Anais do Seminário Nacional de História da Historiografia:
historiografia
brasileira e modernidade
“Fábricas de santinhos”:
modelos de santidade na escrita histórica brasílica
Jorge Victor de Araújo Souza∗
Sílvia Barbosa Guimarães Borges∗∗
(...) protesto, e com animo mais ingênuo e expressivo declaro, que tudo que
relato, e escrevo neste volume, e que pareçam milagres ou sucessos
sobrenaturais não é meu intento que tenham mais crédito, ou autoridade que
aquela que merecem as mesmas em si, e cabe na Fé meramente humana,
deixando ao juízo rectissimo da Igreja o discernir os verdadeiros milagres, e
santidade. (COUTO, Domingos Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de
Pernambuco. p. 1.)
Visitando o maior país católico do mundo, o Papa Bento XVI canonizou frei Antônio de
Santana Galvão (1739-1822), primeiro santo nascido no Brasil. Considerada pelos católicos uma
grande conquista, a canonização do religioso franciscano que morreu com “odores de santidade”,
é antes de tudo um reforço à devoção católica brasileira. Pode-se até perguntar: como um país,
com uma população tão devota aos seus “protetores espirituais” desde os primeiros tempos da
colonização, ficou tanto tempo sem ter um santo só seu? A resposta é difícil, talvez isso se deva a
questões políticas envolvendo interesses do Vaticano. Mas fato é que ao longo de nossa história
nunca faltaram aqui candidatos ao posto agora outorgado a frei Galvão. Relatos da existência de
muitos deles ficaram registrados em práticas de escrita que tentavam se constituir como história,
mas que foram fortemente marcadas pela idéia de “santidade”, termo muito caro à escrita
hagiográfica.
Aponta-se aqui pelo menos duas práticas de escrita na América portuguesa carregadas do
conceito de santidade: uma escrita laudatória, produzida como biografia de um religioso falecido
com “odores de santidade” e uma escrita também produzida por religiosos, mas que tinha caráter
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histórico. Esta acabava por narrar “feitos admiráveis” de companheiros de missão, comumente
ligados ao sentido de santidade. Neste trabalho procuraremos tratar mais especificamente do
segundo caso.
“Santidade” é um conceito com raízes muito antigas, mas foi o cristianismo que o
difundiu1. O conceito é intrinsecamente vinculado ao culto às relíquias2. Este culto remonta aos
primeiros séculos do cristianismo, ligando-se à devoção a santos mártires. A palavra relíquia é
originaria do latim reliquiae e, grosso modo, significa restos. Entretanto, relíquias cristãs não são
restos comuns. São partes de algo considerado sagrado, podendo ser pedaços de instrumentos
usados na paixão de Cristo, algum objeto relacionado à Nossa Senhora ou alguma parte do corpo
de santos, como a língua de Santo Antônio. A veneração às relíquias era uma das preocupações
da Contra-Reforma, pois elas reafirmavam o testemunho da existência e intercessão dos santos, o
que era firmemente contestado pelos protestantes. Não foi em vão a ênfase dada a tal questão em
1707 pelas Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia: “Nenhum católico pode duvidar
que as relíquias dos santos aprovadas pela Igreja ou sejam parte de seu corpo, ou outras coisas
que em vida, ou depois da morte os tocassem”3. Discursos em torno das relíquias e das presenças
de santidade foram apropriados para combater “os de outra fé”4.
É esse sentido, de peleja a “heresiarcas”, que Sebastião da Rocha Pitta usa em sua
História do Brasil, publicada em 1730, ao tratar da importância da santidade.
Porém Deus Nosso Senhor, mostrando aquelas desgraçadas criaturas, que
tinham errado a via da verdade, fez caminhar por ela no mesmo século
inumeráveis santos em vários estados, com prodigiosas penitências,
mortificações e abstinências, sobre a esfera da possibilidade humana e com a
mais pontual observância da doutrina Católica Romana, sendo uns fundadores
de novas religiões, outros reformadores de antigas, dos quais os declarados da
Igreja e venerados do altar...5
∗ Doutorando em História na UFF. Bolsista CNPq.
∗∗ Bacharel em História pela UFRJ (PPGHIS) e mestranda em História da Arte (PPGAV) na mesma universidade.
1
VAUCHEZ, André. Santidade. Enciclopédia Einaudi. Volume 12. Dir. ROMANO, Ruggiero, 1987. p. 288.
2
GAJANO, Boesch. Santidade. In: SCHMITT, Jean Claude; LE GOFF, Jacques (Orgs.). Dicionário temático do
Ocidente Medieval – Volume II. Bauru/SP: EDUSC, 2002. p. 449-462.
3
VIDE, Sebastião Monteiro da. Constituições Primeiras do Acerbispado da Bahia. São Paulo: Typog. 2 de
Dezembro, 1853. (Livro I, tit. XVIII, itens 22-26) p. 9-10.
4
Na Idade Média, a santidade e as políticas de canonização chegaram a se tornar estratégias no combate a heresias.
Cf. GOODICH. Michael. Politics of canonization in the thirteenth century: lay and Mendicant saints. In: WILSON,
S. E. Saints and their cults: studies in religious sociology, folklore and history. Cambridge, Londres; Nova York:
Melbourne: Cambridge University Press, 1985. p. 169-187.
5
Sebastião da Rocha Pitta. História da América portuguesa. Rio de Janeiro. Tipografia Garnier, S/D. p. 143.
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Rocha Pitta trata especificamente dos protestantes, enumerando vários líderes do movimento.
A santidade podia estar associada às relíquias e é neste sentido que Pierre Delooz nos
lembra que o termo podia ser atribuído a objetos materiais6. Mas o sentido de santidade ficou
marcadamente ligado a cristãos que tiveram uma vida considerada pia, boa parte deles seria
canonizada, tornando-se santos. Como construção social, santidade depende, lembra Delooz, da
“opinião dos outros”7.
De acordo com o dicionarista e clérigo Rafael Bluteau, na primeira metade do século
XVIII, santidade era sobretudo integridade e perfeição de costumes, perceptíveis em atos e
hábitos. Ainda segundo o lexicólogo que viveu em Portugal, para ter santidade era preciso “viver
apartado de todo gênero de vícios, e ornado de todas as virtudes morais e sobrenaturais”8. Notase, Bluteau faz questão de salientar, que santidade não é algo inato, mas considerado um ethos
adquirido ao longo da vida9.
Mas é preciso enfatizar a ambigüidade que poderia ter o termo santidade empregado na
América portuguesa. Como ressaltou o historiador Ronaldo Vainfas, os jesuítas aplicaram esse
termo a uma tradicional cerimônia tupi. De acordo com Vainfas, foi Manuel de Nóbrega o
primeiro a usar a denominação destacando, porém, que a cerimônia indígena era uma “santidade
falsa”10.
Modelos de modelos – Discurso hagiográfico
Michel de Certeau considerou a hagiografia como um discurso que se encontra na
extremidade da historiografia. Segundo ele, este gênero de escrita, não se preocuparia com
“àquilo que se passou”, mas com “àquilo que é exemplar”11. Assim, tal gênero visava à
edificação, o exemplum do agente sagrado, os santos.
6
DELOOZ, Pierre. Towards a sociological study of canonized sainthood in the Catholic Church. In: WILSON, S. E.
Saints and their cults: studies in religious sociology, folklore and history. Cambridge, Londres; Nova York:
Melbourne: Cambridge University Press, 1985. p.193.
7
Idem. p. 194-199.
8
BLUTEAU, Rafael. Vocabulário português e latino. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, Tomo
VII, 1720. p. 481.
9
Idem.
10
VAINFAS, Ronaldo. Santidades. In: _____. (Dir.). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1800). Rio de Janeiro:
Editora Objetiva, 2000. p. 521-523.
11
CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. p. 266-267.
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Uma das coletâneas hagiográficas mais conhecidas e que foi fonte de modelos para a
escrita da vida de vários santos a partir da Idade Média, foi a Legenda Áurea. Produzida no
século XIII, pelo dominicano Jacopo de Varazze, com o intento claro de levar aos seus irmãos de
hábito conteúdo para formularem seus sermões, a Legenda está repleta daquilo que Certeau
considera fundamental para o discurso hagiográfico – relatos de vidas virtuosas. A exemplaridade
destas vidas são acompanhadas por martírios e feitos extraordinários, marcando um lugar do
fantástico, como destaca Hilário Franco Junior:
com efeito, nosso compilador ainda via os santos como pessoas cujas mortes,
apesar de serem brutais, são acompanhadas por sons harmoniosos, pessoas cujos
corpos torturados e mutilados emana odor agradável, pessoas cujos restos mortais
são imputrefatos e têm poderes taumatúrgicos que beneficiam a todos os que
peregrinam até seu local de descanso e veneração12.
Resumindo o que disse o medievalista brasileiro, a Legenda é, também, uma compilação
de milagres. No século XVIII, para Raphael Bluteau, milagre é “obra da onipotência divina (...),
obra sobrenatural e superior as forças dos agentes naturais, como as que Jesus Cristo fez pelo
poder Divino, ou que pelo mesmo divino poder obram os Santos, para crédito da fé, glória de
Deus”13.
No período que se convencionou denominar barroco, a Legenda Áurea continuou sendo
uma importante fonte de relatos de santidade e feitos milagrosos. Um determinado modelo de
santidade pode ser claramente visto na obra pioneira da escrita histórica na América portuguesa.
Frei Vicente do Salvador finalizou sua História do Brasil em 1627. Entretanto ela só foi
publicada na integra em 1888, nos Anais da Biblioteca Nacional. Notamos poucos relatos
fabulosos e miraculosos onde pudesse se sobressair o sentido de santidade que nos interessa.
Todavia, comentando a existência da ermida de Nossa Senhora da Penna, no Espírito Santo, frei
Vicente destaca que:
Nesta ermida esteve antigamente por emitão um frade leigo de nossa ordem,
Asturiano, chamado frei Pedro, de mui santa vida, como se confirmou em sua
morte, a qual conheceu alguns dias antes, e se andou despedindo das pessoas
devotas, dizendo que, feita a festa de Nossa Senhora, havia de morrer, e assim
sucedeu, e o acharam morto de joelhos, e com as mãos levantadas como quando
orava; e na translação de seus ossos dessa igreja para nosso convento, fez
12
FRANCO JÚNIOR, Hilário. Apresentação. In: VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea – Vidas de Santos. São
Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 16.
13
BLUTEAU, R. op. cit. p. 481.
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muitos milagres, e poucos enfermos os tocam com devoção que não sarem logo,
principalmente de febres, como tudo consta de instrumentos de testemunhas,
que está no arquivo do próprio convento14.
O modelo de santidade presente aqui é o de um religioso que, como Santo Antão e os
primeiros padres do deserto, buscou o “afastamento do mundo” típico do ascetismo oriental. Frei
Pedro, segundo frei Vicente, tinha dons divinatórios. A santidade foi inscrita em seu próprio
corpo, depois de morto foi encontrado em postura de devoção. É importante, na construção da
santidade, frisar a “opinião do outro” e é assim que frei Vicente destaca uma forma de devoção
aos ossos de frei Pedro, tratados como relíquias pelos enfermos. Neste ponto, o cronista
franciscano dá importância aos testemunhos dos milagres, e busca assegurar a veracidade dos
fatos destacando que os relatos se encontram em documentações presentes em arquivos.
Membros da Academia
É na escrita de dois membros da Academia Brasílica dos Renascidos, que notamos grande
presença do termo santidade, com variadas significações. Frei Domingos Loreto Couto,
beneditino, e frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, franciscano, não pouparam tinta ao tratar de
homens que segundo eles morreram com “ares de santidade”15.
Frei Domingos Loreto Couto, nascido em Recife por volta de 1696, teve uma atribulada
vida religiosa. Por desavenças com sua ordem de origem, trocou o hábito franciscano pelo de
beneditino. Em 1757 concluiu seu Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco, dedicado a D.
José I. Dividido em oito livros, procurou enaltecer os feitos dos “filhos de Pernambuco”, que de
acordo com ele foram esquecidos em outros escritos que trataram da América portuguesa,
principalmente no período holandês. É no livro quarto, Pernambuco ilustrado com virtudes, que
frei Domingos mais necessita da precaução que escreveu ao abrir sua obra e que aqui utilizamos
como epígrafe16. Em sua cautela, frei Domingos acentua que a crença nos fatos que relatará “cabe
na Fé meramente humana”. Apostando na credulidade dos homens, frei Domingos descreve
14
SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887. p. 67.
Sobre a participação de ambos na Academia Brasílica dos Renascidos: KANTOR, Iris. Esquecidos e Renascidos:
historiografia acadêmica luso-americana, 1724-1759. São Paulo: Hucitec; Salvador: Centro de Estudos
Baianos/UFBA, 2004.
16
O cuidado de frei Domingos é bem significativo. O papa Urbano VIII (1623-1644) enrijeceu os preceitos para
santificação e coibiu a propagação de relatos dos que supostamente morriam com “odores de santidade”. O Santo
Ofício, no seu regimento de 1640, condenava os “que dão culto, como santos, aos que não forem canonizados, ou
beatificados, e dos livros que tratam de seus milagres e revelações e dos que fingem”.
15
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prodígios operados pelo padre João Duarte do Sacramento (1634-1719), que curou com a saliva
um índio que tinha o olho ferido, salvou da morte pessoas envenenadas pela ingestão de folhas de
mandioca e anteviu o futuro, ao prever uma violenta morte ocorrida em um engenho.
Quando morreu, as vestimentas e os pertences do padre foram disputados como relíquias.
Seu corpo, exposto durante dois dias, deu sinais típicos de santidade justamente pela ferida que
lhe havia impingido os maiores sofrimentos: “Aquele tumor ulcerado, que em sua vida exalava
um cheiro corrupto, que ofendia o olfato, e o cérebro, de quem lhe assistia, logo que se apartou
do corpo o espírito, desapareceu em um instante, exalando uma fragrância suavíssima, e não
conhecida, e tanta que se participou a todo espaçoso âmbito da igreja”.17
As descrições dos feitos do padre João Duarte são típicas de determinados modelos de
santidade também encontrados em muitos “santinhos” e “bentinhos” da América portuguesa.
Tópicas enfatizavam como o corpo deveria dar “sinais de santidade”. Na época, era comum a
expressão “odores de santidade”, conferida a pessoas que viveram piamente, principalmente
clérigos. Quando morriam, esperava-se que, no lugar do cheiro de carne em decomposição, se
sentisse um suave perfume de flores18. Segundo frei Apolinário da Conceição, autor do opúsculo
Ecco sonoro da clamorosa voz que deu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no dia 18 de
outubro de 1747, na saudosa despedida do irmão frei Fabiano de Cristo, o cadáver do
franciscano, além do sangue perfumado que lhe escorria por uma chaga, apresentava uma incrível
flexibilidade, como se estivesse dormindo e não morto: “Se o sentavam assim ficava, se lhe
apertavam os dedos; davam estalos, e se lhe abriam os olhos, que perseveraram claros e, sem
17
COUTO, Frei Domingos Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Recife: Fundação de Cultura da
cidade do Recife, 1981. p. 320.
18
Os “bons odores” marcam um topoi das vidas de santos. Algumas obras como as de Rimbertino, publicada em
Veneza em 1498, não tinham constrangimentos em afirmar que “a Igreja canta que os corpos dos santos serão um
odor suavíssimo [...] O Senhor Jesus tem o corpo mais agradavelmente odorante entre tudo que, em todo o universo,
exala perfumes”. Apud, DELUMEAU, Jean. O que sobrou do Paraíso? São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.
195. Mais antigos ainda são os relatos registrados na Legenda Áurea, neles, São Gervásio, São Protásio e Santo
Aleixo, por exemplo, emanaram “fragrâncias especiais”. VARAZZE, Jacopo de. op. cit. p. 482-542. Ainda sobre
“odores de santidade”, ver: CLASSEN, Constance. Worlds of sense: Exploring the sense in history across cultures.
New York: Routledge, 1993. p. 21.
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névoa alguma, os ia cerrando muy devagar”19. Nota-se a presença de uma tópica comum na
hagiografia: a luta vitoriosa contra a natureza corporal20.
Mas frei Domingos Loreto Couto não restringiu os personagens que tiveram “nota de
santidade” apenas aos clérigos. Aliás, nesse fato reside uma das características gerais do
Desagravos do Brasil, ou seja, a tentativa de promover um ajuntamento dos mais diversos
agentes, sob a designação de “pernambucanos”21. É nessa perspectiva que frei Domingos concede
“nota de santidade” a pardos, pretos e a índios.
Assim, frei Domingos discorre sobre as ações louváveis de dois homens pardos e dois
pretos. O primeiro homem pardo, José Pereira era mais conhecido como José Santinho. Nascido
em Olinda, era filho de um homem branco com uma escrava. De acordo com a narrativa, José
possuía desde tenra idade os atributos de sua “futura santidade”. “Era muito humilde, modesto,
recolhido, devoto e obediente a seus amos. Todos os dias ouvia missa, a que assistia com muita
devoção, freqüentava os sacramentos, e gastava o tempo, que lhe restava para trabalhar no oficio
de sapateiro, a que o aplicaram, em devotos exercícios”. Vê-se que seu modelo de santidade
amalgamava com o que se esperava de um “bom escravo”, ou seja, ser “obediente a seus amos”.
José Pereira, ou José Santinho, como ficou conhecido popularmente, morreu em dois de outubro
de 1751. Nesta data foi sepultado na igreja de São Pedro Mártir com coroa e palma, símbolos de
santidade que seus confessores lhe deram “em sinal da vitória, que alcançara do mundo, diabo e
carne”22.
Ignácio, o segundo homem pardo da narrativa, praticou o eremetismo, ficando dez anos
sem falar com pessoa alguma, depois disso tornou-se um contumaz pregador. Ainda no início do
século XVIII veio a falecer, dando sinais de santidade. “O seu corpo ficou flexível e com o rosto
tão alegre, como se estivera vivo, deu-se-lhe sepultura na igreja nova do santíssimo sacramento, e
sendo o primeiro que foi enterrado na dita igreja, se verificou a sua profecia”23.
19
CONCEIÇÃO, Apolinário da. Ecco sonoro, da clamorosa voz, que deu a cidade de S. Sebastiam do Rio de
Janeiro em o dia dezoito do mez de outubro do ano de 1747, na saudoza despedida do irmão frei Fabiano de
Christo, enfermeiro do Convento de S. Antonio da mesma cidade, de cuja vida adornada de virtudes de expoem
huma summaria noticia. Lisboa: off. de I. Rodrigues, 1748. p. 30.
20
GAJANO, Sofia Boesch. op. cit. p. 449.
21
Loreto Couto usa “pernambucanos” no lugar de “naturais” ou “nobreza da terra”. MELLO, Evaldo Cabral de.
Rubro Veio: o imaginário da restauração pernambucana. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 114.
22
COUTO, Frei Domingos Loreto. op. cit. p. 330-331.
23
Ibidem, p. 335.
Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto: EDUFOP,
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Na narrativa de frei Domingos, escravos também davam sinas de santidade. João
Henriques, preto crioulo, era escravo do cônego João Maximo, arcediago da Sé de Olinda.
Caritativo e cheio de fé, segundo frei Domingos, João Henriques até sonhando dava sinais do
modo devoto em que vivia. João, após a morte de seu senhor, ficou liberto e se recolheu em um
hospital “onde o seu exercício mais ordinário era assistir a cura, e serviço dos enfermos,
aplicando-se aos ministérios mais baixos, e a limpeza dos vasos imundos”24. Nesse mesmo
hospital, João morreu cego e com idade avançada.
Já Antonio de Brito, crioulo forro, era exemplo de conversão. Antonio expirou diversos
sofrimentos físicos quando “cobriu-se de asquerosas chagas”. Indo para o hospital do padre
Antonio Manuel Felix, Antonio padeceu suas agruras até 171425.
Nos capítulos 22, 23 e 24, frei Domingos trata dos índios naturais de Pernambuco que
“floresceram em santidade”. Caso curioso é o de quatro meninos índios que haviam sido
mandados para Lisboa em uma nau. Quase chegando ao seu destino, a embarcação foi tomada
por mouros. Em novembro de 1690 os quatro índios se viram cativos em Marrocos. Foram
recebidos em um palácio, onde o rei “começou a tratá-los com excessos de amor, sinais de
estimação, e muitas promessas cheias de encarecimentos, persuadindo-os com carícias, e afagos,
que deixassem a lei de Cristo, e abraçassem a de Mafoma”. Passando por testes de resistência os
quatro responderam que, “primeiro perderão a vida, que deixar a fé de Cristo, que professavam”.
Como topoi recorrente na hagiografia dos primeiros mártires do cristianismo – São Lourenço e
Santo Estevão, por exemplo – os meninos passaram a ser torturados pelo tirano para que
abjurassem de sua fé, mas, “os benditos meninos rindo-se do rigor e zombando dos tormentos
(semelhante ao comportamento de São Lourenço na grelha), achavam nos espinhos rosas, nas
dores delícias, nos opróbrios honras, e nas afrontas vitórias”. O beneditino segue afirmando que
ao sofrerem estas torturas, três dos meninos suportaram os rigores, mas o de nome José, “não
podendo resistir ao rigor da crueldade, com que trataram aqueles bárbaros entregou sua bendita
alma no seguinte dia nas mãos do Criador, e saiu desta vida a lograr a coroa merecida pelo
martírio”26.
24
Ibidem, p. 331.
Ibidem. p. 331-332.
26
COUTO, Frei Domingos Loreto. op. cit. p. 335-337.
25
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O antropólogo Luiz Mott chamou a atenção para o fato dos franciscanos terem sido os
principais clérigos regulares a cunharem “santinhos” e “bentinhos” na América portuguesa27. São
bem conhecidos casos como os de frei Fabiano de Cristo e não faltaram biógrafos franciscanos
como frei Apolinário da Conceição. Mas nem sempre os franciscanos cunharam “santinhos” em
opúsculos que tinham especificamente este objetivo, é o caso de nosso segundo acadêmico, frei
Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779).
Assim como frei Domingos, frei Jaboatão nasceu em Pernambuco. Tornou-se franciscano
aos vinte dois anos no convento de Paraguaçu. Em 1761, como cronista da província franciscana
de Santo Antônio, publicou Orbe Novo Seráfico Brasílico28. Nesta obra estão registradas a
origem e os fatos importantes da formação da província, como as missões franciscanas e a
construção de quatorze conventos. Sua narrativa é recheada de registros das vidas e obras de
franciscanos ilustres29. Diferente de Loreto Couto, frei Jaboatão se dedica exclusivamente à
narrativa sobre franciscanos dado o caráter de sua obra.
Ao tratar de frei Pedro de Palácios, Jaboatão declara que os que o conheciam o tratavam
por “Varão de Deus”, pois era “homem santo, e como tal, querido e venerado por aquele povo,
com muito singular e reverente estimação”30. Em seu jazigo ficou registrado: “Sepultura do Santo
Frei Pedro Palácios, natural de Rio Seco em Castela, fundador desta ermida, que assim na vida,
como depois da morte floresceu com milagres”. O cronista não entra em detalhes quanto aos
milagres a ele atribuídos, mas destaca o seu reconhecimento popular.
Entre os registros de frades célebres feitos por Jaboatão é possível notar que a santidade
estava, para o autor, mais vinculada às virtudes e a vida religiosa do que a ações milagrosas, o
que não implica em não lhes dar o devido valor.
E por isso, ainda que deste e de outros mais nos não deixaram referidas ações
portentosas, nem outros casos notáveis, porque estes ainda que mostrem no
sujeito que os obra a Santidade que tem, pode com tudo haver muita Santidade,
e muito grande, sem que obre milagre, ou prodígio algum o que é Santo e
27
MOTT, Luiz. Rosa Egipcíaca – Uma santa africana no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Bertrand do Brasil, 1993. p.
228.
28
O primeiro tomo de Novo Orbe Seráfico Brasílico foi publicado em 1761 enquanto o segundo saiu do prelo em
1764.
29
Cf. WILLEKE, Frei Venâncio. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, OFM. In: Revista de História. n.93. p. 4767; ____. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão. In: Franciscanos na História do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1977. p.
88-100.
30
JABOATÃO, Frei Antônio de Santa Maria. Novo Orbe Seráfico Brasílico, ou crônica dos frades menores da
província do Brasil. Volume I. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense de Maximiano Gomes Ribeiro. 1859. p. 44.
Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto: EDUFOP,
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virtuoso; por esta razão e justo fundamento nos resolvemos a escrever o pouco,
que deste e de outros Religiosos nos deixaram em memória os nossos Antigos,
ou por descuido seu, que é o mais certo e comum, ou porque bem podiam ser
muito Santos, ainda não obrando milagres31.
Mesmo assim quando trata dos eventos que cercaram a morte de frei Cosme e Damião,
Jaboatão não poupa o relato de fatos milagrosos atribuídos ao religioso. Mas toma precauções,
buscando legitimação “cientifica” para os fatos observados.
Nós os doutores da Medicina abaixo assinados, que atualmente curamos nesta
cidade, dizemos e damos fé, em como domingo, segundo dia do mês de
novembro de mil seiscentos e cinqüenta e nove, sendo chamados do governador
Geral deste Estado do Brasil, e nos mandou, que com diligência víssemos o
corpo do dito padre se tinha alguma corrupção, ou mau cheiro, o que logo
fizemos, estando já para o meter na sepultura, tocando-lhe narizes, boca,
orelhas, cabelos e os emunctórios do seu corpo, e não achamos sinal algum de
mau cheiro , ou corrupção, o que julgamos ser coisa mais que natural, em razão
de serem passadas vinte e sete horas que faleceu, e ser tempo de maior calor,
que há nesta terra, sendo acessório a este acidente, o que faziam as muitas
luzes, e grande tumulto de gente, de que sempre o corpo esteve cercado, e
principalmente a observância de vida regular, e exercício de virtudes, em que
vulgar e geralmente todos dizem que exercitou sessenta e três anos, que viveu
na religião. Em fé do que passamos a presente jurada aos Santos Evangelhos, e
assinadas de nossos sinais. Bahia. Julho de 1660. André Rodriguez. O Physico
mor, Francisco Vaz Cabral.
Jaboatão refere-se a um documento do século anterior, onde novamente notamos o topoi
do corpo vencedor, enaltecendo a observância regular e as virtudes. Outra vez surge a “opinião
do outro”. Uma opinião geral, “em que vulgar e geralmente todos dizem que exercitou”, e outra
que é a dos “especialistas”, ambas corroboram para reforçar o sentido de veracidade da narrativa.
Odores de santidade na escrita da história brasílica – locais de memória
Os modelos de santidade utilizados pelos “historiadores” analisados basicamente fizeram
uso de milagres e marcas corporais e privilegiaram ações e virtudes. Loreto Couto estendeu os
modelos a vários agentes, apontando uma possível singularidade da santidade na América
portuguesa – onde pardos, pretos e índios, dependendo da ocasião receberam a qualificação.
31
Ibidem. p. 104-105. Grifo nosso.
Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto: EDUFOP,
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As práticas de escrita da história atreladas a relatos de santidade desapareceram, seguindo
o constante dinamismo da máquina de gêneros32. Porém, os relatos de santidade são
constantemente reformulados em práticas específicas, como as folhinhas volantes distribuídas em
locais públicos. Elas buscam propagar relatos de vida dos que são chamados afetuosamente de
“santinhos” ou “bentinhos”. Seus cultos não são reconhecidos pelo catolicismo oficial, mas
fazem grande sucesso entre camadas populares. Em todo país, mesmo atualmente, se pode notar a
presença da devoção a “santos não oficiais”, como padre Donizetti e Nhá Chica em Minas Gerais,
padre Cícero no Ceará, escrava Anastácia no Rio de Janeiro e Antoninho Marmo em São Paulo.
Os mártires de Cunhaú, também citados por Loreto Couto, ganharam um dia para
comemoração, quando todos os anos no município de Canguaretama, Rio Grande do Norte, é
encenada uma peça teatral, atraindo centenas de espectadores33. Afastados da escrita histórica,
alguns modelos de santidade persistem34.
32
O dinamismo desta “máquina” é muito bem trabalhado em: PÉCORA, Alcir. Máquina de gêneros. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
33
Cf. OLIVEIRA, Luiz Antonio de. O teatro da memória e da história: alguns problemas de alteridade nas
representações do passado presentes no culto aos mártires de Cunhaú (RN). In: MNEME – Revista de humanidades,
v. 4 – n° 8 abr/set de 2003. p. 1-28. Disponível em http://www.seol.com.br/mneme/ed8/040.pdf. Acesso em 8 de
junho de 2007, às 14:53h.
34
Sobre persistências de alguns modelos de santidade, ver: PEIXOTO, Maria Cristina Leite. Santos da porta ao
lado: os caminhos da santidade contemporânea católica. Rio de Janeiro: UFRJ; PPGSA – Tese de Sociologia, 2006.
255 f.
Flávia Florentino Varella, Sérgio Ricardo da Mata & Valdei Lopes de Araujo (org.). Ouro Preto: EDUFOP,
2007.
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Jorge Victor de Araújo Souza e Sílvia Barbosa Guimarães Borges