V PRÊMIO TESOURO NACIONAL - 2000 COMPORTAMENTO FISCAL DOS GOVERNOS ESTADUAIS BRASILEIROS: DETERMINANTES POLÍTICOS E EFEITOS SOBRE O BEM ESTAR DOS SEUS ESTADOS TEMA: Tópicos Especiais de Finanças Públicas Federalismo Fiscal Retirado pela ESAF, Outubro de 2000 COMPORTAMENTO FISCAL DOS GOVERNOS ESTADUAIS BRASILEIROS: DETERMINANTES POLÍTICOS E EFEITOS SOBRE O BEM ESTAR DOS SEUS ESTADOS I. Introdução Nos últimos anos, países desenvolvidos, em desenvolvimento e especialmente países em transição (ex-socialistas), têm experimentado uma tendência crescente de devolução de autonomia política e econômica para os governos regionais e locais. Esta tendência generalizada vem dando lugar a um renovado interesse pela descentralização e o federalismo fiscal. Na literatura sobre o tema, a identificação dos benefícios e custos potenciais da descentralização é uma tarefa não isenta de polêmica (Bird, 1993). Aparentemente, pode-se observar duas visões conflitantes sobre seus benefícios e custos. A primeira é um enfoque que destaca os benefícios da descentralização ao se basear principalmente nos seus efeitos microeconômicos. Esta visão favorável à descentralização destaca que a desconcentração do poder de obtenção de tributação e das responsabilidades de gasto produz ganhos de bem-estar devido ao aumento de eficiência na provisão de bens e serviços públicos, à maior visibilidade da relação entre benefícios e custos dos bens públicos (melhora da “accountability”) e à maior adequação da oferta de bens públicos às preferências locais. Apesar dos benefícios da devolução do poder para instâncias de governo mais próximas de suas comunidades não serem ilusórios, estes nem sempre estão presentes em todos os processos de descentralização. Na realidade a verificação dos benefícios da descentralização depende de um conjunto de condicionantes políticos e institucionais que vigoram numa determinada estrutura federativa. 1 Por exemplo, pode se esperar ineficiência da descentralização em estruturas políticas com baixa participação da cidadania, fato que gera uma maior vulnerabilidade das esferas inferiores de governo à influência das elites regionais, abrindo espaço para comportamentos rent seeking. Da mesma forma, sistemas políticos que apresentam elevado grau de fragmentação política regional, incentivam a negociação política com base na concessão de favores que condicionam a alocação de recursos públicos locais em prejuízo da maioria. Por sua vez, relações financeiras e institucionais entre níveis de governo que geram facilidade de acesso a crédito e a possibilidade de transferir ônus do financiamento para níveis superiores, estimulam investimentos massivos e pouco eficientes para elevar o bem estar das comunidades subnacionais. Diferente do anterior, o segundo enfoque alerta para os custos associados à perda de controle da política macroeconômica por parte do governo central. (Fukasaku e Mello, 1999; Shah, 1998, Prud’homme, 1995). A descentralização fiscal reduz o grau de manobra do governo federal tanto no lado da receita como no da despesa. Tanzi (1996) destaca três canais de transmissão pelos quais a descentralização fiscal pode agravar as dificuldades fiscais de um país: a perda de bases de bases de tributação importantes que limita a capacidade do governo central de fazer ajustes ou expansões pelo lado da receita fiscal; o sistema de transferências intergovernamentais (revenue-sharing) gera incentivos perversos para os níveis inferiores de governo, levando-os a reduzir o esforço de arrecadação de receita própria; e a ausência de “hard budget contraints” para os governos subnacionais dificulta o controle do gasto dos níveis inferiores de governo com a 2 conseqüente transmissão de pressões fiscais expansionistas para a política monetária. (Von Hagen et al, 1996) Entretanto, outros autores (Sheikh e Winner 1977, Gramlich, 1987, Shah, 1998 e Spahn,1997) demonstraram que sistemas fiscais descentralizados podem oferecer um potencial considerável para a melhora da administração da política macroeconômica. Por exemplo, restrições institucionais ao endividamento e corresponsabilidade fiscal são instrumentos que minimizam os problemas salientados pelos críticos da descentralização. Em suma, esta discussão mostra que as características políticas e institucionais das estruturas federativas determinam o aproveitamento dos benefícios e a minimização dos riscos macroeconômicos do processo de descentralização fiscal. Não há dúvida que para o Brasil esta discussão é atual e relevante por vários motivos. Mais de uma década depois da Constituição de 1988, torna-se necessário avaliar os efeitos do processo de descentralização e associa-los ao processo de redemocratização do país iniciado em 1985. Durante as duas últimas décadas, e apesar de avanços e retrocessos, a federação brasileira vem experimentado o aprofundamento do seu grau de descentralização fiscal. A tabela 1.1 mostra a crescente importância dos governos subnacionais na receita fiscal do conjunto do setor público, especialmente a partir da Reforma de 1988. Na década de 90, os governos subnacionais, estados e municípios absorveram 40% da receita disponível. Pelo lado das responsabilidades de gasto, na última década observou-se uma gradual absorção de funções por parte destes níveis de governo. Na atualidade, os níveis inferiores de governo executam a maior parte da despesa social do 3 setor público. Portanto, os efeitos macroeconômicos do comportamento fiscal dos níveis inferiores de governo no Brasil são consideráveis. Tabela 1.1: Participação dos três níveis de Governo na Receita Disponível do Setor Público, 1985-98 (como proporção da Carga Global) Governo Estados Municípios Federal 1985 1986 1987 1988 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 Méd. 8590 Méd. 9098 Total 63,5 60,8 62,9 62,2 56,1 56,7 55,2 57,5 59,2 59,4 56,5 56,5 57,6 60,2 23,6 25,7 23,9 23,9 26,6 26,1 26,2 25,5 24,9 25,5 26,4 26,5 25,9 24,4 12,9 13,4 13,3 13,9 17,3 17,3 18,6 17,0 15,9 15,1 17,1 16,9 16,5 15,4 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 61,1 24,7 14,2 100,0 57,6 25,7 16,6 100,0 Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional Em segundo lugar, os custos em termos de administração macroeconômica citados acima estiveram e ainda estão presentes no processo de descentralização fiscal no Brasil. A descentralização baseada principalmente na ampliação do sistema de transferências intergovernamentais, gerou o enrijecimento da estrutura de despesas do governo federal, impedindo-o de fazer ajustes pelo lado da despesa. Por sua vez, a participação das transferências intergovernamentais na estrutura de financiamento dos níveis inferiores de governo explica a ausência de vinculação mais efetiva entre impostos e gastos, condição necessária para o exercício da “accountability” e da corresponsabilidade fiscal. Finalmente, a recorrência de 4 operações de “bail-outs” das dívidas estadual (três entre 1989 e 1998) enfraqueceu a restrição orçamentária dos níveis de governo beneficiados e estimularam comportamentos fiscais irresponsáveis. Nessa direção, o presente estudo pretende contribuir para a compreensão do comportamento fiscal dos estados brasileiros bem como avaliar os seus efeitos sobre o bem-estar da população. Especificamente, este trabalho tem três objetivos. O primeiro é identificar e caracterizar a postura fiscal dos estados brasileiros a partir da evolução das principais categorias de receita e despesa estadual durante o período 1985 – 97. O segundo objetivo é explicar estas posturas fiscais no período democrático 1985-1997 com base nas características do sistema político de cada estado, analisando sua influência sobre o desenho e implementação da política fiscal. Finalmente, o terceiro objetivo é testar até que ponto a descentralização foi eficiente, verificando se a política fiscal dos governos estaduais teve efeitos significativos sobre as principais variáveis socioeconômicas estaduais tais como desemprego, renda, pobreza e distribuição de renda. 5 II. O comportamento fiscal dos Estados durante o período 1985-97. II.1 Postura Fiscal: definição, critério de classificação e identificação. O objetivo desta parte do trabalho é identificar as posturas fiscais (fiscal stance) adotadas pelos governos estaduais durante o período democrático 1985-97. Para tanto é necessário definir uma medida de comportamento fiscal ou impulso fiscal, em seguida criar um critério de classificação, para finalmente extrair as características mais importantes de cada tipo de política fiscal. Duas medidas de impulso fiscal serão apresentadas para a avaliação do comportamento fiscal dos estados. A primeira é simplesmente a variação observada no resultado primário como proporção do PIB estadual de um ano em comparação ao ano anterior, isto é1: (2.1) IOt = ∆ Resultado Primário = (Rt – Gt) – (Rt-1 – Gt-1) onde: IOt = Impulso Fiscal Observado no ano t Rt = Receita Total em proporção do PIB no ano t Gt = Despesa Primária em proporção do PIB no ano t Esta medida tem como vantagem sua enorme simplicidade e como desvantagem o fato de não considerar a influência de flutuações cíclicas sobre as distintas categorias de receita e despesa que definem o resultado primário. (Alesina e Perotti, 1995) Na verdade, como o objetivo básico desta seção é avaliar o comportamento fiscal dos estados, isto é, o impulso fiscal cuja responsabilidade recai exclusivamente nas distintas administrações estaduais, torna-se necessário considerar a influência de flutuações cíclicas sobre as diversas categorias de receita 6 e despesa. Para tanto, postula-se uma segunda medida de impulso fiscal, definida como a variação discricionária do resultado primário, eliminando os efeitos das flutuações do nível de atividade e da inflação sobre as categorias de receita e despesa estadual2. É importante salientar que a nível estadual a receita tributária, especialmente a do ICMS, está sujeita a variações cíclicas, fato que deve ser considerado na hora de avaliar o comportamento fiscal dos estados. Na mesma direção, a forte dependência nas transferências federais, cuja base de arrecadação são a renda (IR) e consumo (IPI), fazem com que as receitas estaduais sejam sensíveis às flutuações do nível de atividade3. Da mesma forma, é de se esperar que a taxa de inflação exerça uma forte influência nas categorias de despesa e receita fiscal. Durante grande parte do período de análise a economia brasileira experimentou taxas de inflação elevadas e voláteis que afetaram de forma significativa os resultados fiscais das distintas esferas de governo. Bevilaqua e Werneck (1998) salientam a indexação assimétrica de despesa e receita fiscal diante de variações na taxa de inflação: enquanto a maior parte das receitas estava perfeitamente indexada, as categorias de despesa tinham um menor nível de indexação, o que resultou na erosão do seu valor real, especialmente nos períodos de alta inflação. Portanto, uma boa parte da 1 . Utiliza-se o resultado primário para eliminar o efeito de exercícios fiscais anteriores que se expressam no pagamento com juros e amortizações. 2 . Existem outros condicionantes estruturais que vigoram nas distintas unidades da federação e que exercem influência sobre os itens de despesa e receita dos estados, tais como o nível de urbanização, industrialização, pobreza, etc que deveriam ser considerados na construção do impulso fiscal. Entretanto, pelo (curto) período de análise é de se esperar que estas características não experimentem alterações importantes, e portanto, não afetem a postura fiscal no curto prazo. 3. Ao se tratar de política fiscal a nível estadual, a importância de variações cíclicas deve ser menor que a observada na esfera federal, onde as flutuações do nível de atividade se refletem com maior força no resultado primário: a relação positiva entre receita e nível de atividade e a existência de estabilizadores automáticos (seguro desemprego, por exemplo) fazem com que o resultado primário do governo federal esteja mais diretamente relacionado com o nível de atividade econômica. 7 deterioração de situação fiscal dos estados durante os últimos anos pode ser explicada pela desaceleração inflacionária posterior a 19944. Desta forma, a medida de impulso fiscal postulada acima é uma variante da medida de Blanchard (1990), no sentido em que, além de incluir as flutuações do nível de atividade, incorpora-se à inflação como outra variável explicativa das variações do resultado fiscal. Portanto, a segunda medida de impulso fiscal pode ser escrita como: (2.2) IBMt = Resultado Fiscalt (PIBt-1, INFt-1)-Resultado Fiscalt-1 ou IBMt = (Rt(PIBt-1, INFt-1) – Gt(PIBt-1, INFt-1)) – (Rt-1 – Gt-1) onde: IBM = Impulso Fiscal : Blanchard Modificado Resultado Fiscalt (PIBt-1, INFt-1) = Resultado Fiscal no ano t, mantendo o produto e a inflação do período anterior. Rt(PIBt-1, INFt-1) = Receita Total em proporção do PIB, mantendo o produto e a inflação do período anterior. Gt(PIBt-1, INFt-1) = Despesa primária em proporção do PIB, mantendo o produto e a inflação do ano anterior. O procedimento para calcular esta segunda medida de impulso fiscal consiste nos seguintes passos: i) estimar coeficientes para medir a influência das variações do nível de atividade e da inflação na receita e despesa primárias; ii) usar esses coeficientes para calcular o resultado primário no ano t se o nível de atividade e de inflação teriam sido as mesmas do ano anterior (t-1); iii) finalmente, calcula-se o impulso fiscal de Blanchard Modificado como sendo a diferença entre esse resultado primário e o observado no ano anterior5. 4 . A profundização da crise fiscal dos estados esteja associada ao fim do período de alta inflação, fato que mostra a influência da inflação nos resultados fiscais. 5 . Para a estimação da receita e despesa primária em função do nível de atividade e da taxa de inflação, utilizou-se um painel de dados para os 27 estados durante o período 1985-97. Os resultados da estimação estão no apêndice do trabalho. 8 Para as duas medidas de impulso fiscal, o critério de classificação usado para avaliar a postura fiscal dos governos estaduais é idêntico ao de Alesina e Perotti (1995a), isto é: Tabela 2.1: Critério de classificação da postura fiscal Postura Fiscal é: Se ∆ Resultado Primário (%PIB estadual) ou o IBM é: Maior que 1.5% do PIB Entre 0.5% e 1.5% do PIB Entre 0.5% e -0.5% do PIB Entre -0.5% e -1.5% do PIB Maior que -1.5% do PIB Contração Forte (C.F) Contração Média (C.M) Política Neutra (P.N) Expansão Média (E.M) Expansão Forte (E.F) II.2 A postura dos estados brasileiros, 1985-97 A figura 1 mostra a evolução das necessidades de financiamento do governo federal e dos governos subnacionais em níveis agregados. Dois fatos interessantes podem ser destacados. O primeiro é o contraste entre a postura contracionista no período 1991-94 e o comportamento expansivo no período 1994-97 (período pós Real). O segundo é que durante toda a década, com exceção de 1991, o comportamento de Estados e Municípios foi sempre mais expansionista que o da União. Portanto, pode-se afirmar que nos anos noventa a obtenção de superávites primários na esfera federal não foi acompanhada pelas outras esferas de governo, especialmente a partir de 1994, quando houve o aumento de arrecadação de receita fiscal. Somente em 1999, os governos subnacionais voltaram a gerar um superávit primário, mas novamente, muito menos significativo que o gerado pelo governo federal6. 6 . A crise externa, os acordos com o FMI e os compromissos derivados da renegociação das dívidas estaduais podem ser citados como os fatores que favoreceram a contração fiscal dos Estados em 1999. 9 Especialmente a partir de 1994 e com o fim do regime inflacionário, a situação fiscal de vários estados sofreu uma forte deterioração, apesar do aumento da receita disponível dos estados resultante da maior descentralização fiscal, bem como da estabilização e a recuperação da atividade econômica. Durante o Plano Real o desequilíbrio das finanças estaduais foi se agravando ainda mais, tanto pela impossibilidade de diminuir o valor real das despesas (fim da inflação) como pelo comportamento fiscal expansionista que deu lugar à geração de sucessivos déficits primários de 1994 a 1998. Necessidades de Financiamento Primário: Governo Federal e Estados e Municípios, 1990-99 1,0% (% do PIB) 0,0% -1,0% -2,0% -3,0% -4,0% 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 Anos Governo Federal Estados e Municípios A ausência de mecanismos de controle e coordenação da política fiscal entre níveis de governo e a falta de mecanismos que incentivem co-responsabilidade fiscal, fizeram com que os esforços de contração fiscal do governo central nem sempre fossem acompanhados pela disciplina financeira dos governos subnacionais. Entretanto, cabe lembrar que a situação descrita acima corresponde à informação agregada. A nível desagregado deve-se notar que a falta de disciplina 10 fiscal não pode ser generalizada, já que alguns estados experimentaram contrações fiscais significativas. Para identificar e analisar a postura fiscal dos 27 estados brasileiros durante o período 1985-97, utiliza-se a metodologia de classificação descrita na subseção anterior. As figuras 2a a 2c, mostram o impulso fiscal para cada um dos estados durante o período de análise. A primeira constatação que se pode inferir dessas figuras é que a grande maioria dos estados adotou uma política de “stop and go”, isto é, as contrações são seguidas de expansões fiscais e vice-versa, impedindo que se extraia tendências regulares de deterioração ou de melhoras progressivas na situação fiscal dos estados. Entretanto, pode-se observar que a partir de 1994 os casos de expansão média e forte foram mais comuns, o que indicaria que a maior disponibilidade de recursos financeiros (um dos efeitos do Plano Real), resultou numa expansão ainda maior de despesas. Contudo, os gráficos mostram que Ceará, Amazonas, Distrito Federal, Pará, Paraíba, Paraná e Maranhão experimentaram períodos contínuos de contração ou política neutra, o que demonstra que generalizações sobre o comportamento fiscal irresponsável dos governos estaduais nem sempre são adequadas. Pelo contrário, destacam-se Acre, Espirito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Roraima e Sergipe, pela sua postura fiscal geralmente expansiva. 11 Figura 2.a: Impulso Fiscal por Estado, 1986-1997 ( Observado vs Blanchard-Modificado ) Alagoas: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 9 9 6 3 0 -3 -6 -9 -12 -15 6 (% do Pib) (% do Pib) Acre: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 3 0 -3 -6 -9 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1986 1996 1988 1990 1992 1994 Impulso Observado Impulso-Blanchard Amapá: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1996 Impulso-Blanchard Amazonas: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 4 9 6 (% do Pib) (% do Pib) 3 0 -3 -6 2 0 -2 -9 -12 -4 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1986 1996 1988 Impulso-Blanchard Bahia: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1994 1996 Impulso-Blanchard 6 (% do Pib) (% do Pib) 1992 Ceará: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 3 0 -3 3 0 -3 -6 -6 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1986 1996 1988 1990 1992 Impulso Observado Impulso-Blanchard Distrito Federal: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1994 1996 Impulso-Blanchard Espírito Santo: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 6 6 3 (% do Pib) (% do Pib) 1990 Impulso Observado 0 -3 -6 -9 3 0 -3 -6 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1996 1986 1988 Impulso-Blanchard 1990 1992 Impulso Observado Goiás: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1994 1996 Impulso-Blanchard Maranhão: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 6 9 (% do Pib) (% do Pib) 6 3 0 3 0 -3 -3 -6 -6 -9 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1996 1986 Impulso-Blanchard 1988 1990 1992 Impulso Observado 12 1994 Impulso-Blanchard 1996 Figura 2.b: Impulso Fiscal por Estado, 1986-1997 ( Observado vs Blanchard Modificado ) Mato Grosso do Sul: Impulso Fiscal, 19861997 (Percentagem do PIB) 8 4 0 -4 -8 -12 -16 -20 -24 (% do Pib) (% do Pib) Mato Grosso: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 6 3 0 -3 -6 1986 1996 1994 1996 Impulso-Blanchard 4 (% do Pib) (% do Pib) 1992 Pará: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 3 0 -3 2 0 -2 -4 -6 1986 1988 1990 Impulso Observado 1992 1994 1986 1996 1988 1990 Impulso Observado Impulso-Blanchard Paraíba: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1992 1994 1996 Impulso-Blanchard Paraná: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 6 6 3 3 (% do Pib) (% do Pib) 1990 Impulso Observado Minas Gerais: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 0 -3 0 -3 -6 -6 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1986 1996 (% do Pib) -3 1990 1992 Impulso Observado 1992 1994 1996 Impulso-Blanchard Piauí: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 0 1988 1990 Impulso Observado 3 1986 1988 Impulso-Blanchard Pernambuco: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) (% do Pib) 1988 Impulso-Blanchard 1994 9 6 3 0 -3 -6 -9 -12 1986 1996 Impulso-Blanchard 1988 1990 Impulso Observado Rio de Janeiro: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1992 1994 1996 Impulso-Blanchard Rio Grande do Norte: Impulso Fiscal, 19861997 (Percentagem do PIB) 2 (% do Pib) (% do Pib) 6 0 -2 3 0 -3 -6 -9 -4 -12 1986 1988 1990 Impulso Observado 1992 1994 1996 1986 Impulso-Blanchard 1988 1990 Impulso Observado 13 1992 1994 Impulso-Blanchard 1996 Figura 2.c: Impulso Fiscal por Estado, 1986-1997 ( Observado vs Blanchard -Modificado) Rio Grande do Sul: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) Rondônia: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) (% do Pib) (% do Pib) 4 2 0 -2 1986 1988 1990 Impulso Observado 1992 1994 12 9 6 3 0 -3 -6 -9 -12 1996 1986 1990 1992 Impulso Observado Roraima: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1994 1996 Impulso-Blanchard Santa Catarina: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 16 12 8 4 0 -4 -8 -12 -16 6 (% do Pib) (% do Pib) 1988 Impulso-Blanchard 3 0 -3 -6 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 1986 1996 1988 1990 1992 Impulso Observado Impulso-Blanchard São Paulo: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1994 1996 Impulso-Blanchard Sergipe: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 6 4 (% do Pib) (% do Pib) 3 2 0 0 -3 -6 -2 1986 1988 1990 1992 Impulso Observado 1994 -9 1996 1986 Impulso-Blanchard (% do Pib) 36 30 24 18 12 6 0 -6 -12 -18 -24 -30 -36 1988 1990 Impulso Observado 1992 1994 1990 1992 Impulso Observado Tocantins: Impulso Fiscal, 1986-1997 (Percentagem do PIB) 1986 1988 1996 Impulso-Blanchard 14 1994 Impulso-Blanchard 1996 A tabela 2.2 apresenta informações básicas sobre os cinco tipos de postura fiscal adotadas pelos governos estaduais durante o período 1985-97, segundo o impulso fiscal observado e o de Blanchard modificado (IBM). Em primeiro lugar, cabe destacar que existem diferenças importantes entre as duas medidas: enquanto que, segundo o impulso fiscal observado (IO), o número de episódios de contração (médias e fortes) é maior ao de expansões (médias e fortes), 132 vs. 115, a medida de Blanchard modificada (IBM) mostra a situação oposta, já que, segundo esta medida, os episódios de expansão foram mais do que os de contração, 122 vs. 108. Associado a este fato, há uma divergência significativa com relação ao número de eventos caracterizados como política neutra (77 segundo o impulso observado e 94 de acordo à medida de Blanchard modificada). Em suma, esta diferença permite afirmar que a postura fiscal dos estados, uma vez considerada a influência das flutuações do nível de atividade e dos preços, foi mais expansiva que a observada. Com relação às médias de cada uma das posturas fiscais, ambas as medidas não apresentam grandes diferenças. Nos dois casos, a postura de contração (expansão) forte representa em média uma melhora (piora) de 3 a 4 pontos percentuais do PIB, a contração (expansão) média significa uma melhora próxima a 1 ponto percentual, enquanto que a política neutra, como era de se esperar, tem uma variação média praticamente nula em ambos os casos. Apesar da similaridade com relação à média das posturas fiscais sob os dois indicadores, pode se observar que o impulso fiscal observado é mais pronunciado nos casos extremos de contração e expansão fortes. Mais importante ainda, é notar que na década de 90 o indicador de Blanchard modificado aponta mais episódios de expansão (83) e menos casos de contração forte e média (53) do que o impulso 15 fiscal observado que contabiliza 65 casos de políticas expansionistas e 91 casos de contração forte e média. A partir de 1994, essas diferenças são maiores. Concluísse portanto, que a política fiscal dos estados nos anos 90 foi ainda mais expansiva que a normalmente atribuída. Um outro fato interessante que se destaca na tabela 2.2 é a maior ocorrência de expansões fiscais nos anos eleitorais (1986-85, 1990-89 e 1994-93). Nesses anos o impulso observado e de Blanchard modificado mostram, respectivamente, 49 e 32 episódios de expansão frente a 14 e 21 casos de contração. Portanto, verificase preliminarmente que em anos eleitorais, os governos estaduais tendem a adotar uma política fiscal expansionista. Com base na tabela 2.3 é possível deduzir padrões de comportamento das receitas e despesas fiscais nas cinco posturas fiscais. Para tanto, calcula-se a variação média de cinco categorias de receita e despesa sob as distintas posturas fiscais. A primeira constatação que se pode fazer é a maior variação das categorias de despesa com relação às observadas nas receitas. Em todos os regimes, sejam estes expansionistas ou contracionistas a variação média da despesa primária é bem maior ao da receita total (excluídas as operações de crédito) que é seu correspondente pelo lado da receita. Ainda mais sugestivo, observa-se a quase nula variação da receita tributária nas cinco posturas fiscais, o que mostra a baixa utilização dos seus instrumentos tributários por parte das administrações estaduais. Associado a esta característica, a comparação entre o comportamento da receita total e da receita tributária demonstra que grande parte da variação das receitas fiscais (aumento ou diminuição) nos eventos de contração forte e média, deve-se em grande medida ao aumento das transferências federais e não a aumentos da receita de impostos. Pelo contrário, nos eventos de expansão (forte e média) observa-se 16 que a deterioração da situação fiscal deve-se também principalmente à redução das transferências, já que, a receita tributária longe de diminuir, aumenta nos episódios expansionistas. Um outro fato digno de menção é a diminuição mais forte da despesa de capital nos episódios de contração e a expansão maior dos gastos correntes nas posturas expansionistas. Este fato é interessante, devido a suas implicações perversas com relação ao grau de manobra que possuem os estados para realizar ajustes fiscais: a única possibilidade de se fazer ajustes parece ser através do corte de gastos de capital, enquanto que as expansões se caracterizam não pelo aumento desse tipo de gasto, mas pelo aumento com gastos de pessoal e outros itens de despesa corrente (custeio, por exemplo). Em suma, da descrição dos cinco tipos de postura fiscal pode-se inferir que as diferenças entre elas estão principalmente associadas às variações de despesa e em menor medida a variações de receita fiscal. Assim, durante o período de análise, os estados brasileiros usaram a despesa como seu principal instrumento para promover contrações e expansões. Isto é válido não somente em episódios de contração (redução de 4% do PIB) e expansão forte (aumento superior a 3%), mas também nas experiências de contração e expansão média (+/-1 do PIB). Em particular, a caracterização das distintas posturas mostra a baixa importância da receita tributária na configuração do comportamento fiscal dos estados. 17 Tabela 2.2: Impulso Fiscal Observado vs. Impulso Fiscal de Blanchard: Estatísticas Básicas (variações médias em percentagem do PIB) Contração Forte Contração Média Política Neutra Expansão Média Expansão Forte Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Anos No Média No Média No Média No Média No Média No Média No Média No Média No Média No Média Obs Obs Obs Obs Obs Obs Obs Obs Obs Obs 1986-85 3 -10,32 6 -7,80 3 -0,79 3 -1,14 7 0,05 10 -0,07 10 1,03 4 0,74 4 2,88 4 2,70 1987-86 4 -3,39 10 -2,85 7 -0,85 7 -0,86 5 0,03 5 -0,03 5 0,98 3 0,83 6 2,34 2 2,00 1988-87 10 1989-88 6 -3,07 -1,98 9 6 -2,68 -2,46 4 9 -0,92 -0,90 5 3 -1,11 -1,34 8 7 0,11 -0,05 9 7 -0,09 0,03 4 1 1,09 0,76 1990-89 3 1991-90 15 -2,96 -5,21 1 8 -8,92 -5,69 1 5 -0,53 -0,71 5 2 -0,83 -1,11 4 4 -0,30 -0,04 11 8 0,13 0,03 6 1 0,89 0,58 1992-91 1993-92 5 4 -2,59 -2,11 2 3 -2,09 -2,46 5 6 -0,68 -0,78 1 2 -0,72 -0,78 8 5 0,15 -0,19 10 5 0,06 0,19 6 7 1,01 0,95 1994-93 0 1995-94 11 -3,82 2 6 -2,12 -4,28 4 1 -1,07 -1,29 4 4 -1,04 -0,86 7 9 0,21 0,03 7 8 0,03 0,13 5 4 1,06 0,89 1996-95 11 -4,52 7 -3,14 2 -0,75 6 -0,76 8 -0,16 6 -0,21 4 0,84 1997-96 10 -4,81 3 -4,70 3 -1,02 3 -0,99 5 0,14 8 0,01 4 Total -4,03 63 -3,94 50 -0,90 45 -1,03 77 0,03 94 -0,03 57 82 1,07 3 6 5 4 7 8 7 7 6 4 0,94 0,85 1,09 1,00 0,94 0,86 1,00 0,91 1,17 0,84 1 2,52 4 5,14 13 5,67 2 2,58 3 2,33 5 3,08 11 4,24 2 2,94 2 10,44 5 3,11 1 5 5 5 7 9 7 2 2 9 1,91 3,44 4,20 2,45 2,17 2,86 3,69 2,06 4,46 2,98 1,01 64 1,02 58 58 3,05 3,75 Tabela 2.3: Variação média das principais categorías de receita e despesa estadual sob as diferentes posturas fiscais (em percentagem do PIB) Contração Forte Categorias Contração Média Política Neutra Expansão Média Expansão Forte Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Observado Blanchard Receita Total (excl. Op. de Crédito) 0,70 -0,20 0,61 0,64 0,24 0,30 -0,41 0,43 0,08 0,29 Receita Tributária -0,07 -0,05 0,15 0,23 0,29 0,21 0,20 0,29 0,52 0,18 Despesa Primária -3,38 -3,41 -0,24 -0,01 0,26 0,14 0,57 0,89 3,71 2,09 -1,26 -0,80 0,1 0,32 0,47 0,40 0,63 0,82 2,36 0,94 -2,12 -2,61 -0,33 -0,39 -0,12 -0,26 -0,12 0,18 1,35 2,18 Despesa Corrente (excl. Juros) Despesa de Capital (excl. Amortizações) 19 Esta observação ganha maior importância quando se considera que, pelo lado da receita, o único instrumento fiscal a disposição dos estados (pelo lado da receita) é justamente sua receita tributária, já que as outras categorias de receita são basicamente as transferências federais e operações de crédito sobre as quais os estados não possuem nenhuma influência. Por sua vez, a baixa utilização da receita poderia ser considerada como um resultado lógico, já que em regimes federativos, as unidades inferiores de governo não podem alterar as alíquotas dos seus impostos de maneira discricionária. No entanto, Blanco e Reis (1996), Schwengber e Ribeiro (1999) apresentam evidencias da sub-utilização das bases de tributação estaduais e da presença de um esforço de arrecadação baixo na maioria dos estados brasileiros. A maior utilização da despesa primária como instrumento de expansão ou contração fiscal também pode ser confirmada pela análise de regressão, cujos resultados são apresentados na tabela 2.4. Neste exercício, as variações da receita total (excluídas as operações de crédito) e da despesa primária são regredidas nas variações do PIB e da taxa de inflação e nas cinco variáveis dummies que correspondem às cinco posturas fiscais (segundo os dois indicadores de impulso fiscal)7. Os coeficientes de cada uma das variáveis dummies mostram como se comportam a receita e despesa primária nas distintas posturas fiscal. Os sinais destas variáveis ratificam os principais achados derivados da análise da tabela 2.3. Em primeiro lugar, a despesa primária é muito mais susceptível ao regime fiscal, enquanto que a receita total se ajusta menos ao tipo de postura fiscal (o R2 é maior 7 . Para este exercício econométrico, utilizou-se o mesmo painel de dados usado na estimação do impulso de Blanchard modificado. Para evitar o uso de um número excessivo de variáveis dummies (além das correspondentes às cinco posturas fiscais) e pela necessidade de considerar apenas o nas equações de despesa tanto no caso do impulso observado como o de Blanchard modificado; além disso o estatístico t é sempre mais significativo na equação de despesa primária). Em segundo lugar, os sinais das variáveis dummies, confirmam o padrão deduzido acima no sentido em que as expansões levam a aumentos de despesa primária e as contrações a diminuições da mesma, enquanto que, apesar de não ter coeficientes significativos, as expansões implicam diminuição de receita e as contrações fiscais, estas sim significativas, reflete-se em aumentos de receita total. Finalmente, pode se observar que o aumento do PIB tem um maior impacto na despesa que na receita e, portanto, esta variável tem um efeito negativo no resultado primário. Pelo contrário, e em concordância com estudos anteriores (Bevilaqua e Werneck, 1998), a aceleração inflacionária tem um maior impacto sobre a receita fiscal, e, portanto, um efeito positivo sobre o resultado primário, o que permite compreender de que forma o fim do processo inflacionário acelerou a deterioração da situação fiscal dos estados. comportamento de receita e despesa sob cada postura, sem considerar a presença de características específicas de cada estado, optou-se por usar uma regressão simples de OLS. 21 Tabela 2.4: Respostas da Receita e Despesa de acordo à Postura Fiscal IMPULSO FISCAL OBSERVADO Variáveis dependentes: IMPULSO FISCAL DE BLANCHARD – MODIFICADO Variação da Variação da Receita Total Despesa (excl. Op. de Primária Crédito) Variação da Receita Total (excl. Op. de Crédito) Variação da Despesa Primária VARIAÇÃO DO PIB 0,88 (10,13) 0,90 (10,11) 0,85 (9,51) 0,96 (9,85) VARIAÇÃO DA TAXA DE INFLAÇÃO 0,43 (5,83) 0,36 (4,73) 0,32 (4,39) 0,56 (7,08) EXPANSÃO FORTE -0,02 (-1,25) 0,16 (8,00) -0,01 (-0,49) 0,07 (3,20) EXPANSÃO MÉDIA -0,02 (-1,28) 0,06 (3,17) 0,03 (1,87) 0,08 (3,96) POLÍTICA NEUTRA 0,04 (2,10) 0,03 (2,15) 0,04 (2,41) 0,02 (1,40) CONTRAÇÃO MEDIA 0,04 (1,95) -0,03 (-1,58) 0,06 (2,59) -0,01 (-0,48) CONTRAÇÃO FORTE 0,09 (5,15) -0,12 (-7,22) 0,02 (0,87) -0,10 (-5,10) R2 R2 AJUSTADO F-ESTATÍSTICO DURBIN WATSON 0,29 0,27 20,21 2,25 0,49 0,48 48,71 2,24 0,24 0,22 16,03 2,25 0,39 0,38 31,92 2,19 12 27 12 27 12 27 12 27 317 306 317 306 Variáveis Explicativas: Períodos Estados No Total de Observações (painel não balanceado) 22 III. Os determinantes políticos do comportamento fiscal dos estados brasileiros A análise dos efeitos das características do sistema político sobre o comportamento fiscal é um tema que tem adquirido um crescente interesse nos últimos anos. A partir da década de 80, muitos países têm experimentado desequilíbrios fiscais que na década de noventa têm-se refletido em trajetórias explosivas de dívida pública. Conquanto, o reconhecimento consensual sobre sua necessidade, os distintos governos têm encontrado dificuldades para a implementação de políticas de contração fiscal, levando a pesquisar a natureza dessas dificuldades. Em particular, a estrutura do sistema político partidário tem sido identificada como a causa de várias dessas dificuldades. Determinantes de caráter políticoinstitucionais, tais como as regras eleitorais, as formas de governo, a orientação ideológica dos governantes, o marco institucional que regula as relações entre os poderes Executivo e Legislativo e entre níveis em estruturas descentralizadas de governo, a inexistência de maiorias sólidas e a necessidade de governos de coalizão, são os fatores identificados como fonte das dificuldades na implementação de políticas de contração fiscal. (Tabellini, 2000) Na década de noventa, e com a persistência das situações de desequilíbrio fiscal, os estudos teóricos e empíricos sobre este tema têm-se multiplicado. Especialmente em países desenvolvidos, e particularmente na Itália, a gravidade e persistência do desequilíbrio fiscal têm estimulado numerosos estudos sobre a influência do sistema partidário na performance macroeconômica dos distintos governos europeus. (Roubini e Sachs, 1989, Roubini, 1991, Alesina e Rosenthal, 1995, Alesina, et al, 1997) 23 Na América Latina, apesar destes estudos serem escassos, percebe-se um crescente interesse pela relação entre o sistema político e o desempenho econômico. A continuidade do processo democrático na região e a maior disponibilidade de informação estatística estão estimulando esforços de análise mais rigorosas sobre a relação entre as instituições políticas e a política fiscal. Ressaltamse, por exemplo, recentes trabalhos sobre as caraterísticas institucionais do orçamento público e o déficit fiscal (Alesina, Hausman, Hommes e Stein, 1999; Jones, Sanguinetti e Tommasi 1999, Dillinger e Webb, 1999). No Brasil, até onde se sabe, existem apenas análises descritivas (estudos de caso) sobre a relação entre a estrutura político-institucional e a política fiscal. (Kraemer, 1997, Mendes, 1998, Schneider, 2000). É nessa direção, que o presente estudo visa iniciar uma agenda de análise sobre a economia política do comportamento fiscal dos estados brasileiros. A continuidade das eleições estaduais (a partir de 1982), fato que permite contar com um número razoável de observações temporais e a existência de observações transversais (cross-section de 27 estados), possibilitam mensurar de forma mais rigorosa os efeitos das diversas características do sistema político sobre o comportamento fiscal dos governos estaduais.8 8 . Além disso, o Brasil, reúne várias das características que tornam o tema particularmente relevante: persistência do desequilíbrio fiscal, estrutura federativa, alto grau de descentralização fiscal, sistema político amplamente fragmentado, existência de um grande número de governos de coalizão, etc, são condições que permitem avaliar a influência dos determinantes políticos da política fiscal a nível estadual 24 III.1 Seis perguntas sobre a relação entre o sistema político e o comportamento fiscal dos estados brasileiros Nesta parte do trabalho deseja-se analisar como o comportamento fiscal dos estados brasileiros é influenciado pela presença de fatores de natureza política. Em particular, propõe-se responder às seguintes perguntas: 1. Existem ciclos eleitorais? Num sistema democrático caracterizado pelo pluralismo e competição eleitoral os cidadãos comparam as plataformas políticas dos diversos candidatos e escolhem a sua preferida. Nestes modelos de concorrência eleitoral, a proposta escolhida pela maioria (ou plataforma de equilíbrio) é aquela que se aproxima mais da preferência do votante médio. (Downs, 1957, Mc Kelvey, 1975) O problema deste tipo de enfoque é que considera que a relação entre votante e candidato tem um caráter estático (considera-se uma única eleição), o que elimina qualquer possibilidade de que, uma vez no exercício do seu mandato, as autoridades de governo escolhidas tenham preferências que podem ser divergentes daquelas dos seus eleitores o que provocaria o não cumprimento de suas promessas eleitorais. Da mesma forma, elimina-se a possibilidade de punição por parte dos eleitores e que deve se expressar na próxima eleição. Em suma, estes modelos de concorrência política ignoram considerações de caráter estratégico entre eleitorado e candidatos. Num contexto dinâmico (de eleições repetidas), a escolha eleitoral baseia-se mais na gestão das autoridades atuais (escolhidas na última eleição) e menos nas promessas eleitorais dos distintos candidatos. Portanto, se o eleitor pode premiar ou 25 punir a suas autoridades de acordo com seu desempenho no governo então possui um certo controle sobre suas autoridades através do voto nas próximas eleições. Desta forma, o caráter estratégico da relação entre eleitores e autoridades baseia-se no fato que a escolha dos cidadãos depende da avaliação do comportamento das autoridades no exercício do seu mandato e que, conscientes daquilo, as autoridades se antecipam a essa escolha, adotando políticas cujo objetivo central visa a sua reeleição/manutenção no poder. Portanto, as autoridades usam instrumentos de política pública para atrair votos e outros recursos a seu alcance que lhes permitam ganhar as próximas eleições. (Ferejohn, 1986) Nessa perspectiva, as autoridades atuam no sentido de melhorar a sensação de bem estar da população em períodos eleitorais com o intuito de aumentar sua chances de reeleição. Estudos analíticos sobre ciclos eleitorais tem mostrado principalmente a relação entre resultados eleitorais ou simplesmente períodos eleitorais e variáveis macroeconômicas tais como desemprego, inflação, crescimento da renda disponível, distribuição de renda, como variáveis que refletem o bem-estar da sociedade. (Nordhaus, 1975, Tufte, 1980 e Chappell e Keech ,1985)9. A maioria dos estudos que fornecem evidências empíricas da existência destes ciclos eleitorais, refere-se principalmente à política macroeconômica do governo central. Resultados similares se aplicam às políticas de despesa. Aumentar a despesa ou adiar o aumento de impostos antes das eleições pode criar a percepção de uma boa performance por parte dos eleitores. (Tabellini e Persson, 1999). Entretanto, este tipo de oportunismo tem limites, já que políticas fiscais expansivas 9 . Uma crítica comum as teorias de ciclos eleitorais é que a informação imperfeita por parte dos eleitores é uma hipôtese cuja validade é apenas temporária, e que, agentes racionais e com informação perfeita não poderiam ser enganhados permanentemente pelos políticos “oportunistas”. Alesina e Persson (1995b) e Alesina e Cukierman (1990) e outros mostraram que a existência de ciclos eleitorais não é necessariamente incompatível com eleitores racionais. 26 podem ter efeitos inflacionários não desejáveis para os políticos interessados em sua reeleição. Em nível subnacional esses limites são menos restritivos, já que as políticas dos níveis inferiores de governo têm, em geral, efeitos pouco significativos sobre inflação. Além disso, e ainda mais relevante, a própria divisão de funções entre níveis de governo em estruturas federativas, faz com que a avaliação do desempenho das autoridades dos níveis inferiores de governo tenha pouco a ver com o desempenho dos principais indicadores macroeconômicos e seja mais baseada na quantidade e qualidade da provisão de bens e serviços públicos, o que implica que as chances de reeleição estão associadas ao nível de despesa realizada por estas unidades inferiores de governo. Assim, livres de responsabilidade pelo desempenho macroeconômico e isolados de pressões externas, os administradores subnacionais têm fortes incentivos para gastar além dos seus meios e exportar o custo de suas decisões para o resto da federação. Ademais, problemas de ilusão fiscal (informação imperfeita) de parte dos eleitores / contribuintes e a percepção de soft-budget constraints nas decisões de gasto por parte dos governos subnacionais, são dois fatores que ajudam a explicar que a avaliação da performance dos governos estaduais baseia-se principalmente no nível de despesa realizada e não na manutenção de equilíbrio fiscal. Especificamente, no caso da política fiscal dos governos estaduais brasileiros, e, dado que nas seções anteriores mostrou-se que as variáveis de despesa são os instrumentos privilegiados da política fiscal destas unidades de governo, é razoável esperar que em períodos eleitorais as principais categorias de despesa estadual experimentem elevações pouco comuns. 27 2. A participação da população é relevante? A participação da população no processo político reduz a chance de ter um eleitorado cativo e faz com que a adoção de políticas publicas seja mais imune ao ativismo de grupos de interesse, desestimulando comportamentos do tipo “rentseeking”. Entretanto, esta constatação não permite inferir nenhuma conclusão sobre o efeito da participação política da população sobre o nível de despesa. Portanto, o resultado em termos de política fiscal deve ser ambíguo: uma maior participação como reflexo de um maior controle da sociedade sobre seus administradores públicos não tem nenhuma implicação sobre a orientação do comportamento fiscal. Assim, a “accountability” como resultado do maior interesse da população na provisão de bens e serviços públicos não garante expansão ou contração fiscal. Por um lado, Peltzman (1983) mostra de forma analítica uma tendência conservadora do eleitorado com relação à política fiscal. Portanto, poderia se esperar que uma maior participação de um eleitorado dito conservador leve a uma política fiscal austera. Entretanto, um alto nível de concentração de renda combinado com o pleno exercício democrático, isto é uma ampla participação da sociedade (expresso em que a política fiscal reflete as preferências do votante médio) podem justificar expansões fiscais com objetivos redistributivos. Alesina e Rodrick (1994), argumentam em outro contexto (crescimento e desigualdade) que uma distribuição desigual de renda deve estimular o crescimento do governo, no sentido em que o eleitor mediano prefere uma carga tributária elevada. No Brasil, Lledo (1995) 28 encontrou uma relação positiva entre desigualdade e tamanho das despesas estaduais para a década de 8010. 3. O grau de competitividade política é um fator que explica o comportamento fiscal? Um dos efeitos possíveis do aumento da competitividade do sistema partidário, entendido como a existência de um número maior de opções políticas, é a melhora da qualidade das ofertas eleitorais apresentadas à população. O grau de informação da população, e portanto a própria transparência da gestão de governo devem ser maiores com o aumento da competitividade do sistema político devido à maior discussão promovida por este aumento. Em suma, a ampliação do leque de opções políticas oferecidas deve incidir na elevação do grau de sofisticação do eleitorado para a avaliação dessas ofertas bem como da própria gestão das autoridades atuais. Por outro lado, um maior número de opções de escolha deve limitar as possibilidades de manutenção de hegemonias políticas e do exercício do monopólio da representação política através da preservação da lealdade política através da compra de votos ou outras formas de distorção da vontade popular. Nesse sentido, o aumento da competitividade do sistema político pode atuar como um fator disciplinador da política fiscal no sentido em que as decisões de gasto do governo são mais transparentes e as chances de punição através do voto são maiores quando a população se confronta com um número maior de opções para sua escolha. Portanto, espera-se uma relação inversa entre o grau de competitividade política e as variáveis de despesa pública estadual. 10 . Entretanto a maioria d estudos empíricos tem mostrado resultados ambíguos sobre o efeito da distribuição de renda na política fiscal. (Coughlin, 1986) 29 4. A fragmentação do sistema partidário implica uma posição fiscal mais expansiva? A fragmentação partidária do sistema eleitoral implica a inexistência de maiorias sólidas (ou absolutas) e a formação de governos integrados por mais de um partido político. Isto implica a necessidade de negociação política para a formação da base de apoio parlamentar dos governos. Em geral esta negociação não é só programática mas também consiste na concessão de benefícios e o atendimento de reivindicações dos distintos grupos de interesse que barganham apoio político em troca de favores desde o Estado. Desta forma, a fragmentação do sistema partidário estimula comportamentos de caráter clientelista, conhecidos na literatura especializada como “logrolling” ou “pork barril” que se caracterizam pela troca de favores entre as partes envolvidas. Associada à fragmentação do sistema político, a disciplina partidária é outro fator que deve ser considerado na negociação política para a composição do governo: uma disciplina menor por parte dos parlamentares deve elevar o custo desta negociação. Shepsle e Weingast (1981) mostram que mesmo sem fragmentação, a falta de disciplina partidária pode gerar comportamentos do tipo “pork barril”. Em certo sentido, a fragmentação política guarda uma relação estreita com a competitividade do sistema partidário, analisada acima. Por um lado, fragmentação e maior competitividade implicam dispersão, ausência de hegemonia. Pelo outro, os seus efeitos são bastante diversos. Assim, é razoável esperar que as negociações e concessões exigidas aumentem com a fragmentação política levando à formação de governos com um número elevado de partidos. Em geral, estas negociações e troca 30 de favores são viabilizadas com recursos públicos o que implica que uma estrutura política fragmentada, ao contrário de um sistema altamente competitivo, deve criar tendências expansivas na política fiscal. No que tange às evidências empíricas, estas apontam a mostrar que governos compostos por vários partidos ou governos divididos (Executivo e Legislativo comandados por diferentes partidos) têm maiores dificuldades para realizar ajustes fiscais e que em geral, uma vez implementada a contração esta tem uma baixa chance de ter sucesso. (Alt e Lowry, 1994 e Alesina e Rosenthal,1995) No Brasil, Schneider (2000) mostra que estados com maior fragmentação, Pernambuco e Rio Grande do Sul por exemplo, têm mostrado maiores dificuldades orçamentárias que estados com elites políticas mais cohesas como Bahia e Paraná. 5. Ideologia é importante? Esta segunda pergunta está associada à reputação atribuída às diferentes opções partidárias por parte do eleitorado com relação ao grau de intervenção do Estado. Em geral, a literatura que trata sobre este tema ressalta a importância da orientação ideológica, assumindo que os partidos da esquerda são mais inclinados a uma maior intervenção pública quando comparados com os partidos de direita11. (Bosch e Suarez, 1995) Além disso, supõe-se que os partidos de esquerda (social democratas, socialistas ou comunistas) têm uma maior preocupação com os problemas sociais – distribuição de renda, pobreza, educação, dentre outras – e consideram que estes 11 . Entretanto deve-se destacar que a magnitude da influência da orientação ideológica varia segundo o contexto: esta influência pode ser maior em regimes bipartidários e com maior poder do Executivo na elaboração do orçamento, mas pode ser irrelevante em sistemas com governos multipartidários e regimes paralmentaristas. 31 problemas podem ser resolvidos no âmbito das políticas públicas ou podem ser amenizadas com uma maior intervenções do Estado. De forma diferente, a maior confiança nos mecanismos de mercado junto com a menor preocupação com a situação social por parte dos partidos de direita (liberais ou conservadores), levaria estes a propor um menor grau de intervenção do Estado na economia. A nível empírico, Alt e Lowry (1994) mostraram evidências das diferenças no comportamento das despesas dos estados norte-americanos quando estes são governados por Democratas ou Republicanos para o período 1968-1987. Tanto impostos como nível de despesas são significativamente superiores em administrações democratas. Por sua vez, Kontopoulus e Perotti (1999) acharam evidências equivalentes para países da OECD, usando a clivagem esquerda direita. Novamente, como as preocupações com a estabilidade macroeconômica têm uma menor influência nas decisões de gasto dos níveis inferiores de governo, o âmbito subnacional é um marco mais adequado que o federal para testar se as diferenças ideológicas se refletem em diferenças na política fiscal das distintas administrações estaduais. Portanto, dada a reputação das distintas opções políticas é razoável esperar que a despesa estadual correspondente a governos de esquerda deve ser maior daquela num governo administrado pela direita. 32 6. A identificação política entre as administrações dos distintos níveis de governo explica o comportamento fiscal dos níveis inferiores de governo? Um outro fator explicativo da política fiscal é a afinidade política entre as administrações dos distintos níveis de governo. Em estruturas federativas, o sistema de transferências intergovernamentais é o canal pelo qual a “solidariedade ideológica” ou partidária entre o governo central e as administrações dos níveis inferiores de governo pode-se expressar de forma tal que estas últimas podem contar com maiores recursos a sua disposição e portanto, expandir seu gasto público. As operações de resgate de dívida, constituem um outro mecanismo de favorecimento ao qual o governo federal pode recorrir para obter o apoio de governos ou de bancadas parlamentárias regionais. Portanto, seja pelas transferências ou pelas operações de bail-out, a identidade partidária ou da coalizão política a qual pertence o presidente e os governadores pode determinar um maior espaço para posturas fiscais expansivas por parte dos governos subnacionais12. No entanto, os efeitos desta “solidariedade ideológica” entre administrações dos distintos níveis de governo podem ser limitadas pelo marco institucional que estabelece as prerrogativas dos poderes Executivo e Legislativo na elaboração do orçamento público. Em contextos onde o Executivo detém amplas faculdades legislativas, esta solidariedade pode ser um fator importante. Entretanto, se o Congresso tem uma maior participação na elaboração do orçamento, a fragmentação política possuiria uma maior importância que a identidade ideológica entre administrações federais, estaduais e municipais. 12 . Bevilaqua (1999), mostra que nas operações de bail-out de 1989 e 1993, a solidariedade ideológica entre o presidente, governadores e senadores jogou um papel importante na determinação dos volumes de dívida a serem renegociados. 33 Por outro lado, já se mencionou que durante a década de 90, o governo federal tentou fazer ajustes fiscais que nem sempre foram acompanhados pelos governos estaduais (ver gráfico 1). Portanto, a solidariedade ideológica poderia se manifestar em esforços de ajuste das administrações estaduais aliadas ao governo federal. Nesse sentido, Remmer e Wibbels (2000) e Jones e outros (1999), mostraram que na experiência Argentina, a coincidência partidária entre o governo federal e provincial, funcionou em direção oposta à postulada nos parágrafos anteriores, isto é, as contrações fiscais federais foram acompanhadas pelos governos provinciais governados pelo partido Justicialista. III.2 As respostas Para responder as perguntas formuladas acima se especificou um conjunto de equações de demanda de bens públicos que associam as variáveis fiscais com as características do sistema político em cada estado (variáveis explicativas). Como variável dependente, usou-se a despesa primária per capita, já que, de acordo com a seção anterior, esta variável expressa a demanda presente por bens públicos e, ao não incluir o pagamento de juros nem amortizações, captura apenas as ações contemporâneas de política fiscal dos governos estaduais. As especificações propostas vão incluindo progressivamente o efeito das características do sistema de representação política sobre as necessidades de despesa. Assim, as variáveis explicativas foram incluídas de forma parcimoniosa em cada uma das equações a serem estimadas13. 13 . Com exeção da primeira equação, que inclue as variáveis dependentes e explicativas em termos de variação, as demais estão expressas em níveis. 34 Além dessas variáveis, cada uma das equações acima inclui o PIB estadual, como sendo uma variável que capta as características econômicas dos estados que exercem influência sobre a demanda de bens públicos e uma tendência temporal, ambas usadas como variáveis de controle. Outras variáveis socio-econômicas estaduais poderiam ter sido usadas, tais como pobreza, distribuição de renda, grau de urbanização e industrialização que também influem na demanda de bens públicos. No entanto, estas variáveis devem ser consideradas como características específicas de cada estado que se mantêm, pelo menos no curto prazo, inalteradas, razão pela qual podem ser capturadas pelo efeito fixo (dummy estadual) nas especificações propostas. Desta forma, as equações propostas para responder as perguntas da seção anterior são as seguintes14: (3.1) ∆Desp.Primi,t = αi+β1* ∆PIBi,t + β2 *Time + β3 * Anoeleit (3.2) Desp.Primi,t = µi + δ1* PIBi,t, + δ2* Time + δ3* Partici,t, + δ4* Competi,t + δ4* Fragmenti,t (3.3) Desp.Primi,t = ηi + γ1* PIBi,t,+ γ2* Time + γ3* Partici,t, + γ4* Competi,t + γ5* Fragmenti,t + γ6* Left + γ7* Right (3.4) Desp.Primi,t = ρi +θ1* PIBi,t, + θ2* Time + θ3*Partici,t, + θ4* Competi,t + θ5* Fragmenti,t, + θ6* Left + θ7* Right + θ8* Co.Gov.Fed onde: i = estado e t = ano A primeira equação busca verificar a ocorrência de aumentos anormais de despesa em anos eleitorais. Para tanto, regrediu-se a variação da despesa primária numa variável dummy que distingue os anos de eleição para governador, na 14 . Note-se que cada equação inclue uma constante indexada por um identificador “i” que corresponde a cada uma dos estados. Ao descrever o método de estimação poderá se inferir que a constante individual para cada estado corresponde ao efeito específico atribuído a cada observação transversal. 35 variação do PIB e na tendência temporal, como variáveis de controle. Para validar a hipótese de ciclos eleitorais, o coeficiente de interesse é o correspondente a dummy de ano de eleição que deve ser positivo e significativo. Para analisar a influência das características do sistema político na despesa fiscal estadual, propõe-se uma especificação na qual, além do PIB como variável de controle e da tendência, utiliza-se a taxa de participação do eleitorado, o grau de competitividade do sistema político e a fragmentação partidária das Assembléias estaduais. A primeira destas variáveis é simplesmente a proporção de comparecimento dos eleitores nos comícios estaduais, a segunda reflete a quantidade de candidatos por cadeira na Assembléia Legislativa e finalmente a fragmentação é um índice de dispersão da participação de cada partido na Assembléia Legislativa. Note-se que nas equações 2 a 4, a variável dependente é o nível de despesa primária e não sua variação, já que como o período de administração estadual é de 4 anos, as características do sistema político (competitividade, fragmentação e taxa de participação), bem como a orientação ideológica das administrações e a coincidência (ou não) das administrações estadual e federal, são variáveis que só mudam a cada quatro anos, dificultando portanto, captar o efeito de suas variações anuais (que na verdade só existem cada quatro anos) sobre variações anuais de despesa15. A importância da orientação ideológica das administrações estaduais é testada com a inclusão de variáveis dummy esquerda – direita, que refletem posições dentro do espectro ideológico esquerda – direita. Portanto, os coeficientes obtidos estarão 15 . Alternativamente, poderia se regredir as variações das médias nos quatro anos de cada administração contra a variação da orientação ideológica destas administrações, entretanto o custo de proceder desta forma é a diminuição considerável do número de observações (só teríamos a quarta parte das observações). 36 mostrando apenas se os governos estaduais administrados por partidos de esquerda ou de direita têm um nível maior ou menor de despesa primária. Finalmente, o sexto questionamento é avaliado com a quarta especificação, onde além das variáveis explicativas que refletem as características do sistema político (participação, competitividade e fragmentação), das dummies correspondentes à orientação ideológica dos governadores e das variáveis de controle já usadas nas outras especificações, incluiu-se a variável dummy que expressa a coincidência partidária-coalizão (ou não) entre a administração estadual e federal. Da discussão acima é razoável esperar os seguintes sinais para os coeficientes das variáveis explicativas: Tabela 3.1. Variáveis explicativas da despesa primária Variável Explicativa: Ano de eleição Governador Descrição para Dummy=1 ano eleitoral, 0 outro caso PIB per capita Produto Interno Bruto por habitante (em valores constantes) Taxa de Participação do Eleitorado No de Votantes / No de Eleitores Grau de Competitividade Taxa de partidária No de candidatos por cadeira na Assembléia Estadual Sinal esperado + + +/- Fragmentação Inverso do índice de Herfindahl de concentração + Esquerda Direita Coincidência com Governo Federal Dummy=1 partido de esquerda, 0 outro caso Dummy=1 partido de direita, 0 outro caso + - o Dummy=1 partido ou coalizão do presidente, 0 outro caso +/- Para estimar as equações acima se utilizou análise econométrica baseada num pool de dados dos 27 estados brasileiros no período democrático (1985 até 37 1997) 16. Aproveitando a estrutura de painel do conjunto de dados, a amostra usada consta de aproximadamente 351 observações (os estados de Amapá, Roraima e Tocantins foram criados recém em 1988) o que permite ter um maior número de graus de liberdade e reduzir a colinearidade entre as variáveis explicativas, melhorando portanto, a eficiência dos estimadores. Mais importante ainda, o painel de dados oferece importantes ganhos de informação. Nessa direção, devido à utilização conjunta de informação temporal e das unidades individuais, a importância dos problemas da correlação de variáveis omitidas com as explicativas é bem menor quando comparados com os que surgem com bases de dados apenas temporais ou de cross section. (Hsiao, 1989) A estimação realizada inclui, além das variáveis explicativas descritas nas equações anteriores, variáveis dummy para cada observação cross-section (isto é para cada estado) com a finalidade de capturar o efeito das variáveis omitidas que são específicas a essas unidades e sobre as que se assume devem permanecer constantes durante o período de análise. Por outro lado, a presença de heteroscedasticidade, foi corrigida com a utilização do método de mínimos quadrados generalizados (GLS). Portanto, utilizou-se o método de GLS com efeitos fixos para tomar em conta as especificidades de cada estado. A justificativa para a utilização de efeitos fixos (fixed effects) e não efeitos aleatórios (random effects) é que a amostra utilizada representa o próprio universo de observações, os 27 estados brasileiros, não sendo uma amostra escolhida de forma aleatória dentro de um universo maior. (Hsiao, 1989 e Greene, 1995). 16 . Os dados correspondentes às variáveis fiscais foram obtidos da Secretaria do Tesouro Nacional, enquanto que os correspondentes às variáveis políticas foram extraídos do Laboratório de Estudos Experimentais do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (LEEX-IUPERJ). 38 Entretanto, o teste de Hausmann não permitiu rejeitar a hipótese (nula) de efeitos aleatórios no intercepto correspondente a cada estado, razão pela qual se apresentam os resultados da estimação considerando as características específicas de cada estado como sendo aleatórias. Os resultados da estimação econométrica são mostrados na tabelas 3.2 e 3.3 para a estimação com efeitos fixos e aleatórios respectivamente. Em geral, as equações estimadas apresentam um elevado grau de ajuste, derivado da utilização do método de efeitos fixos (dummies para cada estado) que se supõe constantes para cada estado e que captam as particularidades estaduais que são omitidas pelo modelo e que não estão correlacionadas com as variáveis explicativas do modelo. Com relação ao primeiro questionamento, a primeira coluna da tabela acima permite verificar a existência de ciclos eleitorais: tanto pelo coeficiente como os testatísticos (exibidos entre parênteses) mostram que em anos eleitorais deve se esperar um crescimento da despesa primária estadual 20% maior ao observado em anos não eleitorais. A influência das características do sistema de representação política nos estados pode ser deduzida nas colunas 2 a 4. Com relação à participação do eleitorado, observa-se com clareza que a maior participação de cidadania nos comícios estaduais implica um menor nível de despesa estadual. Portanto, esta característica do sistema político constitui-se num fator que impõe uma maior disciplina da política fiscal dos governos estaduais. Cabe ressaltar que o sinal e o grau de significância desta variável mantêm-se inalterados nas três especificações o que mostra a consistência desta relação. 39 Tabela 3.2 : Determinantes Políticos da Despesa Estadual Método de Estimação: GLSVariável Dependente Efeitos Fixos Despesa Despesa Var. da Primária per Primária per Despesa capita capita Variáveis explicativas Primária per (2) (3) capita (1) Variação do PIB per capita Despesa Primária per capita (4) 0.75 (8.16) PIB per capita 0.91 (11.11) 0.80 (9.67) 0.72 (8.51) 0,001 (0.19) 0,01 (0.27) 0.001 (0.28) -0.29 (-1.80) -0.28 (-1.65) -0.38 (-2.19) Grau de Competitividade Eleitoral -0.03 (-0.32) 0.00 (0.01) 0.008 (0.85) Taxa de Fragmentação Partidária da Assembléia Legislativa 0.41 (2.94) 0,36 (2.61) 0.40 (2.91) 0.06 (1.65) 0.04 (1.35) 0.00 (0.17) 0,01 (0.08) Tempo 0.005 (1.75) Ano de Eleição para Governador 0.19 (9.69) Taxa de Participação do Eleitorado Esquerda Direita Coincidência com a administração federal No de Observações R2 R2 –Ajustado F-estatística Durbin Watson -0.04 (-2.82) 322 0.99 0.99 29027 1.45 306 0.38 0.32 83.97 2.58 40 314 0.99 0.99 17332 1.51 314 0,99 0,99 21448 1.57 Tabela 3.3 : Determinantes Políticos da Despesa Estadual Método de Estimação: GLSVariável Dependente Efeitos Aleatórios Despesa Despesa Var. da Primária per Primária per Despesa capita capita Variáveis explicativas Primária per (2) (3) capita (1) Constante -0.07 (-2.99) Variação do PIB per capita 0.79 (7.91) Despesa Primária per capita (4) -3.40 (-6.69) -4.15 (-8.16) -4.42 (-8.72) 0.73 (9.07) 0.59 (7.33) 0.54 (6.61) -0,001 (-0.10) 0,01 (0.33) 0.003 (0.63) Taxa de Participação do Eleitorado -0.28 (-1.35) -0.28 (-1.38) -0.35 (-1.68) Grau de Competitividade Eleitoral -0.01 (-1.12) -0.01 (-0.47) 0.005 (0.48) Taxa de Fragmentação Partidária da Assembléia Legislativa 0.28 (1.54) 0,19 (1.13) 0.21 (1.22) 0.06 (1.30) 0.04 (0.79) 0.02 (0.71) 0.04 (1.35) PIB per capita Tempo 0.005 (1.65) Ano de Eleição para Governador 0.19 (8.23) Esquerda Direita Coincidência com a administração federal No de Observações R2 2 R –Ajustado Durbin Watson -0.05 (-3.16) 306 0.28 0.27 2.37 322 0.88 0.88 1.20 314 0.89 0.88 1.21 314 0,99 0,99 1.57 Não se pode afirmar o mesmo com respeito à influência da competitividade do sistema político, já que nas três equações o coeficiente desta variável não se mostrou significativamente diferente de zero, o que permite afirmar que esta variável não exerce nenhuma influência sobre a política de gasto dos estados. Com relação ao grau de fragmentação política, confirma-se de forma convincente (já que nas três especificações, o sinal e significância desta variável subsistem) que a maior fragmentação do sistema partidário tem um efeito expansivo das variáveis de despesa estadual. A relação positiva entre fragmentação política e gasto fiscal constitui uma evidência indireta das dificuldades encontradas por governos de coalizão para a implementação de políticas de contração fiscal, já que estruturas partidárias estão intimamente associadas com necessidade de governos de coalizão17. As colunas 3 e 4 não permitem fazer inferências conclusivas com relação à importância da orientação ideológica, já que nas duas especificações o sinal da variável dummy correspondente a governos de direita e insignificante e de sinal ambíguo, enquanto que o coeficiente correspondente a governos de esquerda é positivo e significativo (pelo menos na terceira equação), o que leva a inferir que a esquerda tende a utilizar políticas fiscais mais expansivas. Entretanto, quando se inclue a dummy de coincidência ideológica entre as administrações estadual e federal, esta variável perde significância. Finalmente, a quarta coluna mostra que a coincidência partidária entre as administrações federal e estadual se reflete numa postura fiscal contracionista por parte dos estados, expressada num menor nível de gasto primário estadual, fato que pode ser verificado, pelo menos nos últimos anos, quando governos estaduais administrados por aliados do atual presidente realizaram ajustes fiscais significativos (Bahía, Ceará, Maranhão e são Paulo, dentre dos casos mais notórios). 42 A estimação com efeitos aleatórios, permite inferir que em geral, os resultados descritos acima são consistentes. O sinal dos coeficientes se mantém, apesar de que as estadísticas “t” para as variáveis participação e fragmentação políticas são menores, o que não permite confirmar a influência destas variáveis sobre o comportamento fiscal dos estados. Em suma, este trabalho constituiu uma tentativa para mensurar a influência das características do sistema político partidário e o comportamento fiscal dos estados brasileiros. A relação entre essas características e três variáveis de despesa (além do resultado primário), tem sido estimada com a utilização de um pool de dados correspondentes aos 27 estados brasileiros durante o período 1985-1997. Os resultados mostram sobretudo a relevância da estrutura política na determinação da política fiscal a nível estadual. Em particular foi possível estabelecer com clareza a existência de ciclos políticos eleitorais, da relação direta entre a fragmentação do sistema partidário e a política fiscal dos estados e o caracter disciplinador da participação política da cidadania. Com relação à influência da orientação ideológica, os resultados são menos fortes. Dentre as causas para este resultado pouco robusto, pode-se mencionar que a identificação dos distintos partidos em cada um dos estados no espectro direita – esquerda não é homogênea, bem como a própria fragmentação do sistema partidária que cria a necessidade de formação de coalizões de governo (multipartidários) debilita a orientação política dos distintos governos. 17 . Estudos similares na OECD mostraram resultados similares. Governos de coalizão enfrentam muitas dificuldades de implementar ajustes, isto é, a probabilidade de sucesso de políticas de ajuste é menor nos governos multipartidários. (Alesina e Pertti, 1995) 43 IV. Os efeitos da política fiscal dos estados sobre as variáveis socioeconômicas estaduais Tendo estudado os determinantes políticos do comportamento fiscal dos estados, nesta última seção, indaga-se se a política fiscal dos estados tem efeitos sobre indicadores socioeconômicos estaduais. Portanto, a presente discussão da tem claras implicações de política econômica: os governos subnacionais têm capacidade para afetar o bem estar de suas comunidades? Para responder esta pergunta, esta seção se divide em duas partes. A primeira discute analiticamente a eficácia das políticas adotadas por níveis inferiores de governo em contextos federativos. Na segunda, implementam-se testes de causalidade entre política de gastos estaduais e indicadores sociais para determinar empiricamente se os governos estaduais brasileiros podem afetar o bem estar da população dos seus estados. IV. 1 Algumas considerações teóricas Na parte introdutória deste trabalho, se mencionou que existem argumentos teóricos bastante consistentes que justificam uma maior eficiência da política pública quando esta é implementada por níveis inferiores de governo. Por um lado, a descentralização como mecanismo de concorrência entre jurisdições promove uma maior eficiência alocativa dos recursos públicos locais. Por exemplo, os governos subnacionais competem entre sim para atrair investimentos e atividade econômica a partir da provisão de infra-estrutura física e qualificação da mão de obra, o que incide numa melhor qualidade da oferta de bens públicos. Por sua vez, a concorrência entre jurisdições tem um outro efeito positivo que consiste no controle do crescimento do tamanho do estado. Sem dúvida, a 44 possibilidade de migração de fatores de produção é uma restrição latente para o crescimento excessivo dos governos subnacionais. Por outro lado, a descentralização constitui uma forma eficiente de superar os problemas de agregação a partir da distinção e respeito das preferências das comunidades locais. A maior proximidade dos governos locais ou regionais com sua população implica uma vantagem comparativa de caracter informacional destes governos com relação à esfera central. Portanto, se a descentralização implica a transferência de poder público de esferas de governo distantes e pouco sensíveis às necessidades da comunidade para níveis de governo que conhecem e respondem melhor a essas necessidades, é lógico esperar que a descentralização melhore a eficiência das políticas públicas. Associada a este argumento, o exercício da “accountability” está em direta relação com a maior proximidade, já que esta implica a possibilidade de um maior controle dos administradores subnacionais por parte de suas comunidades devido à maior visibilidade dos bens e serviços públicos oferecidos por estes níveis de governo e a maior possibilidade de participação democrática. Entretanto, deve ser destacado que esses benefícios são potenciais e que sua verificação depende da conjunção dos condicionantes políticos e institucionais que vigoram numa determinada estrutura federativa. Por exemplo, relações financeiras entre níveis de governo que geram restrições orçamentárias fracas para os governos subnacionais abrem espaço para o oportunismo eleitoral expressado em expansões fiscais irresponsáveis geralmente ineficientes desde a perspectiva do bem-estar da comunidade. Assim, a facilidade de acesso a crédito e a possibilidade de transferir ônus do financiamento para níveis superiores, estimulam investimentos massivos e 45 pouco eficientes para melhorar as condições socio-econômicas das comunidades subnacionais. Pode se esperar ineficiência em estruturas políticas com um elevado grau de fragmentação política, onde comportamentos do tipo “pork barril” ou “logrolling” permitem que grupos de interesse exerçam influência sobre a alocação de recursos públicos locais em prejuízo da maioria. Baixa participação da comunidade local pode gerar uma maior vulnerabilidade das esferas inferiores de governo à influência das elites regionais, a comportamentos rent seeking ou simplesmente a própria corrupção. Assim, se as esferas inferiores de governo são mais vulneráveis, as chances de captura das estruturas públicas subnacionais por parte de grupos de interesse constitui um contra argumento forte à maior eficiência da política das unidades descentralizadas. Paralelamente, a teoria do federalismo fiscal ao orientar com clareza a definição de funções dos distintos níveis de governo, fornece sobre a eficiência das políticas de cada nível de governo. Dado que correspondem ao governo federal as funções macroeconômicas de estabilização, emprego e distribuição de renda, é possível inferir que as políticas estaduais destinadas a reduzir o desemprego e a desigualdade na distribuição de renda devem ser pouco eficientes. Por exemplo, é pouco provável que uma política fiscal expansiva por parte dos governos subnacionais afete o desemprego num contexto de política monetária contracionista adotada pelo governo federal. Da mesma forma, políticas de caráter redistributivo em nível estadual podem ser facilmente neutralizadas pelas possibilidades de mobilidade interjurisdicional dos fatores. Pelo contrário, deve-se esperar que a política social seja mais eficiente quando esta é implementada por governos que estão mais próximos da população. Portanto, políticas sociais como 46 educação e saúde devem ser mais eficientes quando implementadas por governos sunacionais. Em suma, esta discussão mostra que as características políticas e institucionais das estruturas decentralizadas de governo determinam o grau de aproveitamento dos benefícios derivados da descentralização e que restrições derivadas da divisão de funções entre níveis de governo em organizações federativas devem limitar o grau de eficiência das políticas estaduais. IV. 2 Metodologia Esta seção está orientada por uma preocupação de política econômica. O seu objetivo é determinar se a despesa pública estadual tem efeitos sobre o nível de bem estar socioeconômico de cada estado. A utilização de análise de regressão para explicar o nível de bem estar a partir dos níveis de despesa pública estadual como variável explicativa, não permite alcançar o objetivo acima. Na realidade, essa análise de regressão permite verificar apenas se a variação dos níveis de despesas públicas entre estados está correlacionada com variações no nível de bem estar social em cada unidade federativa. Não há dúvida que é perfeitamente possível que níveis elevados de despesa pública estadual estejam associados a maiores níveis de renda, menores níveis de pobreza ou baixas taxas de desemprego. Entretanto, também é perfeitamente possível que níveis elevados de despesa pública, altos níveis de renda e baixos graus de pobreza e desemprego sejam explicados por outros fatores não observados. Nesse caso, uma política de expansão da despesa pública estadual não necessariamente provocará o aumento da renda, a diminuição da pobreza e do 47 desemprego, já que podem existir outros fatores que exerçam influência sobre esses indicadores do bem estar social nos estados. Por exemplo, na seção III constatou-se a forte relação entre despesa fiscal dos governos estaduais e nível de atividade que por sua vez, pode estar correlacionado com os indicadores socioeconômicos de cada estado. Portanto, é possível inferir a existência de correlação contemporânea entre as diversas categorias de despesa pública estadual e os principais indicadores econômico-sociais, mas que não implica que a política de despesa estadual tenha efeitos sobre as variáveis socioeconômicas dos estados. Assim, a simples verificação da relação contemporânea entre política pública estadual e indicadores socioeconômicos não fornece nenhuma evidência empírica que permita afirmar com certeza que a política fiscal dos estados afeta o bem estar de suas comunidades. Portanto, para determinar se a despesa pública estadual é capaz de alterar o bem estar da população, medido pelos indicadores socioeconômicos, torna-se necessário implementar testes de causalidade entre as variáveis envolvidas. Causalidade implica precedência no sentido em que se um evento X causa um outro evento Y, então, o evento X deve preceder Y. Portanto, se X causa Y, valores de X devem poder prever valores futuros de Y. Com essa idéia, Granger (1969) definiu um método para testar causalidade entre variáveis a partir do seguinte princípio: se uma variável x causa y, então, a inclusão de valores defasados de x na regressão de y regredida em seus valores defasados e outras variáveis explicativas, deve melhorar o poder de previsão do modelo em questão. 48 Portanto, x causa y no sentido de Granger, significa que o erro de previsão do modelo que inclui x é menor que o erro do modelo que inclui apenas os valores defasados de y: (4.1) yt - E ( yt / yt-1,...,yt-n, xt-1,...,xt-n) < yt - E ( yt / yt-1,...,yt-n) onde E é o operador de esperança condicionada. Testar causalidade entre políticas estaduais e indicadores socioeconômicos com dados de painel caracterizados pela curta dimensão temporal (T pequeno) não é trivial devido à impossibilidade de implementar testes tradicionais de causalidade de Granger como o descrito acima. Existem duas limitações impostas pela base de dados descrita anteriormente bem como pela própria metodologia de regressão em dados de painel com efeitos fixos. A primeira e mais obvia é que a dimensão temporal da amostra é pequena para usar técnicas clássicas de séries de tempo para estabelecer relações dinâmicas entre política fiscal em nível estadual e variáveis socioeconômicas. A segunda tem a ver com as características de estimação de dados de painel e o teste de causalidade de Granger: a utilização da variável dependente defasada como variável explicativa gera estimadores inconsistentes e viesados em painéis de dimensão temporal reduzida. Tanto para modelos de efeitos fixos como aleatórios, a inconsistência dos estimadores OLS, GLS, de máxima verosimilhança MLE, é uma função decrescente do tamanho temporal da amostra. Por sua vez, o viés dos estimadores é causado pela eliminação do efeito fixo que cria a correlação entre as variáveis explicativas e os resíduos do modelo dinâmico. (Hsiao, 1986, Arellano e Bover, 1995, Kiviet, 1995 e Cermeño, 1999) Para superar essa dificuldade, Granger e Huang (1997) propuseram uma metodologia que adapta os testes tradicionais de causalidade de Granger para 49 dados de painel caracterizados pela curta dimensão temporal de uma forma similar à usada na previsão de séries de tempo. Dessa forma, a metodologia proposta analisa a dinâmica das relações entre as variáveis fiscais e socioeconômicas para determinar a direção da causalidade entre elas. (Weinhold e Reis, 1999) Dado o caráter dinâmico da relação entre variáveis fiscais estaduais e bem estar das comunidades subnacionais, a adaptação do teste causalidade a ser desenvolvido consiste em duas modificações do método original de Granger. A primeira é que as variáveis devem ser expressas em variações e não em níveis para remover o viés dos estimadores das regressões. A segunda se refere à utilização de previsões fora da amostra (out of sample) no lugar de previsões dentro da amostra (in sample) na avaliação do poder de predição dos modelos alternativos18. Portanto, x causa y no sentido de Granger – adaptado a estas circunstâncias -, significa que o erro de previsão fora da amostra do modelo que inclui as variações de x é menor que o erro do modelo que inclui apenas as variações defasadas de y: (4.2) ∆yj,t+1 - E(∆yj,t+1 /∆yi.t-1,..., ∆yi,t-n,∆xi,t-1,...,∆xi,t-n) < ∆yj,t+1 - E(∆yj,t+1 / ∆yi,t-1,...,∆yi,t-n) onde j deve ser diferente de i Para testar se a política fiscal dos estados afeta o bem estar de suas comunidades, testam-se dois modelos alternativos. No primeiro regride-se a variação de cada um dos indicadores sociais (desemprego, renda, grau de desigualdade e pobreza) em suas variações no passado (t-1 e t-2) e em uma variável de controle que é a média nacional da variável socioeconômica em questão. 18 . Com dados de painel, o qualidade do ajustamento dentro da amostra é muito elevada já que a correlação pode vir tanto das variações temporais como das variações da informação de cross section, o que implica que não é possível discriminar os modelos pela sua capacidade de previsão dentro da amostra, portanto é preferível avaliar os modelos pela sua capacidade de previsão fora da amostra. (Weinhold e Reis, 1999) 50 No segundo, além das variáveis explicativas acima citadas, são incluídas as variações da despesa primária estadual dos períodos anteriores (t-1 e t-2)19: (4.3) ∆ I.Sociali,t = β1*∆ I.Sociali,t-1 + β2*∆ I.Sociali,t-2 + Γ*∆ I.Socialt (4.4) ∆ I.Sociali,t = β1*∆ I.Sociali,t-1 + β2*∆ I.Sociali,t-2 + Γ*∆ I.Socialt + β3*∆Desp.Primi,t-1 + β4*∆Desp.Primi,t-2 onde: ∆I.Sociali,t = Variação do indicador social no ano t no estado i ∆Desp.Primi,t-1 = Variação da despesa Primária no ano t-1 no estado i ∆I.Socialt = Variação média do indicador social no ano t no país Para determinar se a política estadual causa bem estar social, isto é se variações de despesa primária provocam mudança nos indicadores sociais, o poder de previsão do modelo (4.4) deve ser superior ao do modelo (4.3). Definindo η3j,t+1 e η4j,t+1 como sendo os erros de previsão fora da amostra dos modelos (4.3) e (4.4) respectivamente, formula-se a hipótese de não causalidade, ou hipótese nula que afirma que os dois modelos possuem um poder de previsão similar e portanto, a despesa estadual não afeta os indicadores sociais: (4.5) H0: η3j,t+1 = η4j,t+1 Para testar H0, Granger e Huang (1997) definem as seguintes variáveis: (4.6) SUMj,3,4 = η3j,t+1 + η4j,t+1 e (4.7) DIFFj,3,4 = η3j,t+1 - η4j,t+1 Então, H0 será aceita se δ = O na seguinte regressão: (4.8) SUMj,3,4 = α + δ * DIFFj,3,4 + εj Pelo contrário, se a política de despesa dos governos estaduais afeta o bem estar social de suas comunidades, δ deve ser significativamente diferente de zero. 19 . O objetivo da inclusão da média nacional de cada um dos indicadores socioeconômicos como variável explicativa é duplo: poder controlar a tendência das variáveis dependentes e capturar os 51 Na implementação do teste descrito acima, utilizaram-se os dados de despesa primária dos estados usados nas seções 2 e 3 do trabalho, mas agora, esta variável passa a ser uma das variáveis explicativas no modelo (4.4). Para as variáveis dependentes e as explicativas defasadas, utilizaram-se cinco indicadores socioeconômicos estaduais que refletem as condições de bem estar da população de cada, quais são, a taxa de desemprego (U), a renda familiar (R), o grau de desigualdade na distribuição de renda (GINI), o nível de pobreza (POV) e a intensidade da pobreza (IPOV). Estes indicadores foram calculados na Diretoria de Estudos Sociais (Disoc) do IPEA de Rio de Janeiro, a partir das informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE para o período 1985 a 97. IV.3 As respostas Para determinar a existência de correlação entre as taxas de crescimento da despesa primária dos estados e as taxas de crescimento das variáveis socioeconômicas, estimou-se preliminarmente a relação contemporânea entre variações de despesa fiscal estadual e variações da taxa de desemprego, na renda familiar per capita, no coeficiente de desigualdade de Gini, na proporção de pobres e na intensidade da pobreza. Por sua vez, junto com as variações de despesa primária, as equações estimadas incluem o PIB per capita estadual e as médias nacionais da taxa de desemprego, renda familiar, distribuição de renda e pobreza. O reconhecimento de que essas variáveis têm um componente explicativo nacional implica que estas efeitos da política do governo federal sobre esses indicadores e não atribui-los às ações dos governos subnacionais. 52 variáveis são afetadas pela política macroeconômica do governo nacional e não apenas pelo comportamento das despesas estaduais20. A tabela 4.1 apresenta os resultados deste exercício econométrico. Esses resultados mostram por um lado resultados lógicos, isto é uma forte relação negativa entre taxas de crescimento da despesa primária estadual e as variações da taxa de desemprego e da proporção de pobres: expansões fiscais estaduais coincidem com a diminuição da taxa de desemprego e da proporção de pobres, enquanto que também se observa correlação positiva entre despesa estadual e renda familiar per capita. Pelo outro lado, não é possível observar nenhuma correlação contemporânea entre a despesa estadual e os outros dois indicadores sociais, intensidade da pobreza e grau de desigualdade. Como foi antecipado, os quatro indicadores socioeconômicos têm um forte componente nacional a julgar pelo coeficiente (sempre próximo de 1) e pelo elevado grau de significância dessas variáveis sociais para o Brasil em seu conjunto. Já se mencionou que a elevada correlação entre as medidas em nível estadual e nacional está indicando as limitações da política estadual com relação a sua capacidade para afetar o bem estar de suas comunidades. Finalmente, chama a atenção a ausência de correlação entre as variações do nível de atividade (PIB per capita) e quase todas as variáveis socioeconômicas, com exceção da intensidade da pobreza. Este resultado pode ter uma interpretação polemica, no sentido em que estaria indicando que o crescimento econômico dos estados não incidiria na melhora do bem estar social da população. 20 . O elevado grau de abertura e integração, característica típica das economias subnacionais em países federativos, também justifica a inclusão de variáveis explicativas em níveis nacionais. 53 Tabela 4.1 : Correlação Contemporânea entre Variações de Despesa Primária Estadual e de Indicadores Socioeconômicos Estaduais Método de Estimação: Variável Dependente GLS-Efeitos Fixos Variação da Variação da Variação do Variação na Variação na Coeficiente Proporção Intensidade Taxa de Renda de Pobres da Pobreza de Gini Desemprego Familiar per (4) (5) (3) (1) capita (2) Variáveis explicativas Variação da Despesa Primária Estadual per capita -0.34 (-4.41) 0.42 (6.77) -0.01 (-0.42) -0.07 (-1.69) -0.05 (-0.81) Variação do PIB per capita -0.01 (-0.30) 0.20 (1.17) -0.01 (0.40) 0.04 (0.59) -0.20 (-2.17) Variação da Taxa de Desemprego – Brasil 0.76 (11.52) Variação na Renda Familiar per capita – Brasil 1.15 (5.08) Variação do Coeficiente de Gini – Brasil 0.95 (7.88) Variação na Proporção de Pobres – Brasil 1.43 (28.47) Variação na Intensidade da Pobreza – Brasil No de Observações R2 R2 –Ajustado Durbin Watson 1.35 (27.6) 197 0.63 0.57 2.88 203 0.49 0.41 2.90 198 0,40 0,29 2.52 175 0.89 0.87 1.99 168 0.89 0.86 2.11 A correlação entre as variações de despesa primária dos governos estaduais e as variações da taxa de desemprego e na proporção de pobres pode levar a concluir que expansões fiscais provocam a diminuição do desemprego, aumento da renda familiar per capita e redução da pobreza, isto é expansão fiscal estadual implicaria melhora do bem estar da população. Entretanto esta implicação de política pode não ser correta. Como já foi salientado na subseção anterior, correlação não implica 54 causalidade. Na realidade, a relação causal entre despesa estadual e desemprego e pobreza pode ter uma direção contrária: a redução do desemprego e dos níveis de pobreza geram elevação das receitas fiscais e estas, por sua vez, podem impulsionar expansões de despesa. Portanto, as reduções do desemprego e da pobreza e aumentos da renda das pessoas estariam promovendo expansões fiscais. Nesse caso, dado que a estimação acima sofre de problemas de endogeneidade, as prescrições derivadas destes resultados conduziriam a decisões erradas de política econômica21. Portanto, para ter prescrições mais sólidas é necessário implementar testes de causalidade como o descrito na subseção anterior. Se a despesa primária dos estados afeta os indicadores socioeconômocos analisados, os modelos que incluem variáveis de despesa fiscal em períodos anteriores devem ter uma melhor performance na previsão da evolução da taxa de desemprego, renda, pobreza e distribuição de renda que modelos que incluem apenas valores defasados das próprias variáveis socioeconômicas. A implementação dos testes de causalidade de Granger adaptados à amostra de dados de painel de extensão temporal reduzida contemplou os seguintes passos: i). Especificaram-se as 2 equações (4.3 e 4.4) para cada um dos indicadores sociais analisados (no total 10 equações); ii) estimaram-se essas equações com a exclusão de uma observação cross-section (cada uma das 10 equações foi estimada 27 vezes); iii) geraram-se os erros de previsão fora da amostra de cada um dos modelos para cada estado e para cada indicador socioeconômico, η3j,t+1 e η4j,t+1; iv) criaram-se as variáveis soma (SUM) e diferença (DIFF) dos erros η3j,t+1 e η4j,t+1 correspondentes às 2 equações de cada indicador (equações 4.6 e 4.7); finalmente, 21 . A única implicação que pode ser extraída dos resultados apresentados na tabela 4.1 é que nos 55 estimou-se a equação 4.8, isto é a soma dos erros foi regredida na diferença dos erros (5 equações ou uma para cada indicador). Como já foi mencionado anteriormente, o valor do coeficiente δ em cada uma das cinco equações determina se a despesa primária afeta ou não cada um dos indicadores sociais: δ diferente de zero implica que a despesa estadual afeta a variável socioeconômica em questão. Os resultados deste teste de causalidade são exibidos na tabela 4.2. Tabela 4.2 : Testes de Causalidade entre Despesa Primária Estadual e Indicadores Socioeconômicos Estaduais Regressão: SUM = α + δ * DIFF + ε Variável Socioeconômica Taxa de Desemprego (1) Renda Familiar per capita (2) Coeficiente de Gini (3) Proporção de Pobres (4) Intensidade da Pobreza (5) α 0.03 (0.47) 0.00 (0.10) 0.01 (0.93) 0.00 (0.03) 0.01 (0.24) δ -0.78 (-1.11) 1.05** (3.10) -1.55** (-4.10) -0.78 (-0.84) -0.70 (-1.26) 88 5 126 5 119 5 100 4 96 4 Coeficientes: No de Observações Períodos Os resultados obtidos mostram que a política de gastos estaduais afeta a renda familiar per capita e o grau de desigualdade na distribuição de renda, não tendo efeitos significativos sobre a taxa de desemprego, a proporção de pobres e a intensidade da pobreza em cada estado. estados onde a despesa primária cresce mais rapidamente, deve se esperar que o desemprego e a pobreza diminuam de forma mais aceleradamente. 56 À luz da teoria da distribuição de funções entre níveis de governo em contextos federativos, dois desses resultados são razoáveis e outros dois são surpreendentes. Por um lado, e natural esperar que a política fiscal estadual tenha efeitos sobre o nível de renda das pessoas e que pelo contrário não exerça nenhuma influência sobre a taxa de desemprego, já que esta última variável depende mais da política macroeconômica do governo central. Pelo outro, é difícil pensar que os governos estaduais tenham poder para alterar a distribuição de renda em seus estados, já que em geral os instrumentos redistributivos (tributários e de transferências) estão em mãos do governo central; de forma oposta, dada a maior proximidade dos governos subnacionais com suas comunidades, era de se esperar uma maior eficiência da política estadual no combate à pobreza. Por outra parte, a eficácia ou ineficácia das políticas estaduais guarda relação com as potencialidades e limitações do processo de descentralização. a política a falta de resposta dos indicadores socioeconômicos estaduais poder ser explicada pela própria ineficiência do gasto público estadual. Já se mencionou acima, que os benefícios da descentralização são potenciais e que nem sempre se verificam. Já foram citados problemas de grupos de interesse que influenciam com maior facilidade a política dos níveis inferiores de governo. A fragmentação política que dá espaço para comportamentos logrolling, também justifica decisões de gasto orientado por interesses particulares em prejuízo do bem-estar geral. A percepção de restrições orçamentárias fracas por parte dos administradores estaduais também pode explicar a ineficiência das decisões de gasto estadual e o financiamento de projetos de infra-estrutura pública com baixo retorno social. 57 Finalmente, deve-se esperar que a chamada “vantagem comparativa informacional” dos governos subnacionais, resultante de sua maior proximidade com suas comunidades, se expressem em outros indicadores sociais que sejam menos afetadas pelas políticas nacionais. Portanto, para a avaliação do impacto das políticas de despesa dos estados sobre o bem-estar de suas respectivas comunidades deveriam se usar variáveis sociais, tais como educação, saúde, mortalidade, etc, variáveis que são diretamente afetadas pela qualidade da provisão de bens e serviços públicos locais e regionais. Do lado das variáveis de política fiscal em nível estadual, poderiam ser usadas categorias de despesas por função (educação, saúde, saneamento, etc) que devem ter um maior impacto que a variável usada neste trabalho. 58 Referências Bibliográficas Ackerman, Susan, 2000. “The Economics and Politics of Federalism: tensions and Complementarities”. In Symposium of “The New Political Economy of Decentralization and Federalism”. American Political Science Association. Los Angeles-USA. Alesina, Alberto e Alex Cukierman, 1990. “The Politics of Ambiguity”. Quarterly Journal of Economics 105 (4): 829-850. 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