Entre o Divino e o Profano:
Estratégias de Sobrevivência dos Artesãos da Maior Feira do Brasil
Autoria: Ari de Souza Soares, Alexandre de Pádua Carrieri, Thiago Duarte Pimentel,
Gusttavo Cesar Oliveira Lima
Resumo: Neste trabalho, busca-se explicitar e compreender a diversidade de estratégias
existentes, formadas e implementadas pelos artesãos da “Feira Hippie” de Belo Horizonte.
Para isso, utilizou-se como metodologia a técnica de Análise de Discurso (AD), a partir da
qual foram analisados um total de 98 documentos escritos (agrupados a partir de diversas
fontes como, jornais, revistas, informativos, jornais de circulação interna da Feira, artigos
acadêmicos, livros, etc.) e de 50 entrevistas de aprofundamento realizadas com os artesãos
mais antigos da Feira. O objetivo é, pois, ampliar o debate sobre estratégias, tomando-se por
base os aspectos ideológicos. Observou-se que, as estratégias se guiaram no sentido de,
primeiro, manter a proposta ideológica inicial dos artesãos; segundo, para sobreviverem e,
terceiro, para aumentarem seus ganhos econômicos.
1 Introdução
Nas linhas a seguir, apresentaremos as reflexões de um estudo realizado na Feira de
Arte, Artesanato e Produtores de Variedades da Avenida Afonso Pena, doravante denominada
“Feira Hippie”. O trabalho visava, dentre outras questões, discutir e compreender o processo
de formação estratégica presente na Feira, isto é, as práticas que foram e continuam a ser
implementadas pelos artesãos em nome da sobrevivência e da perpetuação dos negócios.
A “Feira Hippie”, nesse sentido, revelou-se como um ambiente fecundo na insurgência
das mais variadas formas de agir e pensar, dotada que é de uma diversidade humana e
produtiva, subsistindo nela, presenças que vão do pequeno artesão, de produção tipicamente
familiar, ao empresário, que coordena um grande número de pessoas trabalhando. Criada em
1969 por um grupo de pessoas que buscavam manter viva a cultura local através do
artesanato, a proposta inicial da Feira era genuína, e consistia numa forma de “ganhar a vida”,
alternativa ao caminho comum que era se tornar empregado em uma das tantas fábricas
existentes na época, naqueles dourados anos do capitalismo desenvolvimentista.
Ao longo dessas mais de três décadas de Feira, muitas mudanças ali ocorreram, como
a entrada do Poder Público na organização da Feira, o relaxamento dos critérios de admissão
para a entrada de expositores, a transferência do lugar onde originariamente funcionava – na
Praça da Liberdade – para onde hoje se encontra – Avenida Afonso Pena – o que implicou
numa mudança de identidade, conforme estudos de Pimentel et all (2005). A Feira, dessa
forma, deixou de ser apenas um espaço de exposição de produtos artesanais para se tornar em
um enorme “camelódromo” a céu aberto. As estratégias que iremos estudar compreendem,
sobretudo, as reações dos artesãos a essa mudança ocorrida.
Ser-nos-á através da história de vida dos fundadores da Feira, que procuraremos
investigar quais as estratégias têm sido construídas, primeiro, para manter a proposta
ideológica inicial, segundo, para sobreviverem e, terceiro, para aumentarem seus ganhos
econômicos. Para isso, entendemos que a melhor forma de se chegar à visão de mundo desses
expositores seria através da linguagem, visto ser esta, o veículo das ideologias (FIORIN,
2004). Utilizando, para isso, a técnica de Análise do Discurso (AD).
O trabalho está dividido em sete partes, incluindo a presente introdução. A seguir, em
“a ideologia nas estratégias”, discutiremos como, a cada estratégia, encontra-se latente uma
ideologia, que se compraz com a visão de mundo dominante, qual seja, atualmente, a
burguesa. Na terceira parte, denominada “percorrendo caminhos e trilhas”, discutiremos a
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metodologia empregada, os percalços, a técnica de análise, os estratagemas a que lançamos
mão para viabilizar o curso da pesquisa. A quarta parte foi poeticamente intitulada “no meio
do caminho...”, pois fala do surgimento da Feira Hippie, da nostalgia daqueles tempos, dos
problemas que sobrevieram com o estender dos anos, nas escolhas e nas renúncias. Na quinta
parte, temos o percurso semântico “estratégias de sobrevivências na Feira”, através do qual,
expomos por temas, as várias práticas que aos poucos foram eivando os ideais dos artesãos da
Feira. A sexta parte traz algumas “reflexões”, idéias finais sobre o trabalho. E, por último,
temos as “referências”.
2 A ideologia nas estratégias
Criar estratégias é algo tão natural e humano, que não nos assombra o fato de que
muitas delas, a despeito da vasta produção científica já realizada, ainda permaneçam
invisíveis à nossa compreensão. E não se trata de dizer que estejam elas deitadas ou inertes,
mas sim, que estamos nós a caminhar com os olhos voltados excessivamente para cima,
quando na verdade, a vasta natureza humana criadora de estratégias encontra-se ao mesmo
nível que nós.
Não se questionam aqui as estratégias de longo prazo das grandes corporações. O que
queremos pontuar é que, ante qualquer questão, as estratégias são produtos humanos, pois é a
mente, são os braços e as formas abstratas de organização já criadas por nós, que viabilizam a
ocorrência de toda e qualquer meta perseguida. Trata-se de trazer para o centro de gravitação
o agir humano, as intrincadas redes que se estabelecem para atingir o alvo.
Se continuarmos olhando para cima, admirando de longe o laborioso edifício
ostentado por todos, nada encontraremos senão um enorme véu de aparência. Pois, estes
edifícios nada mais são do que fórmulas estanques, modelos matemáticos adormecidos,
motores desligados, matéria bruta erigida. Para que tudo se mova e ganhe vida,
imprescindível é a presença humana. Para desvelar o mundo das estratégias é preciso, assim,
que primeiro tomemos consciência de que nada se move senão, quando movido por alguém.
Dito isso, oportuno é citar agora uma velha e atual frase pertinente ao que aqui se trata,
que primeiro foi anunciada pelo poeta John Donne, do século XVI, e, posteriormente, usada
pelo escritor Ernest Hemingway em seu romance “Por quem os sinos dobram”. Eles disseram:
“nenhum homem é uma ilha”. Isto porque, sendo antes de tudo um ser social, o homem
precisa do outro para dar testemunho da própria existência. Não vive isolado, e quando vive,
nada tem a nos dizer, pois não temos contato com este. Assim, a ação humana, na busca por
realizar algo, esbarra sempre na reação do próximo, que também está a agir sobre outrem.
Disso, resulta uma interminável fila de múltiplas influências.
Parecer-nos-á desnecessário e abstrato o que dissemos anteriormente, mas somente a
partir destas colocações é que faz sentido dizermos agora que, conforme já dito por Pettigrew
(1977), as estratégias humanas são sempre processos políticos, pois envolvem não apenas um,
mas muitos indefinidamente. É processo, pois percorre, segue curso, por caminhos e trilhas,
entre o ponto de partida (formação estratégica) e aquele de chegada (implementação).
Segundo Pettigrew (1977), estes processos de formação estratégica são contínuos,
apresentam-se como dilemas e interposições cotidianas que exigem uma ação. Neste pensar,
as estratégias envolvem indivíduos, grupos, ambientes, que ocorrem como fluxos de eventos e
valores, perpassados por um contexto temporal, cultural, organizacional, etc. É política
porque, conforme o autor, fundam-se nas relações humanas, atribuladas por ganhos
financeiros, oportunidades, vaidades, controle de tarefas, informações, status, e poder.
Mas queremos aqui ampliar esta noção dizendo que a estratégia é política, porque
subjacente a ela está uma ideologia, que tende a ser a ideologia dominante (atualmente a
ideologia burguesa), mas não necessariamente. Fato é que, quando não se dá através da
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ideologia dominante, a estratégia tende a fracassar, já que não se encontra em sintonia com os
demais que vivem e reproduzem aquela visão de mundo, sendo, portanto, marginal, pouca
eficácia ou nenhuma costumam a ter sobre estas pessoas.
A ideologia surgiu como uma “ciência das idéias”, formada a partir dos termos “idéia”
e “logos”, e foi, nesse sentido, a orientação de um movimento intelectual liderado por Antoine
de Tracy (1754 – 1833) durante a efervescente época da Revolução Francesa. Se inicialmente
ideologia era uma forma desinteressada de conhecimento, logo ela passaria a representar
aqueles que, sob a aparência de idéias elaboradas cientificamente, mascaravam interesses
políticos. Assim, sofrendo ainda mutações, tempos depois, Marx e Engels “ligaram o
condicionamento político das idéias à infra-estrutura econômica da sociedade, a fim de
denunciarem a ideologia com que a burguesia mascarava seus interesses de classe. Surgiu aí a
acepção da ideologia significando o mascaramento dos interesses da classe social dominante
por idéias formuladas, ora misticamente, ora racionalmente” (BARROS, 2002).
Para Jarzabkowski (2004), os processos de estratégia – as micro-práticas – podem ser
vistos como uma mistura de ação (animação) e direção (orientação), capazes de fornecer uma
compreensão da estratégia como prática e atividade do cotidiano. Assim sendo, o estudo
dessas práticas diárias tornaria possível compreender a interação entre os diversos atores que
compõem uma unidade organizacional.
Certeau (1994), ao esboçar sua teoria das práticas cotidianas, entende-as como do tipo
tático, deslocando a idéia de consumo passivo (uniforme) à de criação autônoma
(pluralidade). É nesse sentido, proposto pelo autor, que se tornará possível melhor captar a
“inventividade artesanal”. Essa capacidade de reapropriação inventiva, que não cai nas
lacunas do consumo passivo e uniforme, denominar-se-á uma “subversão pelos mais fracos”,
uma “liberdade gazeteira das práticas”. Logo, entendem-se essas “táticas”, “astúcias” ou
“práticas desviacionistas” dos consumidores como uma antidisciplina. E, sustentando todos
esses processos e fatos, está o homem comum. Isto é, aquele que compõe a multidão “cujo
destino comum consiste em ser ludibriada, frustrada, forçada ao trabalho cansativo, submetida
portanto à lei da mentira e ao tormento da morte” (CERTEAU, p. 61), e que, não podemos
esquecer, se faz, se mostra, e está permeada pela linguagem ordinária (everyday language).
Assim, as estratégias, sobre as bases de idéias em que se sustentam, carregam o signo
da conquista, através de seu principal instrumento que é a linguagem. A linguagem, nesse
sentido, é o poema que encanta ou a ordem do general que conclama seus exércitos a
marcharem para a morte. Ou seja, tem o poder de encantamento e de ordem. É, pois, a
principal matéria-prima na confecção de estratégias, visto ser com ela que se argumenta,
convence, persuade alguém a fazer algo.
Por vivermos imersos num contexto de ideologia burguesa, em que o modo de
produção é capitalista, as estratégias confeccionadas pelos indivíduos laboram a favor desse
sistema econômico, pois encontram respaldo naquilo que se difunde pela coletividade. Se o
capitalismo carrega consigo os germes da própria destruição é discussão que não travaremos
agora com Karl Marx. Mas que, de fato, o capitalismo trabalha no sentido de produzir
ideologias, leiam-se estratégias, que legitimem e fortaleçam sua primazia, é idéia na qual
acreditamos e nos apoiamos.
Do exposto acima, é preciso advertir o leitor que não pretendemos levar essa discussão
para o materialismo histórico, assunto amplo e que extravasa os propósitos deste trabalho e
das margens deste texto. Mas, é preciso pontuar uma questão: aceita-se aqui a possibilidade
de existência do materialismo histórico enquanto pensamento dominante e hegemônico,
embora cunhado pela ideologia dominante, mas, ressalta-se que este não representa a
totalidade dos fatos observados.
Isto porque existem focos onde o capitalismo está latente e de forma imperfeita, ou
mesmo, não penetrou, subsistindo assim grupos com formas alternativas de viver e, por isso
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mesmo, de fazer estratégias. De fato, estes nichos culturais buscam, mesmo estando inseridos
em um contexto maior de economia capitalista, formas alternativas de reproduzir socialmente
os bens necessários à sobrevivência, ainda que, sob o julgo das constantes investidas que o
meio, naturalmente, ambiciona homogeneizar.
Logo, em caráter exemplificativo, o indivíduo que opta por levar uma vida como
artesão, busca, nesse sentido, uma forma alternativa ao modus vivendi capitalista, não em sua
completude, mas nos aspectos ligados à forma de trabalho. Ressalta-se também que nos
referimos aqui àqueles que vivem em sociedade, embora existam artesãos isolados em
comunidades fechadas para o resto do mundo, todavia não sendo estes, nosso objeto de
estudo, mas deveras, aos que vão para a Avenida e, misturados a todos, buscam vender seus
produtos a fim de obterem o sustento.
Assim, este grupo de artesãos de uma Feira, por exemplo, que, ao invés da autovia das
possibilidades capitalistas, preferiram esgueirar-se por trilhas adjacentes, não se sabe em que
ponto ver-se-ao circunscritos (isto é, limitados pelo poder coercitivo do Estado e pela força
econômica de grupos de interesse). E, nessa situação, acabam sem outra saída senão
atravessar a autovia das práticas capitalistas, mesmo que isso se dê numa busca por manter a
salvaguarda dos próprios valores. Os problemas se instalam porque nessa tentativa, as armas
utilizadas, isto é, as estratégias, para terem eficácia, ironicamente, devem ser aquelas próprias
do sistema dominante. Mas, na implementação destas práticas em interação com os outros –
as estratégias – sendo próprias do sistema, trazem os indivíduos para dentro dele e, aos
poucos, modificando-os, vai embaçando a visão de mundo dantes cultivada, convertendo estes
agora em engrenagens, nas quais, em nome da sobrevivência, vêem-se atados os artesãos.
3 Percorrendo caminhos e trilhas
Este trabalho se estruturou a partir dos dados coletados na “Feira Hippie” de Belo
Horizonte, nosso objeto de estudo, pelo grupo de pesquisa NEOS (Núcleo de Estudos
Organizacionais e Simbolismo). Tínhamos à nossa frente uma feira que alcançava já seu 36º
ano vida, e esperávamos, nesse corte longitudinal feito, encontrar muitas questões a serem
discutidas, “dizeres” ainda não reconhecidos, o que de fato veio a se concretizar. Para isso, o
ponto de partida foi a linguagem, entrecortada que é pelo léxico, pela semântica, por aspectos
ideológicos e cognitivos, enfim, nossa matéria-prima aqui exposta.
Inicialmente, realizou-se uma ampla pesquisa documental na coleta de dados
secundários, perfazendo um total de 98 documentos escritos, agrupados a partir de diversas
fontes como, jornais, revistas, informativos, jornais de circulação interna da Feira, artigos
acadêmicos, livros, etc. Este procedimento inicial visava, sobretudo, conhecer a Feira em seus
aspectos gerais.
O recadastramento efetuado entre fevereiro e março de 2004, segundo a Gerência de
Feiras da Secretaria Regional de Assistência Social Centro-Sul de Belo Horizonte,
possibilitou a contagem de aproximadamente 2.800 expositores em todas as feiras
coordenadas pela Gerência Regional de Feiras desta administração regional. Desse total,
estima-se que cerca de 2.600 expositores atuem exclusivamente na feira da Avenida Afonso
Pena, número esse que representaria atualmente o universo de expositores da Feira Hippie, o
que permitiu estabelecer várias possibilidades de escolhas de informantes. Considerou-se
assim, por se tratar de uma pesquisa qualitativa, que uma escolha intencional e nãoprobabilística dos atores sociais envolvidos naquele contexto, a saber, cerca de 50 expositores
dentre os mais antigos da feira, propiciar-nos-ia um lócus de estudo mais rico (CARRIERI,
2005).
No procedimento de seleção daqueles a serem entrevistados, tendo por base o critério
de antiguidade, utilizamos os dados do cadastro geral da Gerência Regional de Feiras da
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Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, o qual possui a data de entrada dos expositores.
Foram privilegiados, nesse sentido, aqueles que tivessem mais de 18 anos de atuação na feira
e que, portanto, poderiam falar com maior propriedade sobre a história e as transformações
nela ocorridas. Não obstante, adotou-se também a escolha dos membros mais relevantes por
critérios de atuação na feira, isto é, as lideranças locais dentre os expositores.
Assim, a próxima etapa da pesquisa foi a construção de um roteiro de entrevista semiestruturado, com o objetivo de retratar em profundidade as transformações vividas pelos
produtores familiares ao longo dos anos. Semi-estruturado, pois permite introduzir o
pesquisador no universo cultural dos indivíduos, tendo ainda este, liberdade e flexibilidade
para abordar questões que fossem surgindo e se mostrando relevantes para a discussão. Em
profundidade porque, segundo Triviños (1987, p.146), é a entrevista “que parte de certos
questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que,
em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão
surgindo à medida que se recebem as respostas do informante”.
No tratamento dos dados, utilizamos como técnica a Análise do Discurso (AD) da
escola francesa. Uma das principais vantagens de sua utilização é a possibilidade de
interpretação não apenas do que é dito, explicitado, mas, sobretudo, trabalhar a ideologia que
está por trás das falas. Nesse sentido, conforme Fiorin (2004, p.32), “uma formação
ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social” e,
interligando o início de uma frase e seu ponto final, “essa visão de mundo não existe
desvinculada da linguagem”.
Esses discursos, coletados da viva mente dos atores sociais da Feira, possuem diversas
roupagens que, retiradas uma a uma para análise, propiciar-nos-á ultrapassar o nível da
aparência em direção ao estado da essência. Ou, melhor dizendo, aproximando-se ao máximo
deste. Isto se dá, sobretudo, pelo próprio combate intradiscurso, pelo apoio que ocorre nas
bases incoerentes de alguns enunciados, pela dialética, pelas contradições, etc. É preciso
ressaltar que, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Mesmo sendo focos de
resistência, as pessoas tendem a agir de acordo com esta forma já pré-moldada de pensar, que
no contexto atual, trata-se da visão de mundo burguesa.
A partir dos discursos produzidos pelos feirantes, construir-se-á, então, o percurso
semântico intitulado ‘Estratégias de sobrevivência dos artesãos da Feira Hippie’, no interior
do qual abordaremos aspectos como, a relação explícito versus implícito, a seleções lexicais, e
as personagens discursivas (FARIA E LINHARES, 1993).
4 “No meio do caminho...”.
A Feira Hippie, como popularmente é conhecida, surgiu na Praça da Liberdade em
1969. Nasceu em espaço nobre, tendo em seu entorno os edifícios da Administração Pública
e, no seu interior, belas fontes e jardins, divididos ao meio por uma alameda delineada de
Palmeiras Imperiais. A versão oficial, veiculada pela Prefeitura de Belo Horizonte, diz ter
sido a Feira uma obra de artistas e artesãos que, ao se reunirem, propuseram ao então prefeito
Souza Lima a regulamentação de um espaço no intuito de ali exporem e venderem seus
trabalhos artísticos. No entanto, uma corrente mais acadêmica, entende que a Feira se deve à
iniciativa de um grupo de intelectuais, críticos de arte da época e artistas plásticos. A idéia
desse grupo, basicamente, era “levar a arte ao povo”, como forma de incentivo ao
“desenvolvimento do gosto pela arte em geral, mais especificamente a arte mineira”.
Uma observação atenta deste acontecimento e da forma como é percebido e veiculado,
ainda que em sua fase embrionária, revelar-se-á dual, ambivalente, importante para o trabalho
que aqui ensejamos. De um lado, o discurso institucionalizado do Poder Público, tendo por
fins, a atividade econômica da Feira, na geração de divisas à Prefeitura, em razão do fluxo de
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turistas atraídos pelo evento. De outro, uma proposta de teor mais intelectual, menos objetiva
quanto aos resultados, vislumbrada como um ideal de cultura construída, reconhecida e
dissolvida no povo.
Às duas versões, acrescente-se o “elemento Hippie”, como forma de manifestação da
camada popular, isto é, aquela que não se encontra nos bancos universitários e, muito menos,
nos gabinetes de despacho do Executivo, antes sim, é vista na rua, nas praças da cidade. É
assim que, independentemente da denominação política ou intelectual, o evento ganhou na
“boca do povo” a denominação de “Feira Hippie”.
No Brasil, o movimento hippie, surgido em meados dos anos sessenta, apresentou-se
mais como um modismo do que como uma postura crítica e existencialista, ele mostrava-se
como uma contra-cultura à cultura e aos valores dominantes da época, aproximando-se de
temas como o comunismo, a igualdade (que eram questionados devido a Ditadura), etc.
Havia, assim, uma significação simbólica em consumir os produtos da Feira, pois estes
representavam o questionamento/rompimento com os padrões impostos pela cultura
dominante como, a industrialização da economia, a produção de bens de consumo em série, e
as normas e valores da sociedade que se tornavam "massificados" e "alienantes " (ALBANO
et al., 1984).
É sobre este tripé que se origina a Feira, muito informal e ocasional em seus primeiros
passos, onde não havia lona e nem barraca, mas sim, à sombra das árvores, produtos expostos
ao chão. A Feira Hippie tinha um efeito aproximativo daquele grupo que se identificava com
a atividade ‘laborativa’ de moldar à mão, em produtos, as idéias e os ideais, isto é, de mostrar
ao outro o trabalho novo feito durante a semana, de chamá-lo para uma prosa, de envolvê-lo
em outros assuntos, fossem políticos, culturais, sociais, etc.
O artesanato, como produto feito à mão, não se conforma com a padronização, pois
em cada obra as variantes lhe conjugam uma aura diferente, mesmo que mínima, traduzindose em singularidade. Não cai de moda, pois não faz parte dos modismos, é raiz e não folha,
humano é, e não mecânico se presta a ser. Tradicionalmente tem como sustentação a produção
de caráter familiar, possuindo o artesão, ao mesmo tempo, os meios de produção (a oficina, as
ferramentas, etc.) e a força de trabalho. Não se coaduna assim com a busca pela mais-valia.
A Prefeitura, em 1973, estabeleceu os primeiros parâmetros para selecionar os
expositores, através de uma regulamentação. Dentro desse novo sistema, passou a cadastrar os
novos expositores com rigor por meio de uma comissão técnico-consultiva, o que propiciou a
manutenção do caráter artesanal, e de um lento e controlado crescimento da Feira durante toda
a década de setenta. A pessoa que organiza e conduz a Feira nesse momento é Maris'stella
Tristão, que, segundo relatos dos artesão, possuía sensibilidade e conhecimento de arte, e
estava comprometida com os valores da Feira enquanto espaço de manifestação da cultura
mineira através do artesanato.
Uma década depois, no ano de 1983, a Feira Hippie iniciou um processo de
crescimento desordenado e de perda de qualidade dos produtos ali comercializados, o que se
deu pelo relaxamento dos critérios de admissão dos expositores. Logo, a amizade e o sentido
de família dos artesãos começaram a se diluir. O número de feirantes aumentou de 616
expositores em 1983 para 1317 em 1988, ocasionando transtorno e poluição, barulho e
sujeira. Ganhou-se força, assim, o processo de "feirização" da cidade, onde espaços públicos
eram vistos em última instância como meios de subsistência por parte de todos aqueles que se
encontravam em dificuldades financeiras. Assim, chega-se à situação dicotômica entre Feira–
produção cultural e Feira-centro de comercialização informal.
Para abrigar todo o contingente de novos feirantes, e devido a razões políticas e de
ordem social, a Feira Hippie é transferida para onde hoje se encontra, isto é, para a Avenida
Afonso Pena, entre as ruas da Bahia e Guajajaras, cuja realização ocorre aos domingos no
horário de 8 às 14 horas. A Feira tornou-se, assim, um camelódromo, dividido em setores
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como, de antiguidades, de comidas e bebidas típicas, de flores e plantas naturais, etc., como
disposto no decreto nº 7727, de 27 de outubro de 1993, assinado pelo então prefeito Patrus
Ananias.
5 O Percurso semântico “Estratégias de sobrevivência na Feira”
5.1 Tema-estratégia: “pulando a cerca”, ou, “no produção, yes comercialização”.
No trecho (01) a seguir, o entrevistado (ee19) destaca inicialmente o tema explícito da
“concorrência desleal”. Para nós, este é um tema-chave que insinua dois ângulos passíveis de
uma observação mais minuciosa. Primeiro, imaginando-se um círculo, o ângulo menor se
refere a um tipo específico de prática, qual seja, aquela que chamaremos de “pulando a cerca,
ou, no produção, yes comercialização”. Segundo, o ângulo maior, presta-se a ser uma síntese
que qualifica o conjunto das atividades gerais ali observadas.
A prática acima mencionada é aquela implementada pelo personagem explícito “os
caras”, e consiste basicamente em não fabricar o produto a ser vendido, mas, isto sim,
comprá-lo em outras localidades no intento de revendê-lo na Feira. Trata-se de uma estratégia,
pois, os produtos adquiridos nos espaços explicitados, isto é, “São Paulo” e “Limeira”, são de
baixa qualidade e fabricados pelo ritmo e nas condições de produção, em termos de custos,
atingidos pela indústria capitalista. “Concorrência desleal” nesse sentido, significa
concorrência injusta, porque a indústria opera em um ritmo e em ganhos de escala que o
simples artesão não alcança, e nem deveria se atrever a tal, porque são produtos distintos, ou,
como os economistas gostam de falar, não substituíveis.
A realidade nos mostra, no entanto, que isso não é verdade. Porém, para não causar
arrepios e já querendo incitá-los, dizemos aqui que os produtos não são substituíveis. O que
explica a situação da Feira atual é que ocorreu uma substituição cultural de consumo, de
produtos duráveis e, por isso mesmo, mais caros, para aqueles perecíveis e mais baratos.
No conjunto das atividades, ou, ângulo maior, “desleal” nos conduz à figura do traidor
e do infiel. Logo, faz-se mister esclarecer que, quem pratica essa concorrência não são apenas
“os caras” que entraram tardiamente na feira com propósitos já definidos a priori de revender
produtos industrializados, mas inclui também aqueles que já estando na Feira, não foram fiéis
ao seu labor de artesão, isto é, traíram a ideologia que molda o ofício do artesanato.
Importante observar que o entrevistado se põe fora dessas práticas, ele faz uma denúncia, uma
queixa. Concorrentes desleais são os outros, aqueles que, implícito pressuposto, não se
identificam com os valores tradicionais do artesanato, não fabricam, mas somente
comercializam.
A ideologia do artesão é perceptível no discurso pelas características citadas pelo
próprio entrevistado, quais sejam, o interesse pela “arte”, o trabalho em família, explicitado
em “eu e meus filhos”, a utilização da matéria prima, como se observa nos fragmentos “peças
totalmente artesanais”, “ferramenta manual”. Ou seja, ele defende estes valores como não
apenas importantes, mas essenciais, para o tipo de produto vendido na Feira, isto é, o produto
artesanal.
(01) Afeta, sempre afeta, porque vem a concorrência desleal e eu tenho uma
produção ali, eu faço por exemplo, 100 pares de brincos por semana. Estou falando
de arte. Eu e meus filhos, e as peças totalmente artesanais. Ferramenta manual
tudo... Agora os caras aí vai São Paulo, vai em Limeira e São Paulo, compra uma
tonelada de brinco. Na Feira lá que é quanto eu tenho que vender mesmo, e por ser
artesanal, é R$5,00 a R$8,00. E eles botam a R$2,00 a R$3.00 e as mulheres vão
muito em moda. (ee19)
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Abaixo temos os trechos (02) e (03), que corroboram o anterior, e ampliam os
fundamentos dessa estratégia. O personagem explícito “nego”, implícito subentendido,
remete-nos a um personagem – o atravessador – ou seja, aquele que está no meio da cadeia
produtiva, que compra e vende, mas não produz. Importa-nos aqui ressaltar que o espaço
explicitado como “25 de março”, implícito subentendido, refere-se à uma conhecida região de
comércio popular do Centro de São Paulo.
No trecho (03), explica-se a procedência de alguns dos produtos revendidos na Feira,
sendo que são baratos, porque são de qualidade comprometida, isto é, aqueles que “não
passam no controle de qualidade” das grandes empresas, abaixo exemplo explicitada como
“da San Marino”. Temos, assim, a utilização da Feira como lugar de escoamento de produtos
de baixa qualidade.
(02) ...a Feira já tinha o “nego” atravessando, o cara que ia lá em São Paulo, na 25
de Março, e comprava material pra vir revender aqui. (ee12)
(03) Os sapatos lá que não passavam no controle de qualidade da San Marino, eles
pegavam e levam pra a Feira. Então quer dizer estava super desorganizado. (ee21)
5.2 Tema-estratégia: “a gente cria e o pessoal copia” ou “macuco no embornal”.
No trecho (04), o entrevistado fala sobre uma de suas criações, batizada de “Vedete”, e
a designação não é exagerada, pois, para o artesão, a obra acabada que brotou de suas próprias
mãos é como a um filho que põe ao mundo, em analogia diga-se. Destaca-se a busca do
artesão pela singularidade, daí conferir nome próprio ao produto. Contrapondo-se a isso, ele
critica a atitude daqueles que copiam seu trabalho, explicitado na personagem “xeroqueiros”.
Os “xeroqueiros”, diga-se, são os outros artesãos, pois para copiar é preciso que se
tenha conhecimento para tal, não se enquadrando nessa categoria os simples atravessadores.
Os copiadores de trabalhos alheios são os artesãos que conhecem o ofício, mas desconhecem
a ideologia, pois é uma prática que não se coaduna com o que busca o verdadeiro artesão, já
que este molda em objetos a subjetividade interior, e não, volta-se para o exterior à procura de
moldes que possa oportunistamente se apropriar e reproduzir.
A ideologia do artesão prima pela originalidade, pela personificação do produto, pelo
respeito ao trabalho do outro, enfim, copiar é para o artesão “O mal”, pois retira deste o
direito criação.
(04) Igual uma época eu até botei o nome de Vedete. Foi massa esta época. Este
brinco me deu uma grana legal também. Eu fiz o brinco, criei e estava vendendo
bem para caramba. E o pessoal: “Você já fez a Vedete”. E foi de bobeira que eu fiz o
brinco. Vou ver se dá certo. E foi o meu caixa forte. E foi a época que eu ganhei
uma grana boa com ele. Mas só que os xeroqueiros compraram e copiaram a minha
peça. E aí você vende bem por um ou dois meses até o xeroqueiro não te achar. Eles
passam na banca da gente e ficam olhando para ver o que é que tem. Eles compram
a peça e copiam. O mal é este. A gente cria e o pessoal copia. (ee39)
5.3 Tema-estratégia: “o freguês tem sempre razão” ou “subjugando a livre produção
individual ao interesse externo”.
No trecho (05) surge o tema implícito da venda programada, isto é, aquela que se dá
antes da fabricação do produto, por encomenda. Vários aspectos nesse sentido são
importantes. Primeiro, o entrevistado se inclui como praticante dessa estratégia, o que está
explicito nos termos “da gente”. Segundo, esta prática fomenta justamente a existência de
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atravessadores, já que a fabricação via encomenda ocorre “em vista dos fabricantes de loja”,
ou seja, não se trata de uma fabricação destinada ao público final.
Paradoxalmente, o entrevistado entra em contradição quando diz “nós de casa é
diferente”. Ele se inclui através do pronome “nós”, como pertencente a um grupo à parte
dessas práticas, isto é, “diferente” dos outros que, implícito pressuposto, são iguais. Iguais não
apenas nas estratégias de venda, mas, na forma como laboram a matéria-prima, tendo em vista
as influências econômicas externas.
A influência externa é reflexo da sujeição do artesão ao gosto do freguês, mas não o
freguês que consome, mas aquele que comercializa. Não significa apenas um
comprometimento da qualidade dos produtos, mas, sobretudo, na quantidade. Abre-se aí uma
discussão sobre a freqüência, a velocidade do trabalho do artesão, pois, essa condição de prévenda insinua destacadas mudanças no labor deste.
Outro termo importante é o explícito “casa”, pois, liga-se à idéia de família, lar. Por
outro lado, este grupo que se identifica por ideais de família se diferencia “da Feira”.
Contraditório? Ora, aqui temos a Feira não mais como lugar dos artesãos, mas sim, lugar dos
anteriormente citados, atravessadores, copiadores e, aqui, aqueles que vendem antes de
fabricar. A Feira, nesse sentido, mudou de identidade, conforme já demonstrado em estudos
de Pimentel et all (2005).
(05) Sempre se está em vista dos fabricantes de loja. Eles compram da gente um
modelo. Eles têm modelador que pega e faz uns trinta modelos. Então, naqueles
trinta modelos que ele fez, eles fazem um par de cada um. Aí, vai para a loja. Dez
depois da venda, aí vai fazer aqueles dez. Eles não fabricam para vender. Nós de
casa é diferente, da Feira. Nós fabricamos para tentar vender. Ele fabrica vendido.
Ele vai fabricar, só pegar que está vendido. (ee15)
5.4 Tema-estratégia: “caminhando contra o vento” ou “padronizando-se à esteira de
produção”.
No trecho (06) abaixo, o entrevistado (ee23) sugere várias colocações que insinuam
estratégias que se conformam ao modo e processo de trabalho da indústria capitalista. O
primeiro fator a ser destacado, nesse sentido, é o trabalho. O trabalho do artesão, no discurso
do entrevistado, é “pouquinho”, porque o que lhe dita a velocidade é a mão, a criatividade, o
intervalo entre um trago e outro no cigarro de palha, ou seja, aquela coisa bem amansada dos
trópicos. O diminutivo sintético “pouquinho” frisa, sem extenuar pela força, como o trabalho
do artesão é cadenciado.
Na indústria, por outro lado, o “volume” não é apenas maior, mas sim, “muito maior”.
Volume aí se relaciona apenas indiretamente ao trabalho, pois a relação direta que se
estabelece é com a produção, o volume desta. Demonstra-se, assim, a distância conceptiva de
uma realidade à outra. Uma, tendo por base de mensuração o trabalho humano; a outra,
medida pela produção, ficando em segundo plano o trabalhador. Não se trata aqui de dizer o
óbvio que Karl Marx disse, mas antes, de entender que este movimento de pequenas
estratégias dos artesãos, significa um processo de submissão à lógica capitalista, que outrora
nos primórdios da Feira era o ponto crítico, a partir do qual idealizava-se uma outra forma de
ganhar a vida, resgatada de tempos ainda mais remotos, que era o ofício de artesão.
A estratégia do artesão é tão simplesmente esta: trabalhar mais, para produzir mais e,
assim, tentar acompanhar o ritmo da grande indústria. Mas, este ritmo não é alcançável, pois
não é puramente humano. Ou, dizendo de outra forma, é mais intensivo em capital do que em
mão-de-obra. E, como se não bastasse, como artesão que labora manualmente seus produtos,
este ainda se sente na vontade de produzir peças únicas, “uma peça diferente da outra”, como
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se explicita no referido trecho. Mas, estes traços se perdem pelo caminho, porque, o artesão
acaba se conformando que “tem que fazer em série”.
A lógica é que a produção tem que ser grande, pois os produtos são mais baratos. Mas,
os artesãos estão também sujeitos à outras implicações, que aqui se mostra como a cultura do
consumo de massa, a pregação ideológica da quantidade em detrimento da qualidade, etc. Daí,
a cultura atual dita que, para ser bom, para você “ter o seu trabalho bem visto”, isto é, bem
vendido, é preciso que o artesão tenha a “barraca lotada”. A ideologia da Feira é a da
quantidade, porque a indústria “tomou conta da Feira”.
(06) A sentido de trabalhar mais. Por que o artesão trabalhava pouquinho. E como o
volume da indústria é muito maior. Eles enche a barraca e lota. E aí ficamos na
obrigação de produzir mais e não ter uma peça diferente da outra. Você teve que
fazer mais e igual. Tipo assim, 100 colares um igual ao outro. E é isto, como te falo?
Criatividade você tem que ter para ir criando. Mas peças únicas, aquilo já não ficou
como peças únicas mais. Você tem que fazer em série. Muito. Porque se o pessoal
não vê a barraca lotada eles não param. Então não dá para você ter o seu trabalho
bem visto. A indústria que tomou conta da Feira. (ee23)
5.5 Tema-estratégia: “a metáfora de um mundo dividido” ou “cada macaco no seu
galho”.
No trecho (07), temos o tema do aumento de produtividade via divisão do trabalho,
bem como, a hierarquização da produção que, embora feita manualmente, nada tem de
artesanal. Em conformidade com o exposto no trecho (06), agora o artesão incorpora mais
uma invenção do modo de produção capitalista, que é a divisão do trabalho, isto é, a divisão
social do trabalho, pois é hierarquizada e compõe-se dos vários substratos da sociedade. O
primeiro traço revela-se pela expressão nominativa “chefe”, que implícito pressuposto, abre
espaço para a existência de subalternos. Não se trata, porém, de confundir este com o aprendiz
do artesão. O aprendiz de artesão, primeiro, aprende o ofício através de um contato direto com
o artesão e, segundo, espera futuramente poder vir a se tornar um. Nisso, ser um “chefe”
implica em situar-se na parte intermediária da pirâmide, mas de forma alguma implica em
autonomia futura.
Esse sistema pode se revelar eficaz no que consiste em gerar um excedente de
produção, diga-se, maquiado como artesanato, pois artesanato não é, mas, revelar-se-á
perverso pelas contradições próprias de como funciona. A contradição está no fato de que o
artesão opta por esta forma de ganhar a vida por razões, sobretudo, ideológicas. Ou seja, ele
não quer ser mais um operário chão de fábrica. Não obstante, o que se analisa no discurso é
que o artesão acaba estabelecendo no interior de seu ofício os mesmos parâmetros, alavancas
de sustentação, tão visíveis em qualquer empresa moderna. Nisso, termos como “chefe”,
“equipes”, “controla”, “demanda”, são indicadores de como até mesmo as nomenclaturas
foram apropriadas como insumos, pois é no discurso que tais práticas são legitimadas e
ganham a adesão das pessoas.
Importante ainda destacar a palavra “treino”, que se presta em analogia aos conhecidos
programas de trainee das grandes empresas capitalistas. Treino não é o mesmo que ensinar,
por isso, trainee não é o mesmo que aprendiz. Aquele, está mais para um tipo de trabalho
técnico, visando sobretudo resultados e desenvolvido no interior de uma corporação. Este, o
aprendiz, figura como um jovem menor de idade, que recebe os ensinamentos diretos do
artesão num lugar conhecido como ateliê.
(07) Eu faço o seguinte: a primeira peça sou sempre eu que faço. E aí eu procuro
uma pessoa e treino esta pessoa para ela ser o aprendiz do artesão e ela vira uma
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chefe de equipe. E aí ela começa a trabalhar em cima da peça piloto e então do ateliê
ela vai pegar o produto estampado e tingido e ela vai só bordar. E ela vai formando
as equipes. E as equipes só vão crescendo cada vez mais dependendo da minha
demanda. (...) Cada um já controla a sua equipe e já me dá o trabalho revisado. Eu
só tenho contato com os chefes das equipes. (ee15)
5.6 Tema-estratégia: “reduzindo-se para não ficar de fora” ou “querida, encolhi nossa
arte”.
A estratégia a seguir, obtida a partir do trecho (08), funda-se num processo de redução
de custos e de trabalho via diminuição dos objetos produzidos. Processo este que chamamos
aqui de miniaturização. Nisso, ao invés de produzir um grande quadro, de valor naturalmente
mais alto, a estratégia é produzir quadros menores, a preços baixos, uma vez, implícito
pressuposto, serem de venda mais fácil. Este resultado alcança-se através de um “sistema”,
como explicitado pelo entrevistado. O “sistema” seria, conforme uma das definições do
dicionário Aurélio, uma “técnica ou método empregado para um fim precípuo”. Coordenado,
instituído como meio de produção, tratam-se de etapas aonde, como numa esteira de produção
humana (pois é o entrevistado que se desloca).
O “esboço”, como bem explicita o entrevistado, é uma “aplicação técnica”, ou seja,
“não é um desenho”, implícito pressuposto, algo que não é técnico, mas sim, que está banhado
em subjetividade.
(08) Eu pinto 10 quadrinhos destes num dia. Mas tem um sistema para eu pintar
tudo. Primeiro eu esboço tudo. E tem um detalhe, não é um desenho. É um esboço.
O esboço é uma aplicação técnica. E a gente não desenha. E aí pega o pincel e vai
trabalhar. E aí você vai e joga a tinta. E o que é jogar a tinta. Você pega o pincel e
mancha o quadro, e o quadro fica assim, meio inacabado. E aí no outro dia você vai
e dá o retoque. Você tem que fazer isto. (ee24)
5.7 Tema-estratégia: “o fetiche da mercadoria” ou “Nos deram espelhos e vimos um
mundo doente”
No trecho (09) que se instala abaixo, a estratégia do entrevistado surge a partir da
decisão de baixar a qualidade dos produtos para com isso “chegar no nível do público”, isto é,
as condições econômicas do público. Esse descompasso nos mostra que houve uma mudança
cultural de consumo ao longo desses mais de 30 anos de Feira. Diante da situação, o expositor
pode justapor-se a ela de forma a aceitar estes ditames do mercado, ou, pode defender seu
artesanato mantendo o mesmo tipo de produto oferecido. Nisso, o entrevistado (ee42) admite
que ‘barateou’ o produto.
“Um produto mais sofisticado”, como explicitado no trecho, refere-se à um produto
mais moderno. Não se trata, porém, de mais moderno quanto ao designer, mas,
principalmente, quanto à sua atualidade em termos de satisfação e utilidade do consumidor,
nisso um produto aprimorado. “Sofisticado” aqui, recorrendo ao dicionário Aurélio, significa
“falsificado”, “contrafeito”, “adulterado”, isto é, “que não é natural”, ou seja, que é
“artificial”.
(09) Eu tentei popularizar mais o meu produto. Eu tentei baixar a qualidade do meu
produto para chegar no nível do público que anda por aí também. Então, hoje eu
tenho um produto mais barato também. E poderia ter um produto mais sofisticado,
mais legal, mas eu tentei perder um pouco da qualidade para ver se eu consigo viver
um pouco ainda ali [na Feira]. Porque hoje nós temos que fazer isto.” (ee42)
11
5.8 Tema-estratégia: "moda e você, tudo a ver?" ou “Maria vai com as outras”.
Na adesão dos artesãos à atualidade de mercado, como se observará nos trechos (10) e
(11), o tema implícito do modismo, se antes era um agravante, sua exploração mostra-se como
uma estratégia. No fragmento “eu acompanho o que o pessoal quer”, implícito subentendido,
o entrevistado está a falar que acompanha as telenovelas, os acessórios e as tendências
veiculadas por este tipo de programa. Nisso, explicitamente ele está a falar das telenovelas da
Rede Globo, muito populares no país.
Ao modismo, à cultura do efêmero ditada pelos meios de comunicação, o entrevistado
admite que “tudo o que passa na televisão o pessoal quer”. Não lhe resta outra opção, para
sobreviver na Feira, senão adequar-se ao gosto do freguês, uma vez que estes são “guiados
pela Globo”. Fato é que, uma vez já estando aderido a essa lógica de cultura de massa, pois
não revela os traços de cultura local, mas sim, globaliza os desejos de consumo, o artesão põese também na posição de guiado, embora o que ele faça seja uma crítica, a crítica revelada
fica apenas como um canto de lamúria e lamentação.
(10) Eu acompanho o que o pessoal quer, porque eu dependo do que o povo quer.
(...) Tem muita influência da Globo na história. (...) Tudo o que passa na televisão o
pessoal quer. Eles são guiados pela Globo. (ee38).
(11) E aí na década de 90 eu comecei a fazer mais a bijuteria fashion mesmo. (ee25)
5.9 Tema-estratégia: “jogo de cartas marcadas” ou “o conluio”
Nos trechos (12) e (13) temos a estratégia identificada a partir do tema implícito do
conluio. Basicamente, a estratégia consiste em fazer amizade, entrar em acordo com um dos
guias de ônibus turístico de sacoleiros (revendem os produtos em outras localidades do
interior de Minas Gerais ou em outros Estados da Federação). Feito isso, o guia direciona os
sacoleiros para a barraca do sujeito que o contatou, recebendo em troca uma “participação”
que pode ser um valor fixo por pessoa levada ou um percentual sobre o que elas comprarem.
Nesse sentido, os sacoleiros saem ganhando, pois “cria uma certa intimidade” com o dono da
barraca, angariando, dessa forma, descontos e outros tipos de benefícios. O expositor que se
utiliza desse tipo de estratégia também possui ganhos, já que o volume de compra dos
sacoleiros é grande, possibilitando bons ganhos, supõe-se.
O lado perverso dessa prática reflete-se na perda dos outros expositores que não
possuem conluios com guias e, também, para aqueles que freqüentam a Feira para compras
individuais e como forma de lazer. Isto ocorre porque, para os outros expositores, tais práticas
reduzem o volume potencial de compradores e, por conseguinte, de vendas. Para os
freqüentadores da Feira, a estratégia do conluio representam perdas no excedente do
consumidor, uma vez que os expositores elevam o preço dos produtos pensando justamente
nos descontos futuros que irão conferir aos sacoleiros.
Além dos ganhos financeiros propiciados, os sacoleiros possuem ainda o benefício de
otimizarem o tempo, já que são direcionadas unicamente para a barraca de interesse, ao invés
de terem elas mesmos que localizar, no universo de aproximadamente 3000 expositores, os
produtos a serem comprados e ‘ensacolados’. O ganho é o menor esforço, um cochilo no
ônibus, pois a maioria veio de muito longe, alguns de outros Estados, etc.
(12) A pessoa que o guia contatava chegava geralmente com um cartãozinho. E
muitas vezes o próprio guia leva o pessoal num grupo. Umas 10 pessoas de uma
vez. (ee43)
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(13) [...] cria uma certa intimidade porque ela vem constantemente. E tem que trazer
as pessoas que vem em excursão. E tem gente que vem com muito pouco tempo. E
aí você já sabe mais ou menos o que as pessoas que estão dentro vão querer. E ele já
direciona mais ou menos as pessoas. Tem um produto e sempre elas levam as
pessoas lá para comprar. E eles levam uma participação nisto. (ee28)
5.10 Tema-estratégia: “os oportunistas” ou “na calada da madrugada”.
No trecho (14) a seguir, introduz-se uma nova personagem – os “toreiros” – no rol das
tantas que desfilaram acima. São pessoas que trabalham na Feira da madrugada, que ocorre no
mesmo lugar, mas antes do início da Feira Hippie propriamente dita. Essa estratégia foi
identificada como oportunista, pois, dá-se pela percepção de alguns que, ao observarem que
os sacoleiros chegam em ônibus antes mesmo do início da Feira, ainda na calada da
madrugada, aqueles aproveitam-se de tais brechas e criam assim, um mercado, que não
diremos paralelo, mas sim, pré-concorrencial.
(14) Mas são os toreiros. O pessoal que não tem barraca. E então os sacoleiros
chegam de madrugada. E então aquele toureiro sabe que o sacoleiro chega de
madrugada e ele também chega de madrugada e trabalha aquilo ali de madrugada
até umas 6 e pouca ou 7 horas da manhã e aí começa a fiscalização da Feira. (ee10)
5.11 Tema-estratégia: “aluga-se” ou “vivendo de credenciais”.
Nos trechos (15) e (16), a estratégia agora se dá no sentido de tirar proveito do título
adquirido, isto é, a credencial que permite ao artesão expor na Feira. Isto, para o entrevistado
(ee01), significa “se prostituir mesmo”. A estratégia percorre um caminho evolutivo que
consiste em, primeiro, alugar a metade da barraca, e depois, alugá-la por inteiro. Há um sobrevalor alcançado nessas artimanhas, uma vez possuindo a Feira um grande fluxo de pessoas e
de publicidade, o espaço ali figura como muito valorizado para a venda de produtos. O
indivíduo o faz porque, ou a necessidade é imperiosa, pois precisa sobreviver, ou porque
ambiciona obter maiores ganhos. Num caminho ou noutro, sabe-se que “se ela não for
coerente (...) ela vai se prostituir na Feira com muita facilidade”.
Nisto, explicito é que tais práticas são proibidas pela Prefeitura, mas que os meios para
contornar as possíveis repreensões são muitas, como explicitado, “fulano saiu”, “ele foi ali
fazer um lanche”, “foi fazer um xixi”, enfim, “foi fazer alguma coisa”.
(15) Porque se ele for para lá ser apenas mais um vendedor daquelas bugigangas [...]
não vai ter como, ele vai ter que se prostituir mesmo, como aquilo lá que as pessoas
que fazem. Porque as pessoas começam a alugar barraca, começam [...] alugam
metade da barraca, tem gente que aluga barraca inteira [...] então, se a pessoa não
tiver [...] se ela não for coerente, muito coerente com a proposta dela de fazer um
trabalho e ser artesão e aquela coisa [...] ela vai se prostituir na Feira com muita
facilidade. (ee01)
(16) Tem barracas na Feira que são alugadas. O cara ele tem a credencial e ele aluga
a barraca dele. Aí a Prefeitura começou a fiscalizar, procurando [...] ela faz
chamadas. “Você já viu isso lá, né?” Aí na hora que ela ia fazer a chamadas, o cara
não estava lá e a barraca dele lá, né? O produto tá lá sendo vendido. “Ah! Fulano
saiu, ele foi ali fazer um lanche, foi fazer um xixi, foi fazer alguma coisa e não tá
aí.” Aí o cara não ia lá na Feira e não assinava a presença, não fazia nada. E a
Prefeitura punha lá que ele estava ausente. Aí um dia o cara ficava lá, esperava o
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fiscal passar e assinava, porque não pode ficar muito tempo sem assinar, porque
senão as pessoas poderiam até caçar, né? (ee03)
5.12 Tema-estratégia: “o ser mercantil” ou “um eu todo distorcido”.
No trecho (19) abaixo, como o último dessa série de trechos analisados, seguindo a
evolução das práticas estratégicas da Feira, temos o tema do indivíduo mercantil, isto é,
aquele que se tornou objeto de comércio, o que está explicitado no fragmento “ele se aluga
também”. Trata-se, pois, de uma estratégia que põe o homem no centro de toda a
problemática, utilizando-o como insumo e, assim, relegando a ele o lugar de ser apenas mais
um produto dentre tantos os outros expostos em sua barraca. Esta prática representa, assim, o
esvaziamento do indivíduo pela própria ideologia que ele reproduz. E ele o faz supostamente
sabendo, mas que, em verdade, dá-se sob aquilo que Karl Marx denomina de falsa
consciência, pois o entrevistado considera este como sendo um “negócio”, que embora seja
um “negócio sério”, isto é, de se preocupar, ainda assim, entra no mesmo rol, pois é definido
enquanto tal, das transações comuns, das trocas, etc.
Neste ponto, como bem nos apresentou Karl Marx, temos o homem rebaixado e
reduzido à condição de mercadorias. Esta condição, conforme Arendt (2004, p.176), “é
característica da situação do trabalho numa sociedade manufatureira, que julga os homens não
como pessoas, mas como produtores, segundo a qualidade de seus produtos”. Dessa forma,
conforme o fragmento, o praticante de tais estratégias “fica lá como se fosse o dono do
produto”, porque dono já não é. Em nome de um ganho “extra”, ironicamente ele regressou à
situação de empregado, ou seja, o sistema o trouxe de volta para dentro de sua grande
máquina.
(17) Agora mudou, esse negócio de aluguel de barraca está um negócio sério,
porque além do cara alugar a barraca, ele se aluga também, pra ele estar lá na
barraca, porque a Prefeitura também já percebeu isso, que há pessoas que alugam a
barraca. Então, se não acha o cara na barraca a Prefeitura consegue, com
dificuldade, comprovar que está acontecendo isso. É um problema sério, porque o
cara além de alugar a barraca, ele se aluga e fica lá como se fosse o dono do
produto, então, ele fica até vendendo pro cara, pra quem alugou e deve até ganhar do
cara um extra porque tá lá vendendo. (ee07)
6 Considerações
O estudo que se apresentou nas linhas pretéritas, como exposto, teve por objetivo
ampliar o debate na área de estratégia. Para tanto, fomos aos poucos conduzindo nossa análise
no sentido de interpretar as estratégias como parte indissociável das ideologias em que os
indivíduos se vêem imersos. Ideologia, reafirma-se aqui, da classe dominante, ou, classe
burguesa. De forma que, cada micro-prática fomentada representavam, no microcosmo de
nosso objeto de estudo – A Feira Hippie –, uma estratégia maior e própria do sistema
capitalista.
A aparência nos diz que existe uma enorme distância das estratégias feitas por artesãos
quando comparadas àquelas implementadas pelos técnicos e especialistas das grandes
corporações. Nisso não há dúvida. Na aparência elas são mesmo diferentes. E não é preciso
grandes esforços para se perceber isso. Afinal, uma se dá nas ruas, a outra ocorre dentro de
escritórios. Uma movimenta pequenas quantias monetárias, a outra, gera montantes de
riqueza, às vezes maiores até que o PIB de alguns países. Uma se dá olho a olho, a outra,
através de ofícios e memorandos. Uma restringe-se a um pequeno número de pessoas, a outra,
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desce das alturas por uma longa pirâmide hierarquizada de funções e deveres. A aparência são
essas coisas.
Contudo, a aparência mais cega do que desvela a grande questão que está em jogo, que
são temas humanos como, o trabalho, o lazer, o tempo, os espaços, o sentimento de fracasso e
sucesso, enfim, a vida humana em sociedade. A vida humana em sociedade nos diz que, na
essência, as estratégias são jogos políticos do dia a dia, e que possuem uma direção: fomentar
a ideologia dominante.
As estratégias, quando se dão nessa direção, são mais propícias ao sucesso, porque são
partes de um todo construído, justamente, a partir delas. Quando ocorrem em sentido
contrário, tendem a fracassar, a não ser que se limitem a interagir com indivíduos que
possuam a mesma visão de mundo, diga-se, diferente da dominante. A ideologia dominante,
nesse sentido, tem o poder de esmagar qualquer estratégia que não seja a seu favor, porque
detém o poder sobre o monopólio da força de coerção – o Estado.
Ora, para fazer estratégias de sucesso, pensar-se-ia então que bastassem que estas
tivessem na direção correta, certo? A resposta é sim e não.
Sim, porque as práticas capitalistas das empresas – pequenas, grandes, ou de fundo de
quintal –, possuem, naturalmente o seu teor ideológico já plasmado, mas invisível ao nível da
aparência. Têm aceitabilidade, como já dissemos acima.
Não, porque as estratégias do sistema per se são conflitantes. Não ao que se refere a
elas na aparência, isto é, o escritório, a geração de riqueza, os ofícios, o organograma
organizacional, etc. Tudo isso possui uma boa concatenação ideológica. Mas, relembremos
aqui, que não funciona se não houver, por trás, a mão do homem. Pois pra nós, diferentemente
de Adam Smith, não existe mão invisível. Alguns, então, logo objetariam que a mão invisível
pode muito bem ser a ideologia dominante, uma outra forma de se enxergar a economia de
mercado. Se fosse assim, estaríamos dizendo que a ideologia é maior, em absoluto, que o
indivíduo uno. Mas isso não é verdade, pois se fosse, seria algo intrínseco ao homem, o que
não acontece, haja vista que ele a adquire ao longo da vida, de forma que, pelas próprias
contradições do sistema, ele tende a questioná-la, possuindo dentro de si o poder de superá-la.
Se não o faz é por um motivo pessoal, prefere reproduzir e tirar proveito daquilo que já o
favorece, do que empreender esforços internos gigantescos a fim de chegar à essência dos
fatos, tendo para isso que ir contra uma forma de pensamento dominante, que vai dos
familiares aos desconhecidos. Ele geralmente não se atreve porque dois dos maiores
sentimentos humanos universais o freiam: a preguiça e o medo.
Voltando. As estratégias na aparência não competem entre si, pois são coisas inertes.
Mas, o que há por traz delas vive em constante competição, os seres humanos. Primeiro, para
suprir as necessidades básicas de sobrevivência, depois, para aliviar as necessidades criadas.
As necessidades básicas o meio físico ainda oferece condições para suprir a todos, mas, para
aquelas criadas, não existem limites, assim como não existem limites para o pensamento
humano. Estas necessidades criadas, contudo, para se realizarem, impedem que a todos seja
possível alcançar as necessidades básicas, o que se percebe, facilmente, pela enorme
desigualdade social que há no mundo.
Isto significa dizer que os homens ‘brigam’ entre si através de estratégias e, por isso
mesmo, não bastam que elas sejam orientadas segundo a ideologia dominante, mas que
possam vencer as estratégias do outro. Vencerá aquele que professar melhor a ideologia
dominante, pois, reproduzindo-a sobre o outro, fará deste um dominado, podendo assim, o
vencedor aliviar-se da culpa por meio das necessidades criadas.
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Estratégias de Sobrevivência dos Artesãos da Maior Feira