Leandro Carvalho de Almeida Gouveia e Josevaldo da Silva do Lago: organizadores SABERES MULTIDISCIPLINARES VOL 2. Ângela Damasceno Claudia Fardin Danilo Uzêda da Cruz Heliete Rosa Bento Hélio Ponce Laumar Neves de Souza Leandro Carvalho de Almeida Gouveia Leila Lima de Oliveira Luiz Carlos dos Santos Maira Antunes Rodrigues Ricardo Luciano Silva Pereira de Souza Nilzete Teixeira Santiago Temistocles Damasceno Silva Rafael Messias Teixeira Raiane Pires Silva Salvador - Bahia 2014 Leandro Carvalho de Almeida Gouveia e Josevaldo da Silva do Lago (Organizadores) SABERES MULTIDISCIPLINARES Vol. 2 Salvador – Bahia 2014 Leandro Carvalho de Almeida Gouveia e Josevaldo da Silva do Lago (Organizadores) Ângela Damasceno Claudia Fardin Charlene dos Santos Costa Christiana Carla Neves de Barros Danilo Uzêda da Cruz Heliete Rosa Bento Hélio Ponce Cunha Jerisnaldo Matos Lopes Laumar Neves de Souza Leandro Carvalho de Almeida Gouveia Leila Lima de Oliveira Maira Antunes Rodrigues Michele Sampaio da Silva Ricardo Luciano Silva Pereira de Souza Nilzete Teixeira Santiago Temistocles Damasceno Silva Rafael Messias Teixeira Raiane Pires Silva SABERES MULTIDISCIPLINARES VOL. 2 Salvador – Bahia 2014 Todos os direitos autorais deste material são de propriedade dos autores. Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. O conteúdo de cada artigo é de inteira responsabilidade do(s) autor(es). Livro aprovado pelo Conselho Editorial da Revista Acadêmico Mundo (ISSN 2318-1494). Revisão de Originais e Revisão de Provas Leandro Carvalho de Almeida Gouveia Capa Josevaldo da Silva do Lago (Revista Acadêmico Mundo) Editoração Eletrônica Josevaldo da Silva do Lago (site. http://www.academicomundo.com.br/revista.html) Impressão e Acabamentos Editora JM Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP). Catalogação na Fonte . GOUVEIA, Leandro Carvalho de Almeida. LAGO, Josevaldo da Silva do. (Org.) G719 Saberes multidisciplinares V.2. Leandro Carvalho de Almeida Gouveia; Josevaldo da Silva do Lago. Salvador: JM Grafica, 2014. 226p. 1.Turismo - Brasil 2. Desenvolvimento territorial 3. Plano diretor 4. Função docente 5. Projeto Solazer I. Leandro Carvalho de Almeida Gouveia II. Josevaldo da Silva do Lago. III. Título CDD: 338.760 JM GÁFICA E EDITORA LTDA. CNPJ: 00.149.796/0001-49 Rua Vital Rego, 13, Barbalho, Salvador, Bahia, CEP 40301-090 e-mail: [email protected] Impresso no Brasil em fevereiro de 2014 pela JM Editora CNPJ: 00.149.796/0001-49 e-mail: [email protected] Tiragem: exemplares SUMÁRIO APRESENTAÇÃO A PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE URBANO, QUANDO DA DEFINIÇÃO DO PLANO DIRETOR DA CIDADE Heliete Rosa Bento 10 13 DIFICULDADES NA FORMAÇÃO DO PEDAGOGO CONTEMPORÂNEO DA EAD Leila Lima de Oliveira 30 EXPANSÃO DO AGRONEGÓCIO E O MERCADO DE TRABALHO NA REGIÃO INTEGRADA DE DESENVOLVIMENTO ECONOMICO POLO PETROLINA-JUAZEIRO NOS ANOS 2000 Ricardo Luciano Silva Pereira de Souza Laumar Neves de Souza 48 TURISMO E TERRITÓRIO Leandro Carvalho de Almeida Gouveia 72 AS ESPECIFICIDADES DA FUNÇAO DOCENTE NAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR Nilzete Teixeira Santiago 83 ESTOQUE DE EMPREGO NO SETOR PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA E SUA RELAÇÃO COM A DESPESA DE PESSOAL Luiz Carlos dos Santos 99 POLÍTICAS PÚBLICAS DE LAZER IMPLEMENTADAS NO MUNICÍPIO DE JEQUIÉ/BA: UMA REFLEXÃO SOBRE O PROJETO SOLAZER Temistocles Damasceno Silva Maira Antunes Rodrigues Raiane Pires Silva Rafael Messias Teixeira 135 ESTADO E POLÍTICA PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL: RECORTES DE UM ESTUDO Danilo Uzêda da Cruz PLANEJAMENTO REGIONAL NO BRASIL – UM BREVE RELATO HISTÓRICO Claudia Fardin ABORDAGEM QUANTITATIVA X ABORDAGEM QUALITATIVA: UMA ANÁLISE SOBRE AS POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS. 145 162 Hélio Ponce Cunha 179 CONVOCAÇÃO DE VONTADES COMUNITÁRIAS E OS PROCESSOS DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL Ângela Damasceno 194 ORÇAMENTO PÚBLICO NO ESTADO DA BAHIA. CAMINHO PARA UMA ECONOMIA FORTALECIDA? Jerisnaldo Matos Lopes 202 A LEITURA COMO PROTAGONISMO SOCIAL NA PENITENCIÁRIA FEMININA DE CARIACICA - READING AS SOCIAL LEADERSHIP IN PRISON FOR WOMEN CARIACICA Christiana Carla Neves de Barros Charlene dos Santos Costa Michele Sampaio da Silva 220 APRESENTAÇÃO O Volume II da coletânea Saberes Multidisciplinares apresenta o trabalho de 13 pesquisadores, em diferentes áreas do conhecimento. Heliete Bento analisa o papel do município na proteção do meio ambiente urbano, tendo em vista o desafio de conciliar os interesses sociais com os interesses econômicos, partindo-se da premissa de que a conduta da administração pública mostra-se ambígua, pois se por um lado pretende ser o principal garantidor de um meio ambiente equilibrado e harmônico, por outro incorre, as vezes, na pratica de crimes ambientais. Leila Lima de Oliveira aborda o avanço da tecnologia, os meios de comunicação e informação tem fornecido grande contribuição na formação dos indivíduos. Esta formação pode ser ainda mais complexa no momento em que optam-se por cursos cujo principal recurso didático são tecnológicos. A partir de um estudo de caso e mediante uma abordagem qualitativa exploratória, o presente artigo pretende analisar e identificar as competências e habilidades básicas desenvolvidas para a formação profissional e humana e os respectivos impactos desses efeitos na inserção no mercado de trabalho dos egressos da IES “X” (EAD). Ricardo Luciano e Laumar Neves, tem como objeto de investigação o mercado de trabalho formal no agronegócio desenvolvido na Região Integrada de Desenvolvimento Econômico - Pólo Petrolina/Juazeiro. Esta Ride, que é composta por oito municípios (Lagoa Grande-PE, Orocó-PE, Petrolina-PE, Casa Nova-BA, CuraçáBA, Juazeiro-BA e Sobradinho-BA) tem em Juazeiro e Petrolina suas forças motrizes. Esses dois municípios foram elencados como pontos luminosos de desenvolvimento do Nordeste. Leandro Gouveia pretende refletir acerca do Estado e do Território. A abordagem econômica e ambiental tem como base a ideia de que o turismo tenha um desenvolvimento de uma maneira muito semelhante aos padrões históricos e da dependência econômica. Por meio dessa visão, a indústria é tão fortemente governada por determinantes políticos e econômicos que pouca atenção é direcionada aos outros aspectos. Nilzete Santiago analisa as funções docentes nas Instituições Privadas de Ensino Superior e as suas especificidades. Foi embasado em pesquisa teórica e se propôs a discutir aspectos do Direito Educacional, mais notadamente as atividades docentes. No estudo, se busca analisar esse processo educacional à luz da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, Lei nº 9.394/96, trazendo os conceitos e principais características de um dos principais interlocutores no processo educacional, que é o Professor. Luiz dos Santos teve por objetivo fornecer uma visão global da situação do estoque de emprego formal no setor público do estado da Bahia e a distribuição dos servidores nos Territórios de identidade, compreendendo o período 2000 a 2009 e, simultaneamente, estabelecer relação da despesa anual desse pessoal com a Receita Líquida Corrente (RLC), levando-se em conta o limite prudencial preconizado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Temistocles Silva, Maira Rodrigues, Raiane Silva, Rafael Teixeira, realizaram uma pesquisa documental sobre as políticas públicas de lazer implementadas pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer do Município de Jequié/BA, tomando-se como referência empírica as ações do Projeto Solazer, no período de 2009 à 2012. Nesta perspectiva, concluiram que os projetos de lazer implementados no município de Jequié/BA, devem ter como principal objetivo uma gestão participativa, garantindo a participação da comunidade no processo de planejamento, execução e avaliação das ações. Danilo Uzêda busca apresentar resultados provisórios de pesquisa que investiga a Política Pública de desenvolvimento territorial na Bahia/Brasil e como o enfoque Territorial possibilita a ampliação da esfera democrático-participativa, numa nova significação do conceito de políticas públicas e de desenvolvimento regional, e a repactuação do jogo democrático com a sociedade civil e movimentos sociais organizados. Estratégia que diz respeito a equação capital-trabalho-natureza. Claudia Fardin apresenta um breve histórico do desenvolvimento do planejamento regional no Brasil, com suas principais concepções, obedecendo o processo histórico pelo qual o País percorreu durante o período que se estende da década de 30 até os dias atuais. Para tal, partiu-se do entendimento de que todo planejamento, para atingir a eficácia proposta, deva ser proposto com base em um território específico, que se delimita sobre a região (podendo ser esta mesmo, macro ou microrregião), com suas particularidades, seu desenvolvimento histórico e cultural, sua formação econômica, política e social. Hélio Ponce teve por objetivo proporcionar um estudo teórico e epistemológico sobre as abordagens quantitativas e qualitativas de pesquisa, principalmente no âmbito das ciências sociais aplicadas. Em sua construção foi feita uma análise sobre a pesquisa qualitativa, apresentando seus métodos, técnicas de coleta de informações e procedimentos de análise. Em seguida, é feita uma discussão sobre os métodos quantitativos e o papel da estatística e da teoria da probabilidade em sua construção. Também é apresentada uma discussão final sobre a aplicação dos métodos quantitativos e qualitativos nas ciências sociais. Ângela Damasceno apresenta uma breve reflexão sobre os processos de participação social praticados no Brasil, destacando conceitos básicos como: democracia, representação, cooperação, entre outros, sem deixar de considerar que toda a participação social preconiza a garantia de pilares essenciais, como: acesso à informação, tempo para construção de consensos e recursos financeiros para viabilidade de encontros não manipuláveis por seus patrocinadores. Jerisvaldo Lopes busca constante em entender como o dinheiro público é investido, tornou-se um desafio, pelo fato de que há uma previsão na Lei Orçamentária sobre o que, o quanto, e como esta previsto para investimentos, e na realidade acontece outra coisa na execução orçamentaria, tornando uma grande falácia o Orçamento Público Estadual. Tratamos aqui dos conceitos de orçamento público, sua origem, e as Leis que as fundamentam. É relatado sobre a fonte da economia baiana, a falta de equidade na distribuição de investimentos nos municípios, os instrumentos de planejamento do orçamento público, princípios orçamentários, o PPA - Plano Plurianual da Bahia 2012 – 2015, a LOA - Leia Orçamentária Anua da Bahia - Orçamentos dos anos de 2011, 2012, 2013, 2014, e por fim falamos sobre os gastos público do Estado da Bahia. 13 A PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE URBANO, QUANDO DA DEFINIÇÃO DO PLANO DIRETOR DA CIDADE Heliete Rosa Bento 1 RESUMO Este artigo tem como escopo analisar o papel do município, na efetiva proteção do meio ambiente urbano, enquanto direito fundamental do ser humano, tendo em vista o desafio de conciliar os interesses sociais e econômicos; partindo-se da premissa de que a sua conduta mostra-se, por vezes, ambígua, pois, se por um lado pretende ser o principal garantidor de um meio ambiente equilibrado e harmônico; por outro, torna-se, inúmeras vezes, o principal agente causador de dano ambiental, quando da elaboração do plano diretor da cidade, tendo em vista o crime contra o ordenamento urbano, previsto na Lei de Crimes Ambientais. . PALAVRAS-CHAVE: Bem jurídico-penal. Plano diretor das cidades. Crimes contra o ordenamento urbano. 1. INTRODUÇÃO A preocupação mundial com os rumos do planeta terra, para com esta e as futuras gerações, obriga todos os segmentos do conhecimento científico a reservar espaços nas suas produções, para discussões e sugestões com vistas a melhor equacionar a utilização dos recursos naturais. Assim, a ameaça ao meio ambiente passa a ser considerada ameaça à vida. O Brasil, além de ter a maior floresta tropical do planeta, abriga uma incomensurável biodiversidade na fauna e na flora, é o centro da atenção internacional, no que se refere à conservação do meio ambiente. Maior preocupação com as questões ambientais é exigência nacional, destarte, em 1988, foi promulgada a Constituição Federal que estabeleceu suas diretrizes pautadas nos direitos humanos de terceira geração, estabelecendo uma nova relação entre o homem e a natureza, impondo ao Estado e à sociedade o dever de proteger o meio ambiente, com a predominância do interesse coletivo sobre o individual, articulando uma nova postura da sociedade, para com o 1 Advogada. Administradora. Doutora em Engenharia de Produção (UFSC). 14 meio ambiente, o que determinou um novo enfoque dos problemas existentes e uma adequação da ordem jurídica para as suas soluções. Dentre as inovações, a Constituição Federal modificou radicalmente a posição do poder público municipal, quando o insere na estrutura federativa brasileira e o responsabiliza diretamente pela definição da politica urbana, com vistas à proteção ambiental. Este artigo visa analisar o papel do município na efetiva proteção do meio ambiente urbano, tendo em vista o desafio de conciliar os interesses sociais e econômicos; partindo-se da premissa de que a sua conduta mostra-se, por vezes, ambígua, pois, se por um lado pretende ser o principal garantidor de um meio ambiente equilibrado e harmônico; por outro, torna-se, inúmeras vezes, o principal agente causador de dano ambiental, quando da definição do plano diretor das cidades, que, para atender a interesses individuais, afasta-se da razão de ser, ou seja, criar cidades sustentáveis. 2. O PAPEL DO ESTADO NA PROTEÇÃO BEM JURÍDICO PENAL O brocardo latino “ubi societas, ibi ius”, há muito, assevera que, onde existe sociedade, há de existir o direito, e que o direito não faz sentido sem sociedade. Se por um lado as forças sociais criam o direito; por outro é o direito que cria e regula a própria sociedade. Assim, a coexistência harmônica no meio social é obtida pelo ordenamento jurídico, pela ética e pela moral. Entretanto, são as normas jurídicas que ocupam posição privilegiada, visto serem intersubjetivas e não terem sua atuação circunscrita ao âmbito pessoal, como ocorre com a ética e a moral. É o ordenamento jurídico o responsável por traçar os limites de conduta de cada indivíduo, impondo e garantindo a observância de seus preceitos por meio de sua força coercitiva. Assim, aqueles atos praticados pelos membros da sociedade, que contrariem as normas jurídicas vigentes, serão considerados ilícitos. Dessa forma, os ilícitos jurídicos são aqueles atos que ameaçam ou colocam em perigo os valores e interesses sociais, eleitos como relevantes e protegidos pelo Direito, que é justamente aquele denominado de bem jurídico. Então, pode-se definir bem jurídico como sendo qualquer coisa material ou imaterial que possui valor, e sendo relevante socialmente, possa ser disputada por interesses individuais e, portanto, tutelada pelo direito. 15 Apesar da formação harmônica e integrada do ordenamento jurídico, ele está dividido de acordo com a natureza das relações sociais, que serão tuteladas pelo direito. No que se refere ao direito penal, essa tutela se faz ainda mais premente, por sua própria natureza de subsidiariedade, já que sua proteção só deve destinar-se aos bens jurídicos de maior relevância. Ainda que passem pelo poder discricionário do legislador, esses bens estão dentre aqueles direitos e liberdades mais importantes para a sociedade, razão pela qual merecem que a sua violação seja tipificada em lei como ilícito e recebam a correspondente sanção penal. Na consideração dos bens jurídicos mais importantes, destacam-se àqueles relacionados aos direitos humanos e à dignidade da pessoa humana. A Constituição Federal de 1988 inaugurou um novo modelo de Estado, onde os interesses coletivos devem ter prioridade sobre os interesses individuais. Prado (1992) afirma que são os valores presentes na Constituição que definem os bens considerados jurídicos, tendo como parâmetro seu caráter limitativo da tutela a ela imposta. [...] O fundamento primeiro da ilicitude material deita, pois, suas raízes no texto maior. Só assim a noção de bem jurídico pode desempenhar uma função verdadeiramente restritiva. A conceituação material de bens jurídico implica o reconhecimento de que o legislador eleva à categoria de bem jurídico o que já na realidade social se mostra como valor. [...] (PRADO, 1992, p.59). Dessa maneira, o direito, de per si, tem como característica regular a sua própria criação. Para Kelsen (1974), a ordem jurídica não é um sistema de normas ordenadas no mesmo plano, mas é uma construção escalonada de diferentes níveis de normas jurídicas, ou seja, o que determina a condição de validade da norma inferior é a validade da norma que lhe é superior. Destarte, todo o ordenamento jurídico vincula-se e subordina-se aos ditames constitucionais. Até o advento da Constituição Federal de 1988, o direito pátrio dividia os bens em privados e públicos, quando então se inseriu uma outra categoria de bem no ordenamento jurídico, o difuso um bem de uso comum do povo, de natureza social, de titularidade indeterminada, de domínio verdadeiramente público, pertencente a toda a população, e não à União, ao Estado ou ao Município e que se sobrepõe a todo e qualquer direito privado individual. 16 3. A PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO BEM JURÍDICO AMBIENTAL Nas constituições anteriores à de 1988, não houve uma preocupação específica e global com a proteção do meio ambiente. Constata-se que naquelas constituições a expressão meio ambiente jamais foi empregada, revelando despreocupação com o espaço em que se vive (MILARÉ, 2001). A partir da Constituição Federal de 1988, a proteção do meio ambiente ganhou identidade própria, sendo definidos os fundamentos da proteção ambiental, o que se reflete em diversos dispositivos. No entanto, coube ao seu artigo 225 detalhar o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, tratando-o como um bem essencial à qualidade de vida, indispensável a dignidade humana, e atribuindo ao poder público e à coletividade a sua proteção. A vontade do legislador constituinte em relação à defesa do meio ambiente está marcada em todo o texto constitucional, ao longo de vários outros artigos. A inserção do direito ao meio ambiente no capítulo da ordem social lhe confere dimensão de direitos sociais, que, para Silva (2001, p.53): “são direitos que cumprem uma função social. Por isso, ao Estado cabe vincular ações à disposição de meios materiais instrumentais capazes de operacionalizá-los em prestação positiva”. A Constituição Federal não definiu meio ambiente, o que já havia sido feito na Lei de Política Nacional do Meio Ambiente, Lei 6.938/81, no seu artigo 3º, I, como sendo “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. Assim, puderam os doutrinadores firmar seu entendimento sobre a matéria. Definido o que é considerado meio ambiente coube a Constituição Federal de 1988 determinar a sua proteção. Leite (2007) destaca que ela ao cuidar do meio ambiente não segue um único padrão normativo, visto que ora o legislador utiliza-se da técnica do estabelecimento de direito e dever genéricos (ex. a primeira parte do artigo 225, caput, ora faz uso da instituição de deveres especiais (ex. todo o artigo 225, § 1º.). Em alguns casos, tais enunciados são colocados como princípios específicos e explícitos (ex. os princípios da função ecológica da propriedade rural e do poluidor-pagador, previstos, respectivamente, nos artigos 186, II, e 225, §§ 2º e 3º), noutros, como instrumentos de execução (ex., a previsão do Estudo Prévio de Impacto Ambiental ou da ação civil pública). O legislador constituinte, na esteira de detalhamento protege, especificamente, 17 certos biomas de grande valor ecológico (ex.Mata Atlântica, o Pantanal, a Floresta Amazônica, a Serra do Mar e a Zona Costeira). Ainda, no artigo 225 da Constituição Federal, constata-se que o município detém um poder-dever abrangente em atividades destinadas à proteção do meio ambiente. Isto porque impõe ao poder público o dever de proteger o meio ambiente, fazendo cumprir a legislação ambiental e executando políticas ambientais protetivas. A Constituição Federal, apesar de deixar aos municípios a definição da política urbana local, determinou os seus objetivos gerais, assumindo uma postura firme, priorizando o bem-estar dos habitantes, na forma do seu artigo 182. Coube à legislação infraconstitucional federal estabelecer as diretrizes para o ordenamento urbano e a definição dos objetivos específicos a serem cumpridos pela propriedade urbana e pela cidade, na efetivação da sua função social e ambiental. A amplitude dessa nova relação jurídica ambiental reforça a constatação de que os comportamentos humanos lesivos ao ambiente produzem alta lesividade social. Enquanto, bem jurídico relevante, de especial transcendência, o legislador constituinte adota, ainda, no artigo 225, § 3º, o recurso às mais contundentes das medidas de proteção, que é a tutela penal, a qual determina que as condutas e atividades, consideradas lesivas ao meio ambiente, quer sejam praticadas por pessoas físicas ou jurídicas, sujeitarão os infratores as sanções penais, administrativas e civis. Entretanto, de nada servirá o direito penal se previamente não existe uma programação por parte da administração pública de todas as atividades que podem supor um perigo para o meio ambiente. São as normas não penais, as diretrizes, os planejamentos que devem assumir o papel primário, através de uma política preventiva de proteção ao meio ambiente. Pouco resultado trará a sanção penal, se o meio ambiente já estiver sido destruído irremediavelmente, e o grande desafio que encontra o gestor público é justamente conciliar os interesses econômicos individuais com os interesses coletivos sociais e assim o legislador constituinte determinou que os municípios determinassem politicas publicas preventivas. Aprovada em 2001, a Lei 10.257, denominada Estatuto da Cidade, veio regulamentar o artigo 182 da Carta Magna, estabelecendo as diretrizes gerais de proteção ao ordenamento urbano e ao patrimônio cultural. Cumpre destacar que, no artigo 2º do Estatuto das Cidades, foram estabelecidas as diretrizes à propriedade urbana, visando coibir usos incorretos do solo e a degradação ambiental. Assim, é o Estatuto da Cidade que instrumentaliza o poder público para elaboração das normas locais, com vistas a 18 impedir o desrespeito às determinações constitucionais, quanto à preservação do meio ambiente, determinando que a política urbana seja traçada pelo plano diretor da cidade, após ampla discussão com todos os segmentos da sociedade. Entretanto, no dia a dia, o que se constata é que apesar do reconhecimento de um Direito Constitucional Ambiental com status de novo direito subjetivo público, as dificuldades em aliar os interesses econômicos com a preservação dos recursos naturais ainda persistem. 4. CONSTITUIÇÃO FEDERAL E A POLÍTICA URBANA O município, erigido à condição de ente federativo, conforme expresso, em dois momentos, no texto constitucional, no artigo 1º, que declara ser a República Federativa do Brasil formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal e no artigo 18, quando define a estrutura e a organização político-administrativa da Brasil, que compreende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, todos autônomos nos termos da Constituição Federal, possui o dever de contribuir para a preservação do meio ambiente, podendo, inclusive, legislar, sobre a temática, desde que haja interesse local, bem como agir de forma preventiva, estabelecendo no plano diretor da cidade, conforme determinado no § 1º, do artigo 182 da Constituição Federal, as normas de preservação do meio ambiente, em todas as suas nuances. Apesar da ação do município, no que tange à proteção urbanística ambiental, limitarse ao seu território, materialmente estende-se a tudo quanto possa afetar seus habitantes e, particularmente, a população urbana. Neste sentido, sua atuação deve promover a proteção de seus aspectos fundamentais, ou seja, controle da poluição em todos os níveis, preservação dos recursos naturais, restauração dos elementos destruídos, planejamento, ordenação e ocupação do solo urbano e proteção do patrimônio histórico e cultural. Portanto, os municípios assumem o papel de principal responsável pela implantação da política urbana, tendo em vista que dispõem, atualmente, de mais recursos, de maior autonomia político-administrativa e de mecanismos de democratização para definirem prioridades e enfrentarem os problemas e carências, resultantes de um processo histórico gerador de desigualdades, consequentes da intensa urbanização das últimas décadas. 19 Em razão desses fatores, novas formas de gestão foram criadas, as quais ampliam a perspectiva de participação da sociedade, a partir de modalidades alternativas de intervenção pública, dentre elas destacam-se as audiências públicas, numa tentativa de envolver a sociedade nos debates por uma vida mais digna. Para obter o êxito de qualquer política proposta, é preciso que haja, além da disponibilidade de recursos financeiros e instrumentos institucionais, a participação direta e efetiva de todos os segmentos da sociedade, o que, no entanto, dificilmente ocorre, dadas as características da maioria da população, que ainda está limitada a preocupação com as suas necessidades básicas de sobrevivência, relegando a um segundo plano os interesses coeltivos. A inovação trazida pelo texto constitucional de 1988, abordando em um de seus capítulos especificamente a questão da política urbana, representou um avanço significativo, já que contém um conjunto de princípios, responsabilidades e obrigações do poder público e de instrumentos jurídicos e urbanísticos para serem aplicados e respeitados, os quais visam reverter o quadro de degradação ambiental e das desigualdades sociais nas cidades. O município passou a ter uma maior capacidade política e econômica para promover as políticas públicas de sua responsabilidade com a cooperação do Estado e da União, direcionadas à saúde, educação, cultura, moradia, saneamento, transporte, assistência social e meio ambiente. A maior proximidade desses entes da federação com a população assegura condições mais propícias para o conhecimento e o atendimento das necessidades sociais do local. A questão está na garantia dos recursos e das condições para o cumprimento dessas novas responsabilidades, que passa, necessariamente, pelo interesse da própria população em participar, o que está diretamente relacionado com o nível educacional. O componente mais relevante desta descentralização está justamente na competência para planejar a gestão da cidade de forma democrática, com participação popular, que deveria ser efetiva, em todos os momentos. As várias etapas desse processo, como a elaboração das leis orgânicas e dos planos diretores, deveriam possibilitar, devido à participação de diversos setores da sociedade com visões heterogêneas e conflitantes, novas ideias e concepções sobre as funções e o papel do município e as formas de solucionar seus problemas, na definição das prioridades, na destinação de recursos e na implementação das políticas públicas locais. 20 O problema consiste em conciliar os interesses econômicos com a preservação do meio ambiente urbano, já que, ao autorizar a ocupação do solo em áreas que deveriam ser protegidas, legitima-se o que deveria ser considerado dano ambiental, na forma do artigo 64 da Lei de Crimes Ambientais. Diante dos muitos desafios, na convivência harmônica da sociedade e da proteção dos bens jurídicos relevantes, cabe ao Estado adotar o último dos remédios legais que é a tutela penal, criminalizando condutas que, por ação ou omissão, ameacem o meio ambiente natural, ou seja, ameacem a vida. Cumpre destacar que, para que um bem seja objeto da tutela penal, não basta que seja reconhecido como jurídico, mas deve, principalmente, ser elevado à categoria de interesse social relevante. 5. LEI DOS CRIMES AMBIENTAIS E A PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE Por se tratar de um direito, que possui uma natureza econômica, o Direito Ambiental modificou as decisões políticas em relação aos direitos coletivos e, ainda, os conceitos de desenvolvimento econômico e social, determinando, assim, todas as formas de atuação do Estado no que concerne à tutela penal do meio ambiente. Perseguindo a tendência mundial no trato das questões relativas às normas de punição, a Lei de Crimes Ambientais priorizou a reparação de eventuais danos causados a partir da prática de condutas tipificadas. A garantia constitucional da reserva legal, inserida no Brasil como cláusula pétrea da Constituição Federal, no art. 5.º, inciso XXXIX e que abre o nosso Código Penal, "não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal", é reforçada pela teoria da tipicidade, que torna ainda maior a garantia individual. Assim, não basta a lei prévia, é também indispensável que a descrição do tipo penal seja precisa em seus limites, de forma a permitir ao cidadão ter clara ciência da conduta que se quer proibir sob a ameaça da pena. Tanto a legislação constitucional, quanto a infraconstitucional recepcionou a responsabilidade objetiva pelos danos ambientais, ou seja, aquela que, independente de culpa, cabe à reparação objetiva do dano ambiental causado; conforme, a titulo de exemplos: art. 225, § 3º da CF, art. 14, § 1º da Lei 6.938/81, art. 927, § único do Código Civil, artigos 27, 28 I, 20, 17, 9º da Lei 9.605/98 de Crimes Ambientais. 21 A razão de ser da Lei de Crimes Ambientais é manter o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado, entendido como a manutenção das propriedades do solo, do ar e da água, assim como a fauna a flora e as condições ambientais de desenvolvimento dessas espécies. Sendo uma das suas vantagens, a consolidação de diversos textos legais, que se encontravam esparsos. Cumpre destacar, no entanto, que, na definição dos crimes ambientais, o legislador optou por diversas normas penais em branco, pendentes de complementação por leis, regulamentos, atos administrativos e por diversos conceitos imprecisos, tais como: espécie rara, ato de abuso, recursos alternativos, especial preservação, destruição significativa, dentre outras. Embora a maior parte dos crimes ambientais, nela previstos, se configurem por meio de ação, também aparecem formas omissivas. Outro importante aspecto se refere ao fato da lei não restringir a imputabilidade criminal tão somente ao responsável direto pelo dano, tendo ela estendido seu alcance a todos aqueles que, sabendo da conduta criminosa de outrem, deixar de impedir sua prática quando podia agir para evitá-la. Embora o macro bem protegido seja uno - o meio ambiente, o legislador dividiu a lei em diversos micro bens específicos: a) Fauna (seção I); b) Flora (seção II); c) Ordenamento Urbano e Patrimônio Cultural (seção IV); e d) Administração Ambiental (seção V). Interessa, neste artigo, estudar a tipicidade do delito previsto no artigo 64 da Lei de Crimes ambientais que trata dos delitos contra o ordenamento urbano. Constantino (2002, p.214) diz que, por ordenamento urbano “entende-se a boa ordem que deve haver na relação entre o homem e o desenvolvimento racional das cidades, bem como a conservação de aspectos relevantes dos agrupamentos citadinos, respeitadas as regras do urbanismo.” Ao tratar dos crimes contra o ordenamento urbano, a Lei de Crimes Ambientais inova no artigo 64, já que a construção irregular constituía apenas infração administrativa, passível de embargo ou demolição, apesar de4 que, em caso de omissão do Poder Executivo, o Judiciário podia ser chamado a intervir através de ação civil pública, proposta para tal fim. Atualmente, sem prejuízo da atuação da autoridade administrativa ambiental, ou mesmo da reparação de ilícito civil, o fato é que o infrator pode responder pelo crime praticado, na forma da Lei sob comento. Freitas (2000) assevera que a inovação veio em boa hora, já que, principalmente, os grandes centros cresceram sem uma planificação mais séria, com reduzidas áreas 22 verdes. As cidades litorâneas recebem, em alguns casos, grandes edifícios sem a necessária estrutura. Cidades serranas veem condomínios em total desacordo com o local, onde tudo é feito em nome do progresso e com o inconfessado objetivo do lucro a qualquer custo. Apesar do artigo 64 da Lei de Crimes Ambientais definir como bem jurídico-penal a ordenação do território, com ênfase conferida ao patrimônio cultural, observa-se que o núcleo do tipo constitui “promover construção", que tanto pode ser a edificação, a reforma, o aterro, a pintura e outros trabalhos, em solo não edificável, ou seja, terreno onde é proibido qualquer tipo de construção ou nas suas proximidades. Sirvinskas (2004) entende que a conduta punível é o ato de promover construção em solo não edificável ou no seu entorno, onde existe bem protegido. A conduta descrita é sempre decorrente de comportamento comissivo e trata-se de um delito instantâneo. O crime previsto neste artigo é material e, para a sua caracterização, exige-se que a ofensa seja perpetrada contra o ordenamento urbano e/ou o patrimônio cultural. A proteção material dá-se ao solo não edificável e o seu entorno. O solo em que se situam os locais de interesse especial não pode receber construções, bem como em seu entorno, ou seja, “o espaço físico necessário à harmonização entre o local protegido e a área que o circunda” (FREITAS, 2000, p.207). Apesar da proteção positivada na Lei ambiental, o questionamento sobre a sua efetividade, especialmente no que se refere à proteção das cidades, na definição do seu ordenamento urbano, passa pela análise sucinta do conflito/dilema do Poder Público, no exercício de seu papel. Inobstante a condição de principal garantidor de um meio ambiente equilibrado e harmônico, por inúmeras vezes, torna-se o principal destruidor do ecossistema, quando da definição do plano diretor da cidade, autorizando ocupação do solo, em áreas que deveriam ser protegidas. 6. O PLANO DIRETOR E A PROTEÇÃO DA CIDADE A obrigatoriedade de elaboração ou revisão do plano diretor implica um processo coletivo de planejamento participativo, identificando com clareza os requisitos da função social da propriedade urbana, definindo os instrumentos mais importantes a serem implantados para o bom uso do solo e dos recursos naturais do território municipal. 23 Para Meirelles (2006), plano diretor é o complexo de normas legais e diretrizes técnicas para o desenvolvimento global e constante do Município, sob os aspectos físico, social, econômico e administrativo almejado pela sociedade local. Assim, temos que, embora o plano diretor seja um documento técnico, o seu conteúdo passa necessariamente por decisões políticas. Dispõe o artigo 30, inciso VIII, da Constituição Federal (Brasil 1988), que compete aos municípios “promover, no que couber, adequado ordenamento territorial, mediante planejamento e controle do uso, do parcelamento e da ocupação do solo urbano”. Assim, o planejamento urbano, mais especificamente o plano diretor, é atribuição da municipalidade, incluindo o poder publico e a participação da sociedade, a fim de evitar que o processo de urbanização aconteça de forma desordenada, respeitando o ecossistema e promovendo a qualidade de vida da população. Como pretende corrigir distorções e indicar rumos no desenvolvimento, o plano diretor pressupõe um estudo das potencialidades e deficiências do município, em que serão avaliadas as dimensões territorial, econômica, social e ambiental do município. Daí a relevância de um diagnóstico bem elaborado que orientará a expansão urbana. O plano diretor não é somente um documento técnico, distante dos conflitos reais que caracterizam a cidade. Ele deve ser um espaço de debate dos cidadãos e de definição de opções, conscientes e negociadas, por uma estratégia de intervenção no território, de forma a disciplinar quais as áreas que terão potencial de construção, para a proteção do meio ambiente e para que a propriedade cumpra a sua função social. Entende Cretella Jr. ( 1993. p. 54) que: A propriedade privada urbana predial cumpre, por inteiro, sua função social, quando adequadamente utilizada. O solo urbano cumpre sua função social sempre que tenha aproveitamento racional e adequado. Quem reside, em prédio próprio ou locado, está fazendo com que a propriedade cumpra sua função social. Prédio próprio, vazio, assim conservado para efeitos de especulação imobiliária, está afastado de sua função social, que é a de abrigar pessoas. 24 A subordinação do direito de propriedade a sua função alterou o exercício de inúmeros direitos na esfera privada, e o legislador constituinte delegou ao plano diretor da cidade a responsabilidade de definir o que seria a função social da propriedade. Para a efetivação das diretrizes gerais da política urbana, quais sejam, função social da propriedade, planejamento do desenvolvimento das cidades, a proteção do meio ambiente, entre outras, é imprescindível a elaboração do plano diretor com ampla discussão pela sociedade envolvida, pois, em tese, cabe ao individuo escolher o que é melhor para que tenha uma vida digna. É através do plano diretor que são definidas as necessidades de solos para fins de edificações, para ruas e espaços verdes, e a primeira etapa para a sua elaboração passa, necessariamente, pela identificação da situação do município no que se refere ao espaço territorial, mediante utilização de mapas que identifiquem na sua totalidade todas as variáveis geográficas, levando-se em consideração a legislação que regulamenta a utilização do solo. A Lei 6.938/81 que institui a Política Nacional do Meio Ambiente confere ao Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) a competência para estabelecer normas e critérios de licenciamento, fiscalização e monitoramento ambiental visando à manutenção e melhoria da qualidade do meio ambiente. Quando da elaboração do plano diretor, o gestor público não tem discricionariedade para incluir em área de ocupação, aquelas determinadas como áreas de proteção ambiental (APP), as reservas legais (RL), Zonas de Proteção Ambiental (ZPAs), as unidades de conservação (UC), dentre outras. A legislação é imperativa ao determinar que essas áreas legalmente protegidas de uso comum não são alienáveis, não são passíveis de usucapião ou qualquer outro negócio, já que não pertencem ao proprietário privado ou ao gestor publico, mas sim, como bem de interesse difuso, pertence a toda a sociedade. Sabe-se que o uso inadequado dos bens privados, ou a alienação dos bens públicos de interesse difuso, constantes dos planos de loteamento, contraria a legislação, e o poder público tem o poder/dever de impedir que áreas legalmente protegidas – APP, RL, UC etc., ou mesmo aquelas ainda não protegidas legalmente, mas que são significativas para uma melhor qualidade de vida, sejam ocupadas indevidamente, sob pena de aplicação das responsabilizações administrativas, civis e penais descritas na Lei de Crimes Ambientais, verbis: 25 [...] Art. 3º- As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente, [...] nos casos em que a infração seja cometida por decisão do seu representante legal [...], no interesse ou benefício da sua entidade. § único. A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, co-autoras ou partícipes do mesmo fato (BRASIL, 1995) O que ocorre é que as pessoas com competência para definir as áreas de proteção são as mesmas pessoas que definem o plano diretor das cidades. Assim, o que ontem era crime pode deixar de ser amanhã, tudo vai depender dos interesses envolvidos, já que a própria legislação vigente possibilita alternativas, que legalizam o que até então não era permitido. A Lei de Crimes Ambientais tem sua área de ação, na esfera repressiva, enquanto a Lei de Parcelamento do Solo Urbano atua na esfera preventiva, estabelecendo os requisitos urbanísticos de loteamento, fundamentados na melhoria da qualidade de vida. De pouco adianta a punição pelo dano ambiental se o que se busca é a preservação do espaço territorial. Machado (2012) destaca que a sociedade de consumo difunde a ideia da economia do bem-estar, que implica fazer prosperar a produção e a venda de mercadorias, como estratégia de crescimento do comércio e da indústria, a qualquer preço, sem preocupação com as externalidades. A Constituição ao atribuir, ao poder público municipal, que está mais próximo do povo, a competência para a definição do ordenamento urbano, o fez para que os valores essenciais da vida fossem preservados, daí a exigência da participação popular, na premissa de que, com a presença da população, o plano diretor apresentaria soluções mais equitativas e benéficas para todos. No entanto, o que se tem são planos diretores, que regra geral, priorizam o desenvolvimento meramente econômico, sem considerar as gerações futuras, o que tem provocado a contínua intervenção do Ministério Público e do poder judiciário. 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS Na verdade, a intervenção do direito em matéria ambiental, principalmente na esfera penal, seria desnecessária se a sociedade, na sua totalidade, fosse capaz de entender que 26 qualquer espécie de vida neste planeta depende do meio ambiente natural, portanto, também de sua sustentabilidade. A forma desregrada com que o homem ainda vem tratando a natureza fatalmente conduzirá ao caos ambiental, se medidas severas e restritivas não forem adotadas em prol do preservacionismo, o que depende de efetiva fiscalização. Quando se trata de crimes contra o meio ambiente, de pouco adianta ter leis que procurem educar, pois os danos, são irreversíveis. Os gestores públicos estão sujeitos ao controle do judiciário, não apenas na qualidade de agente poluidor, mas também quando se omitem à proteção do meio ambiente, obrigação que lhe é atribuída constitucionalmente, pelo poder/dever de agir de forma preventiva, principalmente, o que aumenta significativamente a responsabilidade. A qualidade do planejamento ambiental (natural, artificial e cultural) depende da adesão de todos os atores sociais aos seus propósitos, já que a Lei de Crimes Ambientais é somente mais uma ferramenta para orientar a formulação de políticas públicas urbanas, de forma a possibilitar uma melhor articulação entre as questões relativas à tutela ambiental e as questões pertinentes à formulação de um plano diretor, que contemple, necessariamente, os paradigmas da sustentabilidade. A tutela penal prevista no artigo 64 da Lei de Crimes Ambientais resulta de pouca efetividade se não forem respeitados os critérios de alteridade exigidos para a vida em sociedade. A repressão torna-se ineficaz se não houver uma ação preventiva na formulação do plano diretor da cidade. O meio ambiente só será preservado quando a humanidade internalizar a ideia de que somos partes de um todo e que, para que possamos sobreviver, é indispensável romper definitivamente com a ideia antropocentrista de que o ser humano é superior às plantas, aos animais ou minerais. Todos, na natureza, dependemos uns dos outros, para sobrevivermos. Hodiernamente, não é mais concebível uma visão parcializada quando da elaboração de políticas públicas urbanas. A Lei de Crimes Ambientais, também chamada Lei da Vida, Lei da Natureza, surgiu com a pretensão de ter a estatura do Código de Defesa do Consumidor, do Estatuto da Criança e do Adolescente, mas o que se vê na prática é que a mesma não é de conhecimento nem mesmo daqueles que, por dever de ofício, teriam a obrigação de conhecê-la. 27 O controle pelo Poder Judiciário resulta, em inúmeros casos, em mero adiamento de ações que desrespeitam o ordenamento jurídico, ou então em medidas paliativas, que não deixam de causar dano ao meio ambiente. Sempre em nome do desenvolvimento econômico, em decisões que fogem da esfera jurídica e se tornam políticas. A própria legislação mostra a alternativas para causar dano ao meio ambiente; assim no valor final de alguns empreendimentos relacionados à ocupação do solo, já estão inclusos os custos para desrespeitar as regras de proteção ambiental. Reitera-se, portanto que não é suficiente a legislação, se a própria lei que planeja a proteção, no caso o plano diretor, não respeita outras leis que tratam da questão ambiental. Entende-se que somente com a melhoria do nível educacional, com a conscientização individual, ter-se-á uma sociedade melhor e como consequência a predominância do interesse coletivo. REFERÊNCIAS BARBIERI, Edison. Desenvolver ou preservar o ambiente. São Paulo: Cidade Nova, 1996. (Coleção Pensar Mundo Unido) BASTOS, Celso Ribeiro. Comentários à Constituição do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. São Paulo: Saraiva, 1990. BRASIL. Constituição Federal (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Ed. ampl. atual. São Paulo: Saraiva, 2004. ______. Constituição Federal. Coletânea de legislação de direito ambiental. São Paulo: Saraiva, 2014. ______. Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981. 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A partir de um estudo de caso e mediante uma abordagem qualitativa exploratória, o presente artigo pretende analisar e identificar as competências e habilidades básicas desenvolvidas para a formação profissional e humana e os respectivos impactos desses efeitos na inserção no mercado de trabalho dos egressos da IES “X” (EAD). O estudo identificou algumas competências e habilidades desenvolvidas pelo curso de Pedagogia na modalidade a distância, ao mesmo tempo em que verificou a ausência de outras na formação dos egressos. O estudo demonstrou ainda que a maioria dos egressos foi absorvida pelo mercado de trabalho. No entanto, conclui-se que apesar desse impacto favorável, observou-se por parte dos egressos algum desconforto quanto ao mercado profissional em virtude da incompatibilidade entre as mudanças sociais e tecnológicas vivenciadas pela sociedade e o tipo de formação que os mesmos receberam na IES “X” (EAD). PALAVRAS-CHAVE: Competências e Habilidades. Formação profissional docente. Ensino a distância. Curso de Pedagogia. INTRODUÇÃO O advento da tecnologia proporcionou um grande crescimento ao País nos diversos ramos. A educação é uma delas, pois a tecnologia pode proporcionar melhores mecanismos de aprendizagem. Surge, assim, a educação a distância (EAD), cuja principal perspectiva é de democratizar o ensino e proporcionar melhores oportunidades de desenvolvimento aos indivíduos que ainda não tiveram chance de ingressar no nível superior. A atual conjuntura social e o momento tecnológico em que se vive levam-nos a questionar como os profissionais da Pedagogia estão sendo preparados no ensino EAD principalmente, para atuarem no mercado de trabalho e lidar com os indivíduos do 1 Licenciada em Pedagogia – UCSAL; Especialização em Metodologia do Ensino Superior – FBB, BA; Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social da Fundação Visconde de Cairu; Professora Universitária e Diretora Pedagógica do Ensino Fundamental. 31 futuro numa era em que a informação tecnológica assume significativo papel na vida social dos alunos e professores. O Pedagogo é um dos principais profissionais responsáveis por uma formação que visa, epistemologicamente, à contemplação de todas as dimensões do ser humano de modo a gerir gerações que tenham seus princípios pautados em novas exigências da atual conjuntura social. Pois bem, acreditando que a educação promove relações profundas com a sociedade e é um dos principais recursos para conceber a qualidade do processo social instaurado, é necessário que se dê uma devida importância às competências e habilidades trabalhadas e desenvolvidas no processo de formação à distância dos Pedagogos. Isso porque acredita-se que esta formação deva atender todas as expectativas de um ensino voltado para a qualidade e a preparação de profissionais capacitados que sejam aprendizes constantes, conscientes da importância da tecnologia e com pleno domínio das ferramentas de aprendizagem. Diante de tal justificativa, o objetivo principal deste estudo é analisar e identificar as competências e habilidades básicas desenvolvidas para a formação profissional, humana e seus impactos na inserção dos egressos no mercado de trabalho da IES “X” EAD. Caracterizam-se como objetivos secundários a análise da formação do Pedagogo da EAD e seu impacto no cenário profissional, a identificação das competências e habilidades que devam ser estimuladas na proposta pedagógica da IES de modo a promover o desenvolvimento humano e social do Pedagogo contemporâneo além de conhecer as principais características da IES “X” e sua proposta pedagógica para formação de seus Pedagogos. Assim, a importância dessa pesquisa enfatiza-se pela necessidade de se buscar uma formação profissional onde os educadores estejam conscientes de suas habilidades e competências para atuar no cenário atual diante das dificuldades apresentadas pelos alunos, além da qualificação e legitimação do Ensino Superior a distância, principalmente no curso de Pedagogia. Dessa forma, a contribuição dos autores Delors, Sem, Comênius, Castelle, Litto e Formiga, Olson e Torrance, Morin, Lévi, entre outros foi extremamente importante para consolidar este estudo. 32 1. A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E A FORMAÇÃO PROFISSIONAL O grande avanço da tecnologia proporcionou um assustador crescimento em todos os ramos da sociedade. A educação é o principal segmento atingido pela mesma. Todavia, novas formas de comunicação foram e vêm sendo concebidas resultando numa série de comunidades, sejam elas interativas ou não. Até mesmo as comunidades tradicionais já não são as mesmas com a presença da tecnologia. O termo comunidade on-line é definido como sendo uma rede persistente e sustentável. Matta (2009, p. 34-35) define uma “[...] comunidade de prática como sendo qualquer associação entre sujeitos seja de forma presencial ou digital”. E-learning, segundo Rosenberg (2002) citado por Buttingnon, Silva e Garcia (2002, p. 07), “[...] refere-se à utilização das tecnologias da Internet para fornecer um amplo conjunto de soluções que melhoram o conhecimento e o desempenho”. É possível deduzir, então, através dos diferentes conceitos tecnológicos, que a Educação a distância (EAD) é a comunicação entre sujeitos digitais de forma a definir uma rede de aprendizagem individual, coletiva e sustentável. Nessa linha, a educação a distância, de fato, caracteriza-se como um sistema derivado da tecnologia. Seu surgimento tem possibilitado uma revisão nos conceitos epistemológicos, filosóficos e até mesmo tecnológicos. Isto posto, uma nova visão de sujeito se forma, baseado em novos princípios holísticos que resultam num desenvolvimento social mais político, levando, portanto, a reflexões mais empíricas e teóricas, e não puramente tecnicistas (SANTOS; ALVES, 2006). 1. 1 DESENVOLVIMENTO HUMANO NA EDUCAÇÃO Como a tecnologia ganhou muito espaço, o termo desenvolvimento passou a ser relacionado não só a acúmulo de riquezas ou de mercados, mas principalmente à aquisição de novas tecnologias e informações capazes de produzir conhecimentos. Assim, o termo desenvolvimento passou a ser atrelado também a este novo período informacional no qual nos encontramos. Castells é um dos teóricos que faz uma análise do termo desenvolvimento na era da informação. No novo modo informacional de desenvolvimento, a fonte de produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de 33 processamento da informação e de comunicação de símbolos (CASTELLS, 1999, p.53-54). Dessa forma, percebe-se que ao longo da história a palavra desenvolvimento sempre esteve de alguma forma atrelada a crescimento individualizado e ao uso que se faz do conhecimento que se obtém através da informação que se adquire na sociedade. A formação de professores, no entanto, precisa contemplar a nova geração de indivíduos. Esta nova geração é conhecida como Homo Zappiens 2. Onde este possui as condições ideais de fornecer às instituições escolares recursos capazes de revolucionar o processo de ensino-aprendizagem de seus alunos e contribuir para o desenvolvimento de profissionais plenos em suas dimensões humanas e culturais. Não há, dessa forma, como não se preocupar com uma formação de professores que tenham consciência do seu público e priorizem uma formação alicerçada nas características e perfis da nova geração, de modo que ocorra sintonia entre as competências dos que ensinam e qualidade de ensino para os que aprendem. O resultado de um equilíbrio como este não poderia ser outro senão o desenvolvimento em todas as suas dimensões. Para Capra (1993), essas dimensões contemplam um novo paradigma, cuja visão de mundo está sob uma ótica holística onde prevaleça a saúde como um todo do ser humano. 1. 2 A EDUCAÇÃO PRESENCIAL E A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E SEUS PARADIGMAS Mas, será que o aumento de oportunidades de acesso às universidades através da modalidade EAD tem garantido ao seu público uma formação de qualidade que priorize as vias do desenvolvimento? Na verdade, a educação a distância assumiu grande destaque na contemporaneidade. O avanço da tecnologia e dos meios de comunicação foram os grandes responsáveis por tamanho sobressalto. A divulgação e o considerável crescimento da EAD, além de seu fortalecimento pelos órgãos públicos que abraçaram tal modalidade acabaram por criar as condições necessárias para a estabilidade da educação a distância. 2 É um processador ativo de informações, resolve problemas de maneira muito hábil, usando estratégias de jogo, e sabe se comunicar muito bem (VEEN; VRAKKING, 2009, p. 12). 34 Assim, através da identificação de Moore (2007) as necessidades que justificam a existência da educação a distância, perpassa-se, principalmente, pela oportunidade de atualizar aptidões e melhoria da capacitação do sistema educacional. Acredita-se, portanto, que a EAD deve se equiparar ao ensino presencial em suas condições de ofertas e ao desenvolvimento cognitivo de seus adeptos, diferenciando apenas na utilização intermediária de tecnologias. 1. 3 A EAD E O CENÁRIO PROFISSIONAL Segundo Lévy (2007) competências e conhecimento constituem-se, atualmente, a principal riqueza tanto para os indivíduos quanto para as organizações, pois ele acredita que deva considerá-las de modo tal que satisfaçam as necessidades sociais e econômicas. Entre outras vias, a tecnologia tem proporcionado um vasto vão no mercado profissional, e mesmo a educação a distância não tem conseguido disfarçar tamanha escassez por profissionais que contemplem todas as novas necessidades do campo de trabalho. Resultante desta descoberta é o surgimento de outro mercado que surge informalmente, abraçando os profissionais que não se adéquam às novas práticas culturais e tendem a se “estabilizar” abaixo das linhas do desenvolvimento, permanecendo estáticos diante de suas inobservâncias. 1. 4 A RESPONSABILIDADE SOCIAL E A EAD Passos (2008) cita que a responsabilidade de uma instituição de ensino é a qualidade dos processos estabelecidos pela mesma de forma a contribuir para as soluções dos problemas sociais, além de formar cidadãos conscientes de suas práticas de atuação dentro de sua comunidade, de modo a promover uma rede de responsabilidades. Nessa linha, é possível perceber que a qualidade da transmissão de habilidades de forma responsável possui condições de promover resultados sustentáveis de aprendizagem, e esta deve ser a principal meta de qualquer instituição, seja ela presencial ou a distância. Assim, as instituições de ensino superiores assumem grande papel ético e responsabilidade na sociedade ao optarem em seus ramos de atuação por 35 formarem pessoas. A ética então assumida pelas instituições constitui a principal conduta que deve ser absorvida pelos membros da organização de modo a realizarem um trabalho mais responsável. Assim, é possível afirmar que a consciência ética [...] “realização dos fatos inspirados na conduta sadia para com nossos semelhantes em geral e os de nosso grupo em particular” [...] (p. 73) presume muito mais que a própria ética em si. Não há como obter um comportamento ético, segundo Sá (2009), se não houver plena consciência sobre o que seja a ética. A responsabilidade das instituições que adotam a educação a distância não é diferente de nenhuma outra. Dessa forma, a qualidade na formulação de novas técnicas de ensino deve abranger diferentes abordagens conceituais que priorizem, sobretudo, novos modelos de aprendizagem e estimulem o autodesenvolvimento nos indivíduos, sabendo, pois, que este se constitui como um grande desafio. Considera-se assim que, antes de qualquer coisa, é preciso vencer os desafios estipulados dentro dos próprios gestores, interagir consigo mesmos para só a partir daí buscar outras possíveis interações entre os demais indivíduos de modo que estes atinjam as dimensões humana, intelectual e ética. 2. EDUCAÇÃO SUPERIOR E O CURSO DE PEDAGOGIA Muitas mudanças ocorreram no processo histórico da carreira profissional docente no País, desde a época da antiguidade até os tempos atuais. Este estudo não pretende aqui relatar todos estes momentos passados, mas apenas registrar o que é significante para melhor compreender o objetivo da pesquisa. 2. 1 O SISTEMA DE PARADIGMAS E A FORMAÇÃO DO PEDAGOGO O atual momento da conjuntura social impõe ao Pedagogo contemporâneo uma formação pautada no surgimento de novos paradigmas da sociedade informacional e que seja capaz de contribuir para o “[...] avanço do conhecimento e da tecnologia na área, assim como nas demandas de democratização e de exigências de qualidade do ensino pelos diferentes segmentos da sociedade brasileira” (BRASIL, 2006). 36 Ou seja, o novo Pedagogo precisa ter desenvolvidas todas suas capacidades de modo que seja capaz de pôr em prática as habilidades necessárias para formação de um ser humano completo, com desenvoltura para atuar numa sociedade conscientemente de seus objetivos. Diante do exposto, para que se encare com outros olhares a formação do Pedagogo através da modalidade a distância, é preciso que se dominem os recursos tecnológicos que influenciam e modernizam os sistemas de comunicação diante do surgimento das diversas mudanças. Esta revolução no modo de percepção sobre si e os outros leva-nos a empreender uma batalha sobre a própria aprendizagem, desfigurando tudo que foi apreendido pelos profissionais da educação e abrindo fronteiras para imbuir um novo caminho: aprender a aprender. No entanto, é inegável que esse novo caminho impõe dificuldades, principalmente se as instituições adotam uma postura autoritária na forma como conduzem a gestão de sua estrutura organizacional, conforme Moran (2000). Ele sugere algumas pistas que cita reduzir as dificuldades das organizações. São elas: Equilibrar o planejamento institucional e o pessoal nas organizações educacionais, integrar um planejamento flexível com criatividade sinérgica, realizar um equilíbrio entre a flexibilidade (que está ligada ao conceito de liberdade, de criatividade) e a organização (onde há hierarquia, normas, maior rigidez) (MORAN, 2000, p. 10). Essas pistas sugerem apenas um perfil organizacional que pode facilitar os mecanismos de mudanças paradigmáticas entre seus gestores e suas relações. Porém, no momento em que os gestores harmonizam as necessidades da sociedade às organizações e formação de seus indivíduos, o caminho torna-se mais curto para o sucesso da instituição. Um outro desafio imposto atualmente, é como afirma Tinoco (2004), o conhecimento, pois este constitui-se como principal riqueza da contemporaneidade, uma vez que ele produz todo capital intelectual que eleva os índices econômicos da sociedade e dita a qualidade de modernização tecnológica das instituições. Para Wolf (2002), do mesmo modo, a qualidade das instituições não pode ser despercebida pelos indivíduos, pois elas poderão influenciar positiva ou negativamente na atuação dos novos profissionais nos campos sociais e garantir ou não seu sucesso profissional e pessoal. A formação de pessoas, portanto, não é algo simples e necessita de atenção e compromisso por parte das instituições de ensino. 37 Nesta linha analítica, Ribeiro (2003) cita que. Seria melhor formar pessoas para a mudança, para o enfrentamento de todas as crises, para evoluir ao longo da sua vida profissional, para transigir entre os vários campos de conhecimento, para saber apostar nas suas competências, para desaprender o que não mais interessa (RIBEIRO apud NICOLINI, 2004, p. 130-131). Deduz-se assim que segurança não deve ser mais a palavra mais importante. O momento atual exige de todos uma insegurança a fim de que se possam ampliar os limites do conhecimento. A abertura de novos limites estruturais faz-se necessária, segundo Ribeiro, para o surgimento de novos paradigmas organizacionais que priorizem os aspectos da vida, do trabalho e das relações, e não meramente questões econômicas e tecnicistas. 2. 2 A ATUAÇÃO DAS ORGANIZAÇÕES DE ENSINO SUPERIOR NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL A DISTÂNCIA DO PEDAGOGO Cabe questionar se o simples aumento do acesso ao ensino superior garantirá a permanência de egressos no mercado de trabalho promovendo competências e habilidades necessárias para atuar diante das crises sociais da pós- modernidade, garantindo a qualidade mínima exigida para atuar no campo profissional. Assim, o currículo, neste caso apresenta-se como protagonista na busca pela qualidade na formação dos egressos. Segundo Sen (2000), a ausência da valorização de um currículo adequado é o mesmo que privar graduandos de seu desenvolvimento e condenar uma sociedade inteira ao subdesenvolvimento, corroborando as palavras do autor ao falar sobre as “[...] privações de capacidades como importante critério de desvantagem social” [...] (p156-157). São as capacidades que promovem o desenvolvimento humano de um indivíduo. Neste momento, configura-se de extrema importância a atenção dada às capacidades desenvolvidas nos cursos de graduação em Pedagogia. Um outro aspecto a considerar e também importante é sobre os reais interesses da comunidade acadêmica (MACEDO, A.; TREVISAN; MACEDO, C., 2005) e seus objetivos perante seu público e sua comunidade, sem esquecer-se dos ideais do MEC, que acabam por influenciar toda uma cultura acadêmica. Por esse motivo a autonomia institucional é tão importante, como afirma o autor Morin (2008). 38 Essa autonomia garantirá até mesmo a qualidade da seleção de conteúdos, prática esta de difícil determinação em cursos de educação a distância (KLERING et al., 2003) e que tende a resultar no desenvolvimento de competências e habilidades que favoreçam a aprendizagem. Dessa forma, os Parâmetros Curriculares Nacionais propõem: O conteúdo e a metodologia para essa formação precisam ser revistos para que haja possibilidade de melhoria do ensino. A formação não pode ser tratada como um acúmulo de cursos e técnicas, mas sim como um processo reflexivo e crítico sobre a prática educativa. Investir no desenvolvimento profissional dos professores é também intervir em suas reais condições de trabalho (BRASIL, 1997, p. 25). Assim, as organizações de ensino superior precisam analisar constantemente os componentes curriculares e metodológicos que utilizam no curso de Pedagogia a fim de que o oferte sempre seguindo as mudanças da sociedade e, consequentemente, forneça à mesma profissionais competentes para atuar de modo eficiente e eficaz. Para Castells, essa é uma das significativas vantagens que a tecnologia é capaz de proporcionar, uma verdadeira “[...] reconfiguração, um aspecto decisivo em uma sociedade caracterizada por constante mudança e fluidez organizacional” (1999, p.109). 2. 3 O CURRÍCULO E A FORMAÇÃO A DISTÂNCIA DO PEDAGOGO O currículo pode ser aplicado a tudo que faz ou implica uma experiência técnica, prática ou cognitiva dentro do ambiente educacional e que, portanto, pode ser (re) visto, (re) planejado e (re) estruturado quantas vezes forem necessárias para o alcance da qualidade deste currículo. Assim, a que se considerar a importância da avaliação na aplicação do currículo em cursos cuja modalidade é a distância, uma vez que a prática de ensino segundo este modelo implica a necessidade de um relacionamento socioafetivo muito maior que no ensino tido como tradicional (BELLONI, 2006). Isso acontece por considerar que “A educação a distância possui sua identidade própria” (BRASIL, 2003). Não basta, então, enxotar o currículo de cursos a distância com recursos e procedimentos que são aplicados no ensino presencial, mesmo porque eles se diferem em muitos aspectos como público, objetivos, recursos tecnológicos, 39 linguagem etc. Neste ponto há a necessidade do compromisso ético de todos os profissionais envolvidos. 2. 4 COMPETÊNCIAS E HABILIDADES DOS PEDAGOGOS A sociedade informacional exige dos profissionais competências e habilidades que advêm das informações e conhecimentos que são adquiridos no campo social. Lévy apresenta uma análise sobre a importância das competências na profissionalização dos sujeitos, uma vez que elas são formadas ao longo da vida de cada um. Evocarei não mais a virtualização do conhecimento pela comunidade científica, mas a do reconhecimento dos saberes e das competências pela sociedade em seu conjunto. Num sentido profundo, as competências dos indivíduos são únicas, ligadas a seu trajeto de vida singular, inseparáveis de um corpo sensível e de um mundo de significações pessoais (LÉVY, 1996, p. 90). Dentro da análise, é notável a importância com que Lévy se dedica às competências, ao conhecimento e ao uso que se faz dele, pois nessa atual conjuntura, ele constitui-se um importante tesouro para os indivíduos. O domínio das competências ditará a qualidade da atuação sobre outros sujeitos. Neste caso, cabe conceituar o termo competências segundo os referenciais para formação de professores. A terminologia representa a [...] capacidade de mobilizar múltiplos recursos, entre os quais os conhecimentos teóricos e experienciais da vida profissional e pessoal, para responder às diferentes demandas das situações de trabalho e onde elas resultam em [...] capacidade de iniciativa e inovação e, mais do que nunca, ‘aprender a aprender’ (DIAS; LOPES, 2003, p. 1156). Assim, há que se admitir a importância do domínio das habilidades necessárias à utilização dos recursos tecnológicos e ao desenvolvimento humano, social e profissional pelos egressos de qualquer que seja o curso. Bem como, a conscientização dos gestores das IES quanto à importância da prática dos egressos no mercado de trabalho. 40 2. 5 ATUAÇÃO PROFISSIONAL DO PEDAGOGO CONTEMPORÂNEO A tecnologia e a modernização dos sistemas de informação e comunicação têm exigido do Pedagogo uma atuação mais firme sobre o processo de formação do ser humano, de modo que o conduza a uma prática consciente de suas atitudes perante a vida e os indivíduos. É oportuno dizer que Arroyo (2000) adverte, no entanto, que antes de tudo o Pedagogo precisa conhecer inteiramente os indivíduos mais do que qualquer outra coisa. Por outro lado, para que essa qualidade na instrução dos indivíduos aconteça, é necessário que as instituições de ensino superem as expectativas de responsabilidade e possam realizar uma gestão pautada nos princípios de democratização da informação e seleção criteriosa do processo de aprender a aprender. Esse processo se aplica não só às instituições como aos seres humanos. Para Moran (2000), o trabalho do Pedagogo atual pode ser enfatizado a ações concretas quando a organização assume uma postura de apoio ao profissional, pois a atuação organizacional é capaz de modificar o contexto social em qualquer campo que seja. No entanto, seja qual for a opção cultural na qual o Pedagogo esteja envolvido, é necessário estabelecer os critérios e os caminhos que serão percorridos pelo mesmo a fim de, ao final de seu trabalho, promover o desenvolvimento das dimensões humanas, sociais, ambientais e cognitivas de seus alunos. 3. ANÁLISE DOS RESULTADOS DA PESQUISA A pesquisa realizada no curso de Pedagogia a distância da IES “X” e a análise dos dados foram divididas em quatro categorias: Geral, Curso, Instituição e Formação Profissional. A divisão das categorias visa a uma busca maior de informações e compreensão sobre a pesquisa e seus resultados. 41 3. 1 CATEGORIA GERAL Esta categoria pretende definir o perfil do egresso da IES “X” a partir das características físicas como idade, sexo, raça, tempo de conclusão do ensino médio, além da acessibilidade aos recursos tecnológicos. A idade dos egressos revelou um dado importante. De todos os pesquisados, a maioria (52%) possui idade de 31 a 40 anos. Juntando-se a quantidade dos egressos que possuem idade superior a 41 anos chega-se a um total de 96%. Dos egressos pesquisados 28% e 56% se declaram pretos e/ou pardos 3, respectivamente, o que totaliza 84% de afro-descendentes na área de educação pesquisada. Este acesso pode ser facilitado pelo custo reduzido dos cursos. No entanto, é importante analisar a qualidade dos cursos que as instituições fornecem com o objetivo de identificar sua relação com as competências e habilidades desenvolvidas nos profissionais de educação e seu impacto no mercado de trabalho. Isso porque, como afirma Santos, “[...] qualquer projeto estratégico de mudança, no Brasil, passa antes pelas relações raciais” (2003, p 259). Por outro lado, a tecnologia facilitou o acesso de novos estudantes à cursos da área da educação, bem como agilizou a entrada destes estudantes no mercado de trabalho. Fato este comprovado pelo percentual obtido de 76% dos egressos da modalidade a distância da IES “X” já estão atuando como profissionais. Assim, o curso de graduação tende a se tornar um processo de aquisição e ampliação por novos conhecimentos técnicos para prática laboral. A pesquisa demonstrou ainda que 85% dos egressos atuam na área de formação, o que significa dizer que os mesmos estão na sala de aula. Todavia, 60% dos pesquisados realizou curso de informática, e 88% possui microcomputador em suas residências. Porém, 68% dos pesquisados informaram não dominar as ferramentas da informática, mesmo tendo realizado curso de graduação durante o período de 03 anos na modalidade a distância. 3 Segundo diversos estudiosos as categorias “preto” e “pardo” totalizam a população negra. 42 3. 2 CATEGORIA CURSO A necessidade de economia e controle do tempo, fez com que 59% dos entrevistados optassem por um curso a distância. Contudo, para Gouvêa e Oliveira (2006), a aquisição do acúmulo de informações em menor tempo representa apenas o “[...] aumento quantitativo de informações acessíveis” (p. 32), sem, necessariamente, segundo eles, representar a produção de conhecimento na mesma escala. Apesar dos cursos na modalidade a distância serem de custo menor em relação aos cursos presenciais, a condição financeira não foi a causa diretamente definitiva para realização daqueles. O fato de 50% dos entrevistados trabalharem durante a realização do curso justifica a escolha pela modalidade em questão. Devido ao processo de comunicação, 68% do público entrevistado não acredita que o curso de Pedagogia EAD da IES “X” tenha atendido suas necessidades de aprendizagem sobre a profissão, e que também não lhe proporcionasse segurança para atuar no mercado de trabalho. A justificativa sobre tal percentual esbarra em questões como a necessidade de aprofundamento teórico, falta de atividades práticas, ausência de comunicação entre professor x aluno citados pelos próprios egressos. O não-atendimento de tais necessidades fez com que os pesquisados também identificassem a não-utilização de ferramentas tecnológicas adequadas para exposição das aulas teóricas necessárias aos alunos, e que eram, segundo o E1, o E4 e o E16,4 apresentadas em vídeoaula em TV de 14’, uma vez que o polo encontrava-se com poucos recursos financeiros para proporcionar ambientes básicos como o laboratório, biblioteca e até mesmo tela de projeção que os auxiliassem nas pesquisas dos alunos. Para 60% dos pesquisados, a ausência física e as formas de comunicação entre eles e os professores estabelecidas pela IES contribuíram para redução da qualidade e da aquisição de conhecimentos dos alunos, uma vez que não havia possibilidade de debates. 4 Sigla atribuída às Egressas de acordo com a numeração estabelecida pela autora. 43 3. 3 CATEGORIA INSTITUCIONAL Os tutores, como são conhecidos os profissionais que acompanham as aulas presenciais dos alunos nos cursos a distância, passam a assumir grande relevância na formação dos profissionais a distância devida sua contribuição para aquisição de conhecimentos. 80% dos egressos reconhecem tal importância. Nessa perspectiva, o material utilizado pelos profissionais da tutoria precisa ser cuidadosamente elaborado de modo que conduza o estudante da EAD a um caminho de pesquisas. Assim, quando questionados a respeito da qualidade do material didático fornecido pela IES “X”, a maioria (64%) avaliou positivamente. Mesmo diante desta percepção, 88% dos egressos informaram sua insatisfação quanto à qualidade dos recursos tecnológicos utilizados para viabilização do processo de comunicação entre eles e os professores. O mesmo percentual representou o não-atendimento de suas expectativas quanto à instituição. Ou seja, 88% dos egressos também acreditam que a IES não demonstrou interesse em contribuir para sua formação. Todavia, essa premissa não impossibilita que 76% dos egressos possam a vir, futuramente, optar por outros cursos na mesma modalidade. Isso porque, na visão dos egressos, critérios como tempo/custo e facilidade de acesso proporcionam maiores benefícios e chances de ingresso ao mercado de trabalho e ao ensino superior. 3. 4 CATEGORIA PROFISSIONAL De acordo com Delors, a formação dos profissionais da educação precisa ser eficaz na aquisição das competências pedagógicas e qualidades humanas que os novos professores adquirem. Para uma minoria de 28% dos egressos pesquisados, a IES “X” não contribuiu para uma formação de qualidade. As deficiências estruturais foram muitas a ponto de prejudicar o estimulo e o incentivo a pesquisa e extensão. A falta de interesse da IES e do polo contradiz sua proposta pedagógica instituída no seu próprio Projeto Político (2007). O documento prevê o “[...] estabelecimento do diálogo entre a área educacional e as demais áreas do conhecimento” (p. 03), bem como a “[...] articulação de ensino, pesquisa e extensão para produção do conhecimento e da prática pedagógica” (p.03 ). 44 Em contrapartida, os egressos informaram ter grandes dificuldades no campo profissional, como organização estrutural do sistema educacional, relacionamento interpessoal, acompanhamento dinâmico do movimento da educação, entre outros. Na visão de 24% dos egressos, no entanto, as dificuldades enfrentadas podem, sim, ser atribuídas à qualidade da sua formação. 3. 5 ANÁLISES DOS RESULTADOS DAS EDUCADORAS TUTORAS De acordo com o perfil das educadoras tutoras, a faixa etária é de 32 a 60 anos e a maioria possui formação e experiência na área da educação. O processo de ensino aprendizagem segundo elas, requer do aluno da EAD não apenas momentos diários de estudo e pesquisa, mas principalmente preciosa atenção que deve ser depositada nas aulas presenciais, pois este será o fio condutor das suas pesquisas. A pesquisa com as tutoras demonstrou que elas sentem necessidade de criação de novos paradigmas por parte dos alunos para que haja um processo de ensino aprendizagem efetivo. Esta ruptura precisa estar condizente com a clareza do processo de comunicação entre aluno e professor. Assim, o estabelecimento dos subsídios para uma formação humana e profissional foi evidenciado pelas mesmas, com destaque para algumas habilidades que precisam ser desenvolvidas em cursos a distância, como autonomia, autogestão, gerenciamento do tempo e a busca por novos conhecimentos. Contudo, de acordo com as experiências do campo de trabalho, as tutoras enfatizam a grade curricular do curso de pedagogia da IES “X” como insuficiente no desenvolvimento das habilidades necessárias aos profissionais contemporâneos. A justificação baseia-se no excesso de aulas teóricas e ausência de atividades complementares como pesquisas e atividades práticas. Ou seja, elas acreditam numa deficiência curricular mesmo seguindo as normas instituídas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais. Pode-se notar que há um desnível sobre o que pensam as egressas e a realidade vivida pelas educadoras. Outro ponto a considerar é que, para 67% das educadoras, a escolha dos recursos tecnológicos bem como os instrumentos de comunicação auxilia positivamente na construção da aprendizagem do egresso e que, portanto, precisam ser cuidadosamente selecionados, planejados e conduzidos corretamente. 45 CONSIDERAÇÕES FINAIS É inegável o crescimento tecnológico e a democratização do acesso ao ensino superior. A educação a distância foi e vem sendo beneficiada pelo avanço da tecnologia e ao mesmo tempo contribuindo para a qualificação dos profissionais que chegam ao mercado de trabalho. Assim, sendo a questão central deste estudo: a análise e a identificação das competências e habilidades básicas desenvolvidas para a formação profissional, humana e seu impacto na inserção dos egressos no mercado de trabalho da IES “X” EAD foi possível descrever a presença de algumas das competências e habilidades identificadas a partir do estudo na formação dos egressos: aquisição de novos saberes; organização cognitiva; ampliação dos saberes filosóficos; desenvolvimento de habilidades interpessoais e aprimoramento da linguagem escrita e oral. No entanto, foi possível identificar ainda inúmeras outras que não foram desenvolvidas na formação dos egressos da turma 2009/2 e constantes no projeto político pedagógico da IES “X”. Tais como: domínio dos processos, meios de comunicação e utilização das tecnologias da informação; compreensão do processo de construção do conhecimento no indivíduo inserido em seu contexto social e cultural. Em face destas ausências de competências e habilidades na formação do Pedagogo contemporâneo urge a revisão estrutural dos pólos de ensino e da proposta pedagógica da IES. Outros fatores foram identificados na pesquisa e que merecem atenção: O estabelecimento de pré-requisitos para ingresso em cursos com modalidade à distância, os quais exigem o domínio das ferramentas tecnológicas e de comunicação. Apesar da maioria dos egressos estar atuando na área de educação o impacto sofrido por estes no campo profissional é de algum desconforto. Isso se dá em virtude da incompatibilidade entre as mudanças sociais e tecnológicas vivenciadas pela sociedade e o tipo de formação que receberam os egressos. No entanto, A pesquisa identificou o sistema de comunicação instituído pela própria IES como um recurso inoperante e inutilizado por ambos os lados. Tais recursos precisam ser selecionados através de objetivos claros, planejamento estratégico, utilizando-se tecnologia avançada, uma vez que necessitam constantemente de atualização e manutenção. Para tanto, a academia também necessita de um plano pedagógico que contemple em seu currículo objetivos claros e bem definidos quanto à formação desejada para seus egressos. 46 Outra evidencia foi a necessidade de intensa fiscalização por parte dos órgãos competentes e superiores com o objetivo de assegurar ao público que frequenta os cursos, nas diversas instituições de ensino superior a distância, uma estrutura mínima que garanta o acesso às tecnologias e a um ensino de qualidade. A fiscalização precisa abranger os polos de ensino que funcionam como ampliação da IES, apesar de possuir uma gestão própria, muitas vezes gerenciados por indivíduos sem compromisso com a formação dos acadêmicos, negligentes às questões sociais e banalizadores do sistema de ensino. REFERÊNCIAS BRASIL. 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Percebe-se que houve o aumento dos postos de trabalho formais, tanto para as atividades em geral, quanto para o agronegócio da Ride e houve melhora no rendimento médio do trabalhador. Os municípios que mais se destacaram na região foram Petrolina e Juazeiro. Porém, Petrolina se desloca gradualmente alcançado melhores níveis de crescimento em relação a Juazeiro. No decorrer dos anos 2000, o município pernambucano ganha importância relativa em relação ao município baiano, aumentando a concentração dos melhores postos de trabalho, pagando os melhores salários e apresentando maior crescimento econômico. PALAVRAS-CHAVE: Agronegócio. Mercado de Trabalho. Desenvolvimento do Nordeste. ABSTRACT This article has as its object of investigation the formal labor market in agribusiness developed the Integrated Region Economic Development - Petrolina / Juazeiro . This Ride , which is comprised of eight counties (Lagoa Grande- PE , PE - Oroco , Petrolina -PE , Casa Nova - BA - BA Curaçá , Juazeiro - BA - BA and Sobradinho ) has in Juazeiro and Petrolina their driving forces . These two counties were listed as bright points of development of the Northeast . However , from the point of view of the labor market, it is noticed that the Ride has only a dynamic center, just a bright point , which is the city of Petrolina . The others constitute only opaque points of development. It is noticed that there was an increase of formal jobs for both activities in general , as for the agribusiness Ride and an improvement in the average income of the employee. Municipalities that stood out in the region were Petrolina and Juazeiro . However , 1 Economista, Mestre em Desenvolvimento e Urbano pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano da Universidade Salvador. 2 Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano da Universidade Salvador. 49 Petrolina moves gradually achieved better levels of growth compared to Juazeiro . During the 2000s , the municipality Pernambuco wins relative importance in relation to the municipality of Bahia , increasing the concentration of the best jobs , paying better wages and providing greater economic growth . KEYWORDS: Agribusiness. Labor Market. Northeast Development. 1. INTRODUÇÃO Este artigo tem como objeto de investigação o mercado de trabalho formal no agronegócio desenvolvido na Região Integrada de Desenvolvimento Econômico - Pólo Petrolina/Juazeiro, que é composta pelos municípios de Petrolina, Lagoa Grande, Orocó e Santa Maria da Boa Vista em Pernambuco e Juazeiro, Casa Nova, Curaçá e Sobradinho na Bahia. Como nos anos 2000 se verificaram a amenização de algumas fragilidades estruturais identificadas no mercado de trabalho nas duas décadas anteriores, tais como queda da taxa de desemprego, aumento do nível de rendimento médio e crescimento da formalização no Brasil, como afirmam Souza (2010), Pochmann (2010) e Cacciamali e Tatei (2010), surgiu o interesse em verificar os reflexos da expansão do agronegócio nos anos 2000, na geração de postos de empregos formais na Ride. No entanto, tais municípios se inserem num contexto mais amplo, a considerar a Bahia, Pernambuco e o Brasil, é importante verificar algumas das variáveis que determinaram o desenvolvimento da Ride. Para tanto, vale lembrar que ao longo da história, tanto o Estado Bahia quanto o Estado de Pernambuco foram marcados por grandes assimetrias. Assimetrias, essas, que refletem o que ocorreu em uma escala maior. São as desigualdades sociais e territoriais em termos de níveis de renda, pobreza, produtividade e acesso a serviços públicos. Há uma grande disparidade entre as regiões brasileiras na distribuição territorial da riqueza, acarretando uma desigual distribuição de oportunidades de desenvolvimento econômico e de oportunidades de trabalho. A dinâmica capitalista contemporânea tem gerado desigualdades em todo o mundo, e, de forma muito agressiva, essas desigualdades têm assolado o Brasil e os estados do Nordeste, em função dos investimentos em infraestrutura e equipamentos sociais que se dão de forma assimétrica, ocasionando a expulsão dos centros urbanos das atividades de menor dinâmica e das famílias de menor renda. 50 Nas regiões onde as famílias convivem com precariedade laboral e pobreza, as possibilidades de mobilidade social se reduzem drasticamente. Quando somadas a estes problemas temos distribuição desigual de serviços públicos, dificuldade ou mesmo ausência de acesso à educação e saúde e, assim, as assimetrias regionais são potencializadas (CEPAL, 2010). No Brasil, o crescimento econômico ocorreu comumente sem contemplar toda sua população, sendo marcado por grandes contradições, pois apesar de possuir um PIB que o situa em posição destacada entre as dez maiores economias do mundo, possui um dos mais acentuados desequilíbrios sociais e regionais. Em que pesem os programas de renda mínima implementados pelas recentes administrações federais, principalmente a partir dos anos 2000, convive-se ainda com grande concentração de renda, disparidades e investimento desigual entre as regiões. Para superar essas dificuldades pensou-se na criação da Ride – polo Petrolina/Juazeiro, que teria como objetivo, estimular a cooperação entre os municípios, com maior envolvimento dos estados, já que foi concebida como um instrumento de ação pública, e como tal, busca conseguir maiores recursos para o desenvolvimento integrado da região. Neste contexto, é importante relatar que a fruticultura se desenvolveu a partir de um conjunto de ações implementadas pelo poder público a partir da década de 1970. A instalação nas cidades de Petrolina e Juazeiro de duas das sete superintendências da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) teve um papel importante, contribuindo para estabelecer uma racionalidade de mercado no modo de produção local. O poder público se responsabilizou por fornecer área para plantio, equipamentos e a infraestrutura necessária, como asfalto das vias de escoamento, eletrificação rural, construção de canais, dutos e, inclusive, pela construção das agrovilas, equipadas com escolas, postos médicos e casas para os produtores. Assim, ao longo do tempo as feições da economia dessa região foram se transformando com o avanço em escala ampliada do agronegócio, promovendo forte dinamismo na economia urbana. Estabeleceram-se novas relações campo-cidade, já que os municípios da Ride tiveram sua dinâmica e suas demandas fortemente imbricadas com o agronegócio, constituindo-se, na visão de Elias (2006) em cidades do agronegócio. 51 O agronegócio no Vale do São Francisco surge a partir da massificação do consumo dos produtos que beneficiam a saúde e tem origem no processo de globalização dos mercados. Porém, se deve também aos avanços tecnológicos nas técnicas de colheita e especialmente de pós-colheita, como armazenamento, embalagem e resfriamento. A partir dos anos 1990, o comércio de frutas tropicais foi alavancado, principalmente devido a maior inserção de América Latina e Caribe. O Brasil se destacou na produção de frutas frescas destinadas ao consumo in natura. O crescente mercado de frutas frescas reflete a mudança de postura do consumidor que busca produtos de melhor qualidade e está disposto a pagar preços mais elevados em busca de um melhor bem estar (MATOS FILHO; PENHA, 2013). Para satisfazer esse consumidor, as grandes redes de distribuição internacional demandam dos produtores alimentos com características que exaltem este padrão, estabelecendo, para isto, padrões de qualidade quanto à textura, sabor e tamanho das frutas. O crescimento desse mercado de consumo de frutas in natura impactou o Brasil com o desenvolvimento de algumas regiões produtoras que passaram a especializar-se no abastecimento destes mercados. Assim é que o agronegócio do Vale do são Francisco se insere. Esta região verificou forte crescimento das exportações dos municípios da Ride entre 2000 e 2010 (Gráfico 1). Gráfico 1 – Exportações dos municípios da Ride em US$ FOB – 2000/2010 Fonte: AliceWeb – SECEX/MDIC 52 O Nordeste brasileiro se consolida como exportador de frutas frescas, tendo sua produção concentrada em quatro dos seus estados, Bahia, Ceará, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Boa parte da produção de frutas frescas realizada nos estados da Bahia e Pernambuco é realizada na Ride polo Petrolina/Juazeiro. Nessa região o agronegócio se consolidou, estabelecendo novas dinâmicas para os municípios, principalmente para os municípios de Juazeiro e Petrolina que constituem as forças motrizes a alavancar o crescimento local. Para Elias (2006), o agronegócio desenvolvido nesses dois municípios trouxeram reflexos para vários outros setores da economia, e tal desempenho deu a eles o status de pontos luminosos no desenvolvimento da Região Nordeste. O trabalho está dividido em cinco partes, sendo esta introdução a primeira delas. Em seguida serão tratados os pontos luminosos. No tópico três, serão abordadas as peculiaridades do mercado de trabalho, bem como do contrato de trabalho. Na quarta parte, as características do emprego na Ride polo Petrolina/Juazeiro e, por fim, têm-se as considerações finais perfazendo a última parte constituinte deste artigo. 2. PONTOS LUMINOSOS A dinâmica de reprodução dos espaços agrícolas do semiárido e dos cerrados nordestinos, que recentemente foram incorporados à produção agropecuária globalizada, dá-se como resultado da dispersão da agricultura científica e do agronegócio pelo território brasileiro, difundindo-se as especializações produtivas. Em todo o país, essa expansão do agronegócio globalizado promove forte dinamismo na economia urbana, principalmente no que tange ao consumo produtivo, na dinâmica populacional e no mercado de trabalho. Estabelecem-se, então, novas relações campo-cidade, pois agora a cidade não é apenas o centro comercial que os agricultores buscam para poder comercializar seus produtos. A cidade nessa nova relação passa também a depender do sucesso das atividades agroindustriais, pois estas levam recursos e ampliam a venda dos produtos comercializados nela. Assim, algumas cidades terão sua dinâmica e suas demandas fortemente imbricadas com o agronegócio, constituindo-se em cidades do campo (SANTOS, 2008). 53 Para Elias (2006), os espaços urbanos inseridos em regiões produtivas agrícolas onde há gestão local ou regional de um agronegócio globalizado, cidades que possuem suas funções mais prementes vinculadas ao atendimento das demandas do agronegócio, constituem-se cidades do agronegócio. Nelas, é muito clara a dependência da economia urbana à produção agrícola. No Nordeste, Petrolina (PE), Mossoró (RN), Juazeiro e Barreiras (BA) são exemplos de cidades do agronegócio. Elas registraram forte crescimento nas últimas décadas e concentraram, assim, uma gama de novas atividades antes não identificadas em suas economias (ELIAS, 2006). Nos últimos trinta anos, espaços agrícolas do Nordeste foram afetados por grande intensificação das relações de produção tipicamente capitalistas. Este fato acirrou a dicotomia entre agricultura tradicional e agricultura científica. Essa dicotomia se apresenta de forma bem definida em partes do território do Nordeste, constituindo verdadeiros pontos luminosos em pleno semiárido (ELIAS, 2006). Santos e Silveira (2012) chamam de espaços luminosos aqueles que mais concentram densidades técnicas e informacionais. Com esta concentração, conseguem atrair empresas mais capitalizadas, com tecnologia e organização mais avançadas. Os autores afirmam ainda que os espaços onde essas características não são identificadas, constituem espaços opacos. Entre espaços luminosos e espaços opacos encontram-se uma infinidade de situações, mas é no espaço luminoso, por concentrar as técnicas e informações , que se constitui o lugar mais apto para a instalação de grandes empresas. Isto se deve em grande medida à obediência com maior regularidade aos interesses do grande capital. Por possuir maior densidade técnica e informacional, os espaços luminosos podem se constituir em espaços de rapidez, ou seja, aqueles dotados de boas vias por onde escorrem veículos modernos e velozes, contam com boa disponibilidade de transportes públicos facilitando escoamento de produção constituindo importante elemento para o crescimento de uma região (SANTOS; SILVEIRA, 2012). Esses mesmos autores afirmam ainda que: A ideia de espaços da rapidez e espaços da lentidão também poder ser cotejada com a noção de espaços do mandar e do fazer e de espaços do mandar e do obedecer, admitindo-se que o fazer sem mandar e o obedecer podem produzir a necessidade da existência de vias sem, obrigatoriamente, ostentar a mesma presença que nos espaços do mandar (p. 263). 54 Percebe-se, porém, nesta análise, que os pontos luminosos do Nordeste não se constituem em espaços do mandar, já que estes não (...) são ordenadores da produção, do movimento e do pensamento em relação ao território como um todo. Este último, o pensamento, dá-se por meio de todas as modalidades de informação subjacentes à produção moderna. É a partir do nexo informacional que se instala o nexo circulacional, criando-se o movimento, inclusive o do próprio turismo, cujos polos receptores são mais difusos e podem ser menos poderosos que os polos emissores. Na mesma ordem de ideias, a produção que dinamiza certas áreas tem seu motor primário ou secundário em outros pontos do território nacional ou mesmo do estrangeiro (SANTOS; SILVEIRA, 2012, p. 263). Os espaços onde os mandos, as ordens são dadas, são também espaços no qual se sobrepõe a divisão do trabalho, culminando que os espaços do mandar se confundem com os espaços da fluidez efetiva, que por sua vez, constituem espaços da rapidez. No caso nordestino, o que há é a subordinação ao capital. Produz-se para os grandes mercados globais atendendo a suas especificações, desejos e caprichos. Algumas cidades do Nordeste constituem espaços luminosos, mas somente isso. Tais cidades por atender determinadas exigências, densidades técnicas e informacionais, se tornam aptas a integrar o comércio global. Mas de forma periférica. Quase a totalidade das cidades desta região constituem, em verdade, espaços opacos. Sob esse ponto de vista, neste artigo, será verificado a partir do mercado de trabalho, que será o assunto do próximo tópico. 3. O MERCADO DE TRABALHO E SUAS PECULIARIDADES O mercado de trabalho possui características muito peculiares que o diferencia dos demais mercados. Ele resolve um problema de alocação, qual seja, se por um lado o sistema de produção deve ser alimentado por força de trabalho, por outro lado a força de trabalho deve ser abastecida por seus meios de subsistência. Para Offe (1989), o mercado de trabalho em um sistema capitalista resolveria os dois problemas ao mesmo tempo. Mais ainda, organiza a produção e a distribuição através da troca entre salários e a oferta de força de trabalho. Nota-se que assim como em outros mercados, os vendedores e os compradores de força de trabalho encontram-se em situação de oposição. 55 Assim como em todos os mercados, há a relação de concorrência, na qual vendedores e compradores competem com outros vendedores e compradores defendendo seus direitos para que sua oferta tenha êxito e sua demanda seja satisfeita. Os agentes, com o intuito de obter o maior êxito possível, realizam estratégias racionais tanto do lado da oferta, quanto do lado da demanda. Do lado da oferta, essas estratégias envolvem a especificação, a mais precisa possível, do tipo, quantidade, localização e tempo dos inputs de trabalho oferecidos, assim como o ajuste do preço solicitado (salários) à disposição, do lado da demanda, em pagá-lo. Inversamente, o principal para os agentes do lado da demanda é a redução da especificidade de suas demandas quanto ao tipo e à quantidade de trabalho necessário ou, se preciso, o aumento do preço oferecido (salários), de tal forma que a demanda do empregador individual possa ser suprida pela oferta disponível (por exemplo, o pagamento de benefícios extra-salariais como uma estratégia concorrencial interna dos compradores individuais de trabalho) (OFFE, 1989, p. 24). Uma importante estratégia de adaptação dos dois lados deste mercado, oferta e demanda de força de trabalho, é reduzir a dependência um do outro, ou seja, procurar fontes alternativas para suas satisfações. Porém, as estratégias não se resumem apenas ao âmbito individual, mas também na redução da intensidade da relação de concorrência com um dos lados através de coalizões e engajamento em ações coletivas. Agindo de forma coletiva estabelecem-se limites máximos de oferta de serviços ou até mesmo limites mínimos quanto aos preços e salários pagos. Evita-se assim o descolamento entre o nível de trabalho oferecido e o patamar de salário reivindicado. Vale ressaltar que o mesmo efeito ocorre quando se dificulta o acesso ao mercado de vendedores que estariam dispostos ou até mesmo obrigados a violar um desses limites. Para estes casos existe uma solidariedade interna e até mesmo uma discriminação externa que em grande medida compõe uma das estratégias racionais para que os vendedores de força de trabalho obtenham vantagens no mercado. Algo semelhante ocorre no lado oposto, o lado da demanda. Os compradores de força de trabalho podem atuar objetivando compor uma aliança para reduzir suas relações internas de concorrência, ou até mesmo para penalizar os compradores com maior poder de atração dos vendedores de força de trabalho, como por exemplo, a exclusão de determinada empresa da associação patronal. O que há de comum nessas estratégias é a redução da concorrência em seu próprio ‘quintal’ na relação de concorrência do outro. Para Offe (1989, p. 26), 56 Além das práticas de solidariedade (formação de coalizões) e de discriminação (exclusão), o mesmo efeito estrategicamente vantajoso pode ser obtido adotando uma intensidade constante em seu próprio campo, quando a intensidade de concorrência no outro campo é aumentada. Os compradores em um mercado podem conseguir isso quando, por exemplo, se encontram em condições de ampliar relativamente o número de vendedores nesse mercado, ou de garantir o fracasso dos esforços empreendidos por parte da oferta para criar coalizões ou exercer discriminação. Possibilidades análogas de influenciar a intensidade de concorrência, em princípio, são também viáveis por parte da oferta, que pode formular um rico e complexo repertório de estratégias, tanto individuais quanto coletivas, de solidariedade e de discriminação. A diferença fundamental entre os diversos mercados, seja de matérias-primas, de mercadorias, de capital, ou de trabalho, está na capacidade de compradores e vendedores poderem utilizar essas estratégias racionais de mercado. Já que se um dos lados de um determinado mercado esgota suas estratégias mais que o outro, percebe-se a existência de uma assimetria no processo de mercado. Nesse sentido, Offe (1989) destaca que o mercado de trabalho possui uma série de particularidades que o fazem diferentes dos demais e torna possível falar em um diferencial de poder favorável ao lado da demanda e consequente desvantagem do lado da oferta. E essa desvantagem fica explicitada quando o empregado firma um contrato de trabalho em situação de livre concorrência. Apesar de a força de trabalho ser tratada nos mercados como uma mercadoria, este insumo tão importante para a realização da produção não se insere nos mercados da mesma forma que as demais mercadorias. Estas, para serem ofertadas, dependem das expectativas dos vendedores em fazê-lo. Assim, a quantidade, qualidade, o lugar e mesmo a época em que são ofertadas serão reguladas pelas expectativas do próprio mercado. No entanto, o mesmo não se verifica quanto à mercadoria força de trabalho. O aumento da oferta dessa mercadoria é determinado por processos demográficos, que não fazem parte das estratégias individuais e nem mesmo coletivas. Pode também ser determinada por processos socioeconômicos que pressionam os indivíduos a ofertarem força de trabalho diante da impossibilidade de subsistência fora dele. Vale ressaltar que a impossibilidade de subsistência fora do mercado de trabalho faz a oferta de força de trabalho ser quantitativamente inelástica, ou seja, a existência física impõe ao indivíduo ofertar sua força de trabalho independente do quão desfavorável seja exercer essa oferta. Aí está uma importante particularidade da força de trabalho. Apesar de ser tratada como uma mercadoria, entra no mercado por razão diversa das demais. 57 Estabelece-se assim uma desvantagem estrutural da força de trabalho no mercado, pois o lado da oferta não consegue controlar sua própria quantidade de forma estratégica. Outra desvantagem do lado da oferta no mercado de trabalho, diz respeito à contínua dependência à oferta dos meios de subsistência. Estes só podem ser adquiridos se a força de trabalho for vendida. E os indivíduos, salvo em condições que ocorrem em limites de tempo muito estreitos, normalmente não se encontram em condições de esperar oportunidades favoráveis para exercer a sua oferta. Offe (1989) afirma que essa impossibilidade da oferta em esperar para vender ocorre em função do fato de a força de trabalho não controlar os meios de produção que lhe garantiriam viver da venda de produtos manufaturados, ou mesmo utilizá-los como subsistência. Nesse sentido, o processo de industrialização capitalista seguiu por caminhos que destruíram as condições de independência econômica das famílias, impedindo, inclusive, a existência de espera estratégica por situação de demanda mais favorável. Na medida em que as condições de autossuficiência das famílias são destruídas, a oferta de força de trabalho que não encontra sua demanda termina por tornar-se sem valor. Submete-se, portanto, às condições impostas pela demanda de trabalho e aceita o salário corrente oferecido. Depreende-se disso que a quantidade da oferta no mercado de trabalho é dada, e mais que isso, ela estrategicamente invariável. Além desses agravantes, existe ainda outro, a oferta pode ser influenciada pela mudança tecnológica ocorrida no lado de demanda, já que é possível que com tal mudança ocorra liberação de força de trabalho. Offe (1989) afirma que uma política relacionada à oferta é possível apenas quando uma autoridade externa ao mercado aparece na forma de políticas estatais de proteção social e trabalhista. Por um lado, estas políticas garantem o direito à formação de coalizões; por outro, criam obstáculos para a entrada no mercado de uma parte da oferta de trabalho disponível (por exemplo, a proibição do trabalho infantil, o estabelecimento da jornada máxima, a estandardização dos dias úteis). Mas, ao mesmo tempo, tornam disponíveis para a força de trabalho “excluída” da oferta meios de subsistência externos ao mercado de tal forma que esta força de trabalho não seja mais forçada a entrar no mercado (por exemplo, o pagamento de aposentadoria) (p. 29). Essa característica é extremamente relevante, pois difere o mercado de trabalho dos demais mercados quanto às estratégias dos vendedores de mercadorias. No mercado de trabalho, opções estratégicas devem ser garantidas por uma regulamentação política, pois somente através dela é que os ofertantes têm condições de aguardar 58 estrategicamente, ainda que por algum período de tempo definido, o melhor momento de retornar a vender a sua mercadoria. O trabalhador, com isso, evita se submeter a qualquer demanda. Há ainda outra particularidade do lado da oferta, qual seja, o fato de sua necessidade de meios de subsistência permanecer invariável dentro de um padrão mínimo de vida definido material e culturalmente. As necessidades dos trabalhadores são muito mais rígidas que as necessidades dos empregadores, já que para garantir sua subsistência o trabalhador necessita vender sua força de trabalho há uma grande assimetria nesta relação patrão/empregado (Offe, 1989). Esclarecendo melhor, em um cenário de mudança tecnológica, o empregador consegue manter o mesmo nível de produção utilizando uma quantidade menor de trabalhadores, no entanto, uma queda na renda da família do trabalhador pode significar a impossibilidade de sua subsistência (Offe, 1989). Neste contexto, Offe (1989) afirma ainda que Uma assimetria entre os dois lados do mercado é baseada no fato de que (pelo menos em média e a longo prazo) os compradores de trabalho podem se tornar independentes da oferta mais facilmente do que os vendedores de trabalho podem fazê-lo em relação ao lado da demanda. Os primeiros podem aumentar a eficiência da produção, enquanto os trabalhadores não são capazes de aumentar a eficiência de sua reprodução; estes últimos têm apenas a opção de reduzir seu padrão de vida no momento em que se esgotam as possibilidades de “economizarem” com base em sua remuneração (...) (p. 2930). Outra desvantagem do lado da oferta é que os trabalhadores podem realizar determinadas funções com base no que foi treinado e também na sua experiência ocupacional. Em contrapartida, as máquinas exigem operadores especializados para operá-las. Entretanto, como existe um maior grau de liquidez do capital em relação ao trabalho, (já que toda unidade de capital possui uma fase de liquidez, ou seja, transforma-se em dinheiro através da produção, ao fim de cada ciclo de liquidez do capital o empresário está livre para decidir se pretende continuar com o mesmo padrão tecnológico ou se pretende mudá-lo.) o trabalhador constantemente tem que se adaptar às novas tecnologias, sob o risco de ficar fora do mercado de trabalho. Offe (1989) afirma que o capital não envelhece, pois está sempre se renovando, movimentando-se em ciclos. Em contrapartida, os vendedores de força de trabalho só podem variar a qualidade da sua oferta dentro de certos limites. O autor acredita que somente com apoio externo, como educação e treinamento, pode-se melhorar o 59 desempenho do trabalhador diante das constantes mudanças tecnológicas dentro das firmas. Para Offe (1989), a única variável na qual o trabalhador pode se fiar para conseguir melhorar sua posição estratégica no mercado de trabalho é a dimensão espacial. Porém, mesmo nessa situação, o empregado é obrigado a sacrificar-se, pois ao migrar para outras regiões em busca de melhor colocação, pode enfrentar a destruição das relações familiares e sociais locais. Mas, além disso, corre sérios riscos de empobrecimento e de marginalização. Desta forma, a rigidez estratégica do lado da oferta no mercado de trabalho é o que diferencia esse mercado dos demais. A principal consequência dessa rigidez é a perda relativa de renda. Já que por existir várias desvantagens estratégicas atuando de forma desfavorável aos ofertantes de força de trabalho, a redução do pagamento demandado pelo trabalho termina sendo uma compensação para a sua permanência no mercado. 3.1 O CONTRATO DE TRABALHO Foi visto até aqui que existe uma série de desvantagens estratégicas possíveis para os ofertantes, dando nítida vantagem aos demandantes de trabalho. Essas desvantagens levam a diferente relação de poder e de exploração, que pode ser razoavelmente equalizada por intervenção política do Estado em favor do lado mais fraco nesta relação. Offe (1989) acredita que há um conflito de classes industrial no seio da estrutura do mercado de trabalho e que constantemente se apresenta de forma violenta. Tais conflitos seriam gerados pelo diferencial de poder estabelecido no contrato de trabalho. Diferente do que ocorre nos contratos comuns de venda, no mercado de trabalho os compradores e vendedores não estabelecem a totalidade das relações que surgem entre as partes. Nos contratos de venda se estipulam qualitativamente e quantitativamente o que passará para as mãos do comprador, bem como as condições de pagamento e o preço. Desta forma, defini-se reciprocamente o que cabe a cada parte dos que celebram o contrato. Além disso, o vendedor perde legalmente a posse do que foi vendido, e de forma análoga, o comprador ao pagar pelo produto assume legalmente a posse do que foi 60 comprado. Offe (1989) afirma que esse ponto do contrato é apaziguador na medida em que garante os direitos contratuais de ambas as partes. No mercado de trabalho os contratos visam regular as relações sociais entre compradores e vendedores, com o comprador se comprometendo a pagar determinada quantia por determinado período de contrato. Porém, em um contrato regular (que não é para uma atividade específica como a tradução de um livro), o valor a ser pago pelo trabalho é apenas circunscrito, não é fixado. Quando, por exemplo, alguém contrata um trabalhador para serviços de eletricidade, o contrato de trabalho não especifica o número certo de fios ou de disjuntores a serem instalados em um certo período de tempo; o trabalhador simplesmente é contratado como ”um eletricista”. Deste modo, o vendedor da força de trabalho geralmente é obrigado a realizar tarefas de um certo tipo (definidas de acordo com a especificação do trabalho, com a categoria ocupacional, etc.) em uma empresa, por um tempo determinado e dentro da estrutura de regras e de relações organizacionais da empresa. Em outras palavras, o contrato de trabalho tem simplesmente o caráter de uma estrutura contratual. As atividades de trabalho concretas, quantitativa e qualitativamente especificadas, não fazem parte do contrato; constam dele, simplesmente, as condições formais sob as quais os empresários podem usar a força de trabalho para objetivos concretos que, desde o início, não são fixados com precisão e, de fato, não poderiam ser fixados antecipadamente (OFFE, 1989, p. 33-34). Tal fenômeno pode ser verificado também quando se verifica o trabalho por unidade de produção. Isso ocorre porque o número de peças por unidade de tempo não compõe o contrato de trabalho, podendo ser exigido cada vez mais do trabalhador. Assim, percebe-se uma indeterminação contratual da produção esperada de um trabalhador nos contratos de trabalho. Para Offe (1989), essa indeterminação é inevitável neste tipo de contrato e é decorrente do desconhecimento das condições concretas da atividade da empresa, como o volume de encomenda dos clientes e mesmo detalhes do processo de trabalho futuro ainda não estão fixados ou não são conhecidos, permitindo certa liberdade do empregador para utilizar a força de trabalho. Outra dificuldade contratual é que a intensidade do desempenho do trabalho não pode ser fixada, mas apenas circunscrita através da determinação de carga horária semanal, por exemplo. Mas ainda há outra dificuldade, a indeterminação presente no contrato de trabalho não está somente relacionada à quantidade e intensidade que o 61 trabalhador empregará no exercício das suas atividades laborais, mas também ao fato de que o empregador compra força de trabalho viva, que ainda que colocada à disposição da empresa, permanece sob controle do trabalhador. (...) Isso significa que a empresa que compra a força de trabalho depende do ”objeto” comprado, que mantém sua subjetividade e que está em alguma medida preparado para trabalhar ”por si próprio” e para cooperar no processo de trabalho. Seria ”tecnicamente” impossível ou altamente dispendioso e contraproducente para os empregadores imporem aos empregados exigências legais de desempenho especificadas detalhadamente. Onde quer que a subjetividade dos trabalhadores, seu estímulo para trabalhar e seu controle autônomo de sua atividade de trabalho pudessem ser dispensados, a empresa instalaria máquinas ou outros meios materiais de produção (OFFE, 1989, p. 35). Desta forma, a força de trabalho permanece sob controle dos vendedores, sendo inseparável deles, diferente das demais mercadorias. No entanto, essa autonomia traz alguns riscos para os empregadores, uma vez que estão sujeitos ao risco dos trabalhadores utilizarem a subjetividade do trabalho com propósitos diferentes dos pretendidos pela empresa. Percebe-se neste ponto que há um duplo controle na estrutura do contrato de trabalho, uma superposição que não pode ser separa legalmente, Qual seja, O interesse dos empregados em defenderem sua autonomia, a integridade física de sua força de trabalho e suas qualificações entra em conflito com o interesse empresarial de maximizar a utilização econômica da força de trabalho ”adquirida”, cujo valor de uso produtivo de nenhum modo é garantido por aquele trabalhador simplesmente comparecendo ao local de trabalho e lá permanecendo durante a jornada (como é especificado no contrato de trabalho) (OFFE, 1989, 36). Tal divergência pode ser minimizada através de fiscalização, controle, instrução, supervisão e prestação de contas, mas não pode ser evitada enquanto conflito. No contrato de trabalho existe uma definição vaga que permite a existência, quando muito, de um equilíbrio instável. Esse equilíbrio avança e também recua continuamente em um processo que privilegia hora um, hora outro lado dessa relação conflituosa entre compradores e vendedores de força de trabalho. No tópico quatro, verificar-se-á as características do mercado de trabalho na Ride. 62 4. CARACTERÍSTICAS DO EMPREGO NA RIDE POLO PETROLINA/JUAZEIRO Para compreender melhor as características do emprego formal na Ride, faz-se imperativo conhecer um pouco das características desta região. Nela, a atividade econômica mais importante, de acordo com os dados do IBGE, é a agricultura, pecuária, silvicultura e exploração florestal. Vale ressaltar que essa categoria de análise é utilizada nesse trabalho como uma variável proxi do agronegócio. Sobre esse ponto, reconhece-se que nem toda atividade do pequeno agricultor é agronegócio, mas imerso naquele ambiente, até mesmo os pequenos produtores são beneficiados com o conhecimento do trato cultural. Desta forma, ainda que de forma precária, o pequeno agricultor se beneficia dos conhecimentos aplicados no agronegócio, pois ocorre um transbordamento desse conhecimento. Assim, o agronegócio já era a atividade que mais ocupava os trabalhadores no ano 2000 (37,1) e continuou desta forma por toda a década, chegando em 2010 com 34,4% dos trabalhadores ocupados nela. Houve uma redução na sua participação, porém continua a ser a mais importante, representando quase o dobro da participação da atividade que se situa na segunda posição em termos de ocupação, conforme Tabela 1. Tabela 1 — Distribuição setorial da ocupação — dez mais importantes atividades - Ride — 2000/2010 Setor de Atividade Econômica Postos de trabalh o Ano 2000 Postos de % de trabalh participação o por setor Ano 2010 % de participação por setor Setor de Atividade Econômica 96.012 34,4 49.537 17,7 Agricultura, pecuária, silvicultura e exploração florestal Comércio, reparação veículos automotores 74.545 37,1 33.509 16,7 Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura Comércio; reparação de veículos automotores Educação 11.868 5,9 Construção 18.770 6,7 Indústrias de transformação 11.651 5,8 16.024 5,7 Serviços domésticos 10.652 5,3 Educação Administração pública, defesa e seguridade social 14.538 5,2 Construção Administração pública, defesa e seguridade social 10.600 5,3 Serviços domésticos 14.027 5,0 9.228 4,6 11.813 4,2 Alojamento e alimentação Transporte, armazenagem e comunicações 9.018 4,5 11.671 4,2 7.562 3,8 Atividades mal definidas Indústrias de transformação Alojamento e alimentação 9.162 3,3 63 Ativs imobiliárias, aluguéis, serviços prestados às empresas Ride 6.159 3,1 Transporte, armazenagem e correio 201.165 100 Ride 9.057 279.23 5 3,2 100 Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Censo Demográfico, 2000/2010. Os dados até aqui analisados apontam para uma melhora na demanda por força de trabalho na região. Tal fato se concretiza ao se analisar a Tabela 2, que traz a taxa de desemprego na Ride nos anos 2000. Nesse período todos os municípios que compõem a região integrada reduziram suas taxas de desemprego. Nessa análise, vale destacar Sobradinho com uma redução no período de 49,98%. Em seguida temos Petrolina como destaque, que apresentou o segundo melhor desempenho, com 41% de redução na taxa de desemprego. Tabela 2 — Taxa de desemprego — Ride — 2000/2010 Variação Município Casa Nova 2000 2010 Absoluta Percentual 9,74 7,92 -1,82 -18,73 Curaçá 11,24 8,79 -2,45 -21,82 Juazeiro 17,86 11,09 -6,77 -37,90 Lagoa Grande 11,61 11,40 -0,21 -1,77 8,03 5,61 -2,42 -30,18 17,68 10,43 -7,25 -41,00 8,90 6,89 -2,01 -22,56 Sobradinho 24,97 12,49 -12,48 -49,98 Total 15,93 10,12 -5,81 -36,47 Orocó Petrolina Santa Maria da Boa Vista Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Censo Demográfico, 2000/2010. Esse resultado de Petrolina é melhor que o logrado por Juazeiro (37,9%). Em 2000 os dois municípios possuíam taxas de desemprego semelhantes, Petrolina com 17,68 e Juazeiro levemente superior, com 17,86. Em 2010 têm-se taxas de 10,43 e 11,09 respectivamente, o que evidencia melhor desempenho econômico do município pernambucano, lembrando que este apresentou maior taxa de participação que o município baiano. Segundo os dados da Rais, no ano 2000, assim como o verificado a partir dos dados do censo do IBGE, a atividade que mais gerava postos de trabalho era o agronegócio, com 12.568 postos, dos 49.658 totais. Os municípios com maior destaque foram Petrolina e Juazeiro respectivamente. No entanto, ressalta-se que em metade dos 64 municípios da Ride o agronegócio não esteve à frente como atividade com maior número de postos de trabalho. São os casos de Petrolina, Juazeiro, Orocó e Sobradinho. No caso de Orocó, o maior número de postos de trabalho localizava-se na administração pública. Já no caso de Sobradinho, atribui-se tal característica ao seu próprio surgimento enquanto cidade emancipada, pois se desmembrou de Juazeiro em 1989 e possuía desde então, economia voltada ao abastecimento das atividades da Companhia Hidrelétrica do São Francisco, que possui importante usina hidrelétrica na cidade. Assim, suas atividades não estavam vinculadas ao agronegócio, mas ao contrário, sempre estiveram ligadas ao funcionamento da usina e aos serviços de abastecimentos daquela. Petrolina e Juazeiro, no entanto, apresentam as economias mais complexas dentre as que compõem a Ride. Assim, apesar de possuírem o agronegócio como forte vetor de crescimento, o setor de serviços apresenta-se como maior empregador para ambos os municípios. Nos anos 2000 verificou-se uma forte alteração na estrutura das atividades que mais empregavam na Ride. Enquanto que no ano 2000 quatro municípios possuíam como maior força na geração de postos de trabalho o agronegócio, ao longo da década essa estrutura se modificou ao ponto de apenas um município da Ride possuir como maior empregadora a atividade do agronegócio, que foi o caso de Casa Nova (Tabela 3). Tabela 3 — Estoque de emprego formal, segundo o setor de atividade econômica — Ride — 2000 e 2010. 2000 Serviços Ind. de Uti. Pública Serviços Adm Pública Agropecuária , Ext. Vegetal, Caça e Pesca 101 4 364 554 1.041 4 8 6 348 0 366 14 1.372 4.894 6.194 3.621 5.683 23.879 27 0 0 156 80 701 918 1.882 6 5 0 0 97 62 427 1.303 1.900 Curaçá 1 1 15 5 43 214 0 448 727 Juazeiro 9 3.461 402 628 3.248 5.068 2.522 3.652 18.990 Sobradinho 0 4 163 31 623 33 9 10 873 47 5.585 594 2.041 9.170 11.661 7.992 12.568 49.658 Extrativa Mineral Indústria de Transformação Lagoa Grande 0 17 0 1 Orocó 0 0 0 Petrolina Sta Ma da Boa Vista 31 2.070 0 Casa Nova Município Total Construção Comércio Civil 2010 Total 65 Serviços Ind. de Uti. Pública Adm Pública Agropecuária, Ext. Vegetal, Caça e Pesca 48 1.145 867 2.523 69 11 453 19 554 5.414 12.443 12.566 6.756 10.394 51.010 3 3 339 75 1.213 182 1.908 195 54 36 615 227 2.524 2.978 6.629 1 32 0 1 229 66 1.049 179 1.557 26 3.754 457 584 7.605 6.166 5.875 4.228 28.695 0 11 162 36 162 137 991 47 108 7.513 754 6.076 21.775 19.296 20.006 18.894 1.546 94.42 2 Extrativa Mineral Indústria de Transformação Lagoa Grande 0 150 0 0 313 Orocó 0 0 0 2 Petrolina Sta Ma da Boa Vista 72 3.287 78 9 84 Casa Nova 0 Curaçá Município Juazeiro Sobradinho Total Construção Comércio Civil Serviços Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000/2010. Embora a atividade do agronegócio tenha crescido em torno de 50% ao longo da década, ela perde importância relativa para as atividades do comércio, administração pública e serviços. Neste período, percebe-se que o município de Petrolina se distanciou de Juazeiro na geração de empregos formais, ocupando em 2010 clara posição de liderança econômica inconteste, concentrando mais de 50% de todos os postos formais de emprego. No Gráfico 2 têm-se a evolução do estoque de emprego formal nos anos 2000, tanto na Ride como um todo, quanto nos dois mais importantes municípios que a compõem, Petrolina e Juazeiro. Vale destacar que Petrolina agregou ao seu estoque mais de 25 mil postos de trabalho, enquanto Juazeiro não conseguiu agregar 10 mil postos no mesmo período. Gráfico 2 – Crescimento do estoque de emprego formal — Juazeiro, Petrolina e Ride — 2000 a 2010 2158ral 2035ral 2039ral 1965ral 1951ral 1978ral Ride Petrolina Juazeiro Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000/2010. Total 66 Quanto ao rendimento médio do emprego formal, verificou-se que todos os municípios da Ride, com exceção de Sobradinho, apresentaram considerável aumento, fato que mostra uma melhora nas condições de trabalho. Petrolina possuía o segundo melhor nível de rendimento médio no ano 2000, ficando atrás apenas de Sobradinho, que em função dos trabalhadores vinculados à Chesf possui um elevado rendimento médio para os padrões da região. Porém, apesar dessa característica, este município perde a liderança neste quesito, ficando em terceiro lugar. As primeiras colocações passam para Petrolina e Juazeiro respectivamente (Tabela 4). Vale ressaltar ainda sobre a evolução do rendimento médio do trabalho formal, que durante os anos 2000, ele mais que dobrou para toda a Ride, obtendo um aumento de R$ 710,00. Importante lembrar que em 2000 o salário mínimo estava no valor de R$ 151,00 e o menor rendimento médio daquele ano registrado para os municípios em questão foi de R$ 293,00, em Lagoa Grande. Tabela 4 — Rendimento¹ médio em 31/12 do emprego formal — Ride — 2000/2010 Município 2000 2010 Variação em R$ Variação percentual Lagoa Grande R$ 293 R$ 786 R$ 492 168 Orocó R$ 321 R$ 849 R$ 528 164 Petrolina R$ 441 R$ 1.176 R$ 735 167 Santa Maria da Boa Vista R$ 294 R$ 942 R$ 648 221 Casa Nova R$ 261 R$ 820 R$ 559 214 Curaçá R$ 294 R$ 992 R$ 698 238 Juazeiro R$ 408 R$ 1.156 R$ 747 183 Sobradinho R$ 729 R$ 1.148 R$ 419 57 Ride R$ 415 R$ 1.125 R$ 710 171 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000/2010. (1) Na média se desconsiderou os trabalhadores com rendimento igual a zero. Aprofundando um pouco mais a análise do mercado formal na Ride, verifica-se que a massa salarial paga em 2000 aos trabalhadores dessa região somava R$ 21.820.000. Em 2010 esse valor chegou a R$ 103.930.000, representando uma variação da ordem de 476%. Esse crescimento se deve a dois fatores, o crescimento do mercado de trabalho e também ao aumento dos níveis salariais. Mais uma vez, verifica-se que Petrolina está bem à frente dos demais municípios. Ela sozinha concentra R$ 58.880.000 da massa salarial, que representa 57% do total. Assim, esse município detém a maior parte dos postos e também a maior parte 67 dos postos que pagam os melhores salários. Juazeiro apresenta o segundo melhor desempenho, com R$ 32.400.000 de massa salarial, correspondendo a 31% do total. Os demais municípios da Ride apresentam valores muito pequenos, já que 88% de toda a massa salarial se encontra concentrada em Petrolina e Juazeiro. Tabela 5 — Massa salarial¹ em 31/12 do emprego formal — Ride — 2000-2010 Município 2000 2010 Variação percentual Lagoa Grande R$ 3,1 R$ 18,5 604 Orocó R$ 1,2 R$ 4,7 392 R$ 111,0 R$ 588,8 530 Santa Maria da Boa Vista R$ 5,5 R$ 17,5 315 Casa Nova R$ 5,9 R$ 53,3 901 Curaçá R$ 1,1 R$ 15,0 1324 Juazeiro R$ 83,9 R$ 324,0 386 Sobradinho R$ 6,5 R$ 17,5 271 Petrolina Ride R$ 218,2 R$ 1.039,3 476 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000-2010. (1) Em unidades de R$ 100 mil. Na análise da massa salarial do emprego formal segundo a agropecuária, verifica-se um quadro semelhante. Petrolina continua na liderança, seguida por Juazeiro, que juntos detinham 78,2 % da massa salarial em 2000 e em 2010 detinham 77,3%. Vale ressaltar porém, que o crescimento de Petrolina foi bem mais significativo que o de Juazeiro, fazendo com que o município baiano perdesse importância relativa na massa salarial. Tal fato ocorreu tanto para a massa salarial do setor agropecuário (tabela 6), quanto na massa salarial da Ride (Tabela 5). Tabela 6 — Massa salarial¹ em 31/12 do emprego formal, segundo a agropecuária — RIDE — 2000-2010 Município 2000 2010 Variação percentual Lagoa Grande R$ 1,7 R$ 5,6 Orocó R$ 0,0 R$ 0,1 R$ 16,3 R$ 69,3 427 Santa Maria da Boa Vista R$ 2,2 R$ 1,2 -54 Casa Nova R$ 4,5 R$ 19,7 442 Curaçá R$ 0,4 R$ 1,3 349 R$ 14,5 R$ 26,6 184 R$ 0,0 R$ 0,3 Petrolina Juazeiro Sobradinho 340 - - Ride R$ 39,4 R$ 124,1 315 Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000-2010. (1) Em unidades de R$ 100 mil. 68 Os dados da massa salarial confirmam o ganho de importância de Petrolina no agronegócio em relação aos demais municípios e a Tabela 7 mostra claramente isso. Embora Casa Nova tenha apresentando maior variação percentual em ganho de postos de trabalho formal no setor, o maior estoque de postos formais se encontra naquele município pernambucano. Juazeiro, que se situa na segunda posição em ambos os períodos analisados, apresentou um crescimento muito pequeno, 1,6% na média anual, contra 8,3% de Petrolina e 12,9% de Casa Nova. Tabela 7 — Variação do estoque de emprego formal, segundo setor agropecuário — Ride — 2000/2010 Variação Município 2000 Lagoa Grande 2010 Per. Média Anual Percentual 554 867 313 56,5 5,6 0 19 19 — — 5.683 10.394 4.711 82,9 8,3 918 182 -736 -80,2 -8,0 1.303 2.978 1.675 128,5 12,9 448 179 -269 -60,0 -6,0 3.652 4.228 576 15,8 1,6 10 47 37 370,0 37,0 12.568 18.894 6.326 50,3 5,0 Orocó Petrolina Santa Maria da Boa Vista Casa Nova Curaçá Juazeiro Sobradinho Total Absoluta Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000/2010. Assim, Juazeiro seguiu perdendo cada vez mais relevância relativa na Ride. Petrolina consolidou sua liderança regional e Casa Nova aponta com grande possibilidade de assumir o segundo lugar no agronegócio regional, destituindo Juazeiro de tal posição. O Gráfico 3 mostra o desempenho dos componentes da Ride. Outro destaque no avanço do estoque do emprego formal é Lagoa Grande, que juntamente com Casa Nova possuem importantes vinícolas. Gráfico 3 - Percentual médio de crescimento anual do estoque de emprego formal, segundo setor agropecuário – Ride – 2000/2010 37 06 00 13 08 Petrolina 05 Juazeiro Ride -06 -08 Lagoa Grande 02 Casa Nova Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000/2010. 69 A perda de importância relativa de Juazeiro, como já foi dito, se concretiza na visualização do Gráfico 4, pois se percebe o deslocamento de Petrolina entre 2000 e 2010 se distanciando do município baiano. Tal quadro clarifica a posição de Petrolina como ponto luminoso de desenvolvimento e confirma a que Juazeiro perdeu importância ao longo dos anos 2000, sendo portanto um ponto opaco no desenvolvimento do Nordeste, contrariando a afirmação de Elias (2006). Gráfico 4 — Números de estabelecimentos formais, segundo setor agropecuário — Juazeiro, Petrolina e Ride — 2000-2010 1.219 820 732 441 240 148 2000 Petrolina Juazeiro 2010 Ride Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) — Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2000-2010. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A principal pretensão deste artigo foi verificar de que forma o mercado de trabalho refletiu a condição de centro dinâmico do agronegócio nordestino na Região Integrada de Desenvolvimento Econômico Pólo Petrolina/Juazeiro. Esta Ride, que é composta por oito municípios (Lagoa Grande-PE, Orocó-PE, Petrolina-PE, Casa NovaBA, Curaçá-BA, Juazeiro-BA e Sobradinho-BA) tem em Juazeiro e Petrolina suas forças motrizes. Esses dois municípios foram elencados por Elias (2006) como pontos luminosos de desenvolvimento do Nordeste. No entanto, sob o ponto de vista do mercado de trabalho, percebe-se que a Ride possui apenas um centro dinâmico, apenas um ponto luminoso, que é o município de Petrolina. Os demais, incluindo aí Juazeiro, constituiriam apenas pontos opacos de desenvolvimento. Assim, nos anos 2000 percebe-se que houve o aumento dos postos de trabalho formais, tanto para as atividades em geral, quanto para o agronegócio da Ride e houve melhora no rendimento médio do trabalhador. Os municípios que mais se destacaram na 70 Ride foram Petrolina e Juazeiro. Porém, Petrolina se desloca gradualmente alcançado melhores níveis de crescimento em relação a Juazeiro. No decorrer dos anos 2000, o município pernambucano ganha importância relativa em relação ao município baiano. Petrolina aumenta a concentração dos melhores postos de trabalho, paga os melhores salários, e apresenta maior crescimento econômico, concentrando maior estoque de empregos formais de forma generalizada, inclusive no agronegócio. Os demais municípios apresentam pouca relevância na composição dos estoques de emprego, e são apenas coadjuvantes no processo de crescimento da região. A grande força motriz é de fato Petrolina, constituindo-se num ponto luminoso para o Nordeste. Juazeiro se apresenta como um ponto opaco, perdendo paulatinamente representatividade na composição do crescimento local. REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo. 2000 e 2010. 2 CD ROOM’s. BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Departamento de Emprego e Salário. Coordenação Geral de Estatística do Trabalho. Relação Anual de Informações Sociais (RAIS): estabelecimento. [S. l.: s. n], 2000 a 2010. 11 CD ROOM’s. 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In: Congresso Brasileiro da Sociedade de Economia, Administração e Sociologia Rural – SOBER, 2013. Pará. Anais ... Pará: SOBER, 2013 71 MDIC (Sistema AliceWeb) – Sistema de Análise das Informações de Comércio Exterior via Internet do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. http://aliceweb.desenvolvimento.gov.br/. OFFE, Claus. A economia política do mercado de trabalho. In: Capitalismo desorganizado. Transformações contemporâneas do trabalho e da política. São Paulo: Brasiliense, 1989. p. 19-69. POCHMANN, Marcio. Reação do mercado de trabalhono Brasil metropolitano frente à crise internacional. In: Economia, desenvolvimento regional e mercado de trabalho do Brasil. MORETTO, Amilton... et al (ORGS). Fortaleza: Instituto de Desenvolvimento do Trabalho, Banco do Nordeste do Brasil, Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, 2010. SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 5ª.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil: Território e sociedade no inicio do século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2012. SOUZA, Laumar Neves de. Evolução do emprego formal na Bahia nos anos 2000: aproximações ao Trabalho Decente? Bahia Análise & Dados v.1. Salvador: Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia, 2010. 72 TURISMO E TERRITÓRIO Leandro Carvalho de Almeida Gouveia 1 RESUMO Esse artigo pretende refletir acerca do Estado e do Território. A abordagem econômica e ambiental tem como base a ideia de que o turismo tenha um desenvolvimento de uma maneira muito semelhante aos padrões históricos e da dependência econômica. Por meio dessa visão, a indústria é tão fortemente governada por determinantes políticos e econômicos que pouca atenção é direcionada aos outros aspectos. O ser humano presente no mundo, e que forma sociedades, habita um território e é desejoso de divulgar o desenvolvimento, que requer um planejamento para orientar de forma correta as ações que serão empreendidas, com a participação das esferas privada e pública. Tais ações devem buscar obter uma sustentabilidade em termos sociais, com a participação de todos numa gestão integrada, inclusive dos atores locais, de modo a que as ações também correspondam às expectativas da população nativa. PALAVRAS-CHAVE: Estado. Território. Sustentabilidade. Turismo. ABSTRACT This paper reflects on the State and Territory. We have aa economic and environmental approach, this is based on the idea that tourism development has in a way very similar to historical patterns and economic dependence. Through Through destsa vision, the industry is so heavily as governed by political and economic determinants that little attention is directed to the other aspects. The human being in this world, and forming a society, inhabiting a territory and is willing to disclose the development which requires planning to guide correctly their actions to be undertaken with the participation of the private and public spheres . Such actions must seek to achieve sustainability in social terms, with the participation of all in the integrated management, including local stakeholders, so that the actions also match Tthe expectations of the native population. KEYWORDS: State. Territory. Sustainability. Tourism. 1 Doutorando em Desenvolvimento Regional e Urbano (UNIFACS), Mestre em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social (FVC); Especialista em Metodologia do Ensino Superior (FAMTTIG); Bacharel em Turismo (FVC); Gestor de Negócios e Turismo (FAMETTIG) e Licenciado em Geografia (FACE). [email protected] 73 INTRODUÇÃO Este artigo versa acerca do Estado e do território. Essa análise leva em conta os diversos fatores que atuam modificando o território, tais como: naturais, artificiais, pessoas, empresas, governo e turistas. Esses agentes, juntos aos nativos em contato com o território, alteram o espaço. O escopo teórico central está embasado em Guerreiro Ramos (1996), Milton Santos (1986, 1994, 1997, 2000, 2001) e Carlos Beni (2003, 2006), estruturado em temáticas de fundo: a sustentabilidade, as interações no território e o novo paradigma, um conceito de território, dinâmico e agregador. Vários são os aspectos agindo no território, entre eles o econômico, pois não se pode fugir da força do sistema de mercado. É preciso compreender que o mundo vem passando por transformações que se manifestam no desenvolvimento regional. O Brasil se insere nesse contexto quando reestrutura a sua economia e seu modelo produtivo nos anos de 1990, com medidas inauguradas ainda no fim dos anos de 1980, com a nova Constituição, seguidas pela abertura comercial do governo Fernando Collor. Seguem-se as reformas do papel do Estado e o plano de estabilização econômica, desenvolvidos nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso (SILVA, 2007). Somente compreendendo o sistema produtivo nacional é que podem ser desenvolvidas as políticas sociais aplicáveis e possíveis de serem alcançadas com sucesso no território. Nesse início de milênio, observa-se que o mundo transforma-se de maneira dinâmica e também que as teorias e políticas de desenvolvimento regional e local sofrem profundas transformações, em razão das modificações ocorridas nos processos produtivos, aliadas ao persistente declínio de regiões fortemente industrializadas e a rápida ascensão econômica de novas regiões (FONSECA, 2006). O problema consiste em verificar a atualização e aplicação do conceito de território em consonância com a contemporaneidade, acrescentando ao território o fundamento agregador. Em outras palavras, no modelo apresentado por Ramos (1996) o mercado é regulado e restrito na sua liberdade, coexistindo com outros espaços sociais nos quais os indivíduos buscam sua realização pessoal e o enriquecimento de suas vidas. Esse autor entende que esse novo paradigma é necessário por causa das consequências nocivas que essa hegemonia do sistema de mercado tem acarretado para a saúde psíquica dos indivíduos, para a vida coletiva como um todo e para a 74 conservação dos recursos naturais, principalmente, os não renováveis (AZEVEDO; ALBERNAZ, 2004). Para que o crescimento autossustentável, ou a sustentabilidade, ocorra é preciso que haja emparelhamento entre o econômico e o social. Na prática, o desenvolvimento social não ocorre na mesma amplitude que o econômico, pois este último concentra-se nas empresas externas. Ocorre que, segundo Luzon (2001), o conceito de desenvolvimento evoluiu a partir da década de 1970, não se vinculando apenas à economia na medida em que se considera que o processo é econômico, social, político, ambiental e cultural. Para fazer este estudo, o território foi compreendido a partir do conceito que privilegia uma amplitude de fatores: O território não é apenas um conjunto de formas naturais, mas um conjunto de setores naturais e artificiais, junto com as pessoas, as instituições e as empresas que abriga, não importa o seu poder. [...] o território deve ser considerado em suas divisões jurídico-políticas, suas heranças históricas e seu atual conteúdo econômico, financeiro, fiscal e normativo. (SANTOS, 1997, p. 3). O mundo passa a ser um território onde acontece de fato a ocorrência de uma profunda inter-relação entre si, como também o ser humano é visto ao mesmo tempo como um ser no mundo e ser do mundo, inserido no contexto do território agora globalizado. Na atualidade, acontece uma grande mudança em várias esferas do relacionamento humano no mundo dessa modernidade que chegou tarde, e estamos vendo mudanças importantes nesse processo de transnacionalização do território. “Mas, assim como antes tudo não era, digamos assim, território ‘estatizado’, hoje tudo não é estritamente ‘transnacionalizado” (SANTOS, 1994, p. 15). Visto isto, nos lugares onde o processo de globalização chega de forma cada vez mais correta, os territórios habitados, por outras tessituras, a partir de novas redes de fortes, colocam uma imposição no processo de globalização, a sua revanche, isto é, outro convite para um novo embate. TERRITÓRIO É MAIS QUE ESPAÇO Para Santos (2000), a compreensão da totalidade epistemológica da geografia do espaço busca compreender essa situação total de um certo período, ou seja, o período 75 histórico desde o final da Segunda Guerra Mundial até o período vigente. Santos (1994) afirma que, neste caso da economia na sua formação e social de certa forma ajudar na construção de um melhor entendimento da questão do espaço geográfico. De acordo com esse autor, não se deve falar da lei sem falar da evolução das formações espaciais, além da criação socioespacial. O espaço não desapareceu com o crescimento do mundo moderno, mas houve uma pequena mudança na sua qualificação. De acordo com Santos (1994), estamos vivendo um grande momento das nossas durante a história, temos a opção de uma totalidade empírica na qual temos uma nova situação da natureza. Nesse caso, o mais importante é a criação do homem, a selva de pedra. Temos as situações das as três unicidades como dados para a construção desse momento: a convergência dos momentos, a unicidade técnica e a unicidade do motor. O autor coloca ainda que vamos encontrar em todos os lugares a dialética. Claro que temos as divergências e outras opiniões, nesse atual momento global que vivemos, nem tudo é positivo, o lugar e o espaço mundial existe apenas como metáfora. Conforme afirma Santos (1994), quanto mais os lugares se globalizam, torna cada vez parecido no ponto de vista nas questões importantes do território têm em um determinado lugar, não poderemos ter igual em outro lugar. Podemos ver que, no atual mundo moderno, temos várias fragmentações. Santos (1994) faz uma sugestão de revermos alguns pontos que podem ser importantes para fazer uma divisão regional do país, vendo a realidade de cada lugar como algo que deve mudar, tendo uma estrutura antiga. Afirma que é importante ter uma classificação tendo critérios quanto aos impactos que devem acontecer nesse território, já que com a mudança na cidade deveria se pensar de outra forma, com mais cuidado em todos os pontos e requisitos. É importante levar em consideração a organização do que é produzido, normalmente tem sua história da sua população de onde vive. Santos (1994) sugere dividirmos em três grandes regiões, mostrando o conceito de Região Concentrada. Nesse caso, acontecem as inovações, que foi mais veloz e complexa, tendo uma sequência de renovação das forças de produção além do território, que representa uma enorme rapidez para as coisas que precisam efetuar na parte da sua economia, de acordo com as Regiões Sudeste, Sul e partes da região Centro-Oeste. Temos as questões dos conceitos de circuitos espaciais da produção, que constroem um par dialético com estes círculos na sua cooperação, e o da Região Concentrada. 76 Santos (2001 apud MÜLLER, 2006) enfatiza que a ideologia capitalista é concretizada e consolidada por meio de empresas transnacionais, que, de posse da tecnologia da informação, puderam extrapolar as fronteiras de seus países de origem e passaram a atuar no espaço internacional. Os motivos que levaram essas empresas transnacionais a ampliarem suas áreas de atuação estão relacionados à crise que o capitalismo enfrentou na década de 1970, e que provocou a queda do lucro. Para manter a perpetuação da acumulação, essas empresas precisaram baixar o custo da produção e conquistar novos mercados consumidores para seus produtos. Isso só foi possível porque elas passaram a descentralizar o processo de produção e foram produzir em lugares que ofereciam melhores condições que seus países de origem, como, por exemplo, a utilização de mão de obra mais barata. Podemos ver nesse caso que o conceito de circuito espacial da produção foi abordado por Santos (1986): está claro que “os circuitos espaciais da produção nos dão a situação relativa dos lugares, isto é, a definição, num dado momento, da respectiva fração de espaço em função da divisão do trabalho sobre o espaço total de um país”. Nesse caso, podemos ver as relações de produção social, as relações sociais de produção, que acontecem entre as firmas e entre as relações de produção do passado, tendo sua continuação no presente, mantidas pelas pessoas do lugar. O equilíbrio pretendido entre a atividade humana e o desenvolvimento e a proteção do ambiente exige uma repartição de responsabilidades equitativas e claramente definidas com relação ao consumo e ao comportamento face aos recursos naturais. Isso implica a integração de considerações ambientais na formulação e implementação das políticas econômicas e setoriais, nas decisões das autoridades públicas, na operação e desenvolvimento dos processos de produção e nos comportamentos e escolhas individuais. Implica igualmente a existência de um diálogo real e a pactuação de ações de parceiros que podem ter prioridades de curto prazo diferentes; tal diálogo terá de ser apoiado por informação objetiva e crível. A INTERVENÇÃO SUSTENTÁVEL É IMPOSITIVA Beni (2006) entende que as ações antrópicas, no caso dos impactos negativos nos ecossistemas, mudaram a situação, e atualmente não temos limites geofísicos e socioculturais, mas praticamente temos em toda a humanidade. 77 Em relação ao assunto ecologia, que começou o terreno para o exame dessas inter-relações, o que podemos ver na atualidade como destaque e relevância é o turismo sustentável. Nesse caso, abriga desde infindos posicionamentos políticos e geoestratégicos até interesses imediatos para navegar nesse tema, que é muito importante, e fluido em seus aspectos práticos na questão da segunda maior indústria do mundo, que é o turismo. Podemos perceber que na questão do equilíbrio pretendido entre a atividade humana e o desenvolvimento e a proteção do ambiente deve haver participação de todos na questão das responsabilidades, que devem ser bem definidas com relação ao consumo e ao comportamento face aos recursos da natureza. Para isso acontecer, deve haver boas políticas econômicas e setoriais nas decisões das autoridades públicas, na operação e desenvolvimento dos processos de produção e nos comportamentos e escolhas individuais para participar. Claro que deve haver um diálogo real e as regras de ações dos colaboradores devem priorizar fazer num pequeno tempo, cada um com o seu tempo, e esta conversa deverá ser apoiada por informação objetiva. Cardoso (2005) tem uma opinião em relação ao turismo sustentável: O conceito de turismo sustentável passou por uma série de transformações até chegar à proposta atual em que se crê que todo tipo de empreendimento pode ter como objetivo a sustentabilidade. Os empreendimentos hoteleiros conhecidos como resorts – vistos, tradicionalmente, como uma forma de hospedagem insustentável do ponto de vista social – foram escolhidos como objeto desta pesquisa que tem como objetivo explorar como este segmento da indústria hoteleira vem respondendo à nova proposta inclusiva do conceito de turismo sustentável. Cardoso (2005) está correto quando coloca que há várias opiniões, de vários autores, e a preocupação da rede hoteleira com o meio ambiente. Visto isso, a palavra sustentabilidade deve refletir uma política e estratégia de desenvolvimento social e econômico de forma que aconteça sempre não prejudicando o local e a natureza. Dessa qualidade depende a continuação do ser humano, além da responsabilidade com o crescimento. Podemos ver claramente a preocupação crescente em relação à sustentabilidade das atividades turísticas. Levando em consideração a importância da indústria do turismo, esse tema vem ganhando espaço em pesquisas, seminários e publicações no Brasil e em todo o mundo. Beni (2003) destaca que todos os pesquisadores e autores que se dedicam ao estudo do tema são unânimes na questão da sustentabilidade, de que algo deve ser feito 78 agora e depois, para as futuras gerações do planeta Terra, que gere valor agregado por meio de boas leis para a população e para o local, dando a inclusão, além da questão social, nesse processo, para desenvolver a cidade com uma gestão integrada. É fundamental ter essa preocupação com o meio ambiente e com as pessoas que moram no local, na cidade, no estado. Deve sempre haver diálogo com todos, para preservar e para que as pessoas, no futuro, encontrem um bom lugar para viver. Vemos o crescimento da parte artificial do nosso meio ambiente, resultando de certa maneira na tecnoesfera, marcada pela presença de enormes objetos geográficos, pensados e feitos pelo homem, havendo uma parceria entre ambos, algo muito importante. Realmente podemos justificar essas técnicas que mostram ser correto para a explicação do espaço e, de certa maneira, uma direção epistemológica para a Geografia é pensá-la como Filosofia das Técnicas no atual momento. Para Beni (2003), podemos perceber que toda sua obra refere-se às formulações sobre os aspectos e faces da desigualdade nos países mais pobres, além dos impactos e repercussões sobre o território e o espaço. São características desse momento: os estudos sobre a estrutura interna da cidade; o processo de urbanização; e o estudo da rede urbana nos países pobres. O grande destaque é para os países da América Latina, onde o autor fundamenta as bases de seu trabalho, mas há também exemplos dos outros continentes subdesenvolvidos, especialmente de países africanos. O autor está correto quando coloca a estrutura interna da cidade, dando certo destaque para os países africanos. Para que o crescimento autossustentável, ou a sustentabilidade, ocorra é preciso que haja um certo emparelhamento entre a parte social e a econômica. Nesse assunto, a prática do desenvolvimento social não ocorre na mesma amplitude que o econômico, pois este último concentra-se nas empresas externas. Ocorre que, segundo Lúzon (2001), podemos dizer que o conceito de desenvolvimento evoluiu a partir da década de 1970, não se vinculando apenas à economia, tendo outros fatores para se considerar, já que o processo é econômico, ambiental, político, cultural e social. De acordo com Beni (2003), temos que lembrar, de certa forma, a parte da história dos problemas do meio ambiente, além da sua evolução para os momentos atuais, para criar o conceito de desenvolvimento sustentável e turismo: • 1972 – Conferência da ONU sobre Meio Ambiente Humano, em Estocolmo: primeira iniciativa do gênero para examinar a questão de maneira global e coordenada na busca 79 de soluções para os problemas existentes e definir linhas de ação para a problemática ambiental. • 1974 – Ignacy Sachs e sua equipe interdisciplinar, sediada no Centre International de Recherche sur l’Environnment et le Dévéloppement (CIRED), reelaboram a questão do ecodesenvolvimento, criada em Estocolmo em 1972, ampliando e diversificando seus horizontes. • 1974/1975 – Com a Declaração de Cocoyoc, de 1974, e o Relatório Que Faire, apresentado no final de 1975 pela Fundação Dag Hammarskjold, por ocasião da 7ª Conferência Extraordinária das Nações Unidas, reutilizaram-se as ideias de Sachs e sua equipe, sem utilizar, contudo, o termo ecodesenvolvimento de forma explícita, mas as expressões “um outro desenvolvimento” e “desenvolvimento sustentado”. • 1982 – Em Nairóbi, Quênia, sede do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), realizou-se reunião comemorativa do 10º aniversário da Conferência de Estocolmo, quando se procedeu à avaliação dos resultados até então obtidos e a um exame da mudança de percepção da problemática ambiental. • 1983 – Em resposta a uma decisão da Assembleia Geral da ONU, foi estabelecida a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, presidida pela norueguesa Gro Brundtland. O objetivo amplo foi reexaminar a questão ambiental, inter-relacionando-a com a questão do desenvolvimento, e propor programas de ação. Quatro anos depois se elaborou o relatório final da comissão, intitulado Nosso Futuro Comum, conhecido também como Relatório Brundtland. Desse relatório surge com mais força a expressão “desenvolvimento sustentável”, com intenção de despertar a conscientização pública e evidenciar a necessidade de um melhor gerenciamento do meio ambiente para sustentar o planeta Terra. • 1992 – Muitas da ideias e percepções do Relatório Brundtland foram discutidas na Rio92. Entre as principais destacam-se: a Carta da Terra, uma declaração de princípios básicos a serem seguidos por todos os povos com respeito ao meio ambiente e ao desenvolvimento; e a Agenda 21, um plano de ação com as metas aceitas universalmente para o período pós-1992 e entrando pelo século XXI. • Em abril de 1995, por iniciativa da ONU, realiza-se a Primeira Conferência sobre Turismo Sustentável, em Lanzarote, nas Ilhas Canárias. Foi patrocinada pelo Programa Ambiental dessa mesma organização, pelo Programa sobre o Homem e a Biosfera da UNESCO e pela OMT. Percebemos a preocupação real nesse momento em relação ao meio ambiente, como os países devem cuidar da sua preservação e do bem-estar da população. De acordo com Beni (2003), a partir de Estocolmo até a Rio-92 houve destaque para a questão do aumento da produção de armas em boa parte do mundo, produzidas com a riqueza dos países que têm uma indústria forte, países desenvolvidos no norte, 80 além dos países do terceiro mundo, do Sul. Claro que esses países estão em desenvolvimento. Foi possível ver nesse evento a introdução de novos conceitos, surgindo um certificado para o meio ambiente, tendo atuação responsável e gestão ambiental. Tudo isso procurava ter uma postura reativa, que marcava de certa maneira uma relação com os empresários, com a parte pública, para ter ordenamento, normalização, legislação e fiscalização, e as instituições ambientais, notadamente o terceiro setor, na outra parte. Conforme nova atitude baseada em relação ao assunto responsabilidade solidária, que deixa para outro momento as preocupações com multas, que com o tempo tendem a ser trocadas por um maior cuidado em relação com a imagem da parte privada, isso faz com que haja uma valorização e reconhecimento de seus programas em prol do meio ambiente, que sejam bem vistos pelas pessoas. De acordo com Beni, (2003), na década de 1990 se assiste também a entrada em vigor das normas britânicas: (BS 7750) Especification for Environmental Manageman Systems, que serviram de base para a elaboração de um sistema de normas ambientais em nível mundial. A entrada em vigor dessas normas internacionais de gestão ambiental, denominadas de série ISO 14000, e sua já anunciada integração futura com as normas de gestão de qualidade (ISO 9000), constituíram o coroamento de uma longa caminhada em direção à conservação do meio ambiente e ao desenvolvimento em base sustentável. Essas normais elaboradas pelos britânicos foram muito importantes, e ajudaram na conservação do meio ambiente e na questão do desenvolvimento. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ótica deve ser direcionada para oferecer um planejamento que constitua um novo modelo para políticas governamentais, com estratégias concretas de intervenção corretivas, baseadas nos postulados interdependentes de eficiência econômica, equidade social e prudência ecológica. E um novo critério de racionalidade social, baseado na crítica ao efeito de externalização de custos socioambientais, exercido pelo modelo puramente econômico, sobretudo quando este planejamento é participativo, com atores sociais, agentes e reagentes, com uma visão contratual do meio ambiente. 81 O planejamento participativo recupera a participação social da sociedade, de modo que o cidadão contribua na elaboração das ecoestratégias, desde a informação até a execução da ação proposta, transformando a sociedade civil num terceiro sistema, à medida que toma consciência de si mesma e começa a interpelar-se e a conhecer-se. REFERÊNCIAS AZEVEDO, Ariston; ALBERNAZ, Renata Ovenhausen. A Paraeconomia como modelo e paradigma para a análise e a formulação de Políticas Públicas: o Resgate de uma Possibilidade. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC, v. 2, n. 1, p. 20-32, jan./jun. 2004. BENI, Mário Carlos. A Política de Turismo. In: TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi (Org.). Turismo: como aprender, como ensinar, Vol. 1. 3. ed. São Paulo: Senac, 2003. p. 177202. BENI, Mário Carlos. Política e planejamento de turismo no Brasil. São Paulo: Aleth, 2006. CARDOSO, Roberta de Carvalho. Dimensões sociais do turismo sustentável: estudo sobre a contribuição dos resorts de praia para o desenvolvimento das comunidades locais. 2005. 264 f. Tese (Doutorado em Administração) – Escola de Administração de Empresas de São Paulo, Fundação Getulio Vargas, São Paulo, 2005. FONSECA. Áurea Cortês Nunes de Oliveira. Aspectos do desenvolvimento regional no recôncavo sul baiano: o caso do município de Cachoeira – Bahia – Brasil. 2006. 356 f. Tese (Doutorado em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional) – Universidade de Barcelona, Barcelona, 2006. LUZON, José Luiz. El concepto de desarrollo em Arnold J. Toynbee. Revista de Desenvolvimento Econômico (RDE), Salvador, v. 3, n. 4, p. 49-60, jul. 2001. MÜLLER, Luciana de Oliveira. Turismo ou desenvolvimento: o que vem primeiro? O caso de Siribinha no município do Conde, no Litoral Norte da Bahia. 2006. 157 f. Dissertação (Mestrado em Análise Regional) – Universidade Salvador (UNIFACS), Salvador, 2006. RAMOS, Alberto Guerreiro. A redução sociológica. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1996. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. ______. Pensando o espaço do homem. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1997. 82 ______. Técnica, espaço, tempo. São Paulo: Hucitec, 1994. ______. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 4. ed. 2. reimpr. São Paulo: Editora da USP, 2006. (Coleção Milton Santos, Vol. 1). ______. A construção do espaço. São Paulo: Nobel, 1986. SILVA, Jani Alves. Reflexões sobre a história do capitalismo. Maringá, PR: Universidade Estadual de Marin. 83 AS ESPECIFICIDADES DA FUNÇAO DOCENTE NAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR Nilzete Teixeira Santiago 1 RESUMO O presente trabalho é resultado da análise sobre as funções docentes nas Instituições Privadas de Ensino Superior e as suas especificidades. Foi embasado em pesquisa teórica e se propôs a discutir aspectos do Direito Educacional, mais notadamente as atividades docentes. No estudo, se busca analisar esse processo educacional à luz da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, Lei nº 9.394/96, trazendo os conceitos e principais características de um dos principais interlocutores no processo educacional, que é o Professor. Em seguida, trata das funções docentes nas Instituições privadas de Ensino Superior e suas atividades. Observa-se ainda que o Direito Educacional é um ramo do Direito, pouco ou nunca explorado entre o corpo docente das Instituições privadas de Ensino Superior e por consequência, têm-se o desconhecimento, por parte dos docentes, dos aspectos educacionais que devem ser aplicados na análise da Gestão Docente das Instituições. PALAVRAS CHAVE: Educação; Professor; Instituições Privadas; Especificidades. INTRODUÇÃO O direito à educação é um dos mais básicos e fundamentais do ser humano e apesar de ser garantia constitucional desde o surgimento do Estado Brasileiro, ou seja, desde a sua Independência, sempre caminhou a passos lentos. Atualmente, em decorrência da grande expansão de instituições de ensino na esfera privada e, portanto, da necessária regulação, visto ser a educação uma garantia do Estado, surge um novo ramo do direito denominado de Direito Educacional, que apesar de sua relevância social, ainda é pouco estudado. Este ramo do direito tem como instrumentos legais básicos a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996 e envolve diversos fatores conjunturais e educacionais, que necessitam ser analisados e apresentados, de forma a disseminar para o maior número possível de docentes as especificidades dessa tão nobre atividade, bem como os aspectos regulatórios em suas definições. 1 Advogada: Consultora Jurídica e Especialista em Direito Educacional. 84 O objeto deste estudo situa-se nas fronteiras do Direito Educacional com interface com o Direito Trabalhista, embora nesse trabalho, dada as suas características, sejam focadas algumas das peculiaridades da atividade educacional, específicas do Direito Educacional. Como são muitos os conceitos e normas estabelecidas pelo Ministério de Educação (MEC) sobre as atividades docentes, regime de trabalho e titulação, o trabalho será delimitado àquelas questões, que apresentam maior índice de ocorrência e questionamento por parte dos docentes. A pesquisa concentrou-se em fontes primárias (Constituição Federal de 1988, Lei das Diretrizes e Bases da Educação, resoluções, portarias), além da utilização de fontes secundárias (jurisprudência e doutrina) relacionadas ao tema, sendo esta última, bastante escassa. Por tratar-se de pesquisa exploratória, além das fontes bibliográficas acima referidas, foram realizadas entrevistas informais com docentes do ensino superior e gestores da área educacional. Estuda-se alguns dispositivos constitucionais, mais notadamente aqueles que determinam a educação como função pública e dever do Estado, mas que pode ser livre à iniciativa privada mediante autorização e cumprimento de requisitos pré-estabelecidos pelo Ministério de Educação, através de sua área de regulação. Destarte, são analisados alguns artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, principalmente no que se refere à valorização do professor, interlocutor indispensável no processo ensino x aprendizagem e nas exigências estabelecidas quanto à composição do corpo docente das Instituições privadas de Ensino Superior, como requisito indispensável para o seu funcionamento, bem como autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento dos cursos ofertados. 1. BREVE ANÁLISE DA EDUCACÃO SUPERIOR NO ESTADO BRASILEIRO Ao contrário de outros países, como a Inglaterra, por exemplo, cujo povo ainda segue o “Bill of Rigts” como guia constitucional e os Estados Unidos, que ainda mantém vigente sua primeira Constituição, de 1776, o Brasil, pelas peculiaridades de sua sociedade, que passou por importantes mutações, e pelas suas diversas mudanças em sua ordem política, fez e refez diversas Cartas Magnas. 85 Conseqüentemente, a cada mudança da Carta Magna, nossos legisladores são obrigados a reverem o ordenamento jurídico pátrio, de forma a adequar a legislação infraconstitucional às novas diretrizes estabelecidas pela Carta Magna. A Constituição Federal de 1988, também chamada de Constituição Cidadã, estabelece que a educação é um direito de todos, indispensável para o pleno exercício da cidadania. Assim, surge a necessidade de mais uma vez adequar as diretrizes e bases para a educação. O novo modelo de Estado, inaugurado pela Constituição Cidadã, trouxe o direito à educação citado no caput do artigo 6º como um direito social e que se inscreve dentre os direitos e garantias fundamentais. Elevado à categoria de direitos fundamentais de segunda geração, ou seja, aqueles a respeito dos quais o estado não pode se abster, mas sim, deve atuar para garanti-los. Para a efetividade do direito à educação, foram apresentados vários projetos de lei e dentre as diversas proposições de mudanças apresentadas, coube ao Senador Darcy Ribeiro, com a sua larga experiência na área educacional, ser o relator do Projeto, que deu origem a atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB/96, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Antes da análise de alguns artigos da LDB/96, mais especificamente aqueles relacionados à atividade docente, faz-se mister uma breve apresentação dos artigos constitucionais (1988) que trazem referências à Educação e que servem de base para a sua efetivação. O Constituinte reservou uma seção,nos artigos 205 a 214, para mostrar como o Estado brasileiro a concebe, enquanto direito fundamental para a concretização de todos os direitos. Lemos no Artigo 205 da CF/88: Art. 205 - A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. A educação é concebida como um direito de todos e um dever tanto do Estado, quanto da família e que deve contar ainda com a promoção e incentivo da sociedade. Resta evidente que a educação não é um processo isolado, mas um projeto abrangente e que não se resume em instrução, em conhecimento técnico, mas sim na construção da cidadania, pois somente através da educação o sujeito poderá ter acesso aos seus direitos. O direito à educação vem se consolidando em nossas Constituições, desde a Carta do Império, e a influência de nossos juristas educadores, junto aos Constituintes, foi sendo aceita 86 cada vez mais de forma palpável, mas o reconhecimento da educação como forma de investimento para o desenvolvimento nacional tem sido difícil. Como pode ser observado na colocação do Constitucionalista Pontes de Miranda, apud Motta (1997, p.165), ao ressaltar que “O Estado tardou em reconhecer as vantagens da instrução e educação do povo. Desconheceu, durante séculos e séculos, que somente se pode aumentar o valor do estado e do país, aumentando-se o valor dos indivíduos”. A Constituição estabeleceu as diretrizes básicas, dentre as quais vale destacar: Art. 206 – o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de Instituições públicas e privadas de ensino; [...] V - valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos da rede pública; [...] VII – garantia de padrão de qualidade; Constata-se que os princípios estão interligados, onde destaca-se a liberdade em aprender, o pluralismo das concepções pedagógicas, a valorização dos profissionais e garantia do padrão de qualidade indispensáveis para que os objetivos da educação sejam alcançados, conforme determinado no já mencionado art. 205. A garantia de liberdade de organização e autonomia das universidades, que deve ser um espaço na formação plena do cidadão, foi prevista no artigo 207 da CF/88, verbis: Art. 207 As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial e obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A autonomia universitária não se confunde com soberania ou liberdade para desrespeitar as leis, é antes, um poder jurídico inerente à condição de ser de uma universidade. Nas palavras de Motta (1997, p.176), pode ser definida como: A faculdade que dispõe uma instituição de ensino superior de organizar-se juridicamente, mediante transferência de poder pelo Estado que lhe assegura a competência decisória de se governar, fixando suas regras internas, a partir de suas próprias normas e regulamentos. Merece destaque a mudança do texto originário da CF/88, através da emenda de nº 59/2009, que trouxe a inclusão do ensino infantil e ensino médio dentro da gratuidade e obrigatoriedade garantida pelo Estado, além do prazo de até 2016 para a sua implementação o 87 que demonstra a valorização do Estado pela Educação e a possibilidade de aumento do nível de qualidade dos estudantes para acessarem níveis mais elevados de ensino. A melhoria do nível de qualidade do ensino não se limite ao ensino publico, visto que lê-se no artigo 209 da CF/88, verbis: Art. 209 – o ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições: I – cumprimento das normas gerais da educação nacional; II – autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. A garantia de liberdade de ensino pela rede privada fica condicionada à atuação apenas mediante preenchimento das citadas condições, com ênfase na qualidade de ensino. A LDB/96 também confirma esse princípio em seu artigo 7º, não dando mais margem à errônea interpretação de que a educação seria uma prerrogativa exclusiva dos poderes públicos, podendo ser exercida pela iniciativa privada apenas como uma concessão. O que se observa nos dados apresentados anualmente pelo censo educacional, divulgado no site do MEC/INEP (Instituto Nacional de estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), é que a educação superior tem se concentrado cada vez mais na iniciativa privada. O crescimento acelerado da educação na esfera privada, que pode ser observado nos dados do censo educacional, em determinados momentos apresenta o discurso da ausência do Estado em cumprir a sua função, em outros apresenta a justificativa de alta qualidade e continuidade, já que na iniciativa privada os estudantes não correm o risco de atrasar o curso em razão de greves ou até mesmo de ausência de recursos e infraestrutura o que ocorre com certa frequência na rede pública de ensino. Segundo Cunha (1991, p.450): Embora grupos privados façam propaganda em benefício de todos os empresários que atuam em educação, alardeando a alta qualidade do ensino ministrado em suas escolas, é sabido como a imensa maioria dos estabelecimentos de ensino praticam uma verdadeira contrafação educacional. E o pior é que são justamente esses contraventores educacionais, os beneficiários mais verozes dos recursos públicos. Mesmo com essa concentração da educação na iniciativa privada, em qualquer situação, deve prevalecer a atuação controladora do Estado, para garantir as finalidades de desenvolvimento da pessoa humana, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho, dada a sua importância formativa do cidadão, é o que se observa no artigo 1º da LDB que estabelece, verbis: Art.1º A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas Instituições de ensino e pesquisa, 88 nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil nas manifestações culturais. Na concepção de Motta (1997, p. 75), a Educação constitui-se no processo pelo qual o ser humano, por um lado, adquire conhecimentos e desenvolve sua capacidade intelectual, sua sensibilidade afetiva e suas habilidades psicomotoras. Por outro lado, é também o processo pelo qual se transmite tudo isso de uma pessoa para outra. Desta forma, a educação engloba, pois, de forma indissociável, tanto os processos de aprendizagem quanto os de ensino, e envolve, necessariamente, dois interlocutores, o educando e o educador. Destaca-se nesse ínterim o papel do professor, como figura central do processo ensino aprendizagem e personagem principal nessa educação que se confunde com o próprio processo de humanização, pois, é a capacitação do indivíduo tanto para viver civilizadamente e produtivamente, quanto para formar seu próprio código de comportamento para agir coerentemente com seus princípios e valores. A LDB estabelece ainda em seu artigo 45 que a educação superior será ministrada em instituições de ensino superior, públicas ou privada, com variados graus de abrangência ou especialização. Essa afirmativa reforça o já estabelecido no artigo 209 da CF/88, no que se refere à liberdade da iniciativa privada quanto ao ensino superior. No artigo 46, a LDB trata do papel regulador e fiscalizador do Estado no que se refere aos processos de autorização e reconhecimento das Instituições de Ensino bem como dos seus cursos ofertados. Tal papel ocorre não apenas através das visitas in loco, mas também através dos exames nacionais a exemplo do Exame Nacional de Desempenho do Estudante – ENADE: Art. 46 - A autorização e reconhecimento de cursos, bem como o credenciamento de instituições de educação superior, terão prazos limitados, sendo renovados, periodicamente, após processo regular de avaliação. §1º após um prazo para saneamento de deficiências eventualmente identificadas pela avaliação a que se refere este artigo, haverá reavaliação, que poderá resultar, conforme o caso, em desativação de cursos e habilitações, em intervenção na instituição, em suspensão temporária de prerrogativas da autonomia, ou em descredenciamento. [...] Sendo o docente o “ator” principal no processo ensino aprendizagem, a Portaria Normativa nº 40 do Ministério de Educação e Cultura - MEC, que institui o e-MEC, sistema eletrônico de fluxo de trabalho e gerenciamento de informações relativas aos processos de regulação, avaliação e supervisão da educação superior no sistema federal de educação, e o Cadastro e-MEC de Instituições e Cursos Superiores e outras disposições, trata também através do Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação Presencial e a Distância, em sua 89 dimensão 2 – do corpo docente e tutorial, dos critérios de análise, dentre outros indicadores, do regime de trabalho e titulação do corpo docente das Instituições de Ensino Superior. 2. A ATIVIDADE DOCENTE NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DO BRASIL O corpo docente de uma instituição de ensino superior é constituído pelo pessoal que exerce atividades de ensino, pesquisa e extensão nos cursos ofertados, sejam eles de graduação bacharelado, graduação tecnológica ou de pós graduação, Lato e Stricto Sensu. Assim, é o corpo docente o elemento mais importante que a escola pode oferecer na realização do trabalho de efetiva qualidade. Essa citada importância do elemento humano está expressa no texto da Constituição Federal vigente. A Lei Maior, na parte que trata dos princípios que orientam a educação, no artigo 206, estabelece a valorização dos diversos profissionais da área da educação. A atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em seu artigo 67, também estabelece a valorização dos profissionais da educação, destacando o direito desses profissionais a possuírem condições adequadas de trabalho. A reafirmação desse principio reforça a necessidade de valorização desta categoria profissional, que historicamente não é prestigiada, quer seja na esfera pública ou na iniciativa privada. Esse dispositivo, apesar de dizer o óbvio e parecer desnecessário, é, na realidade, uma recomendação legal importante, porque as condições de trabalho do professorado brasileiro deixam muito a desejar e necessitam, com urgência, de melhor atenção e recursos dos diversos sistemas de ensino, inclusive da iniciativa privada. Segundo Werneck apud Motta (1997, p.419), “só uma sociedade subdesenvolvida não reconhece no professor um profissional de primeira linha para melhorar todo o contexto de vida.” Em síntese, o papel estratégico dos professores na promoção de uma educação de boa qualidade é amplo e internacionalmente reconhecido, ainda que tal reconhecimento nem sempre se traduza em políticas de formação e valorização destes profissionais, de modo a levá-los a desempenhar com eficiência a tarefa que lhes cabe. 90 2. 1 ATIVIDADES DOCENTES São consideradas atividades docentes aquelas pertinentes ao ensino, à pesquisa e à extensão, no âmbito das Instituições de Ensino, visando o processo de ensino aprendizagem, a produção e difusão do conhecimento. Sendo classificadas como de extensão, as atividades que ocorrem “extramuro” das Instituições, mas associadas ao processo de formação do acadêmico. Os docentes no desempenho de suas atividades realizam pesquisa e estudos científicos, consultando documentos e outras fontes de informações, para acompanhar a evolução das ciências, no que se refere à sua área de atuação; prepara o plano de ensino das disciplinas selecionando os temas de cada aula e determinando a metodologia aplicada, com base nos objetivos propostos para facilitar o roteiro da dinâmica das aulas. Compete também aos docentes, desenvolver com a classe atividade experimental, promovendo e supervisionando pesquisas afins, para proporcionar aos estudantes a vivência do método científico e possibilitar-lhes informações teóricas-práticas mais completas, além de elaborar e ampliar testes e provas e outros métodos usuais de avaliação, baseando-se nas aulas ministradas e nas pesquisas e trabalhos executados pela classe, para verificar o grau de aproveitamento e formar um conceito de cada aluno. Providencia palestras e conferências sobre temas específicos da área de atuação de cada profissional e encarrega-se da organização e coordenação de cursos, programas especiais, bem como cursos de ensino próprios das disciplinas que leciona. 2. 2 REGIME DE TRABALHO X DEDICAÇÃO O exercício do magistério superior nas instituições de Ensino Superior brasileiras pode ser efetuado por meio de diferentes regimes de trabalho: docente denominado horista, docente em regime de tempo integral e docente em regime de tempo parcial. Entende-se que a composição da carga horária dos docentes de forma a ficarem em regime de tempo integral e parcial seja vital para a qualidade do trabalho acadêmico desenvolvido, tanto no que diz respeito às outras atividades de ensino que não aquelas relacionadas à sala de aula como também às atividades de gestão acadêmica, de pesquisa, de extensão e avaliação. Os docentes podem desenvolver atividades de ensino: ministrando aulas nas disciplinas sejam de graduação ou pós-graduação, de orientação de trabalho de conclusão de 91 curso, de estágio supervisionado, de nivelamento, atividades complementares bem como atividades de gestão acadêmica: direção, coordenação, assessorias, participação em comissões, em reuniões, em colegiados, além das atividades de pesquisa, iniciação científica, coordenação de projetos, atividades de extensão, dentre outras inerentes à função. REGIME DE TRABALHO EM TEMPO INTEGRAL – RTI O artigo 69 do Decreto 5773 de 2006 define o tempo integral como o regime de trabalho de 40 horas semanais na mesma instituição, com reserva de tempo de pelo menos 20 horas semanais para atividades de estudos, pesquisa, projetos de extensão, planejamento e avaliação. A portaria nº 40 do MEC apresenta como uma das exigências às Instituições privadas de Ensino Superior a manutenção de um percentual do seu corpo docente em regime de Tempo Integral (TI), sendo um quinto do corpo docente em regime de Tempo integral para os Centros Universitários e exigência de um terço para as Universidades. A despeito de o professor atuar em uma determinada Instituição de Ensino Superior em regime de 40 horas, ou até mesmo 44 horas, não necessariamente ele poderá ser considerado como docente em regime de tempo integral, já que essa configuração exige que, pelo menos, 20 das 40 horas sejam alocadas em atividades extra classe, ou seja, em atividades diferentes daquelas ministradas em sala de aula. Não basta apenas que as Instituições façam indicação dos docentes em regime de Tempo Integral, é necessária a comprovação que aqueles docentes além de apresentarem uma composição como já indicado, mínimo de 40 horas na mesma Instituição e destas, no mínimo 20 horas em atividades extra classe, apresentem o Plano Individual de Trabalho, que comprove que o docente efetivamente cumpre aquela carga horária e composição estabelecida como exigência para a configuração como professor em regime de Tempo Integral. A exigência de professor em tempo integral é requisito essencial para a avaliação do corpo docente Institucional (recredenciamento) bem como para a avaliação dos cursos individualmente (autorização, reconhecimento e renovação de reconhecimento). O professor indicado como regime de Tempo Integral, pode compor além do quadro docente institucional o quadro de cursos nos quais esteja vinculado, através das atividades de sala de aula, bem como das atividades, já caracterizadas, extra classe. 92 REGIME DE TRABALHO EM TEMPO PARCIAL Considera-se Professor em regime de Tempo Parcial atendendo as exigências do MEC, aquele com carga horária semanal de 12 (doze) ou mais horas até o limite de 39 horas semanais, nelas reservados pelo menos 25% (vinte e cinco por cento) do tempo para estudos, pesquisa, trabalhos de extensão, planejamento e avaliação. REGIME DE TRABALHO – HORISTA Considera-se professor horista aquele contratado para a função docente e apresenta composição de carga horária diferente daquela estabelecida para o regime de tempo integral ou regime de tempo parcial, acima descritas. Geralmente esses professores têm sua carga horária concentrada em sala de aula. Não obstante ser o professor um profissional de essencial importância para o desenvolvimento de qualquer nação, no Brasil essa categoria não tem tido a valorização que merece. Parcos salários impõem, conseqüentemente, jornadas extenuantes em mais de um vínculo empregatício como único meio de auferir um salário que possa fazer face às suas despesas básicas. Essa desvalorização do docente leva a um cenário onde em muitos casos, se encontra em sala de aula, exercendo a função docente o “profissional professor” e não o “professor professor”. Ou seja, o médico, o advogado, o engenheiro, o Administrador que atuam no mercado profissional e como complemento de renda, possibilidade de ascensão no meio acadêmico ou até mesmo por prazer, têm como atividade secundária, a docência. Muitas vezes, por falta de interesse, esses professores permanecem no quadro docente apenas como horistas e carga horária mínima. Pode ocorrer inclusive a falta de conhecimento e até identificação com o Projeto Pedagógico Institucional e Projeto Pedagógico do Curso, situação que compromete sobremaneira a qualidade do ensino. 93 2. 3 TITULAÇÃO X ENQUADRAMENTO A LDB em seu artigo 52, inciso II estabelece que as universidades têm a necessidade de apresentar um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado. No que se refere à composição do corpo docente dos Centros Universitários, esse requisito está estabelecido no Decreto nº 5.786 de 24 de maio de 2006, em seu artigo 1º, parágrafo único, inciso II, “Classificam-se como centros universitários as instituições de ensino superior que atendam aos seguintes requisitos: [...] II - um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado”. Em relação às faculdades, não existe uma norma que trata do assunto, porém as instituições, buscando cada vez mais elevar sua qualidade de ensino, procuram manter em seu corpo docente professores que possuam título de mestre ou doutores. Já no artigo 66, a LDB estabelece que “A preparação para o exercício do magistério far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado”. O que demonstra o incentivo à qualificação dos docentes prioritariamente através da titulação de Mestre e Doutor. No Instrumento de Avaliação dos Cursos de Graduação Presencial e a Distância, em sua dimensão 2: CORPO DOCENTE E TUTORIAL que é analisado através de consulta aos Projeto Pedagógico do Curso, Formulário Eletrônico preenchido pela IES no e-MEC além de documentação comprobatória, são estabelecidas as métricas para atribuição dos conceitos em razão da titulação do corpo docente, a saber: Conceito 1 - Quando o percentual dos docentes do curso com titulação obtida em programas de pós-graduação stricto sensu é menor que 15%. Conceito 2 - Quando o percentual dos docentes do curso com titulação obtida em programas de pós-graduação stricto sensu é maior ou igual a 15% e menor que 30%. Conceito 3 - Quando o percentual dos docentes do curso com titulação obtida em programas de pós-graduação stricto sensu é maior ou igual a 30% e menor que 50%. Conceito 4 - Quando o percentual dos docentes do curso com titulação obtida em programas de pós-graduação stricto sensu é maior ou igual a 50% e menor que 75%. Conceito 5 (máximo) - Quando o percentual dos docentes do curso com titulação obtida em programas de pós-graduação stricto sensu é maior ou igual a 75%. Não obstante previsão expressa na LDB quanto à necessidade um terço do corpo docente, pelo menos, apresentar titulação acadêmica de mestrado ou doutorado, não 94 especificando desse um terço qual a necessidade do percentual para doutores, o Instrumento de Avaliação de Cursos de Graduação estabelece uma exigência no que se refere ao percentual de doutores na composição do corpo docente das Instituições para efeito de atribuição dos conceitos, a saber: Conceito 1 - Quando não há doutores do curso. Conceito 2 - Quando o percentual de doutores do curso é menor ou igual a 10%. Conceito 3 - Quando o percentual de doutores do curso é maior que 10% e menor ou igual a 20%. Conceito 4 - Quando o percentual de doutores do curso é maior que 20% e menor ou igual a 35%. Conceito 5 (máximo) - Quando o percentual de doutores do curso é maior ou igual a 35%. Embora os docentes tenham que comprovar sua titulação no ato da contratação, já que as Instituições de Ensino precisam compor o seu quadro docente visando atender às exigências do MEC no que se refere à titulação, nem sempre os professores são remunerados em razão da sua titulação. A Súmula 06, do TST em seu inciso I estabelece: Para fins previstos no parágrafo 2º, do artigo 461 da CLT, só é válido o quadro de pessoal organizado em carreira quando homologado pelo Ministério do Trabalho, excluindo-se apenas dessa exigência o quadro de carreira das entidades de direito público, da administração direta, autárquica e fundacional aprovado por ato administrativo da autoridade competente. Combinado com o Decreto nº 5.773/2006 que determina a necessidade de apresentação por parte das Instituições de Ensino Superior, entre outros elementos, do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), que deve conter perfil do corpo docente (titulação, experiência profissional não-acadêmica, critérios de seleção, contratação, plano de carreira, regime de trabalho etc) e organização administrativa da IES, como requisito para o pedido de credenciamento, recredenciamento (após avaliação periódica) e autorização de funcionamento de curso. Desta forma, as instituições de ensino apresentam Planos de Carreira Docente - PCD, onde são estabelecidos os diversos enquadramentos, associados à titulação dos professores. É através do PCD que são normatizados os critérios de ingresso, enquadramento, ascensão, desligamento, regime de trabalho, remuneração e as vantagens bem como deveres dos integrantes do corpo docente da Instituição. Quanto maior a titulação, maior o enquadramento e consequentemente o valor hora/aula. Pode ocorrer, como já foi dito, de um professor apresentar a titulação de Doutor, 95 sendo computado para efeito de atendimento aos requisitos exigidos pelo MEC para a avaliação dos cursos e da própria Instituição, mas no que se refere ao enquadramento o mesmo perceber remuneração com base em valor hora equivalente à titulação/enquadramento de Mestre ou até mesmo de Especialista. Isso ocorre em razão da disponibilidade de vagas, pois, apesar de o professor ser um doutor, poderá, se assim o desejar, concorrer a uma vaga para o cargo de professor assistente, cuja remuneração será equivalente a um professor especialista. As Instituições de Ensino Superior privada têm exigido a titulação mínima para um determinado cargo, o que não impede que um candidato apresente a titulação máxima para aquela vaga. 2. 4 REMUNERAÇÃO DOCENTE – FORMA DE CÁLCULO Estabelece o artigo 320 da CLT que a remuneração do professor será fixada pelo número de aulas semanais, na conformidade dos horários. Ainda no referido artigo, o §1º, complementa ao estabelecer que o pagamento far-se-á mensalmente, considerando-se para este efeito cada mês constituído de quatro semanas e meia. A Súmula 351 – TST estabelece que “O Professor que recebe salário mensal à base de hora aula tem direito ao acréscimo de 1/6 a título de repouso semanal remunerado, considerando-se para esse fim o mês de quatro semanas e meia”. Diante da legislação vigente, a forma do cálculo para efeito de remuneração do professor deve ser igual a: quantidade de horas semanais x 4,5 (quatro semanas e meia) x valor da hora (em razão do enquadramento funcional), acrescido de 1/6 (um sexto) referente ao DSR – Descanso Semanal Remunerado. O professor, mesmo tendo um caráter específico em suas atividades, ao exercê-las em estabelecimento privado de ensino, é empregado para todos os efeitos legais, uma vez que, de acordo com o parágrafo único do artigo 3º da CLT “não haverá distinções relativas à espécie de emprego e à condição de trabalhador, nem entre o trabalho intelectual, técnico ou manual.” 96 CONCLUSÃO É inegável a importância do professor no contexto da administração da educação superior, demandando a previsão normativa de princípios que prevêem a valorização dos profissionais da educação bem como condições adequadas de trabalho e de remuneração condigna dos professores. Assim, mostra-se adequada a realização de estudos que recordem a importância do professor, no contexto da administração da educação, e os princípios de valorização de todos os profissionais do ensino, especialmente do docente. Diante desse quadro geral, nem sempre favorável, revela-se necessário um trabalho constante de esclarecimento quanto aos principais direitos especiais conferidos ao professor empregado, pela legislação trabalhista, e de conscientização quanto à importância do regular cumprimento dessas vantagens pelos estabelecimentos de ensino empregadores, até para que as escolas possam realizar, efetivamente, um trabalho educacional de qualidade. Nas entrevistas informais realizadas com alguns docentes, observou-se além do desconhecimento por parte destes, como também dos empregados das IES que atuam na área de Recursos Humanos quanto às especificidades relativas às atividades docentes, mais especificamente quanto ao regime de trabalho – dedicação e titulação. Ainda nas entrevistas realizadas com docentes do ensino superior no Estado da Bahia e da análise de alguns Planos de Carreira Docente, foi identificado que grande parte das Instituições têm sido fiel ao cumprimento das métricas estabelecidas pelo Ministério de Educação. Outras vêm cumprindo de forma parcial, muitas vezes não de má fé, mas pelo desconhecimento por parte do seu corpo técnico administrativo que gerencia as atividades de gestão acadêmica ou até mesmo por desconhecimento por parte do departamento jurídico quanto às especificidades do direito trabalhista x educacional. No que se refere aos órgãos de fiscalização do Ministério de Educação, não podemos adotar o mesmo raciocínio, já que a esses não é dado o direito de desconhecimento das leis. Sendo esses os responsáveis pela fiscalização e aplicação das leis, devem sim fazê-lo de forma mais contundente. Faz-se necessário também maior esclarecimento e capacitação dos profissionais tanto da área jurídica quanto da área administrativa nas questões que abordem de forma conjugada tanto o Direito Educacional quanto as questões operacionais que envolvem o exercício das atividades docentes. 97 REFERÊNCIAS BOAVENTURA, Edivaldo. Metodologia da Pesquisa: monografia, dissertação, tese. São Paulo: Atlas, 2004. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em: http://www.presidencia.gov.br/legislação/emendas constitucionais. Acesso em: 04 jul. 2014 BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Lei nº 9.349/96. Disponível em: <http:/ portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/tvescola/leis/lein9394.pdf>. Acesso em 04 jul. 2014. CHAUÍ, Marilena de Souza. Escritos sobre a universidade. São Paulo: UNESP, 2001. CLT Saraiva e Constituição Federal / obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Livia Céspedes. 38 ed. Atual. São Paulo: Saraiva, 2011 – (Legislação brasileira). CUNHA, Luiz Antonio. Educação, Estado e democracia no Brasil. São Paulo: Cortez, 1991. 97FRAUCHES, Celso da Costa. LDB anotada e comentada e reflexões sobre a educação superior. 2.ed. Brasília: ILAPE, 2007. MEC – Ministério de Educação e Cultura. Censo da Educação Superior 2012. Disponível em: <http://www.portal.mec.gov.br. Acesso em: 04 jul. 2014. MEC – Ministério de Educação e Cultura. Portaria Normativa nº 40. Disponível em: <http://www.portal.mec.gov.br. Acesso em: 04 jul. 2014. MEC – Ministério de Educação e Cultura. Instrumento de Avaliação dos Cursos de Graduação Presencial e a Distancia. Disponível em: <http://www.portal.mec.gov.br. Acesso em: 04 jul. 2014. MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 4. ed. Ver. e atual. – São Paulo: Saraiva, 2009. MINISTÉRIO DE EDUCAÇÃO E CULTURA. Decreto 5773 de 09 de maio de 2006. MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 21. ed. São Paulo: Atlas, 2007. MOTTA, Elias de Oliveira. Direito Educacional e educação no século XXI: com comentários à nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional. Brasília: UNESCO, 1997. SAVIANI, Dermeval. A nova lei da educação; trajetória, limites e prespectivas. 4.ed. Campinas-SP: Autores Associados, 1998. 98 SILVA NETO, Manoel Jorge. Curso de Direito Constitucional. 3. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008. 99 ESTOQUE DE EMPREGO NO SETOR PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA E SUA RELAÇÃO COM A DESPESA DE PESSOAL Luiz Carlos dos Santos 1 RESUMO O artigo teve por objetivo fornecer uma visão global da situação do estoque de emprego formal no setor público do estado da Bahia e a distribuição dos servidores nos Territórios de identidade, compreendendo o período 2000 a 2009 e, simultaneamente, estabelecer relação da despesa anual desse pessoal com a Receita Líquida Corrente (RLC), levando-se em conta o limite prudencial preconizado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A metodologia adotada na investigação enquadra-se na tipologia exploratória, de natureza teórico-documental, bem assim por pesquisa de campo, mediante entrevista estruturada, tendo como alvo dirigente da área administrativa de órgão público, com abrangência em 19 dos 27 Territórios de identidade. Os resultados evidenciam um decréscimo no estoque de emprego formal no setor púbico do estado da Bahia, situação inversa ao cenário nacional. Por outro lado, a referida diminuição não resultou em declínio no limite prudencial da despesa com pessoal, pelo contrário, em 2009, ultrapassou o mencionado limite estabelecido na LRF e, o pior: o estado da Bahia encontra-se com déficit de servidores para atender às suas demandas. Em decorrência dos achados, sugere-se eficiente gestão tributária e adoção de política de crescimento/desenvolvimento, a fim de gerar emprego e renda. PALAVRAS-CHAVE: Estoque de Emprego Formal. Setor Público. Estado da Bahia. Despesa com Pessoal. Lei de Responsabilidade Fiscal. ABSTRACT The article aims to provide an overview of the situation of formal employment in the public sector in the state of Bahia and distribution of identity servers in the Territories, comprising the period 2000 to 2009 and simultaneously establish the annual expense ratio of staff to Recipe net current (RLC), taking into account the prudential limit recommended by the Fiscal Responsibility Law (FRL). The methodology used in the research fits into the typology exploratory theoretical-documentary, as well as by field research through structured interview, targeting officer in the administrative area of the public body, with coverage in 19 of the 27 Territories identity. The results shows a decrease in the stock of formal employment in the pubic sector of the state of Bahia, the reverse situation to the national scene. Moreover, that reduction did not result in decline in prudential limit spending on personnel, on the contrary, in 2009, exceeded the limit mentioned in the LRF and the worst: the Bahia is a deficit of servers to meet the demands at state level. As a result of the findings, we suggest efficient tax management and adoption of policy of growth / development in order to generate employment and income. KEYWORDS: Formal Employment Inventory. Public Sector. State of Bahia. Personnel expenses. Fiscal Responsibility Law. 1 Doutorando do Programa de Desenvolvimento Regional e Urbano (PPDRU), da Universidade Salvador (UNIFACS). E-mails: [email protected] / [email protected] - Site: www.lcsantos.pro.br. 100 1. INTRODUÇÃO O Estado é um agente indispensável para o atendimento das demandas da sociedade, em virtude de ser um ente regulador, promotor de desenvolvimento, responsável pela redistribuição de renda e por manter a economia estável, além do desempenho das funções que lhe são típicas - fornecer e produzir bens e serviços públicos. Acrescente-se que na formulação e implementação de políticas públicas, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE, 2012), o papel do setor público na dinâmica do mercado de trabalho é de capital relevância. Para os adeptos de políticas ativas de emprego, a expansão do emprego estatal se justifica tanto pela necessidade de ampliação dos serviços públicos, mormente na área social, quanto pela estratégia de combate ao desemprego. Nessa perspectiva, o emprego público tem sido essencial para absorver o incremento da força de trabalho e impedir que o crescimento da produtividade média da economia implique em aumento das taxas de desemprego, na medida em que gera emprego nas áreas sociais - educação, saúde, por exemplo, setores que na maioria das vezes, o setor privado não tem interesse em atuar. Sabe-se, contudo, que as despesas com pessoal sempre foi um dos acentuados fatores dos gastos públicos, principalmente nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado, e o seu descontrole pode trazer grandes prejuízos à gestão estatal, tanto é verdade, que na Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB) de 1988, o seu art. 169 prevê “A despesa com pessoal ativo e inativo da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios não poderá exceder os limites estabelecidos em lei complementar”. No ano de 2000, a Lei Complementar 101, denominada de Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), estabeleceu normas de finanças públicas direcionadas para a responsabilidade na gestão fiscal - subordinadas aos responsáveis pelo recurso público - com proposição de maior planejamento, transparência, controle e responsabilização das contas públicas de todos os poderes, limitando os abusos provadores de prejuízo ao erário. Ressalte-se, entretanto, que antes da vigência da LFR, outros diplomas legais, a exemplo da Lei Complementar nº 82/95 (Lei Camata I) e a reedição mediante a Lei Complementar nº 96/99 (Lei Camata II) já havia uma preocupação com a despesa de pessoal no âmbito das finanças públicas. Com o advento da LRF, foram fixados limites máximos – 60% da Receita Corrente Líquida (RCL) para os entes estaduais ou municipais, e 50% para a União. As determinações 101 de limites visam assegurar que a receita do ente não fique totalmente comprometida, inviabilizando os recursos destinados a atender ao conjunto de prioridades e programas governamentais. Acredita-se que a adoção de políticas ativas de emprego, desde que respeitado os limites estabelecidos na LRF, seja bastante salutar, principalmente porque houve aumento da participação do Estado nas sociedades contemporâneas, incluindo-se o Brasil, em decorrência de demandas oriundas da sociedade e pelo processo de desenvolvimento econômico. No Brasil, a expansão do emprego público na década de 80 pode ser justificada pela crescente demanda por programas sociais, além do atendimento aos preceitos da CRFB de 1988, quando ampliou as responsabilidades dos estados e municípios, consequentemente requerendo um maior contingente de pessoal. Na década de 90, com a adoção de políticas de ajuste altamente restritivas para o mercado de trabalho (DIESSE, 2012), houve diminuição do quadro funcional no que se refere à União, contudo, no que diz respeito aos estados e municípios não houve contenção de gastos, situação mais patente nos municípios, em virtude da sua crescente ampliação – o Brasil contava com 4.189 municípios em 1988, passando para 5.507, em 2000; e, em 2009, atingiu o patamar de 5.565. Acresça-se ao expressivo avanço quantitativo, o repasse de diversas atribuições que eram exclusivamente realizadas pela esfera federal. Assim, o rápido processo de urbanização e o atendimento às necessidades de serviços públicos, reafirme-se, a exemplo da saúde, educação, segurança pública, saneamento básico, obras de infraestrutura urbana, entre outros, implicou no aumento do número de funcionários, inclusive nos poderes legislativo e judiciário. Em relação ao Estado da Bahia, o mesmo está inserido no Programa Nacional de Reestruturação e Ajuste Fiscal, pelo qual o ente se compromete a adotar ações que possibilitem alcançar metas de resultados primário e nominal, por meio de compromissos vinculados a sua situação financeira. Dentre as metas estabelecidas pelo citado programa, inclui-se a despesa com o funcionário público. O Estado será considerado inadimplente se não alcançar as metas podendo ser penalizado com algumas sanções. Cabe lembrar que a Bahia abriga 417 municípios formando 27 Territórios de Identidade, distribuídos em uma área de 564.830.895 km2, constituindo o maior estado da região Nordeste, com a população aproximada de 14.021.432 habitantes, sendo cerca de 70% da população urbana, segundo o Censo/2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o sexto estado com maior Produto Interno Bruto (PIB) no país; entretanto o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,742, ocupando o 19º lugar no ranking dos estados 102 brasileiros. O grande desafio da gestão é dotar-se de instrumentos que propiciem a qualidade na aplicação dos recursos públicos, visando à mudança social. Por ser um ente federativo com a estrutura administrativa composta por muitos órgãos, inclusive de natureza autárquica, que na área da educação superior mantém 4 universidades, o Estado da Bahia necessita de um grande número de servidores para atender as demandas da máquina estadual. O objetivo geral do estudo é fornecer uma visão global da situação do estoque de emprego formal no setor público do estado da Bahia e a distribuição dos servidores nos Territórios de identidade, compreendendo o período 2000 a 2009 e, simultaneamente, estabelecer relação da despesa anual desse pessoal com a Receita Líquida Corrente (RLC), levando-se em conta o limite prudencial preconizado pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Portanto, a pesquisa está focada na trajetória do emprego público, no Estado da Bahia - 2000/2009 e sua distribuição nos territórios de identidade, não envolvendo servidores estatutários e celetistas da administração pública federal e municipal - direta e indireta. O interesse pelo estudo foi despertado na disciplina optativa “Tópicos Especiais em Economia do Trabalho”, integrante da matriz curricular do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Urbano (PPDRU) da Universidade Salvador (UNIFACS), por guardar estreita relação com o objeto da tese de doutorado, em fase de investigação. Para o alcance dos resultados, optou-se pela tipologia exploratória, de natureza teórico-documental, tendo como referência principal o trabalho do DIESSE, publicado em 2012, intitulado “A situação do trabalho no Brasil na primeira década dos anos 2000”, capítulos 4 e 5 - O mercado de trabalho formal brasileiro na última década e O trabalho no setor público, respectivamente. Assim, com o auxílio de profissional da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), foram extraídas informações da base de dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), compondo-se tabelas nas duas dimensões: estoque de emprego formal no setor público estadual e a distribuição do setor por territórios de identidade, com o fito de ilustrar o que se segue: ● Evolução do estoque de emprego formal, segundo o setor público estadual - Brasil, Nordeste e Bahia 2000-2009; ● Evolução do estoque e variação do emprego formal, segundo o setor público estadual - Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009; ● Evolução do estoque e participação do emprego formal, segundo o setor público estadual - Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009; 103 ● Evolução do estoque de emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009; ● Evolução do estoque de emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual Brasil - 2000-2009; ● Evolução da participação percentual do estoque de emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000-2009; ● Estoque e variação percentual do emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000/2009; ● Estoque e variação percentual do emprego formal, por faixa etária, segundo o setor público estadual Brasil - 2000/2009; ● Estoque e variação percentual do emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000/2009; ● Evolução do estoque de emprego formal, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000/2009; ● Estoque e variação percentual do emprego formal, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000/2009; ● Evolução da participação percentual do estoque emprego formal, segundo o setor público estadual Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000/2009; ● Estoque emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000; ● Estoque emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2009; ● Estoque emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000; e, ● Estoque emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2009. O artigo em tela, além da presente introdução, que descortinou a temática numa perspectiva panorâmica, apresentando o pressuposto investigativo (o objetivo do estudo) e a explicitação da metodologia adotada, tem seguimento com três seções: fundamentação teórica, que ancora as categorias ou eixos do objeto de estudo; apresentação, análise e interpretação dos dados, concernentes ao estoque formal de emprego no setor público do estado da Bahia, no período 2000/2009 e a relação do emprego nessa esfera de governo com a despesa relativa a pessoal, ressaltando o limite prudencial fixado pela LRF; e, a conclusão, que destaca o alcance do objetivo do estudo, sintetiza os achados da pesquisa e apresenta sugestões ante a problemática do déficit de servidores, por um lado; e do outro, o crescimento da despesa com pessoal 104 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Na percepção de Pereira (2008, p. 60), a administração pública é entendida enquanto "o conjunto de serviços e entidades incumbidos de concretizar as atividades administrativas, ou seja, da execução das decisões políticas e legislativas". O referido autor define que o propósito da administração pública é "a gestão de bens e interesses qualificados da comunidade no âmbito dos três níveis de governo: federal, estadual ou municipal". Acrescente-se que nas três esferas da administração pública existem dois tipos de grupos – administração direta e administração indireta. O primeiro refere-se aos ministérios, secretarias de estado, do distrito federal e secretarias municipais, enquanto que o segundo - a administração indireta - é composto por autarquias, fundações de direito público, empresas públicas, agências executivas, de regulação e controle, bem assim as chamadas “empresas de sociedade de economista mista”. Nessa perspectiva, existem as mencionadas espécies pertencentes ao gênero “administração indireta” nas diferentes esferas de governo. Constata-se na literatura consultada que o objetivo dos entes públicos nas suas três esferas ou níveis, no seu sentido macro, é o de atender as necessidades da população - cada vez mais crescentes - mediante a gestão dos recursos públicos, os quais são escassos. Para Bobbio (1998 apud PEREIRA, 2008, p. 61), a administração pública "designa o conjunto das atividades diretamente destinadas à execução das tarefas ou incumbências consideradas de interesse público ou comum, numa coletividade ou em uma organização estatal". Assim, de acordo com Meirelles (2003), o governo é responsável pela condução dos negócios públicos, utilizando os poderes e órgãos que o integram para atingir seus objetivos. Na visão do citado autor (2003, p. 64), "A Administração é o instrumental de que dispõe o Estado para pôr em prática suas opções de governo". Desse modo, o estado, tem a incumbência de atender as demandas da sociedade, com serviços públicos de qualidade e deve realizá-los por meio da administração pública numa dimensão gerencial, contemporânea, “fazendo mais”, com “otimização dos recursos estatais” sempre na busca da exaustão da satisfação da coletividade. Convém ressaltar, que a história, no intervalo entre os anos 30 e 60 do século passado, o Estado foi um grande incentivador do desenvolvimento econômico e social, visto que, após a 2ª Guerra Mundial houve prosperidade e aumento dos padrões de vida. Nos anos 50 prevalecia a ideia de que o Estado tinha um papel estratégico na promoção do progresso técnico, na acumulação de capital e também era responsável por garantir uma distribuição razoável da renda. De acordo com Filgueiras (2001), o período de 1950 a 1980 foi 105 consolidado e desenvolveu-se por intermédio de um Modelo de Substituição de Importações (MSI), que definia um projeto de desenvolvimento nacional. Para atender a esse fim, fez-se necessário o aumento da carga tributária e também, o número de burocratas públicos. Foram contratados diretamente pelo Estado funcionários públicos, a fim de promover o bem-estar social e o desenvolvimento econômico. O ritmo de crescimento da economia obtido nos anos 40 foi, entretanto, diminuído, provocando uma recessão e uma aceleração da inflação nunca havida no país. Friori (1989) indica que no final da década de 70 observaram-se sintomas de um conflito econômico e político envolvendo as bases de sustentação do regime e a capacidade de gerir o Estado. Alguns fatores, a exemplo da falta de condições de reconhecer fatos importantes na área das inovações tecnológicas, equívoco de reconhecimento do papel do Estado provedor de ações sociais e sistema de administração estatal ineficiente – geraram no início da década de 80 a grande crise fiscal na economia brasileira. No primeiro mundo as taxas de crescimento se reduziram à metade em relação à pósSegunda Guerra. Tanto a América Latina, em particular o Brasil, quanto o Leste Europeu se opuseram à realização do ajustamento fiscal na década de 70, resultando, assim, nos anos 80, um impacto bem maior da crise na economia. Isso ocasionou a redução da taxa de crescimento dos países centrais à metade do que vinha ocorrendo desde a Segunda Guerra Mundial. Segundo os expoentes da literatura, o acometimento supramencionado teve como causa principal a crise do Estado, na qual está envolvida a crise fiscal e a crise da forma burocrática de administrá-la. Atente-se que o Estado além de garantir a ordem interna, a estabilidade da moeda e o funcionamento dos mercados, tem um papel imprescindível na coordenação econômica. A década de 80 caracterizou-se por ser um período de significativa crise fiscal, juntamente com a falta de ação governamental. O Brasil passava por um período de redemocratização proveniente das demandas sociais, a descentralização fiscal e a aprovação da CRFB de 1988; os governadores de Estado encontravam-se em difícil situação financeira, com a escassez dos financiamentos externos, optando por outras formas de endividamento, como: emissão de títulos, antecipação de receita orçamentária (ARO), precatórios, empréstimos junto aos bancos estaduais - sem a devida preocupação de quitação da dívida no período determinado, apesar de haver regras para limite de endividamento e controle de gastos determinado pela União. Regras que não eram colocadas efetivamente em prática, pois 106 a União sempre dava resposta favorável à concessão dos financiamentos, causando desequilíbrio fiscal nas próprias contas (LEITE, 2001). No começo da década de 90, evidenciou-se a inviabilidade de uma reforma reconhecendo ao invés, a necessidade de reconstruir o Estado, de maneira que não apenas exercesse sua função de garantir a prosperidade mas, além disso, garantisse os direitos sociais e estimulasse a competitividade. Saliente-se que vários planos econômicos sugiram nas décadas de 80 e 90, com a meta prioritária de combate à inflação e congelamento dos preços – Cruzado (1986); Bresser (1987); Verão (1989); Color I (1990); Color II (1991); e Real (1994). No decorrer desse tempo, mudaram os critérios de financiamentos para o Estado e os Municípios; as receitas fiscais diminuíram devido à crise econômica, e os financiamentos internacionais também – no momento em que o país passava por um processo de redemocratização. Convém ressaltar que a nova Constituição agravou o problema dos desequilíbrios das contas públicas, ao transferir parte das receitas fiscais da esfera federal para os outros entes federados, sem a devida contrapartida, isto é, redistribuição também dos gastos. O Plano Real, em 1994, durante a gestão do presidente Itamar Franco, que tinha como Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (FHC), o qual foi eleito presidente para o próximo governo, conseguiu reduzir a inflação e mantê-la controlada durante um grande período de tempo, apesar de várias crises internacionais, da crise cambial de 98/99 e da mudança do regime de política econômica. O combate ao processo inflacionário dividiu-se em três períodos: ajuste fiscal; indexação completa da economia e reforma monetária. O esforço do ajuste fiscal teve início em 1994 com o Fundo Social de Emergência. Posteriormente, algumas medidas importantes aconteceram, a exemplo da Lei Kandir, O FUNDESF, as Emendas Constitucionais da Reforma do Estado (EC nº 19), da Reforma da Previdência (EC. nº 20) e o importante Programa de Estabilidade Fiscal (PEF). Em 1998 foi colocada na agenda política a proposta de se criar uma lei para regulamentar o art. 163 da CRFB de 1988, que trata de finanças públicas, apesar de estar em vigor a Lei 4.320/64, que estatui normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, Estados e Municípios e do Distrito Federal. Daí surgiu o primeiro motivo para a criação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a qual veio a tornar-se realidade com a promulgação da Lei Complementar 101/2000. No Tocante às finanças públicas, constatava-se a profunda reversão do saldo primário do governo, que passou a apresentar superávit expressivo, atendendo ao acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). 107 Concernentemente ao segundo mandato de FCH, atestam Giambiagi e Racy (2005), que algumas reformas relevantes foram introduzidas, a exemplo da privatização, fim de monopólios estatais, mudança do tratamento do capital estrangeiro, saneamento do sistema financeiro, reforma da previdência (apesar de não ser completa), renegociação das dívidas estaduais, aprovação da LRF, ajuste fiscal, criação de agências reguladoras e definição de metas de inflação. De acordo com Castro (2010), a Lei Complementar nº 131/2009, fortaleceu ainda mais a LRF, mormente ao tema da transparência para obtenção de uma boa gestão fiscal. Dentre outros ditames, ficou determinado que, mediante liberação em tempo real ao pleno conhecimento e acompanhamento da sociedade “[...] de informações pormenorizadas sobre a execução orçamentária e financeira, em meios eletrônicos de acesso público; adoção de sistema integrado de administração financeira e controle, que atenda a padrão mínimo de qualidade estabelecido pelo poder Executivo”. O Estado da Bahia tem-se desenvolvido bastante nessa área; existe o site Transparência Bahia onde podem ser consultados, por meio do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) ou Cadastro de Pessoa Física (CPF), os dados sobre a despesa efetuada pelo governo. Os relatórios determinados pela LRF se encontram facilmente acessíveis no portal da Secretaria da Fazenda do Estado (SEFAZ). Quanto aos instrumentos de planejamento, o Estado realizou o Orçamento Popular, PPA Participativo, Audiências Públicas e instalou o Conselho de Acompanhamento do PPA (CAPPA), formados por algumas Secretarias de Estado e representantes dos Territórios de Identidade, com a finalidade de acompanhar o que estava planejado no PPA, e a sua execução no orçamento. Relativamente à despesa com pessoal, caracteriza-se como despesa obrigatória de caráter continuado, sendo assim, para que possa ser viabilizado aumento do gasto, há algumas exigências a serem cumpridas, caso contrário, o seu efeito se torna nulo de pleno direito, ou seja, não é válido em função de não conter todos os requisitos necessários para a sua eficácia (art. 21). Para acompanhamento e publicidade referente aos limites da despesa de pessoal, os titulares do poder ou órgão devem publicar o Relatório de Gestão Fiscal (RGF) no prazo de 30 dias após o fechamento do quadrimestre; caso não seja publicado no prazo determinado, o órgão fica submetido às penalidades previstas na lei. Frise-se que o órgão ou poder, enquanto não conseguir adaptar-se ao limite indicado pela lei, ficará impossibilitado de: “receber transfência voluntária; obter garantia, direta ou 108 indireta, de outro ente; e contratar operações de crédito, ressalvadas as destinadas ao refinanciamento da dívida mobiliária e as que visem à redução da despesa de pessoal”. Enfatize-se que a função da gestão pública é disponibilizar os serviços necessários à população, por intermédio da execução orçamentário-financeira transparente, eficiente, enfim, em consonância com os princípios do direito público, em especial do Direito Administrativo. Nesse sentido, convém lembrar as lições de D'Auria (1962, p. 63), as finanças públicas "em sua vasta e ilimitada atuação, enfrentam e resolvem os problemas de natureza econômica que se desencadeiam da função de governo, donde se conclui que a função financeira se enquadra na ordem política e econômica do Estado". Matias e Campello (2000, p. 40) complementam afirmando: “[...] finanças públicas refere-se ao conjunto de problemas relacionados ao processo de Receitas-Despesas Governamentais e dos fluxos monetários". Ressalte-se que os entes públicos possuem a responsabilidade de viabilizar o funcionamento dos serviços públicos essenciais, demandados pela coletividade. Para atingir esse objetivo necessitam de recursos financeiros, que são obtidos por meio de várias fontes. O custeio das necessidades públicas realiza-se por meio da transferência de parcelas dos recursos dos indivíduos e das empresas para os governos, completando assim o círculo financeiro entre sociedade e Estado (PEREIRA, 2006, p. 133-134). Esta relação é a principal preocupação das finanças públicas. Na percepção de Pereira (2006), o objeto precípuo das finanças públicas é a atividade fiscal desempenhada com o propósito de obter e aplicar recursos para o custeio dos serviços disponibilizados aos cidadãos, sendo orientada segundo duas direções: (a) Política tributária, que se materializa na captação de recursos, para atendimento das funções da administração pública; (b) Política orçamentária, que se refere especificamente aos gastos, ou seja, aos atos e medidas relacionados com a forma da aplicação dos recursos, levando em consideração a dimensão e a natureza das atribuições do poder público, bem como a capacidade e a disposição para seu financiamento pela população. Passando para a categoria emprego formal, esta, segundo o DIEESE (2012), responde à dinâmica macroeconômica do país. Na década 2000/2009, conforme a fonte referenciada, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa média anual de 3,4%, resultando na variação da taxa média apresentada pelo estoque de empregos de 5,1% ao ano, “[...] revelando o dinamismo do crescimento do mercado de trabalho formal frente à evolução do PIB” (DIEESE, 2012, p. 79). De 2004 até 2007, as taxas de variação de cada ano, tanto do PIB quanto do estoque, foram superiores às dos anos anteriores. 109 Segundo o órgão supramencionado, a desaceleração do PIB, em 2003, reduziu o crescimento do estoque de 5,5% para 3,0%. No ano seguinte, a elevação do PIB a 5,7% resultou no aumento de 6,3% no estoque, segundo melhor resultado da série, inferior apenas ao crescimento registrado em 2007, de 7,0%, acompanhando a maior taxa de crescimento do PIB que foi de 6,1%, no período destacado. A crise financeira internacional, cujos efeitos começaram a se disseminar por volta de setembro de 2008, trouxe impactos à economia brasileira, todavia as consequências se manifestaram, igualmente, para o mercado de trabalho formal. Enfatize-se que a desaceleração do PIB, que variou 5,2% nesse ano, fez o estoque de empregos registrar um recuo na taxa de crescimento para 4,9%, sendo a primeira vez, entre 2000 e 2009, em que esta foi inferior à taxa de crescimento do PIB. Por outro lado, as medidas contra-cíclicas adotadas pelo governo federal para enfrentar a crise, embora não tenham evitado que a atividade econômica do país entrasse em recessão, permitiu que as consequências sobre o mercado de trabalho formal fossem reduzidas, tendo o estoque crescido a um ritmo menor, mas ainda assim, a uma taxa relevante, de 4,5%. É importante ressaltar que a carteira assinada é uma variável indicativa da maior qualidade do vínculo de emprego – na medida em que reflete a proteção social inerente a um emprego formal, no que diz respeito aos “direitos trabalhistas”, remuneração, e proteção da “seguridade social” -, o período 2000 a 2009 pode ser considerado um dos mais positivos em termos de geração desses postos no mercado de trabalho brasileiro. Segundo a Rais, em 2009, o número de empregados formais foi 64,9% acima do observado em 1999. Isso significa, segundo o DIEESE (2012), que no período sob análise, o mercado de trabalho absorveu a entrada de 15,0 milhões de vínculos com contrato formal, chegando ao último ano da série com 41,2 milhões de postos formalizados. O crescimento do estoque foi maior a partir de 2004. Entre 1999 e 2003, o número de vínculos cresceu 18,2%, ao passo que a variação relativa entre 2003 e 2009 acumulou um total de 39,7% Cabe registrar, que a Relação Anual de Informações Sociais (Rais) armazena dados, os quais são divulgados, anualmente, pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A Rais faz parte do Programa de Disseminação das Estatísticas do Trabalho (PDET), sendo um registro administrativo que cobre o universo de empregos formais; abrange os trabalhadores com carteira assinada sujeitos à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), funcionários públicos estatutários e celetistas das três esferas e poderes públicos, militares, entre outros vínculos relativos à administração pública, a exemplo dos contratados sob o Regime Especial de Direito Administrativo (REDA). 110 Conforme explicita o DIEESE (2012), a alimentação da Rais é feita por todos os estabelecimentos empresariais do país, com ou sem vínculos de trabalhadores, que fornecem ao MTE os dados da movimentação do conjunto de empregos no ano de referência. Essas informações são contabilizadas e divulgadas pelo Ministério com o total de vínculos ativos e inativos no último dia do ano. Segundo o MTE (2012), “[...] os dados da Rais cobrem aproximadamente 97,0% do mercado de trabalho formal brasileiro, sendo, na prática, um censo sobre essa população”. A presente fundamentação teórica pelo objeto que respalda, não poderia deixar de, pelo menos, tangenciar a questão dos territórios de identidade. Nesse sentido, o Governo da Bahia, passou a reconhecer a existência de 27 Territórios de Identidade, constituídos a partir da especificidade de cada região. Sua metodologia foi desenvolvida com base no sentimento de pertencimento, onde as comunidades, por meio de suas representações, foram convidadas a opinar. O Território para nova configuração do estado da Bahia é entendido como a base geográfica da existência social, espaço simbólico, em que a população constrói a sua identidade, exprime sentimentos de pertença e cria seu patrimônio cultural. Esta regionalização teve o fulcro de orientar a formulação de políticas públicas democráticas na área da cultura, descentralizando as tomadas de decisão, consultando a sociedade civil e criando instâncias intermediárias entre o poder municipal e o estadual. Sinopticamente, a Bahia com este novo designer visa à identificação de prioridades temáticas, definidas a partir da realidade local, possibilitando o desenvolvimento equilibrado e sustentável entre as regiões. A figura 1, mais adiante, ilustra o mapa do Estado da Bahia com seus 27 territórios e sua respectiva abrangência geográfica. Das leituras empreendidas, extrai-se que o território é conceituado como um espaço físico, geograficamente definido, geralmente contínuo, caracterizado por critérios multidimensionais, tais como o ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a política e as instituições, e uma população com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade, coesão social, cultural e territorial. Encontra-se na literatura consultada que, inicialmente, o conceito de Território de Identidade foi adotado por movimentos ligados à agricultura familiar e à reforma agrária. Posteriormente foi incorporado ao Ministério de Desenvolvimento Agrário para formulação de seu planejamento. Finalmente, esse conceito foi adotado pelo Governo da Bahia. A definição dada pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário para Território de Identidade é: 111 Espaço físico, geograficamente definido, não necessariamente contínuo, caracterizado por critérios multidimensionais, tais como o ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a política e as instituições, e uma população, como grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade e coesão social, cultural e territorial. (MDA, 2004, p. 4). A divisão da Bahia em Territórios não acompanha a divisão em Regiões Administrativas ou a divisão em Mesorregiões e Microrregiões Geográficas. Difere da divisão regional estabelecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que corresponde às microrregiões geográficas, ou organizadas como regiões econômicas, a exemplo da região sudoeste da Bahia, que norteavam a ação governamental e se constituíam na base para a formulação de políticas públicas e organização de dados estatísticos. A delimitação de região leva em conta a dimensão econômica - segue um eixo norte-sul. Vincula cidades, que tem como base o comércio e a pecuária enquanto atividades mais fortes, a exemplo das microrregiões geográficas de Vitória da Conquista, Jequié, Itapetinga. (DUARTE, 2012). Já a noção de Territórios de Identidade, segue um eixo leste-oeste, a exemplo do Planalto da Conquista à Serra Geral e Chapada Diamantina Meridional, estruturada mais a partir laços cotidianos, do fluxo de pessoas em busca de serviços e as relações comerciais. De acordo com o autor referenciado, o conceito de território mais proeminente na Geografia encontra-se vinculado a relações de poder, a delimitação de áreas onde a correlação de forças estabelece padrões de domínio. Assim, esses fatores podem ser associados, de um lado, a movimentos e grupos sociais, de outro, a grupos dominantes ou grandes empresas. Nessa perspectiva, território é um espaço definido e delimitado por relações de poder e seu exercício: quem domina ou influencia e como domina ou influencia este espaço. A questão passa a ser: quem domina e influencia quem? A partir dos estudos, constata-se que há uma polêmica na Geografia acerca da validade dos diferentes conceitos de território, particularmente aquele que discute até que ponto território pode ser tão alargado, ao incorporar cultura, valores, micro poderes. Algumas correntes consideram que esta excessiva flexibilidade do conceito pode esvaziar sua pertinência, e defendem o fator político e as relações de poder como o núcleo de sentido em que se deve ancorar o conceito de território. Território é o conceito geográfico que melhor exprime esta problemática relacional e se manifesta em três grandes concepções: a) abordagem geoeconômica de desenvolvimento regional, vinculada à estruturação produtiva do capital; b) dimensão relações de poder, com suas variantes, desde o poder instituído a outras manifestações; e, c) acepção de campo da identidade e da cultura. 112 Haesbaert (1996) sugere uma proposta integradora, ao levar em consideração, como hipótese, a possibilidade de articular as dimensões política, simbólica e econômica. Segundo este autor, a desterritorialização seria uma espécie de mito - o mito da desterritorialização dezenraizadora, incapaz de reconhecer o caráter imanente da (multi) territorialização na vida dos indivíduos e grupos, um processo espacialmente descontínuo e complexo. Defende que os processos de (multi) territorialização precisam ser compreendidos pelo potencial de perspectivas políticas inovadoras que eles implicam. Território tem a ver com poder, tanto no sentido de dominação político econômica, mais concreto e funcional e vinculado ao valor de troca, uni funcional, proposto pela lógica hegemônica capitalista, quanto no sentido mais simbólico-cultural, de apropriação, carregado das marcas do espaço-tempo vivido, do valor de uso, em que o território é sempre múltiplo, diverso e complexo. Ainda para o mencionado autor, deve-se primeiramente distinguir os territórios de acordo com os sujeitos que os constroem, sejam eles indivíduos, grupos sociais, o estado, empresas, instituições como a Igreja. A territorialidade, além de incorporar uma dimensão estritamente política, diz respeito também às relações econômicas e culturais, pois está intimamente ligado ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar. Portanto, todo território é ao mesmo tempo funcional e simbólico, pois exercer-se domínio sobre o espaço tanto quanto para realizar funções quanto para produzir significados. Os dominantes privilegiam o caráter funcional e mercantil dos recursos, os dominados combinam com igual intensidade funcionalidade (recurso) e identidade (símbolo), mas valorizam mais este último, como garantia de sobrevivência, uma vez que perder seu território é desaparecer. A concepção de multiterritorialidade, desenvolvida por Haesbaert (2005), abrange um conjunto superposto de várias territorialidades cuja abrangência pode ir além dos seus limites, um olhar que prioriza as relações deste território com aqueles que se encontram para além ou acima dele. Alguns autores reduzem a territorialidade à dimensão simbólico cultural do território, referente aos processos de identificação territorial. Porém, enquanto imagem ou símbolo de um território – abstração - existe e pode inserir-se eficazmente como uma estratégia político-cultural, mesmo que o território ao qual se refira não esteja concretamente manifestado – como a “Terra Prometida”, postulada por Haesbaert (2005). De acordo com Santos (2012), a partir de dados coletados nos Relatórios de Gestão Fiscal (RGF), no Sistema de Informações Contábeis, Orçamentárias e Financeiras (SICOF) e no Módulo Gerencial (ICF) do SICOF entende-se que os mesmos têm por finalidade avaliar 113 os atos da Administração Pública sob o prisma da qualidade dos gastos, obedecendo aos limites, ao equilíbrio, à aplicação correta dos recursos, aos custos envolvidos e à transparência na execução das despesas. Tratando-se de despesa com pessoal um gasto considerado de grande relevância nos orçamentos dos entes federativos foi fixado pela LRF limites específicos para o seu controle. Na investigação da citada autora, compreendendo o período 2000/2011, a despesa de pessoal, em todos os anos analisados, consumiu a parcela mais expressiva do orçamento. O dispêndio com pessoal evoluiu de R$ 1.908,8 milhões – que correspondeu a 31,1% do orçamento, no ano de 2000, para R$ 10.797,9 milhões, referente a 40.2% em 2011. Isso pode ser explicado, de acordo com Santos (2012), tendo em vista o componente autônomo intrínseco à natureza dessa despesa. Isso ocorre (despesa cresce) não apenas em razão da política de reajustes salariais, das novas contratações/nomeações e da reestruturação de carreiras, mas também de maneira vegetativa, ou seja, há componentes no Estatuto do Servidor que garantem adicionais e progressões salariais sem a necessária vinculação com a política de pessoal, retirando a governança do Estado do poder de controle da parcela dos seus gastos com pessoal. Neste particular, ainda que esta despesa reflita impacto do déficit do Fundo Financeiro de Previdência dos Servidores Públicos do Estado da Bahia (FUNPREV), na medida em que o tesouro assume a responsabilidade pela cobertura do referido déficit, passando a incorporar aos valores de pessoal o montante de recursos utilizados para este fim. Convém lembrar que este problema do FUNPREV é antigo, criado em 1988. O mencionado fundo teve sua capacidade financeira exaurida em função da Lei 7.483 que, em 1999 estabeleceu a transferência imediata para o fundo da totalidade das despesas com inativos, desconsiderando com o processo gradativo que garantia uma capitalização adequada para a carteira previdenciária, causando dificuldades financeiras. Atualmente os benefícios são custeados por dois fundos – o FUNPREV para os servidores que ingressaram até 31/12/2007 e o fundo Previdenciário dos Servidores Públicos do Estado da Bahia (BAPREV) para os funcionários que ingressaram depois da data suprarreferenciada. De acordo com dados colhidos na SEFAZ, convém assinalar que em 2009, a despesa de pessoal atingiu o valor de R$ 8.804,1 milhões, correspondendo a 41,5% do total do orçamento executado. Evidencia-se que, naquele ano, a despesa líquida com pessoal do poder executivo alcançou o limite prudencial. Assinale-se que de acordo com os arts. 19 e 20 da LRF, o limite para o Poder Executivo estadual é de 48,6%, contudo, há um limite prudencial de 46,17% da despesa com pessoal em relação à Receita Corrente Líquida (RCL), bem assim um limite de alerta no percentual de 43,74% . 114 A partir dos dados colhidos na SEFAZ (2012), a despesa líquida com pessoal, no ano de 2000 evidenciou um hiato para alcance do limite prudencial da relação despesa com pessoal e RCL de 10,28% (46,17% - 35,89%). Entretanto, ao invés de aumentar essa diferença, foi constatado que em 2011, o intervalo diminuiu para 1,76% (46,17% - 44,41%), ou seja, a despesa de pessoal do Poder Executivo, apesar de não ter ultrapassado o limite definido pela LRF, a cada ano está mais próximo do limite prudencial. Ressalte-se, segundo os dados da SEFAZ (2012), esse cenário revelaria uma situação pior se às despesas com pessoal fossem acrescidos os gastos referentes a auxílio transporte e alimentação, assistência médica, encargos com benefícios especiais, contabilizadas como despesas de custeio. 3. APRESENTAÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Nesta seção apresenta-se a trajetória do emprego público, tendo como empregador o estado da Bahia, compreendendo o período 2000/2009. A primeira subseção compõe-se de 9 tabelas, sendo que a inicial apresenta a situação da região nordeste, na qual a Bahia está inserida; na segunda subseção ilustra-se o emprego público do ente – estado da Bahia – distribuído pelos 26 Territórios de Identidade, uma vez que somente em 2012 foi implantado mais um território, como anteriormente explicitado, passando para 27 o total. 3. 1 SETOR PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA Tabela 1 - Evolução do estoque de emprego formal, segundo o setor público estadual Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009 Ano Brasil Nordeste Bahia 2000 2.736.894 629.226 205.854 2001 2.689.301 623.678 171.695 2002 2.902.246 643.523 174.558 2003 2.946.374 703.559 179.621 2004 2.813.232 715.193 174.401 2005 3.078.439 740.759 180.379 2006 3.151.978 752.340 175.396 2007 3.267.346 769.389 177.497 2008 3.337.026 796.098 181.927 2009 3.378.278 809.541 175.220 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS)― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000 2009. 115 A tabela 1 revela dois cenários: enquanto a totalidade do Setor Público Estadual e a Região Nordeste apresentaram quantitativamente aumento de emprego, exceto em 2001– saltando, em 2000, de 2.736.894 para 3.378.278, em 2009 e, de igual modo, a região nordeste, em 2000, de 629.226 para 809.541, em 2009; a Bahia, foco deste artigo, apresentou um quadro inverso – de 205.854, em 2000, para 175.220. Se confrontados os dados em Reais, obtidos pela SEFAZ (2012) com dados da RAIS, do MTE, poder-se-ia, a priori, configurar uma incongruência. A RLC do Estado da Bahia está no limite prudencial preconizado pela LRF. Por outro lado, sabe-se que o déficit de pessoal alcança toda a Administração Pública do Estado da Bahia - direta e indireta. As duas situações são verdadeiras (alcance do limite prudencial e déficit de pessoal), tanto é que o Governo do Estado da Bahia vem protelando a abertura de concursos públicos para várias categorias, a exemplo de “Procurador do Estado”, além de insistir em seleções públicas, via contratação por Regime Especial Direito Administrativo (REDA), inclusive para cargos da Defensoria Pública, desconsiderando posicionamentos do Ministério Público Estadual. Acresce-se ao cenário descrito, o volume de terceirização de serviços – quer pessoa física quer pessoa jurídica, conforme assevera Santos (2012). Entende-se que parte da diminuição do contingente de servidores decorre da municipalização de serviços, por exemplo, a educação infantil – passando da competência do Estado para os Municípios, porém, ao observar as diversas naturezas jurídicas, constante da obra do DIEESE (2012) a trajetória do emprego público no Brasil 2000/2009 foi ascendente. Tabela 2 - Evolução do estoque e variação do emprego formal, segundo o setor público estadual Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009 Brasil Ano Estoque Nordeste Variação % Estoque Bahia Variação % Estoque Variação % 2000 2.736.894 23,4 629.226 28,7 205.854 -14,9 2001 2.689.301 25,6 623.678 29,8 171.695 2,1 2002 2.902.246 16,4 643.523 25,8 174.558 0,4 2003 2.946.374 14,7 703.559 15,1 179.621 -2,5 2004 2.813.232 20,1 715.193 13,2 174.401 0,5 2005 3.078.439 9,7 740.759 9,3 180.379 -2,9 2006 3.151.978 7,2 752.340 7,6 175.396 -0,1 2007 3.267.346 3,4 769.389 5,2 177.497 -1,3 2008 3.337.026 1,2 796.098 1,7 181.927 -3,7 2009 3.378.278 - 809.541 - 175.220 - Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) - Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 20002009. Nota: a variação percentual refere-se sempre ao ano da linha correspondente em relação a 2009. 116 Entre 2000 e 2009, o total de empregos do Setor Público Estadual, no Brasil, cresceu 23,4%, correspondendo a um incremento médio anual de 4,3%. Na Região Nordeste, no mesmo período (2000/2009), houve um aumento no total de empregos do Setor Público Estadual na ordem de 28,7%, portanto, acima do crescimento no país como um todo. Todavia, no Estado da Bahia verificou um decréscimo de 14,7%. - as variações foram quase na sua totalidade negativas. Já em termos da relação – despesa líquida com pessoal e receita corrente líquida, dados extraídos do sítio eletrônico da Secretaria Estadual da Fazenda (SEFAZ), o comportamento foi crescente; em 2000 verifica-se 35,89% da RLC, 38,41% em 2001, 41,63%, em 2003, 44,29%, em 2004, 40,28%, em 2005, 42,33% em 2006, 42,74% em 2007, 43,10% em 2008; em 2009, 46,76%, ultrapassando, inclusive, o limite prudencial preconizado pela LRF, que é de 46,17%. A situação é preocupante, uma vez que é patente o déficit de servidores públicos no Estado da Bahia, cenário, aliás, averiguado na tabela 2, a qual exibe uma trajetória decrescente de 2000 a 2009, mesmo período em que a despesa com pessoal ultrapassou o limite prudencial. Infere-se, assim, que para atender à demanda de pessoal torna-se necessária uma gestão tributária em nível de excelência, a fim de arrecadar mais e, simultaneamente, a adoção de política de crescimento/desenvolvimento econômico, a qual permita ampliar o quantitativo de servidores no limite da LRF e sobre recursos para gastos em custeio e investimento. Tabela 3 - Evolução do estoque e participação do emprego formal, segundo o setor público estadual - Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009 Brasil Ano Estoque 2000 Nordeste Participação % Estoque Bahia Participação % Estoque Participação % 2.736.894 100,0 629.226 23,0 205.854 32,7 2001 2.689.301 100,0 623.678 23,2 171.695 27,5 2002 2.902.246 100,0 643.523 22,2 174.558 27,1 2003 2.946.374 100,0 703.559 23,9 179.621 25,5 2004 2.813.232 100,0 715.193 25,4 174.401 24,4 2005 3.078.439 100,0 740.759 24,1 180.379 24,4 2006 3.151.978 100,0 752.340 23,9 175.396 23,3 2007 3.267.346 100,0 769.389 23,5 177.497 23,1 2008 3.337.026 100,0 796.098 23,9 181.927 22,9 3.378.278 100,0 809.541 24,0 175.220 21,6 2009 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000 percentual refere-se ao peso do Nordeste no Brasil e Bahia no Nordeste. -2009. Nota: a participação 117 Observa-se na tabela 3 que a região nordeste do país, em 2000 apresenta um estoque de empregos no setor estadual na ordem de 629.226, correspondendo a 23,0%%, da participação nacional, passando em 2009, para 809.541, representando 24,0%. Em relação ao Estado da Bahia, evidencia-se um estoque de 205.854 empregos do setor público em estadual, em 2000, representando 32,7%, da participação da região nordeste, enquanto que, em 2009, verifica-se um decréscimo do estoque alcançado 175.220 empregos, correspondendo a 21,6%. Portanto, houve uma queda do estoque de emprego e o consequente declínio na participação da região referenciada. Ratifica-se, pois, o cenário contraditório já comentado, a partir dos dados disponibilizados na SEFAZ (2012) - queda do estoque de emprego e o consequente decréscimo na participação regional, porém com incremento da despesa com pessoal, ultrapassando, em 2009, o limite prudencial fixado na LRF. Tabela 4 - Evolução do estoque de emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual - Brasil, Nordeste e Bahia - 2000-2009 Ano Brasil Estatutário Nordeste Celetista Estatutário Bahia Celetista Estatutário Celetista 2000 2.488.756 248.138 563.297 65.929 204.173 1.681 2001 2.495.286 194.015 560.995 62.683 168.012 3.683 2002 2.894.331 220.573 582.819 76.498 178.155 6.469 2003 2.727.597 218.777 620.641 82.918 177.674 1.947 2004 2.807.088 199.772 628.550 86.643 173.929 472 2005 2.813.318 265.121 648.815 91.944 179.455 924 2006 2.913.864 238.114 661.826 90.514 174.681 715 2007 3.062.907 204.439 703.706 65.683 176.668 829 2008 3.104.873 232.153 721.737 74.361 181.208 719 2009 3.095.991 282.287 721.266 88.275 174.514 706 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000 -2009. Observa-se que entre 2000 e 2009, a análise dos vínculos contratuais indicou incremento na participação dos servidores do setor público estadual, em regime estatutário no conjunto do emprego público. Igual fenômeno ocorreu na região nordeste e, de certa forma, no Estado da Bahia. Infere-se que a referida ocorrência decorreu da implantação do Estatuto dos Servidores Públicos, uma exigência da CRFB de 1988. 118 O Estado da Bahia foi um dos primeiros entes da federação a enviar o Projeto de Lei à Assembleia Legislativa, vindo a ser aprovado mediante Lei nº 6.677/1994. Pode-se depreender, em virtude do diminuto quantitativo de empregos regidos pela CLT, principalmente, a partir de 2004, tenha ocorrido inconsistência na base de dados, pois existem várias empresas de economia mista vinculadas ao Estado, a exemplo da Empresa Baiana de Águas e Saneamento S.A (EMBASA), Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER), Empresa Baiana de Alimentos S.A (EBAL), Companhia de Engenharia Ambiental e Recursos Hídricos da Bahia (CERB); Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola S.A (EBDA), dentre tantas outras, cujos empregados são regidos pela CLT - o quantitativo apresentado enseja um futuro estudo aprofundado, até porque a Emenda Constitucional 19, que alterou a redação do art. 37 da CRFB de 1988, deixando a adoção do regime jurídico único (estatutário) de ser obrigatória. Logo, a contratação de pessoal para o serviço público “[...] voltou a ser possível pelo regime instituído na Consolidação das Leis do Trabalho, o que na prática se concretizou, sobretudo, no caso das contratações ocorridas no âmbito das entidades empresariais estatais” (DIEESE, 2012, p. 106). Tabela 5- Evolução do estoque de emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000-2009 Ano Nível de Instrução 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 Analfabeto 30.166 36.005 36.956 2.440 1.775 1.192 3.242 3.658 4.401 2.876 Ensino Fundamental Incompleto 279.651 258.383 403.696 350.221 318.333 311.532 218.873 242.643 246.793 206.349 359.819 272.474 258.489 233.684 330.971 390.047 304.755 375.631 171.605 178.892 158.734 142.251 935.645 902.914 1.028.262 1.019.388 219.228 192.740 204.293 190.249 Ensino Fundamental Completo 224.411 254.034 Ensino Médio Incompleto 149.317 127.727 141.271 142.958 143.655 135.939 Ensino Médio Completo 789.005 867.227 994.115 898.439 918.215 905.640 158.553 167.516 182.431 176.213 160.908 170.702 Educação Superior Incompleta Educação Superior Completa 846.338 868.131 970.651 1.181.108 1.278.245 1.352.549 1.272.414 1.356.452 1.389.788 1.441.534 Total 2.736.894 2.689.301 2.902.246 2.946.374 3.006.860 3.078.439 3.151.978 3.267.346 3.337.026 3.378.278 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) - Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000-2009. 119 Ao analisar a tabela 5 percebe-se, de modo geral, uma significativa melhoria quanto à escolaridade do servidor do setor público estadual na Bahia. Por exemplo, em 2000, havia um contingente de 359.819 servidores com o ensino médio completo; em 2009, alcançou um patamar de 1.019.388. Em relação ao grau superior completo, passou de 846.338, em 2000, para 1.441.534. A tabela em foco releva outro dado bastante relevante: em 2000, o setor público do estado da Bahia possuía 30.166 servidores considerados analfabetos; e, em 2009, o quantitativo foi drasticamente reduzido para 2.876. Dentre os fatores que influenciaram a mudança do cenário, citam-se: o ditame previsto na Lei Federal 9.394/1996, intitulada “Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)”, exigindo título superior para a docência na educação básica”; o requisito do ensino médio completo para o acesso no serviço público, excetuando-se alguns cargos de apoio, tais como merendeira, porteiro, mensageiro, etc.; a exigência dos graus referenciados para progressão funcional (mudança de níveis horizontalizados numa mesma classe) dos cargos públicos, dentre outros. Tabela 6 - Evolução da participação percentual do estoque de emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000-2009 Ano Nível de Instrução 2000 Analfabeto 2001 2002 2003 1,1 1,3 1,3 0,1 Ensino Fundamental Incompleto 14,8 13,0 11,0 10,6 Ensino Fundamental Completo 13,1 10,1 8,9 5,5 4,7 28,8 5,8 Ensino Médio Incompleto Ensino Médio Completo Educação Superior Incompleta Educação Superior Completa Total 2004 2005 0,1 0,0 9,3 8,4 7,9 7,5 8,3 4,9 4,9 4,8 4,4 32,2 34,3 30,5 30,5 6,2 6,3 6,0 5,4 30,9 32,3 33,4 40,1 100,0 100,0 100,0 100,0 2006 2007 2008 2009 0,1 0,1 0,1 0,1 6,9 7,4 7,4 6,1 10,5 11,9 9,1 11,1 5,4 5,5 4,8 4,2 29,4 29,7 27,6 30,8 30,2 5,5 7,0 5,9 6,1 5,6 42,5 43,9 40,4 41,5 41,6 42,7 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) - Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000-2009. A Tabela 6 revela a participação percentual do estoque de emprego público estadual, na Bahia, no período 2000/2009, por nível de instrução, o que reforça o comentário constante na tabela anterior, ou seja, destaque para os níveis ensino médio completo, superior completo e participação de 0,1, concernente ao estoque de emprego formal, considerado analfabeto. Convém ressaltar, que a tendência é zerar esta modalidade de estoque por meio de aposentadoria, invalidez permanente ou morte, uma vez que a CRFB de 1988 proíbe o ingresso de analfabeto no serviço público. 120 Tabela 7 - Estoque e variação percentual do emprego formal, por nível de instrução, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000/2009 Ano Nível de Instrução Variação Percentual 2000 Analfabeto 2009 2000/2009 30.166 2.876 -90,5 Ensino Fundamental Incompleto 403.696 206.349 -48,9 Ensino Fundamental Completo 359.819 375.631 4,4 Ensino Médio Incompleto 149.317 142.251 -4,7 Ensino Médio Completo 789.005 1.019.388 29,2 Educação Superior Incompleta 158.553 190.249 20,0 Educação Superior Completa 846.338 1.441.534 70,3 2.736.894 3.378.278 23,4 Total Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. Em termos de variação percentual no período sob análise, fica evidenciada variação negativa na categoria analfabeto, nos graus de instrução ensino fundamental incompleto e ensino médio incompleto. Por outro lado, os níveis ensino fundamental completo, ensino médio completo, educação superior incompleta e completa apresentam variação positiva, respectivamente - 4,4; 29,2; 20,0; e, 70,3. Pode-se inferir que esses resultados estão relacionados tanto à própria iniciativa dos servidores estatutários ou contratados, que voltam a estudar por vislumbrarem melhorias nos seus respectivos planos de carreira, bem assim aos níveis de exigência dos concursos e/ou seleções públicos, os quais têm incentivado, nos processos seletivos, o acesso de servidores com nível superior. Tabela 8 - Estoque e variação percentual do emprego formal, por faixa etária, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000/2009 Faixa Etária Variação Percentual Ano 2000 2009 2000/2009 Até 17 anos 702 228 -67,5 De 18 a 24 anos 91.408 111.332 21,8 De 25 a 29 anos 258.036 296.362 14,9 De 30 a 39 anos 921.376 871.126 -5,5 De 40 a 49 anos 900.639 1.146.412 27,3 De 50 a 64 anos 509.115 888.522 74,5 65 anos ou mais 52.649 64.265 22,1 Ignorado 2.969 31 -99,0 Total 2.736.894 3.378.278 23,4 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. 121 No tocante ao quesito faixa etária dos servidores do setor público estadual da Bahia, verifica-se que a maior concentração situa-se na faixa de 30 a 39 anos, vindo, em seguida, a faixa 40 a 49 anos. Entretanto, considerando os dados disponibilizados na Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia (SEFAZ, 2012), as faixas 50 a 64 anos e 65 anos ou mais, onde os servidores encontram próximos ou já com tempo de serviço para aposentaremse. Frise-se que a previsão para 2020 quanto à aposentadoria dos servidores do Estado da Bahia tem projeção de um contingente aproximado de 46 mil funcionários (SEFAZ, 2012). A situação é bastante preocupante; saliente-se que o limite prudencial da LRF fora ultrapassado em 2009, quando se apurou 46,75% , enquanto que o teto legal é 46,17%. Mesmo tendo sido recuado para 43,18%, em 2010, e novamente retomando a elevação, em 2011, para 44,41%, o estado da Bahia deve rever sua política de crescimento e desenvolvimento, a fim de gerar empregos e renda, inclusive para atender às demandas de pessoal da administração direta e indireta, todavia, sem comprometer a Receita Corrente Líquida (RCL). Atente-se que a despesa bruta com pessoal inclui servidores na ativa, inativos, pensionistas e terceirizados. Carece destaque a faixa até 17 anos, a qual apresentou uma variação percentual negativa na ordem de 67,5%, resultante do declínio do contingente de servidores - de 702, em 2000, para 228, em 2009. Esse diminuto quantitativo no último ano da série histórica levanta dúvida quanto a sua veracidade. Talvez, tenha havido problemas na base de dados, porque é contraditório; por exemplo, com a implantação do Programa de Jovem Aprendiz do Estado, coordenado pela Secretaria de Administração do Estado da Bahia (SAEB) e coexecutado pelas Voluntárias Sociais houve significativa procura de órgão da administração pública do estado - direta e indireta ao citado programa. Os jovens selecionados são alocados nos diversos órgãos da administração pública, cujo regime é o da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Tabela 9 - Estoque e variação percentual do emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual - Brasil - 2000/2009 Sexo Variação Percentual Ano 2000 2009 2000/2009 Masculino 1.131.042 1.449.220 28,1 Feminino 1.605.852 1.929.058 20,1 2.736.894 3.378.278 23,4 Total Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) - Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. 122 A tabela 9 evidencia que o estoque de emprego formal, sob a responsabilidade do Setor Público dos Estados, referente ao quesito sexo, recai nas mulheres, tanto no início da série histórica (2000), com 1.131.042, quanto no final (2009), apresentando um contingente de 1.929.058. Recorrendo-se à SEI (2012), por intermédio da Rais, o estoque de emprego formal no que se refere ao Setor Público do Estado da Bahia, o cenário não é diferente: em 2000, o estoque de emprego - sexo masculino alcançou 81.284, enquanto que o sexo feminino era 124.570 empregos. Já em 2009, final da série histórica, o estoque masculino totalizou 77.175 e o feminino perfazia 98.045. O quadro, portanto, coincide com o cenário nacional: a mais estoque de emprego do sexo feminino que o masculino. Sabe-se que as áreas da educação e saúde, detém o quantitativo expressivo de servidores em relação às demais, justifica-se, desse modo, a predominância do sexo feminino. 3.2 SETOR PÚBLICO ESTADUAL NOS TERRITÓRIOS DE IDENTIDADE DA BAHIA Figura 1 - Mapa dos Territórios de Identidade do Estado da Bahia Fonte: CEDETER, SEI (2012). 123 O Estado da Bahia, conforme evidencia a figura 1, possui 27 Territórios de Identidade, discriminados logo abaixo da mencionada ilustração. Os Territórios de Identidade foram instituídos por intermédio da Lei Estadual 10.705/2007 e regulamentados pelo Decreto nº 12.354/2010. Portanto, é algo recente, ainda em processo de ajustamento, tanto é verdade que o Diário Oficial do Estado (DOE), edição de 05 e 06 de janeiro de 2013, publicou a Lei nº 12.629, que atualiza os limites dos municípios que integram o Território de Identidade do Velho Chico. Mais recentíssimo ainda, verificou-se no DOE, edição de 11/01/2013, a publicação de três novas leis - 12.636/2013, 12.637/2013 e 12.638/2013 -, as quais alteram os limites dos Territórios de Identidade, respectivamente, Extremo Sul, Bacia do Corrente e Litoral Sul. As tabelas a seguir, tiveram a intenção de distribuir, por Território de Identidade, o estoque de emprego formal do Setor Público do Estado da Bahia. Tendo em vista que a referida distribuição pode, ainda, está em processamento ou revisão, a partir dos dados da base, por município, uma vez que a expressiva maioria encontra-se com quantitativo diminuto ou zerado, considerou-se para análise e interpretação somente 4 Territórios de Identidade, a saber: Litoral Sul; Portal do Sertão; Vitória da Conquista; e, Região Metropolitana de Salvador, por apresentar quantitativos mais já expressivos. Tabela 10 - Evolução do estoque de emprego formal, segundo o setor público estadual ― Territórios de Identidade do Estado da Bahia ― 2000/2009 Território de Identidade 2000 2009 Território de Identidade 2000 2009 Irecê 0 2 Bacia do Jacuípe 0 0 Velho Chico 1 1 Piemonte da Diamantina 0 2 Chapada Diamantina 0 0 Semi-Árido Nordeste II 0 0 0 2 Litoral Norte e Agreste Baiano 0 2 1.432 1.709 Sisal Litoral Sul 807 1.098 Portal do Sertão Baixo Sul 0 3 Vitória da Conquista Extremo Sul 0 2 Recôncavo Médio Sudoeste da Bahia 0 2 Vale do Jequiriçá 0 Sertão do São Francisco Bacia do Rio Grande 951 1.500 3.025 0 Médio Rio de Contas 7 5 0 Bacia do Rio Corrente 0 1 0 2 Itaparica 0 1 0 7 Piemonte Norte do Itapicuru 0 95 Bacia do Paramirim 0 0 Região Metropolitana de Salvador 199.631 170.770 Sertão Produtivo 0 4 Costa do Descobrimento 0 11 Piemonte do Paraguaçu 0 1 205.854 175.220 Total - - Total Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. 124 Observa-se que a trajetória - 2000/2009 - do emprego público do setor estadual apresentou declínio, de 205.854, em 2000, para 175.220. Esta situação é inversa se considerar todas as 27 unidades da federação, pois em 2000, o contingente de empregos totalizou 2.736.894, já em 2009, houve um incremento passando para 3.378.278. Analisando-se os 4 Territórios de Identidade, verifica-se que a Região Metropolitana de Salvador concentra a maioria dos empregos do setor estadual - de 199.631, em 2000, para 170.770, em 2009. Constata-se uma situação diversa nos três outros Territórios (Portal do Sertão, Vitória da Conquista e Litoral Sul), todos ao invés de seguir o cenário geral do estado, o qual apresentou diminuição do emprego público, naqueles houve incremento. A priori a situação revelada pode significar que os mencionados territórios se constituam vetores de crescimento, o que levou o estado da Bahia a ampliar o quantitativo de pessoal para atender as demandas. Aliás, os municípios de Feira de Santana, Vitória da Conquista, Itabuna e Ilhéus vêm crescendo. Considerando que o estado da Bahia existe 417 municípios e estes estão agrupados formando 27 Territórios de Identidade; considerando, também, que determinadas áreas, tendo como exemplo - educação (principalmente, que requer professores da rede pública estadual, a fim de atender às demandas do ensino médio); saúde, a qual recruta médicos, dentistas, enfermeiros, dentre outras categorias congêneres, para o atendimento dos cidadãos, pelo estado; considerando, ainda, a segurança publica, de responsabilidade do estado, a qual necessita de efetivos, como entender a situação de 5 Territórios de Identidade que apresentam tanto no início da série histórica (2000) sob análise, quanto no final (2009) com estoque zerado de emprego, por parte do setor público do estado da Bahia? De igual modo, como conceber quantitativos inexpressivos de estoque de emprego sob a égide do estado? A propósito, a Universidade do Estado da Bahia, autarquia vinculada à SEC, possui campi em 24 municípios, capital e 23 no interior do estado; está completando 30 anos de existência e quando analisado o estoque de emprego formal, constante da tabela 10, evidencia-se uma possível inconsistência dos dados, na medida em que, por exemplo, o Departamento de Ciências Humanas e Tecnologias (DCHT), de Seabra, localizado no município o qual integra o Território de Identidade da Chapada Diamantina aparece com estoque zerado tanto no início quanto no término da sério histórica sob investigação, porém existem professores do quadro permanente, professores substitutos, contratados pelo Regime Especial de Direito Administrativo (REDA), bem assim pessoal técnico-administrativo, todavia, não consta da base de dados da RAIS/MTE (2012). 125 Nessa mesma linha de raciocínio, cita-se o Departamento de Ciências Humanas, campus IV (DCH-IV), em Santo Antônio de Jesus, município integrante do Território de Identidade do Recôncavo, aparece na referida tabela com estoque de emprego zerado em 2009, porém as atividades-fim e meio do Departamento estão em pleno desenvolvimento por professores e técnicos concursados, pertencentes ao setor público do estado da Bahia, não tendo havido interrupções das mencionadas atividades no período 2000/2009. Ainda na UNEB, podem servir de exemplo, nessa mesma perspectiva, os Territórios Piemonte de: Paraguaçu (Itaberaba); Piemonte da Diamantina (Jacobina); Itaparica (Paulo Afonso), dentre outros, os quais a Autarquia Universitária mantém Departamento, oferecendo cursos e desenvolvendo atividades de pesquisa e extensão. Sabe-se que o ingresso no setor público decorre de concurso (quadro permanente), seleção pública (contrato temporário mediante Regime Especial de Direito Administrativo – REDA), nomeação para ocupar cargos de provimento temporário (Direção e Assessoramento de Nível Superior - DAS e/ou Direção e Assessoramento Intermediário – DAI). Ante a assertiva pergunta-se: estaria o estado utilizando o meio ilegal, condenado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA) e Ministério Público do Estado (MPE) – a chamada “Prestação de Serviço Temporário” ou PST? Ou o ente federativo estado da Bahia estaria se valendo da terceirização para atender funções precípuas do estado? Frise-se que o recurso da terceirização somente tem respaldo para serviços de segurança/vigilância patrimonial, limpeza e algumas funções na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), as quais não constam dos planos de cargos e salários dos órgãos da administração estadual - direta e indireta. Enfim, como explicar tal ocorrência/fenômeno? Tabela 11 - Estoque e variação percentual do emprego formal, segundo o setor público estadual― Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000/2009 Território de Identidade 2000 2009 Var. % Irecê 0 2 Velho Chico 1 1 Chapada Diamantina 0 0 - Sisal 0 2 - 807 1.098 Baixo Sul 0 3 - Extremo Sul 0 2 - Médio Sudoeste da Bahia 0 2 - Médio Rio de Contas Vale do Jequiriçá 0 0 - Sertão do São Francisco 0 2 - Litoral Sul - Território de Identidade 0,0 Var. % 2009 Bacia do Jacuípe 0 0 - Piemonte da Diamantina 0 2 - Semi-Árido Nordeste II 0 0 - Litoral Norte e Agreste Baiano 36,1 2000 0 2 1.432 1.709 19,3 951 1.500 3.025 0 57,7 100,0 7 5 -28,6 Bacia do Rio Corrente 0 1 - Itaparica 0 1 - Portal do Sertão Vitória da Conquista Recôncavo - 126 Bacia do Rio Grande 0 7 - Piemonte Norte do Itapicuru Bacia do Paramirim 0 0 - Região Metropolitana de Salvador Sertão Produtivo 0 4 - Costa do Descobrimento Piemonte do Paraguaçu 0 1 - Total - - Total - 0 95 199.631 170.770 0 11 205.854 175.220 -14,5 - -14,9 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) - Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. A tabela 11 reforça os comentários constantes da ilustração anterior, na medida em que estoque e variação percentual do emprego formal, segundo o setor público estadual apresentaram dados positivos nos três Territórios - Vitória da Conquista (57,7 de variação); Litoral Sul (36,1% de variação); e, Portal do Sertão (19,3 de variação). O Território de Identidade da Região Metropolitana de Salvador sofreu variação negativa de 14,5%, todavia, compatível considerando-se que representa a maior concentração de emprego e o estado da Bahia apresentou diminuição no período analisado, diferentemente de outros estados da federação. Tabela 12 - Evolução da participação percentual do estoque emprego formal, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia - 2000/2009 Território de Identidade 2000 2009 Território de Identidade 2000 2009 Irecê 0,0 0,0 Bacia do Jacuípe 0,0 0,0 Velho Chico 0,0 0,0 Piemonte da Diamantina 0,0 0,0 Chapada Diamantina 0,0 0,0 Semi-Árido Nordeste II 0,0 0,0 Sisal 0,0 0,0 Litoral Norte e Agreste Baiano 0,0 0,0 Litoral Sul 0,4 0,6 Portal do Sertão 0,7 1,0 Baixo Sul 0,0 0,0 Vitória da Conquista 0,5 0,9 Extremo Sul 0,0 0,0 Recôncavo 1,5 0,0 Médio Sudoeste da Bahia 0,0 0,0 Médio Rio de Contas 0,0 0,0 Vale do Jequiriçá 0,0 0,0 Bacia do Rio Corrente 0,0 0,0 Sertão do São Francisco 0,0 0,0 Itaparica 0,0 0,0 Bacia do Rio Grande 0,0 0,0 Piemonte Norte do Itapicuru 0,0 0,1 Bacia do Paramirim 0,0 0,0 Região Metropolitana de Salvador 97,0 97,5 Sertão Produtivo 0,0 0,0 Costa do Descobrimento 0,0 0,0 Piemonte do Paraguaçu 0,0 0,0 Total - - Total 100,0 100,0 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000/2009. A Evolução da participação percentual do estoque emprego formal do setor público estadual, esboçada na tabela 12, vem reafirmar, de um modo geral, os cenários anteriormente comentados. Na ilustração mencionada aparecem, respectivamente, Região Metropolitana de 127 Salvador – 97,0 (2000) e 97,5 (2009); Vitória da Conquista – 0,5 (2000) e 0,9 (2009); Portal do Sertão – 0,7 (2000) e 1,0 (2009); e, Litoral Sul – 0,4 (2000) e 0,6 (2009). Tabela 13 - Estoque emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual - Territórios de Identidade do Estado da Bahia – 2000 Território de Identidade Estatutário Celetista Território de Identidade Estatutário Celetista Irecê 0 0 Bacia do Jacuípe 0 0 Velho Chico 0 1 Piemonte da Diamantina 0 0 Chapada Diamantina 0 0 Semi-Árido Nordeste II 0 0 Sisal 0 0 Litoral Norte e Agreste Baiano 801 6 Portal do Sertão Baixo Sul 0 0 Vitória da Conquista Extremo Sul 0 0 Recôncavo Médio Sudoeste da Bahia 0 0 Vale do Jequiriçá 0 0 Sertão do São Francisco 0 Bacia do Rio Grande 0 0 1.431 1 946 5 1.851 1.174 Médio Rio de Contas 1 6 Bacia do Rio Corrente 0 0 0 Itaparica 0 0 0 0 Piemonte Norte do Itapicuru 0 0 Bacia do Paramirim 0 0 Região Metropolitana de Salvador 199.143 488 Sertão Produtivo 0 0 Costa do Descobrimento 0 0 Piemonte do Paraguaçu 0 0 204.173 1.681 Litoral Sul Total - - Total Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2000. (1): em milhares. Em 2000, o estoque de emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual, distribuído por Território de Identidade, ilustrado na tabela 13, apresenta concentração expressiva no regime estatutário. Os dados vem corroborar os comentários constantes da tabela 4, no tocante à terceira coluna. Tabela 14 ― Estoque emprego formal, por tipo de vínculo, segundo o setor público estadual ― Territórios de Identidade do Estado da Bahia ― 2009 Território de Identidade Celetista Estatutário Território de Identidade Celetista Estatutário Irecê 0 2 Bacia do Jacuípe 0 0 Velho Chico 0 1 Piemonte da Diamantina 0 2 Chapada Diamantina 0 0 Semi-Árido Nordeste II 0 0 Sisal 0 2 Litoral Norte e Agreste Baiano 1.081 17 Baixo Sul 0 Extremo Sul 0 2 Portal do Sertão 1.700 9 3 Vitória da Conquista 1.496 4 0 2 Recôncavo 0 0 Médio Sudoeste da Bahia 0 2 Médio Rio de Contas 0 5 Vale do Jequiriçá 0 0 Bacia do Rio Corrente 0 1 Litoral Sul 128 Sertão do São Francisco 0 2 Itaparica Bacia do Rio Grande 0 7 Piemonte Norte do Itapicuru Bacia do Paramirim 0 0 Região Metropolitana de Salvador Sertão Produtivo 0 4 Costa do Descobrimento Piemonte do Paraguaçu 0 1 Total - Total - 0 1 93 2 170.144 626 0 11 174.514 706 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2009. (1): em milhares. De igual modo, em 2009, a tabela 14 expressa a situação apresentada, analisada e interpretada na tabela 5, terceira coluna: o regime estatutário tem prevalência sobre o vínculo CLT. Tabela 15 ― Estoque emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual― Territórios de Identidade do Estado da Bahia ― 2000 Território de Identidade Masculino Feminino Território de Identidade Masculino Feminino Irecê 0 0 Bacia do Jacuípe 0 0 Velho Chico 1 0 Piemonte da Diamantina 0 0 Chapada Diamantina 0 0 Semi-Árido Nordeste II 0 0 Sisal 0 0 Litoral Norte e Agreste Baiano 0 0 413 394 Portal do Sertão 642 790 Baixo Sul 0 0 Vitória da Conquista 451 500 Extremo Sul 0 0 Recôncavo 892 2.133 Médio Sudoeste da Bahia 0 0 Médio Rio de Contas 3 4 Vale do Jequiriçá 0 0 Bacia do Rio Corrente 0 0 Litoral Sul Sertão do São Francisco 0 0 Itaparica 0 0 Bacia do Rio Grande 0 0 Piemonte Norte do Itapicuru 0 0 Bacia do Paramirim 0 0 Região Metropolitana de Salvador 78.882 120.749 Sertão Produtivo 0 0 Costa do Descobrimento 0 0 Piemonte do Paraguaçu 0 0 81.284 124.570 Total - - Total Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2009. A tabela 15, referente ao estoque emprego formal, por sexo, ratifica o seguinte cenário: os servidores do sexo feminino, em 2000, excetuando-se o Território de Identidade do Litoral Sul, constituem-se a maioria dos funcionários do setor público estadual. As possíveis razões estão arroladas na tabela 9. Tabela 16 ― Estoque emprego formal, por sexo, segundo o setor público estadual― Territórios de Identidade do Estado da Bahia ― 2009 Território de Identidade Masculino Feminino Território de Identidade Masculino Feminino 129 Irecê 0 2 Bacia do Jacuípe 0 0 Velho Chico 0 1 Piemonte da Diamantina 0 2 Chapada Diamantina 0 0 Semi-Árido Nordeste II 0 0 Sisal 0 2 Litoral Norte e Agreste Baiano 0 2 546 552 Portal do Sertão 753 956 Baixo Sul 0 3 Vitória da Conquista 734 766 Extremo Sul 1 1 Recôncavo 0 0 Médio Sudoeste da Bahia 0 2 Médio Rio de Contas 4 1 Vale do Jequiriçá 0 0 Bacia do Rio Corrente 0 1 Sertão do São Francisco 0 2 Itaparica 1 0 Bacia do Rio Grande 5 2 Piemonte Norte do Itapicuru Bacia do Paramirim 0 0 Região Metropolitana de Salvador Sertão Produtivo 1 3 Costa do Descobrimento Piemonte do Paraguaçu 0 1 Litoral Sul Total - - Total 42 53 75.085 95.685 3 8 77.175 98.045 Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) ― Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 2009. De igual modo, em 2009, o sexo feminino prevalece enquanto estoque de emprego formal do setor público do estado da Bahia. E no fim da presente série histórica não houve exceção, em relação aos Territórios de Identidade. As áreas da educação e saúde requerem maior contingente de pessoal do sexo feminino. CONCLUSÃO Analisar a trajetória do estoque formal de emprego no setor público do estado da Bahia, no período 2000/2009 e a distribuição do referido estoque nos seus 27 Territórios de Identidade constitui-se o objetivo geral deste artigo. Para tanto, foram investigados dados extraídos da base da Rais/MTE (2012), relativos à natureza jurídica do estoque, variação, participação, tipo de vínculo, escolaridade e faixa etária, tanto no sentido macro (o estado como um todo) quanto à estratificação/distribuição dos mencionados fatores por Territórios de Identidade. Simultaneamente, procurou o pesquisador estabelecer comparação entre o estoque formal do setor público do estado da Bahia com o limite prudencial referente às despesas de pessoal, preconizado pela Lei Complementar nº 101/2000, mais conhecida como “Lei de Responsabilidade Fiscal” (LRF), a partir de dados disponibilizados no sítio eletrônico da Secretaria da Fazendo do Estado da Bahia (SEFAZ/ICF, 2012), no mesmo período. Isso foi 130 possível tendo em vista os relatórios quadrimestrais da despesa liquidada de pessoal e receita corrente líquida. Na percepção do autor, salvo melhor juízo, o objetivo do estudo foi alcançado, na medida em que dispôs o doutorando do referencial documental (RAIS e SEFAZ) necessário à elucidação da ocorrência, bem assim, o aporte teórico de expoentes da área, inclusive da legislação vigente. Para cada ilustração – tabelas e figuras, constantes da seção 3 deste trabalho, procurou o pesquisador analisar e interpretar os dados, acrescentando ponderações/inferências de ordem pessoal, todavia, de modo crítico-reflexivo, ancoradas na literatura no seu sentido lato. Sinopticamente, verificou-se que o estoque de emprego formal, sob a responsabilidade do tesouro estadual da Bahia, no período investigado, sofreu um declínio - situação contrária à região nordeste e a totalização dos 27 entes federados. O cenário baiano, sob o encargo do estado, se torna mais crítico se considerar que em 2009 o limite prudencial estabelecido pela LRF fora ultrapassado. Mais comprometedor ainda, se levar em conta o contingente de duas faixas etárias (50 a 64 anos e 65 ou mais), do estoque de emprego formal, respectivamente, servidores do sexo feminino e masculino com tempo de serviço e idade, necessários ao requerimento do Ato Aposentador, na condição facultativa. Isso porque, inativos e pensionistas entram no cálculo das despesas com pessoal. Assim, se por um lado, há déficit de pessoal, constatado nos relatórios de gestão do estado da Bahia; por outro, mantida a tendência de elevação do limite prudencial, relativo à despesa com pessoal, a Bahia ficará engessada, não podendo atender às demandas de serviços sob seu encargo. Ante o exposto, para que se garanta o efetivo suficiente ao funcionamento eficiente dos órgãos sob a responsabilidade do estado da Bahia, conforme prevê o princípio constitucional da economicidade, o estado deverá ser mais agressivo na gestão tributária, na formulação, implantação e crescimento/desenvolvimento, implementação a fim de de ampliar políticas a públicas receita que corrente visem o líquida e, consequentemente, gerar empregos e renda. Quanto ao estoque de emprego formal, sob o encargo do estado da Bahia, distribuídos por Territórios de Identidade, observou-se que na maioria dos referidos Territórios o estoque é bastante reduzido, e, em 4 deles não se verifica servidores públicos do setor estadual. Essa ocorrência leva a supor que a maquina estadual vem utilizando os institutos da terceirização e do PST para suprir às demandas da sociedade (municípios) de responsabilidade do governo do estado, uma vez que, em sendo empregados terceirizado, seus vínculos, de natureza 131 celetista, não têm relação com o estado-empregador, e sim com as empresas privadas (pessoas jurídicas) ou diretamente com o prestador de serviço, se PST. Outra possível suposição é de que a base da RAIS/MTE não seja segura para apurar o estoque de emprego do setor público estadual, por Território de Identidade, porque ante o inexpressivo quantitativo de estoque na maioria daqueles, entrevistou-se o Pró-Reitor de Administração (PROAD), da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), já que a Autarquia Universitária está em 19 dos 27 territórios, com quadros de professores permanentes, visitantes, substitutos, além de técnicos administrativos efetivos e contratados por meio do Regime de Direito Especial Administrativo (REDA), obtendo-se do referido Pró-Reitor a resposta que se segue: A UNEB tem seus servidores centralizados na Unidade Orçamentária (610), na capital, apesar de atender às demandas de 25 Departamentos do interior do Estado, abrangendo 19 dos 27 Territórios de Identidade, por facilitar o controle junto ao INSS e Ministério da Fazenda. Os dados alimentam o Sistema de Recursos Humanos, via Secretaria da Administração do Estado - SAEB (UZEDA, 2012). Considerando o depoimento supra, pode-se supor que outros órgãos do estado da Bahia, também procedam da mesma forma. Talvez por isso, que no Território de Identidade da Região Metropolitana de Salvador, o estoque de emprego formal do Estado da Bahia (estatutários e celetistas) tenha apresentado 170.770 servidores, correspondendo a 97,46%, do estoque, em 2009. Ressalte-se, porém, que se trata de uma mera suposição, devendo o pesquisador, em outra investigação assemelhada, apurar tal ocorrência junto aos órgãos sistêmicos do Estado da Bahia, bem assim, da União. REFERÊNCIAS ANDRADE, N. A. (2007). Contabilidade pública na gestão municipal. 3. ed. São Paulo: Atlas. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6028: informação e documentação – resumo – apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2003. BAHIA. Relatório de Prestação de Contas: exercícios de 2001 a 2010. 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São Paulo: NDJ, 2005. 135 POLÍTICAS PÚBLICAS DE LAZER IMPLEMENTADAS NO MUNICÍPIO DE JEQUIÉ/BA: UMA REFLEXÃO SOBRE O PROJETO SOLAZER Temistocles Damasceno Silva 1 Maira Antunes Rodrigues 2 Raiane Pires Silva 3 Rafael Messias Teixeira 4 RESUMO A presente investigação cientifica configurou-se como uma pesquisa documental sobre as políticas públicas de lazer implementadas pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer do Município de Jequié/BA, tomando-se como referência empírica as ações do Projeto Solazer, no período de 2009 à 2012. Nesta perspectiva, concluiu-se que os projetos de lazer implementados no município de Jequié/BA, devem ter como principal objetivo uma gestão participativa, garantindo a participação da comunidade no processo de planejamento, execução e avaliação das ações. Logo, considera-se de fundamental importância o posicionamento do poder público, através da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL), no intuito de trazer a tona uma nova discussão acerca do processo de implementação de tais políticas públicas. PALAVRAS-CHAVE: Lazer. Políticas Públicas. Gestão. PUBLIC POLICIES IMPLEMENTED IN THE CITY OF LEISURE JEQUIE / BA: A REFLECTION ON THE DRAFT SOLAZER ABSTRACT This scientific research was configured as a documentary research on public policies leisure implemented by the Municipal Sports and Leisure in the City of Jequie/BA, taking as reference the actions of the empirical Solazer Project in the period 2009 to 2012. This perspective, it was concluded that the recreational projects implemented in Jequié / BA should be directed to participative management, ensuring community participation in the planning, implementation and evaluation of process actions. Therefore, it is considered of fundamental importance the position of the government, 1 Temístocles Damasceno Silva: Graduado em Educação Fisica pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB e especialização em Atividade Física e Saúde pela Faculdade de Tecnologia e Ciência - FTC. [email protected] 2 Maira Antunes dos Santos Rodrigues: Possui graduação em Educação Física e especialização em metodologia da educação física e esporte pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. [email protected] 3 Raiane Pires Silva: Discente do curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. [email protected] 4 Rafael Messias Teixeira: Discente do curso de licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB. [email protected] 136 through the Municipal Sports and Leisure (SMEL) in order to bring out a new discussion on the implementation of such policy process. KEYWORDS: Leisure. Public Policy. Management. 1. INTRODUÇÃO A constituição federal de 1988, aponta o lazer enquanto direito social do povo brasileiro. Logo, para Chemin (2009, p. 165): É responsabilidade do Município – dentro de sua função social como entidade titular de competências próprias destinadas à satisfação dos interesses locais dos munícipes – de promover políticas públicas educacionais utilizando o lazer como objeto e como instrumento de educação, ou seja, a educação para e pelo lazer. Nesta lógica, o município, enquanto unidade representativa do estado, tem o dever de garantir, através de atividades administrativas, a efetividade dos direitos fundamentais de sua competência, entre eles o direito social ao lazer. Logo, os assuntos apontados acima demonstram uma necessidade de reflexão acerca do papel da administração pública, com relação à construção de políticas de lazer, a fim de entender e interpretar os verdadeiros objetivos dessas atividades na sociedade atual. Desta forma, decidiu-se analisar as políticas públicas de lazer implementadas no município de Jequié/BA, tomando-se como referência empírica as ações desenvolvidas pelo projeto Solazer, através da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL), no período de 2009 a 2012. Desta forma, esta pesquisa justificou-se pela afinidade para com a temática bem como pela necessidade de ampliação das produções sobre políticas públicas voltadas para o lazer. Nesta perspectiva, o presente estudo configurou-se como uma pesquisa documental, de caráter exploratório e abordagem qualitativa (GIL, 2002). Enquanto referencial teórico destacou-se uma análise acerca dos estudos que perpassam a temática política pública de lazer, destacando-se autores como: Nelson Carvalho Marcellino e Silvia Cristina Franco do Amaral. Sendo assim, elencou-se como fonte de evidências do estudo: documentos (ofícios, memorandos, etc) e relatórios em arquivo, fornecidos pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer de Jequié/BA. Para análise dos dados, definiu- 137 se as seguintes categorias: Abrangência, articulação intersetorial e diversificação das ações proporcionadas pelo referido projeto. Sendo assim, percebeu-se a necessidade de uma breve reflexão sobre os conceitos que permeiam o lazer bem com sobre as políticas públicas destinadas a tal fenômeno, visando assim, ampliar o olhar acerca do objeto de estudo. 2. REFLEXÕES ACERCA DOS CONCEITOS QUE PERMEIAM O LAZER Um dos principais conceitos de lazer evidenciado no âmbito científico, relaciona-se ao pensamento de Dumazedier (1979, p.12), o qual aponta que: “...o lazer é o conjunto de ocupações, às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se e entreter-se ou ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais.” Neste sentido, Marcellino (1987, p. 31) constata que o lazer seria uma esfera da vida gerada historicamente, da qual emergem valores questionadores da sociedade como um todo, e que também pode exercer influências na estrutura social vigente. Neste contexto, Gomes (2004) sintetiza seu entendimento de lazer como: [...] dimensão da cultura construída por meio da vivência lúdica de manifestações culturais em um espaço/tempo conquistado pelo sujeito ou grupo social, estabelecendo relações dialéticas com as necessidades, os deveres e as obrigações, especialmente com o trabalho produtivo. (GOMES, 2004, p. 124). Logo, ao debater o lazer enquanto cultura vivenciada no tempo disponível, a autora acredita que tal “variação de enfoque” sinaliza que a consideração do lazer como uma gama de ocupações passa a ser redimensionada, sendo que este fenômeno passa a ser visto sob o prisma da cultura. Em contrapartida, Pimentel (2009) revela que é possível ter a confirmação de 138 que o lazer é uma categoria em contínua construção e engessá-lo a determinado momento da História ou de acordo com certas regras sociais, econômicas, políticas ou religiosas simplesmente refletiria em sua desvalorização acentuada. Baseado nas concepções aqui apresentadas, entende-se o lazer de modo amplo e com características abrangentes, fruto da sociedade contemporânea. Logo, tal fenômeno seria um espaço privilegiado para vivências críticas e criativas de conteúdos culturais. Sendo assim, é importante também avançar no seu entendimento apenas como descanso e divertimento, e pensar na possibilidade de proporcionar desenvolvimento pessoal e social, por meio de diferentes vivências. Todavia, de acordo com Suassuna (2007, p. 10) é notório um grande avanço no que diz respeito a uma discussão acerca do lazer, mas ainda é percebida uma deficiência de programas e ações governamentais que privilegiem o lazer. Neste sentido, os assuntos abordados acima apontam para uma necessidade de uma reflexão sobre as políticas públicas destinadas ao lazer, haja vista que é através de tais ações que este fenômeno ganha sentido e significado perante a população, sendo desta forma, materializado enquanto direito social. 3. POLITICAS PÚBLICAS DESTINADAS AO LAZER Ao pensar sobre políticas públicas destinadas ao lazer torna-se necessário uma reflexão prévia sobre os conceitos que permeiam a temática. Logo, diante da diversidade de conceitos de políticas públicas, pode-se destacar Teixeira (2002), o qual desenvolve um conceito que aborda a política pública como distribuição de recursos públicos e desenvolvimento de ações a partir de regras definidas pelo Estado e sociedade. Em consoante, Starepravo (2011) afirma a necessidade de se compreender melhor a definição da categoria política pública, com o objetivo de auxiliar as ações governamentais com ênfase na área do esporte e lazer. Para o autor, a política pública na maioria das vezes é apenas a parte mais visível de todo processo desenvolvido em espaço social específico, que comporta disputas, relações, alianças, decisões estratégicas e também não planejadas (STAREPRAVO et al., 2011, p. 234). Todavia, Amaral (2009) revela que as políticas públicas podem ser entendidas a partir de três dimensões que juntas compõe a sua definição. A primeira dimensão estaria 139 relacionada à política na sua dimensão filosófica, epistemológica, conceitual. A segunda refere-se à atividade política partidária e por fim, a terceira dimensão estaria ligada a elaboração e implementação de programas de ações públicas. Sendo assim, ao refletir sobre a gestão das políticas públicas de lazer, Amaral (2009, p.47) apresenta dois modelos radicalmente opostos, denominados “Antipopular” e o “Participativo”. Em relação ao modelo de gestão das políticas públicas de lazer denominado “antipopular” entende-se que o mesmo referenda-se em uma gestão sem a participação da população, pensado para aqueles que possuem trabalho ou vínculo empregatício. Assim, os excluídos (sem emprego e sem renda) ficam dependendo de iniciativas de ONGs e instituições filantrópicas para serem assistidas por programas e diferentes formas de proteção. “As poucas políticas públicas que ainda sobrevivem nesse campo são destinadas ao desenvolvimento das condições do esporte espetáculo, de uma rede de sustentáculos cujo objetivo é criar no País uma geração de futuros campeões olímpicos. Também sobrevivem políticas focalizadas em áreas de extrema instabilidade social e como disse antes, de promoção de políticas pobres para os pobres.” (AMARAL, 2009, p. 50) No que diz respeito ao modelo participativo, o mesmo é pautado na participação efetiva da população nas decisões e implantações das ações a serem desenvolvidas. Logo, tal modelo se apresenta através dos eixos: articulação intersetorial, abrangência e a diversificação das ações de lazer. Para a autora, a articulação intersetorial se materializa a partir dos setores da administração e a comunidade, que discutem e entram em consenso para estabelecer ações coletivas e eficientes para a execução. Com relação aos eixos ampliação e diversificação das ações de lazer, Amaral (2009, p.53) afirma que: “... não adianta apenas a oferta de espaços e propostas de lazer. Este é o primeiro passo, mas um trabalho diretivo realizado em cada comunidade, proporcionando uma reflexão da produção cultural local e da necessidade da ampliação daquilo que já acontece é extremamente necessário.” Nesse sentido, quando se fala sobre a questão do lazer, principalmente, ligado à construção de políticas de atuação, um primeiro aspecto importante a ser considerado é 140 justamente a amplitude do lazer e sua compreensão parcial e limitada, que pode ser destacado na ação de órgãos públicos, na pesquisa, na legislação etc. (MARCELLINO, 1987). Assim, deve-se levar em consideração o lazer na perspectiva abrangente, como cultura vivenciada no tempo disponível, com determinadas características próprias (MARCELLINO, 1987). Desta forma, para o autor, a política pública deve ser fruto da mais ampla participação dos habitantes das cidades. Logo, as diretrizes gerais de uma política de atividades devem contemplar também questões relativas à formação e desenvolvimento de quadros para atuação, aos espaços e equipamentos e critérios de reordenação do tempo. Além disso, torna-se de fundamental importância a implementação de projetos que venha a garantir a materialização do fenômeno abordado. 4. CARACTERIZANDO O PROJETO SOLAZER O Projeto “SoLazer” apresenta-se como uma das ações do Projeto “Esporte e Lazer”, que tem como objetivo atender a população do Município de Jequié (zona urbana e rural) por intermédio das atividades educativas, esportivas e recreativas tais como: oficina de estórias infantis, desenho, pintura, teatro, futebol, vôlei, baleado, xadrez, dominó, dama e atividades recreativas: limão na colher, corrida de saco, peteca, etc (SMEL, 2009). 4. 1 ABRANGÊNCIA DAS AÇÕES DO PROJETO De acordo com os dados verificados no IBGE (2010) o município de Jequié/BA possui 151.895 habitantes (zona urbana e rural), todavia, o número de beneficiados atendidos pelo Projeto Solazer foi de aproximadamente 2.500 participantes . Logo, tal demanda apresenta-se de forma bastante insignificante, levando-se em consideração a clientela em potencial. Vale ressaltar que tal projeto, enfatiza prioritariamente o atendimento as crianças e aos adolescentes. Além disso, as atividades são idealizadas por apenas um setor, através de ações que atendem pequenas populações em pontos específicos da cidade. Sendo assim, tais dados corroboram com os estudos de Silva e 141 Ávila (2014), os quais apontam que: a ampliação da abrangência das políticas públicas de lazer torna-se comprometida, haja vista que as mesmas ganham características esporádicas, limitando a ampliação dos serviços e espaços relacionados ao lazer da comunidade que compõem o município de Jequié/BA (p.38). Nesta lógica, Marcellino (2000, p.122) afirma que é fundamental implementar atividades de lazer que possam atender as pessoas no seu todo. Todavia, se faz necessário que estes indivíduos tenham consciência critica acerca do papel do lazer enquanto direito social. Neste contexto, Rolim (1989) constata que as universidades devem capacitar e formar especialistas em lazer, capazes de educar a população com referência ao seu tempo disponivel, compreendendo a importância e abrangência do lazer para as pessoas. Além disso, Suassuna (2007) afirma a necessidade de sobrepor as políticas consideradas verticalizadas, haja vista que sua elaboração perpassa por um órgão superior competente, sem a consulta da população do município para tal. Desta forma, Marcellino (1987) defende que a política pública deve ser fruto da mais ampla participação popular. 4. 2 ARTICULAÇÃO INTERSETORIAL NA EXECUÇÃO DO PROJETO Após análise das execuções do Projeto Solazer verificou-se uma articulação entre as secretarias municipais, de Esporte e Lazer, Desenvolvimento Social, Cultura e Turismo, Saúde, Educação, Agricultura e Meio Ambiente e Serviços Públicos. Entre os anos 2009 a 2011 a articulação com as demais secretarias aconteceram em todas as execuções do projeto, pois eram realizados nas áreas públicas da sede, distritos e povoados, sendo disponibilizadas equipes para desenvolvimento de ações referentes a cada setor envolvido. Porém no ano de 2012 essa articulação aconteceu apenas com as secretarias de Educação e de Serviços Públicos. Em relação à Secretaria de Educação, firmou-se uma parceria com as unidades escolares do município, com intuito de garantir que as ações do projeto pudessem ser executadas no âmbito escolar. No que diz respeito a Secretaria de Serviços Públicos, tal articulação se limitou na 142 celebração de um convênio, com o objetivo de realizar a limpeza das áreas públicas onde seriam executadas as ações do projeto Solazer. Desta forma, constata-se uma tentativa de materialização da articulação intersetorial. Porém, na maioria das vezes, as parcerias foram realizadas para cobrir uma deficiência numérica de gestores e técnicos destinados a trabalhar com o lazer. Logo, tais dados se aproximam do conceito de intersetorialidade proposto por Amaral (2009), evidenciando que o projeto solazer estaria relacionado a um arranjo de programas, em que vários setores da gestão buscaram apenas a resolução de problemas pontuais, se distanciando assim do conceito de matricialidade, o qual aponta que apesar dos setores existirem independentemente, a governabilidade dependerá do trabalho em conjunto. Nesta lógica, Munhoz (2008) revela que a ação conjunta entre secretarias e outras instituições auxiliará nas políticas públicas de lazer, a partir de uma interface entre as demais políticas de outras secretarias, tais como educação, saúde, habitação, água, esgoto, entre outras. Ações estas, que são relacionadas a outros fins, mas que privilegiam condições para as vivências do lazer. Assim, a falta de articulação intersetorial para a realização do projeto no município de Jequié/BA, sustenta um importante dado comprovado por Marcellino (2008) no qual o autor defende a necessidade de enxergar o lazer para além de uma política de atividades, o que remete a um trabalho em conjunto com as diversas secretarias. 4. 3 DIVERSIFICAÇÃO DOS CONTEÚDOS CULTURAIS DO LAZER De acordo com os documentos analisados do projeto Solazer verificou-se a realização de práticas de atividades esportivas, jogos populares, jogos de salão e diversas oficinas (confecção de bonecas, pipas, gudes, pinturas, etc). Levando em consideração a classificação proposta por Marcellino (2008) acerca dos conteúdos culturais ( artísticos, manuais, físico-esportivos, intelectual, social e turístico) notou-se a grande vinculação das atividades do projeto aos conteúdos físico-esportivos (vôlei, futebol, handebol e basquete) e manuais (confecção de bonecas, pipas, gudes, pinturas, etc.) diminuindo assim o atendimento a diversificação dos conteúdos culturais do lazer sugerido por Marcellino (2008). 143 Nesta perspectiva, os dados encontrados confirmam o pensamento de Pimentel (2009) o qual revela que as atividades de lazer, implementadas por projetos sociais, diversas vezes, não representam expressivo papel na vida individual e social dos beneficiados, induzindo-os a uma distorção, no que diz respeito ao entendimento do lazer, em sua extensão e natureza. CONSIDERAÇÕES FINAIS As ações implementadas pelo projeto investigado apresentam um caráter focalista, sendo que suas respectivas atividades foram elaboradas pelos órgãos governamentais competentes, negando assim, a participação da comunidade no processo de elaboração e avaliação de tais ações. Logo, percebe-se que o projeto foi introduzido de forma aleatória, sem uma consulta prévia a comunidade beneficiada. Conseqüentemente, não houve o atendimento, de maneira abrangente, pois o projeto acabou enfatizando as crianças e adolescentes, limitando assim a participação dos demais. Neste sentido, evidencia-se que tais políticas públicas de lazer se apresentam como conjunturais, isto é, foram políticas realizadas para solucionar problemas de momento, através de ações delimitadas para um grupo específico. Ao mesmo tempo, percebeu-se a falta da diversificação dos conteúdos culturais do lazer, evidenciando na maioria das ações atividades físico-desportivas, limitando ao usuário uma visão parcial acerca do fenômeno abordado. Enfim, conclui-se que as ações implementadas pelo projeto solazer, não colaboraram para efetivação do lazer enquanto um direito social. Sendo assim, considera-se de fundamental importância que o poder público do município de Jequié – BA através da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL) traga a tona uma nova discussão, com a finalidade de buscar novas políticas públicas de lazer referendadas na gestão participativa. REFERÊNCIAS AMARAL, S. C. F. Lazer e Políticas Públicas - Um olhar sobre a periferia. In: DIAS, C. A. G., MONTEIRO, M. B. (Org.) Lazer e Periferia: Um olhar a partir das margens. São Gonçalo, RJ: Instituto Usina Social, 2009. 144 CHEMIN, B. F. A educação para e pelo lazer no âmbito municipal. Revistas eletrônicas: Educação. Porto Alegre, PUC, 2009. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/faced/article/viewFile/5515/4012 DUMAZEDIER, J. Sociologia empírica do lazer. São Paulo: Perspectiva: SESC, 1979. GOMES, C. L. Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. GIL, A.C. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Editora Atlas S. A., 2002. MARCELLINO, N. C. Políticas Públicas de Lazer. Campinas: Alínea, 2008. ________________. Estudos do lazer: uma introdução. 2. ed., ampl. Campinas, SP: Autores Associados, 2000. ________________. Lazer e Educação. Campinas: Papirus, 1987. MUNHOZ, V. O lazer como direito social na prefeitura de Belo Horizonte. In: ISAYAMA, H. F; LINHALES, M. A. (org.). Avaliação de políticas e políticas de avaliação: questões para o esporte e o lazer. Belo Horizonte: UFMG, 2008. PIMENTEL, G. G. de A. Teorias do Lazer. Maringá, PR: Eduem, 2009. v.1., 206 p. ROLIM, L. C. Educação e lazer, a aprendizagem permanente. São Paulo: Ática, 1989. STAREPRAVO, F. A; SOUZA, J. de; MARCHI JR., W. Políticas públicas de esporte e lazer no Brasil: uma proposta teórico-metodológica de análise. Movimento (UFRGS. Impresso), v. 17, p. 233-251, 2011. SILVA, T. D.; ÁVILA, M. Análise da estrutura administrativa e financeira destinada ao lazer no município de Jequié-BA. Coleção Pesquisa em Educação Física – Várzea Paulista. Vol. 13, n. 1, 2014 SUASSUNA, D. M. F. de A. Políticas públicas para o esporte e o lazer no Brasil. Brasília, 2007. TEIXEIRA, E. C. O papel das políticas públicas no desenvolvimento local e na transformação da realidade. Salvador: Bahia, 2002. 145 ESTADO E POLÍTICA PÚBLICAS DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL: RECORTES DE UM ESTUDO Danilo Uzêda da Cruz 1 RESUMO Este texto busca apresentar resultados provisórios de pesquisa que investiga a Política Pública de desenvolvimento territorial na Bahia/Brasil e como o enfoque Territorial possibilita a ampliação da esfera democrático-participativa, numa nova significação do conceito de políticas públicas e de desenvolvimento regional, e a repactuação do jogo democrático com a sociedade civil e movimentos sociais organizados. Estratégia que diz respeito a equação capital-trabalho-natureza. Em nosso olhar inicial a proposta de democracia participativa/dinâmica territorial, pode significar um avanço qualitativo na formulação e implementação de políticas públicas, mas vacila entre uma proposta garantidora da qualidade de vida de pessoas ou disposta a assegurar uma proposta societária de transformação. Buscamos entender porque essa ampliação da esfera democrática faz subsumir outras formas de luta e organização, silenciado grupos e classes sociais, tornadas reféns da técnica-tempo impostas pelo grande capital. PALAVRAS CHAVE: Desenvolvimento Territorial – Políticas Públicas - Democracia INTRODUÇÃO. A intensa relação entre os processos democráticos, para além do minimalismo, e os aspectos conceituais que lhe sustentam na contemporaneidade, à luz do das dinâmicas de desenvolvimento recente, em particular a proposta de desenvolvimento territorial, tem consolidado um campo de pesquisa entre as ciências sociais. Uma certa produção acerca do conceito de democracia vem trabalhando de forma interdisciplinar ciências humanas e sociais travando um bem sucedido debate à guisa de rediscutir os limites e perspectivas da democracia contemporânea, contribuindo para o aprofundamento e matização das 1 Graduando em Ciências Sociais/UFBA, Graduado em História/UEFS, Especialista em Educação Superior/FTC, Mestrando em Desenvolvimento Regional e Urbano/UNIFACS, Pesquisador do Centro de Pesquisas da Religião/CPR/UEFS e do Instituto de Pesquisas Sociais/IPS, Técnico em Desenvolvimento Regional CAR. 146 “democracias” realmente existentes. Nesse sentido as diversas experiências como produto da luta de classes e disputa hegemônica, tem contribuído para essa intensa pesquisa neste campo, possibilitando ainda a compreensão e o questionamento dos limites e da necessidade histórica de ultrapassar o modelo liberal. Enquanto a superação da democracia liberal apresenta-se como proposição ou debate político, as experiências de alargamento da democracia, denominada por Boaventura de Souza Santos de ampliação do cânone democrático (SANTOS, 2003), tem encontrado na dinâmica de territorialidade das políticas públicas uma experimentação exitosa. Em outra perspectiva, Meszáros aponta o necessário entendimento da profunda crise estrutural que arrasta os Estados e suas democracias para uma reconstrução do modelo que ultrapassa a mera ampliação da participação das populações nas gestões e decisões políticas dos Estados (MESZÁROS, 2002). Esse campo proximal de pesquisa e investigação científica das ciências sociais permite dar conta das diversas dimensões da realidade social a partir da dialética entre o local e o global, articulando as análises e teorias do desenvolvimento, que aqui apontaremos como como fundamentação central do processo de transformação gradual da estrutura política de populações e suas fronteiras, bem como da crescente e efetiva participação das populações nos rumos dos Estados. Um grupo significativo de teóricos buscam racionalizar espaço-tempo-natureza e o modo de vida de suas populações sem, contudo, perceber as alterações dessa estrutura social ou inverter a lógica de acumulação do capital, como se fosse possível algum desenvolvimento societário com aumento catastrófico da miséria e pobreza – apenas constituindo máquinas eletrônicas de votar. Esses campos se encontram na esfera da política pública e sua dinâmica. Pensar o desenvolvimento no mundo contemporâneo tem sido uma tarefa também de pensar/propor alternativas à questões como democracia, participação, desconcentração de riqueza e equidade econômica, política e cultural, numa expressa noção de interseção entre as diversas dimensões da vida social. Momento de pensar/contrapor o discurso único da equação democratização-liberalismo-desenvolvimento. Esse discurso já demonstra sua falibilidade à despeito dos primeiros séculos de hegemonia liberal, caracterizando-se como o modelo a ser superado na econômica política e na teoria política. 147 Em meio a essa dinâmica embala-se uma estratégia de desenvolvimento territorial no Brasil, onde a tônica tem sido o retorno da participação popular na construção das políticas. É possível dizer que essa estratégia de desenvolvimento territorial, com algum avanço qualitativo na formulação e implementação de políticas públicas, vacilante ainda entre ser uma proposta concreta garantidora da qualidade de vida das pessoas ou localizarse como uma forma de assegurar a qualidade de vida da sociedade, portanto com uma proposta societária de transformação. Se pensarmos numa balança a pesar ambas, poderíamos dizer que tenda para pequena mudança endógena de alguns grupos e/ou, no máximo, para a manutenção do atual estado de coisas. O debate e a prática do Desenvolvimento Territorial podem tornar-se, na maioria dos casos, uma forma concreta de resistência à avalanche do capitalismo avançado, onde formas de luta e organização tornam-se reféns da técnica-tempo impostas pelo grande capital 2. Esse é o pode ser. As diversas análises e compreensões do Desenvolvimento Territorial, enquanto uma política pública não traz claro o papel da sociedade civil, das organizações sócias, nem mesmo dos movimentos sociais tradicionais, sobretudo, os movimentos sindicais, onde nenhum deles aparenta questionar a estrutura produtiva ancorada no capitalismo. Discutem o Estado como um mero indutor do capital. 3 De que maneira o enfrentamento teórico pode contribuir para, ao entender os conceitos, aprofundar as dimensões e alternativas de transformações sociais, invertendo a lógica de acumulação e de relação tácita entre o liberalismo e a democracia como forma última de organização política da sociedade? Ou ainda, de que forma essa experiência histórica tem refletido nas políticas públicas, gerenciais ou não, da esfera social? 2 O filósofo marxista István Meszáros, em Para Além do Capital, aponta a agilidade com que o capitalismo contemporâneo se liquefaz, se reconstrói. Ao contrário do que teóricos e militantes socialistas e comunistas afirmavam, o autor aponta a rapidez com que o capitalismo encontra alternativas para manter-se como um sistema econômico hegemônico. Ainda que a premissa dessa análise esteja no próprio Marx, há uma inovação quanto à crítica a essas transformações e mesmo ao conceito-experiência dessas transformações no mundo contemporâneo. Uma das alternativas é justamente não se colocar apenas como um sistema econômico, e sim como um complexo projeto de sociedade, global, reafirmando-se a cada instante em todos os espaços. A superação desse projeto não será mediada por um colapso, mas por um processo longínquo de transição. Ao mesmo tempo, nos lembra o autor ele esvazia a economia de sentido, de qualquer sentido político. Em nosso olhar a estratégia de Desenvolvimento Territorial Sustentável pode se tornar uma parte desse projeto, desde que se proponha a isso. Ver: MESZÁROS: 2002. 3 Nesse particular Ver PERICO: 2009. Aliás, bom notar, que o próprio Estado tem financiado pesquisas e publicações com vistas a legitimar sua estratégia de desenvolvimento. Um sem número de publicações em parceria com Universidades e Centros de Pesquisa tem aderido a esse processo num jogo de moedas, cartas e insígnias marcadas. 148 Será preciso, para tanto, ir um pouco além, enxergando a política de participação na disputa pela hegemonia do Estado enquanto experiência histórica, e das estratégias utilizadas para promover o Desenvolvimento Territorial articulando processos democráticos liberais, trazendo a baila o conceito do processo de transformações, mudanças, e demandas que a política de desenvolvimento territorial tem buscado atender e/ou resolver, e o papel da sociedade civil organizada nesse contexto. O texto, à guisa de contribuir com essa análise, divide-se em três momentos, a saber: analisaremos de princípio os conceitos-chave território, democracia e sociedade civil, à guisa de entender de que lugar estamos falando; o segundo momento trará algumas notas sobre a os processo de participação dentro dessa dinâmica, por fim algumas problematizações em torno do caminho escolhido para percorrer tentando caracterizar o sentido da democracia participativa como estratégia na disputa pela hegemonia do Estado e as considerações por ser um processo em curso. Pretende-se, desse modo, contribuir com o debate teórico-prático do Desenvolvimento Territorial, e a necessidade de superação do paradigma democrático-liberal-participativo. A pesquisa proposta não se arroga capaz de resolver por completo e em sua complexidade essa “pendência” teórica, mas anseia por contribuir em algum aspecto para identificar esse problema indiciário. Desta forma, acreditamos que o estudo/análise do processo democráticoparticipativo no Brasil é um objeto concreto de análise política, sobretudo porque a dinâmica territorial enquanto experiência prática de formulação de políticas públicas tornase um interessante objeto para entender as relações contemporâneas entre Estado e sociedade civil organizada e sobretudo porque o temário das políticas públicas tem aumentado interesse tanto de gestores governamentais como da sociedade civil, nos levando a apresentar análises/estudos teóricos que possam melhor explicitar o estado da arte na formulação/construção das políticas. TERRITÓRIOS E DEMOCRACIA CONCEITOS E INTERSEÇÕES A partir da localidade, a estratégia de desenvolvimento territorial aponta como fundamentação central o processo de transformação gradual da estrutura política e social de 149 populações inteiras, em que pese não alterar substancialmente sua estrutura social e econômica, ou mesmo a ambiental, racionalizando espaço-tempo-natureza com o modo de vida de suas populações, na perspectiva de associar as políticas públicas a uma identidade/comunidade territorial. Esse processo de desenvolvimento tem como princípio político o alargamento do cânone democrático, transitando entre a democracia representativa e a participativa (COELHO e NOBRE, 2004; SANTOS, 2003), e sua expressão na formulação das políticas públicas a serem executadas pelo Estado. Pensada como política pública, o Desenvolvimento Territorial em curso no Brasil possibilita a ampliação da esfera democrático-participativa, numa nova significação do conceito de políticas públicas e de desenvolvimento regional, e uma repactuação da relação entre Estado e sociedade civil, configurando um novo arranjo institucional de gestão pública. Essa compreensão provisória já carrega em si um conjunto de afirmações que compreendem o esgotamento do modelo liberal não apenas na esfera econômica, mas, sobretudo, no estrangulamento e esgotamento das alternativas liberais na política. O Desenvolvimento Territorial busca organizar a equação capital-trabalho-natureza e a relação com suas populações, fundamentada ‘na ideia-conceito de participação e territorialidade, possibilitando outros arranjos institucionais. Essa impossível equação apresenta problemas teóricos e metodológicos entre ser uma proposta concreta garantidora da qualidade de vida mais ampla ou de comunidades restritas, acrescentando pouco ou nada concepção de sistema-mundo. É preciso identificar, portanto, três problemas de pesquisa, a saber: porque essa ampliação da esfera democrática tem substituído outras formas de luta e organização, silenciando grupos e classes sociais, tornadas reféns da técnica-tempo impostas pelo Estado, interrogar porque a política pública de desenvolvimento territorial tem contribuído esse novo arranjo; e, quais as articulações de três conceitos fundamentais: a concepção de território, de democracia e de participação ante essa nova institucionalidade. Tratar do conceito de Desenvolvimento Territorial na América Latina e no Brasil é falar, sobretudo para uma produção acadêmica que não aponta para um processo de transformação política mais profunda, como diz Teixeira em recente ensaio, faz uma opção pelo reformismo (TEIXEIRA e FREDERICO, 2008). Ainda que não concordemos com seu pensamento na totalidade, é pertinente pensar que tanto o leque de possibilidade quanto as alternativas que disponibiliza, de fato, o descredenciam para o processo de transformação 150 mais profundo da sociedade. E, assim como o conceito de políticas públicas, sua polissemia tende a tornar seu estudo difuso nos diversos caminhos da economia, geografia e ciências sociais, no particular da ciência política. A maioria das análises não traz claro o papel das políticas de desenvolvimento territorial, nem o papel da sociedade civil, ou os “porquês” desse desembarque teórico-metodológico numa estratégia de desenvolvimento montada com a finalidade de atender a determinados grupos sociais e/ou a perpetuação do poder hegemônico que a elite detêm. Uma parte disso se deve ao fato de ser um olhar científico ainda em um estágio bastante inicial dentro da academia, fazendo com que o conceitoexperiência dialogue, como dissemos, por diversos campos do conhecimento. Num outro olhar é possível identificar a dificuldade teórico-metodológica em entender/analisar o pano de fundo que está presente quando analisamos a política pública de desenvolvimento territorial, qual seja, o debate/análise da democracia participativa no mundo contemporâneo, suas estratégias e porquês, a fim de manter presente e dinâmico a proposta liberal, ou de uma liberal democracia. O conceito de território é fruto de uma experiência histórica, não pode ser percebido como algo dado ou constituído universalmente. As experiências históricas na Itália possibilitaram uma práxis no desenvolvimento econômico particular. Já a experiênciaconceito de desenvolvimento territorial na América Latina tem proporcionado uma outra experimentação, nos âmbitos da construção de identidades, na consolidação de territorialidades sociais e na esfera do planejamento das políticas públicas. Entendemos que não se trata de uma questão meramente de escala, ainda que, se assim o fosse, cada escala teria a sua regra. Dessa forma, como aponta Ricoeur, não há porque temer estudar ou pesquisar o local, o global ou, em nosso caso, o territorial, já que a comprovação dar-se-á mediante “regras” de pesquisa e análise que permitem tal operação. Trata-se de definir uma escala de análise que é também a de uma estratégia de elaboração, implementação e de identidade entre as populações (RICOEUR, 2007). Segundo Santos, o território é um espaço de conflito, de luta por poder e, sobretudo, uma guerra de lugares, onde cada classe ou grupo observa e guerreia a partir de sua lógica e possibilidade de entendimento. É no território que se dá a disputa política por hegemonia, daí a necessidade de se entender as instituições e governos; é no território que acontecem as decisões sobre o uso e manejo dos recursos naturais, daí a necessidade de discutir o passivo ambiental; é no território que as 151 pessoas lutam por sua sobrevivência, daí a necessidade de se entender as relações sociais entre grupos étnicos, relações sociais de gênero, de geração e, sobretudo, de classe (SANTOS, 2002). Por fim, é no território, esse lugar de contradições, que se dão as profundas relações dos homens e mulheres com sua própria história: daí a necessidade latente de se entender historicamente como e porque as relações institucionais, jurídicas, políticas, sociais, dão-se desta e não daquela maneira, nessa e não naquela temporalidade. Ainda que a dimensão ou enfoque territorial na formulação das políticas públicas represente um espaço da política, importante se faz lembrar que esse lugar também pressupõe um conjunto de sujeitos sociais que tencionam no sentido de implementação da política. Portanto, é possível um processo como esse também gere institucionalidades, relações políticas e sociais renovadas e alimentadas pelas ações dos grupos e classes em disputa. Um processo de transformações sociais que pode levar a um novo olhar sobre a política de desenvolvimento territorial e sobre a ação dos governos nessa esfera (BAUDEL, 2004). A política pública em curso na Bahia/Brasil apresenta, em nosso olhar, um cenário importante do ponto de vista da política pública de desenvolvimento territorial, ou seja, para pensar o território e sua dimensão de planejamento/construção de identidade. Suas estratégias de implementação seus modelos de gestão e controle público, influenciam a política nacional, senão dão o norte. A expressão dessa política pública, cuja experimentação dá-se na medida em que a analisamos, portanto um objeto dinâmico de analise, nem por isso menos concreto como recorte teórico-metodológico, ausculta a política pública desenvolvida pelo governo do Estado da Bahia, uma vez que também tem buscado - por meio de ferramentas de implementação - aumentar a capacidade do Estado em atender as demandas da sociedade civil, possibilitando a ampliação do processo de participação democrática. Conquanto não estejamos interessados, nos limites dessa pesquisa, em observar a execução da política pública em seu aspecto quantificável, realinhamos nosso olhar para o objeto teórico que a experiência subjaz. A lacuna teórica que pretendemos observar diz respeito a uma inexistência conceitual para o processo em curso de formulação e implantação da política territorial de desenvolvimento que combina ao menos estamos buscando discutir - elementos teóricos da democracia participativa com a própria política pública de desenvolvimento territorial. Ainda na perspectiva dessa lacuna, há uma escassez analítica que permita melhor enxergar outra questão, qual seja, de como a 152 política pública territorial elabora a agenda política do Estado. Podemos ainda aproveitar a pista de pesquisa proposta em Souza, quando argumenta que há uma lacuna existente na pesquisa em ciência política a ser trabalhada no que diz respeito a esfera política da formulação das políticas públicas e da democracia participativa. E continua afirmando que "ainda se tem pouca clareza de quem formula as nossas políticas públicas e como elas são implementadas" (SOUZA, 2003). Essa dinâmica possibilita ainda que pensemos no território fronteira, o lugar que inicia o estranho, o outro, portanto espaço de constante disputa e afirmação de poderes. Visto assim o território é um instrumento de construção hegemônica cujo papel é, sobretudo, de definir o que e como está inserido. Onde aquela dimensão que apenas apontamos acima se constrói como ora como coesão social, ora na figura do Próximo, deixando claro nas relações sociais o outro que ocupa, invade ou simplesmente coabita. Desse modo, é o território, esse lugar de contradições, que se dão as profundas relações dos homens com sua própria história: daí a necessidade latente de se entender historicamente como e porque as relações institucionais, jurídicas, políticas, sociais, dão-se desta e não daquela maneira, nessa e não naquela temporalidade. As transformações, as permanências e rupturas podem ser percebidas a partir de um olhar e análise endógena, desprezando o caráter internacionalizante das relações humanas sob a égide do capitalismo - que é globalizante? Temos motivos para crer que não. Ora, Santos demonstra como o mundo não pode suplantar o local, ou o global não pode engolir o territorial 4. Essa gestão do território deve ser mediada pelos interesses locais, em que haja algum equilíbrio de forças entre global e o local. Essa busca faz desse espaço, como dissemos acima, uma constante guerra de lugares 5: não somente ambiental, social, cultural, mas principalmente o equilíbrio no processo de gestão desses recursos, as políticas públicas que engendram e são engendradas por um processo de disputa pela hegemonia do Estado que as define. A “novidade” que o mundo contemporâneo nos coloca como “o novo” está presente desde os primórdios das organizações sociais, das primeiras aglomerações humanas e dos estudos sobre essas sociedades. A questão da fronteira e seu território “obriga-nos”, como lembra 4 Estudos recentes sugerem, no limite, da necessidade tratar as políticas públicas com um olhar “glocal”. VER: ORTEGA e ALMEIDA: 2007. 5 SANTOS: 2002: 45. 153 Pedrão, “a reconhecer que há fronteiras mais sólidas que outras”. 6 O território na dimensão de estratégia de política pública não deve deixar de julgar esse processo de construção histórica de sua identidade, nem o seu caráter relacional com o mundo externo, com o outro. 7 A dimensão da fronteira, do território, traz em seu subtexto uma necessidade de entender as relações de poder e da organização da sociedade política em nosso tempo. Não como mágica, mas como condição histórica portanto se faz necessário apontar, ainda que rapidamente, alguns aspectos a conflitar sobre o caráter que assume a democracia e nossos tempos. A organização dos Estados no mundo contemporâneo apresenta alternativas de participação no âmbito da democracia liberal. Não apenas a democracia representativa aparece com uma alternativa, mas, sobretudo, a democracia participativa surge em meados da década de 1980 como uma alternativa progressista de enfrentamento e de disputa pela hegemonia dentro das regras ditadas pelo próprio sistema liberal, tendo na participação minimalista apenas parte de sua expressão. Conselhos de Gestão, Orçamentos participativos, planejamentos participativos e outras formas de consultas populares de cunho deliberativo ou mesmo consultivo surgem no cenário institucional como instrumentos de participação popular em esferas de decisão de políticas públicas. No Brasil experiências participativas e de implementação de políticas de participação popular já foram estudadas em diversas pesquisas. A Bahia experimenta ainda de forma muito superficial a participação popular, seja em conselhos ou em orçamentos participativos, como também na recente experiência de planejamento plurianual participativo. Essa experiência será alvo de nossas pesquisas, sobretudo pelo papel de relações de força que 6 PEDRÃO: 2009. Em particular o debate que o autor traz sobre a historicidade do conceito de fronteiras e territórios. “(...) a noção moderna de fronteira surgiu como uma necessidade dos Estados nacionais, com sua estruturação de poder projetada, simultaneamente, como controle interno de relações de poder de classe e como referencia dos relacionamentos com outros Estados a que se reconhece equivalência.(...)” p.40. 7 Admitindo que não entraremos por ora nesse importante debate, que aliás diz respeito a própria conceituação de democracia e poder, de grande importância para o conjunto de nossa análise, a estruturação e perspectiva trazida por Habermas em torno do conceito-experiência de inclusão, nos levará para o estudo de um campo da normatividade dessa inclusão, ou nas palavras do próprio Habermas, de como são geradas as regras – internas? – de aceitação e reconhecimento da existência do outro. Acreditamos que retornaremos a esse debate ao longo do texto, sobretudo porque a validação dessas regras ocorre nos estados modernos das mais diferentes formas. Apenas uma delas é a via da democracia e suas ambiguidades. HABERMAS: 2007. 154 são estabelecidas e disputa pela hegemonia no Estado. Há, dessa forma, uma estratégia nos limites da democracia liberal com vistas a garantir algum espaço de participação. Qual o sentido dessa participação, já que o liberalismo apartou o político do econômico? Trata-se de formas de atuação na esfera pública, atuação racional motivada por interesses individuais, a partir do agir comunicativo como analisa Habermas? De atuar nos estertores do capitalismo com estratégias alternativas atuando intramodelo, como propõe Santos? De conquista a dádiva a participação como inclusão cidadã encontra espaço na espera pública de poder em algum lugar além do estanque momento do voto, ou aí está o limite da democracia liberal, como nos lembra Pateman? A sociedade brasileira, não como abstração populista, mas como concretude histórica, em seus ciclos intermináveis de autoritarismo e subtração dos direitos políticos e civis, encontra brechas para repensar o atual modelo de democratização – se é que há – da esfera pública? Ou a armadilha semântica em que Sen nos coloca ao aproximar o desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades reais, quando não há governos capazes de o fazê-lo sob o domínio do capital? Se democracia está na moda, como especialmente nos diz Hobsbawm, qual a materialidade desse modelo político? Entendemos que o debate hodierno dar-se-á na crítica ontológica do modelo e não do encontro de lacunas, mas atuando na crítica interna ao problema, na análise distinta do processo. 8 Impossível, portanto, prosseguir com qualquer estudo sério e aprofundado sem intentar contra o discurso único da democracia liberal e suas conquistas 9, e mesmo sem incluir no debate teórico-metodológico a sociedade civil e sua expressão política, o Estado. No Brasil pós segunda guerra mundial as lutas pelo processo de redemocratização e ampliação dos direitos são marcantes ao longo dos anos 1950 e 1960 até o acontecimento do golpe militar. Até aí, com a afirmação do proletária do industrial, e o aumento do acirramento das lutas no campo, a disputa contra o capital está nítida e clara inclusive nas formas de mobilização e de enfrentamento a elite dominante. A ditadura militar, combinando o terror e a ideologização do “milagre econômico”, deu-se a ascensão da luta 8 HABERMAS: 2003; SANTOS: 2005; SEM: 2000. E, HOBSBAWM: 2007. Todos os autores deixam claro os diversos modelos de democracia e suas especificidades históricas. Mesmo com a crítica aos modelos de democracia, não há nos autores citados o desejo de autocracias. 9 BOBBIO: 2009: 34. Em um capítulo bastante elucidativo Bobbio, neste trabalho de 1984, desenvolve as promessas não cumpridas da democracia liberal, apontando inclusive para a dificuldade de origem em conciliar desenvolvimento econômico e liberdades coletivas e individuais. 155 pela queda do regime militar. O enfrentamento, como nos lembra Gohn, oscila entre uma luta internacional e os problemas nacionais. 10 Ao mesmo tempo, e como produto de um movimento global, as atenções da sociedade brasileira ultrapassam o chão da fábrica, os sindicatos e os movimentos tradicionais. Novos temas e novas experiências de classe entram em cena para reivindicar as novas possibilidades de direitos que são ampliadas pelos regimes democráticos-liberais em todo o mundo. A percepção do poder na sociedade civil ampliada (DURIGUETTO, 2007; FOUCALT, 1979; GRAMSCI, 2001.), contrastando com a imanência do poder de um só lugar; a politização dos segmentos com participação minoritária na política (DELGADO e FERREIRA, 2006), ampliando a própria dimensão de direitos políticos e civil; as novas frentes de luta das esquerdas, que passam a ocupar espaços de poder e mando no mundo (FERREIRA e REIS, 2007); e, ainda a retomada da luta no campo na década de 1970, e o surgimento de novos movimentos alternativos ao sindicalismo rural já desgastado e pelego (STEDILE, 2005). Isso para sem esquecer o processo de luta por redemocratização política que obriga muitos ao exílio, leva tantos à morte e à luta armada e que vê surgir nos anos 1980 uma esquerda renovada que tem em mente a tomada do poder pelas regras do jogo. A pressão vivenciada nos anos de chumbo da ditadura militar assiste a um declínio programático de mudança das coisas nos anos que seguem a reabertura política. Declínio tanto no potencial de pressão como no poder de aglutinação, como podemos observar em Gohn e Teixeira 11, foi inversamente proporcional à organização do espaço rural, seja por meio dos sindicatos rurais, que alteraram seus objetivos e focos de luta, seja entre o MST que tornou-se ao longo da década de 1990 o modelo de organização de trabalhadores rurais e de movimento social classista como outrora era observado entre o movimento operário, como analisa Stédile 12. As novas demandas da democracia-liberal então vitoriosa, que outra vez descolou a política da economia, legou uma década de desmobilização das ruas para a estratégia de aceitação das regras do jogo, com mandatos chamados populares, progressistas e democráticos em gestões municipais, estaduais e federal. Segundo Carole Pateman, “(...) o modelo de participativo como aquele onde se exige o input máximo (a participação) e onde o output inclui não apenas as políticas 10 GOHN: 2000. GOHN: 1998 e TEIXEIRA: 2001. 12 STÉDILE: 2005. 11 156 (decisões) mas também o desenvolvimento de capacidades sociais e políticas de cada indivíduo (...)” 13, só é possível em uma dinâmica social onde a democracia se efetive em outras esferas como a social e econômica. No Brasil a dialética existente entre a força e a debilidade dos movimentos sociais, ante a alavancada do neoliberalismo, conforme analisa Sader, inquieta e alimenta diversas pesquisas, sobretudo na intensa relação entre democracia participativa e a questão do desenvolvimento. É instrumento de força e resistência à prepotência neoliberal, mas tem no reverso a fragilidade de tornar-se protagonista de uma descaracterização ideológica e política dos instrumentos tradicionais de luta e enfrentamento à classe dominante, com a assimilação política e cooptação de lideranças, dirigentes e categorias de classe inteiras. Mais que isso: perceber a falsa equação entre democracia, capitalismo e liberalismo em tempos hodiernos é tanto uma necessidade acadêmica quanto política, mesmo uma necessidade histórica (MESZÁROS, 2002). Contudo é possível pensar em um modelo de crítica endógena, que disputaria a esfera política conquistando, pela via democrática, os espaços de decisão e formulação de políticas públicas e de normatização (legislação). Santos traz elementos para pensarmos a participação política em tempos atuais. Segundo o autor, essas experiências, sobretudo a brasileira, remete à construção de três teses para o fortalecimento e ampliação da democracia participativa, a saber; “1ª tese: fortalecimento da demodiversidade (...), reconhecer que não existe nenhum motivo para a democracia assumir uma só forma; (...) 2ª tese: fortalecimento da articulação contra hegemônica entre o local e o global (...) novas experiências democráticas precisam do apoio de atores democráticos transnacionais (...); 3ª tese: ampliação do experimentalismo democrático (...) é necessário para a pluralização cultural, racial e distributiva da democracia que se multipliquem experimentos (...). 14. São elementos de ampliação dessa democracia liberal, sobretudo por força dos trabalhadores e trabalhadoras no processo de enfrentamento ao Estado. No âmbito da proposta de Desenvolvimento Sustentável (Territorial) no Brasil, trabalhadores e trabalhadoras veem-se obrigados a empreender alternativas (propositivas) de desenvolvimento, à revelia de sua luta pela sobrevivência, de suas condições e posição estrutura social. Inferimos que as condições para toda a América Latina é a mesma: a luta política não é um momento 13 14 PATEMAN: 1992: 62. SANTOS: 2005: 78. 157 exterior à luta econômica ou social (mesmo ambiental). A mutação do discurso em torno das obrigações políticas e sociais dos trabalhadores e de seus movimentos amplia, nas últimas décadas, o papel e o perfil de reformadores sociais, dos outrora movimentos transformadores da sociedade. Os trabalhadores rurais, por exemplo, organizados em sindicatos rurais, têm buscado empoderar-se dessa nova organização dos discursos em torno do desenvolvimento, reorientando práticas, políticas e demandas, participando ativamente do processo de construção dessa estratégia. Dessa forma participam de conselhos, comitês, reuniões e grupos de trabalho, quando não conduzem e executam ações do poder público mediando (atuando como interlocutores) entre governo e o mundo rural. Na luta pela ampliação dos direitos políticos, aos movimentos sociais tem faltado a percepção de que os direitos civis e sociais sempre apartados na democracia liberal alienam a cada dia a cidadania em construção e parecem querer re-fundar a sua própria história, ao desconhecer a experiência de classe vivida por suas populações. Aderem a proposta política deixando intocado o processo mais amplo de acumulação de riqueza, possibilitado por uma certa dinâmica a curto prazo, mas agrilhoando a médio e longo prazo as demandas sociais às vicissitudes do mercado de ações, do câmbio flutuante, da taxa Selic 15, do humor da moeda. etc, dotando de conteúdo moral e personificado o que é do mundo da política, de fantasiosa e mágica, como já nos advertira Marx 16. Ainda que apressado, o painel anterior sobre a participação política no Brasil 17, busca identificar que há um espaço político em que grupos sociais vem atuando de forma 15 A sigla SELIC significa Sistema Especial de Liquidação e Custódia e é um sistema computadorizado gerenciado pelo Banco Central do Brasil e da Associação Nacional das Instituições dos Mercados Abertos desde 1980 quando foi criado. São os operadores das instituições que transferem ao SELIC os negócios relativos a títulos públicos que envolvem bancos que compram e que vendem esses títulos. A Taxa Referencial SELIC é uma taxa de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil que remunera os investidores no negócio de compra e venda de títulos públicos. Ela é obtida mediante cálculo da taxa média ponderada dos juros praticados pelas instituições financeiras. A partir de 1995 a Taxa Referencial Selic passou a ser utilizada para atualizar o recolhimento em atraso de tributos e contribuições federais. 16 MARX: 2008. 17 Participação que envolve ainda uma ampla arregimentação dos chamados novos movimentos sociais e suas recentes bandeiras de luta. São movimentos de mulheres, negros, afrodescendentes, indígenas, portadores de necessidades especiais, agricultores familiares, etc. cujo pano de fundo via de regra está não na transformação social e sim na atenção aos seus direitos particulares e do seu grupo, numa tentativa de inclusão a cidadania que está posta. Cidadania alicerçada no consumo, no reconhecimento público e na atenção aos direitos constitucionais. Podemos ainda identificar uma recente mobilização para que o Estado passe a normatizar a cidadania nos espaços privados, com a criação de cotas em empresas, escolas, acessibilidade a escritórios, etc. 158 distinta, e que a própria historicidade brasileira condiciona para o encontro com um modelo e estratégia de luta que não passa necessariamente pela tomada do Estado. 18 Motivo pelo qual entendemos ser necessário esboçar quais os espaços de atuação e participação que a sociedade civil organizada vem ocupando, a fim de ampliar o cânone democrático, conforme observamos acima. CONSIDERAÇÕES FINAIS As lutas sociais no mundo contemporâneo e a disputa política a ser enfrentada nos próximos tempos, pois que “a verdadeira meta da ‘defesa das causas perdidas’ não é defender, como tal o terror stalinista, mas tornar problemática a tão facilzinha alternativa democrático-liberal” 19 . Essa perspectiva nos leva buscar entender melhor a dinâmica do mundo contemporâneo, qual a alternativa ao modelo que não seja um retorno aos equívocos históricos produzidos pelo pensamento único de esquerda. Mas que nos retire do marasmo político do pensamento único liberal. E ainda: a profundidade da crítica aos processos democráticos nos aponta para que, “talvez sejamos forçados a aprender de nossas atuais condições econômicas e políticas é que um capitalismo humano, ‘social’, e verdadeiramente democrático e igualitário é mais irreal e utópico que o socialismo”. 20 Alguns conceitos foram sendo assimilados politicamente as estratégias liberais de manutenção do processo de acumulação do capital. Estratégias ideológicas cujo DNA é próprio da constante transformação e recriação do capitalismo, como parte de seu processo metabólico de apropriação e re-significação da realidade social, onde a ideologização da realidade é o principal instrumento. Esse fenômeno pode ser assistido, mormente, após a queda da URSS e com ela algumas esperanças no socialismo. O retorno a conceitos fundamentais que alimentem a pesquisa social e a teoria social pode fundamentar processos 18 Apenas para registro é preciso dizer que as primeiras prefeituras governadas por prefeitos petistas eram encaradas como a tomada do estado pelos trabalhadores. A criação de novas tecnologias de gestão e de participação foi se institucionalizando e, como não havia ao fundo nenhuma proposta concreta de transformação social, foram assimiladas pelas elites econômicas e passaram a responder diretamente a suas demandas. 19 ZIZEK: 2011: 25 20 WOOD: 2003. 159 críticos da realidade criando alternativas concretas de participação social em torno de um projeto de transformação societária. As questões territoriais e do caráter da democracia contemporânea são dois conceitos que necessitam de um novo olhar para que possa constituir-se um elemento de análise em do Estado. E por fim, como construir uma outra alternativa a democracia liberal sem que caiamos em novas ditaduras. Já se identifica, podemos observar Ainda que o debate se arraste a algumas décadas, a questão originária parece não ter sido colocada, a saber de como gestar um novo modelo de Estado que mescle instrumentos políticos que garantam a diversidade social, respeito a princípios e garantias máximas as classes sócias, com a garantia da igualdade econômica e social, uma vez que a promessa da democracia liberal e suas variações de garantia jurídica parece constar apenas no mundo dos sonhos. BIBLIOGRAFIA. ALBUQUERQUE, F. (2001). “Mudança Estrutural, Globalização Econômica e Território”. IN: ALBUQUERQUE, F. Desenvolvimento Econômico Local. Rio de Janeiro, RJ, Brasil: BNDES: 13-29. AVRITZER, L. (org.). (2010). A dinâmica da Participação local no Brasil. São Paulo, SP, Brasil: Cortez. AVRITZER. L. (org.). (2007). A participação Social no Nordeste. Belo Horizonte, BH, Brasil: UFMG. BOBBIO, N. 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São Paulo, SP, Brasil: Boitempo. 162 PLANEJAMENTO REGIONAL NO BRASIL: UM BREVE RELATO HISTÓRICO Claudia Fardin Soares Pereira 1 RESUMO Este artigo apresenta um breve histórico do desenvolvimento do planejamento regional no Brasil, com suas principais concepções, obedecendo o processo histórico pelo qual o País percorreu durante o período que se estende da década de 30 até os dias atuais. Para tal, partiuse do entendimento de que todo planejamento, para atingir a eficácia proposta, deva ser proposto com base em um território específico, que se delimita sobre a região (podendo ser esta meso, macro ou microrregião), com suas particularidades, seu desenvolvimento histórico e cultural, sua formação econômica, política e social. Foi desenvolvido através da análise de pesquisa documental, a partir de livros, artigos, teses e documentos oficiais. PALAVRAS-CHAVE: Planejamento regional. Planos de governo. Políticas governamentais. Brasil. I. INTRODUÇÃO No Brasil, o planejamento como instrumento de política de desenvolvimento adotada pelo Estado, teve seu marco inicial na década de 30, numa tendência seguida também por outros países da América Latina e da Europa, como justificativa para se atingir o modelo de progresso econômico e social adotado mundialmente. Entende-se que o planejamento deve ser pensado como uma política regional a ser implementada sobre determinado território, de modo a produzir resultados positivos em termos econômicos, políticos e/ou sociais. Para Milton Santos (2005), o território deve ser compreendido sob a perspectiva do uso - o todo complexo onde se tece uma trama de reações complementares e conflitantes. Deve ser entendido, então, como uma totalidade que vai do global ao local. 1 Economista. Mestre em Desenvolvimento Regional pela Universidade Salvador – UNIFACS. E-mail: [email protected]. 163 Principalmente após a segundo pós-guerra, o país assumiu uma postura de modernização, cuja meta a ser alcançada era a expansão e a consolidação do capitalismo internamente e, para tal, tornou-se necessário utilizar e promover o planejamento territorial em escala regional. (IANNI, 1986) Num primeiro momento, os planos nacionais do governo pretendiam promover um ambiente propício à acumulação do capital, através da articulação espacial do território nacional. Este fortalecimento se deu com o incentivo à industrialização e a implantação de indústrias de base, que justificavam os empreendimentos de vulto no país, decorrentes principalmente do Plano Salte e do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. Foi neste momento que se observou o surgimento de uma polarização de indústrias em lugares específicos e estratégicos dentro do território nacional. (CANO, 1997) Na década de 60, sob o regime militar, o governo passou a adotar um discurso de correção das desigualdades no interior país, preocupação que se expressou em todos os planos nacionais de desenvolvimento elaborados a partir de então. Havia uma clara necessidade de implementação de políticas de integração nacional que visassem a unificação das regiões Nordeste, CentroOeste e Norte, o que somente se tornaria possível com a instalação de polos industriais que permitissem a dinamização e o estímulo à economia local, tornando possível alcançar o estágio econômico das regiões Sul e Sudeste do país – bastante desenvolvidas em relação às anteriores. (FURTADO, 1989) Nesta época, as políticas de governo voltaram sua atenção para as regiões consideradas periféricas, que apresentavam alto nível de pobreza. Para tal, buscou-se dar incentivos públicos à industrialização daquelas regiões, fazendo uso do discurso da modernização. Na prática, porém, o que se pôde verificar foi o grande incentivo à implantação de indústrias de base, que em sua maioria funcionavam principalmente como fornecedoras de insumos industriais para outras regiões do país, principalmente o Sudeste, e, como consequência, contribuíam ainda mais para uma polarização entre as regiões brasileiras. (CANO, 1997; DINIZ, 2001) Até meados dos anos 80, quando o objetivo claro dos planos e programas federais era a promoção da integração entre as regiões para o desenvolvimento nacional, o Governo Federal assumiu um papel de ator principal, central, no processo político de intervenção territorial, através de seus programas de governo e de suas agências regionais como, por exemplo, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia – Sudam, o Banco do Nordeste, dentre ouros. 164 Após a queda do governo militar, em 1985, mudanças estruturais passaram a ser observadas na conduta do processo de desenvolvimento nacional. A ascendência de uma onda neoliberal, que seguia a ordem mundial em vigência, organizava-se sob a égide da globalização e da minimização da intervenção do Estado na economia. Embora tenham atingido em parte seus objetivos econômicos e políticos, conforme previstos, esses planos, porém, tiveram pouco impacto no campo social. Desemprego, concentração de renda, déficit na geração de emprego se acumularam ao longo do tempo e tornaram-se problemas sérios, a ponto de comprometer o crescimento e o desenvolvimento do País e, por isso, deveriam ser enfrentados o quanto antes através de uma ação governamental consistente e direta. A partir desse momento se deu a ascensão de outro paradigma na política brasileira. Se num primeiro momento, o governo brasileiro procurou promover a integração do território nacional como medida para atingir o desenvolvimento econômico e social do país, posteriormente, sob outro prisma, foi adotada uma estratégia do planejamento territorial, que objetivava o desenvolvimento de cada uma das regiões de forma seletiva, dando atenção prioritária a seus problemas e particularidades. Os planos nacionais e regionais deram lugar aos planos setoriais sob uma intervenção fragmentada, que se mostrou em campos específicos da economia e da sociedade, sob a forma de projetos e políticas públicas. A partir da Constituição Federal de 1988 começaram a ser elaborados alguns projetos como o Brasil em Ação (1996-1999) e o Avança Brasil (2000-2003), para citar alguns, que estabeleceram seus eixos de ação com a proposta de um novo recorte interventor políticoadministrativo, econômico e financeiro para o território nacional, cujo objetivo era melhor atacar os problemas regionais com intervenção nas áreas-chave de infraestrutura (transporte, energia, telecomunicações), a fim de promover sua integração com o restante do País e o exterior e, consequentemente, seu desenvolvimento. II. PLANEJAMENTO: A CONSTRUÇÃO DE UM CONCEITO 165 Sem grandes variações entre os autores, nos dicionários da língua portuguesa, o verbete ‘planejar’ significa fazer ou traçar um plano, uma estratégia, planificar, projetar 2. Na prática, para os fins deste artigo, entende-se que planejar estrategicamente é um ato que significa propor ações para a interferência específica em determinado espaço de tempo, e num dado território. Ou seja, parte-se de uma necessidade concreta, pautada sobre uma realidade observada e mapeada – já posta, e então são traçados objetivos e metas para o alcance de um determinado fim. Quando utilizado pelo Estado, o planejamento torna-se um instrumento através do qual se pretende atingir o crescimento e desenvolvimento do país como um todo e de suas regiões em particular, em cada um de seus campos e atuação. Conforme o entendimento do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão: O planejamento pode ser entendido como o exercício de escolha consciente de ações que aumentem as chances de obter um resultado específico. É uma atividade dinâmica que se opõe ao improviso total, buscando orientar as decisões a partir das informações disponíveis. O planejamento governamental acrescenta ao conceito as características da esfera pública, tornando a atividade ainda mais complexa. Para realizá-la, é preciso conhecimento aprofundado sobre as razões do estágio de desenvolvimento nacional, as formas de operação do Estado e as circunstâncias e possibilidades políticas de atuação. (MINISTÉRIO DO PLANEJAMENTO. Em: <http://www.planejamento.gov.br/includes/faq/faq.asp?sub=7>. Acesso em: 14.07.2014) O planejamento deve ser utilizado como mecanismo para a necessária distribuição, no território, dos elementos e fatores de produção, da administração de recursos e dos resultados em função de determinados objetivos, previamente estipulados, pelo qual é possível o mapeamento das etapas necessárias ao desenvolvimento de determinado país ou região. Pode-se afirmar, por fim, que o planejamento é o resultado de um processo de decisão político-social, que deve desenvolver-se de forma transparente, voltado para o futuro. Na esfera governamental, o planejamento assume um caráter formal e institucional. Para que este instrumento adquira sua eficiência, é preciso que se observe quando da elaboração, sua inserção no tempo e no espaço. Além disso, deve-se também focar as relações sociais, políticas e econômicas de determinada região, onde este terá seu campo de atuação. É com a observação e o respeito a esses elementos que, através do planejamento, consegue-se propor programas e projetos condizentes com a realidade local e capazes de produzirem resultados mais eficazes. 2 Para se chegar à conclusão do significado do termo ‘planejar’, foram utilizados como base os dicionários da língua portuguesa: Aurélio, Michaelis e Houaiss. 166 A implementação de um processo de desenvolvimento territorial pressupõe o desencadeamento de ações de caráter estratégicas, como: gestão social dos territórios, fortalecimento das redes sociais de cooperação, dinamização da economia e articulação interinstitucional. Porém, é preciso ressaltar que toda política pública só consegue alcançar seus objetivos se estiver diretamente atrelada ao conceito de território, cuja identidade está intimamente ligada à noção de história, cultura, espaço, tempo, recursos naturais e povo. Assim, as políticas públicas – de modo geral – devem necessariamente passar pelo contexto social. Devem respeitar a territorialidade, com suas limitações e imposições, com suas vantagens naturais e as vantagens adquiridas ao longo de seu processo de formação, e com sua gente, aquela que nasceu, cresceu e se estabilizou na localidade, mas também com aqueles que ali se fixaram, com suas origens, suas histórias, suas tradições e culturas, e com o passar do tempo receberam influências e influenciaram todo o contexto social. Assim, o conceito de território pode ser entendido como um “espaço físico, geograficamente definido, geralmente contínuo, caracterizado por critérios multidimensionais, tais como o ambiente, a economia, a sociedade, a cultura, a política e as instituições e uma população com grupos sociais relativamente distintos, que se relacionam interna e externamente por meio de processos específicos, onde se pode distinguir um ou mais elementos que indicam identidade, coesão social, cultural e territorial.” (MDA. 2004, p. 4) Para Milton Santos (1985), a concretização do significado de território só é possível através de sua relação no espaço, no tempo e na sociedade. Como as formações sócio-espaciais possuem estruturas (social, política, econômica...) que instauram sua existência material, são as formas e objetos geográficos que objetivam a relação espaço-tempo-sociedade, objetivação esta decorrente da cristalização de processos sociais gerais nos lugares que, enquanto acumulação desigual de tempos, possibilitam a concretude, de maneira específica, da sociedade em geral (singularidade). “Aliás, essa especificidade do lugar [...] é que permite falar de um espaço concreto”. (SANTOS, 1985, p. 10-11) Quando a sociedade se territorializa, o faz com todas as suas complexidades e contradições, num processo que envolve, além do espaço construído e do tempo específico, também o processo de sua formação econômica, social, política, o elemento humano, com suas lutas, conquistas, vitórias e frustrações, práticas e produções. Essa construção nos remete ao conceito de região, que para Pacheco, ao se apropriar do entendimento de Ann Markusen, deve ser considerado como uma sociedade historicamente desenvolvida e territorialmente contínua que possui o ambiente físico, socioeconômico, o meio político e cultural, e a 167 estrutura espacial independente de outras regiões e outras unidades territoriais principais (cidades e nações). (MARKUSEN apud PACHECO, 1996) Na contemporaneidade o conceito de região assumiu uma maior complexidade, uma vez que as tradicionais concepções de região baseadas na individualidade/singularidade devem ceder espaço para as regiões particulares, articuladas a espaços mais abrangentes de caráter estadual, nacional e internacional. Novas conjunturas políticas e econômicas, como o processo de globalização, propõem a substituição do conceito de região pelo de rede, pois pressupõem articulações funcionais por meio de pontos de confluência de informações, capital, ideias, pessoas e mercadorias, oriundas de espaços próximos e longínquos. (FONSECA, 1999, p. 45) Num país de grandes proporções territoriais, como o Brasil, as desigualdades regionais constituem um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento, conspirando contra a construção de uma Federação solidária e progressista. Por um longo tempo, o país deixou de influir de forma planejada no desenvolvimento de suas regiões, resultando no aprofundamento de índices de desigualdades que causaram transtornos sociais agudos e acirraram movimentos regionais desfavoráveis ao desenvolvimento sustentável do país. No atual mundo globalizado, as áreas que apresentam melhores condições de atração locacional são as que possuem atributos vantajosos de infraestrutura, recursos humanos, tecnologia e qualidade de vida. As áreas excluídas da dinâmica de mercado tendem a permanecer à margem dos fluxos econômicos principais e a apresentar menores níveis de renda e bem-estar. Na atualidade, com toda a evolução do conceito e das práticas em planejamento, as melhores políticas públicas implementadas pelos sistemas políticos contemporâneos, têm se mostrado resultantes de uma complexa e contínua interação entre diversos atores, dentro e fora do governo, com a participação ampla de vários segmentos da sociedade, tanto em seu processo de construção quanto na tomada de contas e avaliação dos resultados, que se mostram nos campos políticos, econômicos e sociais. III. A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA DE PLANEJAMENTO 168 No Brasil, a ideia e a prática do planejamento, enquanto mecanismo para se alcançar o desenvolvimento, remonta aos anos de 1930 3. Porém, nesta época que se estende até meados da década de 50, esta atividade assume uma forma não-sistêmica. Sob a influência dos movimentos de modernização presentes na América Latina, o planejamento adquire uma postura focada na modernização política e econômica do país, com ações na área do investimento, crescimento econômico e desenvolvimento social, sob a intervenção estatal que promovia a política nacionalista da época. Seu marco inicial está nas políticas adotadas pelo Governo de Vargas, quando da elaboração do Plano Especial de Obras Públicas e Aparelhamento de Defesa Nacional, em 1939, cuja execução estava prevista para o período de cinco anos e cujos objetivos buscavam a promoção da indústria de base, a construção de obras públicas e o fortalecimento da defesa nacional. Alguns órgãos e empresas públicas foram criadas no período, assim como a elaboração de importantes documentos, que sugerem a intenção do governo em promover uma política de planejamento no País. Ianni (1986), em suas análises, elenca os principais órgãos e empresas criadas pelo governo federal, no período de 1930 a 1945, os quais citamos alguns: Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (1930); Instituto do Cacau da Bahia (1931); Ministério da Educação e Saúde Pública (1932); Departamento Nacional do Café e Instituto do Açúcar e do Álcool (1933); Instituto Nacional de Estatística e Plano Geral de Viação Nacional (1934), Departamento Administrativo do Serviço Público – DASP e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (1938); Plano de Obras Públicas e Aparelhamento da Defesa (1939); Fábrica Nacional de Motores (1940); Companhia Siderúrgica Nacional (1941); Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI (1942); Usina Siderúrgica de Volta Redonda, Consolidação das Leis do Trabalho, Serviço Social da Indústria - SESI, Plano de Obras e Equipamentos (1943); Superintendência da Moeda e Crédito – SUMOC (1945). Nem todas as realizações do governo federal foram fruto de um estudo ou debates promovidos pelo planejamento, mas consequências diretas do próprio processo histórico pelo qual passava o País. Para Lafer (1975), no entanto, “[...] várias foram às tentativas de 3 Ainda no século XIX, no Brasil, o problema regional já chamava atenção, principalmente em virtude das constantes secas e dos problemas sociais que assolaram a região Nordeste e a dimensão continental da Amazônia, com uma demanda constante por políticas de controle territorial. Porém, ainda não pode-se falar em planejamento regional esta época. O que observa-se é a criação de estratégias para o combate a problemas pontuais. É deste período a criação da Comissão Imperial (1877), cuja preocupação se concentrava na busca de soluções para o problema decorrente das secas. No início dos anos de 1900 foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS) e, posteriormente, a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Para a Amazônia foi criada a Superintendência de Defesa da Borracha, em 1912. (SILVA, 2005; MIRANDA NETO, 1991) 169 coordenar, controlar e planejar a economia brasileira. Entretanto, o que se pode dizer a respeito dessas tentativas até 1956 é que elas foram mais propostas como é o caso do relatório Simonsen (1944-1945)” (LAFER, 1975, p. 29-30). Durante o governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1950) foi formulado o Plano Salte, que propunha investimentos nas áreas de saúde, alimentação, transportes e energia, via orçamento do Estado, investimentos privados e empréstimos externos. Consistia em um programa de gastos públicos que conseguiu chamar a atenção para alguns setores da economia que se encontravam defasados. Porém, este Plano esteve longe de ser um sucesso, pois mostrou-se carente de programas e projetos de governo, além de demonstrar uma total desarticulação financeira e orçamentária, que se tornava ainda mais grave pela ineficiência da administração pública em sua execução. Os anos posteriores correspondem à Segunda Era Vargas (1951-1954), com o País já vivendo sob a presença do capital internacional e dos grandes capitalistas e com uma burguesia industrial influente e plenamente consolidada. Nesta época o governo adota uma política liberalizante (IANNI, 1986). É elaborado, então, o Plano de Reabilitação Econômica e Reaparelhamento Industrial, também chamado de Plano Lafer, que previa investimentos em indústrias de base, energia e outros setores estratégicos. Deste período é a criação, por exemplo, do Fundo de Reaparelhamento Econômico e o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE), a Petróleo Brasileiro S/A - Petrobrás, o Banco do Nordeste Brasileiro BNB, as Centrais Elétricas Brasileiras S/A - Eletrobrás, que tinham como objetivo proporcionar o financiamento de obras públicas e infraestrutura e a adoção de uma política nacionalista, com proteção dos interesses nacional (SOUZA,1984). Durante o governo de Juscelino Kubitschek (1956-1960), foi elaborado o Plano de Metas, concebido para atuar em pontos vulneráveis da economia brasileira. Entre suas metas estava previsto o investimento em infraestrutura, sob a coordenação do Estado, com a criação de um parque industrial nacional, expansão da indústria pesada, da indústria de materiais elétricos e do setor automotivo (LAFER, 1975). Este plano foi financiado pelo setor público, com empréstimos externos e investimentos privados. Entre suas metas estava o investimento nas áreas de energia, transportes, alimentação, indústrias de base (siderurgia, alumínio, metais não ferrosos, indústria automobilística) e educação. Pela primeira vez na história brasileira, um plano econômico era elaborado com base na cooperação entre os diversos setores da economia. Porém, havia pouca ou nenhuma integração entre as áreas executiva e financeira. Não foram previstos programas de ação ou projetos em sua construção. A consequência disto foi que a sua execução esteve seriamente comprometida (SOUZA, 1984). 170 Neste período, o País sofreu os efeitos da inflação e do desemprego, ao mesmo tempo que se verificou uma desarticulação e desestruturação na política interna, com falta de apoio ao governo por parte de diversos segmentos da sociedade. O Brasil passou, também, a sofrer a pressão externa por uma política mais liberal e de concessões às grandes empresas capitalistas. Assumiu, então, o governo João Goulart (1961-1964), período em que foi elaborado o Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social, coordenado pelo economista Celso Furtado. Nesta época, o planejamento se estruturou para dar respaldo ao modelo de “substituição de importações” e para superar desequilíbrios estruturais da economia brasileira. Foram previstas reformas de base, nas áreas fiscal, bancária, agrária e administrativa. Porém, este plano não foi implementado completamente, devido a questões políticas que se sobrepuseram à questão nacional. Em 1964 o Brasil é tomado pela ditadura militar e este período vai se estender até 1985. A partir daí, o planejamento passou a ser visto como um instrumento de intervenção e controle social e um importante recurso para se alcançar o desenvolvimento. No governo Castelo Branco (1964-1967), o Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg) propunha uma ampla reforma da política econômica e de seus instrumentos básicos, inclusive no campo institucional. Elaborado a partir do estudo de diagnósticos setoriais, propunha o combate à inflação, a redução de desigualdades regionais, o aumento nos níveis de emprego, a retomada dos investimentos e do crescimento econômico. Neste período foram feitas a reforma do sistema monetário-creditício (1964) e do sistema financeiro (1965), com a criação de alguns instrumentos para a concessão de crédito. Foram criados, por exemplo, o Banco Nacional de Habitação (BNH) e o Sistema Nacional de Crédito Rural, que permitiu a capitalização da agroindústria no País. Este plano refletiu um planejamento sistematizado e integrado com a política econômica adotada. (KON, 1999) No período seguinte o Governo Costa e Silva (1968-1970), adotou o Programa Estratégico de Desenvolvimento - PED, composto por diretrizes de política econômica e setoriais, vetores de desenvolvimento regional, cujo objetivo era compor um projeto nacional de desenvolvimento. Para tal, o programa admitia a participação do setor estatal no preenchimento dos chamados “espaços vazios” da economia. Nesta época, foram implementados alguns planos setoriais ou regionais, como o Programa de Integração Nacional, voltado para o Nordeste e a Amazônia; o Proterra se destinava à questão da reforma agrária; o Provale, voltado à infraestrutura para o vale do rio São Francisco; o Prodoeste, com incentivos à região Centro-Oeste; o Prorural, que estendia os benefícios da previdência social aos trabalhadores do campo; o Programa de 171 Integração Social, destinado à participação dos trabalhadores do setor privado no valor agregado gerado pela atividade empresarial. O objetivo maior do governo, porém, era recuperar a aceleração do desenvolvimento econômico, estabilizar preços e controlar a inflação, com o fortalecimento da empresa privada e ampliação do mercado interno. O Programa de Metas e Bases para a Ação do Governo, instituído durante o Governo Médici (1970-1973), buscou estabelecer as diretrizes para quatro áreas prioritárias: educação, saúde e saneamento; agricultura e abastecimento; desenvolvimento científico e tecnológico; e fortalecimento do poder de competição da indústria nacional. Durante este governo foi elaborado o I Plano Nacional de Desenvolvimento (I PND), que concentrou atenção nos grandes projetos de integração nacional (transportes, corredores de exportação, telecomunicações; construção da ponte Rio-Niterói, rodovia Transamazônica, hidrelétrica de Três Marias, barragem de Itaipu). Traçado para transformar o país numa potência econômica e bélica até o final do século XX, propunha investimentos em setores dinâmicos da economia, como construção e infraestrutura, sob a intervenção direta do aparelho estatal. Entre seus objetivos estava a definição de uma política - Política de Integração Nacional (PIN) – que proporcionasse a integração nacional voltada para o progresso e para a ocupação das regiões brasileiras, através da, e o aumento do nível de emprego, com investimento nos setores terciários, na agricultura e na construção civil. Neste período foram criados instrumentos para o financiamento do capital privado. Uma análise dos resultados do período indicam para o superdimensionamento do poder executivo, com certa hipertrofia em suas esferas de atuação. O II PND foi implementado durante o Governo Geisel (1974-1979), quando o mundo vivia a crise do petróleo, com a consequente alta generalizada dos preços. Este plano propunha a adoção de grandes investimentos em indústrias de base (siderúrgica e petroquímica) e bens de capital (com garantias e incentivos fiscais e creditícios, reserva de mercado e políticas de preços para a proteção dos produtos internos); autonomia nacional em insumos básicos (metais não-ferrosos, minérios, petroquímica, fertilizantes e defensivos agrícolas, papel e celulose), energia (com especial atenção para a indústria nuclear e a pesquisa do petróleo, o programa do álcool e a construção de hidrelétricas). Este plano alcançou parte significativa de suas metas referentes à substituição de importações, aumento das exportações e dos projetos de desenvolvimento propostos. Desta época é o Proálcool, que representou uma importante estratégica na produção de energia alternativa (KON, 1999). Durante a década de 80, o planejamento brasileiro sofre uma interrupção, sendo substituído por diagnósticos setoriais e políticas de curto prazo. Nesta época, o governo adotou uma 172 postura distante do processo de planejamento, com a intervenção direta na economia justificada por uma nova onda denominada neoliberalismo. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 (CF/1988), o governo passa a adotar uma nova metodologia para a elaboração de seu planejamento – através dos Planos Plurianuais (PPAs), elaborado para o período de quatro anos, com vigência do segundo ano do mandato de um governo até o final no primeiro ano de mandato do governo seguinte, cujo objetivo explícito é a continuidade no planejamento governamental e nas ações públicas a serem adotadas. O artigo 165 da CF/1988 determina que o Poder Executivo instituirá planos plurianuais, onde serão estabelecidos, “de forma regionalizada, as diretrizes, objetivos e metas da administração pública federal” para todo o território nacional, através de programas de duração continuada (NERY JR., 2009) O Almanaque do Planejamento (2012), ao conceituar o PPA, argumenta que o mesmo: “constrói uma visão de futuro para o Brasil, propõe macro desafios de governo e valores para guiar o comportamento para o conjunto da Administração Pública Federal, permite a participação da sociedade na construção do PPA e no seu monitoramento e avaliação eliminando as barreiras da linguagem técnica, possibilita valorizar a diversidade e muda o foco da gestão pública: olha para as mudanças na vida do cidadão e não só para o volume de insumos utilizados nas ações” (Brasil, 2012a, p. 28). O primeiro PPA foi elaborado para o período 1991-1995 e, a partir daí, cada novo PPA reflete as diferentes orientações políticas de seus governos. Períodos 1991-1995 1996-1999 2000-2003 Orientações Políticas Caráter liberalizante da economia: redução do protecionismo, estímulo às importações, redução do aparato burocrático estatal. Garantia da estabilidade econômica, privatizações, reconfiguração das atribuições do Estado e tentativa de modernização da administração pública. Racionalização e melhora da qualidade do gasto público. Gestão Pública voltada a resultados. Introdução da noção de programas para organizar o PPA (Decreto Lei 2829/1998). Sistema de avaliação e monitoramento do PPA. Fonte: BRASIL, 2014. Os três últimos PPAs, 2004-2007, 2008-2011, e 2012-2015, trouxeram para o centro da agenda de desenvolvimento a inclusão social e a equidade, reorientando a dimensão política do planejamento com relação àquela que vigorava nos anos liberais de redução do estado e liberalização econômica. (BRASIL, 2014, p. 10) Segundo o Modelo de Planejamento Governamental, 173 “a decisão de iniciar um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil, no qual o Estado desempenha um papel indutor importante, resgatou o planejamento governamental, sobretudo nos últimos oito anos. Entretanto, os Planos Plurianuais ainda não haviam absorvido boa parte dessa concepção de planejamento. O PPA 2012-2015 possui uma estrutura inovadora que reflete uma concepção de planejamento influenciada especialmente, pela formulação e implementação das principais agendas executadas no período recente, como o PAC, o Bolsa Família, o PDE e o Minha Casa, Minha Vida, entre outros” (Brasil, 2012b, p. 113). Quanto à participação popular, elemento inovador no processo construção e acompanhamento dos PPAs, o manual do Planejamento Estratégico Municipal e Desenvolvimento Territorial (2014) cita que: Um dos elementos norteadores desse processo é, como já foi enfatizado, a participação social e popular em todas as fases da elaboração do Plano, por isso ela é pensada aqui, no primeiro bloco das definições mais estruturantes e fundamentais. A participação social tem que ser cuidadosamente pensada e planejada: quais são os grupos organizados na cidade, que entidades os representam e os públicos mais fragilizados que não tem representação organizada, como serão envolvidos? A qualidade do processo participativo depende diretamente da qualidade da informação e dos debates que serão realizados, por isso, é preciso gastar energia nestes processos, priorizar tempo e disposição para ouvir as demandas e dialogar com as diferentes reivindicações. (BRASIL, 2014, p. 35) O primeiro PPA foi elaborado para o período 1991-1995, durante o governo de Fernando Collor de Melo, e serviu somente para cumprir um preceito constitucional. Não apresentou grandes objetivos definidos e nem mostrou impacto significativo na sociedade. Porém, a partir do período 1996-1999, no Governo Fernando Henrique Cardoso, o PPA começa a cumprir seu papel de planejamento e gestão na sociedade. Sob a denominação “Brasil em Ação”, dispôs de novos conceitos para o ordenamento econômico-espacial do Brasil, com a definição de “eixos nacionais de integração e desenvolvimento” (que correspondiam a espaços de atração de capitais privados para a implementação de investimentos) e “projetos estruturantes” nas áreas de: infraestrutura econômica (transportes, energia, telecomunicações); recursos hídricos; agricultura; indústria e comércio exterior; turismo; ciência e tecnologia; meio ambiente; desenvolvimento social (previdência e assistência social, saúde, educação, saneamento, habitação, desenvolvimento urbano, trabalho); cultura, desporto, justiça, segurança e cidadania; Estado e administração pública; e Defesa Nacional. Alguns de seus objetivos fundamentais visavam a redução das desigualdades sociais e regionais e a redução dos custos de produção de bens e serviços, com o fortalecimento da competitividade da economia. Este PPA, porém, apresentou somente 174 algumas normas de longo prazo para a economia nacional, não chegando a ser avaliado por falta de indicadores. O PPA referente ao período 2000-2003 – denominado Programa “Avança Brasil” – redefiniu os eixos nacionais de integração e desenvolvimento (prioritariamente estabelecidos em torno das áreas de transportes, comunicações e energia) e introduziu a gestão por resultados na administração pública federal, além de promover a integração entre o planejamento, o orçamento e a gestão. Este plano trouxe mais uma vez a pauta da reforma do planejamento e orçamento, com busca sistemática de resultados específicos dentro de um processo contínuo de integração entre orçamento e planejamento. Para o período 2004-2009 foi elaborado o Plano “Brasil de Todos”, que procurava alcançar a estabilidade econômica através do desenvolvimento e inserção social, redução de desigualdades sociais; promoção e expansão da cidadania e fortalecimento da democracia. Dentre os objetivos do governo estavam o desenvolvimento do mercado interno com fornecimento de crédito às micro, pequenas e médias empresas e aos trabalhadores, investimento em infraestrutura econômica, revitalização do MERCOSUL e expansão do mercado interno com elevação dos salários e do seguro-desemprego, redução da taxa de juros, dentre outras. O Plano Plurianual posterior (2008-2011) trouxe como prioridade a organização da ação governamental através da obtenção de melhoria no desempenho gerencial da administração pública. Finalmente, o “Plano Mais Brasil” (2012-2015), ainda em ação dos dias atuais, tem suas diretrizes estabelecidas sobre quatro eixos prioritários: desenvolvimento econômico; gestão, infraestrutura e Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); desenvolvimento social e erradicação da miséria; direito e cidadania. Através do quadro abaixo procuramos traçar uma síntese dos ciclos econômicos e situar o desenvolvimento do planejamento governamental no Brasil, com referência ao conteúdo político e econômico no qual se inseriu. QUADRO I – Planejamento governamental e gestão pública no Brasil – 1989 – 2015 Ciclos econômicos e políticos 1889-1930 Primeira República Contexto econômicoestrutural Contexto políticoinstitucional Dimensões Planejamento governamental do -Economia cafeeira -Reorganização das finanças nacionais -Crise de 1929 -Instabilidade política -Montagem do aparato estatal-burocático -Ausência do planejamento -Convênio de Taubaté Principais realizações -Comis. Imperial -Inspetoria de obras contra as Secas (IOCS) -Superint. de Defesa da Borracha 175 1933-1955 Era Vargas -Industrialização substitutiva de importações -Bens de consumo não durável -Dependência financeira e tecnológica -Política nacional desenvolvimentista -Sistema corporativista -Planejamento não sistêmico -Plano de Obras e Equipamentos -Plano Salte 1956-1964 Era Juscelino Kubitschek -Industrialização pesada -Bens de consumo durável -Preparação para a fase do desenvolvimento -Plano de Metas -Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social 1964-1979 Regime Militar -Industrialização pesada -Milagre econômico -Endividamento externo -Internacionalização da economia -Acomodação e crise do modelo governamental -Pensamento cepalino -Ideologia desenvolvimentista -Crescimento com piora distributiva -Política institucionalautoritária 1980-1989 Redemocra -tização -Estagnação econômica -Inflação -Endividamento externo 1990-2015 Consolidação democrática -Reformas econômicas liberais -Estabilização monetária -Endividamento interno -Reformas estruturais -Crise do desenvolvimento -Redemocratização -Reconstitucionalização -Consolidação democrática -Reforma gerencialista -Experimentalismo societal -Cons. Nac. de Comércio Exterior -Cons. Nac. de Petróleo -DASP -Com. do Vale do S. Francisco -BNDE -Superint. do Plano de Valorização Econômica da Amazônia - SPVEA -Cons. de Desenvolvimento -Assoc. Nac. de Programação Econômica e Social – Anpes -PAEG -Plano Decenal -Programa Estratégico de Desenvolvimento -Programa de Metas e Bases para a Ação de Governo -I, II e III PNDs -Planos Regionais Brasileiros -Plano Cruzado -Plano Bresser -Plano Verão -Inst. De Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea -Plano Collor -Plano Real -Planos Plurianuais (PPAs) -Planos de Aceleração do Crescimento (PACs) - Minha casa, Minha Vida - PRONAF - Bolsa Família -Constituição Federal de 1988 Fonte: CARDOSO JR., 2011, p. 13. Adaptado. Com esta exposição, encerramos os planos governamentais traçados no Brasil, da década de 30 até os dias atuais, período este em que o planejamento apresentou um papel de condutor das políticas governamentais, embora sua importância tenha variado em cada governo. IV. CONSIDERAÇÕES FINAIS O planejamento governamental tem passado por um processo de evolução ao longo do tempo e de história recente do País. Originalmente, era um planejamento tradicional, passando 176 depois a ser estratégico e, mais recentemente, admite em sua construção a participação da sociedade. Até a década de 80, o processo de planejamento nacional concentrou-se no incentivo à industrialização, com investimento em ações de substituição de importações, elaboradas de forma relativamente desarticulada. Esta estratégia permitiu certa dinamização da economia regional. Porém, efetivamente tais ações não refletiram um desenvolvimento significativo e igualitário do país. A partir dos anos 80, devido principalmente à globalização da economia, à crise financeira do Estado e do modelo de intervenção estatal na sociedade, este planejamento começa a ser repensado como um importante recurso para aproximação entre o Estado e a sociedade. Ao longo do processo de amadurecimento do planejamento governamental, o Estado passou de agente indutor a gestor da política regional. Com a Constituição Federal de 1988, o planejamento adquire características próprias. Pela primeira vez na história do País apresenta um caráter continuado, independente do gestor ou do partido político. Outro mérito do PPA é a capacidade de coordenação entre as ações executórias e as ações orçamentárias e financeiras, resultando numa aproximação entre as atividades de planejamento e de execução. A participação social tornou-se fundamental no processo de construção de políticas de planejamento, exigindo a realização de um ciclo de debates, conferências e seminários, num esforço de envolver o maior número de representantes da sociedade civil, seus questionamentos e demandas. Estes planos tornam-se, a partir de então, os principais instrumentos de planejamento de médio e longo prazos à disposição do governo. Porém, o aspecto negativo verificado nesta política é que o planejamento começou a apresentar basicamente um caráter operacional, rotineiro, dentro da administração pública. Ressaltamos que nosso objetivo, neste artigo, não foi avaliar a viabilidade de cada plano governamental traçado, mas relatá-los, identificando-os e sistematizando-os, obedecendo a ordem de sua elaboração, de acordo com o processo histórico e evolutivo pelo qual passou o País, do período de 1930 até os dias atuais. Os resultado obtidos de cada um dos planos deverão ser parte de outros estudos, deste decorrente. 177 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Tânia Bacelar. A experiência de planejamento regional no Brasil. In: LAVINAS, Lena et al. (Org.). Reestruturação do espaço urbano e regional no Brasil. São Paulo: HUCITEC, 1993. BRASIL. Almanaque do Planejamento: Para Entender e Participar. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Brasília: Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos, 2012a. 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Também é apresentada uma discussão final sobre a aplicação dos métodos quantitativos e qualitativos nas ciências sociais. PALAVRAS-CHAVE: Ciências Sociais, Pesquisa Quantitativa, Pesquisa Qualitativa, 1. INTRODUÇÃO É comum entre acadêmicos nos mais diversos níveis algumas diferenças de significado no uso dos termos “quantitativo” e “qualitativo” na construção de uma pesquisa científica. Essa “confusão” se torna ainda mais presente quando se pensa nas Ciências Sociais Aplicadas, uma vez que se trata de uma área que não é Ciência Exata ou Tecnológica (Física, Matemática, Engenharia), mas que também não é puramente uma Ciência Humana (Pedagogia, Sociologia, Antropologia..), embora se aproprie de elementos teóricos e analíticos das áreas acima mencionadas, além de outras. Em algumas situações, é possível perceber em artigos, TCCs (Trabalhos de Conclusão de Cursos) de graduação, dissertações e até em teses de doutorado, informações qualitativas sendo classificadas como quantitativas pelo simples fato de serem apresentadas em tabelas numéricas ou em gráficos. Em outros casos, observa-se um “desperdício” de banco de dados (fruto de uma 1 Estudante do Programa do Doutorado em Desenvolvimento Regional e Urbano da Universidade Salvador – UNIFACS, Professor Assistente da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana, Professor Assistente da UNIFACS – Universidade Salvador. 180 coleta sistemática de pesquisa) por conta do pesquisador não saber explorar a potencialidade da análise quantitativa. Este artigo visa analisar teoricamente as diferenças epistemológicas e pragmáticas entre as abordagens quantitativa e qualitativa e, a partir dessa análise, propor uma síntese que as diferencie, principalmente quando forem utilizadas nas Ciências Sociais Aplicadas. Para isso, a pesquisa bibliográfica e documental foi de grande utilidade, principalmente na apropriação dos principais conceitos pertinentes à área. A questão central deste ensaio está na identificação das diferenças entre as metodologias (quantitativa e qualitativa) e das oportunidades de aplicação de cada uma delas dentro das Ciências Sociais Aplicadas. 2. CIÊNCIA E MÉTODO CIENTÍFICO O conceito de Ciência está intimamente ligado ao significado do método, uma vez que é o método que assegura credibilidade a um trabalho científico. Pode-se entender como ciência a busca pelo conhecimento sistematizado a cerca de um objeto ou fenômeno estudado. Para Kuhn (2005) a ciência não é uma aquisição estática e acumulativa e conhecimento e, sim, um processo de destruição e reconstrução. Neste sentido, Dias e Silva (2010, p. 04) afirmam que “o desenvolvimento do saber não se dá através de sobreposiçõesde conhecimento, mas por revoluções científicas que ocorrem quando se tenta quebrar um modelo ou padrão aceito como paradigma”. Gary Laudan (2011) trouxe uma visão diferente e, segundo Feijó (2003), propôs ciência como relevante a partir do momento em que estabelece meios para a resolução de problemas. O autor (Laudan) recusou a ideia de que é racional adotar um programa de pesquisa degenerativo e postulou que cientistas podem racionalmente trabalhar em mais de uma tradição de pesquisa, desde que distingam entre a aceitação e a busca de uma tradição. Desta “oposição” de visões sobre o significado da ciência e seus métodos, a resolução de problemas (ou busca de respostas para os mesmos) é apontada como fator essencial na linha metodológica que tanto influencia as Ciências Sociais Aplicadas. Segundo Feijó (2003), a partir da análise do proposto por Laudan, o progresso científico é trazido pela solução de problemas empíricos e conceituais e ocorre pela maximização dos problemas empíricos resolvidos, enquanto se minimiza a presença de 181 anomalias e problemas conceituais. A relevância de uma teoria se dá a partir do momento em que esta oferece respostas á problemas significativos. De uma forma mais simplificada, a conceituação de Lakatos e Marconi (1991, p. 21) oferece uma síntese para o significado de ciência: (...) se constitui em um conjunto de proposições e enunciados, hierarquicamente correlacionados, de maneira ascendente ou descendente, indo gradativamente de fatos particulares para gerais e vice-versa (conexão ascendente = indução; conexão descendente = dedução), comprovados com a certeza de serem fundamentados pela pesquisa empírica (submetida à verificação). Fica evidente a relevância do método para a credibilidade da ciência. A condução de um estudo científico deve seguir procedimentos que assegurem sua validade e condições de contribuir para o campo do conhecimento em que se insere. Espera-se que o produto de uma pesquisa científica esteja atrelado à construção de algo novo, que indique novas perspectivas teóricas ou práticas. Segundo Demo (2000, p. 19), (...) não é procedimento adequado a simples compilação de ideias dos outras sem qualquer elaboração própria. Reconstruir conhecimento significa, portanto, pesquisa e elaborar, impreterivelmente. Pesquisa é entendida tanto como o procedimento de fabricação do conhecimento, quanto procedimento de aprendizagem, sendo parte integrante de todo processo reconstrutivo de conhecimento. Desta forma, uma pesquisa para ser considerada científica deve atentar para o método que segundo Galliano apud Prestes ( 2005, pag. 29) “é um conjunto de etapas, ordenadamente dispostas, a serem vencidas na investigação da verdade, no estudo de uma ciência ou para alcançar determinado fim”. A autora lembra que método não pode ser confundido com técnica (modo de fazer a pesquisa), sendo que as abordagens quantitativas e qualitativas podem permear os diversos métodos selecionados. 3. ASPECTOS CONCEITUAIS SOBRE ABORDAGEM / PESQUISA QUALITATIVA Quando uma pesquisa exige coleta, análise e, principalmente, interpretação de informações coletadas em um contexto com forte presença da subjetividade, esta pesquisa pode ser caracterizada como qualitativa. Segundo Flick e Cols apud Gunther (2006, p. 202), “a primazia da compreensão é apontada como princípio do conhecimento, que prefere estudar 182 relações complexas ao invés de explicá-las por meio do isolamento das variáveis”. Desta forma, a pesquisa qualitativa busca analisar com profundidade o contexto das informações coletadas, de forma que os fatores de influência no comportamento das diversas variáveis sejam devidamente considerados. É preciso, contudo, reduzir alguns preconceitos percebidos em relação à pesquisa qualitativa, principalmente quando esta é erroneamente nominada como essencialmente subjetiva. O contexto em que as informações são coletadas pode ser marcado pela subjetividade, mas a pesquisa qualitativa não é um mero devaneio desprovido de métodos e técnicas. Ao contrário, em muitos momentos, a utilização dessas técnicas (muitas vezes compostas por ferramentas sistematizadas), gera a confusão com a pesquisa quantitativa. Karl Popper, citado por Vianna (2006, pg. 01) afirmou que “ (...) é absolutamente errôneo conjeturar que a objetividade da ciência dependa da objetividade do cientista. E é totalmente falso crer que o cientista da natureza seja mais objetivo que o cientista social (...) O que pode ser qualificado de objetividade científica baseia-se única e exclusivamente na tradição crítica”. Entendendo que a pesquisa qualitativa não é subjetiva e aleatória, percebe-se a relevância da escolha e utilização do método adequado de sistematização do esforço científico. Sabe-se que não existe uma uniformidade entre as diversas publicações existentes sobre o tema. Será utilizada, então, a sistematização de Gunther (2006), que apresenta alguns métodos de pesquisa qualitativa: a) Estudo de caso: se constitui a coleta e análise de dados sobre uma situação individual com premissa para entender um fenômeno de maneira ampla. O sujeito (e objeto ) é observado e analisado no sem ambiente natural, sendo o método utilizado na coleta da dados quantitativos e qualitativos; b) Análise de documento (documental) : praticamente é uma técnica utilizada em todas as pesquisas, uma vez que é essencial na revisão de literatura. Além de ser útil na formação do arcabouço teórico, é aplicada quando a pesquisa requer a análise e interpretação de relatórios, documentos e, contemporaneamente, mídias diversas e arquivos digitais. É essencial, na análise documental, que o pesquisador crie mecanismos objetivos de ordenamento e sistematização das informações; c) Pesquisa-ação: trata-se de um método / técnica que utiliza, por muitas vezes, o experimento e a mudança nas condições do ambiente pesquisado. Para Gunther (2006, pg. 205) “a pesquisa-ação independe da técnica, podendo ser utilizada com experimento, observação ou survey. Observa-se, ainda, uma junção entre pesquisa-ação e a pesquisa participante” ; 183 d) Pesquisa de Campo: exige, essencialmente, que o pesquisador saia do laboratório, da biblioteca, da bibliografia e busque coletar informações sistematizadas no “campo”. Essa técnica exige prévia preparação (amplo trabalho exploratório) e pode utilizar ferramentas quantitativas e qualitativas; Uma vez definida a técnica (ou técnicas) de pesquisa, a coleta de dados passa a ser o passo de maior relevância no processo. Em linhas gerais, as publicações que versam sobre técnicas de pesquisa apontam para três maneiras de coletar dados: observação, experimentação e levantamento (questionários, entrevistas e grupos de discussão). A observação pode ser utilizada quando o pesquisador opta pela pesquisa de campo ou pelo estudo de caso e recomenda-se que seu uso seja precedido por uma sistematização do que vai ser observado (apesar de se admitir o uso da observação não estruturada). Em muitas ocasiões ,a observação precede a formatação de outros instrumentos de coleta. A experimentação é utilizada principalmente na pesquisa-ação e na pesquisa participante, onde o pesquisador altera as condições do ambiente, cria estímulos ao comportamento dos entes pesquisados e observa os resultados de sua intervenção. Na Administração, um caso clássico da utilização da experimentação foi a Experiência de Hawthorne, quando Elton Mayo alterou as condições ambientais de um grupo de trabalhadoras e observou os resultados dessas mudanças. O levantamento através de questionários e entrevistas demanda uma prévia preparação e é utilizado nas pesquisas de campo. Os questionários, geralmente objetivos, são aplicados quando há um elevado número de respondentes, enquanto a entrevista é indicada quando há um limitado número de respondentes e uma necessidade de maior aprofundamento das informações coletadas. A entrevista exige grande maturidade e conhecimento do pesquisador, uma vez que é um instrumento com grande potencial qualitativo de obtenção de informações. Como dito anteriormente, a diversidade de autores e publicações sobre o tema cria um grande número de ramificações de técnicas e instrumentos. Flick apud Gunther (2006, pg. 205) afirmou que: (...)constatamos um grande número de procedimentos, havendo quatro tipos de entrevistas: a)focalizada, b) semi-estruturada, c) centrada num problema e d)centrada no contexto (e.g. com especialista ou etnógrafos). Além do mais, há três tipos de relatos: a) entrevista narrativa, b)entrevista episódica e c)contos. Há ainda, três tipos de procedimentos grupais: a)entrevista em grupo, b)discussão em grupo e c) narrativa em grupo. No que diz respeito aos procedimentos visuais existem: a)observação, b)observação participante, c) entnografia, d) fotografia e e)análise de filmes. 184 Uma vez coletados os dados, a pesquisa qualitativa demanda os procedimentos de análise. O quadro a seguir, adaptado de CIN/UFPE (2012), sintetiza os principais procedimentos de análise na pesquisa qualitativa e suas aplicações: Procedimento Ideia central Aplicação GroudedTheory Supõe que o pesquisador, durante a Aplicada principalmente em pesquisas de coleta campo de dados, desenvolve, que aprimora e interliga os conceitos e participante. hipóteses. Levantamento e análise exploratórias. usam Últil a observação nas pesquisas se superpõe Análise Descrição dos fenômenos da Não tem indicação específica, mas possui fenomenológica perspectiva do sujeito, tendo por três funções: a) função crítica (quando as intenções o ponto de partida. outras abordagens são questionadas), b)função heurística perspectivas) e c) (propõe função novas descritiva (desenvolve compreensão mais ampla a partir da perspectiva do sujeito) Hermenêutica Pretende, por meio procedimentos hermenêuticos, gradativa modificação do de Útil na interpretação detalhada e segura a de material de texto, especialmente em pré- entrevistas abertas e pouco estruturadas. conhecimento do intérprete e chegar a uma interpretação da perspectiva subjetiva dos seus sujeitos. Análise de conteúdo Análise de textos de maneira sistemática ,por meio de um sistema Aplicada quando se vai trabalhar com grande quantidade de texto. de categorias. Hermenêutica Busca objetiva objetivas desvendar as estruturas subjacentes às significações subjetivas. Análise tipológica É baseada em critérios Recomendada para a pesquisa cujo objetivo é menos a significação subjetiva e mais a estrutura geral subjacente. pré- Recomendada quando se vai pesquisar determinados e visa filtrar elementos uma grande quantidade de material e não e descrevê-los detalhadamente. se quer deixar de lado a descrição de casos individuais. Quadro 01 – Principais procedimentos de análise na pesquisa qualitativa Fonte: Adaptado de CIN/UFPE (2012) 185 Os diversos procedimentos de análise acima descritos reforçam a ideia de que a pesquisa qualitativa exige um trabalho de imersão do pesquisador, além de métodos para organizar o pensamento, coletar e analisar os dados. Entretanto, o pesquisador pode, em determinadas situações, fundir métodos ou até criar seu próprio caminho. Para Minayo e Sanches (1993, pg. 245), (...) dir-se-ia que a cientificidade tem que ser pensada aqui como uma ideia reguladora de alta abstração, e não como sinônimo de modelos e normas rígidas. Na verdade, o trabalho qualitativo caminha sempre em duas direções: numa elabora suas teorias, seus métodos, seus princípios e estabelece seus resultados; noutra, inventa, ratifica seu caminho, abandona certas vias e toma direções privilegiadas. Ainda sobre a dificuldade encontrada para sistematizar de forma científica os trabalhos qualitativos, Minayo e Sanches (1993, pg. 245) concluem o raciocínio: “definir o nível simbólico, dos significados, da intencionalidade, constitui-lo como um campo de investigação e atribuir-lhe um grau de sistematicidade pelo desenvolvimento de métodos e técnicas têm sido as tarefas e desafios dos cientistas sociais que trabalham com a abordagem qualitativa (...)”. A pesquisa qualitativa se aprofunda na coleta, análise e interpretação das informações em suas diversas fontes. Em várias oportunidades, as informações ordenadas de forma quantitativa servem de base e instrumento da maior relevância no processo científico. 4. ASPECTOS CONCEITUAIS SOBRE METODOLOGIA E PESQUISA QUANTITATIVA A pesquisa quantitativa é oriunda das chamadas “ciências duras” e se baseia na análise e interpretação matemática e estatística de dados coletados a partir de constatações objetivas. Para Dalfovoet al (2008) o método quantitativo é usado com frequência nos estudos descritivos, buscando a correção de variáveis e os estudos comparativos causais, além dos testes de hipóteses via experimentos. A Teoria da Probabilidade e a inferência estatística tiveram papel essencial no desenvolvimento das pesquisas quantitativas. Os experimentos aleatórios se caracterizavam pela impossibilidade de predizer o resultado de um mesmo experimento repetido por várias vezes. A variabilidade aleatória encontrou solução a partir da Teoria da Probabilidade, essencial para o entendimento da inferência estatística. Dowining e Clark (2006, pg. 04) afirmam que: 186 Para entender a inferência estatística é preciso entender os vários conceitos de probabilidade. A probabilidade e a estatística estão estreitamente relacionadas, porque formulam tipos opostos de questões. Na probabilidade, sabemos como um processo funciona e queremos predizer quais serão os resultados de tal processo. Em estatística, não sabemos como um processo funciona, mas podemos observar seus resultados e utilizar a informação sobre os resultados para conhecer a natureza do processo A utilização da estatística e da probabilidadepassou a ser usada com frequência nas pesquisas científicas, principalmente nas áreas da saúde, engenharia e física. Minayo e Sanches (1993, pg. 241) relatam o uso desses métodos em pesquisas clássicas da área da saúde: O uso da distribuição de probabilidade para descrever padrões biológicos, médicos ou sociais não é recente. Quetelet já havia utilizado as propriedades da distribuição de Gauss para descrever padrões de altura de seres humanos; Galton, ummédico inglês, havia utilizado as propriedades da mesma distribuição nos estudos de genética sobre herança natural, tendo sido o criador da teoria de análsie de dados largamente utilizada em estatística e conhecida como regressão linear Ainda analisando a perspectiva da utilização de modelos matemáticos na pesquisa científica, é válido entender que a aplicação da teoria das probabilidades é de grande utilidade no desenvolvimento de modelos que, uma vez testados e comprovados, são capazes de fornecer credibilidade matemática a um construto teórico. Os modelos matemáticos devem testar as teorizações sobre um determinado fenômeno. Bailey apud Minayo e Sanches (1993) afirma que é função da estatística estabelecer a relação entre o modelo teórico proposto e os dados observados no mundo real, produzindo instrumentos para testar a adequação do modelo. Em resumo, enquanto a teoria da probabilidade está dentro da esfera da lógica dedutiva, a estatística encontra-se no âmago da lógica indutiva. A variabilidade aleatória de um fenômeno é “desvendada” a partir da inferência estatística. Outro aspecto importante a ser analisado na pesquisa quantitativa é a natureza das variáveis, que devem ser identificadas e especificadas. Assim como na abordagem qualitativa, há uma ordem lógica (e mais simples) de procedimentos de coleta e analise na estruturação de uma pesquisa quantitativa. Obviamente, tais procedimentos devem ser planejados após uma definição clara do problema e hipóteses de pesquisa: 187 a) Seleção / identificação das variáveis a serem analisadas; b) Identificação / seleção da fonte de dados e informações (fonte secundária, fonte primária); c) Definição dos indicadores que serão produtos das análises dos dados coletados; d) Coleta de dados (questionário, observação, busca em fontes secundárias, coleta eletrônica) e) Tratamento dos dados (agrupamento dos dados, cálculo das medidas de tendência, de dispersão, de frequência, entre outros indicadores); f) Análise e interpretação dos dados. Todas as etapas acima descritas devem ser executadas com o maior rigor possível, pois não basta estar demonstrada em um modelo matemático para que uma inferência tenha credibilidade. A questão fundamental é decidir quais modelos analíticos são adequados para determinados problemas e quais limitações serão impostas. Também devem ficar claras as possibilidades e limitações para a generalização dos métodos. Com o tempo, os métodos quantitativos passaram a ser incorporados pelas ciências humanas e sociais e os pesquisadores das ciências duras passaram a complementar suas análises com os métodos qualitativos. Para Gunther (2006, p. 202) “dificilmente um pesquisador adjetivado como quantitativo exclui o interesse em compreender as relações complexas. O que tal pesquisador defende é que a maneira de chegar a tal compreensão é por meio das relações entre as variáveis”. À medida que as observações e mensurações tornam-se acuradas e extensivas, tem surgido a oportunidade de usar a linguagem matemática para descrever, representar ou interpretar a multidiversidade de formas vivas e suas possíveis inter-relações. Pesquisa quantitativa e qualitativa não são excludentes e sim de uma essencial complementação. Os dados oriundos de um processamento quantitativo precisam ter seu contexto analisado (qualitativamente) e informações obtidas em pesquisas qualitativas podem e devemser processadas matematicamente. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como afirmado no início deste texto, acadêmicos ligados às ciências sociais aplicadas utilizam (e confundem) com certa frequência métodos quantitativos e qualitativos de pesquisa. 188 Muitas vezes, essa utilização é feita de forma equivocada e propicia críticas à abordagens meramente numéricas na análise e interpretação de dados atrelados à fenômenos humanos complexos que exigem uma abstração interpretativa maior que a simples análise fria dos dados. Contra uma suposta deificação dos métodos quantitativos nas Ciências Sociais (se referindo especificamente às Ciências Econômicas na citação a seguir), Aktouf (2004, p. 69) afirmou que: Um verdadeiro delírio pseudocientífico newtoniano invadiu então o campo da economia, onde o empréstimo do vocabulário das diferentes disciplina científicas pelas ondas sucessivas de economistas que procuravam transformar economia em ciência não é apenas uma analogia, mas significa uma apropriação conceitual sem rodeios. (...) a que ponto esses aprendizes de feiticeiros usam e abusam de analogias e de fórmulas emprestadas da mecânica celeste de Newton, de equações derivadas da eletromagnética, da cinética de gases e da física subatômica...como se os negócios humanos (e os humanos) pudessem ser tratados do mesmo modo que massas em interações mecânicas ou partículas pertencentes ao mundo da física Trata-sede uma crítica forte, mas não totalmente desprovida de sentido, uma vez que há uma corrente de pensadores, a exemplo de Boaventura de Sousa Santos (2010, p. 38), que sugere a necessidade de uma abordagem específica para as Ciências Sociais. A ciência social será sempre essa ciência subjetiva e não objetiva como as ciências naturais; tem de compreender os fenômenos sociais a partir das atitudes mentais e do sentido que os agentes conferem às suas ações, para o que é necessário utilizar métodos de investigação e mesmo critérios epistemológicos diferentes das correntes nas ciências naturais. As Ciências Sociais Aplicadas podem e devem utilizar os dois tipos de abordagem: quantitativa e qualitativa. Na maioria das oportunidades, a utilização de ambas de forma simultânea propiciará resultados de maior credibilidade. É importante, no entanto, que sejam evitadas confusões na apropriação dos termos e utilização das abordagens. Neste sentido, cabem alguns esclarecimentos: a) Apesar de ter como uma de suas principais característicasa flexibilidade na formatação dos métodos e técnicas oriundas de informações colhidas durante a pesquisa ( preferencialmente na etapa exploratória), a abordagem qualitativa não é constituída por uma série de textos desarticulados e observações desestruturadas. Os métodos qualitativos devem ser objetivos, organizados e sistematizados; b) A abordagem quantitativa se fortalece ao utilizar a estatística e a teoria das probabilidades para testar inferências através de modelos. Esses modelos processarão dados frutos de constatações de algum fenômeno concreto; 189 c) A abordagem qualitativa pode utilizar instrumentos quantitativos, mas isso não a caracterizará como quantitativa. Por exemplo: (...) Ao se pesquisar, em duas datas,o grau de satisfação da população de uma determinada cidade com a segurança pública, obteve-se as seguintes informações: Tabela 01 – Cidade “X”. Satisfação com a segurança pública Resposta Respostas Respostas Data 01 Data 02 Plenamente satisfeitas 200 120 Satisfeitas 100 160 Indiferentes 55 40 Totalmente insatisfeitas 400 500 Não souberam dizer 145 80 Total 900 900 Fonte: Dados fictícios para ilustrar exemplo (2014) Os dados acima demonstrados permitiriam ao pesquisador o cálculo de percentuais e a sua expressão em gráficos, como expresso abaixo: (...) percebe-se, entre a data 01 e a data 02, uma redução de 40 % entre o número de respondentes plenamente satisfeitos e uma ampliação de 25 % entre os respondentes que se declararam totalmente insatisfeitos, conforme demonstrado no gráfico 01, abaixo. Tais variações de percentuais podem se explicar pela redução de ações educacionais na região pesquisada. (...) 190 1901ral 1901ral 1901ral 1900ral 1900ral Respostas Data 01 1900ral Respostas Data 02 1900ral Gráfico 01 - Cidade “X”. Satisfação com a segurança pública Fonte: Dados fictícios para ilustrar exemplo (2014) O exemplo acima demonstrado (fictício, para efeitos ilustrativos), apesar de usar números, percentuais e gráficos, não expressa uma abordagem quantitativa. Na situação em questão, a origem dos dados parte de opiniões, percepções e sentimentos dos entrevistados (estar ou não satisfeito com algo). Além disso, o contexto que envolve a cidade, as datas em que as coletas foram feitas, os locais e as características dos entrevistados devem ser levados em conta na interpretação das informações; d) Nas ciências sociais, mesmo que uma análise seja prioritariamente quantitativa, não deve ser desprovida da analise e interpretação qualitativa, já que os fenômenos humanos são complexos e mutáveis. Por exemplo, abaixo estão expressos os números relativos à quantidade de empregos por setor econômico em Feira de Santana – BA entre os anos 2004 e 2010: Tabela 2 - Emprego por setor econômico em Feira de Santanta (2004 - 2010 Setor/Ano 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Agropecuária 1363 1529 1257 1136 1128 1130 1190 Ind Transf 13871 14077 16181 15136 17707 18894 20937 Const Civil 1811 3401 3367 4722 5834 9097 11302 Comercio 20990 22951 24574 27223 29009 30380 33220 Serviço 24585 26060 28070 28079 29765 33231 37255 Total 62620 68018 73449 76296 83443 92732 103904 Fonte: Adaptado do Anuário Estatístico de Feira de Santana, MTE /RAIS (CDL, 2012) 191 As informações do exemplo acima expresso são econômicas e sociais. No entanto, a origem dos dados é uma constatação (nesse caso,uma contagem) e as possíveis análises devem ser basear na abordagem quantitativa, sem ignorar os aspectos qualitativos e as especificidades do contexto. Em outras palavras, no exemplo em questão, os dados não são fruto de percepções e sim da quantificação de pessoas empregadas nos diversos setores econômicos. O tratamento estatístico é perfeitamente cabível, mas não é suficiente para explicar o fenômeno observado. De uma forma bastante simples, e ainda se prendendo ao exemplo em questão, poder-se-ia dizer que no período observado, há uma média de 5648 trabalhadores lotados na Construção Civil. Essa informação é fruto de uma análise quantitativa e da obtenção de uma medida estatística (média) mas, para se revestir de significado, deve ser acompanhada de análise, reflexão, comparação com outros dados e com a conjuntura analisada. No exemplo expresso no item “c” acima, a abordagem se caracteriza como qualitativa por conta da origem dos dados (opinião, percepção, sentimentos) e não pelas possibilidades de desdobramentos matemáticos dos mesmos. Outro simples exemplo que também ilustra uma situação é a percepção de um grupo de alunos de um determinado curso sobre a qualidade de ensino: seria possível dizer que 30 % dos respondentes consideram o curso como de boa qualidade. Trata-se de uma abordagem qualitativa, pois se baseia na percepção de cada aluno sobre a adequação do curso. Os critérios dos supostos respondentes são pessoais e subjetivos, pois cada aluno pode ter um objetivo de vida diferente e uma forma diferente de avaliar a qualidade de um curso. Ainda baseado no exemplo do grupo de alunos de um curso, o mesmo poderia servir de subsídio para uma análise quantitativa se for considerada a assiduidade dos estudantes ou a evasão escolar. Dizer que a evasão de alunos em um curso, em um determinado período de tempo, foi de 20 % é uma constatação numérica (em determinada data o curso tinha um número de alunos, em outra, tinha 20 % menos) e independe de opiniões. Obviamente, e a depender dos objetivos da pesquisa, a análise poderia ser complementada de forma qualitativa ao se buscar os motivos da evasão constatada. O mesmo princípio serve para o exemplo transcrito no item “d” acima: a série histórica e a distribuição dos dados relativos ao número de empregados por setor econômico permitem uma série de cálculos e análises estatísticas. No entanto, a análise qualitativa seria necessária para elucidar, por exemplo, a percepção dos trabalhadores em relação ao crescimento do número de vagas no setor. 192 Buscou-se demonstrar as diferenças conceituais e de aplicação entre as abordagens quantitativa e qualitativa no contexto das Ciências Sociais Aplicadas. Entende-se que não há metodologia e/ou abordagem “melhor” ou “pior” e sim a mais ou menos adequada para os objetivos de uma pesquisa. A abordagem qualitativa e a abordagem quantitativa são complementares e apóiam a metodologia de pesquisa nas Ciências Sociais Aplicadas. Uma pesquisa baseada na abordagem qualitativa ganha maior poder de síntese e uniformiza a compreensão quando utiliza o ferramental quantitativo, assim como uma análise baseada na abordagem quantitativa ganha maior aprofundamento quando os aspectos qualitativos são utilizados na elucidação dos fenômenos em pauta. A grande variedade de publicações sobre o tema leva a um grande número de abordagens conceituais e práticas sobre a caracterização de um método e/ou abordagem de pesquisa. As Ciências Sociais Aplicadas constroem seus métodos a se apropriam de ciências mais tradicionais e tal fato é salutar até certo ponto. Não haveria sentido “reinventar a roda” já criada por outras ciências. No entanto, é preciso uma maior reflexão por parte dos pesquisadores e cientistas sociais no sentido da adaptação dos métodos consagrados e da criação de um discurso consensual que dê aos estudos e pesquisas da área uma unidade de compreensão sobre a diversidade das possibilidades metodológicas, proporcionando maior segurança e propriedade na utilização dos métodos e abordagens quantitativas e qualitativas de pesquisa. REFERÊNCIAS CIN – Centro de Informática da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco Técnicas de Análise Qualitativa (texto disponibilizado para estudos) .. Disponível em 20/12/2012 no endereço http://www.cin.ufpe.br/~pcart/metodologia/pos/Mayring043.pdf DALFOVO, Michael Samir; LANA, Rogério Adilson; SILVEIRA, Amélia. Métodos quantitativos e qualitativos: um resgate teórico. Revista Interdisciplinar Científica Aplicada. Blumenau, V. 2, n. 4. 2008. DEMO. Pedro. Metodologia do conhecimento científico. São Paulo: Atlas, 2000, DIAS, Donaldo de Souza e SILVA, Mônica Ferreira. Como escrever uma monografia: manual de elaboração . São Paulo: Atlas, 2010. DOWNING, Douglas; CLARK, Jeffrey. Estatística Aplicada. São Paulo: Saraiva, 2006. 193 FEIJÓ, Ricardo. Metodologia e filosofia da ciência: aplicação na teoria social e estudo de caso. São Paulo: Atlas, 2003. GUNTHER, Hartmut. Pesquisa qualitativa versus pesquisa quantitativa: esta é a questão? In Psicologia :Teoria e Pesquisa. Vol 22, n. 02. 2006. KUNH, Thomas. S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2005. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, M. A. Metodologia científica: ciência e conhecimento científico. 2ª. Ed. São Paulo: Atlas, 1991. LAUDAN, Larry. O Progresso e seus Problemas: Rumo a uma Teoria do Crescimento Científico. São Paulo: Editora Unesp, 2011 MINAYO, Maria Cecília de S; SANCHES, Odécio. Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade? In Cadernos de Saúde Pública. Rio de Janeiro. 1993. PRESTES, Maria Luci de Mesquita. A pesquisa e a construção do conhecimento científico: do planejamento aos textos, da escola à academia. São Paulo: Rêspel, 2005. SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências. 7° Ed. São Paulo: Cortez, 2010 VIANA, Willian Barbosa. O design da pesquisa qualitativa: questões a considerar. In Anais do XIII SIMPEP. Baurú, São Paulo. 2006. 194 CONVOCAÇÃO DE VONTADES COMUNITÁRIAS E PROCESSOS DE PARTICIPAÇÃO SOCIAL Ângela Damasceno 1 RESUMO O texto aborda de forma reflexiva as questões que envolvem o lugar da participação social nos planos, projetos e programas instituídos pelo poder público numa perspectiva de viabilizar a construção coletiva a partir de ampla mobilização popular e efetivo controle social. A autora destaca alguns fatores preponderantes para que a participação social ocorra de forma efetiva, tais como a necessidade de tempo para a construção dos consensos, acesso à informação e recursos para custeio logístico, destacando a necessidade de definição de indicadores de sucesso que ultrapassem as assinaturas que integram listas de presença, fotos e material de divulgação. PALAVRAS CHAVE: participação social, mobilização e controle social Para uma narrativa que aborde os processos de participação social praticados no Brasil, é imprescindível a lembrança de conceitos básicos como; democracia, representação, cooperação, entre outros, sem deixar, é claro, de considerar que toda a participação social preconiza a garantia de pilares essenciais, como: acesso à informação, tempo para construção de consensos e recursos financeiros para viabilidade de encontros não manipuláveis por seus patrocinadores. A relevância da participação social no desenho e implementação de políticas públicas, sem dúvida não começou a ser construída agora, todavia, ainda há lacunas, principalmente metodológicas, em relação a forma de mobilização institucional e comunitária, para que os projetos, planos e programas governamentais expressem, de fato, os anseios e os tempos de seu público objetivo. Comecemos então pela abordagem ao conceito de democracia, que para inúmeras pessoas, precisa ser revelado ou relembrado em suas diferentes formas e intensidades. Segundo Gaventa (2004), o conceito de democracia toma sim diferentes 1 Ângela Damasceno é socióloga, especialista em política e estratégia e mestre em engenharia ambiental. Atualmente exerce a função de coordenadora técnica social do Programa Sanear mais Bahia, numa cooperação técnica entre FUNASA e CREA/BA. 195 formas, assim enquanto para alguns a visão democrática é aquela que privilegia menos governo, impulsionada pela perspectiva neoliberal da eficiência; para outros, trata-se de fortalecimento da democracia local por meio de um maior envolvimento e engajamento dos cidadãos no processo de tomada de decisão. Entre alguns dos principais modelos teóricos de democracia, Nobre (2004), destaca os seguintes modelos: 1) modelo Elitista ou Competitivo Elitista; 2) modelo Pluralista; 3) modelo Legal; 4) modelo Participativo; e 5) modelo Deliberativo; Para cada um destes modelos um autor clássico os conceituou e defendeu compreendendo os diferentes entes envolvidos. Assim, segundo Schumpeter, (1942) a democracia, no modelo elitista, é a luta entre líderes políticos rivais, pertencentes a partidos e disputando o direito de governar. Trata-se, portanto, segundo Nobre (2004) de um modelo em que a democracia passa a ser um arranjo institucional capaz de produzir decisões necessárias à reprodução social e econômica nas condições de uma sociedade pós-tradicional, onde não há um mesmo conjunto de valores últimos compartilhados por todos os membros do corpo político. O segundo modelo, o Pluralista, será melhor compreendido no texto: Um prefácio à Teoria Democrática de Robert Dahl (DAHL, 2005), todavia com as contribuições de Held (1995), é possível compreender que “o poder é arranjado de maneira não hierárquica e competitiva (....) é um processo infinito de barganha entre inúmeros grupos, com interesse distintos, tais como partidos políticos, grupos étnicos, grupos religiosos.” O modelo Legal, como terceiro modelo, é assumidamente normativo e segundo Hayek (1976), trata-se de uma radical defesa das liberdades negativas como valor supremo, como valor que deve se impor em qualquer eventual conflito de princípios políticos e jurídicos, numa grande defesa do Estado mínimo e do laisser-faire (expressão do liberalismo econômico – deixa fazer) como valor fundamental da vida social. O quarto modelo é o Participativo e tem o filosofo Rousseau como seu maior representante. Nobre (2004) afirma que este conceito de democracia é pautado na 196 necessidade de superar não apenas as desigualdades materiais que impedem a efetiva realização das liberdades, apenas prometidas pelo direito, sob o capitalismo, mas também os déficits de formação política da opinião e da vontade que daí resultam, o que significa ampliar a participação nos processos decisórios. O quinto modelo é o que concentra o maior número de adeptos contemporâneos. Segundo Habermas (2003), o modelo de democracia deliberativa está organizado em torno de um ambiente de justificativa, de argumentação pública livre entre iguais. Neste ambiente, um processo de deliberação precisa respeitar a participação de todos com simetria e igualdade de acesso, de construção do formato, dos argumentos e da forma de votação. A democracia moderna, originada como democracia representativa, evidenciase a necessidade de um contraponto à “representação do interesse”. Para Bobbio (1986), este princípio conduziria os representantes políticos a perseguir os interesses da nação, desvencilhando-se, entretanto, do mandato vinculado da representação dos interesses particulares do representado ou categoria, sendo assim, é provável que alguns representantes eleitos pela sociedade civil não pertençam à mesma categoria profissional ou social do representado, pois os regimes representativos na contemporaneidade refletem uma categoria específica de representante: os políticos de profissão. Segundo Dahl (2005), as oportunidades delegadas aos cidadãos para a formulação das suas próprias decisões políticas e para expressá-las aos seus concidadãos e ao governo, a partir da participação dos interessados, assim como assegurar que estas preferências sejam consideradas, e isentas de discriminação do conteúdo – ou a fonte da preferência –, constituem as três condições fundamentais à democracia. Promover espaços que contribuam para discussões e deliberações, representam o avanço democrático dos governos que compartilham deste regime político. No Brasil, segundo Flores & Misoczky (2008), a participação social surgiu como uma maneira de garantir práticas mais igualitárias, sugerindo uma mudança qualitativa na gestão. Este processo foi decorrente das mudanças ocorridas no país, após a instalação da democracia. A sociedade civil passou por um período de transformações e foram criados espaços de interação que configuraram uma sociedade mais ativa e organizada. A descentralização e a criação de mecanismos participativos também são reivindicações 197 características de um processo de democratização, segundo Tatagiba (2004), mesmo que entre a sociedade civil e o governo exista uma igualdade numérica, essa igualdade não é suficiente para garantir o equilíbrio no processo decisório. Ainda segundo a autora, as instituições civis também se apropriam das regras “não escritas” do jogo de negociação e muitas vezes ocupam vacâncias ou acentos de câmaras técnicas na perspectiva de garantir visibilidade às suas ações e não por que acreditam no sistema. Segundo Bobbio (1986), Os estados tornaram-se cada vez maiores e sempre mais populosos, e neles nenhum cidadão está em condições de conhecer todos os demais, os costumes não se tornaram simples, tanto que os problemas se multiplicaram e as discussões são cada dia mais espinhosas, as desigualdades de fortunas ao invés de diminuir tornaram-se, nos estados que se proclamam democráticos (embora não no sentido rousseauniano da palavra), cada vez maiores e insultantes. O Espaço de participação comunitária passa então a corresponder ao ideário que habita os projetos e ações coletivas. Existe “alguém” que estabelece nos cronogramas de execução dos projetos governamentais que a participação social será contemplada apenas em audiências publicas ou conferencias ou reuniões comunitárias pontuais, afinal, como justificativa de muitos, as ações públicas tem prazos definidos e orçamento limitado. Em muitos desses casos o processo de mobilização comunitária baseia-se no uso de ferramentas e ações da comunicação social, que pela mesma justificativa do orçamento limitado, muitas vezes, elabora peças únicas para distribuição em grande escala, sem respeito as especificidades locais ou mesmo a escolaridade e o tempo adequado à realização de reuniões e eventos comunitários. Para Toro (1986) , mobilizar é convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum sob uma interpretação e um sentido também compartilhados. Percebam que aqui a convocação das vontades comunitárias não se esgotam apenas na frequência de eventos públicos. Já vi casos absurdos em que acentos de plenárias e outras reuniões integrantes do cronograma de participação de ações públicas governamentais, foram ocupados por pessoas mobilizadas pelo almoço que seria distribuído ao final ou por crianças liberadas da sala de aula de uma escola pública vizinha ao lugar do evento. Ora qual a legitimidade de uma lista de presença ou de inscrição completamente preenchida se não 198 houver os questionamentos e olhos vigilantes das entidades representativas, dos sindicatos, das organizações não governamentais, dos movimentos sociais, das associações de moradores ou associações de produtores rurais? Ao realizar, por exemplo, uma audiência pública numa pequena comunidade rural no mesmo dia e horário em que ocorre a feira semanal, e tentar garantir presença oferecendo almoço ou musica, nos remete a política de pão e circo tão conceitualmente criticada. Convocar a vontade de comer das pessoas em nada pode contribuir para o verdadeiro processo de mobilização comunitária que leva à participação social de homens e mulheres livres. Sem dúvida existe uma crise de representação, seja pela legitimidade daqueles que ocupam os espaços de decisão em nome do povo, pelo interesse e valores de pessoas cansadas do histórico de promessas não cumpridas ou pelos que não mais possuem confiança nas ações públicas. Falamos, lutamos e tentamos construir uma efetiva participação social, todavia como mobilizar uma comunidade que ainda enfrenta como grande desafio a busca pela superação da baixa escolaridade, da falta de recursos e de infraestrutura até mesmo para os deslocamentos e alimentação? A participação é um exercício de cidadania que pressupõe uma familiarização com os espaços deliberativos, a iniciativa e capacidade de intervenção, falar em publico, dominar a linguagem utilizada nas instâncias formais. Tudo isso representa um entrave para pessoas que não estão habituadas e que acabam ficando intimidadas pelo ambiente de assembleias ou audiências públicas, gerando muitas vezes o esvaziamento e o descrédito dos espaços de participação, tanto por parte delas, quanto pelas instituições que ainda não se apropriaram efetivamente do conceito de participação social. É necessário o uso de uma linguagem acessível privilegiando o repasse de informações locais a partir da oralidade, uma metodologia inclusiva e participativa para que os letrados e os não letrados detentores de grande conhecimento local possam contribuir de forma igualitária, e para atingir esse objetivo é preciso dispor tempo para formação de consenso voltados para o desenho, implantação e aprovação de políticas públicas participativas. A temporalidade das políticas públicas não coincide com o tempo de familiarização das populações com o tema a ser discutido ou ao seu devido empoderamento para uma consciente tomada de decisões coletiva. É dessa forma, 199 crucial que as políticas publicas atentem para a necessidade de respeito ao tempo das comunidades incluídas nos planos, programas, projetos e ações governamentais. Para que haja participação é preciso que haja conhecimento do diagnóstico, ciência dos problemas, e isso não acontecem se não houver mapeamento e contato com atores estratégicos, ou se não houver exploração de campo em companhia de moradores locais. Segundo, Jacobi (2004), “...não basta assegurar legalmente à população o direito de participar da gestão, estabelecendo-se conselhos, audiências publicas, fóruns, procedimentos e praticas. O desinteresse e a frequente apatia da população com relação à participação são generalizados, resultado do pequeno desenvolvimento de sua cidadania e do descrédito nos políticos e nas instituições.” (JACOBI, 2004 p.277) Para Habermas (2003) todos os cidadãos podem ter oportunidade de expressão. Ele ainda aponta para a necessidade de se garantir aos cidadãos direitos de comunicação e direitos de participação política visando, inclusive, a própria legitimidade do processo legislativo, explicando que na medida em que os direitos de comunicação e de participação política são constitutivos para um processo de legislação eficiente do ponto de vista da legitimação social, esses direitos não podem ser tidos como os de entes jurídicos privados e isolados: eles têm que ser apreendidos no enfoque de participantes orientados pelo entendimento, que se encontram numa prática de entendimento. Nesse sentido, só será legítimo “aquilo em torno do qual os participantes da deliberação livre podem unir-se por si mesmos, sem depender de ninguém para tradução do discurso”. Muitos autores a exemplo de Tatagiba (2004), Dagnino (2004), Nobre (2004) veem o processo de descentralização de muitas políticas publicas muito mais vinculadas ao processo neoliberal de esvaziamento das responsabilidades do Estado que pelo empoderamento comunitário. De acordo com Teixeira (1997), a participação como controle público é uma das principais dimensões do processo de participação social, segundo este autor: “A participação é um instrumento de controle do Estado pela sociedade. Esse entendimento de controle público tem dois aspectos básicos: o primeiro corresponde a prestação de contas conforme parâmetros estabelecidos socialmente em espaços 200 públicos próprios; o segundo, consiste na responsabilização dos agentes políticos pelos atos praticados em nome da sociedade, conforme os procedimentos estabelecidos nas leis e padrões éticos vigentes.” Cabe destacar que todo esforço por parte dos técnicos de governo, de estudiosos sobre a temática participação ou de atores estratégicos da sociedade civil comprometidos com o processo de controle social somente será frutífero se alcançarem o estabelecimento de pactos de compromisso social alcançados a partir das relações de confiança. Sei o quanto pode ser difícil expressar conceitualmente e metodologicamente ações que derivem nestes princípios, todavia como destacado em Gambetta (1988), as relações de confiança demandam tempo para serem construídas, e afirma que, confiança não é pré-condição para que exista cooperação, e sim é resultado dela, pois baseada em experiências anteriores de cooperação é que a confiança vai sendo construída e fortalecida, chegando a propiciar o estabelecimento de um compromisso, aqui entendido como um termo usado para fazer alusão a qualquer tipo de acordo no qual as partes assumem obrigações. Portanto, pode-se considerar que um compromisso é como um contrato não escrito, E estando assim compreendido que não é possível estabelecer processos de participação social onde não houve, previamente, a construção de uma relação de confiança, por conseguinte, também não poderá ser firmado, o tão esperado compromisso social. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, N. O futuro da democracia: uma defesa da regra do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. DAGNINO, E. Sociedade Civil, Espaços Públicos e a Construção Democrática no Brasil: Limites e Possibilidades. In: SANTOS, M.E. (org). Dinâmica das Organizações. Salvador, GRH/UFBA. 2004. DAHL, R. Democratização e oposição pública. In: Poliarquia: participação e oposição. São Paulo: USP, 2005. 201 FLORES, R.K. MISOCZKY. M.C. Participação no gerenciamento de bacia hidrográfica: o caso do Comitê Lago Guaíba, Rev. Adm. Pública vol.42 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2008 HELD, David. Democracy and the global order: From the modern state to cosmopolitan governance. London: Blackwell Publishers. 1995 GAMBETTA, D.T. : Making and Breaking Cooperative Relations. Editora Basil Blackwell, 1988 Disponivel em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_nlinks&ref=5121533&pid=S16765648200300010000600010&lng=en GAVENTA, J. Towards participatory governance: assessing he transformative possibilities in: S. 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Sociedade Civil e Espaços Públicos do Brasil. São Paulo: Paz e Terra. 361p 2008. 202 TEIXEIRA, E.C. As dimensões da participação cidadã. Cadernos CRH, Salvador, p.179-209, jan./dez. 1997. Disponível em: < http://www.cadernocrh .ufba.br/viewarticle.php?id=198> Acesso em: 16 ago. 2010. TORO, J.B.A. WERNWCK N. M. D. Mobilização social: um modo de construir a democracia e a participação, São Paulo. Ed. Paulinus, 1986 202 ORÇAMENTO PÚBLICO NO ESTADO DA BAHIA. CAMINHO PARA UMA ECONOMIA FORTALECIDA? Jerisnaldo Matos Lopes 1 RESUMO Bahia, a terra do descobrimento e berço da economia Brasileira durante os três primeiros séculos e hoje esquecida. A busca constante em entender como o dinheiro público é investido, tornou-se um desafio, pelo fato de que há uma previsão na Lei Orçamentária sobre o que, o quanto, e como esta previsto para investimentos, e na realidade acontece outra coisa na execução orçamentaria, tornando uma grande falácia o Orçamento Público Estadual. Tratamos aqui dos conceitos de orçamento público, sua origem, e as Leis que as fundamentam. É relatado sobre a fonte da economia baiana, a falta de equidade na distribuição de investimentos nos municípios, os instrumentos de planejamento do orçamento público, princípios orçamentários, o PPA - Plano Plurianual da Bahia 2012 – 2015, a LOA Leia Orçamentária Anua da Bahia - Orçamentos dos anos de 2011, 2012, 2013, 2014, e por fim falamos sobre os gastos público do Estado da Bahia. PALAVRAS CHAVES: Bahia, Orçamento Público, Economia. ABSTRACT Bahia, the land of discovery and cradle of the Brazilian economy during the first three centuries and today forgotten. The constant search to understand how public money is invested, it became a challenge, because there is a provision in the Budget Act on what, how much, and how this investment planned for, and in fact something else happens in the execution budget, making a great fallacy Public State Budget. We treat here the concepts of public budget their origin, and the Laws which they are based. It is reported about the source of the Bahian economy, the lack of fairness in the distribution of investments in the municipalities, the planning instruments of the public budget, budgeting principles, the PPA Bahia Multiyear Plan 2012 - 2015, LOA - Read Budget Anua Bahia - Budgets for the years 2011, 2012, 2013, 2014, and finally talk about the public spending of the state of Bahia. KEY WORDS: Bahia, Public Budget, Economy. 1 Doutorando em Desenvolvimento Regional e Urbano; Mestre com Linha de Pesquisa em Ética e Gestão; Pós-Graduado em Gestão de Pessoas; MKT; Metodologia; ISO 9000; Bacharel em Administração de Empresas com Habilitação em Marketing; Licenciado em Pedagogia; [email protected]; Currículo ao CNPq: http://lattes.cnpq.br/5299026831471496 203 O Estado da Bahia possui 417 municípios, com uma extensão territorial de 564. 733,177 km² 2, como uma população estimada em 2013 de 15.044.127 3 habitantes, segunda a Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia - SEI o Produto Interno Bruto PIB baiano totalizou R$ 159,9 bilhões em 20114, com um PIB per capita R$11,340,00, com um Índice de Desenvolvimento Humano - IDH em 2010 é de 0,660 5, e com um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal - IDHM Bahia está composto por 0,663 do IDHM Renda; 0,783 do IDHM Longevidade; e 0,555 do IDHM Educação. Os do Brasil são 0,739 (Renda), 0,816 (Longevidade) e 0,637 (Educação) 6. A economia baiana esta dividia em setor primário: agricultura, pecuária, extrativismo; em setor secundário: indústria, energia; e setor terciário. As regiões econômicas são: Região Metropolitana de Salvador; Região Extremo Sul; Região Oeste; Região Serra Geral; Região Litoral Norte; Região Sudoeste; Região Litoral Sul - divididas em Subárea Cacaueira, e Subárea Baixo Sul; Região Médio São Francisco; Região Baixo Médio São Francisco; Região Irecê; Região Chapada Diamantina; Região Recôncavo Sul; Região Piemonte da Diamantina; Região Paraguaçu; Região Nordeste - com o Território do Sisal 7. Essa contextualização sobre o Estado da Bahia foi necessária, para entendermos como a emancipação criação de cidades torna mais difícil a equidade na distribuição orçamentária estadual. Segundo a SEI, a Evolução territorial e administrativa – Bahia – 1534 - 2010: 2 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Área Territorial Oficial - Consulta por Unidade da Federação. Arquivado do original em 9 de setembro de 2013. Em 23/12/2013 ás 14:53 h. 3 Estimativas do IBGE para 1º de julho de 2013. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 4 http://www.sei.ba.gov.br/images/pib/pdf/estadual/anual/relpib_estadual_2011.pdf 5 http://www.pnud.org.br/arquivos/ranking-idhm-2010-uf.pdf 6 http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/bahia-ocupa-22o-posicao-em-idh-nopais/?cHash=375becb6e44938a35ef07a1393d724da. Em 23/12/2013 ás 14:53 h. 7 http://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_da_Bahia 204 Do total dos 417 municípios, iremos utilizar uma amostras dos vinte municípios mais populosos, e dos vinte municípios com o maior PIB da Bahia: Posição Município População Posição Município PIB 1 Salvador 2 883 672 1 Salvador 38 819 520 2 Feira de Santana 606 139 2 Camaçari 12 313 916 3 Vitória da Conquista 336 987 3 Feira de Santana 8 270 807 4 Camaçari 275 575 4 Candeias 4 705 021 5 Itabuna 218 124 5 Simões Filho 3 943 664 6 Juazeiro 214 748 6 Vitória da Conquista 3 836 498 7 Ilhéus 184 616 7 3 575 292 8 Lauro de Freitas 184 383 8 São Francisco do Conde Lauro de Freitas 9 Jequié 161 391 9 Itabuna 2 969 427 10 Teixeira de Freitas 153 385 10 2 773 656 11 Alagoinhas 152 570 11 Luís Eduardo Magalhães Dias d'Ávila 12 Barreiras 150 896 12 Ilhéus 2 315 540 13 Porto Seguro 141 006 13 Paulo Afonso 2 287 486 14 Simões Filho 129 964 14 Barreiras 2 133 238 15 Paulo Afonso 117 377 15 Juazeiro 1 993 417 16 Eunápolis 110 803 16 Jequié 1 843 137 17 99 407 17 Alagoinhas 1 803 159 18 Santo Antônio de Jesus Valença 96 287 18 Teixeira de Freitas 1 391 247 19 Candeias 89 419 19 Eunápolis 1 383 586 20 Guanambi 84 645 20 Pojuca 1 234 027 Fonte: Censo Populacional 2013 - IBGE Fonte: PIB 2011 - IBGE 3 469 181 2 516 548 205 A Falta de equidade na distribuição de investimentos é tão clara como a arrecadação do PIB e o crescimento da população nas regiões mais desenvolvidas. Para tratarmos desse assunto, desenvolveremos um diálogo sobre a Atividade Financeira do Estado, ou como é conhecida Orçamento Público. A atividade financeira do Estado, esta vinculado as receitas e despesas do Estado previsto no orçamento público, e essa atividade financeira do Estado irá buscar os meios necessários para a obtenção das receitas para fazer frente as despesas dos gastos públicos, que é exercida pela a Administração Pública formada por seus entes federados (União, Estado, Municípios, e poderíamos acrescentar empresas públicas). Um objeto interessante de análise, é como o Estado cria formas meios ferramentas estratégias para arrecadar mais, e como Ele inventa meios de gastar cada vez mais. Vamos iniciar falando do Brasil e posterior da Bahia. O Brasil é a 12ª maior carga tributária do mundo. Segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário – IBPT, publicado quinta-feira, 26 de setembro de 2013, às 06:00 h, por José Boas, "em 2009 a quantidade de impostos paga pelos brasileiros chegou à marca de 34,5% do PIB e em 2012 avançou para a marca dos 36,02% o que quer dizer, dos R$ 4,4 trilhões produzidos pelo Brasil, aproximadamente R$ 1,6 trilhão foi parar nas mãos de prefeituras, estados e União em forma de arrecadação tributária 8”. Observe que o principio de arrecadação é o mesmo dos outros países (tributos), porém o serviços públicos são oferecido a toda a população com qualidade, é só verificar o modelo de gestão dos países desenvolvidos. Observe que a carga tributária tem elevado a arrecadação a números astronômicos no Brasil. É uma arrecadação de primeiro mundo, como uma oferta de serviço de terceiro mundo. Em leituras pressupostas e por ser o Brasil uma economia neocapitalista, cria-se o consenso que o Estado, através da administração pública e seus entes federados, utiliza três formas para manter a atividade financeira: a primeira é através de intervenções econômicas; segundo o uso e exercício no poder de fiscalização (polícia); e terceira da prestação de serviços públicos. A atividade financeira do Estado, tem ou deveria ter a finalidade de atender aos interesses ou necessidades do povo. Para que o Estado atenda a essas 8 Fonte: https://www.ibpt.org.br/noticia/1249/Brasil-tem-a-12a-maior-carga-tributaria-do-mundo-e-opior-retorno-a-populacao, acessado em 03/01/2014, às 22:32 h. 206 necessidades, precisa arrecadar recursos e aplicar os recursos nas despesas públicas. Despesas essa que deveria atender ao interesse público. Só fazendo uma ressalta: 1º. A atividade financeira do Estado, que esta centrado no meio acadêmico na Administração Financeira e Orçamentária - AFO, é uma matéria estudada dentro do Direito Financeiro, porém abordado em outras instancias como demanda agregada que vem ao encontro da ideias de Keynes na aquisição de bens e serviços que gera tributos produzido pelo Produto Interno Bruto - PIB; 2º. A atividade financeira do Estado é uma atividade meio, ou seja não consiste em um fim em se mesmo. Para que o Estado atinja ou proporcione o atendimento das necessidades públicas, Ele, precisa de atividades meio; 3º. A atividade financeira do Estado, ao arrecadar os recursos tem por obrigação oferecer bens e serviços a população, que por sua vez, já é competência das atividades fim do Estado, seja na produção de bens ou serviços. As formas mais comuns utilizados no processo de arrecadação são os tributos ou impostos. E essa arrecadação de receitas, e a aplicação nas despesas dos gatos público, estão prevista no Orçamento Público (que explicita a fonte dos recursos e aplicação desses recursos). O orçamento público em sua tese, prevê as receitas que serão arrecadas e fixa as despesas que serão executada em período de um ano do exercício, feito pautado em um planejamento com seus instrumentos orçamentários (PPA - Plano Plurianual; LDO - Lei de Diretrizes Orçamentária; LOA - Leio Orçamentária Anual), que trataremos cada uma delas de forma individual mais a frente. Esses instrumentos de planejamento governamental, orienta e obriga o orçamento ser compatível com esses instrumentos conforme orienta a contabilidade pública. Todos esses instrumentos de planejamento, estão previstos na Constituição Federal - CF, que funciona da seguinte forma: Figura 01: Instrumentos de Planejamento previsto pela CF Fonte: Figura criada pelo autor 207 OS INSTRUMENTOS DE PLANEJAMENTO PPA - Plano Plurianual, é o planejamento de médio prazo e onde são definida os grandes investimentos, feito a cada 04 anos, que é ajustado anualmente pela LOA Lei Orçamentária Anual, de acordo com as necessidades e metas do governo para o ano seguinte. Previsto no Artigo 165 da Constituição Federal, regulamentado pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso pelo Decreto 2.829, de 29 de outubro de 1998, que estabelece em seu Artigo 1º temporalidade - 04 (quatro) anos; Artigo 2º estrutura de planejamento - objetivo, órgão responsável, valor global, prazo de conclusão, fonte de financiamento, indicador que quantifique a situação que o programa tenha por fim modificar, metas correspondentes aos bens e serviços necessários para atingir o objetivo, ações não integrantes do Orçamento necessárias à consecução do objetivo, regionalização das metas por Estado. A importância desse decreto percebe-se no Artigo 3º que indica que como o passar do tempo a Administração Pública deverá aperfeiçoar esse instrumento, visando a eficiência em seu cumprimento. Que é reforçado no Artigo 4º que indica que será adotado em cada Programa, modelo de gerenciamento. A grande dificuldade do PPA e pela baixa qualificação do Chefe do Executivo, e seus Secretários Municipais, em sua grande maioria dos municípios da Bahia, esta no Artigo 5º, 6º, 7º e 8º, onde fala que será realizado avaliação anual dos resultados, e avaliação física e financeira dos programas e dos projetos, gestão da qualidade medindo o grau de satisfação da sociedade quanto aos bens e serviços ofertados, a descentralização e a integração do Estado com os Municípios e a formação de parcerias com setor privado. A falácia esta, pelo fato de boa parte dos Estados e Municípios, fazerem de seu PPA mais uma forma de cumprir a Lei, no papel e não de fato, do que um real instrumento de planejamento. E vale lembra que os Órgãos que deveriam fiscalizar (Legislativo, Tribunal de Contas, Ministério Público), não o faz. LDO - Lei de Diretrizes Orçamentária, é a LDO que informa quais as despesas mais importante que o Governo deve fazer a cada ano, define quais as prioridades que devem estar no orçamento anual, traz uma serie de regras para elaborar, organizar, e executar o orçamento, além de informar de quanto será o reajuste salarial, e de quanto o governo precisar poupar todo ano para pagar suas dividas, eventuais 208 alterações na cobrança de tributos e regras temporárias caso o orçamento não seja aprovadas pelo Legislativo, a LDO define as regras de investimentos das Autarquias ou empresas públicas. Segundo o Artigo 165 parágrafo 2º, que cria as diretrizes orçamentárias, onde impõe: as prioridades e metas da administração, a organização e estrutura dos orçamentos, as diretrizes gerais para a elaboração dos orçamentos e suas alterações, as disposições relativas à dívida pública, as disposições relativas às despesas com pessoal e encargos sociais, a política de aplicação dos recursos das agências financeiras oficiais de fomento (no caso dos Estados e Municípios, as Autarquias), as disposições sobre alterações na legislação tributária para o exercício correspondente, as disposições de caráter supletivo sobre execução dos orçamentos. LOA - Leio Orçamentária Anual, elaborado pelo Executivo, traz os gastos do Governo que estão organizados por assuntos ou áreas de governo e cada uma dessas áreas tem seus programas e ações orçamentárias com a sua programação de gastos. Mas a LOA também prevê a arrecadação para custear as despesas, essa arrecadação vem dos tributos que são divididos de três formas: taxas, contribuições e impostos. Os impostos se dividem em dois tipos: diretos (pagos diretos pelos contribuintes) e indiretos (estão embutidos em todos os produtos que compramos), a LOA ou Orçamento Pública deve prevê as necessidades e problemas da população e com que recursos eles deverão ser revolvidos. PLANEJAMENTO ORÇAMENTO PÚBLICO PPA -Médio prazo; -Defini as grandes prioridades. Fonte: Figura criada pelo autor LDO -Informa quais as despesas mais importantes o Governo deve fazer; -Prioridades do Orçamento Anual; -Regras de elaboração, organização e execução do orçamento. LOA -Curto prazo; -Gastos organizados por assunto ou área do governo; -Prevê a arrecadação para custear as despesas. 209 PRINCÍPIOS ORÇAMENTÁRIOS O que norteia os instrumentos de planejamento governamental são os Princípios Orçamentários previstos na Lei 4.320 de 17 de marco de 1964 e na Constituição Federal - CF de 1988 artigo 165 inciso III, que são regras orientadoras tanto para o Executivo quanto para o Legislativo. Esses princípios são construções doutrinarias que podem estar escritos ou não, porém seguidos como forma de busca pela eficácia de sua aplicação. Temos então: Princípio da Anualidade - com validade de 01 (um) ano no exercício financeiro, sendo que todos os anos deverão ser enviado ao Legislativo um novo orçamento para revisão e aprovação/autorização, que é transformada em Lei. Imagine a seguinte situação: se o orçamento fosse menor que um ano, poderia engessar o Executivo em suas ações, porém não poderia ser maior que um ano, pois se tornaria inviável o acompanhamento do Legislativo na execução orçamentária. Existe exceções nesse princípio com forme a Constituição Federal no artigo 167; Princípio da Clareza - que deve ser de fácil entendimento; Princípio do Equilíbrio - as despesas deverá ser compatível com os valores arrecadados, e essa arrecadação passa a ser o equilíbrio para a execução orçamentária, ou seja, as despeças; Princípio da Exclusividade - esse princípio não esta previsto na Lei 4.320/64 mas previsto na Constituição Federal em seu artigo 165. O que ser observa nas literaturas, é que esse princípio não tem como se prevê no orçamento, exemplo disso é quando surge uma "nova" tecnologia (aqui falaremos) para o tratamento de residos sólidos e pertence exclusivamente aquela empresa, e o Chefe do Executivo julga ser a melhor para aquela situação. Isso não tem como prevê no orçamento. Porém, é vedado aos órgãos públicos manter ou incluir na Lei Orçamentária qualquer coisa que não seja receitas ou despesas. Evitando a inclusão de interesses partidários a Lei Orçamentária, evitando barganhas para a aprovação do Orçamento Público. Esse princípio impede que se trate de qualquer outra coisa, e sim exclusivamente o orçamento. Apenas há duas exceções prevista no artigo 165 § 8º (créditos suplementares e contratação de operações de crédito); 210 Princípio da Legalidade - a Constituição Federal impõe limites legais às receitas e aos gastos, conforme no artigo 150 da CF; Princípio da não vinculação de receitas - esse talvez seja um princípio de letra morta. O que mais se vê é a vinculação de receitas arrecadas ligadas a áreas especificas (educação, saúde, previdência, assistência, etc.), e esse princípio enfraqueceu quando o então Presidente da Republica Itamar Franco, criou a Emenda Constitucional de Revisão nº 1, de 1994; Princípio da Publicidade - que obriga a ampla publicidade nas receitas e despesas, mas esse princípio só começou a funcionar com a Lei de Responsabilidade Fiscal, ou a Lei complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 com amparo no Capítulo II do Título VI da Constituição Federal; Princípio da Unidade Orçamentária - é que o Orçamento Público deve estar concentrada em um único compendio/documento, segundo princípios de uniformidade conforme a art. 2º da Lei nº 4.320/64 "[...] evidenciando a política econômico-financeira e o programa de trabalho do Governo [...]". Observe que por força da Constituição Federal, orçamento tem três outros suborçamentos (orçamento fiscal, orçamento da seguridade social, e orçamento de investimentos das empresas estatais), alguns teóricos entendem que o principio da unidade foi transformado e pode ser chamado de Princípio da Totalidade; Princípio da Universalidade - todas as receitas arrecadas e despesas, deverão esta previstas na Lei Orçamentária revisada e aprovada pelo Legislativo, porém a alguns engodos em relação a esse princípio que são os títulos das dividas públicas que em sua grande maioria acaba sendo bem superior ao previstos; Princípio do Orçamento Bruto - esse princípio surgiu com o Lei nº 4.536 de 28 de janeiro de 1922, que era conhecida como o Código de Contabilidade da União. Mas o princípio do orçamento bruto, em síntese quer dizer que todas as receitas e despesas devem ser descritas em valores brutos, como o próprio nome já nos indica. 211 PPA - Plano Plurianual da Bahia 2012 – 2015 Como já foi falado anteriormente, o PPA é o planejamento de curto prazo é onde são definida os grandes investimentos, feito a cada 04 anos, que é ajustado anualmente pela LOA - Lei Orçamentária Anual, de acordo com as necessidades e metas do governo para o ano seguinte. Na pesquisa realizada, não houve meios formas, e uma certa dificuldade para que a Secretaria Estadual de Planejamento encaminhasse o PPA de 2008 - 2011, para que fizéssemos um comparativo com o PPA de 2012 - 2015. Nas fontes pesquisadas do PPA 2008 - 2011, como internet, artigos, jornais, etc., não mostrava os resultados que desejávamos, como: total de arrecadação previsto, despesas de pessoal, investimentos. No Plano Plurianual - PPA de 2012 - 2015 Lei Estadual nº 12.504 de 29 de dezembro de 2011, foi publicado a seguinte informação: total de recursos do PPA R$ 143.064.653.831,00 (cento e quarenta e três bilhões, sessenta e quatro milhões, seiscentos e cinquenta e três mil oitocentos e trinta e hum reias), sendo que desse montante R$ 56.753.610.721,00 (cinquenta e seis bilhões, setecentos e cinquenta e três milhões, seiscentos e dez mil, setecentos e vinte e hum reias) é para cobrir Compromissos do PPA, e R$ 56.141.176.176,00 (cinquenta e seis bilhões, cento e quarenta e hum milhões, cento e setenta e seis mil, cento e setenta e seis reais) é para Manutenção Administrativa, e R$ 30.169.866.934,00 (trinta bilhões, sento e sessenta e nove milhões, oitocentos e sessenta e seis mil, novecentos e trinta e quatro reais) é para Operações Especiais9. Vamos entender melhor, isso. Observe que R$ 56.753.610.721,00 é para a manutenção dos Programas das Secretarias já existentes que corresponde a 39,67% do valor total previsto para os 04 anos, e R$ 56.141.176.176,00 com despesas de pessoal que corresponde a 39,24% do valor previsto para os 04 anos, sobrando assim para investimentos ou o que ele chama de operações especiais R$ 30.169.866.934,00 que corresponde a 21,09% do valor previsto para os 04 anos. Divida o que foi previsto para investimentos com o total de cidades da Bahia (417), que você irá entender o porquê muitos municípios permanecem do mesmo jeito ou pior desde a sua criação 9 http://www.seplan.ba.gov.br/wp-content/uploads/2013/01/20120223_175015_PARTE_09-OutrosDemonstrativos.pdf, página 408. 212 emancipação, e com isso não cressem e desenvolvem. Demonstraremos abaixo, como isso é verificável na Lei Orçamentária Anual. LEIA ORÇAMENTÁRIA ANUA - LOA DA BAHIA - ORÇAMENTOS DOS ANOS DE 2011, 2012, 2013, 2014. A LOA traz os gastos do Governo que estão organizados por assuntos ou áreas de governo e cada uma dessas áreas tem seus programas e ações orçamentárias com a sua programação de gastos, a LOA também prevê a arrecadação para custear as despesas. Observemos a Lei Estadual Nº 12.041 de 29 de dezembro de 2010, que estima a receita e fixa a despesa do Estado para o exercício financeiro de 2011: Artigo 2º - A receita total é estimada em R$ 26.249.638.817,00 (vinte e seis bilhões, duzentos e quarenta e nove milhões, seiscentos e trinta e oito mil e oitocentos e dezessete reais). Artigo 4º - A despesa total, no mesmo valor da receita, é fixada em R$ 26.249.638.817,00 (vinte e seis bilhões, duzentos e quarenta e nove milhões, seiscentos e trinta e oito mil e oitocentos e dezessete reais), sendo: I - no Orçamento Fiscal, R$ 18.950.402.186,00 (dezoito bilhões, novecentos e cinquenta milhões, quatrocentos e dois mil e cento e oitenta e seis reais); II - no Orçamento da Seguridade Social, R$ 7.299.236.631,00 (sete bilhões, duzentos e noventa e nove milhões, duzentos e trinta e seis mil e seiscentos e trinta e um reais). Lei Estadual nº 12.503 de 29 de dezembro de 2011 da Bahia, que estima a receita e fixa a despesa do Estado para o exercício financeiro de 2012: Artigo 2º - A receita total é estimada em R$28.950.772.269,00 (vinte e oito bilhões, novecentos e cinquenta milhões, setecentos e setenta e dois mil e duzentos e sessenta e nove reais). Artigo 4º - A despesa total, no mesmo valor da receita, é fixada em R$28.950.772.269,00 (vinte e oito bilhões, novecentos e cinquenta milhões, setecentos e setenta e dois mil e duzentos e sessenta e nove reais), sendo: I - no Orçamento Fiscal, R$ 20.651.734.776,00 (vinte bilhões, seiscentos e cinquenta e um milhões, setecentos e trinta e quatro mil e setecentos e setenta e seis reais); II - no Orçamento da Seguridade Social R$ 8.299.037.493,00 (oito bilhões, duzentos e noventa e nove milhões, trinta e sete mil e quatrocentos e noventa e três reais). 213 Lei Estadual nº 12.612 de 28 de dezembro de 2012, que estima a receita e fixa a despesa do Estado para o exercício financeiro de 2013: Artigo 2º - A receita total é estimada em R$ 34.581.042.184,00 (trinta e quatro bilhões, quinhentos e oitenta e um milhões, quarenta e dois mil, cento e oitenta e quatro reais). Artigo 4º - A despesa total, no mesmo valor da receita, é fixada em R$ 34.581.042.184,00 (trinta e quatro bilhões, quinhentos e oitenta e um milhões, quarenta e dois mil, cento e oitenta e quatro reais), sendo: I - no Orçamento Fiscal, R$ 24.623.038.238,00 (vinte e quatro bilhões, seiscentos e vinte e três milhões, trinta e oito mil, duzentos e trinta e oito reais); II - no Orçamento da Seguridade Social, R$ 9.958.003.946,00 (nove bilhões, novecentos e cinquenta e oito milhões, três mil novecentos e quarenta e seis reais). Até a o final de 2013, o Legislativo não havia votado o Orçamento para 2014, mas utilizaremos como base a "Proposta Orçamentária 2014" enviada para a Camará Estadual. A receita Total estimada para 2014, é de R$ 36.083.945.669,00 (Trinta e seis Bilhões, oitenta e três milhões, novecentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e sessenta e nove reais). E a despesas estimada é de R$ 36.083.945.669,00 (Trinta e seis Bilhões, oitenta e três milhões, novecentos e quarenta e cinco mil, seiscentos e sessenta e nove reais), sendo: no Orçamento Fiscal, R$ 25.695.377.710,00 (vinte e cinco bilhões, seiscentos e noventa e cinco milhões, trezentos e setenta e sete mil setecentos e dez reais); e no Orçamento da Seguridade Social, R$ 10.388.567.959,00 (dez bilhões, trezentos e oitenta e oito milhões, quinhentos e sessenta e sete mil, novecentos e cinquenta e nove reais). Se pegarmos as Leis mencionadas acima, com seus anexo, observaremos que a forma de aplicação distribuição dos recursos, é feita no PPA, porém não fica claro quais tipos de investimentos serão feitos, qual foi o coeficiente de cálculo para projetar o PPA. Nos "Anexos Complementares" do PPA 2012 - 2015, das páginas 425 à 456 trata de Indicadores por Programa; Mapa dos Municípios da Bahia por Território de Identidade; Tabelas de Informações sobre os Municípios; e Gráficos com Distribuição dos Recursos. Porém ao analisarmos, não percebemos o que se propõem esse tópico no PPA, e vimos mais uma vez a falácia dos Gestores Públicos. Faremos uma corelação entre o orçamento público, gastos público e investimentos público nas considerações finais. 214 GASTOS PÚBLICO Segundo Keynes "para o governo, o mais importante não é realizar coisas que os indivíduos já estão fazendo, é fazê-las um pouco melhor ou um pouco pior, mas fazer aquelas coisas que atualmente deixam de ser feitas 10". Gastos Público, ou como é chamado normalmente de despesas públicas, nos traz entendimentos em alguns aspectos que estão previstos na Lei 4.320 de 17 de marco de 1964. A referida Lei federal, aborda questões de despesas orçamentárias e extraorçamentárias, falada anteriormente quando abordamos sobre PPA, LDO e LOA. As despesa orçamentária, prevista na LOA com seus créditos adicionais ou suplementares, ou até mesmo despesa extraorçamentária, que não contam na LOA, devem ser fiscalizadas e acompanhadas pelos órgãos competentes, inclusive Organizações Não Governamentais ou Conselhos. Todas as despesas públicas deverão ser previsto na lei orçamentária anual, e só através da previsão das receitas que deverão ser feito as despesas. Princípio fácil de qualquer gestão orçamentária pública. Quando o Governo começa a gastar mais do que arrecada, entra no endividamento, e para cobrir o endividamento, só existe três formas: 1º ou diminui os gastos com custeio de pessoal; 2º aumenta a carga tributária; ou 3º contrai empréstimos. A primeira opção, é de simples competência da Administração do Estado, chefe do Executivo, que independe de aprovação do Legislativo, porém causa mau estar no processo de demissão dos cargos que foram loteados aos partidos. Já as duas outras opções precisam passar por votação na Casa Legislativa. Segundo relatórios emitidos pelo Tribunal de Contas do Estados da Bahia, e reafirmado pela JusBrasil, em 2012 o "Estado da Bahia teve dívida consolidada de R$ 10,4 bilhões para uma receita corrente líquida de R$ 19,2 bilhões 11". Imagine quanto sobra para investir? Nas considerações finais, falaremos sobre formas de fiscalização dos gastos públicos. 10 KEYNES, John Maynard. The end of laissez-faire. Amherst, New York: Prometheus Books, 2004. ISBN 1-59102-268-1 11 http://iaf.jusbrasil.com.br/noticias/3147413/estado-da-bahia-tem-divida-consolidada-de-r-10-4bilhoes-para-uma-receita-corrente-liquida-de-r-19-2-bilhoes, em 07/01/2014 às 20:42 h. 215 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS Se tratarmos de forma mais simplória com a população e perguntamos qual a percepção sobre gastos público, é quase que unanime a associação de gastos público com a corrupção. O que é um grande equivoco. E qual a causa dessa confusão mental? Formação do individuo e a mídia. A mídia, que em sua grande maioria das vezes não promove o conhecimento, mas apenas uma pequena parte da informação, que é sempre tendenciosa. Um segundo aspecto, é a formação do individuo que esta do outro lada como receptor, e não tem a capacidade de criticar o que esta sendo transmitido. É facilmente manipulado, e vira massa de manobra. Mecanismo do Estado, Sociedade Organizada (Conselhos), Sociedade Civil Organizada, Imprensa livre, Partido Políticos, Controle Social, são algumas formas de se criar estruturas para a fiscalização dos gastos públicos na promoção do uso eficiente dos recursos públicos. Quando se cria formas de acompanhamento da execução do orçamento público, o chefe do Executivo e sua equipe de Governo, pensará nas consequências antes de fazer qualquer investimento. E não estamos falando de orçamento participativo, que é um principio do PPA, falado anteriormente. Gestores Público, que ficam fechados e tomam suas decisões sem se submeter a criticas, certamente sofrerão represarias. Um bom exemplo disso é o atual Governo. A Bahia possui quatro Universidades Federais (Universidade Federal da Bahia; Universidade Federal do Recôncavo da Bahia; Universidade Federal do Oeste da Bahia; Universidade Federal do Sul da Bahia - projetada) 12, sem contar as Universidades abertas. Possui quatro Universidades Estaduais (Universidade do Estado da Bahia; Universidade Estadual de Feira de Santana; Universidade Estadual de Santa Cruz; e Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) 13. São dois Institutos Federais, e inúmeras Universidades e Faculdades privadas por toda a Bahia 14. Em pesquisa feita recente mente, e divulgado abertamente, poucas Universidades e Faculdades foram consultadas sobre as prioridades de investimentos nas cidades e regiões no Estado da Bahia, sem contar do baixo investimento nas Universidades Estaduais que geram um efeito de sucateamento. 12 http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_universidades_federais_do_Brasil 13 http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Universidades_estaduais_da_Bahia 14 http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_institui%C3%A7%C3%B5es_de_ensino_superior_da_Ba hia 216 Governos que decidem como investir seus recursos isolado, sem consultar a população intelectual pensante certamente irá deixar de investir, e passará a ter despesas. O que dirá as obras faraônicas do Governo Federal, como por exemplo, a transposição do Rio São Francisco que se arrasta a anos, e que tinha uma previsão orçamentária inicial de R$ 4,8 bilhões, e hoje já aumentou 71% e vai superar R$ 8 bilhões de reais 15". E o que é mais interessante nisso tudo, é que os mesmos que se envolvem em escândalos de desviou de verbas públicas são os mesmos que nomeiam e são nomeados a cargos, para a fiscalizar o próprio Governo. Como não há checagem verificação de decisão, o chefe do Executivo, usa essas nomeação como forma de loteamento do poder para negociar com os Partidos e com os Políticos os cargos. Observe que o papel de fiscalização também é de responsabilidade da Sociedade Organizada, a quem cabe exercer a crítica as decisões do Governo. Não basta cumprir a penas o ritual de esta legalmente escrito no papel, precisar ser verificável, conforme indica no Artigo 165 da Constituição Federal, regulamentado pelo Decreto 2.829 de 29 de outubro de 1998. Talvez um dos agravantes, no contesto de controle, é a própria modernização da Administração Pública. Servidores que tem uma grande dificuldade com o novo e em aprender tecnologias que deixariam mais acessíveis e transparentes as informações que é pública. Partidos e políticos que também não tem interesses que se modernize porque eles usam a ineficiência da maquina pública para atingir suas finalidades, que é a população na dependência de favores para se resolver algo, que em sua grande maiorias das vezes é simples. Façamos uma reflexão breve: depois da redemocratização do Brasil, é difícil de se perceber o planejamento a longo prazo, o país não tem polícias públicas estabelecidas a longo prazo e que sejam contempladas de forma legal dentro de seus orçamentos (parte Federal, parte Estadual, e parte Municipal - que são chamadas de contrapartida), e as políticas públicas que são feitas são eleitoreiras, cria-se conjunturas de políticas para aquilo que da votos, e como o Brasil tem eleição a cada dois anos, nenhum partido quer criar política pública antipopular, por isso a infraestrutura do País fica sempre em segundo plano. E essa falta de planejamento gera um certo tipo de omissão dos órgãos fiscalizadores e da Sociedade Civil Organizada, seja na decisão pela política seja na realização do projeto. 15 Vencido o prazo original em que a transposição do Rio São Francisco deveria estar pronta e funcionando no semiárido nordestino, a obra registrou aumento de R$ 3,4 bilhões - ou 71% - em seus custos em relação à previsão inicial, segundo a mais recente estimativa feita pelo Ministério da Integração Nacional. Desde o início do governo Dilma Rousseff, o custo total da obra pulou de R$ 4,8 bilhões para R$ 8,2 bilhões. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva previa inaugurar a obra em 2010. Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,custo-da-transposicao-do-sao-franciscoaumenta-71-e-vai-superar-r-8-bilhoes,852078,0.htm 217 E não é por falta de recursos, como falamos anteriormente a cada R$ 100,00 que um cidadão ganha, cerca 36,02% fica com o Governo através dos impostos. Agora multiplique isso pelo o total de brasileiro em 2012 que é de 198,7 milhões economicamente ativa, ou pelo número de pessoas vivendo no País que chegou a 201.032.714 (milhões) até a data base de 1 de julho de 2013, que foi publicado no Diário Oficial da União, conforme determinação legal. E só na Bahia são 15.044.127 (milhões) habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (www.ibge.gov.br). Obvio que essa variação deve ser calculada segundo o População em Idade Ativa - PIA; População Economicamente Ativa - PEA, que é classificada em População Ocupada e População Desocupada; População não Economicamente Ativa PNEA 16. REFERÊNCIAS BAHIA. Lei Estadual Nº 12.041 de 29 de dezembro de 2010. Camará Estadual. ______ Lei Estadual nº 12.503 de 29 de dezembro de 2011. ______ Lei Estadual nº 12.612 de 28 de dezembro de 2012. Anuário estatístico da Bahia. / Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. v. 1 (1972 - ). – Salvador: SEI, 2011. 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PALAVRAS CHAVES: Penitenciaria, Leitura, Serviço Social. ABSTRACT Working in a prison is not always viewed favorably by most people. The vision we have of these sites most often mistaken dismissive fully with reality. Have the confidence of domestic and make a project happen and work is not easy, especially when the suggestion of this project comes from the companies that own the bullyng suffer for their literary choices aims to help so other internal also have an interest in reading and have another way to pass idle time you have during incarceration. KEY WORDS: Penitentiary, Reading, Social service. INTRODUÇÃO Neste artigo queremos expor a importância da leitura na formação social do indivíduo, 1 *Artigo produzido a partir dos atendimentos as pacientes da Penitenciaria de Cariacica que resultaram no Projeto Plantei Sementes, brotaram leitores. ** Assistente Social da Saúde da Penitenciária Feminina de Cariacica. *** Estudante do 5º Período de Direito **** Professora de Língua Portuguesa/Inglesa 221 não um sujeito qualquer, mas, o que está momentaneamente impedido de sua liberdade. Vale ressaltar que através da leitura é possível formar cidadãos críticos, uma condição indispensável para o exercício da cidadania, na medida em que torna a pessoa capaz de compreender o significado da sua posição no cenário social e de expressar-se com suas opiniões, tomando seu devido lugar na sociedade e tendo a consciência de todos os seus direitos sabendo lutar por eles. Através da leitura de um texto é possível estabelecer um diálogo entre tudo o que sabemos e aquilo que o texto nos traz de novo, expressando o significado ao que lemos, utilizando assim apropriadamente os recursos argumentativos para sustentarmos nossos pontos de vista. O ato de ler não é adivinhar e nem decifrar as palavras. Ler é ter a habilidade de mudar essas palavras tantas vezes quantas forem necessárias a partir do encontro entre novas informações e opiniões, transcorre a conclusão de que é nos livros que podemos adquirir a habilidade de operar criativamente, um tipo de saber cada vez mais singular na atualidade. MARTINS, (1994) sintetiza de uma forma bem simples e de fácil compreensão o que é ler, sinalizando que este ato não se trata de um aprendizado qualquer, e sim uma conquista de autonomia, que permite a ampliação dos nossos horizontes. O leitor passa a entender melhor o seu universo, rompendo assim as barreiras, deixando a passividade de lado, encarando melhor a face da realidade. Em seu livro MARTINS (1994) cita a autobiografia de Sartre, que mostra uma visão que condiz mais com a realidade, porém não menos atraente sobre a inicialização da leitura, em que nos mostra que ler está para além das letras impressas no papel. Em sua obra nos fala como foram suas primeiras experiências com a leitura, sendo o seu primeiro livro intitulado: “Tribulações de um chinês na China”. [...] transportei-me para um quarto de despejo; aí, empoleirado sobre uma cama de armar, fiz de conta que estava lendo: seguia com os olhos as linhas negras sem saltar uma única e me contava a história em voz alta, tomando o cuidado de pronunciar todas as sílabas (...) fiz com que me surpreendessem _, gritaram admirados e decidiram que era tempo de me ensinar o alfabeto. Fui zeloso como catecúmeno; ia a ponto de dar a mim mesmo aulas particulares; eu montava na minha cama de armar com o Sem família de Hector Malot, que conhecia de cor 222 e, em parte recitando, em parte decifrando, percorri-lhe todas as páginas, uma após outra: quando a última foi virada, eu sabia ler O trabalho numa penitenciária nem sempre é visto de bons olhos pela maioria das pessoas, pois, a visão que se têm desses locais na maioria das vezes equivocada não condiz totalmente com a realidade. Ter a confiança das pacientes e fazer um projeto acontecer e funcionar não é fácil, ainda mais quando a sugestão desse projeto vem das próprias presas que ao sofrerem bullyng pelas suas escolhas literárias se propõe a ajudar para que as outras pacientes também tenham interesse na leitura e tenham outra forma de passar o tempo ocioso que têm durante o cárcere. Está solidamente estabelecido no Serviço Social que as seqüelas da “questão social” se constituem na matéria sobre a qual o exercício profissional vai se realizar. Dada a sua dimensão estrutural, a “questão social” atinge a vida dos sujeitos nas suas requisições pela garantia de direitos civis, sociais, políticos e humanos, remetendo-os à luta pela“cidadania”. O projeto de ação Plantei Sementes, Brotaram Leitores foi elaborado a partir de uma iniciativa de duas ressocializandas juntamente com a Assistente Social da Saúde da Unidade Prisional Feminina de Cariacica que ao observarem a rotina de grande parte das reeducandas da unidade foi percebido a deficiência e até mesmo certo descaso que elas tem com a leitura, o conhecimento, o auto conhecimento e a dificuldade na junção das idéias em relação à sua realidade de vida. Nesse sentido foi proposto a Direção da Unidade a intenção de se resgatar o valor da leitura, como ato de prazer, emancipação social e promoção da cidadania, pois, através da leitura o ser humano consegue se transportar para o desconhecido, explorá-lo, decifrar os sentimentos e emoções que o cercam e acrescentar vida ao sabor da existência. Pode então, vivenciar experiências que propiciem e solidifiquem conhecimentos significativos. Foi observado inclusive, que a rotina vivenciada pelas apenadas ao longo do período em que se encontram reclusas há uma enorme falta de interesse de experimentar novas alternativas de leitura a fim de adquirir outras formas de conhecimento, como também à falta de remissão com o tempo dedicado a leitura acaba diminuindo o interesse. Mostrando a importância do interesse pela diversidade de leituras para agregar diferentes tipos de informações e ampliá-lo através do gosto por esse maravilhoso 223 mundo da leitura, proporcionando uma visão por uma sociedade mais justa e igualitária e que não devemos restringir a percepção da realidade em sua complexidade. Nesse sentido, a abordagem dos conteúdos e a opção metodológica adotada em cada situação consideraram a riqueza e a variedade de experiências, coerentes com a concepção pedagógica. Levando em conta princípios do respeito à diversidade e à pluralidade, o desenvolvimento de capacidades de inferir e argumentar, e ainda, proporcionar atividades de leitura, produção de textos e uso da língua oral e escrita em situações reais de uso. Ao utilizarmos à leitura e interpretações de musicas, tiras humorísticas, cartuns, editoriais de jornais e revistas, narrativas, crônicas, propagandas, parábolas, visualizações de vídeos e filmes com assuntos coerentes e atuais foi extrema a participação das pacientes que mesmo com níveis diferentes de escolaridade, souberam impor suas opiniões e seu aprendizado anterior ao cárcere. A cada será encontro as reeducandas foram desafiadas a observar determinados fatos, a analisar como participam da construção do sentido de diversos tipos de textos e, até mesmo posteriormente, a produzir textos em que se faça um uso consciente dos aspectos discutidos em grupo. Com o passar dos encontros foi observado o interesse das pacientes pelos livros de fatos reais ou de livros cujas histórias foram adaptadas para o cinema, fatos que não acontecia antes, pois, mesmo tendo uma biblioteca ampla e com alguns títulos atualizados o desinteresse e a falta de incentivo eram grandes desmotivadores para realização de ações. A cada encontro observávamos o crescimento do interesse e da procura pelos livros da biblioteca, que são distribuídos quinzenalmente e como nos encontros tinha o momento da partilha, ou seja, o momento que partilhavam sobre o livro escolhido despertando o interesse pela troca de títulos entre si. Foi notada também uma melhora no humor, diminuição dos psicotrópicos, melhora a escola e também a escolha das participantes para trabalhos internos na Unidade com o intuito da redução de pena. A LEITURA COMO PROTAGONISMO SOCIAL NA PENITENCIARIA FEMININA DE CARIACICA Percebemos que a vida é uma experiência de leitura e viver não é mais que ler a si mesmo, aos outros e ao mundo, em infinitas leituras. E o ato da leitura não se traduz pela mera decifração de uma sequência de vocábulos, nem se destina apenas ao texto 224 escrito lemos o tempo todo: gestos, músicas, imagens, filmes, espetáculos, manifestações orais, os sinais da natureza e os múltiplos sentidos de uma situação ou acontecimento. O projeto “Plantei Sementes, Brotaram Leitores” surgiu da observação de duas pacientes a cerca da falta de estímulo dado às demais em relação a leitura saudável e mais seletiva, como também do Bullyng sofrido por ambas nas escolhas dos livros que levam para a cela. Foi possível perceber nesses oito meses de projeto que as demais pacientes desenvolveram o gosto pela leitura e a certeza da melhora em suas escolhas literárias, tirando melhor proveito do espaço que a instituição possui, como também, a ocupação do tempo ocioso com atividades que proporcionem ao mesmo tempo aprendizado, e lazer, sem forçar a participação. Com o passar dos meses foi gratificante ver que as reeducandas se empenhavam nos encontros, traziam idéias e também aproveitavam o máximo o momento da reunião. Para a implantação do projeto e para a seleção do primeiro grupo a participar foi analisado que grande parte das apenadas que se encontram nessa Unidade Prisional possuem um hábito de leitura que não agregava um valor direto nas deficiências do nosso cotidiano e muitas vezes não se consideravam capazes de fazerem outras escolhas, têm alterações em seus comportamentos o que pode acarretar num prejuízo no cumprimento de sua pena. Uma solução proposta para tentar minimizar esse problema, foi a promoção de oficinas de leitura, debates, mesas redondas, dinâmicas que despertaram o interesse pelo novo, como assistir a filmes com conteúdos que aperfeiçoem a discussão a cerca dos temas tratados nos vídeos e nas experiências adquiridas antes do cárcere promovendo debates. Lembrando que a visualização também é uma forma de leitura. Nosso grande desafio ao elaborar e colocar em prática esse projeto foi propor atividades e encaminhamentos que trouxessem os saberes das diversas formas de leitura, de maneira que fossem valorizadas, pois acreditamos que é na troca em que a aprendizagem acontecerá. “De acordo com Vandi Dogado, educador e escritor o hábito de ler proporciona liberdade de expressão e de escolha”, e ainda fomenta o nascimento de novas células cerebrais (neurogênese), deixando o cérebro mais eficiente; possibilitando clareza na visão de mundo; aumentando o vocabulário e capacidade de comunicação fortalecendo o raciocínio, a memória, a criatividade; o poder de concentração; é prazeroso, mas, sobretudo emancipa o ser humano cultural e socialmente. 225 Ler é essencial para a formação do indivíduo. Embora essa premissa seja unanimidade entre educadores, os mecanismos de incentivo à leitura, no Brasil, ainda são muito escassa dada à carência da prática de leitura. Nós sabemos que a leitura é uma atividade essencial a qualquer área do conhecimento e mais essencial a própria vida do ser humano. A leitura é uma ação que depende de estimulo e motivação; e a sua prática é fundamental para a construção do conhecimento e protagonismo do individuo na sociedade atual. Oferecer atividades em que as pacientes selecionadas olhem de forma diferenciada seu egresso no sistema prisional, foi uma forma de deliberar um novo horizonte em suas vidas, de acordo com suas realidades e possibilidades, mostrando que através da leitura, é possível reconhecer que o tempo do cárcere pode ser de aprendizado, e com isso tentar evitar que após o retorno a sociedade possa haver reincidências, vale ressaltar que, por meio de boas leituras pode-se diminuir o peso excessivo psíquico que o cárcere trás e com isso o uso de medicamentos psicotrópicos uma vez que a ociosidade e a ansiedade são grandes inimigas do apenado. Através da leitura há promoção da equidade como oportunidade a todos de alcançar e manter um nível desejável de aprendizagem, desenvolvendo suas habilidades humanas fundamentais, pelo meio, de instrumentos de resgate da cultura, seja ela formal ou não, favorecendo a compreensão do sentido de textos orais e escritos, por meio da interação em situações informais e formais de uso da língua, conseguindo assim, a captação e a produção de mensagens orais, escritas e visuais, muitas vezes passadas despercebidas. Com a leitura, é possível estimular a autonomia e a responsabilidade da reeducandas em seus diferentes papéis na sociedade, para que ela possa se inserir no mundo social e profissional com um melhor desempenho, sendo protagonista da sua própria história, uma vez que muitas têm penas altas e quando voltam à sociedade se esquecem de que um dia fizeram parte dela. A leitura torna o acesso à educação com permanência e qualidade de aprendizagem garante pluralismo e democracia, é possível promover a equidade como oportunidade a todas de alcançar e manter um nível desejável de aprendizagem, elaborando assim, atividades, com vista a promoção do apenado. Desperta o espírito de solidariedade, gratidão pela vida e a humildade em relação ao lugar que ocupamos no planeta. O contato com os livros, as trocas de experiências com as demais participantes proporcionou o aprendizado de valores, tradições e expressões culturais em que foi possível para que as reeducandas o reconhecer que pertencem a uma história, território e 226 grupo, especificam e constituam, portanto, as identidades das diferentes nações e etnias, evitando o preconceito. Conceituar questões básicas, como por exemplo, a família como instituição sagrada educadora basilar e colocar sua contribuição junto com a sociedade para seu próprio desenvolvimento foi mais uma meta alcançada nesses seis meses de projeto. Ao Auxiliar nas escolhas das suas leituras, as pacientes não pegaram o livro pela capa como costumavam fazer, mas, pelo conteúdo, promovendo um ser humano questionador, pensante, fazendo-o perceber que determinadas leituras as vezes deixadas de lado podem proporcionar diferentes conhecimentos. Durante as reuniões foi dado o poder da fala, o que levou a motivação, incentivando as reeducandas a expressarem seus sentimentos, experiências pessoais e dúvidas, a fazer comentários e manifestar sua opinião em relação a filmes, textos, fotos entre outras formas de leitura, resgatando histórias de família, fatos vividos, experiências compartilhadas. A partir do momento de discussão ao partilharmos nossas experiências, não somente acerca da leitura, foi aguçada a sensibilidade e percepção critica lutar contra os fenômenos da alienação, da fragmentação e da desumanização a que estamos sujeitos no mundo atual, e que o recinto da prisão passa as pessoas que não conhecem de perto a realidade prisional. Como o projeto não foi idealizado para ser uma mão de obra de trabalho, não daria direito a remissão, foi estabelecido um dia da semana e passado para as pacientes que não seria obrigatória a participação, que elas teriam o livre arbítrio de não querem mais participar, algo que me surpreendeu, porque mesmo não dando a tão sonhada remissão, elas faziam questão de participar e de passar para as demais colegas, para a família o quanto a participação no projeto estava fazendo bem a elas, no relacionamento com outras pacientes e com os agentes muitas vezes temidos por elas. É de suma importância destacar o Projeto Ético Político Profissional do Serviço Social, com fundamentação no Código de Ética Profissional de 15 de março de 1993 e na Lei de Regulamentação da Profissão, Lei. 8662, de 7 de junho de 1993 tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor central, sendo esta a liberdade de escolha que o indivíduo pode ter em relação às alternativas concretas, por isso, a ação e o dever do assistente social paramentado na instituição dentro, é de falar tanto em autonomia, emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais, como intervir e lutar pela concretização de direitos e bem estar de seus usuários. 227 Como sabemos a leitura não é um hábito de muitas pessoas e visando a maior participação delas nas reuniões foram propostas, atividades diferenciadas com o intuito de explorar todos ao máximo a participação e protagonismo das reeducandas. Como exemplo, podemos citar a escolha dos livros da listagem da biblioteca foi feita primeiramente pelas integrantes do projeto e após a leitura dos livros, um debate para que cada reeducanda fale sobre o livro que locou, motivando a curiosidade das demais sobre livro escolhidos por elas. As pacientes participantes foram selecionadas pelo serviço social da saúde com o aval da Diretora da Unidade prisional e a escolha foi dada de acordo com o perfil de cada reeducanda como também através de sugestões das próprias participantes, dos agentes e chefes de segurança, pacientes muitas vezes temidas, que tinham má conduta e que por causa dessa má conduta ficavam a maior parte do tempo na cela, salvo quando iam para o banho de sol diário. É importante ressaltar que há diversas formas de leitura, seja oral, escrita ou até mesmo visual. A leitura visual foi explorada através da leitura de diversos filmes com cunho cultural aguçado e que desperte a curiosidades e o interesse por assuntos diversos, como exemplo podemos citar filmes cujo livro tenha no acervo da biblioteca e documentários. Além de ouvir e discutir letras de musicas que trabalhem não só a realidade como também explorem o lado intelectual de cada delas. Interessante também as brincadeiras, que despertaram para o estimulo do convívio no coletivo. Além de ser uma maneira lúdica de trabalhar. Não podemos esquecer-nos dos debates acerca de artigos de revistas, jornais, leitura de parábolas, fábulas entre outros vários tipos de textos sejam eles literários ou não, na medida do possível sempre tentando trazer para o debate a comparação com a vida cotidiana das reeducandas e, aproveitando esse momento para as participantes expressarem verbalmente suas opiniões e experiências. Na realidade, todas as atividades propostas e desenvolvidas ao longo do projeto teve a intenção de fazer com que as reeducandas passassem a observar e extrair o sentido mais profundo e perceber por si mesmas que elas podem ler e ter acesso a qualquer tipo de leitura, que são capazes de ler, entender e dialogar sobre qualquer assunto, bastando apenas se propor a fazer isso. Dessa forma, elas irão perceber que quem lê alcança uma condição bastante especial neste tempo globalizado: ser diferente da maioria, que se limita ao senso comum veiculado pelos meios de comunicação de massa. 228 CONSIDERAÇÕES FINAIS Como dissemos na introdução do artigo o trabalho numa penitenciária não é fácil e às vezes não é bem visto na sociedade. Dividindo minha pouca experiência, coloco que essa é minha primeira experiência profissional, tive a oportunidade de estagiar em diferentes lugares, sempre sendo bem recebida pelas minhas supervisoras de campo e sempre disposta a aprender. Sou formada a 4 anos e há um ano trabalho como assistente social da saúde no Presídio Feminino de Cariacica. Quando recebi a solicitação pensei que não daria conta devido a grande demanda, pois contamos aproximadamente com 390 pacientes entre regime fechado e regime semi aberto. À medida que fui fazendo os atendimentos às reclamações ou questionamentos na sua maioria do regime fechado era a ociosidade e também os inúmeros pedidos para psiquiatria a fim de solicitar medicamentos psicotrópicos para passar a “cadeia dormindo” como elas mesmas falam. Enquanto equipe de saúde temos outro projeto que visa à diminuição do uso de medicamentos, mas, faltava algo para digamos colocar no “lugar” dessa medicação ou fazer um paliativo para o tratamento da ansiedade relatada por elas. No presídio não é raro encontrar mulheres formadas nas mais diferentes profissões e que foram parar neste lugar por escolhas erradas, durante um atendimento uma interna que antes de ser presa cursava uma Faculdade me falou que sofria humilhações, bullyng por parte das colegas de cárcere pelas escolhas literárias que fazia, perguntei se ela tinha alguma sugestão e a única coisa que ela me pediu foi uma chance de mostrar que as outras pacientes também podiam escolher os tipos de livros que ela lia, bastava apenas um incentivo de alguém que quisesse ajudar a por em prática uma idéia que ela e outra interna que também passava pela mesma situação tivera para abolir esse tipo de preconceito do qual estavam sofrendo. Por meio disso através do trabalho coletivo essas mulheres poderão ter a oportunidade de redimensionar suas dificuldades ao compartilhar dúvidas, sentimentos, conhecimentos e experiências de vida, podendo provocar um alívio do estresse emocional vivenciado todos os dias dentro do cárcere. 229 Como em todas as Unidades Prisionais, há um diretor e é a este que precisamos pedir autorização para qualquer evento ou projeto que se pretenda fazer nas dependências da Unidade. Conversando com a diretora e explicando os reais motivos para a solicitação foi me pedido um projeto escrito para avaliação da Secretaria de Justiça, e da Chefia de Segurança, que por sua vez iria analisar a viabilidade de agentes para os dias e o local do encontro, pois, tudo na Unidade é planejado e pensando na segurança tanto do profissional, como também das próprias pacientes. Com isso passei a me reunir uma vez por semana com as pacientes para a elaboração do projeto que demandou alguns meses, mas foi aprovado pela direção e hoje estamos com ele funcionando a seis meses na Unidade. Quando volto aos primeiros encontros onde as reeducandas não queriam falar, fiz questão de selecionar as pacientes que causavam alteração na Unidade para mostrar que quando se há iniciativa tudo é possível. Hoje várias delas são bem vistas pela Unidade, não dão mais alteração e até já trabalham remunerado dentro das empresas que tem mão de obra dentro da Unidade, e o mais interessante é ver que elas mesmo trabalhando não querem sair, e tem a liberação do chefe do setor para irem aos encontros, ver o interesse delas nos temas, nas atividades, ouvir elas falando que elas querem ler mais livros, que elas contam as histórias dos filmes que assistem na cela para as outras pacientes, me da a sensação de dever cumprido. Nesse um ano de trabalho no Presídio percebo que a falta de ações, iniciativas para esse público tão desprezado pela sociedade faz falta sim, pessoas que acreditem na capacidade desses homens e mulheres que por escolhas erradas se encontram encarcerados fazem falta sim, desejo que esse projeto não pare. Hoje as duas pacientes que faziam as atividades comigo estão no regime semi aberto e logo estarão de volta a sociedade para retomar suas vidas e seus objetivos que foram suspensos não para sempre, mas por um curto espaço de tempo que serviu para o seu crescimento e amadurecimento como pessoa e cidadã de direito. Concluímos que a leitura, desde sempre formou seus pilares dentro da sociedade, e é sem sombra de dúvida, fonte de inspiração, sabedoria e conhecimento. É assim que queremos e acreditamos que sejam os leitores que pretendemos formar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS 230 CRESS. 7ª Região–RJ. Assistente Social: ética e direitos. Coletânea de Leis e Resoluções. Rio de Janeiro: Ed. Lidador, maio de 2000. HOUAISS, Antônio (1915-1999) e VILLAR, Mauro de Salles (1939). Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 3ª Ed. Ver. E aum. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. MARTINS, Maria Helena. O que é leitura?/ Maria Helena Martins, 19. Ed. – São Paulo: Brasiliense, 1994.