam 6 (seis) antecedentes da satisfação do consumidor: equidade, performance, expectativa, desconfirmação, emoções e atribuição, bem como as relações hipotetizadas entre estas variáveis. Faz-se necessário ressaltar que, até o presente momento, apenas um estudo, realizado por Farias (1998), tentou no Brasil mensurar e avaliar simultaneamente o efeito das seis dimensões na satisfação do consumidor, quando este autor investigou os serviços de hotelaria. De acordo com os resultados desta investigação, as variáveis “atribuição” e “expectativas” apresentaram-se instáveis e foram excluídas das análises. Na presente pesquisa, com o objetivo de auxiliar o desenvolvimento das empresas investigadas a partir dos resultados das análises, optou-se pela simplificação do modelo, excluindo os construtos que não tiveram indicações de relevância para o setor investigado. Paradigmas da Satisfação do Consumidor Com base em Oliver (1997), existem alguns paradigmas que antecedem a satisfação do consumidor. O primeiro deles se refere à Desconfirmação da Expectativa (a), enraizada na Psicologia Social e no Comportamento Organizacional. Na realidade são dois processos que consistem na formação de expectativas e na desconfirmação dessas expectativas através da comparação de desempenho. Como apresentado por Oliver (1980), acredita-se que os consumidores formam expectativas a respeito do desempenho das características dos produtos 3 antes da compra. A compra e o uso subseqüente revelam os níveis de desempenho reais que são comparados aos níveis de expectativa pelo uso de parâmetros do tipo melhor do que ou pior do que esperado, com base na experiência própria dos consumidores. O julgamento que resulta desta comparação é rotulado de desconfirmação negativa se o produto é pior do que o esperado, desconfirmação positiva se melhor do que esperado, e simples confirmação ou desconfirmação zero, se ocorre o esperado. A Teoria da Equidade (b), de modo geral, sugere que as partes envolvidas em uma troca se sentirão tratadas com justiça e assim satisfeitas se a proporção da saída com relação à entrada é de alguma forma justa. A satisfação existe quando a pessoa central (o consumidor) percebe que a sua razão entrada/saída é proporcional à do seu parceiro na troca (Oliver e DeSarbo, 1988). Desta forma, quando as entradas não são proporcionalmente altas para a pessoa central, a satisfação deve aumentar com o incremento das saídas, relativamente à do outro indivíduo, e tende a decair quando as saídas decrescem, de maneira comparativa. Para Oliver e Swan (1989) o conceito da equidade é entendido como um fator adicional na resposta pós-compra, a qual tem sido dominada pelo paradigma da desconfirmação das expectativas. Esses autores sugerem que os processos de equidade e de desconfirmação são complementares nas respostas dos consumidores. A Teoria da Atribuição (c) propõe que as saídas podem ser entendidas como sucesso ou falha, trazendo à tona inferências de causalidade através de três dimensões: local da causa (fonte interna contra externa da causa), estabilidade (variabilidade) da causa da saída e a controlabilidade. Dessas dimensões, o local da causa (interna/externa) parece ser o fator principal na satisfação do consumidor. Por exemplo, o consumidor pode colocar a culpa da sua insatisfação no vendedor que sugeriu uma opção de produto (Oliver e DeSarbo, 1988). Segundo Oliver (1996) há uma clara tendência de o consumidor atribuir a causa da avaliação negativa de uma experiência de compra a uma fonte externa. De outro lado, quando a experiência é positiva, o consumidor tende em uma freqüência três vezes maior a atribuir o sucesso a si próprio. A Performance (Desempenho) (d) é um outro exemplo da satisfação do consumidor, e diz que o efeito do desempenho do produto/serviço na satisfação é considerado para determinar se este é capaz de subjugar as tendências das respostas psicológicas discutidas. Embora a relação desempenho-satisfação pareça ser aceita como verdadeira, o efeito do desempenho é ambíguo para produtos que não possuem dimensões objetivas ou instrumentais de desempenho (dimensões intangíveis). Ou seja, a performance do produto tende a ser um dos antecedentes da satisfação (Oliver e DeSarbo, 1988). Com relação à qualidade percebida (performance), autores como Parasuraman et al. (1994) vêm desenvolvendo desde a década de 80, estudos que buscam uma melhor forma de se mensurar tal dimensão no consumo de serviços. As Emoções no Consumo (e) se referem ao conjunto de respostas emocionais que surgem especificamente durante o uso de um produto ou experiência de consumo, sendo descritos tanto por “categorias distintivas da experiência emocional e expressão (por exemplo, raiva e medo) ou por dimensões estruturais que ressaltam categorias emocionais, tais como prazer/desprazer, relaxamento/ação ou calma/excitação” (Westbrook e Oliver, 1991, p.85). Oliver (1989) propôs cinco diferentes estados emocionais qualitativos para o caso de satisfação. Ordenados pelo aumento do favorecimento e contribuição para a satisfação, eles são: aceitação, alegria, alívio, interesse/excitação e prazer. Para a insatisfação os grupos emocionais em ordem decrescente de favorabilidade são: tolerância, tristeza, arrependimento, agitação e ultraje. Esse autor enfatiza que evidências empíricas destas propostas ainda não surgiram. Pode-se inferir de um estudo realizado por Childers et al. (2001) que a “websmofera” ou o ambiente virtual de compra pode ser um excelente meio para ativar emoções positivas e 4 incrementar a satisfação dos consumidores, indicando que a compra pela internet pode e deve ser uma alternativa de vendas para empresas produtoras de bens e serviços. Neste estudo, o termo consumo hedônico é utilizado para definir experiências e emoções vivenciadas pelos indivíduos durante o processo de compra, em particular no momento de uso de produtos CIEE. Westbrook e Oliver (1991) identificaram a influência da emoção na formação de avaliações de satisfação como um importante antecedente desta saída no pós-compra, corroborando a influência deste construto no comportamento do consumidor. O Controle Percebido (f), de acordo com Bateson e Hoffman (2001), refere-se às maneiras como os indivíduos percebem que têm a capacidade de gerenciar seus ambientes. Isto pode ocorrer de uma forma cognitiva, comportamental e emocional. Esta variável tem relações importantes com o encontro de serviços, ou o momento em que o consumidor interage com o fornecedor de um serviço (produto). Por exemplo, o contato de uma empresa que produz e vende softwares com um cliente em potencial é um encontro de serviços, onde a percepção de controle ocorre com intensidade, o que resultará na satisfação do consumidor. É comum ocorrer conflito de controle nas relações de troca entre empresas e clientes. O controle percebido na compra através da internet, relacionada aos produtos CIEE, ainda não foi investigada no Brasil. Desse modo, a dimensão controle percebido também será investigada como um possível antecedente da resposta de satisfação. Produto de Consumo Tecnicamente Complexo, Essencialmente Intangível, Altamente Experimental e Efetivamente Envolvente (CIEE) A definição de produto de consumo tecnicamente complexo, essencialmente intangível, altamente experimental e efetivamente envolvente (CIEE) foi inicialmente proposta por Nataraajan (1993), quando investigou percepções de consumidores a respeito de softwares, caracterizando estes produtos como “apresentando altas médias de rápida obsolescência, complexidade tecnológica e intangibilidade” (p. 38). Além disso, por serem altamente experimentais, grande parte de suas características somente podem ser conhecidas no momento do consumo, aproximando-os neste aspecto dos serviços. Ou seja, mesmo sendo um produto do tipo bem, os softwares assemelham-se aos serviços no aspecto intangibilidade, o que pode de certa forma dificultar a avaliação de qualidade no pré-compra, gerando expectativas que possam a vir comprometer a resposta de satisfação no pós-compra. Os softwares ao lado dos equipamentos, ou seja, do hardware, e da prestação de serviços, compõem o setor de informática ou da tecnologia da informação (TI). Segundo Laudon e Laudon (2001, p. 128), os softwares têm a função de “administrar os recursos do computador de uma organização, fornecer ferramentas para indivíduos tirarem vantagens desses recursos e atuar como um intermediário entre as organizações e a informação armazenada”. De acordo com Steinmueller (1995) apud Rocha (1998), os softwares são como instruções que controlam a operação da tecnologia de informação de hardware. O conjunto dessas instruções é processado e as operações são realizadas pelos computadores. Os softwares podem ainda ser descritos como sendo “estruturas de dados que possibilitam que os programas manipulem adequadamente a informação”, e também como “documentos que descrevem a operação e o uso de programas” (PRESSMAN, 1995, p. 12). Destacando a evolução do software, contata-se que “durante as três primeiras décadas da era do computador, o principal desafio era desenvolver um hardware que reduzisse o custo de processamento e armazenagem de dados” (PRESSMAN, 1995, p.4). Segundo Rezende (2002), atualmente o software deve ser distribuído com “inteligência” embutida, visuais, orientados aos clientes e/ou usuários, modulares e em redes complexas. Modernamente, o software ou sistema de informação deve focar o negócio empresarial com o objetivo de auxiliar nos processos de tomada de decisões. 5 Nota-se que o software não está apenas associado a programas. Outros pontos são relevantes para sua utilização e correto funcionamento, visto que seu estudo analisa documentação, configurações necessárias e formas de atualizações. Em geral, os softwares são formados por diversos arquivos que estruturam o sistema, sendo necessário haver documentação para os usuários e também estruturas para obtenção de atualizações e informações sobre o software usado (BRASIL, 2002a). O desenvolvimento do setor de softwares parece ser uma premissa para os países que queiram se integrar ao paradigma tecno-econômico atual, tanto pelo desenvolvimento que proporciona ao mercado interno, através de ganhos em competitividade, quanto pela necessidade de se integrar ao mercado externo, através da inserção do país entre os produtores mundiais do setor. Uma pesquisa sobre a Indústria de Software no Brasil (SOFTEX, 2002), coordenada pela Sociedade para Promoção da Excelência do Software Brasileiro - SOFTEX mostra a grandiosidade do setor de software brasileiro posicionado como o sétimo maior mercado mundial, com vendas de US$ 7,7 bilhões em 2001. Sua participação no PIB foi triplicada entre 1991 e 2001, passando de 0,27% em 1991 para 0.71% em 2001. O setor de Software no Brasil caracteriza-se por uma forte demanda doméstica que acaba por desestimular a exportação, devido a uma fragmentação do mercado nacional formado por empresas de pequeno porte avessas à cooperação e também por conta de certa falta de vínculo com os grandes centros de Tecnologia da Informação (TI), como os Estados Unidos (SOFTEX, 2002, p. 13). Observando as características dos softwares, um aspecto importante a ser considerado na sua produção relaciona-se a qualidade. Uma definição precisa e aceita por todos não tem como ser apontada, cada indivíduo pode definir qualidade de uma forma diferente no momento em que prioriza na sua análise certo aspecto. No entanto, tem-se nos softwares um ajuste complexo, pois vários itens podem ser analisados. A qualidade depende também da aplicação a que se propõe o software, além da realização da solicitação feita pelo cliente. Para Pressman (1995), é importante que os softwares mantenham conformidade em relação aos requisitos funcionais, ao desempenho declarado explicitamente, aos padrões de desenvolvimento documentados, e, finalmente, às características implícitas, pois o software pode adequar-se aos requisitos explícitos, mas se o mesmo deixar de cumprir os requisitos implícitos, esperados em softwares profissionalmente desenvolvidos, a qualidade do software será suspeita. Segundo Kekre, Krishnan e Srinivasan (1995), em pesquisa realizada com os clientes da IBM nos Estados Unidos, os aspectos que levam à satisfação com software especificamente são: a) confiabilidade – consumidores precisam ter acesso a seus dados a qualquer momento, b) capacidade – diz respeito à funcionalidade do produto, c) facilidade de uso – quando a interface com usuário é difícil, acontece uma desconfirmação de expectativas e este avalia o produto de forma negativa, d) instalação – quanto maior a complexidade de instalação do software mais tedioso torna-se para o cliente, então é desejável que gráficos que facilitem este processo sejam utilizados, e) manutenção – mede a qualidade de consertos, o suporte dado ao cliente pelo vendedor e procedimentos para diagnosticar erros, o que evita aborrecimentos, f) performance – um atributo crítico para a qualidade de um software é o tempo de realização de uma tarefa, principalmente para aqueles usuários que utilizam várias funções do computador simultaneamente. O último aspecto diz respeito à documentação, o que se refere às descrições gerais do produto, ou manuais de uso. Uma boa documentação é fundamental para o uso eficiente do software, especialmente no caso de novos usuários. No presente estudo, os entrevistados mencionam que o conhecimento das necessidades do cliente e o atendimento das especificações dele durante o desenvolvimento do software são indispensáveis para que seja obtida a satisfação. Outros aspectos citados como: facilidade de uso, funcionalidade, performance, confiabilidade e manutenção corroboram o resultados de 6 pesquisas internacionais (DOLL E TORKZADEH, 1994; PALVIA E PALVIA, 1997; JIANG et al. 2002) sobre os aspectos que conduzem à satisfação do usuário. Metodologia da Pesquisa O presente estudo se caracteriza como de natureza exploratório-descritiva, composto por duas fases: a primeira fase (qualitativa) incluiu uma adaptação da Técnica do Incidente Crítico (FLANAGAN, 1954) por meio da realização e análise interpretativa (SILVA, 2004) das entrevistas pessoais, junto a uma amostra dos desenvolvedores (produtores) de produtos CIEE na Região Metropolitana do Recife (RMR). A segunda fase (quantitativa) foi constituída da coleta de dados através de um survey, junto a uma amostra de usuários organizacionais, clientes das empresas locais, desenvolvedoras de software. Para a presente pesquisa, foi realizada uma abordagem qualitativa com o uso da técnica da interpretação do discurso das entrevistas, apesar das críticas que a análise qualitativa sofre por ser acusada de abandonar a neutralidade científica e estar sujeita a resultados enviesados. Alguns autores (TRIVIÑOS, 1987; YIN, 2001) ressaltam que justamente isso pode ser a principal vantagem desse tipo de análise, por permitir um maior questionamento dos dados e contar com a percepção do entrevistador sobre aspectos que não são claramente identificados em outras metodologias. Para este estudo, foi utilizada a técnica da entrevista semi-estruturada, que é de grande valor por proporcionar certa flexibilidade e uma maior probabilidade de obtenção de respostas complexas e detalhadas (SELLTIZ, WRIGHTMAN e COOK, 1987). A entrevista semi-estruturada objetivou compreender melhor o mercado de software na RMR, assim como o entendimento dos responsáveis pelas empresas desenvolvedoras de produtos CIEE e de suas ações e perspectivas em relação à satisfação e ao consumo hedônico dos usuários finais. O roteiro de entrevista foi dividido em dois grupos de perguntas subjetivas. No primeiro bloco, foi feito uma busca por maior compreensão sobre os produtos CIEE, já no segundo bloco há referencia à busca pelos fatores geradores de satisfação em produtos desse tipo. As entrevistas foram gravadas, transcritas e submetidas à análise interpretativa do discurso. Para preservar os entrevistados, no curso do trabalho eles foram citados através de código, do E1 até E10. Os dados quantitativos foram coletados através de um survey, no período de outubro a dezembro de 2005. Foram aplicados questionários contendo questões fechadas, respondidas de acordo com uma escala tipo Likert de 7 (sete) pontos no qual foi nomeado o ponto 1 como “discordo totalmente”, o ponto 4 “nem concordo nem discordo” e o ponto 7 “concordo totalmente”. Foi utilizado questionário estruturado, tendo sido aplicado pelo meio virtual dividida entre questionários enviados por e-mail e links em websites que apontavam para uma versão on-line do questionário, desenvolvida em linguagem HTML (Hyper Text Markup Language), a qual processava os dados com base na tecnologia PHP (Hypertext Preprocessor) e os armazenava em um banco de dados, com suporte na linguagem MySQL (Structured Query Language). O passo seguinte foi elaborar um questionário com base em escalas já propostas pela literatura e adaptadas de acordo com a análise realizada nas entrevistas, pois foi observado que alguns modelos do marketing tradicional possuíam limitações quanto à aplicação em produtos de alta tecnologia. Em seguida, realizou-se o pré-teste, e assim as modificações finais e envio do questionário via web para a amostra pretendida. Para analisar as entrevistas semi-estruturadas realizadas, utilizou-se a análise interpretativa do discurso, por meio de núcleos de respostas. O banco de dados foi analisado por meio de ferramentas estatísticas, análise fatorial e análise de regressão. 7 As técnicas estatísticas utilizadas na análise foram: estatísticas descritivas (média e distribuição de freqüência); análise de confiabilidade (alfa de Cronbach) (CRONBACH, 1951), análise fatorial (HAIR et al., 1998) e análise de regressão (HAIR et al., 1998). A análise descritiva utilizou-se das médias e da distribuição de freqüências das variáveis com objetivo de obter um conhecimento preliminar do banco de dados, inclusive suas falhas. Segundo Malhotra (2001), esta análise foi efetuada de forma preliminar na pesquisa, pois descreve a análise básica dos dados. Por fim, a análise de regressão foi a última técnica utilizada. Análise de Dados Características demográficas dos respondentes e empresas pesquisadas Sobre a freqüência de idade dos respondentes foi observado que 47,6% dos entrevistados estão entre 36 e 49 anos e 55,6% dos respondentes possuíam o cargo de gerente. A área de atuação das organizações representa a forma qual foi distribuída a pesquisa entre os setores. Juntos a área de serviços (33,9%) e comércio (32,3%) somam 66,2%, representando mais da metade da população e merecendo atenção especial nas análises. Demais áreas como Indústria e Terceiro Setor representaram 24,2% e 9,7% respectivamente. No que diz respeito ao tempo de atuação das empresas no mercado nota-se que 38,7% delas já estão a mais de 20 anos em funcionamento, porem observou-se que as empresas jovens entre 1 e 4 anos representam uma fatia considerada da amostra com 21,8% de representatividade, mostrando que o setor está em crescimento. Quanto ao tipo de programas utilizado houve um grande equilíbrio entre os softwares especialistas com ligeira vantagem aos Programas Especialistas Financeiros representados por 25,8% da amostra. No tocante a tempo de uso, a grande maioria dos respondentes (85,5%) afirmou já ser usuário dos respectivos softwares a mais de 12 meses. Resumidamente, a característica média dos respondentes é formada por pessoas entre 36 e 49 anos (47,6%), que atuam em cargo de gerência (55,6%), no setor de comércio ou serviço (66,2%,) em empresas que funcionam há pelo menos 20 anos (38,7%) e tem como programa mais utilizado os softwares comerciais (36,3%) por mais de 12 meses (85,5%). Estes dados ilustraram as características dos respondentes e das empresas pesquisadas. As próximas tabelas revelam as freqüências de respostas aos itens de escala utilizados no instrumento de coleta de dados, tendo início com os itens referentes aos atributos de qualidade, mensurados em escala de desconfirmação de expectativas, que segundo Oliver (1997), elimina a necessidade de mensurar expectativas e desempenho de forma separada, considerando que o entrevistado ao marcar um dos itens especificados nesse tipo de escala, já realiza um cálculo mental, indicando onde há lacunas no desempenho do software. Tabela 1 – Freqüência dos Itens da Qualidade do Software (desconfirmação) Facilidade de uso do software Confiabilidade do software Funcionalidade do software Fornecimento de relatórios satisfatórios Facilidade de realizar manutenção Eficácia do software Formatação das informações Recursos audiovisuais Pior que Esperado -15,3% -14,5% 14,5% -5,6% 37,1% Como Esperado 68,5% 18,5% 24,2% 17,7% 41,9% 15,3% 9,7% 27,4% Melhor que esperado 31,4% 66,1% 75,8% 67,8% 43,6% 84,6% 84,6% 35,5% A tabela 2 mostras através das freqüências que o item “recursos audiovisuais” foi o que teve a pior avaliação pelos entrevistados. Já os itens “eficácia do software” e “formatação 8 das informações” foram os que apresentaram melhor desempenho. Destaque também para a “facilidade de uso do software” que ficou com 68,5% na escala como esperado. Tabela 2 – Freqüência dos Itens da Emoção no Uso de Softwares Atento Desgostoso Surpreso Desagradado Alerta Envergonhado Concentrado Triste Desanimado Alegre Magoado Admirado Menosprezado Culpado Irritado Revulsivo Com medo Arrependido Com raiva Tímido Feliz Desprezado Apreensivo Maravilhado Enfurecido Abatido Encantado Desdenhado Embaraçado Acuado Pouco 36,3% 75,8% 15,3% 69,4% 48,4% 87,9% 28,2% 84,7% 81,5% 53,2% 63,7% 24,2% 75,8% 84,7% 79,0% 87,9% 91,1% 90,3% 75,8% 94,4% 29,0% 57,3% 67,7% 57,3% 70,2% 87,9% 50,8% 85,5% 94,4% 100,0% Razoavelmente 41,9% 9,7% 45,2% 9,7% 4,0% 12,1% 29,8% 6,5% -26,6% 21,8% 18,5% 9,7% 5,6% -6,5% 8,9% ---71,0% -21,8% 42,7% 15,3% 6,5% 49,2% -5,6% -- Muito 21,8% 14,5% 39,5% 21,0% 47,6% -41,9% 8,9% 18,5% 20,2% 14,5% 57,2% 14,5% 9,7% 21,0% 5,6% -9,7% 23,2% 5,6% -42,8% 10,5% -14,5% 5,6% -14,5% --- A tabela com os 30 (trinta) itens que mensuraram as 10 emoções básicas de Izard (1977) aponta para muita freqüência em “concentração, alerta, admirado e desprezado”, conforme destacado. Os demais itens que merecem a atenção do leitor estão em destaque na tabela acima. A última tabela refere-se aos itens que mensuraram a satisfação do consumidor, conforme apresentado a seguir. Tabela 3 – Freqüência dos Itens de Satisfação com o Software Itens/Escala Eu estou satisfeito com o software Estou certo que utilizar este software é a melhor coisa para a empresa Discordo 9,7% 14,5% Indiferente -22,6% Concordo 90,3% 62,9% Percebe-se que a satisfação com o software é alta, considerando que 90,3% dos respondentes afirmaram concordar com o item referente à satisfação com o mesmo. Quanto a ser a melhor opção para a empresa, 62,9% dos entrevistados concordaram e 14,5% 9 discordaram, não revelando a mesma força do item anterior. Mas pode-se assumir que há presença de satisfação, e esses dois itens foram considerados juntos (somados) para o uso nas análises multivariadas comentadas no próximo item. Análises Multivariadas Em termos de análises multivariadas, foram empregadas as seguintes técnicas: coeficiente de confiabilidade Alfa, análise Fatorial e análise de Regressão múltipla. Inicialmente apresenta-se a análise Fatorial e de confiabilidade das escalas utilizadas para mensurar as emoções no consumo dos softwares, qualidade em relação a tributos captados na fase qualitativa (entrevistas) do estudo e finalmente da satisfação com os softwares. Análise Fatorial e de Confiabilidade A escala que mensurou as emoções no consumo de software apresentou em sua composição inicial 30 variáveis que mensuraram as 10 emoções propostas por Izard (1977). Esses itens foram somados para resultarem em sete emoções negativas, duas positivas e uma neutra, e foi aplicada a análise fatorial junto a essas dimensões emocionais. O resultado da análise encontra-se a seguir: Tabela 4 – Análise Fatorial das Emoções Itens/Fatores Raiva Desgosto Desprezo Medo Culpa Surpresa Alegria Fator 1 – ENeg. 0,986 0,963 0,942 0,892 0,103 0,183 0,358 Fator 2 – Epos. 0,005 0,144 -0,089 0,244 0,909 -0,827 0,658 Em rodadas iniciais (2) foram excluídas 3 (três) das emoções inicialmente mensuradas, quais sejam: interesse, tristeza e vergonha, por terem apresentado cargas em duplicidade ou abaixo de 0,500. A variância total explicada pelos dois fatores com 7 emoções divididas entre positivas e negativas, ficou em 53,64%. O KMO foi de 0, 574, Significância de 0,000, qui quadrado de 1153,010, com 21 graus de liberdade. O alfa com os 10 (dez) itens iniciais foi de 0,73 e das duas dimensões individuais encontradas foram: Enegativa (0,813) e Epositiva (0,952). Essas emoções foram transformadas nas dimensões emocionais positivas e negativas a serem utilizadas na análise de regressão mais adiante. Para a escala que mediu a percepção de qualidade dos softwares, os resultados da análise fatorial apresentam-se a seguir: Tabela 5 – Análise Fatorial Itens de Qualidade do Software Itens/Fator 1-Confiabilidade 2-Funcionalidade Formatação Informações Eficácia do Software Confiabilidade do Software Facilidade de manutenção Fornecimento adequado 0,925 0,091 3Facilidade 0,057 0,914 0,239 0,022 0,901 0,354 -0,059 0,093 0,934 0,062 0,245 0,908 -0,192 10 Funcionalidade do software Recursos multimídia Facilidade de uso Suporte técnico 0,449 0,700 0,046 0,022 -0,070 0,966 0,358 0,377 0,445 0,455 0,744 -0,708 A análise fatorial resultou em três dimensões de qualidade dos softwares, com todos os itens inicialmente considerados para a mensuração desse construto. O primeiro fator teve alfa de 0,92, o segundo de 0,86 e o terceiro 0,78. A variância total explicada foi de 87,45%, com KMO de 0,424 e significância de 0,00, 36 graus de liberdade e qui quadrado de 1747,565. Os fatores de qualidade resultantes (Confiabilidade do software, Funcionalidade e Facilidade), são as variáveis utilizadas na análise de regressão para verificação de quais dimensões mais contribuem para a satisfação com os softwares utilizados pelas empresas pesquisadas. A última análise fatorial, a qual refere-se aos dois itens de satisfação utilizados para mensurar a satisfação do cliente usuário do software, resultou em uma única dimensão como era de se esperar, com variância explicada de 78,54% e alfa de 0,717. Os demais índices mostraram-se adequados para a realização da análise fatorial (KMO 0,500; qui quadrado 47,903 e 1 grau de liberdade). Tabela 6 – Análise Fatorial da Satisfação Itens/Fator Melhor coisa para a empresa Satisfeito com o Software 1 – Satisfação 0,886 0,886 A dimensão resultante da satisfação e a variável dependente na análise de regressão apresentada a seguir. Análise de Regressão Para a análise de regressão, o modelo inicial foi elaborado tendo como variáveis independentes às dimensões resultantes das análises fatoriais anteriormente apresentadas, quais sejam: Emoções Positivas, Emoções Negativas, Funcionalidade, Facilidade e Confiabilidade. A variável depende foi a Satisfação do Cliente (usuário de software). A dimensão de Emoção Negativa não apresentou coeficiente forte o suficiente para ser mantido na análise. Assim, o modelo final composto de três variáveis independentes e uma dependente, considerando que com o método stepwise a variável “Facilidade” foi excluída do modelo. O resultado final foi: R2 de 0,795, sig. de 0,000 com os coeficientes de regressão (Betas), Confiabilidade (0,488); Funcionalidade (0,277) e Emoção Positiva (-0,163). Percebe-se que a explicação da variância da satisfação significativa, pois o coeficiente de regressão do modelo foi de 0,795 (R2). Desse modo, as três variáveis antecedentes da satisfação do cliente de softwares (usuário de softwares) explicam muito da variância da satisfação. Dos itens, este foi o que mais contribui para a satisfação e a confiabilidade do software, seguido da funcionalidade. As emoções positivas que são vivenciadas estão associadas de forma fraca e negativa a satisfação, e isto pode ocorrer devido ao tipo de software utilizado, que é para o trabalho e não para diversão. Desse modo, um modelo teórico mais enxuto para compreender a satisfação dos usuários de software, deveria considerar a figura a seguir: 11 Figura 1 – Modelo de Satisfação com Softwares Confiabilidade do software Satisfação Funcionalidade do Software Pelo exposto na figura anterior, a satisfação do usuário do software estaria fortemente relacionada à confiabilidade do software, traduzida pela composição das seguintes variáveis: “formatação das informações, eficácia dos softwares (atender as necessidades de trabalho), e confiabilidade do software”; e pela funcionalidade do software, aqui definida através dos itens “Facilidade de realizar manutenções, Fornecimento de relatórios da forma solicitada, sem excesso ou falta de informação e Funcionalidade do software”. Ou seja, de modo geral, considerando as limitações da pesquisa, os gestores de empresas produtoras de softwares que desejam que seus clientes (usuários) fiquem satisfeitos com seus produtos devem centrar no desenvolvimento de soluções que demonstrem claramente aos usuários a presença de confiabilidade e funcionalidade dos programas computacionais. Conclusão Este estudo apresenta uma análise sobre os fatores que levam à satisfação do usuário final de software na percepção dos desenvolvedores desse produto, construto de enorme relevância, já que as organizações atualmente têm investido bastante em tecnologia, e este investimento tem que ser justificado se não em termos de economia, em termos de aumento de eficiência e competitividade, que só são alcançadas quando os usuários desta tecnologia estão satisfeitos com a ferramenta que utilizam. Foi verificado que os construtos do marketing tradicional não se aplicam a produtos de alta tecnologia, estes são medidos em termos de facilidade de uso, funcionalidade, agradabilidade, performance, conforto dentre outros construtos. Pode-se considerar que, para a satisfação do usuário final é necessária a preocupação do desenvolvedor de software, não apenas com os requisitos técnicos que são demandados pelos clientes e a criação de uma ferramenta que atenda às necessidades organizacionais, como também com alguns fatores que impactam seu bem estar emocional, e por vezes são relegados a segundo plano. Embora a literatura ressalte a importância de se proporcionar emoções positivas durante o uso de um produto, sinaliza-se que a interface entre o software e os usuários ainda tem muito a ser desenvolvida, no que se refere a este aspecto. Entretanto, diante da importância que o consumidor vem ganhando, conseqüente do acirramento da concorrência, tem se mostrado uma tendência de que os atributos que levam ao bem estar do usuário tenham cada vez mais relevância. Pode-se dizer também que, como foi visto na literatura investigada, as atividades pósvenda têm papel fundamental para a satisfação com software, pois por meio delas são sanadas falhas nos programas ou no treinamento dos usuários. O pronto atendimento dos problemas 12 oferece ao cliente uma sensação de segurança. Isso foi percebido pelas empresas que desenvolvem tecnologias, contudo falta a elas a realização de esforços no sentido de aumentar a recompra. Desenvolvimentos futuros por parte do grupo de pesquisadores envolvidos neste estudo incluem a aplicação de um survey aos usuários finais de software que são clientes das empresas pesquisadas e de outras da Região Metropolitana do Recife, a fim de saber se os fatores que levam à satisfação destes consumidores são os mesmos citados pelos desenvolvedores, em termos de sintonia entre o que pensam as empresas e o que desejam os consumidores. Referências Bibliográficas AAKER, D. A; KUMAR, V.; DAY, (2001). George S. Pesquisa de Marketing. São Paulo: Atlas. ALBRECHT, K.. (2000). Revolução nos serviços: como as empresas podem revolucionar a maneira de tratar os seus clientes. 6. ed. São Paulo: Pioneira. ANDERSON, R. E. (1973). “Consumer dissatisfaction; the effect of disconfirmed expectancy on perceived product performance”, Journal of Marketing Research, Vol. X, February, pp.3844. AVRICHIR, I. 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