Copyright Pedro Barbosa, 2002 O Sistema das Belas-Artes: esboço de uma tipologia semiótica dos discursos estéticos 1. Objectivos Antigo como é, o problema da Classificação das Artes não nasce de um entendimento burocrático da cultura nem de uma simples preocupação sistematizante antes é uma questão básica da Estética, a sua verdadeira propedêutica. Que ciência passa sem a sua tipologia sistemática? Como é possível fazer Química sem uma tabela dos elementos que nos permita compreender a organização infinita das substâncias compostas? Como estudar Botânica ou Zoologia sem uma prévia sistematização dos seres vivos por tipo, classe, ordem, família, género, espécie? Sendo até mais do que uma pura taxinomia ou nomenclatura estética, a própria natureza mudável da realidade faz com que este problema renasça de tempos a tempos: pois sempre que a realidade muda somos forçados a rever os modelos através dos quais a interpretávamos e a elaborar, se necessário, modelos novos que a tornem de novo inteligível e nos permitam movimentarnos dentro dela mais adequadamente. Neste sentido, qualquer modelo deverá satisfazer dois requisitos: ser "compreensivo" e ao mesmo tempo "operatório". Condição de partida para que uma questão como esta não se reduza a uma dimensão puramente escolástica será pois que, por um lado, a realidade tenha mudado atingindo níveis de ruptura, e que, por outro, os modelos existentes se tenham revelado inoperantes para a estética contemporânea. 2 2. Primeiro aspecto: uma revolução coperniciana no Sistema das Belas-Artes Terá a realidade sociocultural, quadro de referência dos modelos que aqui nos propomos discutir, mudado tão significativamente a ponto de tornar obsoletos os sistemas teóricos provenientes do passado? Ou, num âmbito mais restrito, terá o envolvimento estético dos nossos dias mudado tão significativamente que exija de nós um modelo novo capaz de lhe corresponder satisfatoriamente? Basta um relance panorâmico pela história da cultura no Ocidente (ou nem só a do Ocidente...) para logo nos apercebermos de como o sistema das Belas-Artes, herdado desde os Gregos, está hoje a sofrer a sua mais profunda remodelação de sempre, após ter sobrevivido relativamente inalterável ao longo de mais de dois milénios. Isso explicará que a questão estética tenha sido até agora uma questão pacífica e que a divisão clássica das artes se tenha podido manter em vigor sem necessidade de grandes reajustamentos. A própria linguagem corrente, impregnada até ao âmago por esse legado da Antiguidade, continua a balizar nas palavras essas mesmas fronteiras tradicionais: por isso nós continuamos a enumerar espontaneamente as artes numa série lexical de que fazem parte a Arquitectura, a Escultura, a Pintura (aglutinadas no ramo das "artes plásticas" ou "artes do espaço") e, num outro ramo (o das "artes rítmicas" ou "temporais") teríamos a Música, a Dança e a Literatura (ficando o Teatro muitas vezes absorvido dentro desta como um simples género literário). Este modelo hexagonal, originado na tradição clássica, encontra-se hoje de tal modo interiorizado na linguagem e nas próprias instituições (1) que por vezes se torna difícil raciocinar fora de tais estereótipos. Contudo, este quadro empírico foi servindo sem grandes polémicas ao longo de mais de vinte séculos, excepção feita para a área da 1 Esta aglutinação das artes sobrevive ainda hoje de certo modo nas instituições consagradas entre nós ao ensino artístico: as Escolas de Belas Artes para as artes plásticas (as artes matéricas de Hegel: arquitectura, escultura, pintura – com exclusão da música); as Faculdades de Letras para as artes literárias (derivadas da Poesia no sistema hegeliano – lírica, épica e dramática – bem como do Trívio medieval – gramática, retórica, dialéctica) inseridas embora hoje numa perspectiva cultural mais ampla que engloba as línguas e a linguística como veículo para a história das culturas nacionais ou das ciências sociais e humanas; os Conservatórios para as artes performativas ou artes do espectáculo, as quais implicam normalmente a mediação da “interpretação” (são escolas mais viradas para a formação do actor, do intérprete, do instrumentista, do executante - música, dança, teatro e cinema). Mas estes são aspectos institucionais de uma divisão empírica das artes. Embora não deixe de ser sintomática a tendência para hoje se concentrar o ensino superior artístico em Departamentos de Comunicação e Artes, o que revela a apropriação do paradigma comunicacional por parte da actual abordagem didáctica do fenómeno artístico. 3 Literatura, do interior da qual temos vindo a assistir à progressiva individualização do Teatro como arte autónoma: hoje, de facto, não é mais possível conceber o teatro como um simples género literário na sequência da tradição hegeliana - lírica, narrativa e drama – tríade que tanta fortuna tem tido na teoria literária europeia e que já se encontrava esboçada desde a cultura helénica a partir da Poética de Aristóteles (2). A adequação precária de um tal sistema à presente realidade estética ocidental não carecerá, por certo, de ser sublinhada. Bastará lembrar toda a subversão da teoria clássica dos géneros que o movimento romântico veio trazer desde inícios do século XIX. Mas a explosão irreversível deste quadro vai dar-se à entrada do século XX com o advento da Civilização Tecnológica e o consequente aparecimento de numerosos outros meios técnicos de expressão artística: a perturbação causada inicialmente nos meios ligados à pintura pela invenção da fotografia não tem sequer paralelo com as vagas de polémica suscitadas com o nascimento do cinema, que foi aliás o primeiro novo meio de expressão tecnológico a merecer indiscutivelmente o estatuto de arte autónoma (adiante se verá melhor porquê...). E haveria de ser na base do sistema hexagonal referido que o cinema nascente viria a receber o absurdo baptismo numérico, ainda hoje consagrado na linguagem, de "sétima arte". Mas a absurdidade de um tal critério já não vingaria nas denominações de "oitava arte" ou mesmo de "nona arte" que se pretendeu também aplicar, um tanto indistintamente, quer ao desenho animado, quer à rádio, quer à televisão. Com efeito, como integrar coerentemente num tal sistema toda essa miríade de novos "discursos estéticos" (antecipemos desde já esta designação como substituta do termo "arte") cujo espectro de variação vai da fotografia ao cinema, da banda-desenhada ao desenho-animado, da rádio à televisão, do vídeo à holografia, para desembocar, hoje, com a informática e a inteligência artificial, nas produções estéticas geradas por computador? Importa reconhecer que estamos perante um fenómeno inteiramente novo e sem quaisquer precedentes na história da Civilização. E tão característico da época em que vivemos que o homem moderno tem já sido apelidado de "animal comunicante" ou "homo semioticus". 2 Sobre as polémicas relações entre a Literatura e o Teatro, bem como sobre a relação entre o texto dramático e o espectáculo teatral, abstemo-nos de as desenvolver aqui já que em um outro livro («Teoria do Teatro Moderno», Porto, Afrontamento, 1982) tivemos ocasião de deixar expresso o nosso próprio ponto de vista. 4 Do ponto de vista da Estética já não se trata só de enumerar, classificar e integrar compreensivamente todos os novos e variados "meios de expressão" em contínua proliferação e constante metamorfose: trata-se também de discutir em que medida eles deverão ser encarados como simples meios de comunicação ou em que condições lhes será legítimo atribuir o estatuto de verdadeira autonomia estética, isto é, de verdadeiras novas artes: trata-se, finalmente, não só de repensar o conceito de "arte", como de pensar a uma outra luz todas as velhas artes seculares acordadas repentinamente do seu sono milenar para uma época que as obrigou, todas elas, a uma redescoberta da sua própria identidade estética. Tudo isto, acrescido das numerosas correntes experimentais e novas manifestações expressivas mistas, desde a poesia visual à música concreta, da arte cinética à body-arte, dos espectáculos multimédia à videoarte, da holografia à arte computacional, por exemplo, as quais nos levam, pelo seu carácter umas vezes sintético outras vezes intermediático, a problematizar as próprias fronteiras tradicionais das artes mais solidamente estabelecidas... Isto parece suficiente para podermos avaliar em que medida todo o Sistema das Belas-Artes, que vigorou na cultura helénica e se foi mantendo relativamente imutável durante mais de dois milénios de História, não tem já nada a ver, a partir do século XX, com o contexto estético-informacional em que actualmente estamos mergulhados após a invasão dos novos media nascidos da revolução tecno-industrial: uma verdadeira revolução coperniciana parece estar a processar-se no próprio centro da Comunicação Estética. 3. Segundo aspecto: releitura de alguns sistemas tradicionais Foi no rasto desse quadro tradicional das Belas-Artes que quase todos os sistemas classificatórios mantiveram artificialmente uma dicotomia entre artes do espaço (as chamadas "artes plásticas" ou “artes matéricas”) e artes ditas do tempo (música, literatura, dança, teatro, etc.). Mas a consistência de uma tal separação não tem qualquer base sólida que a caucione: ninguém hoje defenderia a opinião de que o tempo não existe na pintura, ainda que de uma forma petrificada num mero corte sincrónico; e que dizer da importância do espaço no teatro, na dança, no cinema, ou mesmo na literatura, em especial naquela vertente que vai de Sterne ou de Apollinaire até à poesia concreta? O 5 equívoco parece assentar numa análise deficiente das diferenças perceptivas entre signos visuais e signos auditivos. Sobre este ponto parece-nos oportuno referir uma precisão aduzida por Roman Jakobson que esclarece penetrantemente as razões de um tal reducionismo: "Percepção visual e percepção auditiva têm ambas, evidentemente, lugar no espaço e no tempo, mas a dimensão espacial tem prioridade para os signos visuais e a dimensão temporal para os signos auditivos. Um signo visual complexo implica uma série de constituintes simultâneos, enquanto um signo auditivo complexo se compõe de constituintes seriais sucessivos" (3). É daí que vem a ilusão da diferença. Revisitando outros sistemas classificatórios mais recentes, verificamos, contudo, que quase todos eles pendem para uma demarcação das artes tomando como base de referência os órgãos dos sentidos a que predominantemente se dirigem. São classificações de pendor psicologístico, posicionadas no ângulo da recepção, e que tendem a identificar o conceito de arte com o de estesia, quando não com o de pura sensorialidade. Cite-se, por exemplo, a classificação de Charles Lalo, com base na Psicologia da Forma, que distinguia no sistema das Belas-Artes sete estruturas e superestruturas específicas: 1) As estruturas da audição (música, evidentemente); 2) As estruturas da visão (pintura, desenho, etc.); 3) As estruturas do movimento (bailado, danças folclóricas, fogo de artifício, fontes artísticas, etc.); 4) Estruturas da acção (teatro, cinema, desenho animado, ópera, etc.); 5) Estruturas técnicas da construção (arquitectura, escultura, arte dos jardins, etc.); 6) Estruturas da linguagem (verso, prosa); 7) Estruturas da sensualidade (que vão da gastronomia à perfumaria, passando pela arte de amar, do erotismo à pornografia). Um outro exemplo semelhante, mas que introduz na origem uma distinção que nos parece pertinente, é a classificação proposta por Raymond Bayer ( 4). Ele divide as artes em dois grandes grupos: as artes conceptuais (artes da linguagem) e as artes sensoriais (artes que afectam os sentidos e produzem sensações); estas últimas são depois escalonadas em sete categorias, consoante os sentidos atingidos: a visão (pintura), o tacto (escultura), o ouvido (música), o sentido cinestésico (artes do movimento), o sentido do peso (arquitectura), o olfacto (perfumaria) e o paladar (culinária). Perguntar3 “Visual and auditory signs”, in Selected Writings II, citado por Patrice Pavis em «Problèmes de Sémiologie Théâtrale», Montréal, 1976. 6 se-á, contudo: a poesia não se dirige também aos sentidos e não produz sensações? E o cinema, o teatro, a banda-desenhada, que se servem da palavra tanto quanto da imagem, não possuem por isso mesmo uma dimensão conceptual? E será legítimo meter no mesmo saco (artes do movimento) manifestações estéticas tão diferenciadas como o cinema, o teatro, o bailado, a escultura cinética, o guinhol? Remontando à classificação de Charles Lalo, bastará considerar um exemplo, como o da Ópera, para sentirmos como ela fica forçadamente espartilhada entre as superestruturas da acção (entendida esta no sentido de acção dramática, isto é, como contraponto de personagens, de actantes em conflito): isso desvaloriza tudo aquilo que a ópera deve igualmente às formas perceptivas da audição, da visão, do movimento, do espaço, da construção e mesmo da linguagem... Uma outra classificação, como a de Maurice Nédoncelle, decalcada no polígono dos cinco sentidos, não gozaria de melhor fortuna: incluindo nas artes táctilo-musculares a dança e o desporto; nas artes do olhar a arquitectura, a escultura e a pintura; nas artes do ouvido a música e a literatura; nas artes de síntese audiovisual o teatro e o cinema; e relegando para o plano das artes sem dignidade estética as do paladar e do olfacto. A fragilidade de um tal sistema apenas oferece a vantagem de conservar da linguagem corrente e do senso comum o termo audiovisual aplicado hoje às tecnologias do cinema e do vídeo. Mas o teatro poderá reduzir-se à componente audiovisual? E a literatura, na sua forma escrita, será uma arte do ouvido? Estes exemplos servem para pôr em evidência a inadequação dos modelos que buscam uma base classificatória nos dispositivos sensoriais com que fruímos as artes. Até porque hoje não tem qualquer cabimento continuarmos a identificar a actividade estética com sensação, sentimento ou emotividade, na esteira do trinómio escolar que colocava a Ciência na esfera da racionalidade, a Moral na esfera da acção e a Estética na esfera da emoção. Na arte contemporânea, e sem falarmos sequer na arte programada em computador, não é a racionalidade a componente tantas vezes prioritária? E em toda a estética da obra aberta, para não referirmos sequer o teatro de participação, não é a própria acção uma componente essencial da obra de arte? 4 «Traité d’Esthétique», Paris, A. Colin, 1956 (apud T. Kowzan, «Littérature et Spectacle, Mouton», La Haye, 1975). 7 Etienne Souriau precisou bem que o que especificava um "género artístico" não era a utilização de uma dada ordem de dados sensoriais, mas sim o papel funcional hegemónico que aí assumia uma dada gama de qualidades sensíveis (qualia): não se tratava pois de uma especificação de sensações mas sim de "qualidades diferenciais”. Discriminando sete gamas de qualia (5) artisticamente utilizáveis, a saber, linhas (1), volumes (2), cores (3), luminosidades (4), movimentos (5), sons articulados (6) e sons musicais (7), Souriau concebeu um sistema circular das Belas-Artes dentro do qual, para cada gama de qualidades sensíveis, distinguia ainda dois níveis: um nível primário para as artes não-figurativas, isto é, simplesmente "apresentativas" (diríamos nós, não referenciais) - como sejam o arabesco, a arquitectura, a pintura abstracta, a música, etc. e um nível secundário para as artes figurativas ou "representativas" (isto é, que se transcendem para lá da pura manifestação fenomenal, instaurando um universo referencial, real ou imaginário) - é o caso da fotografia, da pintura figurativa, da literatura, do cinema, etc. No conjunto, resulta o seguinte modelo circular: 5 Qualia : entendemos aqui esta palavra no seu sentido mais directo de qualidades, ou propriedades das coisas, tal como são percebidas pelos nossos sentidos. São pois aspectos qualitativos dos nossos estados mentais, como as sensações cromáticas, o sabor do chocolate, o prazer e a dor. A observação de uma mancha vermelha activa um padrão de disparos nervosos. Porque é que ocorre uma sensação subjectiva tão intensa? E porquê esta sensação e não de azul? E até que ponto esta sensação é pessoal? 8 Claro que o engenho de um tal modelo circular estava mais na sua vocação para captar a correspondência entre as artes do que as suas diferenças. Ele torna, com efeito, visível como a posição de vizinhança sectorial entre poesia e música, por exemplo, as vocaciona para aquela cooperação entre as duas que leva à canção, ou a proximidade regional entre a literatura e o desenho, por outro lado, explica a sua freqüente convivência no livro ilustrado. Temos, porém de reconhecer que apesar da sua inegável coerência interna um tal modelo não parece satisfazer aos dois objectivos que colocamos à partida: adequar-se operatoriamente à realidade artística dos nossos dias e sintonizar-se com o modo como hoje vivemos na multiplicidade das práticas estéticas, antigas e recentes. Por exemplo: porque não é reservado um lugar autónomo ao teatro, encarado aí como "síntese" das outras artes, quando hoje, sobretudo após a experiência redutora de um Grotowski, uma tal definição aditiva de teatro não é sequer aceitável? E porque hão-de ser individuados géneros artísticos tão pouco marcantes no nosso contexto cultural, como é o caso do arabesco ou da prosódia pura? E como inserir aí, em paridade, o cinema sonoro, o 9 desenho animado, a banda-desenhada, o radiodrama, enfim, tantas dessas práticas estéticas que fazem a realidade corrente dos nossos dias? Concluindo sumariamente, tudo parece indicar que o caminho a seguir só terá vantagem em se sobrepor aos sedimentos do passado e demandar uma estratégia teórica tanto quanto possível isenta de reminiscências paralisantes. 4. Transposição semiótica e correspondência das artes Como ponto de partida para uma outra forma de conceituar o actual sistema das Belas-Artes parece-nos útil determos um pouco a atenção no fenómeno, hoje tão corrente, das "adaptações". Se no passado podíamos colher apenas alguns exemplos de "adaptações" de obras literárias ao teatro, hoje, mais do que nunca, a frequência e a multiplicidade desta prática transmutadora tornou-a de todos nós familiar e bem típica dos tempos que correm: a todo o momento deparamos com obras literárias ou peças teatrais transpostas para o cinema, para a rádio ou para a televisão. E se este é o sentido mais corrente das adaptações, não é raro também vermos hoje um filme reescrito sob a forma de romance ou fixado em banda desenhada: fácil seria colhermos exemplos de adaptações que percorrem, nos dois sentidos, a multiplicidade de quase todas as combinatórias entre estas novas formas de expressão (romance vs cinema; teatro vs cinema; teatro vs televisão; romance vs banda-desenhada; cinema vs fotonovela; etc.) Vários géneros narrativos foram mesmo nascendo, destes cruzamentos híbridos, com perfis peculiares: o radiodrama, a radionovela, o cine-romance, o telefilme, o teledramático, a telenovela, são apenas alguns deles. É em banda desenhada ou em seriados televisivos que os jovens de hoje tomam contacto com o universo romanesco de «Os Miseráveis» de Vítor Hugo e é no cinema que os cidadãos apressados ficam a conhecer a monumental história da «Guerra e Paz» de Leão Tolstoi. Autores há que forjaram mesmo o grosso da sua obra sobre esta prática transpositiva, como foi o caso, entre outros, do italiano Luigi Pirandello. Até obras aparentemente intransponíveis, com o «Ulisses» de James Joyce, tão fechado na sua verbalidade inventiva, tiveram já as suas versões, quer no teatro quer no cinema. E temos de reconhecer que em nenhum outro tempo, como o nosso, este fenómeno da adaptação se tornou tão frequente e tão característico. 10 É ele que, a nosso ver, está na base de uma necessidade de mudança do próprio conceito de "arte". Se até aqui, como vimos, os teóricos buscavam esse conceito prioritariamente na matéria de expressão utilizada, ou então na gama de sensações activadas pela obra junto do fruidor, hoje, os caracteres distintivos para se demarcarem entre si as várias "artes" levam-nos a considerá-las antes como linguagens ou práticas discursivas capazes de intercambiarem, entre si, o conteúdo de uma mesma mensagem (neste caso, a mesma “história”). E esta parece-nos ser, de facto, a via mais operatória para um modelo sistemático que se adeqüe ao envolvimento estético contemporâneo. Em que consiste, pois, essa operação vulgarmente conhecida como "adaptação"? Roman Jakobson, ao discernir vários níveis na tradução (tradução intralingual, fornecida pelos dicionários unilingues, tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, e tradução intersemiótica ou transmutação (6) cunhou um termo que nos parece apropriado: com efeito, se na tradução interlingual corrente (ao traduzir uma obra de uma língua para outra) apenas se mudaria de código linguístico, na transposição semiótica não é apenas o código que varia mas a própria natureza dos sinais utilizados (na adaptação de um romance ao cinema, por exemplo, convertemos uma mensagem expressa originariamente em signos linguísticos numa outra constituída por imagens audiovisuais). Alargando um pouco o âmbito da noção jakobsiana, definiremos assim a "adaptação" ou "transposição intersemiótica" como a conversão de uma mensagem em práticas semióticas distintas. Sem dúvida que quanto mais próximos estiverem os sistemas semióticos a converter mais fácil se torna uma transposição e mais fiel ela pode ser ao modelo original - o aforismo "traduttore traditore" é aqui mais pertinente do que nunca. Isso explica que sejam tão frequentes as transposições de obras narrativas entre discursos estéticos que incluam a dimensão temporal na estrutura da sua mensagem - literatura, cinema, teatro, banda desenhada, rádio, televisão - já que a narratividade (a criação de uma “história”) assenta sobre a seriação de acontecimentos no tempo. Mais difícil de conceber, porém, já seria a transposição de uma escultura para música, por exemplo, ou a conversão de uma melodia em literatura: uma tal transposição acabaria sempre por ser mais uma "re-criação" a partir do mesmo tema, idéia, atmosfera 6 Cf. "Aspects linguistiques de la traduction", in «Essais de Linguistique Générale», Editions Minuit, Paris, 1963. 11 ou estrutura. Uma verdadeira nova criação a partir do nada, ou do quase-nada, que tantas vezes se reduz a um mesmo motivo inspirador tomado como núcleo germinativo: em tais casos, a transposição reduz-se a um mero processo de equivalência - temática. estilística, emotiva, ambiental, estrutural, ou outra. Não é isso o que se passa, por exemplo, nos Quadros de uma exposição de pintura, descritos musicalmente por Mussorgski? Ou na afloração de tantas reminiscências pictóricas nos poemas de Baudelaire, nomeadamente naquele em que traduz por versos a visão de “Tasso na Prisão”, de Delacroix? E que dizer da Sala de Concertos, de José Gomes Ferreira, convertendo a música em imagens poéticas? Se em casos destes não é possível falar, a rigor, de transposição de mensagens mas antes de paralelismo, isso deve-se sobretudo à oposta natureza dos sinais utilizados (como adiante pormenorizaremos) e à não correspondência entre si destas práticas semióticas. Como traduzir os sinais visuais de uma pintura figurativa em sinais musicais desprovidos de referência concreta? Ou, inversamente, como traduzir puros sons musicais por palavras significantes? Isto repõe a questão da Correspondência das Artes, tratada por Souriau. Onde pode não haver correspondência no sentido de tradutibilidade pode, no entanto, haver simbiose perfeita no sentido de complementaridade. É o que acontece, por exemplo, entre a música e a literatura: esta emprestando àquela a referencialidade das palavras, aquela sublinhando nesta a componente emotiva por meio duma atmosfera sonora; e isto tanto acontece na "canção", de cunho marcadamente lírico, como na "ópera", de cunho marcadamente narrativo. A ideia de "correspondência das artes" não coincide, pois com o conceito de tradutibilidade implicado numa operação de "transmutação". São conceitos tangenciais que só em parte se aproximam. Pois onde parece não existir tradutibilidade (por razões que no quadro adiante apresentado ficarão evidenciadas), pode no entanto existir correspondência. É essa correspondência que nos permite falar, por exemplo, de um movimento romântico submergindo na mesma vaga as artes mais heterogéneas da pintura à música, da literatura ao teatro, vindo mesmo a abranger, posteriormente, o cinema. Sem essa "correspondência" (no sentido em que aqui a tomamos e não, rigorosamente, no que Souriau nos emprestou...) seria impossível estabelecer qualquer periodização estética abrangendo a Arte em geral. Se podemos falar em Classicismo, Romantismo, Realismo, Impressionismo, Futurismo, Surrealismo, etc., é porque há características que são extensíveis, de um modo geral, a todas as artes. 12 No seu grau mais abstracto, e mais genérico, a súmula de características comuns onde todas as artes se correspondem levar-nos-ia ao próprio conceito de "artisticidade" mas esse é um outro problema ao qual dedicamos já um livro inteiro ( 7). A artisticidade seria assim uma espécie de cúpula debaixo da qual todas as artes se abrigam, a área conjunta das suas intersecções, a qual legitima o termo mais abrangente, e com maiúsculas, de Arte. (8) 5. A Arte e as artes Considerar, contudo uma tal correspondência das artes não vem subestimar a necessidade de as demarcarmos na sua individualidade, isto é, de as considerarmos na sua autonomia estética. Apenas nos desvia para a discussão de um outro problema, que é o de determinar quais são essas características gerais comuns a todas elas: por outras palavras, aquilo que define uma mensagem como mensagem estética. Designaremos assim sob o termo "artisticidade" (de preferência a "esteticidade", que comporta uma conotação mais valorativa) aquilo que de comum percorre as várias artes: esse ou esses elementos caracterizadores da Arte - questão que de momento se situa fora do nosso propósito - é o que nos permite, mesmo empiricamente, distingui-la contrastivamente de todas as outras actividades culturais. O simples senso comum sabe distinguir, no interior da esfera cultural, a Arte da Ciência, da Técnica, da Filosofia, do Direito, do Jogo ou do Desporto. Por esta óptica, a questão da artisticidade parece deslocar-se mais para o plano do conteúdo; enquanto o problema da distinção das várias "artes" parece situável prioritariamente no plano da expressão: entre uma fotografia artística e o retrato pintado da mesma pessoa, é antes do mais a matéria de expressão que difere. Com efeito, como a possibilidade prática da transmutação semiótica implica, não parece haver temas ou conteúdos que possamos dizer exclusivamente literários ou cinematográficos ou pictóricos ou teatrais... Ou, na medida em que os haja, eles apenas 7 Cf. «Metamorfoses do Real: arte, imaginário e conhecimento estético», Afrontamento, Porto, 1993. Se neste livro de estética geral se analisou a Arte como modalidade de conhecimento ou de apreensão específica do real (gnosestesia), neste ensaio sobre o problema da “classificação das artes” abordamos as diferentes linguagens através das quais a “gnosestesia” (ou cognição estética) se manifesta e comunica. 8 Sobre a “artisticidade” e a gnosestesia com que a definimos, apetecia-nos hoje ironizar e dizer o seguinte: para uma minhoca (cega e surda) uma obra de arte, se fizesse sentido existir, seria de certeza olfactiva ou táctil... 13 parecem derivar das condicionantes impostas pelos meios de expressão (pelos media) que lhes são próprios, pelo que a possibilidade ou impossibilidade de transmutação lhes servirá de teste probatório: se a escultura, ao contrário do teatro ou do cinema, por exemplo, não explora tão insistentemente relações de conflito entre personagens, é porque a própria matéria de expressão lhe cerceia a possibilidade de contar uma história, desenvolvendo-a no tempo, pois que a dimensão temporal se encontra nela contraída ou anulada às dimensões de um único instante. Falarmos de literariedade, cinematicidade, teatralidade, plasticidade, musicalidade, etc., só parece ter cabimento se as estes conceitos atribuirmos delimitações que tomem raiz na especificidade de cada um dos "discursos estéticos" que os suportam, isto é, na especificidade dos seus “media”, enquanto sistemas semióticos distintos entre si, mas capazes, todos eles, de veicularem a artisticidade. A questão que aqui nos ocupa não é pois a interrogação geral, sempre infindável - o que é a Arte? - mas a interrogação mais particular: o que são as várias artes? Postularemos, assim, que as diferentes artes são meios de comunicação distintos, ou melhor, práticas semióticas distintas capazes de veicular uma mensagem estética. Os efeitos que estas possam exercer sobre o plano do conteúdo são, quanto a nós, reverberações derivadas do facto de que (como salientou McLuhan) o medium também é mensagem; ou, numa outra perspectiva, são resultado da interdependência irredutível dos dois planos: expressão e conteúdo. 6. Dois postulados Tudo isto parece decorrer em larga medida do conceito de "transposição" que serviu de alicerce ao nosso percurso. Quando atrás definimos "transmutação semiótica" como a conversão de uma mensagem em sistemas de signos distintos, isso equivale a postular dois conceitos cada vez mais interiorizados no quadro da teoria estética dos nossos dias. Explicitemo-los: 1.º) A "obra de arte" como mensagem (mensagem estética); 2.º) As várias "artes" como discursos estéticos ou práticas semióticas diferenciadas. 14 Isto decorre de um enquadramento da Estética no paradigma comunicacional. Com esta rotação de perspectiva, a estética moderna pode passar a trabalhar com todo o instrumental teórico e o rigor de conceitos que a Teoria da Comunicação e a Semiótica estão hoje em condições de lhe proporcionar. Qualquer classificação das artes, ou melhor, qualquer Sistema das Belas-Artes, reduzir-se-á assim a uma análise descritiva de cada uma das práticas semióticas que se lhes faça corresponder: ou seja, a traçar, para cada uma delas, o seu perfil semiológico. 7. Esboço de uma tipologia dos discursos estéticos É sobre este quadro de idéias que se avança aqui um mapa sinóptico no qual se traçam, esquematicamente, os perfis semióticos para cada uma das "práticas estéticas" mais representativas hoje em dia. Não obstante a sua aparente prolixidade, um tal quadro parece-nos possibilitar uma maior precisão no campo da reflexão estética e tem a vantagem de permanecer em aberto a quaisquer outras modalidades discursivas que se queiram referenciar, bem como a quaisquer novas práticas artísticas que venham entretanto a surgir. Por outro lado, dado o múltiplo jogo combinatório que proporciona, este modelo parece-nos dotado da flexibilidade bastante para que sejam definidas, nas zonas de intersecção, todas e quaisquer sub-modalidades intermediárias menos representativas e que, por isso mesmo, aqui não se enumeram. Esboço de uma classificação semiótica das artes Artes Discurso artístico Perfil semiológico Modalidade oral Literatura escrita Qualidades sensíveis (qualia) p a l fonemas a v r a letras s Dimensão física dos sinais T L. (t) Relação ôntica Sinais convencion ais Canais sensoriais Direcção da mensagem ER ER audição ER visão ER Meios de comunicação e registo Presencial Rádio Disco, audiocassete, etc Livro, CDR, etc Situação de comunicação ExText E x T = e’x t ExT e’x t’ E x T e’x t’ 15 canto Música instrumental concreta pintura Artes visuais desenho p a l a v r a s n o t a s r u í d o s Presencial (recital, concerto) ExText Rádio, Tv E x T = e’x t Disco, audiocassete, CD, etc ExT e’x t’ Gravura, fotografia, etc. ExT e’x t’ Sinais icónicos sons ♫ T audição ER (E R ) Sinais indiciais cores i m foto a graf g traço ia e n s L2 ícone i n d í c i o s visão i n d í c i o s Visão + tacto: sentido da espacialidade ER real Escultura (estática) Artes plásticas escultura cinética pirotecnia, fontes artísticas, esculturas de fumo Arquitetura Decoração L3 Hol ogr afia 3D (virt ual) (artes aplicadas) banda desenhada foto-novela Cinema Artes áudiovisuais Desenho animado coreográfica Dança ritual espectáculo Teatro ritual ícone terra) cartaz Artes scriptovisuais (sólidos: objectos, volumes (formas maciças) real L3.T (sólidos, ícone fluidos) real L3.T (fogo, ícone ER Contrafacção (cópia do objecto) holografia, RV ExT = e’x t’ água, ar) espaço vazio/volu me (formas ocas) letra + imagem palavra + imagem palavra + imagem luminusida des (indícios) luminosida des (ícones) corpo humano + sons corpo humano + sons corpo humano + objectos + palavras 3 L ícone? L2 variável 2 L .(t) L2.(t) 2 L .T imagem icónica imagem indicial som + palavra + indícios Visão + sentido da espacialidade visão audiovisual ER Cópia (Realidade Virtual, holograma) ExT = e x t’ ER Papel, livro, CDR, etc. ExT e’x t’ Registo: filme, videocassete, DVD Transmissão: ecrã ExT e’x t’ Transmissão: TV (ExT = e’x t) Presencial (espectáculo) ExText Presencial (espectáculo) ExText ER som + palavra + ícones 3 L .T ícone Plurisensorial (visão, audição, tactilmuscular, etc) ER ER ER L3.T Plurissigno complexo Plurisensorial: polifonia informacional ER 16 (síntese: teatro+música) Ópera corpo humano + palavras + sons musicais L3.T Plurissigno complexo Plurisensorial: polifonia informacional ER espectáculo ExText TV E x T = e’x t filme, RV ExT e’x t’ 8. Aparas Este é um ensaio de taxinomia estética. Mas ao contrário do botânico ou do zoólogo, que identifica e classifica as espécies existentes na natureza, aqui nós lidamos com um campo cultural extremamente movediço, redefinível de época para época e de cultura para cultura, e onde por isso a arbitrariedade impera. No eixo vertical tentou-se seriar uma nomenclatura das artes. Respeitou-se o mais possível o senso comum interiorizado na linguagem corrente, o qual assenta num critério intuitivo e pragmático. O quadro aqui proposto, em forma de tabela, fornece uma consulta que se presume intuitiva. Mas não dispensará algumas reflexões avulsas mais ou menos complementares. Por exemplo: Distinção entre artes (práticas semióticas ou discursos estéticos dotados de sinais específicos) e meios de comunicação (veículos ou suportes materiais desses sinais). Os meios de comunicação podem ser utilmente agrupados em três tipos: 1º) espaciais ou de transporte (comunicação); 2º) temporais ou de registo (escritas); 3º) espácio-temporais (de registo e de transporte simultaneamente). Do cruzamento entre artes e meios de comunicação podem emergir os mais variados géneros artístico-expressivos: o «radiodrama» como narrativa literária (pseudo-teatral) adaptada ao meio radiofónico, a «telenovela» como narrativa audiovisual adaptada às condições sócio-comunicacionais da televisão, a «hiperficção» e a «web-ficção» como géneros literários interactivos emergentes das tecnologias informáticas ligadas em rede, etc. Importaria analisar aqui como as condições topológicas do meio de comunicação (apenas sonoro e em directo como a rádio; audiovisual e em directo como a televisão; multimediático e interactivo como a internet) estão na base das estratégias narrativas específicas que caracterizam tais géneros estéticos híbridos. Distinção entre artes puras e artes aplicadas - Em princípio, todas as artes podem assumir um ou outro aspecto em maior ou menor grau. Mas há formas de arte que são, por definição, “puras”, ou seja, essencialmente esteticizadas (literatura, cinema, teatro, música, pintura, etc.) e outras há que são por definição “aplicadas”, ou seja, assumindo um carácter essencialmente 17 funcional, onde a esteticidade se subdetermina à pragmaticidade (9): é o caso da arquitectura, da decoração (arquitectura de interior), do design industrial e do artesanato (aplicados a objectos de uso prático), do cartaz (imagem/texto aplicado à publicidade), etc. Claro que esta distinção é oscilante e apenas funcional: o cinema de ficção pode ser considerado como arte “pura”, mas um documentário ou um filme publicitário já podem ser considerados cinema “aplicado”. A mesma distinção, aliás, pode ser feita para todos os discursos estéticos... 9 As artes performativas (ou artes do espectáculo) assentam num conceito difuso que parece encerrar a mediação da interpretração entre criação e realização da obra. O surgimento do “intérprete” (música sinfónica, ópera, bailado, teatro, cinema, e, de certo modo também, na arquitectura) parece resultar de algo que pode ser visto como a disjunção entre artes individuais (em que o autor solitário concebe e realiza a obra: pintura, poema, etc.) e artes colectivas (onde o autor cria um projecto de obra que outros, em grupo, concretizam). Aqui intercala-se, entre criador e mensagem final, a necessidade de uma metalinguagem de suporte onde seja formulado o “projecto”: partitura musical, texto dramático, roteiro cinematográfico, plano arquitectónico, nascem assim. Mas este problema pode ser visto por um outro ângulo: através da distinção entre potência e acto, entre obra virtual e obra actual, entre projecto e facto concretizado, entre modelo (estrutura, padrão, idéia) e objecto singular. Uma receita de culinária situa-se a este nível: há a metalinguagem que é a receita (projecto) e há o prato cozinhado (a obra). Também aqui o cozinheiro é só o intérprete; raramente é ele o inventor da ideia. Mas quem faz o plano de um poema para um outro o escrever? Quem faz o plano de um quadro para um outro o pintar? Pode acontecer! Mas, usualmente, poeta é quem escreve o seu poema, pintor é quem pinta o seu quadro. Aqui há que estabelecer, no acto criativo, uma separação entre concepção e realização da obra (distinção fundamental, como veremos, na Ciber-arte). Por via de regra, esta cisão surge quando se instaura a impossibilidade de quem concebe a obra a poder realizar também: nas artes colectivas, sobretudo. (10) É aí que surge a figura do dramaturgo, do argumentista de cinema, do arquitecto sentado ao estirador, do compositor a escrever partituras. No entanto, esta relação é variável e depende tanto da amplitude da obra quanto das condicionantes técnicas em causa. Dantes, o compositor de uma sinfonia precisava de passar pela mediação da partitura para movimentar uma orquestra; hoje, todavia, graças ao desenvolvimento tecnológico, um sintetizador informatizado pode proporcionar ao músico Para a distinção aqui feita entre “artisticidade”, “esteticidade” e “pragmaticidade”, permito-me remeter para o livro «Metamorfoses do Real: arte, imaginário e conhecimento estético», onde a questão foi já aflorada. 10 Confronte-se, a este respeito, a distinção estabelecida por Alain entre artes solitárias e artes colectivas, bem como, numa outra perspectiva, a demarcação entre artes autográficas e artes alográficas avançada por Gérard Genette em «L’Oeuvre de l’Art», 2 vols., Paris, Seuil, 1997, vol.1, p.23. 18 solitário a regência de uma orquestra inteira sem necessitar de mais executantes! Já um tocador de violão pode ser autor e intérprete ao mesmo tempo (e tantos são os “cantautores”!); um dramaturgo pode ser ele próprio o intérprete de um monodrama; o cineasta de um vídeo intimista ou autográfico pode fazer tudo com a câmara e a mesa de montagem sem precisar de mais ninguém - e Robinson Crusoé, sem ser arquitecto, construiu a sua choupana numa ilha deserta! É que esta questão decorre não só da envergadura da obra, mas também da existência ou não de suporte técnico para registo da mensagem. Dantes – e não é preciso recuar muito mais de cem anos! - era impensável vir a inventarse um meio de gravação para o som directo (voz ou música). Os compositores esgotavam-se a desenhar notas musicais em papel pautado, e se Mozart se levantasse hoje do túmulo e viesse ouvir um gira-discos ou qualquer gravadorzinho de fita magnética a tocar obras suas acharia decerto que era milagre ou bruxaria... Mais: hoje, na era digital, um compositor tem nas suas mãos uma orquestra inteira com o simples comando de um teclado e de um rato de computador! O avanço tecnológico tornou relativamente dispensável o uso da notação musical quando o criador pode executar e deixar gravada a sua própria obra. É isto que faz um conhecido pianista (um “intérprete”, portanto) ter afirmações surpreendentes como esta por ocasião de uma entrevista (11): «O suporte do concerto é quase peça de museu, mas é engraçado que as pessoas ainda lá vão e gostam. Um recital de piano é um bocado absurdo: as pessoas sentam-se numa sala, a ver uma coisa mais ou menos estática, quando o podem fazer com muito mais comodidade em casa ou ter mesmo o próprio artista em realidade virtual. (...) O recital de piano está em vias de extinção. E, se calhar, o próprio pianista também!» Mas o lugar do intérprete e da partitura na música contemporânea é só parte de uma equação com muitas mais incógnitas. É que este tipo de avanços tecnológicos fazem mudar radicalmente as coisas na arte: o cinema, por exemplo, nasceu precisamente da possibilidade material - impensável durante milénios! - de preservar o som e a imagem em movimento. 11 Sobre as “artes de espectáculo” - Tadeusz Kowzan, em Littérature et Spectacle, caracteriza as artes do espectáculo como uma manifestação em que os produtos: 1º) são comunicados obrigatoriamente no espaço e no tempo, quer dizer, em movimento; 2º) são freqüentemente dotados de efabulação; 3º) têm habitualmente um alto grau de sociabilidade no plano da produção, da comunicação e da percepção. Contudo, a meu ver, todas ou quase todas as “artes” são passíveis de uma manifestação ao vivo (espectáculo) e/ou de um registo gravado ou transmissão diferida. A literatura caracteriza-se por possuir uma escrita, mas manifesta-se também sob a forma de uma apresentação ao vivo (recital de poesia, contador de histórias). O mesmo se passa com a música: registada (partitura) ou gravada (disco) e a música ao vivo (jazz, concerto de rock, concerto de câmara, raves). Também as artes plásticas têm as suas “instalações”, os seus happenings, as suas performances. A categoria das Pedro Burmester, JL de 30/6/1999) 19 “artes de espectáculo” não é assim uma categoria pertinente para caracterizar uma arte ou grupo de artes, mas antes um modo de manifestação ou meio de apresentação ao vivo e em directo de qualquer criação artística num estado de co-presença entre emissor e receptor. Falar de espectáculo é falar de um meio de comunicação presencial ao vivo e não de uma prática semiótica com identidade estética: tudo aquilo que pode ser inserido no campo do espectáculo (circo, desporto, teatro, dança, music hall, jazz, ópera, recital de poesia) pertence a um domínio que provém de uma linguagem estética prévia, normalmente possuidora de um meio de registo próprio que faz dela uma “obra”. A apresentação ao vivo é, assim, apenas uma modalidade de apresentação: é neste sentido que se poderá dizer que o teatro é apenas um meio de comunicação que implica a co-presença ou o contacto, no espaço e no tempo, entre emissores e receptores. É também nesta perspectiva que se torna válido afirmar que tudo pode ser dito em teatro: neste sentido, aliás, o teatro dramático pode ser de facto encarado como uma forma de manifestação ao vivo da literatura - de uma fábula, de uma história – conforme preconiza a teoria dos géneros tradicional! Assim sendo, não deveria falar-se em “artes do espectáculo”; mais correcto seria falar-se de “artes em espectáculo”... É que qualquer arte, enquanto obra, parece ser sempre susceptível de se materializar através de uma qualquer modalidade de manifestação ao vivo - seja ela um efémero concurso de esculturas de areia na praia! Sobre a imagem 3D – É por certo problemática a inclusão da holografia neste quadro sistemático atendendo ao próprio estado de indefinição e de inacabamento em que se encontra esta nova tecnologia 3D. “Esculpir fantasmas com um cinzel de luz”, assim foi já caracterizada a sensação de movimento que é dada pela deslocação do observador em torno da imagem – L3x(t). Para outros, a holografia parece ser tão-só o aperfeiçoamento da fotografia tridimensional (L3) com base na tecnologia laser; tal como, futuramente, o poderá vir a ser do cinema e da televisão, pela apropriação da 3ª dimensão real (e não ilusória, como é o efeito da perspectiva) – (L3)xT. Na intersecção da fotografia e da escultura, a holografia cria um duplo virtual do objecto: por isso mesmo, na tabela proposta, a incluímos à frente da escultura, já que ela pode ser o seu registo indicial, tal como a fotografia pode ser o registo indicial do desenho ou da pintura. Mas estas imagens suspensas no ar são intocáveis: quando a nossa mão tenta agarrá-las elas esquivam-se, desfazem-se, deixam-se atravessar e desaparecem. A holografia sofre actualmente o impacto da chamada “realidade virtual” (RV), que é uma técnica de produção informatizada de imagens de síntese com, igualmente, efeitos tridimensionais e de rotação no espaço do objecto face ao observador muitas vezes nele imerso. Contudo, todas estas tecnologias da imagem tridimensional (sonho antigo desde o velho cinema 3D com óculos polarizadores da luz) promete vir 20 revolucionar todas as formas de expressão assentes na imagem, quer indicial, quer icónica, quer de síntese. (12) 12 Sobre o cinema envolvente e a miragem da 3ª dimensão – Caso um dia venha a implantar-se qualquer tecnologia eficaz para um cinema a três dimensões (tipo “La Géode”, em Paris), importa desde já assinalar o quanto este velho sonho parece assentar num equívoco: equívoco que resulta de uma compreensão deficiente na natureza semiológica da imagem cinematográfica, que é um sinal e não um objecto. Se, ou quando, um cinema 3D existir (qualquer que seja a sua tecnologia de suporte: holográfica, RV, ou outra), a fórmula que lhe corresponderá será sempre do tipo: (L3)xT. Queremos com isto simbolizar que as três dimensões espaciais da imagem serão sempre “virtuais” e não “objectuais” (propriedade que distinguirá sempre a imagem 3D dos signos teatrais, cujas 3 dimensões espaciais são fisicamente reais: L3xT ). Um momento de dança pode fazer culminar a cumplicidade entre actor e espectador no palco de um teatro festivo, mas como imaginar esta intimidade corpórea com o fantasma virtual de uma personagem 3D? (13) Numa outra direcção caminha a chamada RV. A “realidade virtual” é um mundo sensorial criado por computação onde a pessoa tem a ilusão de mergulhar para lá da tela no interior das imagens: isto graças à utilização sistemática de um efeito de “câmara subjectiva” e do aproveitamento da 3ª dimensão numa espécie de zoom óptico que proporciona à pessoa a ilusão de avançar frontalmente, enquanto os objectos se deslocam à sua volta à medida que vai progredindo nesse espaço. A maior parte das vezes as próprias imagens são imagens integralmente sintetizadas por computador. Por meio de um conjunto sofisticado de efeitos electrónicos, o utilizador torna-se participante pleno do ambiente tridimensional (ou tem essa sensação): pode mesmo manipular os objectos presentes com as suas próprias mãos, através de luvas electrónicas dotadas de sensores tácteis. O freqüente uso de um capacete faz substituir o ecrã por uma espécie de binóculos em que a própria orientação da cabeça ou do corpo do utilizador faz rodar todo o espaço virtual em consonância com os seus movimentos corporais. Claro que o termo consagrado de “realidade virtual” só deverá ser entendido em sentido metafórico: por exemplo, como “espaço virtual” envolvente. A realidade, se é virtual, não é realidade. Trata-se, pois de uma simulação por meios tecnológicos de um efeito de realidade plurissensorial. A designação de “realidade simulada” seria, sem dúvida, mais correcta. Por isso mesmo muitas experiências deste tipo aplicadas ao cinema são realizadas em verdadeiros simuladores (caso do “Cinaxe” em Paris) suportados numa suspensão hidráulica, muito semelhantes aos simuladores de vôo utilizados em treino aeronáutico e espacial.. O objectivo é fazer mergulhar o espectador (espacialmente, cinestésicamente, etc) no próprio universo imaginário cinematográfico: daí que o discurso propriamente audiovisual quase sempre se aplique a domínios temáticos restritos Sobre a questão da imagem permitimo-nos remeter para um anterior artigo intitulado: “A imagem revisitada: da imagem-cópia do mundo à imagem-síntese de mundos”, in revista Última Geração, Porto, Nº 16-17-18, Outono 1992, pp. 57-65. 13 Cf. o nosso ensaio «Teoria do Teatro Moderno», Porto, Afrontamento, 1982: entre muita coisa que se tornou entretanto datada, a distinção aí feita entre teatro e cinema manter-se-á porventura válida... 21 compatíveis com efeitos de câmara subjectiva (percursos do género montanha russa, corridas de esqui, moto ou automóvel, acidentadas viagens de barco ou de helicóptero, ou mesmo viagens espaciais por planetas ignotos em contexto de ficção científica). Devido aos movimentos a que o espectador fica sujeito no seu lugar à custa do sistema de suspensão, é-lhe muitas vezes colocado um cinto de segurança para não cair. Desenvolvida a partir dos jogos de computador, esta tecnologia informática assenta em imagens de síntese que de certo modo começam a transmudar ou a pôr em questão a própria natureza indicial do cinema tradicional (feita de indícios fotográficos em imagens tomadas do real) - e esta é, quanto a nós a sua inovação mais significativa. 9. Três notas horizontais e quatro comentários verticais: Sublinhe-se que o esquema aqui proposto não é definitivo, nem tão pouco pretende ser exaustivo. Mesmo assim, quer-nos parecer que uma sistematização feita nesta base se revela desde logo operatória - por exemplo, na análise das transformações impostas a uma dada obra aquando da sua adaptação ou transposição de um discurso para outro discurso diferente. Claro que a presente tabela constitui um sistema aberto: nele se podem inserir indefinidamente novos discursos estéticos à medida que o desenvolvimento tecnológico os vai produzindo e a cultura individualizando. Mas nele também se podem considerar todas as artes mistas ou práticas semióticas de intersecção (é o caso das chamadas “instalações”, “performances”, etc.) para as quais é sempre possível traçar, caso a caso, o respectivo perfil semiológico. Muitas são as reflexões que a propósito deste modelo gostaríamos de desenvolver e não poucos serão também os seus pontos controversos. Na impossibilidade de o fazermos ao longo destas páginas, iremos restringir-nos a umas tantas observações esparsas, abrangendo algumas das quadrículas horizontais e verticais. 9.1 Matrizes horizontais 9.1.1 Música 22 A não-referencialidade dos sinais musicais não implica que estes não desprendam um significado, não possuam uma dimensão semântica; o que com isto sugerimos é o facto de não ser possível fazer corresponder a um som, ou a uma frase musical, um objecto preciso da realidade tal como acontece com uma palavra ou uma imagem visual. A referencialidade musical, a existir, só numa extensão metafórica nos parece admissível, pois ela parece ligar-se, quando muito, à esfera das emoções ou das estruturas abstractas (como sejam as configurações matemáticas). Aliás, pelo seu carácter formalista e marcadamente sintáctico, já a música tem sido chamada de “matemática das artes”. Mesmo quando a música se quer descritiva, ou figurativa, como nas ambições realistas de um Mussorgsky, podemos reparar que são os títulos e os subtítulos das peças, expressos em palavras, que antes de mais nada nos induzem à vaga referencialidade dessa música. Aliás, mesmo neste caso, não parece haver referência, mas tão-só um maior grau de iconicidade, ou de analogia, entre os sons musicais e os ruídos próprios das cenas evocadas (sinos de uma aldeia, o rodar lento de um carro de bois...): ora isto não passa de um mero efeito de "harmonia imitativa" semelhante àquele que por vezes se detecta no interior da própria linguagem poética, quando o som pretende imitar o significado. Referencialidade, a bem dizer, só parece legítimo falar-se dela no caso específico da música concreta: feita, como é, de ruídos, ou seja, de “indícios” emanados de objectos concretos (sirenes de uma fábrica, alarme de ambulância, silvo do vento, rumor das ondas do mar, etc.). A música é constituída por elementos distintivos, mas estas unidades elementares (as “notas”) são assignificantes em si mesmas; só adquirem valores expressivos quando inseridas num trecho musical. 9.1.2 Arquitectura Para lá de um aspecto bem específico desta modalidade artística, que é o da sua funcionalidade (ao criar, por definição, um espaço habitável), reflexões semelhantes às anteriores poderiam fazer-se neste caso. Porque também a arquitectura possui uma dimensão semântica: quando as linhas verticais de uma catedral, por exemplo, parecem significar a própria ascensão mística, em direcção ao céu, dos apelos nela entoados. Mas por vezes torna-se difícil discernir onde começa a vocação escultórica de uma construção arquitectónica (e não é só uma questão de escala). Casos há, como por exemplo, o hoje célebre Museu Gugenheim em Bilbao, de Frank Gehry, que parece 23 posicionar-se numa zona fronteiriça entre a arquitectura e a escultura, o dentro e o fora, a forma oca e a forma maciça. E casos de intersecção como este seriam intermináveis. 9.1.3 Rádio e televisão – o caso particular do cinema Seria decerto controverso alinharmos estes dois meios de comunicação na mesma coluna que as outras "artes". Com efeito, a rádio e a televisão talvez não devam ser consideradas verdadeiras formas de arte, ou sequer práticas semióticas novas, já que não são portadores de sinais que lhes sejam específicos (um simples relance às outras quadrículas pode evidenciar este facto ). A sua condição parece limitar-se à de simples meios de transmissão como canais difusores de sinais que lhes pré-existiam e são próprios de outras artes (sons, palavras, ruídos, imagens, etc.). Se o cinema se constituiu indubitavelmente como uma arte autónoma foi, no nosso modo de ver, porque ele veio dar origem a uma forma de expressão realmente assente em sinais novos, isto é, semioticamente diferenciados: a imagem em movimento. Uma tal prática semiótica, possibilitada pelo registo de imagens visuais (depois audiovisuais, com o cinema sonoro) e animadas de movimento (L2xT), nunca tinha existido antes. Por isso mesmo o vídeo, enquanto tecnologia mais recente de registo audiovisual, apenas surge como um sucedâneo electrónico da antiga filmagem sobre película fotossensível: do ponto de vista semiótico, em nada se distinguem. Como em nada interfere hoje o suporte digital com a natureza semiológica da linguagem cinematográfica em si mesma (salvo o aparecimento da imagem de síntese, que é uma outra questão). As diferenças que possa haver são do foro técnico e estilístico, não do foro semiótico, apenas confirmando uma vez mais o lema de que “o medium também faz a mensagem”. Ora a rádio, enquanto puro canal de transmissão sonora, limitou-se a veicular até grandes distâncias e para uma larga faixa de ouvintes um conjunto de sinais préexistentes (palavras, sons musicais, ruídos) os quais se constituíam já em práticas semióticas bem diferenciadas (literatura, música). A sua principal novidade residiu no enorme poder de alcance com que, instantaneamente, atravessava o espaço: daí a sua imediata vocação para a difusão de mensagens informativas, isto é, não estéticas, mas noticiosas. No plano propriamente artístico, o seu efeito parece ter-se aplicado na combinação em plurissignos dos vários 24 sinais de que era portadora: deste modo a rádio vai promover, não propriamente o nascimento de "novas artes", mas sim de "géneros artísticos" próprios: caso do rádiodrama ou da rádio-novela. A novidade destes géneros narrativos radiofónicos residiu precisamente no hibridismo com que fundia elementos sonoros de vários outros discursos estéticos. Mas ao revitalizar a dimensão oral da palavra literária, ou ao associar-lhe a música e o ruído, temos de reconhecer que uma tal combinatória nem sequer é específica da rádio, pois o disco, ou qualquer outro suporte sonoro, pode cumprir do mesmo modo uma tal missão: e quantas das crianças que fomos não ouviram, no gira-discos, a história do Capuchinho Vermelho? Outrotanto poderíamos dizer a respeito da televisão, enquanto meio de transmissão de imagens audiovisuais. Analisando o seu perfil semiológico, a linguagem televisiva identifica-se quase inteiramente com a linguagem cinematográfica: só a simultaneidade temporal na relação comunicativa instaurada (pormenor que adiante retomaremos) é que lhe vai dar alguma especificidade, como acontece nos tão proclamados "programas ao vivo" e nas "transmissões em directo". Também os géneros narrativos a que dará origem - tele-teatro, telefilme, telenovela... - apenas comportam como novidade um certo hibridismo estilístico, já que em nada se diferenciam semioticamente do cinema. As experiências de seriados televisivos do tipo “Você decide”, apenas resultam da acoplagem de um outro meio, como é o telefone, tirando partido da transmissão em directo: isso permite plebiscitar o final pretendido pela audiência, numa simples agulhagem dicotómica da narrativa, já que, é preciso não esquecê-lo, os dois finais possíveis se encontravam pré-gravados, limitando-se o público a uma escolha e não a uma verdadeira interferência no conteúdo da mensagem fílmica... Importa sempre em casos como este distinguir o que é uma arte (enquanto prática estética dotada de sinais específicos) e o que pertence ao domínio técnico do seu suporte de registo ou de transmissão. Para o caso do cinema, se ele se constituiu como linguagem autónoma, foi pela sua capacidade de registar a imagem em movimento (e essa é que foi a sua inovação semiótica) – o facto de ser gravado em película, vídeo ou disco digital tem a ver com o meio técnico de suporte, tal como o facto de ele ser apresentado em ecrã ou num monitor de televisão ou de computador diz respeito ao meio de transmissão utilizado – uma obra como Tempos Modernos, do Chaplin, é sempre a mesma obra em qualquer das situações, como é óbvio. 25 Isto não nos deve, contudo, fazer esquecer uma propriedade fenomenológica do cinema tão importante, ainda, no domínio do cinema de carácter científico: é que o cinema manifestou-se também como uma espécie de telescópio temporal. Telescópio e microscópio temporal capaz de contrair ou dilatar o movimento inobservável a olho nu: o desabrochar de uma flor ou a morte de um condutor num acidente de automóvel. Em suma: importa não confundir aqui dois níveis de análise: aquele, mais geral, que visamos com o presente estudo e que tem a ver com uma "tipologia das artes" enquanto práticas sígnicas dotadas de autonomia estética, e esse outro, quando falamos em "radioteatro", "teleteatro" ou "telenovela", que se situa num outro nível, e que tem a ver com o problema da "teoria dos géneros" (14). A rádio e a televisão aparecem, de facto, com uma particularidade inovadora no que respeita à situação de comunicação; no campo dos meios de difusão de massa (relação: um/todos), elas particularizam-se pela transmissão em directo (E x T = e' x T) – o que lhes granjeia uma relativa especificidade estitística. Mas o facto de terem dado origem a novos géneros socialmente marcantes tem mais a ver com a sua força institucional do que com a sua especificidade semiótica – o telefone (relação um/um), por exemplo, que também teve as suas tentativas de aproveitamento estético (nos contos ao telefone, Favole al telefono, de Gianni Rodari), não teria a mesma fortuna. (15) Isto, porém, entra já no campo da sociologia da arte e da estética da recepção. A este nível não são estranhas as condicionantes técnicas e sociais que, num dado momento histórico, afectam as condições de produção das respectivas mensagens: é nesta perspectiva que não podemos desligar um género literário tão em voga no século passado, como foi o romance em folhetins, da eclosão da era da imprensa periódica e da popularidade de que o jornal, então, gozava. Do mesmo modo, se queremos reflectir comparativamente sobre os géneros cinematográficos e os géneros televisivos, por exemplo, uma análise estilística não dispensará que se tenham em linha de conta condicionantes tecnológicas, económicas e mesmo institucionais, que tão profundamente têm marcado quer o cinema quer a televisão. Se a "telenovela", retomando para o audiovisual a tradição do folhetim literário em episódios diários, se constituiu como um género característico da televisão, tal não deriva de qualquer particularidade semiótica 14 Reservamos a discussão deste problema para uma outra oportunidade: “Liricidade e narratividade como categorias estéticas gerais” (a publicar). 15 Salvo o caso, em extinção com a Internet, dos “telefones eróticos”. 26 mas sim das condições sociológicas que enquadram a própria instituição televisiva: a TV entra em nossa casa, onde diariamente nos costumamos (ainda) encontrar à hora das refeições, ao passo que seria bem difícil levar todas as noites os espectadores ao cinema para verem um filme projectado ao longo de 365 episódios! É fundamentalmente por isto, e não por razões de ordem puramente estética, que a "telenovela" se apresenta hoje como um género narrativo caracteristicamente televisivo e não cinematográfico. O mesmo tipo de reflexões se poderiam hoje fazer para a narrativa literária “interactiva” surgida com a explosão da Internet e da Web-arte. Por si mesmos, os media, quer sejam de registo ou de transmissão - livro, jornal, disco, audiocassete, telefone, rádio, filme, videocassete. televisão, etc. -, não dão origem a "artes" propriamente ditas: apenas as registam, transferem e difundem, consoante a vocação tecnológica para que foram concebidos. A definição das artes, como vimos, assenta as suas raízes na organização em sistema de um determinado tipo de sinais. 9.2 Matrizes verticais 9.2.1 Natureza física dos sinais Discriminamos aqui a morfologia externa dos sinais, considerados na sua materialidade física e segundo um quadro de referência a quatro dimensões: três dimensões espaciais (do inglês length: L3) e uma temporal (T). Sem dúvida que nenhum sinal se manifesta fora do espaço e do tempo, e aqui são válidas as palavras de Jakobson que atrás evocamos a propósito da cisão entre artes do espaço e artes do tempo. Parecenos contudo útil, como fez Abraham Moles na sua Teoria da Informação e Percepção Estética, destrinçar os sinais consoante as dimensões que neles são mais manifestas. Assim, no que diz respeito à música, bem como à literatura oral (oratura) - e, conseqüentemente, à rádio - os respectivos sinais são aqui encarados como modulações da duração e, nessa qualidade, como mensagens temporais puras (T). Mais óbvio será o caso da pintura ou da fotografia: baseando-se num sistema de projecção dos objectos sobre uma superfície plana, só duas das dimensões espaciais são fisicamente reais (L2), sendo a terceira, como “perspectiva” ou “profundidade de campo”, sempre ilusória. 27 No que diz respeito à banda-desenhada ou à fotonovela, a componente temporal, que lhes dá a vocação narrativa, não surge intrinsecamente associada à estrutura da mensagem; é-lhe emprestada do exterior pelo acto de leitura que vai seriando no tempo as imagens sucessivas. Por isso sinalizámos aqui entre parênteses essa componente temporal: L2 x (t). O mesmo sucede na literatura com a linha escrita (manuscrita ou tipográfica) onde a dinâmica da leitura é que anima de sentido a mera justaposição de letras inertes: L x (t). Já na “poesia visual” é a superfície bidimensional da própria página que normalmente se explora - L2 - aproximando-a assim das artes gráficas (cartaz), bem como daquele campo da expressão plástica que toma de empréstimo a letra como matéria pictórica (caso dos quadros de Emerenciano, para citarmos um exemplo que nos é chegado). Já no cinema ou no desenho-animado, essa dinâmica temporal faz parte integrante da própria estrutura da mensagem: L2 x T. E uma confusão abusiva tem algumas vezes aproximado estas artes da área do teatro (L3 x T): poderia com efeito pensar-se, numa abordagem mais precipitada, que um desenvolvimento das técnicas holográficas ou da RV, tornando realidade o mito do cinema tridimensional, acabaria por identificar as duas mensagens. Puro equívoco: mesmo que uma outra diferença essencial no tocante às respectivas situações de comunicação os não demarcasse de forma irredutível, a tridimensionalidade do cinema e do teatro assentaria ainda assim em qualidades sensíveis também elas inconfundíveis. A tridimensionalidade dos signos teatrais possuem uma materialidade objectual (pois são objectos e pessoas fisicamente reais que se apresentam como signos de outros objectos e outras pessoas), enquanto num ainda hipotético cinema tridimensional (e por efeito da situação de comunicação que lhe é inerente, impondo uma distanciação entre emissores e receptores: E.T ≠ e'.t') nunca os seus signos abandonariam a condição puramente sígnica ou imagética (isto é, continuariam a ser "imagens" ainda que projectadas a três dimensões, de pessoas e de objectos fisicamente ausentes). A diferença ontológica está entre coisas e imagens. Por isso mesmo, um aperto de mão entre emissor e receptor é sempre possível no espaço teatral, mas essa tactilidade como poderia existir com o fantasma 3D de uma mão holográfica? 9.2.2 Relação ôntica dos sinais 28 Adoptámos aqui a relação sinal/realidade tal como a precisou Benveniste e não na perspectiva saussuriana: na verdade, não é a relação significante/significado que é passível de ser motivada ou convencional, porque essa relação é sempre convencional; uma tal distinção só faz sentido quando encarada na relação do signo, na sua totalidade, com a "coisa" significada, com o seu referente. Nesta linha, balizámos os diferentes sinais de acordo com a tríade clássica, simplificada, a partir de Peirce: indícios (onde a relação sinal/referente assenta numa relação natural, de causa e efeito, e portanto motivada fumo como sinal de fogo): ícones ou imagens (onde essa relação é analógica, e portanto mais ou menos motivada, mas convencional e culturalizada - o desenho de uma árvore); e palavras ou signos verbais, inadequadamente muitas vezes designados como "símbolos" (onde essa relação é digital, arbitrária e convencional). Nesta discriminação introduzimos as precisões feitas por Umberto Eco, no seu Trattato di Semiotica Generale, a propósito dos três pares de conceitos antinómicos que tantas vezes surgem confundidos: analógico VS digital motivado VS arbitrário natural VS convencional Neste sentido, nem a motivação nem a analogia excluem a convencionalidade: é por isso que o ícone, ao ser analógico e motivado, não deixa de ser também convencional, quer dizer, fortemente culturalizado. O mesmo se verifica na fotografia, onde a convencionalidade relativa introduzida pelo fotógrafo não exclui o seu carácter fortemente indicial, já que a produção das suas imagens assenta em fenómenos físicos naturais regulando a trajectória dos raios luminosos desde um objecto material até à sua imagem projectada sobre película fotossensível. É esta relação de causa-efeito que pressupõe o "ter-estado-lá" do objecto, ou seja, a existência, pelo menos passada, no mundo das coisas, dos objectos que constituem o seu referente; é essa matriz indicial da fotografia que lhe dá o valor testemunhal e probatório que todos lhe reconhecemos (a própria "trucagem" só o é porque radica neste pressuposto). Já o desenho e a pintura, por mais realistas (ou analógicas) que sejam, assentam numa outra relação, marcadamente icónica: ela não é a materialização directa da imagem de um objecto exterior, mas sim a fixação da imagem mental que dele forma o pintor. 29 É por isso que todos usamos no bilhete de identidade uma fotografia e não um retrato pintado e muito menos uma caricatura: é que a fotografia, tal como a impressão digital, constitui um indício individualizador da nossa pessoa física. Pela mesma razão os jornais vêm carregados de fotografias como prova testemunhal dos factos noticiados. Todavia, hoje, a imagem de síntese, produzida por computador, pode bem estar a revolucionar ou a esbater todo este estado de coisas: não foi ainda há muitos dias que, fazendo zapping na televisão, ficámos abismados com um documentário da BBC que reconstituía, com perfeição cinematográfica, todo o ambiente de uma floresta jurássica povoada de dinossauros – milhões de anos depois do desaparecimento desses seres, a computação gráfica permitia-nos visualizar todo aquele período da história da Terra tal qual os dados científicos o fazem supor... Isto conduz à necessidade (salientada ainda por Umberto Eco no Trattato) de se conceber o iconismo, não como uma delimitação estanque, mas como um conceito susceptível de gradação contínua consoante o maior ou menor grau de analogia mantido pela mensagem com a realidade designada: neste sentido poder-se-á dizer sempre que uma fotografia é mais icónica do que uma pintura ou que o cinema é mais icónico do que o desenho animado; ou ainda, cotejando estilos, que o estilo naturalista é mais icónico do que o estilo romântico ou o estilo expressionista mais icônico do que o estilo cubista. Estas precisões evitarão alguns equívocos na interpretação da correspondente quadrícula. 9.2.3 Situação de comunicação e direcção da mensagem Definimos aqui situação de comunicação como sendo a relação que no espaço e no tempo se estabelece entre emissores e receptores; por outras palavras, a relação entre o contexto espácio-temporal que envolve os emissores (E.T) e o contexto espáciotemporal que envolve os receptores (e.t). Partimos, para tal, da distinção que faz a Teoria da Informação entre canais de registo (ou canais temporais) e canais de transporte (ou canais espaciais): os primeiros, caso da arquitectura, limitam-se a conservar uma mensagem ao longo do tempo sem a deslocar no espaço (um monumento megalítico, por exemplo); os segundos visam a transmissão duma mensagem de um lugar para outro no mesmo instante (telégrafo, telefone, rádio, televisão). Por isso, no primeiro caso, entre emissores e receptores há 30 apenas coincidência no espaço, mas distanciação no tempo (diferença que assinalamos por meio dum diacrítico: E.T = e.t'); enquanto nos segundos há distanciação no espaço, mas coincidência no tempo (E.T = e'.t). Contudo, a maioria dos canais são simultaneamente espaciais e temporais, pois permitem a conservação da mensagem no tempo e transferem-na também de um lugar para outro (livro, jornal, carta, disco, filme, cassete, etc.): são canais mistos, de registo e de transporte (ou espácio-temporais). É óbvio que nestes casos há normalmente um desfasamento quer no espaço quer no tempo entre emissores e receptores (E.T = e'.t'): entre os actores em imagem numa tela de cinema e os espectadores, nenhuma possibilidade de contacto; a direcção da mensagem não pode, por isso, seguir outro sentido que não seja a linha unidireccional emissão → recepção. Já os canais meramente espaciais podem, pela ligação no tempo que proporcionam entre emissores e receptores, tornar-se bidireccionais: caso do telefone (do qual a rádio se serve frequentemente para obter, em parte, um mesmo efeito); potencialmente, também a própria televisão a isso aspira (a videoconferência, o videotelefone e a televisão interactiva são já disso as primeiras manifestações). Não fora esta possibilidade da “transmissão directa”, ou das “transmissões ao vivo”, e a televisão identificar-se-ia completamente com o cinema (como o perfil semiológico exposto no nosso quadro deixa bem patente). Isto explica a vocação da TV para a difusão do cinema, cuja natureza semiótica é rigorosamente similar: por isso mesmo a televisão exibe sempre qualquer filme sem necessidade de adaptação (essa a razão porque, na tabela aqui proposta, se referenciou a TV com meio de transmissão para o cinema, embora colocando a sua situação de comunicação entre parênteses, pois o registo escrito em que assenta o cinema lhe retira, por definição, qualquer efeito de simultaneidade temporal). Já a inadequação da TV para a transmissão teatral, cuja natureza semiológica é distinta, fica patente no indispensável trabalho de adaptação que a qualquer peça é sempre acrescentado aquando da transmissão televisionada, como aliás se comprova no, erradamente chamado, “tele-teatro”. Quanto ao Teatro propriamente dito, que coloca em presença emissores e receptores (E.T = e.t), a primeira consequência é desde logo a bi-direccionalidade possível da sua mensagem (E R), tornando viável a participação do público no espectáculo: e a pesquisa dos aspectos ritualistas feita por certo teatro contemporâneo (o chamado teatro-interactivo, o teatro de participação e o teatro-ritual) transforma-o mais 31 numa "vivência estética" do que na mera "vidência" à qual se vinha resumindo o teatro tradicional que acentuou, durante séculos, o lado meramente espectacular (unidireccional). Todas as demais peculiaridades semióticas que definem a teatralidade podem igualmente explicar-se pela situação de comunicação que lhe é própria: a plurisensorialidade da mensagem (sensações audiovisuais, mas também tácteis, motrizes, olfactivas, gustativas, térmicas e outras) numa activação plural de todos os sentidos, propiciando, como lhe chamou Barthes, uma verdadeira "polifonia informacional"; e a tridimensionalidade real dos seus signos possibilita, enfim, o envolvimento completo dos espectadores no interior da mensagem, como sucede com o teatro ambiental, criando uma variedade infinita de espaços cénicos envolventes (o espaço teatral encarado à maneira da página em branco do poeta). É deste modo que pode ser criada uma verdadeira vivência estética (16) - poder que só o teatro, e mais nenhuma arte, detém. ( 17) Mesmo quando a televisão venha a adquirir uma autêntica bidireccionalidade (videoconferência, vídeotelefone e futura televisão interactiva) ou mesmo a tridimensionalidade (holográfica ou em tecnologia RV, já futurizável), a ligação mútua das pessoas no eixo do tempo continua a conjugar-se, por definição, com a sua separação no eixo do espaço: pode então surgir o diálogo e o contacto verbal, sonoro, visual ou mental. Mas algum dia haverá a ilusão perfeita do contacto físico, táctil, corpóreo? Um sistema de videoconferência 3D, já hoje previsível, apenas poria dois amantes em contacto audiovisual, verbal e psíquico: colocados frente a frente, poderiam despirse, exibir os seus corpos, trocar palavras amorosas, mas ficariam irremediavelmente condenados à masturbação simultânea (esse é o equívoco sensacionalista do tão proclamado “sexo virtual”). Só a relação teatral (entenda-se, em co-presença) lhes facultaria o contacto físico, a relação sexual procriadora - enfim, o corpo-a-corpo de uma relação humana na dimensão mais plena. 16 Cf. Pedro Barbosa, “Em prol de um teatro vivencial”, in «Letras & Letras», Porto, ano III, Nº 32, Agosto 1990; e também “Considerações em prol de um teatro vivencial”, comunicação apresentada ao 11º Congresso da Associação Internacional de Críticos de Teatro, realizada na Fundação Gulbenkian, Lisboa, 11-15 de Setembro de 1990, texto publicado no livro trilingue «O Teatro e a Interpelação do Real» («Theatre: a Dialogue with Reality/Théâtre et Interpellation du Réel»), Lisboa, APCCT/Edições Colibri, 1992, pp. 124-129. 17 Abstemo-nos de analisar aqui mais detalhadamente toda a questão da "teatralidade", bem como as relações contrastivas entre teatro-cinema-televisão, porquanto tivemos já ocasião de o fazer num livro anterior, atrás mencionado, «Teoria do Teatro Moderno». 32 Esse terá sido o sentido com que, nos idos anos setenta, Franck Jotterand definiria provocatoriamente o teatro: «Un rapport sexuel entre la scène et la salle». ( 18) É que só o Teatro permite a plena manifestação do ser vivo num espaço multidimensional que, segundo a fórmula de Henri Prat (19), vem definido assim: l3 . tn . em . is Sendo: l uma dimensão espacial (l3 - espaço geométrico); t um tempo (evolutivo, cíclico, etc.); e uma energia (equivalente a uma certa quantidade de matéria, m, segundo as teorias de Einstein); e i uma informação. Deste modo se conjugam as teorias do espaço-tempo einsteineano com as concepções biológicas e antropológicas definidas a cinco dimensões, ou parâmetros, num hiper-espaço: INFORMAÇÃO ESPAÇO MATÉRIA TEMPO ENERGIA A principal novidade neste modelo biológico, aqui aplicado ao homo comunicans da Semiótica, está em incluir a informação como um 5º parâmetro definidor dos organismos vivos (a palavra informação é todavia utilizada no sentido de estabelecimento ou aquisição de uma “estrutura”, e não no de transmissão de informações). Segundo esta concepção muito abrangente, o mundo é um espaço multidimensional a N parâmetros, ou, se se preferir, um hiper-espaço a cinco dimensões(20): espaço, tempo, energia, matéria e informação. A inclusão da informação configurada na estrutura (is) parece-nos ser uma ideia, de largo espectro, vocacionada também para ser aplicada ao mundo cultural e à esfera da 18 Cf. Franck Jotterand, Le Nouveau Théâtre Américain, Paris, Seuil, 1970, p. 58. 19 Cf. Henri Prat, L'Espace Multidimensionnel, Presses de l’Université de Montréal, Canadá, 1971 ; citado por Jean Cloutier em «A Era de Emerec», Lisboa, Instituto de Tecnologia Educativa (MEIC), 1975. 20 “Este hiper-espaço já não é concebido como sendo formado por pontos sem extensão (conforme tradicionalmente nós representamos o espaço), nem por instantes sem duração (como concebemos muitas vezes o tempo) mas sim por micro-hiper-volumes infinitesimais, englobando cada um energiamatéria, informação, extensão, duração e manifestação de campos de força, formas diversas de um mesmo campo unitário, podendo ser compreendidas como deformações desses hiper-volumes.” (Ibid, p. 226). 33 significação. É um dado adquirido para a biologia contemporânea falar-se hoje da “informação” contida no código genético, ou seja, na “estrutura” molecular do ADN, a qual vai determinar a definição da espécie e do ser vivo individual. Mas o parâmetro “informação” não é menos essencial para a compreensão do estatuto fenoménico da obra de arte. É exactamente aqui que se recorta a distinção entre objecto de uso prático e objecto estético: o primeiro existindo apenas no mundo físico das dimensões matéricas (l3 . tn . em), o segundo emergindo, para além deste nível, no mundo simbólico da informação e do sentido (is). É por essa razão que um sabonete se desgasta com o uso entre as nossas mãos; ao passo que uma pintura, uma escultura ou um poema, não. Bem ao contrário: a obra de arte multiplica infinitamente a sua existência por cada acto de fruição (interpretação) a que é sujeita. É isso que assegura a tão celebrada perenidade, ou antes, a resistência ao tempo, própria da obra de arte: por oposição à caducidade consumível dos objectos de uso prático. A diferença está entre átomos e bits. Ora, sendo a obra artística uma mensagem, ela manifesta a sua existência na esfera da significação, pelo que a sua essência está antes na estrutura de sinais que a configura, e não na estrutura de átomos que apenas constitui o seu suporte. A obra de arte, neste enquadramento, pode então ser definida como uma estrutura simbólica portadora de informação estética (ei). Por outras palavras: um sabonete, enquanto puro utensílio quotidiano, vai gastando a sua estrutura matérica com a lavagem das nossas mãos até se reduzirem a zero as moléculas que o constituem; contudo, um sabonete em forma de coração que é oferecido pelo dia dos namorados com função simbólica, cumpre talvez melhor essa função se for guardado numa gaveta ou exposto numa vitrina do que se for usado no banho com função higiénica – é que ele começa a adquirir uma estrutura de significação que se pode sobrepor à função utilitária, levando a pessoa que o recebeu a optar entre estes dois modos de ser. É isto que caracteriza esses objectos dúplices e ambíguos a que chamamos objectos estéticos, os quais se encaminham para o estádio de obras de arte à medida que se vão manifestando como estruturas de sentido e, portanto como “mensagens” (mensagens estéticas). 34 É também aqui que função prática e função estética se interseccionam (21) – mas só quando um objecto é trasladado de um para o outro lado dessa fronteira, ou seja, do mundo físico para o mundo simbólico, é que ele assume o estatuto artístico. É também esta a razão pela qual o preço de uma obra de arte, em termos económicos, se rege mais por um valor simbólico de ordem cultural do que pelo seu custo de produção (ignoremse aqui as aberrações da massificação e do consumismo). É também por isso que se torna perversa e não faz sentido a questão «Para que serve a obra de arte?», quando colocada ao mesmo nível de perguntas como «Para que serve uma ponte?» ou «Para que serve uma garrafa?». É que a “utilidade” da Arte, ou melhor, a sua função, situa-se ao nível da significação na esfera cultural (no mundo dos bits) e não no mundo das coisas, que é a esfera da acção prática (o universo dos átomos). É assim que as Bucólicas, de Virgílio, continuam a “significar”, a produzir sentido, ou seja, a funcionar como obra poética, apesar do desgaste ou mesmo da morte dos livros que lhes foram servindo de suporte. É assim que funcionam as imagens materializadas na tela por Bosch ou as estruturas sonoras preservadas nas partituras por Beethoven. Em Arte estamos no reino dos sinais: imperam aqui as estruturas de informação, não quaisquer estruturas de átomos vazias de sentido. 9.2.4 Multimédia e artes tecnológicas Hoje, cada vez mais os novos meios tecnológicos incorporam nas suas mensagens diferentes sistemas sígnicos transferindo para o mesmo suporte digital diferentes linguagens historicamente diferenciadas. O visual, o acústico e o verbal interpenetram-se na forma de mensagens autónomas: os intermédia e os multimédia são disso exemplo, consoante a tónica é colocada na síntese ou no somatório de linguagens. Tais manifestações estéticas promovem o diálogo intersensorial, sinestésico, entre as várias práticas semióticas: arte computacional, poesia concreta, videoarte, videotexto, 21 Permitimo-nos remeter aqui de novo para o nosso livro «Metamorfoses do Real: arte, imaginário e conhecimento estético», onde a distinção entre objectos de uso prático, objectos estéticos e obras de arte foi objecto de abordagem num enquadramento de teor cognitivista. 35 intermédia, multimédia, holografia, ciber-arte, web-arte, etc., conquistam especificidade artística justamente à custa do seu carácter híbrido ou do seu carácter múltiplo. Os novos meios tecnológicos vêm assim romper parcialmente com os quadros de delimitação historicamente consagrados, ainda que tal delimitação continue a tornar-se necessária como instrumento de análise e clarificação teorética. Ou, como afirmam Julio Plaza e Arlindo Machado na apresentação feita para a exposição "Artecnologia" em São Paulo (Museu de Arte Contemporânea, U.S.P., 1985), estas novas manifestações estéticas reclamam, antes do mais, uma reflexão intersemiótica. Entre elas: intermédia ou o uso concomitante de diversos meios; videoperformance ou o uso teatral do vídeo; videoarte ou o vídeo como registo-acçãomontagem; holografia para a criação de holopoemas; arte por computador colocada ao serviço das artes gráficas, da música, do cinema e da linguagem verbal. (22) Mas a informática e a tecnologia digital não se limitou a incrementar novos discursos artísticos: são também novas estruturas textuais que começam a emergir no campo sem limites da computação multimédia – o hipertexto, o texto animado por computador, a geração automática de texto. (23) 10. Apara final sobre a arte computacional Faça-se, enfim, uma referência breve a esta nova tecnologia cujo princípio assenta precisamente na manipulação de sinais: a informática. Uma das suas vertentes, próxima da Inteligência Artificial, expande-se directamente sobre o domínio da criação artística: da música às artes plásticas, do cinema à literatura. Porque não lhe abrimos então uma rubrica entre as demais práticas estéticas novas? Exactamente porque a "arte gerada por computador" não constitui, a nosso ver, uma arte nova mas tão-só uma nova forma de produzir arte: o computador não manifesta peculiaridades sígnicas que o individualizem como um discurso estético distinto dos demais; limita-se a manipular, segundo modelos previamente programados, sinais próprios das outras artes: linha, cores, imagens, palavras, sons. 22 Cf. Arlindo Machado, Máquina e Imaginário (o desafio das poéticas tecnológicas), 2ª edição, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 1996. 23 Cf. o site do Centro de Estudos sobre Texto Informático e Ciberliteratura: http://www.ufp.pt/units/cetic/index.htm 36 Enquanto elaborador de signos e dotado de maior ou menor autonomia consoante o programa nele introduzido, onde o computador parece vir causar maior perturbação nas idéias estabelecidas é no próprio conceito de "Arte". A simples interposição de um mecanismo "cibernético", isto é, dotado de relativa liberdade maqínica entre emissor e receptor, vai alterar radicalmente a relação criativa e comunicativa entre eles instaurada. Ao ponto de haver ainda quem pretenda absurdamente negar à arte computacional, por esse facto, o estatuto estético. 1ª mensagem Emissor 2ª mensagem Máquina programa + dados Receptor produtos estéticos executados Fica deste modo reservada ao artista a concepção da obra, cabendo à máquina a sua execução. E se a "arte computacional" não dá propriamente origem a sinais novos (pelo menos no estádio de desenvolvimento que lhe conhecemos hoje...) vai, contudo alterar significativamente o estatuto fenoménico dos sinais sobre que se constituem os seus produtos estéticos. Como tivemos já oportunidade de discutir em alguns livros anteriores (24), nos quais tentámos delinear uma "teoria do texto computacional", a interposição do computador na produção estética leva-nos a inserir o conceito de intencionalidade para definir o estatuto novo dos seus sinais. Com efeito, a "liberdade maquínica", introduzida pelo programa no computador, produz com frequência a sensação de que a obra escapa de certa maneira ao seu criador, como se ela tivesse mais origem na máquina do que no artista que a programou. Se isso acontece já em programas de base combinatória dotados de um largo espectro repertorial, essa "liberdade maquínica" parece atingir o seu grau máximo quando o computador labora como gerador aleatório: aqui, na verdade, os produtos estéticos resultantes parecem constituir-se sobre sinais tendencialmente não intencionais. E, isto só, bastaria para nos levar a repensar a uma nova luz o próprio conceito de Arte e de objecto estético. Mas sobre isso não tem menor incidência a extrema racionalidade que a 24 «A Literatura Cibernética 1: autopoemas gerados por computador» - Porto, Edições Árvore, 1977; «A Literatura Cibernética 2: um sintetizador de narrativas» - Porto, Edições Árvore, 1980; «Máquinas Pensantes: aforismos gerados por computador» - Lisboa, Livros Horizonte, 1988; «Teoria do Homem Sentado» (livro electrónico em disquete incluindo o gerador textual automático "Sintext"); em colaboração com Abílio Cavalheiro - Porto, Edições Afrontamento, 1996; «O Motor Textual» (livro electrónico infinito em CD-ROM, c/ colaboração de J. M Torres) - Porto, Edições UFP, 2001; «A Ciberliteratura: criação literária e computador» - Lisboa, Edições Cosmos, 1996. 37 programação requer do labor estético, bem como o aparecimento dessa nova personagem, que é o "artista programador", trabalhando em íntima simbiose com a máquina. Isto, aliás, reclama antes do mais uma cisão do acto criativo nos seus dois momentos: concepção e execução. ARTISTA + MÁQUINA → OBRA(s) → FRUIDOR (concepção) (execução) Por isso mesmo, insistimos, a ciberarte parece reflectir-se prioritariamente sobre o modus operandi das várias práticas estéticas a que se aplica: no quadro do presente sistema, a arte computacional apenas recomendará que se abra para cada uma das artes em que se exerça (música, desenho, pintura, artes gráficas, cinema, animação, literatura...) uma sub-modalidade cuja discriminação terá a ver com o grau de intencionalidade transportada pela respectiva mensagem. À parte esta alteração no estatuto fenoménico das mensagens estéticas préexistentes, não é de supor, cremos (atendendo ao estado actual da informática), uma alteração tão radical que dela possamos esperar o nascimento de uma verdadeira nova arte. Mas talvez seja prematuro emitir juízos definitivos num domínio em plena fase expansional. E por maior prudência que se reclame de toda a especulação teórica, deveremos ter sempre presentes as estimulantes palavras do poeta: Em cada homem há uma viagem para um planeta longínquo... (J. Gomes Ferreira) 38 BIBLIOGRAFIA GERAL E ESPECÍFICA ARISTÓTELES - Poética. 3ª ed.. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992 BARBOSA, Pedro - Teoria do Teatro Moderno – a hora zero. 2ª edição, Afrontamento, Porto, 2003 BARBOSA, Pedro -“Em prol de um teatro vivencial” , in Letras & Letras, Porto, ano III, Nº 32, Agosto 1990 BARBOSA, Pedro - “A imagem revisitada: da imagem-cópia do mundo à imagem-síntese de mundos”, in revista Última Geração, Porto, Nº 16-17-18, Outono 1992, pp. 57-65 BARBOSA, Pedro - Metamorfoses do Real: arte, imaginário e conhecimento estético. Porto, Afrontamento, 1996 BARBOSA, Pedro - A Ciberliteratura: criação literária e computador. 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