NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil 5-12-2010 - A doutrina espirita - parte I – Religião Espírita? Pedro (Espírito) Psicofonia compilada por Maria José Gontijo Revisão Filipe Alex da Silva Resumo: Este é o primeiro de uma série de cinco estudos cujos temas desenvolvidos são aspectos fundamentais da Doutrina dos Espíritos, buscando uma conceituação mais atual e o melhor entendimento da mesma. O conhecimento que nos é passado neste primeiro estudo é do aspecto religioso da Doutrina Espirita, diferenciando-a das outras religiões do mundo. As questões apresentadas buscam esclarecer sobre o papel de Jesus, da bíblia, da codificação, apresenta a diferença de rituais e técnicas; e esclarece sobre o passe. Palavras chaves: Doutrina Espírita, religiões, Religião Espírita, passe, ritual, Jesus, creação, mito da creação, sobrenaturalidade, leis divinas naturais, relação creador creatura, Bíblia, livros sagrados, Movimento Espírita, Codificação, horizonte cultural, lavar os pés, livre arbítrio. Boa noite a todos! É uma alegria novamente estarmos compartilhando esse tempo e espaço para que possamos aprender e crescermos juntos, com a permissão dos mestres que nos orientam, porque da mesma forma que os orientamos somos orientados. E analisando a compreensão que cada um tem tido dos nossos estudos, resolvemos fazer uma revisão. Não podemos avançar no conteúdo se o próprio significado da proposta espírita não for bem compreendido. Então, novamente decidimos renovar, inclusive na metodologia dos estudos que estamos fazendo, para um melhor entendimento do que seja a Doutrina dos Espíritos, porque a proposta da Doutrina é tão renovadora e libertadora que não encontra parâmetro no mundo para que possamos de uma forma clara, precisa, indubitável, classificá-la e defini-la. Neste momento gostaria de recorrer a algumas palavras muito utilizadas pelo Mestre Jesus quando ensinava conteúdos de difícil compreensão. Mesmo com sua maestria didático-pedagógica, alguns de seus ensinamentos eram tão sofisticados, que sabia que não seria compreendido por muitos daqueles que o ouviam. Então falava que, “aqueles que tiverem ouvidos, ouçam”, querendo dizer com isso que todos os que são capazes de entender, compreender o sentido dos seus ensinamentos, devem colocá-los em prática, visto que estes são morais. Se o Mestre dos Mestres ensinava sabendo que nem todos o compreendiam, também enfrentamos a mesma dificuldade, porque nós apresentamos ideias que, muitas vezes, nem todos estão preparados para entendê-las. Por isso precisamos partir do conhecimento que cada um de vocês tem. Assim como Jesus ensinava grandes lições morais, as leis da vida, utilizando semeadores, pastores e pescadores, porque era o que aquele povo conhecia, nós também temos que partir dos símbolos, das concepções de cada um de vocês, que são diversas. Encontramos uma grande dificuldade na comunicação, na transmissão do conhecimento que tentamos compartilhar com vocês. Para melhorar a nossa comunicação, vamos tentar reduzir nossa fala para uns trinta minutos e depois podemos iniciar um debate, respondendo aos questionamentos de vocês. O Que vem a ser a Doutrina Espírita (D.E.)? 1 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil A D.E. é uma revolucionária proposta que foi revelada à humanidade. Por isso ela precisou de todo o amadurecimento da mesma para ser compreendida. Ela supera todos os horizontes culturais que vieram antes dela. O primeiro horizonte cultural que a D.E. apropria-se, vamos chamar de Religião. Este constitui o mais antigo horizonte cultural da humanidade. Logo no início das civilizações começaram a surgir as Religiões. E a Religião se baseava numa proposta da infância da humanidade, como se fosse o início do intelecto humano que começava a caminhar. O entendimento da Natureza era um entendimento mágico, devido ao desconhecimento dela. As explicações sobre a mesma eram mitológicas. Então, na origem de todas as religiões estão os mitos. Vejamos como exemplo a Religião Judaico-Cristã na qual a maioria das pessoas do Ocidente está aculturada: o Mito da Creação1, que é o mito de Deus creando o mundo em seis dias, sendo que no último creou o homem, nos indivíduos Eva e Adão. Como entendemos isso hoje? As religiões se baseavam no princípio da sobrenaturalidade, que existe algo acima da Natureza, que comanda a natureza das coisas; deuses. No começo, no politeísmo; depois um Deus que está acima da Natureza, que a comanda, que pode parar o céu, o sol, fazer milagres; estes entendidos como uma derrogação da Lei Natural. Então, percebam esta ideia infantil, mágica, do funcionamento do Universo. Ainda hoje, grande maioria de pessoas se encontra neste horizonte cultural, onde necessitam deste tipo de concepção e acreditam que Deus faça alguma coisa especial para ela, que não fosse para todos os seres humanos. Elas acreditam que as Leis que regem todo o Universo podem ser mudadas ao exclusivo bem-querer delas (ou de Deus?). Estas pessoas acreditam que precisam de alguém para salvá-las de alguma coisa. Historicamente essas Religiões foram se desenvolvendo e sofreram uma racionalização. Uma destas tentativas de racionalização da religião é a Teologia. A Teologia, que significa o estudo da palavra Divina, de Deus, que é perfeita, irrefutável e teria sido passada para os homens através dos livros sagrados: a Bíblia, o Alcorão e outros; daí subentende-se que se deve obedecer a esses livros, pois são a “Palavra de Deus”. A partir desses livros e da tradição, criou-se os dogmas, as verdades inquestionáveis e toda uma doutrina que deve ser seguida. Neste sentido a Revelação Espírita veio destruir a necessidade humana das religiões. A Doutrina Espírita veio eliminar essa necessidade de crenças mágicas, de sobrenaturalidade. Para o verdadeiro espírita, aquele que compreende a D.E., não se precisa mais de padres ou pastores, de roupas especiais. A D.E. veio demonstrar o verdadeiro sentido da Religião, uma Religião que não tem nada a ver com o sentido que o mundo lhe dá. O ideal seria até criar outra palavra, mas como essa palavra não existe, cria-se a confusão: a D.E é uma Religião ou não? Discussão vã. Os dois lados tem razão. Não é religião como é essa tradicional, essa que se apresenta com as características do primeiro horizonte cultural da humanidade. O Espiritismo como última revelação não 1 "A substituição da palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental, mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência - Criar é a transição de uma existência para outra existência. O poder infinito é o creador do Universo - um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que "na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudse transforma", se grafarmos "nada se crea", esta lei está certa, mas se escrevermos "nada se cria", ela resulta totalmente falsa. Por isso , preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas."( A nova humanidade - Humberto Rohden) 2 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil poderia ser a mesma da primeira. Mas é Religião se considerarmos algo diferente da Religião tradicional, esta, não no sentido de livro sagrado, não no sentido de sectarismo, de tradicionalismo, dogmas, rituais, de Igrejas, não no sentido de crença devocional, não no sentido de autoridades eclesiásticas e outras características das Religiões do mundo. Mas é sim, no sentido que as Religiões conservam de ligação com o Creador, de buscar no homem a sua essência infinita, imortal, o vínculo que tem no homem e que o liga ao Pai. Para a D.E. o homem se liga a Deus diretamente, sem necessidade de intermediários. Isto não quer dizer que não existe uma hierarquia intelecto-moral entre os espíritos, onde naturalmente os mais evoluídos ajudam os menos evoluídos em suas trajetórias evolutivas. Quando a D.E coloca no seu corpo doutrinário estudos sobre Deus, ela entra no universo das religiões, permite-se assim ser rotulada como uma Religião, mas, totalmente diferente das outras existentes, porque ela quebra todos os paradigmas das Religiões do mundo. Ela diz, por exemplo, que a relação do homem com Deus não é feita através de intermediários. Ela elimina aí toda a estrutura das religiões institucionalizadas; não se precisa mais de rituais e roupas específicas. Ela elimina a exterioridade, para dar prioridade à relação com o outro e com Deus pela própria consciência. A relação da creatura com o Creador é feita de forma direta. Todo aparato religioso é desnecessário e assim, ela é uma revolução. Ela destitui a Religião dos valores dos livros sagrados, dos intermediários para falar com Deus, dos rituais e dos seus templos. A D.E. elimina o sobrenatural, institui os conceitos das leis divinas naturais; então revoluciona. Revoluciona de uma forma impressionante, forte e extremamente perigosa. Perigosa em dois sentidos: primeiro, é perigosa porque é capaz de destruir toda uma complexidade de poder existente no mundo, pois elimina o poder instituído das instituições sobre as pessoas. Poder fundamentado no medo, no temor e no desconhecimento porque não é mais necessário temer a Deus, não é mais necessário temer o inferno e é perigosa, porque muitos indivíduos ainda não estão preparados para se autodeterminar, ainda necessitam que alguém determine para eles o que é certo e o que é errado. O que deve fazer e o que não deve fazer. E aí, quando é dada ao homem a autonomia, ele fica sem rumo. O Espiritismo vem dar a opção que lhe falta. A autonomia à creatura. 2ª. Parte – Debate PERGUNTA-1 N.P. – Pedro como fica a relação entre os espíritos desencarnados e encarnados? RESPOSTA-1: É esta que está acontecendo aqui neste momento, é a atuação dos espíritos encarnados e desencarnados, da mesma forma que acontece entre vocês. A diferença entre uns e outros é apenas da frequência consciencial. A relação das Creaturas com elas mesmas, em qualquer das realidades espirituais. P2 – W. T. – Precisamos de Jesus para nos intermediar com Deus? R2: Jesus é o Mestre, foi o único capaz de superar o horizonte cultural quando encarnado na terra, por isso ensinava lições além do seu tempo. Jesus é um elo de ligação. Vamos imaginar que o Planeta Terra fosse uma escola, onde todos fossem orientados, o diretor desta escola seria Jesus. É aquele diretor de escola que cuida para que cada um dos seus alunos siga o programa político-didático-pedagógico da mesma. 3 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil Quando um aluno é muito problemático, então Ele vai direcionar as forças representadas pelos psicólogos, professores, supervisores, para que este aluno não seja reprovado. Ao mesmo tempo Ele incentiva aqueles que são os melhores alunos para que continuem. Ele tem a função de ser o Diretor Pedagógico-didático para o planeta Terra. Ele é um exemplo, um referencial para seguirmos. P3 – W. T. – Como entender a frase de Jesus: quando diz que ninguém vai ao céu senão por mim, “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”? R3 – Não podemos interpretar literalmente bíblia, visto que ela passou por várias traduções, cópias e mudanças intencionais de conteúdo, seja retirando ou acrescentado ideias. Neste caso podemos observar que o latim não tem artigo definido. Uma das mais antigas traduções do Novo testamento é a Vulgata, então como é que existe “Eu sou o caminho e a Vida”? O artigo definido “o” do caminho e a vida, se no latim não tem. Isso é só para que a gente saiba que nem tudo que está escrito nos Evangelhos tradicionais é fiel ao que Jesus falou. Muitas das coisas que estão escritas ali foram inseridas, acrescentadas. Vocês imaginam Jesus gritando “raça de víboras”; quebrando mesas, nervoso, perdendo a cabeça! Simplesmente não podemos misturar crenças cegas no Evangelho como “palavras de Deus”, porque a gente sabe que houve várias traduções, interpolações, mas a essência dos ensinamentos está lá, é o Amor e foi preservado. Esta é a Ética que devemos buscar em Jesus, vamos buscá-La no seu exemplo, na mais profunda ligação do homem com Deus, que é exatamente o Amor. Jesus poderia estar dizendo que ninguém iria ao Pai, senão pelo Amor. É muito difícil promover o entendimento de que o Espiritismo retira a nossa necessidade de sermos adeptos dessa ou daquela Religião. Podemos eliminar a necessidade de ser crente. A D.E. ensina que você não precisa mais crer cegamente em nada. Não tem que ter crença em livro sagrado, dogmas, rituais e pertencer a um determinado clero religioso. O espírita não precisa mais ser religioso neste sentido. Ele precisa superar a dependência de ter Jesus como salvador. Com as palavras “que tenham ouvidos para ouvir e olhos para ver”, Jesus falava sobre a compreensão. Entretanto nem todos estão preparados para isso. Muitos são como as crianças, que não estão preparadas para ir à faculdade. Não estou querendo dizer com isso que as outras religiões são inferiores. Apenas afirmo que o espírita não necessita de ter nenhuma Religião. Leon Denis compreendeu isso, ele foi um dos que mais compreendeu a D.E. e falou ainda em vida, que o Espiritismo não seria a religião do futuro, mas, seria o futuro das religiões. O espírita não necessita mais de religião. Ele alcançou um grau de relação íntima e pessoal com Deus Creador. A Religião do Espírita é íntima e pessoal; cada um responde por essa comunicação com o Pai, com essa relação de forma individual. P4 – W. T. – Pedro, você está afirmando isso, mas o espiritista não entende assim, não age assim. R-4: O Movimento Espírita, como o movimento dos homens é reflexo do horizonte cultural daqueles que dele participam. Então o espírita vai ser levado a realizar tais ou tais atos de acordo com seu “ethos”2 cultural. Isso é comum, natural, e até saudável, porém, quero mostrar esse grau de compreensão maior, sobre o que é o da Doutrina, liberta da necessidade de ter uma 2 Costume, moral social. 4 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil Religião. Igualmente, ela revoluciona a Filosofia e a Ciência, trataremos deste tema breve: a D.E. não é Filosofia se olharmos a Filosofia do mundo e não é Ciência, se da mesma forma, olharmos apenas a Ciência do mundo. Penso que libertar-se da Religião é mais difícil, porque ela ainda está incrustada dentro de todos. A humanidade há milhares de anos vem acreditando em mitos e em magia. Revivemos isso a cada reencarnação, no período infantil, por exemplo, acreditando em Papai Noel, até aos doze anos ou mais. P5 – G. B. – A fonte desse conhecimento está na Codificação? R5: A fonte original está nos Espíritos, a Codificação, ainda, como o próprio nome diz, foi uma codificação desses ensinamentos numa determinada época, num determinado país. Isto também é importante, talvez revolucionário, a Codificação não representa a totalidade dos ensinos dos Espíritos. Não podemos ficar estacionado numa determinada cultura e colocar a Codificação como livros sagrados da D.E., isto não existe, se assim o fizermos estaremos cometendo o mesmo equívoco das religiões, vamos engessá-la e transformá-la numa Religião igual as outras. Importante realçar que a metodologia kardeciana é progressista e ao mesmo tempo possui mecanismos que permitem separar o joio do trigo nas comunicações espíritas. P6 – G. B. – As Obras do André Luiz e outros escritores semelhantes, são culturais, focam a religião no Espiritismo, aí gera uma confusão quando se é espírita. R6: As obras espíritas são sempre culturais. Todos os espíritos, como André Luiz e outros participam da cultura planetária da Terra. Algumas obras espíritas podem conter revelação, mas traz junto o bojo do horizonte cultural no qual o médium e espírito estão inseridos. Se eles trouxessem alguma coisa de extraordinário, de totalmente novo, para a cultura terráquea, eles simplesmente não seriam compreendidos. Por exemplo, Jesus teve que ensinar algo além de sua época, há dois mil anos, entre os judeus. Ele não conseguiu ser compreendido. Mesmo entre seus apóstolos, que eram espíritos mais evoluídos do que a maioria de sua época, Jesus teve dificuldade em ser compreendido. Ele usava parábolas, para envolver o conhecimento em uma história fácil de decorar, mas sabia que somente seria compreendido muito tempo depois de sua vinda, pois a própria humanidade tinha que se desenvolver. Ele disse que, outros conhecimentos, só o Consolador, o Espírito da Verdade, quando a humanidade estivesse preparada, revelaria. As mudanças não ocorrem de um dia para outro. Mesmo na realidade espiritual, nas cidades transitórias, tetradimensionais, que estão no Planeta, continuam com a cultura terráquea. Estou sendo informado que alguns conceitos que estou tratando aqui, estão revolucionando as concepções de alguns dos presentes aqui. Entendo que este tipo de informação que estou lhes passando, não só é de difícil compreensão, mas também de difícil aceitação. Vejam o nível de ingenuidade em que a humanidade ainda está: grande número de adultos acredita que o homem não foi na lua, que São Jorge está lá. Em pleno Século XXI, tem gente com crenças tão ingênuas quanto teriam as crianças com menos de doze anos de idade. P7 – A. M. B.– Para a transição do catolicismo, alguns ainda precisam desses mecanismos, desses elementos, hoje a gente estuda e compreende essas ideias. E então acontecerá a transformação como consequência. Mas no Centro espírita, ainda temos de utilizar alguns desses instrumentos, como o passe, por exemplo. 5 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil R7: Quantos anos têm esse Grupo estudado e quanto tem conseguido colocar em prática, esse conhecimento em suas vidas e atitudes? Quem aqui poderia falar: eu não preciso mais de religião? O que eu estou tentando mostrar é a revolução que a Revelação espírita fez e até hoje faz na Humanidade, e os espíritas ainda não a entenderam. Lembro-me de citar Herculano Pires: Espiritismo, este grande desconhecido. Por que voltei a falar da Doutrina dos Espíritos? Ainda não a entendemos, não compreendemos o real significado dessa Revelação em nossa vida: ela nos liberta de qualquer forma de controle externo. P8 – A. M. B.– A revelação vai continuar naturalmente como foi na época de Kardec ou daqui para frente vai ser diferente? R8: Vai ser diferente. Fatos vão ser demonstrados mais rapidamente, principalmente através da Ciência, a existência dos espíritos, a reencarnação e a mediunidade. Inclusive fora do Movimento Espírita, que não avançou muito nesse período. Então o previsto é que, as informações que foram antecipadas pelo Espiritismo vão vagarosamente se universalizar no mundo e isso, com certeza, vai provocar certa revolução na sociedade atual. P9 – M. J. G.– Estes conhecimentos que estamos adquirindo aqui, para serem compreendidos e entendidos, pelos espíritas, devem ser trabalhados dentro das Casas Espíritas, através de estudos de desconstrução e construção fundamentados na contemporaneidade. Mas como fazer isso sem causar polêmicas naqueles que são radicalistas? R9: Não penso que o que estou falando hoje seja algo de fácil compreensão e de fácil vivência e que os frequentadores da Casa Espírita estão preparados para isso. Porém, acredito que as ideias novas podem ser apresentadas em doses homeopáticas. Por exemplo: trabalharem o tema de rituais e passe. Mostrem o que é um ritual, como surgiu, mostrem que não há necessidade de ritual. Há várias formas de, vagarosamente, trabalhar com as pessoas com relação aos vários tipos de rituais. Seja de acender uma vela, ritual que as pessoas são muito apegadas, seja de se ajoelhar, sinais para oração, ou qualquer manifestação externa. Mostrem para elas que o sentimento e o pensamento é o mais importante. Se conseguirmos eliminar a necessidade do ritual, já será um grande passo. Por exemplo, se a pessoa conseguir ter a mesma energia, a mesma fé e confiança, irradiar amor na mesma intensidade, sem a vela. Já é um passo que caminhamos. Vamos então, avançar um pouquinho e vamos tirar, por exemplo, a necessidade do livro sagrado, mostrar a história, as incoerências, as dificuldades, as várias traduções e mostrar que a nossa confiança não deve ser fundamentada na fama do sagrado, mas, no sentido do que está escrito lá, saber que foi alguém que escreveu e refletir se esse alguém estava inspirado pelo alto na hora, ou não. Vamos trabalhando passo a passo. Pois entendo que o que estou falando aqui é muito grave, profundo, de difícil entendimento e compreensão. Mas nós podemos trabalhar isso pontualmente, caminhando passo a passo com vocês. P10 – W. T. – Posso chamar alguns procedimentos espíritas de “técnicas”, o que muitos classificam de rituais? R10: Técnica e ritual não são as mesmas coisas. As pessoas se confundem: a técnica tem um objetivo, são recursos utilizados para determinado fim, por exemplo, a meditação. O ritual é uma encenação que se faz 6 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil por obrigação para simbolizar uma determinada coisa. Como, por exemplo, a igreja Católica tem um ritual de se humilhar e para isso o pretendente a padre, numa cerimônia, tem que se deitar no chão, de barriga para baixo e os braços abertos e se prostrar totalmente para indicar humilhação. Ou o ritual chamado de lava-pés, um lava os pés do outro para indicar essa humildade. Mas o que acontece nesses rituais que simbolizam alguma coisa é o seguinte: a pessoa pode estar realizando o ritual da humildade e o seu coração pode estar cheio de orgulho. O passe pode ser técnica para facilitar a transmissão de energias, mas as pessoas podem utiliza-lo como um ritual. P11 – W. T. – Mas foi Cristo que lavou os pés dos apóstolos pela primeira vez? R12: Sim. Mas ele o fez de uma forma didática. Inclusive ele disse: Tu me chamas de Mestre e Eu o sou, e mesmo assim estou lavando os seus pés, estou lavando vossos pés. “Fazei assim uns com os outros”. Era um exemplo para a humildade e para o serviço, pois na época, este ato era tarefa de escravo ou criado. Então, o ensinamento do Cristo era o de servir, um servir o outro, não era isso um ritual. O Passe é uma coisa muito boa, é uma técnica justificada, você concentra nas mãos, mas pode ser transformado em ritual. A igreja Católica adota o passe como ritual. No batismo, todo mundo ergue a mão, também nos casamentos. Transformou-se num ritual o que inicialmente era uma técnica usada pelos antigos cristãos. Vejam a diferença. P13 – W. T. – E no Espiritismo? R13: É utilizada como técnica, como recurso, uma espécie de instrumentalização de ajudar quem transmite e principalmente quem recebe a energia. Pode ser útil e pode ser utilizado, sem problema nenhum. O que não pode é essa ideia do ritualismo, como dei o exemplo da vela. Sem vela, não pode haver resultados? Ela se torna mais importante que a fé. Da mesma forma pode se transmitir energia só com a força de vontade, com o pensamento, sem necessidade do passe, da imposição de mãos. A parte mais difícil de compreensão, é o sentido libertador que isso permite, é o sentido da Religião em si, é a necessidade de nenhum aparato externo para falar com o Creador. É a eliminação de qualquer tipo de salvador em sua vida. Gostaria de expressar a minha preocupação, pois aqueles que realmente refletirem sobre minhas palavras, podem sentir certo desespero ou desamparo. Então para terminar o estudo, para que vocês não se sintam desamparados ou desconsolados e solitários gostaria de deixá-los com uma reflexão: Quando a gente é amparada por uma Religião, vai seguindo aquele caminho predeterminado, já com o céu garantido, pensamos que estamos salvos e permanecemos tranquilos. Há um comodismo, há uma situação de conforto. Na verdade aqui, nos nossos estudos, estamos “puxando o tapete”, vocês parecem ficar sem o chão para pisar, ficam sem a certeza que tinham. Mas na verdade, o que acontece, é que colocamos o poder de decisão nas mãos de vocês: é o poder em suas mãos, o poder da sua saúde, felicidade, daquilo que se chamava destino e que é construção. O poder da construção do seu futuro. É isso que a Doutrina nos ensina e permite. Ela nos dá o poder do nosso livre arbítrio. Essa compreensão que o caminho é a nossa consciência. P14 – N. P. – Isso acontece no momento em que começamos a ter e percebemos essa compreensão? 7 NEPE – Núcleo Estudos e Pesquisa de Espiritismo IEEP – Instituto Espírita de Ensino e Pesquisa GEEC – Grupo Educação, Ética e Cidadania Divinópolis, Minas Gerais - Brasil R-14: O primeiro momento é quando a compreensão se amplia e você vê uma amplidão que não via antes e aquilo lhe dá certo receio, um medo do quanto você pode e então fica insegura. Quando Jesus fala, no momento em que Ele está se despedindo, depois de ter lavado os pés dos apóstolos, e percebemos o quão sábio é nosso Diretor, nessa escola que se chama planeta Terra: “não vos preocupeis, (porque ele acaba de revelar para os apóstolos que vai ser morto, vai para outra dimensão da vida, vejam a consciência dele, inclusive, do que para nós é futuro e para ele é presente) não turbeis vossos corações, eu vou primeiro, mas hei de vos guardar um lugar, na casa do Pai há muitas moradas”. Digo-lhes também que não vos preocupeis, porque Ele está guardando um lugar para todos nós: “Não vos preocupeis que eu não vos deixarei só, vou mandar, inclusive, outros para que possam vos orientar”. E vocês não vão ficar sozinhos porque todos os seres encandeiam a criação, do átomo ao arcanjo. A caminhada não é solitária, ela é compartilhada, não turbeis vossos corações, porque desconstruiremos e construiremos juntos, algo mais sólido. 8