NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo
IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa
GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania
Divinópolis, Minas Gerais - Brasil
5-12-2010 - A doutrina espirita - parte I – Religião Espírita?
Pedro (Espírito)
Psicofonia compilada por Maria José Gontijo
Revisão Filipe Alex da Silva
Resumo: Este é o primeiro de uma série de cinco estudos cujos temas
desenvolvidos são aspectos fundamentais da Doutrina dos Espíritos, buscando uma
conceituação mais atual e o melhor entendimento da mesma. O conhecimento que nos é
passado neste primeiro estudo é do aspecto religioso da Doutrina Espirita,
diferenciando-a das outras religiões do mundo. As questões apresentadas buscam
esclarecer sobre o papel de Jesus, da bíblia, da codificação, apresenta a diferença de
rituais e técnicas; e esclarece sobre o passe.
Palavras chaves: Doutrina Espírita, religiões, Religião Espírita, passe, ritual,
Jesus, creação, mito da creação, sobrenaturalidade, leis divinas naturais, relação creador
creatura, Bíblia, livros sagrados, Movimento Espírita, Codificação, horizonte cultural,
lavar os pés, livre arbítrio.
Boa noite a todos!
É uma alegria novamente estarmos compartilhando esse tempo e espaço para
que possamos aprender e crescermos juntos, com a permissão dos mestres que nos
orientam, porque da mesma forma que os orientamos somos orientados. E analisando a
compreensão que cada um tem tido dos nossos estudos, resolvemos fazer uma revisão.
Não podemos avançar no conteúdo se o próprio significado da proposta espírita
não for bem compreendido.
Então, novamente decidimos renovar, inclusive na metodologia dos estudos que
estamos fazendo, para um melhor entendimento do que seja a Doutrina dos Espíritos,
porque a proposta da Doutrina é tão renovadora e libertadora que não encontra
parâmetro no mundo para que possamos de uma forma clara, precisa, indubitável,
classificá-la e defini-la.
Neste momento gostaria de recorrer a algumas palavras muito utilizadas pelo
Mestre Jesus quando ensinava conteúdos de difícil compreensão. Mesmo com sua
maestria didático-pedagógica, alguns de seus ensinamentos eram tão sofisticados, que
sabia que não seria compreendido por muitos daqueles que o ouviam. Então falava que,
“aqueles que tiverem ouvidos, ouçam”, querendo dizer com isso que todos os que são
capazes de entender, compreender o sentido dos seus ensinamentos, devem colocá-los
em prática, visto que estes são morais. Se o Mestre dos Mestres ensinava sabendo que
nem todos o compreendiam, também enfrentamos a mesma dificuldade, porque nós
apresentamos ideias que, muitas vezes, nem todos estão preparados para entendê-las.
Por isso precisamos partir do conhecimento que cada um de vocês tem. Assim
como Jesus ensinava grandes lições morais, as leis da vida, utilizando semeadores,
pastores e pescadores, porque era o que aquele povo conhecia, nós também temos que
partir dos símbolos, das concepções de cada um de vocês, que são diversas.
Encontramos uma grande dificuldade na comunicação, na transmissão do
conhecimento que tentamos compartilhar com vocês. Para melhorar a nossa
comunicação, vamos tentar reduzir nossa fala para uns trinta minutos e depois podemos
iniciar um debate, respondendo aos questionamentos de vocês.
O Que vem a ser a Doutrina Espírita (D.E.)?
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A D.E. é uma revolucionária proposta que foi revelada à humanidade. Por isso
ela precisou de todo o amadurecimento da mesma para ser compreendida. Ela supera
todos os horizontes culturais que vieram antes dela.
O primeiro horizonte cultural que a D.E. apropria-se, vamos chamar de Religião.
Este constitui o mais antigo horizonte cultural da humanidade. Logo no início
das civilizações começaram a surgir as Religiões. E a Religião se baseava numa
proposta da infância da humanidade, como se fosse o início do intelecto humano que
começava a caminhar. O entendimento da Natureza era um entendimento mágico,
devido ao desconhecimento dela. As explicações sobre a mesma eram mitológicas.
Então, na origem de todas as religiões estão os mitos.
Vejamos como exemplo a Religião Judaico-Cristã na qual a maioria das pessoas
do Ocidente está aculturada: o Mito da Creação1, que é o mito de Deus creando o
mundo em seis dias, sendo que no último creou o homem, nos indivíduos Eva e Adão.
Como entendemos isso hoje?
As religiões se baseavam no princípio da sobrenaturalidade, que existe algo
acima da Natureza, que comanda a natureza das coisas; deuses. No começo, no
politeísmo; depois um Deus que está acima da Natureza, que a comanda, que pode parar
o céu, o sol, fazer milagres; estes entendidos como uma derrogação da Lei Natural.
Então, percebam esta ideia infantil, mágica, do funcionamento do Universo. Ainda hoje,
grande maioria de pessoas se encontra neste horizonte cultural, onde necessitam deste
tipo de concepção e acreditam que Deus faça alguma coisa especial para ela, que não
fosse para todos os seres humanos. Elas acreditam que as Leis que regem todo o
Universo podem ser mudadas ao exclusivo bem-querer delas (ou de Deus?). Estas
pessoas acreditam que precisam de alguém para salvá-las de alguma coisa.
Historicamente essas Religiões foram se desenvolvendo e sofreram uma
racionalização. Uma destas tentativas de racionalização da religião é a Teologia. A
Teologia, que significa o estudo da palavra Divina, de Deus, que é perfeita, irrefutável e
teria sido passada para os homens através dos livros sagrados: a Bíblia, o Alcorão e
outros; daí subentende-se que se deve obedecer a esses livros, pois são a “Palavra de
Deus”. A partir desses livros e da tradição, criou-se os dogmas, as verdades
inquestionáveis e toda uma doutrina que deve ser seguida.
Neste sentido a Revelação Espírita veio destruir a necessidade humana das
religiões. A Doutrina Espírita veio eliminar essa necessidade de crenças mágicas, de
sobrenaturalidade. Para o verdadeiro espírita, aquele que compreende a D.E., não se
precisa mais de padres ou pastores, de roupas especiais. A D.E. veio demonstrar o
verdadeiro sentido da Religião, uma Religião que não tem nada a ver com o sentido que
o mundo lhe dá.
O ideal seria até criar outra palavra, mas como essa palavra não existe, cria-se a
confusão: a D.E é uma Religião ou não? Discussão vã. Os dois lados tem razão. Não é
religião como é essa tradicional, essa que se apresenta com as características do
primeiro horizonte cultural da humanidade. O Espiritismo como última revelação não
1
"A substituição da palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura
primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental, mas não é aceitável em nível de
cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de
existência - Criar é a transição de uma existência para outra existência. O poder infinito é o creador do
Universo - um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam
talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que "na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudse
transforma", se grafarmos "nada se crea", esta lei está certa, mas se escrevermos "nada se cria", ela resulta
totalmente falsa. Por isso , preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções
acadêmicas."( A nova humanidade - Humberto Rohden)
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poderia ser a mesma da primeira. Mas é Religião se considerarmos algo diferente da
Religião tradicional, esta, não no sentido de livro sagrado, não no sentido de sectarismo,
de tradicionalismo, dogmas, rituais, de Igrejas, não no sentido de crença devocional, não
no sentido de autoridades eclesiásticas e outras características das Religiões do mundo.
Mas é sim, no sentido que as Religiões conservam de ligação com o Creador, de buscar
no homem a sua essência infinita, imortal, o vínculo que tem no homem e que o liga ao
Pai.
Para a D.E. o homem se liga a Deus diretamente, sem necessidade de
intermediários. Isto não quer dizer que não existe uma hierarquia intelecto-moral entre
os espíritos, onde naturalmente os mais evoluídos ajudam os menos evoluídos em suas
trajetórias evolutivas.
Quando a D.E coloca no seu corpo doutrinário estudos sobre Deus, ela entra no
universo das religiões, permite-se assim ser rotulada como uma Religião, mas,
totalmente diferente das outras existentes, porque ela quebra todos os paradigmas das
Religiões do mundo. Ela diz, por exemplo, que a relação do homem com Deus não é
feita através de intermediários. Ela elimina aí toda a estrutura das religiões
institucionalizadas; não se precisa mais de rituais e roupas específicas. Ela elimina a
exterioridade, para dar prioridade à relação com o outro e com Deus pela própria
consciência. A relação da creatura com o Creador é feita de forma direta. Todo aparato
religioso é desnecessário e assim, ela é uma revolução. Ela destitui a Religião dos
valores dos livros sagrados, dos intermediários para falar com Deus, dos rituais e dos
seus templos.
A D.E. elimina o sobrenatural, institui os conceitos das leis divinas naturais;
então revoluciona. Revoluciona de uma forma impressionante, forte e extremamente
perigosa. Perigosa em dois sentidos: primeiro, é perigosa porque é capaz de destruir
toda uma complexidade de poder existente no mundo, pois elimina o poder instituído
das instituições sobre as pessoas. Poder fundamentado no medo, no temor e no
desconhecimento porque não é mais necessário temer a Deus, não é mais necessário
temer o inferno e é perigosa, porque muitos indivíduos ainda não estão preparados para
se autodeterminar, ainda necessitam que alguém determine para eles o que é certo e o
que é errado. O que deve fazer e o que não deve fazer. E aí, quando é dada ao homem a
autonomia, ele fica sem rumo. O Espiritismo vem dar a opção que lhe falta. A
autonomia à creatura.
2ª. Parte – Debate
PERGUNTA-1 N.P. – Pedro como fica a relação entre os espíritos
desencarnados e encarnados?
RESPOSTA-1: É esta que está acontecendo aqui neste momento, é a atuação dos
espíritos encarnados e desencarnados, da mesma forma que acontece entre vocês. A
diferença entre uns e outros é apenas da frequência consciencial. A relação das
Creaturas com elas mesmas, em qualquer das realidades espirituais.
P2 – W. T. – Precisamos de Jesus para nos intermediar com Deus?
R2: Jesus é o Mestre, foi o único capaz de superar o horizonte cultural quando
encarnado na terra, por isso ensinava lições além do seu tempo. Jesus é um elo de
ligação. Vamos imaginar que o Planeta Terra fosse uma escola, onde todos fossem
orientados, o diretor desta escola seria Jesus. É aquele diretor de escola que cuida para
que cada um dos seus alunos siga o programa político-didático-pedagógico da mesma.
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Quando um aluno é muito problemático, então Ele vai direcionar as forças
representadas pelos psicólogos, professores, supervisores, para que este aluno não seja
reprovado. Ao mesmo tempo Ele incentiva aqueles que são os melhores alunos para que
continuem. Ele tem a função de ser o Diretor Pedagógico-didático para o planeta Terra.
Ele é um exemplo, um referencial para seguirmos.
P3 – W. T. – Como entender a frase de Jesus: quando diz que ninguém vai ao
céu senão por mim, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”?
R3 – Não podemos interpretar literalmente bíblia, visto que ela passou por várias
traduções, cópias e mudanças intencionais de conteúdo, seja retirando ou acrescentado
ideias. Neste caso podemos observar que o latim não tem artigo definido. Uma das mais
antigas traduções do Novo testamento é a Vulgata, então como é que existe “Eu sou o
caminho e a Vida”? O artigo definido “o” do caminho e a vida, se no latim não tem. Isso
é só para que a gente saiba que nem tudo que está escrito nos Evangelhos tradicionais é
fiel ao que Jesus falou. Muitas das coisas que estão escritas ali foram inseridas,
acrescentadas.
Vocês imaginam Jesus gritando “raça de víboras”; quebrando mesas, nervoso,
perdendo a cabeça! Simplesmente não podemos misturar crenças cegas no Evangelho
como “palavras de Deus”, porque a gente sabe que houve várias traduções,
interpolações, mas a essência dos ensinamentos está lá, é o Amor e foi preservado. Esta
é a Ética que devemos buscar em Jesus, vamos buscá-La no seu exemplo, na mais
profunda ligação do homem com Deus, que é exatamente o Amor. Jesus poderia estar
dizendo que ninguém iria ao Pai, senão pelo Amor.
É muito difícil promover o entendimento de que o Espiritismo retira a nossa
necessidade de sermos adeptos dessa ou daquela Religião. Podemos eliminar a
necessidade de ser crente. A D.E. ensina que você não precisa mais crer cegamente em
nada. Não tem que ter crença em livro sagrado, dogmas, rituais e pertencer a um
determinado clero religioso. O espírita não precisa mais ser religioso neste sentido. Ele
precisa superar a dependência de ter Jesus como salvador.
Com as palavras “que tenham ouvidos para ouvir e olhos para ver”, Jesus falava
sobre a compreensão. Entretanto nem todos estão preparados para isso. Muitos são
como as crianças, que não estão preparadas para ir à faculdade. Não estou querendo
dizer com isso que as outras religiões são inferiores. Apenas afirmo que o espírita não
necessita de ter nenhuma Religião.
Leon Denis compreendeu isso, ele foi um dos que mais compreendeu a D.E. e
falou ainda em vida, que o Espiritismo não seria a religião do futuro, mas, seria o futuro
das religiões. O espírita não necessita mais de religião. Ele alcançou um grau de relação
íntima e pessoal com Deus Creador. A Religião do Espírita é íntima e pessoal; cada um
responde por essa comunicação com o Pai, com essa relação de forma individual.
P4 – W. T. – Pedro, você está afirmando isso, mas o espiritista não entende
assim, não age assim.
R-4: O Movimento Espírita, como o movimento dos homens é reflexo do
horizonte cultural daqueles que dele participam. Então o espírita vai ser levado a
realizar tais ou tais atos de acordo com seu “ethos”2 cultural.
Isso é comum, natural, e até saudável, porém, quero mostrar esse grau de
compreensão maior, sobre o que é o da Doutrina, liberta da necessidade de ter uma
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Costume, moral social.
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Religião. Igualmente, ela revoluciona a Filosofia e a Ciência, trataremos deste tema
breve: a D.E. não é Filosofia se olharmos a Filosofia do mundo e não é Ciência, se da
mesma forma, olharmos apenas a Ciência do mundo.
Penso que libertar-se da Religião é mais difícil, porque ela ainda está incrustada
dentro de todos. A humanidade há milhares de anos vem acreditando em mitos e em
magia. Revivemos isso a cada reencarnação, no período infantil, por exemplo,
acreditando em Papai Noel, até aos doze anos ou mais.
P5 – G. B. – A fonte desse conhecimento está na Codificação?
R5: A fonte original está nos Espíritos, a Codificação, ainda, como o próprio
nome diz, foi uma codificação desses ensinamentos numa determinada época, num
determinado país. Isto também é importante, talvez revolucionário, a Codificação não
representa a totalidade dos ensinos dos Espíritos. Não podemos ficar estacionado numa
determinada cultura e colocar a Codificação como livros sagrados da D.E., isto não
existe, se assim o fizermos estaremos cometendo o mesmo equívoco das religiões,
vamos engessá-la e transformá-la numa Religião igual as outras. Importante realçar que
a metodologia kardeciana é progressista e ao mesmo tempo possui mecanismos que
permitem separar o joio do trigo nas comunicações espíritas.
P6 – G. B. – As Obras do André Luiz e outros escritores semelhantes, são
culturais, focam a religião no Espiritismo, aí gera uma confusão quando se é espírita.
R6: As obras espíritas são sempre culturais. Todos os espíritos, como André
Luiz e outros participam da cultura planetária da Terra. Algumas obras espíritas podem
conter revelação, mas traz junto o bojo do horizonte cultural no qual o médium e
espírito estão inseridos. Se eles trouxessem alguma coisa de extraordinário, de
totalmente novo, para a cultura terráquea, eles simplesmente não seriam compreendidos.
Por exemplo, Jesus teve que ensinar algo além de sua época, há dois mil anos,
entre os judeus. Ele não conseguiu ser compreendido. Mesmo entre seus apóstolos, que
eram espíritos mais evoluídos do que a maioria de sua época, Jesus teve dificuldade em
ser compreendido. Ele usava parábolas, para envolver o conhecimento em uma história
fácil de decorar, mas sabia que somente seria compreendido muito tempo depois de sua
vinda, pois a própria humanidade tinha que se desenvolver. Ele disse que, outros
conhecimentos, só o Consolador, o Espírito da Verdade, quando a humanidade estivesse
preparada, revelaria.
As mudanças não ocorrem de um dia para outro. Mesmo na realidade espiritual,
nas cidades transitórias, tetradimensionais, que estão no Planeta, continuam com a
cultura terráquea. Estou sendo informado que alguns conceitos que estou tratando aqui,
estão revolucionando as concepções de alguns dos presentes aqui. Entendo que este tipo
de informação que estou lhes passando, não só é de difícil compreensão, mas também
de difícil aceitação. Vejam o nível de ingenuidade em que a humanidade ainda está:
grande número de adultos acredita que o homem não foi na lua, que São Jorge está lá.
Em pleno Século XXI, tem gente com crenças tão ingênuas quanto teriam as crianças
com menos de doze anos de idade.
P7 – A. M. B.– Para a transição do catolicismo, alguns ainda precisam desses
mecanismos, desses elementos, hoje a gente estuda e compreende essas ideias. E então
acontecerá a transformação como consequência. Mas no Centro espírita, ainda temos de
utilizar alguns desses instrumentos, como o passe, por exemplo.
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R7: Quantos anos têm esse Grupo estudado e quanto tem conseguido colocar em
prática, esse conhecimento em suas vidas e atitudes? Quem aqui poderia falar: eu não
preciso mais de religião? O que eu estou tentando mostrar é a revolução que a
Revelação espírita fez e até hoje faz na Humanidade, e os espíritas ainda não a
entenderam. Lembro-me de citar Herculano Pires: Espiritismo, este grande
desconhecido. Por que voltei a falar da Doutrina dos Espíritos? Ainda não a
entendemos, não compreendemos o real significado dessa Revelação em nossa vida: ela
nos liberta de qualquer forma de controle externo.
P8 – A. M. B.– A revelação vai continuar naturalmente como foi na época de
Kardec ou daqui para frente vai ser diferente?
R8: Vai ser diferente. Fatos vão ser demonstrados mais rapidamente,
principalmente através da Ciência, a existência dos espíritos, a reencarnação e a
mediunidade. Inclusive fora do Movimento Espírita, que não avançou muito nesse
período. Então o previsto é que, as informações que foram antecipadas pelo Espiritismo
vão vagarosamente se universalizar no mundo e isso, com certeza, vai provocar certa
revolução na sociedade atual.
P9 – M. J. G.– Estes conhecimentos que estamos adquirindo aqui, para serem
compreendidos e entendidos, pelos espíritas, devem ser trabalhados dentro das Casas
Espíritas, através de estudos de desconstrução e construção fundamentados na
contemporaneidade. Mas como fazer isso sem causar polêmicas naqueles que são
radicalistas?
R9: Não penso que o que estou falando hoje seja algo de fácil compreensão e de
fácil vivência e que os frequentadores da Casa Espírita estão preparados para isso.
Porém, acredito que as ideias novas podem ser apresentadas em doses homeopáticas.
Por exemplo: trabalharem o tema de rituais e passe. Mostrem o que é um ritual,
como surgiu, mostrem que não há necessidade de ritual. Há várias formas de,
vagarosamente, trabalhar com as pessoas com relação aos vários tipos de rituais. Seja de
acender uma vela, ritual que as pessoas são muito apegadas, seja de se ajoelhar, sinais
para oração, ou qualquer manifestação externa. Mostrem para elas que o sentimento e o
pensamento é o mais importante.
Se conseguirmos eliminar a necessidade do ritual, já será um grande passo. Por
exemplo, se a pessoa conseguir ter a mesma energia, a mesma fé e confiança, irradiar
amor na mesma intensidade, sem a vela. Já é um passo que caminhamos. Vamos então,
avançar um pouquinho e vamos tirar, por exemplo, a necessidade do livro sagrado,
mostrar a história, as incoerências, as dificuldades, as várias traduções e mostrar que a
nossa confiança não deve ser fundamentada na fama do sagrado, mas, no sentido do que
está escrito lá, saber que foi alguém que escreveu e refletir se esse alguém estava
inspirado pelo alto na hora, ou não.
Vamos trabalhando passo a passo. Pois entendo que o que estou falando aqui é
muito grave, profundo, de difícil entendimento e compreensão. Mas nós podemos
trabalhar isso pontualmente, caminhando passo a passo com vocês.
P10 – W. T. – Posso chamar alguns procedimentos espíritas de “técnicas”, o que
muitos classificam de rituais?
R10: Técnica e ritual não são as mesmas coisas.
As pessoas se confundem: a técnica tem um objetivo, são recursos utilizados
para determinado fim, por exemplo, a meditação. O ritual é uma encenação que se faz
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por obrigação para simbolizar uma determinada coisa. Como, por exemplo, a igreja
Católica tem um ritual de se humilhar e para isso o pretendente a padre, numa
cerimônia, tem que se deitar no chão, de barriga para baixo e os braços abertos e se
prostrar totalmente para indicar humilhação. Ou o ritual chamado de lava-pés, um lava
os pés do outro para indicar essa humildade. Mas o que acontece nesses rituais que
simbolizam alguma coisa é o seguinte: a pessoa pode estar realizando o ritual da
humildade e o seu coração pode estar cheio de orgulho.
O passe pode ser técnica para facilitar a transmissão de energias, mas as pessoas
podem utiliza-lo como um ritual.
P11 – W. T. – Mas foi Cristo que lavou os pés dos apóstolos pela primeira vez?
R12: Sim. Mas ele o fez de uma forma didática. Inclusive ele disse: Tu me
chamas de Mestre e Eu o sou, e mesmo assim estou lavando os seus pés, estou lavando
vossos pés. “Fazei assim uns com os outros”. Era um exemplo para a humildade e para
o serviço, pois na época, este ato era tarefa de escravo ou criado. Então, o ensinamento
do Cristo era o de servir, um servir o outro, não era isso um ritual.
O Passe é uma coisa muito boa, é uma técnica justificada, você concentra nas
mãos, mas pode ser transformado em ritual. A igreja Católica adota o passe como ritual.
No batismo, todo mundo ergue a mão, também nos casamentos. Transformou-se num
ritual o que inicialmente era uma técnica usada pelos antigos cristãos. Vejam a
diferença.
P13 – W. T. – E no Espiritismo?
R13: É utilizada como técnica, como recurso, uma espécie de instrumentalização
de ajudar quem transmite e principalmente quem recebe a energia. Pode ser útil e pode
ser utilizado, sem problema nenhum. O que não pode é essa ideia do ritualismo, como
dei o exemplo da vela. Sem vela, não pode haver resultados? Ela se torna mais
importante que a fé. Da mesma forma pode se transmitir energia só com a força de
vontade, com o pensamento, sem necessidade do passe, da imposição de mãos. A parte
mais difícil de compreensão, é o sentido libertador que isso permite, é o sentido da
Religião em si, é a necessidade de nenhum aparato externo para falar com o Creador. É
a eliminação de qualquer tipo de salvador em sua vida.
Gostaria de expressar a minha preocupação, pois aqueles que realmente
refletirem sobre minhas palavras, podem sentir certo desespero ou desamparo. Então
para terminar o estudo, para que vocês não se sintam desamparados ou desconsolados e
solitários gostaria de deixá-los com uma reflexão: Quando a gente é amparada por uma
Religião, vai seguindo aquele caminho predeterminado, já com o céu garantido,
pensamos que estamos salvos e permanecemos tranquilos. Há um comodismo, há uma
situação de conforto. Na verdade aqui, nos nossos estudos, estamos “puxando o tapete”,
vocês parecem ficar sem o chão para pisar, ficam sem a certeza que tinham. Mas na
verdade, o que acontece, é que colocamos o poder de decisão nas mãos de vocês: é o
poder em suas mãos, o poder da sua saúde, felicidade, daquilo que se chamava destino e
que é construção. O poder da construção do seu futuro. É isso que a Doutrina nos
ensina e permite. Ela nos dá o poder do nosso livre arbítrio. Essa compreensão que o
caminho é a nossa consciência.
P14 – N. P. – Isso acontece no momento em que começamos a ter e percebemos
essa compreensão?
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R-14: O primeiro momento é quando a compreensão se amplia e você vê uma
amplidão que não via antes e aquilo lhe dá certo receio, um medo do quanto você pode e
então fica insegura.
Quando Jesus fala, no momento em que Ele está se despedindo, depois de ter
lavado os pés dos apóstolos, e percebemos o quão sábio é nosso Diretor, nessa escola
que se chama planeta Terra: “não vos preocupeis, (porque ele acaba de revelar para os
apóstolos que vai ser morto, vai para outra dimensão da vida, vejam a consciência dele,
inclusive, do que para nós é futuro e para ele é presente) não turbeis vossos corações, eu
vou primeiro, mas hei de vos guardar um lugar, na casa do Pai há muitas moradas”.
Digo-lhes também que não vos preocupeis, porque Ele está guardando um lugar
para todos nós: “Não vos preocupeis que eu não vos deixarei só, vou mandar, inclusive,
outros para que possam vos orientar”. E vocês não vão ficar sozinhos porque todos os
seres encandeiam a criação, do átomo ao arcanjo. A caminhada não é solitária, ela é
compartilhada, não turbeis vossos corações, porque desconstruiremos e construiremos
juntos, algo mais sólido.
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A DOUTRINA ESPIRITA I