A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO O PATRIMÔNIO CULTURAL RURAL: A VIVÊNCIA DOS MORADORES DO DISTRITO RURAL DE GUARAGI – PONTA GROSSA – PARANÁ FABELIS MANFRON PRETTO 1 LEONEL BRIZOLLA MONASTIRSKY 2 Resumo: O presente trabalho tem como objetivo apresentar reflexões sobre o patrimônio cultural rural do distrito de Guaragi, no município de Ponta Grossa - PR, fazendo apontamentos para a identificação de elementos simbólicos representativos levantados a partir da experiência dos sujeitos que (re)produzem e vivenciam esse conjunto patrimonial que trata, sobretudo, do modo de vida, dos saberes, conhecimentos e manifestações culturais típicas do campo, que modelam a paisagem rural, estruturam a identidade do sujeito que vive no campo e balizam suas ações cotidianas. Palavras-chave: Patrimônio Cultural Rural; Fenomenologia; Vivências. Abstract: This study aims to present reflections on the rural cultural heritage in rural district Guaragi, in the county of Ponta Grossa-PR, making point for the identification of representative symbolic elements raised from the experience of the subjects that reproduces, produces and experiences this patrimonial set that deals primarily with the way of life, knowledge and cultural expressions typical of the field, modeling the countryside, structure the identity of the subject who lives in the countryside and guide their daily actions. Key-words: Rural Cultural Heritage; Phenomenology; Experiences. 1 – Introdução Este trabalho apresenta reflexões acerca do patrimônio cultural rural a partir dos atores sociais que vivenciam o espaço do distrito de Guaragi, em Ponta Grossa (PR). Com base nas vivências dos moradores permanentes e dos moradores de veraneio, buscou-se identificar e compreender sobre o patrimônio cultural rural. Na atualidade, observa-se um novo contexto nas relações entre campo e cidade, rural e urbano, com novas dinâmicas e configurações entre esses espaços. As modificações intensas e dinâmicas nas relações sociais e na relação dos sujeitos 1 - Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail de contato: [email protected] 2 - Professor adjunto do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail de contato: [email protected] 5231 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO com o espaço modificam também as condutas e formas de agir. As experiências no espaço são resultado e parte do processo de construção do mundo social, de onde procedem os significados e símbolos da cultura de um grupo. Para melhor compreender como o mundo é percebido pelo indivíduo, a perspectiva fenomenológica pode respaldar a análise dos fenômenos e de acordo com Tuan (1983) dessa maneira haveria uma aproximação dessa com a apreensão do conceito de cultura. De acordo com Demo (1989) as ciências sociais por muito tempo apresentaram certa preferência pelas pesquisas sobre o material, considerado mais importante, enquanto escopo de pesquisa, sem considerar necessidades humanas subjetivas. Dessa maneira, a fenomenologia ajuda a responder muitas questões ligadas às relações que os sujeitos estabelecem com o espaço, pois remete a compreender os elementos que dão sentido à vida do ser humano com base na experiência do sujeito e na relação com o seu espaço de vivência. Com base no que foi observado a partir das vivências dos moradores do distrito de Guaragi, percebeu-se que a sua cultura é moldada num conjunto de interações entre passado e presente, e as identidades são adaptadas a essa nova realidade da relação campo e cidade, rural e urbano. Para aqueles que vivenciam cotidianamente as experiências ao modo de vida rural, o patrimônio cultural rural pode estar tão integrado às suas vidas, que se tornam parte do cotidiano. Já os moradores urbanos reconhecem e buscam vivenciar experiências relacionadas a esse conjunto patrimonial e também preservá-lo. Sendo assim, o patrimônio cultural rural existe na experiência cotidiana dos que o (re)produzem e daqueles que buscam vivenciá-lo, sendo expressão de identidades diversas, que se encontram na essência e na vivência rural. 2 – Discussões teóricas O espaço é multidimensional, construído e compreendido por meio de um amalgama de variáveis, que perpassam o campo da economia, política, cultura, questões sociais e tantas outras, constantemente modificadas com as transformações da sociedade. Os traços culturais de um grupo permitem perceber a 5232 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO relação das pessoas com o meio e no espaço geográfico. Dessa maneira, permite compreender os sentimentos desenvolvidos no espaço de vivência e no contexto de (re)produção sociocultural. De acordo com Claval (2007) a cultura de um grupo é resultado dos saberes, técnicas, valores e conhecimentos comunicados entre gerações e está constantemente sendo inovada pela incorporação de elementos externos a ela ou pela própria dinâmica interna da sociedade. De tal modo, ao avaliar os traços culturais (re)produzidos no cotidiano, é possível entender a relação com o meio habitado, com outros indivíduos e as transformações que se estabelecem por diferentes motivações. O processo de globalização abrange diversos meios e contextos – político, econômico, social, cultural – incentivando transformações que sobrevêm em todos os espaços, cada qual com uma lógica diferente e amplitudes diferentes (HALL, 2006). Esse mesmo processo estimulou um movimento por modernização e, paradoxalmente, estimulou as mobilizações pela salvaguarda do patrimônio cultural, na tentativa de resguardar os vínculos dos indivíduos com o passado e suster as bases identitárias de um grupo social. Embora exista o impulso pela mudança e pela modernização, ocorre à negação a esse processo que impulsiona a manutenção das especificidades de cada lugar, ocasionadas pelo conjunto de condições que decorrem apenas naquele local como tradições, hábitos, histórias, e logo o patrimônio cultural resultante da união desses elementos particulares de cada espaço. A globalização influenciou no processo de reestruturação das relações entre campo e cidade. O campo desempenha na contemporaneidade novas atividades, à medida que está recebendo novas funções e novos atores sociais. Entre esses distintos espaços geográficos - campo e cidade - ocorre uma relação dialética caracterizada por momentos de complementariedade e outros de dicotomia. O rural e o urbano, as representações sociais desses espaços, podem ser reelaboradas e passar por modificações no tempo e no espaço, condicionadas pelo universo simbólico que se apresenta e, portanto constantemente se transformam, influenciados pela crescente fluidez – material e simbólica. (CARNEIRO, 1998). 5233 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO De acordo com Wanderley (2001) apesar das mudanças, o rural manteve especificidades sociais, ecológicas e culturais ao longo da história, que caracterizam inclusive a maneira pela qual os sujeitos se inserem na sociedade. Para essa autora, o modo de vida rural é um jeito pelo qual o sujeito que vive no campo vê o mundo e vive o mundo; o modo de vida rural são lentes de uma identidade rural que configuram o modo de viver e ser no campo e de interagir com outros espaços. Os moradores de Guaragi tem contato com os centros urbanos motivados, sobretudo pela dependência de bens de consumo e serviços não encontrados no distrito. Todavia, o processo de aproximação com a cidade e o modo de vida urbano não cunham o desapego ao modo de vida rural ou ao campo, mas tem reforçado os sentimentos de apego ao local e ao campo. Ao ter contato com os problemas urbanos (violência, desemprego, poluição, estresse entre outros) os residentes do campo reforçam a afeição pelo contexto rural, onde esses problemas ainda não ocorrem de maneira tão frequente ou intensa. Os traços culturais e elementos simbólicos relativos ao modo de vida rural são preservados, porque esse conjunto cultural faz parte da memória social do grupo e estruturam a identidade dos moradores. O conjunto de elementos conservados presentes no cotidiano e na memória dos moradores do campo pode ser considerado patrimônio cultural. A memória pode ser caracterizada pela sua mutabilidade, mas há traços na memória coletiva e individual que se mantem imutáveis (POLLACK, 1992). Os moradores do campo conservam um conjunto de princípios norteadores que se materializam no dia-a-dia, nas relações sociais, na maneira de realizar os trabalhos, e atividades diárias. Essas características culturais sofrem modificações, mas tem sobrevivido a dinâmica histórica da sociedade. A preservação dos patrimônios tem como escopo resguardar a história da sociedade. No entanto, a discussão sobre patrimônio transcorre entre jogos de poderes políticos, econômicos, ideológicos e culturais e frequentemente apenas parte da memória social é guardada, existindo uma desigualdade em favor dos patrimônios urbanos quanto a estudos e ações das diversas escalas de poder. O patrimônio cultural rural reúne além do conjunto de registros materiais e imateriais provenientes das práticas diárias e os costumes, às formas de produção 5234 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO estabelecidas na área rural (TOGNON, 2002). A existência de elementos simbólicos relacionados à vida cotidiana dos habitantes rurais tem recebido valorização pela moda crescente do consumo do espaço rural e do modo de vida do campo. O reconhecimento e valorização das características rurais permite ao indivíduo que vive no/do campo sentir sua participação efetiva na vida da sociedade. 3 - Metodologia Para a elaboração desse trabalho foi realizada revisão bibliográfica sobre conceitos referentes à pesquisa, considerando, sobretudo discussões sobre campo e cidade, rural e urbano, cultura, memória e patrimônio cultural. Pela compilação desses conceitos, buscou-se elucidar o patrimônio cultural rural, no contexto atual de Guaragi, utilizando esse distrito rural para a análise de caso. Buscou-se compreender a ideia de patrimônio cultural rural a partir do sujeito (re)produtor desse patrimônio. Para isso, foram escolhidos dois grupos sociais distintos: os moradores permanentes (aqueles que têm residência fixa no campo) e os moradores de veraneio (as pessoas que têm residência fixa na cidade, mas são donos de casa no campo, onde passam fins de semana, feriados e férias). A escolha desses dois grupos foi motivada pela completude nas respostas que ocorre quanto à percepção do que são os patrimônios culturais rurais, para aqueles que o vivenciam cotidianamente e para aqueles que buscam vivenciá-lo sempre que possível. Para compreender aspectos da vida dos moradores, foram realizadas 11 entrevistas com o auxílio de questionários semiestruturados com perguntas qualitativas e quantitativas para as famílias de moradores permanentes e com 10 famílias de veraneio. As questões buscavam contemplar a vivência, experiências, hábitos, tradições e costumes. Para apreender a realidade apresentada pelos moradores, optou-se pela fenomenologia como metodologia de coleta e análise dos dados. De acordo com Pereira (2010) pela ótica da fenomenologia é pela realidade percebida por meio da subjetividade e pelas experiências vividas em determinado espaço que esse é considerado. O espaço de vivência é estabelecido e percebido pelos indivíduos nas práticas sociais, que também impregnam o espaço de significados, valores e 5235 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO sentimentos. A fenomenologia possibilita considerações que auxiliam na construção de um saber onde a humanidade do sujeito pesquisado é recuperada e o saber é construído a partir da realidade das pessoas. 4 - Resultados O município de Ponta Grossa possui cinco distritos: o distrito sede, Piriquitos, Itaiacóca, Uvaia e Guaragi. O distrito de Guaragi é localizado a 32 km da zona urbana de Ponta Grossa. Possui população de 2936 habitantes, sendo desses 1241 moradores da vila e 1695 moradores da área rural. (IBGE – Censo 2010). No dia-a-dia os moradores de Guaragi congregam bens e serviços modernos ao cotidiano para facilitar o trabalho, acrescentar à renda familiar e melhorar a qualidade de vida. Contudo as novas ideias e comportamentos não substituem aquelas transmitidas pelas gerações do passado: valores, religiosidade, conhecimentos sobre a natureza. A paisagem do campo, a cultura e o modo de vida passam por constantes modificações, recebem novas formas e equipamentos, mas a essência é preservada. Os moradores permanentes entrevistados, falam que o acesso a determinados bens de consumo, a facilidade de acesso à prestação de serviços específicos (sobretudo os relacionados com saúde e educação), a possibilidade de renda maior e segura (já que independe de condições climáticas, por exemplo), são fatores atrativos nos centros urbanos. Ressaltam a importância e a preferência pelo contexto rural – tranquilidade, contato com a natureza, maior sensação de segurança, sensação de tempo mais lento, flexibilidade de tipos e horários de trabalho, boa qualidade de alimentação e saúde mental, a boa relação com os vizinhos, entre outras – e destacam que buscam manter essas características tão apreciadas no local onde vivem. Já os moradores de veraneio, buscam nas segundas residências tudo aquilo que é parte do cotidiano rural e também procuram vivenciar novas experiências, ressaltando que durante a permanência no distrito, prezam por respeitar a dinâmica local. De acordo com Tuan (2012) o ser humano está sempre buscando o ambiente ideal e por isso diversas ciências se voltam a compreensão das preferências das pessoas, utilizando a grande quantidade de dados estatísticos para 5236 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO fundamentar a produção do saber. Contudo, ainda há carência em compreender a amplitude emocional e a intensidade das novas relações de apropriação do espaço pelos sujeitos, influenciados pelas novas configurações advindas com o contexto histórico-geográfico. O que bem representa o espaço de (re)produção da cultura do campo é a paisagem, construída na relação subjetiva e objetiva do sujeito com o seu entorno. Assim, é possível compreender que há uma relação inseparável entre os patrimônios culturais rurais imateriais e materiais: um comporta os saberes, as ideias, os sentimentos que se refletem nas práticas, nas edificações e utensílios e coexistem na paisagem e no cotidiano dos moradores do campo. É comum encontrar em Guaragi edificações que remetem a produção agropecuária. Existe a presença das edificações pré-moldadas em alvenaria, utilizadas como estábulos e espaço para guardar equipamentos agrícolas, mas é comum encontrar o paiol de madeira, edificado segundo arquitetura transmitida pelas gerações anteriores, onde são armazenados alimentos para o gado, equipamentos de trabalho e utensílios em geral. Quanto à produção agropecuária, a população do distrito procura associar os novos tratamentos aprendidos nos diversos meios de comunicação disponíveis no distrito – televisão, rádio, internet - e os tratamentos indicados por profissionais que atendem as propriedades aos saberes aprendidos pela experiência no trabalho, aqueles transmitidos pelos mais velhos e construídos na observação da natureza. Para os moradores do distrito é muito importante saber reconhecer os indícios da natureza, das mudanças climáticas, as previsões sobre o clima futuro, porque há dependência estreita entre suas atividades e a renda da família às condições climáticas. Observações da natureza e a sua aplicação prática são comuns. Um exemplo desse conhecimento é o de que segundo os moradores entrevistados quando as formigas e pássaros estão mais agitados e quando as galinhas retiram certo tipo de óleo das glândulas uropigianas e, com o bico depositam esse óleo nas penas, é „sinal‟ de que a chuva se aproxima; a direção dos ventos indica se a chuva será calma ou ocorrerá uma tempestade. Esses detalhes são observados com atenção e já trazem cautela em relação ao clima. Essa sabedoria é passada de pai para filho. No entanto se percebe falta de interesse dos 5237 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO mais jovens nesses conhecimentos, pois preferem acompanhar a previsão do tempo realizada pelos institutos de meteorologia baseados em dados e análises técnicas. Épocas de plantio e colheita também são correlacionadas com as fases da lua e estações do ano, conhecimento esse transmitido entre gerações e testados empiricamente no cotidiano dos moradores. Para cada cultivo, seja da horta, pomar ou lavoura, há uma época do ano propícia para poda, plantio e colheita. No espaço rural, há grande riqueza no que trata das relações sociais características desse espaço e da relação do indivíduo com o meio. Mesmo com a aproximação com o espaço e modo de vida urbano e a carga de elementos simbólicos característicos do espaço urbano, as especificidades rurais são preservadas junto à memória coletiva e individual e pela conservação de um conjunto de significados peculiares desse espaço, como é possível verificar no distrito de Guaragi, quanto às práticas diárias referentes aos meios e maneiras de trabalho em contato próximo à natureza e nas relações sociais que ainda prezam por valores de amizade, manutenção de promessas, relações de compadrio. É comum que os moradores troquem visitas. Se encontrem nas residências para tomar chimarrão e conversar sobre diversos assuntos, que abrangem desde a política nacional, até questões locais. “Também é comum a troca de visitas – sobretudo entre os praticantes do catolicismo - para „levar a capelinha”, ou seja, a imagem de um santo de devoção da comunidade religiosa que passa de casa em casa, onde são feitas orações. As festividades no espaço rural preservam outra característica típica do campo, a religiosidade. A maioria dos moradores entrevistados se diz católicos praticantes. No distrito são realizadas muitas festas religiosas em homenagem aos santos padroeiros de cada localidade, com fogueiras em homenagem a São João, São Pedro e São Paulo, festas dominicais e bailes. Para as celebrações tradicionais como no dia 12 de outubro quando se comemora Nossa Senhora Aparecida, ou no dia 29 de junho dia de São Pedro e São Paulo, é tradicional a montagem de andores de madeira, onde são acomodadas as imagens dos santos padroeiros durante a procissão, que percorre um curto trajeto ao redor da igreja, enquanto são entoados hinos e orações. A devoção pelos santos é expressa nas orações fervorosas e nas preces feitas em frente aos ícones de fé. 5238 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO É comum o uso de métodos curativos espirituais. Segundo os entrevistados já não existem muitas pessoas que pratiquem esse tipo de „cura‟. Muitas pessoas disseram não acreditar nos tratamentos com métodos de curandeirismo como as „costureiras de rendiduras‟ e benzimentos, mas nas entrelinhas de sua fala, contam que procuram curadores para tratar suas enfermidades, sobretudo para crianças. A restrição em relatar abertamente a crença no curandeirismo pode ser atribuída a religiosidade local, voltada a valores tradicionais católicos. Outro conhecimento preservado e transmitido entre as gerações segundo os entrevistados trata da utilização de chás medicinais. De maneira geral quem transmite os conhecimentos sobre quais tipos de chá preparar para cada moléstia são as mães e avós, algum familiar próximo, ou pessoa mais idosa. Esse conhecimento também é adquirido na convivência com outras pessoas, na prática, ou é considerado tradição. Essas trocas de informações, conhecimentos, costumes e tradições entre as gerações enriquecem a cultura local, desenvolvem a criatividade das pessoas e garantem que valores e conhecimentos não sejam perdidos. De acordo com Hauresko (2012) a manutenção desses vínculos ocorre porque eles ainda apresentam importância no cotidiano dos moradores do campo. No contexto geral, são saberes, técnicas, hábitos, que apresentam sentido prático na vivência dos sujeitos, são representativos na reprodução social e econômica das famílias e da comunidade e por isso são preservados. Esses saberes - como a ordenha, o trato com os animais, a relação com a natureza, a análise das mudanças climáticas, a maneira como ocorrem as relações sociais – contemplam conhecimentos e práticas ligadas às atividades de trabalho e lazer e são formados na observação da natureza e do universo, no dia-a-dia, nas atividades cotidianas dos moradores de Guaragi. Muitos desses conhecimentos são tão significativos e representativos do espaço rural que são reproduzidos em espaços voltadas para o turismo rural onde o intuito é oferecer ao visitante a experiência do contato e vivência da „realidade‟ rural. Drska (2002) fala da importância da preservação da memória nas práticas cotidianas como na maneira de falar, na culinária, nas relações entre os sujeitos, nas crenças e ritos, nas festas e outras manifestações populares e na forma de ver o 5239 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO mundo, pois é a partir daí que o sujeito constrói e estabelece sua identificação com o espaço onde vive e com o grupo social ao qual pertence. Na paisagem característica do campo, nas ações cotidianas, nas histórias, memórias, modos de fazer e ver a realidade que se estabelecem os laços de identificação com o modo de vida rural. Os elementos simbólicos representativos de vida urbana que chegam ao campo são incorporados, rejeitados ou readaptados ao modo de vida, pois como cidadãos ativos, os moradores do campo têm direito ao acesso a bens que lhes tragam melhorias na qualidade de vida, no entanto, preservam as características bucólicas que são expressas nos hábitos, costumes, cotidiano, relações sociais e nas formas de apropriação do espaço. Mediante o que foi apresentado pelos moradores do distrito de Guaragi entende-se que os elementos escolhidos para representar a história dos indivíduos que vivem no campo são aqueles reconhecidos e apontados pelos sujeitos que o vivenciam nas suas experiências cotidianas e que pela sua importância são preservados mesmo com as mudanças que ocorrem na configuração do espaço rural. 5 – Conclusões Frente à análise da realidade abordada nesse trabalho, percebeu-se que o modo de vida rural não está baseado apenas na relação de produção agropecuária, mas também na amalgama de traços culturais referentes ao vínculo dos habitantes com a paisagem rural, com a terra, às relações de amizade e confiança com os demais membros da comunidade. Esse conjunto que contempla o ambiente e as práticas sociais formam a memória social desse grupo numa história conjunta. A fenomenologia propicia a compreensão de que para os sujeitos sociais que vivenciam o espaço rural, suas experiências são únicas e inerentes a esse espaço geográfico, ao passo que resultam da soma da paisagem mais as atividades e hábitos cotidianos, que formam um contexto característico do campo. No tempo e espaço, o modo de vida tipicamente rural tornou-se expressão cultural desses sujeitos. A relação com o campo, com as outras pessoas, com outros modos de vida, formou e revela a identidade cultural rural, que é expressa na 5240 A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO DE 9 A 12 DE OUTUBRO organização social desse grupo. Na manifestação, desenvolvimento e manutenção da sua identidade, os sujeitos rurais patrimonializam seu modo de vida. Mesmo quando ocorre a aproximação com o modo de vida urbano e há um embate entre a necessidade de renovação ou a conservação, o modo de viver rural pode passar por um processo de (res)significação, mas mantem sua essência. A paisagem, as formas edificadas, os equipamentos e outros conjuntos de elementos materiais podem ser considerado patrimônio cultural do campo e existem porque há no viver rural um jeito peculiar de ser no dia-a-dia, na rotina, no contexto que ambienta a vida no/do campo, na tranquilidade, no tempo que dá a sensação de transcorrer de maneira mais lenta, na liberdade de horários, no contato com cheiros e sons naturais, nos alimentos que liberam todo o sabor quando cozidos lentamente no fogão à lenha e nos saberes do plantio, colheita e preparo dos alimentos nos pomares e hortas, na ordenha manual do leite que será transformado em doce artesanal. Esses elementos simbólicos característicos do espaço rural não são apenas memória. Resultado das experiências diárias, na relação com o espaço, com os outros sujeitos. É o que modela a vida no campo e o estruturante para relacionar-se com outros espaços e sujeitos. É cotidiano dos moradores do campo, seu modo de vida, seu patrimônio cultural. 6 - Referências CARNEIRO, Maria José. Ruralidade: novas identidades em construção. Estudos Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, n. 11, p. 53-75, out. 1998. Disponível em: <http://r1.ufrrj.br/esa/index.php?cA=db&aI=120&vT=da&vA=281>. Acesso em: 18 jan. 2013. COSGROVE, Denis. A Geografia Está em Toda Parte: Cultura e Simbolismo nas Paisagens Humanas. In: ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto Lobato (Orgs.). Paisagem, Tempo e Cultura. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1998. CLAVAL, Paul. A Geografia Cultural. 3. ed. Florianópolis: UFSC, 2007. DRSKA, Maria Angélica Marcondes. Memória e Mudança espacial – migrantes nordestinos no Rio de Janeiro. In: COSTA, Icléia Thiesen Magalhães; ORRICO, Evelyn Goyannes. (Orgs.). 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