O QUE É O ESPIRITISMO?
José Lucas
Voz de Cambra (V.C.): O que é o
espiritismo?
José Lucas (J.L.):
O Espiritismo é uma ciência filosófica de
consequências
morais;
como
ciência
investiga os factos espíritas; como filosofia
explica-os, e como moral traça um roteiro
moral para a humanidade, assente nos
ensinamentos morais que Jesus de Nazaré
deixou na Terra.
V.C: O espiritismo é, muitas vezes, associado a rituais e superstições. Então, o que não
é o espiritismo?
J.L: O Espiritismo não é mais uma religião, nem mais uma seita; não tem nada a ver com
bruxarias, magias, rituais, médiuns comerciantes que colocam anúncios em jornais,
superstições, crendices. O Espiritismo (ou Doutrina Espírita) é um amplo movimento cultural.
V.C: O espiritismo é também visto, muitas vezes, como uma religião nova que está a
difundir-se em Portugal e que veio do Brasil. É assim?
J.L: É completamente errado.
A Doutrina Espírita (conjunto de ideias que explicam a origem, natureza e destino dos
Espíritos, bem como as relações existentes entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual)
apareceu em França (Paris) em 1857, com as pesquisas do eminente sábio (à época) Allan
Kardec, pessoas respeitabilíssima na sociedade parisience.
O Espiritismo não é mais uma religião nem mais uma seita, mas uma doutrina que aumenta a
espiritualidade do ser humano.
Muitos espíritas, nomeadamente no Brasil, confundem espiritualidade com religião, e fazem do
espiritismo mais uma religião, o que é profundamente contra a essência do Espiritismo
(estude-se as obras de Allan Kardec, "O que é o Espiritismo?" e outras).
V.C: Acha que a doutrina espírita é uma ideia bem aceite pelo povo português?
J.L: Cada vez mais.
Isso nota-se pela busca que as pessoas fazem pelo espiritismo, como doutrina que esclarece
e consola, respondendo às perquirições mais íntimas que nos assolam: quem somos, de onde
viemos, para onde vamos? Qual a causa de tantas dissemelhanças entre as pessoas e
dissemelhança de oportunidades? Curiosamente duas classes que tradicionalmente se
interessam muito pelo espiritismo são os professores e os médicos.
V.C: Como é que o espiritismo pode ser útil à sociedade?
J.L: O Espiritismo explica o porquê da vida, porque somos felizes, porque sofremos. As
pessoas ao entenderem o porquê da vida, a lógica e profunda justiça de Deus, assente na
lógica da reencarnação (hoje uma evidência científica adquirida), tornam-se mais calmas, mais
fraternas, mais compreensivas, mais tolerantes. Entendendo o espiritismo, o racismo,
xenofobia, diferenças de género e diferenças sociais, desaparecem, pois o homem entende
que todo o homem é nosso irmão e está naquela condição temporariamente e que amanhã,
noutra vida podemos ser nós a estar na mesma condição. Com o espiritismo aumenta a
consciência ecológica, com profundo respeito pela Natureza. O Espiritismo é ainda o melhor e
maior preservativo contra o suicídio, demonstrando a inutilidade deste acto, pois que a vida
continua.
V.C: Com a crise que assola o país de várias formas, tem havido uma maior procura
desta doutrina espírita?
J.L: Pensamos que não, pois acima da crise financeira, existe uma crise de valores.
O actual sistema social está esgotado, as pessoas estão cansadas de procurar em vão a
felicidade no materialismo.
O Espiritismo apresenta a mensagem de Jesus de Nazaré, como única estratégia de paz
possível, que podemos colocar em prática, já hoje, melhorando o nosso íntimo, e auxiliando os
que nos cercam a serem melhores.
Com o Espiritismo a mensagem de Jesus é melhor entendida, sem os dogmas criados pelas
várias igrejas, regressando assim à sua simplicidade inicial.
V.C: O espiritismo mostra a morte como uma passagem. Qual a vossa posição da vida
para além da morte?
J.L: O Espiritismo demonstrou experimentalmente que a morte é uma quimera, o espiritismo
matou a morte. Provou que a vida continua, através dos contactos com o mundo espiritual, por
meio de médiuns. Todos esses factos estudados em 1857, estão agora a ser comprovados
por cientistas (não espíritas) de vários países, demonstrando assim a imortalidade do Espírito.
Poderá haver noção mais reconfortante?
V.C: Diz a doutrina espírita se baseia na comunicabilidade dos espíritos. Explique de
que forma se processa e qual a experiência que mais o impressionou?
J.L: Isso daria para um curso básico de espiritismo, que as pessoas podem fazer
gratuitamente através da Internet em www.adeportugal.org. Ninguém morre, continuando a
viver no mundo espiritual com um corpo espiritual, energético, tão real como o nosso só que
noutro estado da matéria. A comunicação espiritual dá-se mente a mente, em que o médium
capta o pensamento e a mensagem do espírito (pessoa já falecida, mas tão viva quanto nós).
O médium, pela concentração, capta a ideia que o espírito quer transmitir e transmite-a
através da escrita, da fala, da vidência, da audiência, conforme seja o seu tipo de mediunidade
(ou percepção extra-sensorial).
São inúmeras as experiências vivenciadas que atestam a imortalidade do espírito. Num dos
casos que me recorde, um miúdo falecido com 13 anos, 7 anos mais tarde comunicou-se
através de um médium numa reunião num centro espírita, pedindo para dizer à mãe que não
se esquecesse da latinha. Não conhecíamos a família e aquilo nada nos dizia. Dado o recado
à mãe, esta chorou de alegria, identificando de imediato tratar-se do filho, que na altura que
faleceu num acidente de automóvel, usava um mealheiro em forma de lata de coca-cola onde
ele metia as moedas que lhe davam, e chamava-a de latinha. Nenhum de nós conhecia a
família, nem o caso, nem onde moravam, nada.
V.C: O que é a Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP) e quem a
constitui?
J.L:
É uma associação, que pretende divulgar correctamente a Doutrina Espírita, a nível nacional,
auxiliando assim a informar as pessoas de que o espiritismo é cultura, nada tem a ver com
crendices, com superstições, com médiuns charlatães que vivem à custa do sofrimento alheio.
Repare que no próximo 17 e 18 de Abril vão decorrer as VII Jornadas de Cultura Espírita, em
Óbidos, um evento ao nível nacional que tem esgotado sempre, onde temos tido a presença
de médicos, psicólogos, investigadores entre outros.
Quem constitui a ADEP são cerca de 20 dirigentes espíritas a nível nacional, de Norte a Sul do
país, que sentiram a necessidade de a constituir com esse fim. São professores, jornalistas,
cientistas, empregados administrativos, médicos, técnicos, militares, entre outras profissões
existentes na sociedade.
V.C: Que tipos de ajuda dá uma associação espírita?
J.L: Esclarece acerca da vida e esclarecendo consola.
Paralelamente ajuda ao nível espiritual, com a terapia espírita: estudo, oração, passe espírita
(transmissão de fluídos energéticos), e desobsessão espiritual (intercâmbio com o mundo
espiritual em benefício do necessitado)
V.C: Em Vale de Cambra está sedeado um centro espírita (Associação Cultural e
Beneficente Mudança Interior. Que contributo tem dado à população?
J.L: Isso vai ter de questionar os dirigentes locais. Mas enquadra-se certamente no que
respondi na pergunta anterior.
V.C: Quem são na realidade os espíritas e os médiuns? Qualquer pessoa o pode ser?
Cobram dinheiro?
J.L: O espírita é o adepto da ideia espírita.
O médium é a pessoa portadora de mediunidade (percepção extra-sensorial).
Qualquer pessoa pode ser espírita, bastando para isso simpatizar com os seus princípios e
querer aprender e estudar espiritismo.
Qualquer pessoa pode ser médium, já que em essência todos somos mais ou menos médiuns.
Ser médium não é sinónimo de ser espírita. Existem católicos que são médiuns, budistas que
são médiuns, ateus, evangélicos, etc, etc, é da condição humana.
Existem médiuns que também são espíritas, e existem espíritas que não são médiuns.
Do que conheço o Espiritismo é a Doutrina que melhor utiliza a mediunidade, com rigor, com
seriedade e com total desinteresse.
Um centro espírita jamais pode cobrar um cêntimo que seja pelas suas actividades, nem tão
pouco aceitar dinheiro em troca, nem qualquer outro tipo de favores. É um crime de simonia
(comércio das coisas de Deus). A prática espírita centra-se no amor ao próximo,
desinteressadamente. Onde houver comércio, aceitação monetária, aí não está o espiritismo,
de certeza absoluta.
(In Jornal “A Voz de Cambra”, de 25 de Fevereiro de 2010, Vale de Cambra, Portugal)
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José Lucas