Problemas de saúde e riscos ocupacionais PROBLEMAS DE SAÚDE E RISCOS OCUPACIONAIS: PERCEPÇÕES DOS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM DE UNIDADE MATERNA INFANTIL HEALTH PROBLEMS AND OCCUPATIONAL RISKS IN HOSPITAL: NURSING WORKERS’ PERCEPTIONS PROBLEMAS DE SALUD Y RIESGOS LABORALES: PERCEPCIONES DE LOS TRABAJADORES DE ENFERMERÍA DE UNIDAD MATERNO-INFANTIL Maria Yvone Chaves MauroI Andréia Rodrigues VeigaII RESUMO: Pesquisa quantitativa, descritiva, com 53 trabalhadores de enfermagem de uma unidade hospitalar federal do Rio de Janeiro. Teve como objetivo analisar a percepção dos trabalhadores de enfermagem sobre suas condições de trabalho, riscos ocupacionais e problemas de saúde em uma unidade materno-infantil. A coleta de dados ocorreu de fevereiro a agosto de 2007, utilizando-se questionários aplicados a trabalhadores e gerência do serviço de enfermagem. Evidenciou-se que os trabalhadores de enfermagem são em sua maioria do sexo feminino, com dupla ou tripla jornada de trabalho,causando redução do convívio familiar e da prática de bons hábitos de saúde. Na sua percepção, o trabalho é penoso, o ambiente os expõe a fatores de risco e condições inadequadas de trabalho, o que pode provocar ou agravar problemas de saúde já existentes. Sugeriu-se a aplicação de medidas para minimizar e/ou eliminar os riscos já existentes e melhorar as condições de trabalho. Palavras-chave: Enfermagem; condição de trabalho; problema de saúde; risco ocupacional. ABSTRACT ABSTRACT:: Descriptive quantitative study with 53 nursing workers at a Federal Hospital Unit in Rio de Janeiro. Its aims were: to analyze nursing workers’ perceptions of their working conditions, occupational hazards and health problems in a Mother-Infant Unit. Data collection took place from February to August 2007, through questionnaires applied to nursing workers and Nursing Service Management. It became evident that nurses are mostly women who work double or triple shifts, which reduces family time and good health habits. They perceive the work as distressing and the workplace as exposing them to risk factors and inappropriate working conditions which may induce health problems or aggravate existing ones. This study suggested measures to minimize and/or eliminate existing risks and to improve working conditions. Keywords: Nursing; working condition; health problem; occupational risk. RESUMEN: Investigación cuantitativa, descriptiva, con 53 trabajadores de enfermería em una unidad hospitalaria federal de Rio de Janeiro - Brasil. Tuvo como objetivo analizar la percepción de los trabajadores de enfermería sobre sus condiciones de trabajo, riesgos laborales y problemas de salud en una unidad materno-infantil. La recolección de datos acaeció de febrero a agosto de 2007, a través de cuestionarios aplicados a trabajadores de enfermería y a la gestión del servicio de enfermería. Se hizo evidente que los enfermeros son en su mayoría mujeres, con doble o triple jornada de trabajo, lo que causa reducción del tiempo para la familia y para la práctica de buenos hábitos de salud. Ellos perciben el trabajo como penoso, el lugar de trabajo expone a factores de riesgo y a condiciones inadecuadas de trabajo, lo que puede inducir o agraviar los actuales problemas de salud. Esta investigación sugiere la aplicación de medidas para minimizar y/o eliminar los riesgos ya existentes y para mejorar las condiciones de trabajo. Palabras Clave Clave: Enfermería; condición de trabajo; problema de salud; riesgo laboral. INTRODUÇÃO A saúde dos trabalhadores tem sido foco de preocupação, discussão e investigação de toda sociedade. As condições de trabalho e de vida dos trabalhadores trazem significativos impactos e repercussões nos aspectos político, econômico e social da população. Essas repercussões podem até traduzir o grau de desenvolvimento de uma nação1. Face a condição crítica dos trabalhadores em geral, busca-se avaliar a situação de trabalho na área de saúde, especificamente dos trabalhadores de enfermagem no setor hospitalar. O presente estudo irá contribuir para o aumento da produção de conhecimentos voltados para as condições de trabalho hospitalar da enfermagem, retratando as situações que levam os I Doutora em Enfermagem (EEAN/UFRJ); Sanitarista (ENSP/FIOCRUZ); Ergonomista (COPPE/UFRJ); Professora Visitante do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública da Faculdade de Enfermagem da UERJ; Pesquisadora CNPQ. E-mail: [email protected]. II Enfermeira do Trabalho (EEAN/UFRJ); Mestranda em Enfermagem da Faculdade de Enfermagem da UERJ. p.64 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):64-9. Mauro MYC, Veiga AR trabalhadores a se expor a riscos ocupacionais sem a proteção adequada; as conseqüências podem ser de diferentes níveis de agravos ou danos à saúde desses trabalhadores2-4. O enfermeiro atua num ambiente às vezes penoso e insalubre que não oferece condições favoráveis para sua saúde e satisfação pessoal. A precarização do trabalho, seja pelo excesso de atividade laboral física e mental, acúmulo de horas trabalhadas, sistema de vínculo empregatício, ou mesmo à má remuneração ocupacional no sistema de saúde são determinantes dos acidentes e doenças ocupacionais3,4. A justificativa do estudo para a instituição hospitalar é o alcance da melhoria da qualidade do serviço e do rendimento da equipe com a diminuição do número de atestados e licenças, uma vez que as condições de trabalho, quando não satisfatórias, podem afetar não só a saúde do trabalhador da enfermagem exposto a riscos, como também causar acidentes e doenças ocupacionais. Pode-se ter como conseqüência o absenteísmo, que traz prejuízos para a operacionalização e qualidade do cuidado a ser prestado aos clientes sob a responsabilidade da equipe de enfermagem, pelo aumento da carga de trabalho dos demais elementos da equipe quando não é possível uma substituição efetiva3,4. Em condições ocupacionais inadequadas, o trabalho passa a ser patológico. O trabalhador, quando não consciente do que se passa em seu ambiente de trabalho, nada ou pouco faz a fim de evitar as conseqüências da prática laboral alienada e alienante. Desse modo, pesquisadores que estudam o trabalho patológico procuram apontar os fatores de risco laborais, apesar de que poucos são os interessados em adotar atitudes que minimizem tais riscos2-4. O estudo teve como objetivo analisar a percepção dos trabalhadores de enfermagem sobre os problemas de saúde e sua relação com as condições de trabalho em uma unidade materno-infantil. REFERENCIAL TEÓRICO Os principais problemas das condições de trabalho são: remuneração; oportunidade de carreira; garantias disciplinares; horas de trabalho; descanso e férias; segurança social; proteção à saúde; oportunidade de formação inicial e educação contínua; efetivo de pessoal no serviço; organização do trabalho; participação do pessoal na determinação de suas condições de trabalho e de vida; participação em tudo que contribui para a satisfação no trabalho2-4. A Norma Regulamentadora 32 (NR 32) é considerada de extrema importância no cenário brasileiro, como legislação federal específica que trata das questões de segurança e saúde no trabalho, no setor saúde; as normatizações existentes encontram-se esparsas, reunidas em diversas outras NR e resoluções, que não foram construídas especificamente para tal finalidade. Espera-se que mudanças benéficas sejam alcançadas por meio da referida normatização, uma vez que procedimentos e medidas protetoras deverão ser realizadas com vistas a promover segurança no trabalho e prevenção de acidentes e doenças ocupacionais5. Nessa linha, falar de trabalho na enfermagem é falar de condições de trabalho6, pois condições laborais inadequadas podem transformar-se em acidentes de trabalho, enfermidades profissionais, fadiga física e mental, transtornos gerais de morbidade devido aos trabalhos noturnos e em turnos, dificuldade de comunicação entre os trabalhadores. Ter melhores condições de trabalho implica: ter equipamento adequado e suficiente; ter pessoal em número e categoria adequados; melhorar as condições de uma maneira geral; ter mobiliário e equipamento adequados para atender ao cliente; contar com planta física adequada no que diz respeito à construção de instalações para a higienização dos pacientes e do pessoal bem como do material utilizado para efetuar os procedimentos técnicos; dispor de instalações e estrutura adequadas para efetuar tratamentos, como, por exemplo, contar com oxigênio canalizado à cabeceira do leito, além de outros requisitos como regularidade no fornecimento de material, resolução dos problemas de biossegurança para clientes e profissionais, ter menos sobrecarga no trabalho. METODOLOGIA Este estudo é de natureza descritiva quantitativa, com uma população de 53 trabalhadores de enfermagem, tendo ocorrido de fevereiro a agosto de 2007. A pesquisa quantitativa envolve a coleta sistemática de informação numérica, mediante condições de controle, além da análise dessa informação, utilizando procedimentos estatísticos7. A pesquisa descritiva objetiva descobrir e observar fenômenos, a partir de variáveis, a fim de descrevê-los, classificá-los e interpretá-los8. Foram utilizados como instrumento para a coleta de dados questionários com perguntas fechadas que contemplam as variáveis do estudo9,10. Os mesmos foR Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):64-9. • p.65 Problemas de saúde e riscos ocupacionais ram preenchidos pelos próprios sujeitos com auxilio da pesquisadora quando necessário, conforme orientação de Lakatos e Marconi9; e outro questionário foi preenchido pela gerência de enfermagem. Os questionários respondidos pelos trabalhadores da enfermagem da unidade materno-infantil observaram três modalidades descritas a seguir. - Questionários 1 - Diagnóstico da situação: abrange quatro instrumentos referentes a dados gerais do hospital; situação atual do hospital; política de prevenção hospitalar; e interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos. - Questionários 2 - Riscos e danos / identificação subjetiva dos problemas de saúde no trabalho: compreende três instrumentos para levantamento de características pessoais; problemas do ambiente de trabalho e relação entre problemas de saúde do trabalhador e condições de trabalho. - Questionários 3 - Problemas reconhecidos pela gerência: são seis instrumentos direcionados para dados do setor de trabalho; locais de trabalho e instalações; tecnologias e equipamentos; substâncias e materiais utilizados; fatores ergonômicos; e fatores organizacionais do trabalho. Os questionários sobre diagnóstico da situação11-16 respondem os dados gerais do pessoal (fixo e eventual e nível de absenteísmo); situação geral do hospital (econômica, inovação tecnológica, produtividade e meio ambiente); políticas de prevenção hospitalar e interesse dos trabalhadores na prevenção dos riscos (nível de informação, questões de saúde e segurança, fiscalização do trabalho, gestão sindical dos problemas de saúde,empreendimento de ações ou iniciativas coletivas, avaliação de riscos). Os sujeitos da pesquisa assinalaram para cada um dos itens ponto/conceito 0 (bom), 1 (regular) ou 2 (ruim). Os questionários sobre riscos e danos11-16 respondem as características pessoais do trabalhador a fim de estabelecer perfil da equipe de enfermagem (função, sexo, idade, peso, altura, estado civil, carga horária e faixa salarial) e cuidados com a saúde (lazer, repouso, hábitos alimentares, imunização); problemas no ambiente de trabalho; problemas de saúde no ambiente de trabalho (foram identificados como existentes ou não e relacionou-se os problemas com condições de trabalho). Os sujeitos da pesquisa assinalaram nos questionários os itens atribuindo a cada um deles um valor de freqüência: 4 (freqüentemente), 3 (às vezes), 2 (não acontece) ou 1 (desconhece / ignora). Os questionários sobre os problemas reconhecidos pela gerência11-16 respondem sobre dados do setor p.66 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):64-9. de trabalho, locais de trabalho e instalações, tecnologia e equipamentos, substâncias e materiais utilizados, fatores ergonômicos, fatores organizacionais do trabalho. Os sujeitos da pesquisa assinalaram nos questionários os itens atribuindo a cada um deles um valor de freqüência: 4 (freqüentemente), 3 (às vezes), 2 (não acontece) ou 1 (desconhece / ignora). Os questionários referentes ao tema interesse dos trabalhadores e riscos e danos à saúde do trabalhador foram respondidos pelos profissionais de enfermagem do setor, enquanto a gerente de enfermagem respondeu todos os instrumentos, inclusive os que também foram preenchidos pelos trabalhadores. Um dos elementos principais no processo de quantificação dos fatos sociais foi o emprego do termo variável10. A metodologia utilizada determinou as seguintes variáveis: variáveis de atributos/qualitativas – sexo, turno de trabalho, relação dos problemas de saúde com o trabalho, categoria profissional, vínculo empregatício, tipos de problemas de saúde, entre outros; e variáveis contínuas – idade, número de jornada de trabalho, renda mensal, carga horária semanal de trabalho. A investigação foi realizada em uma unidade materno-infantil de um hospital federal do Rio de Janeiro. Trata-se de um hospital de grande porte, com diversos setores, que são divididos por andar em um prédio central e um prédio ambulatorial. A unidade onde se realizou a pesquisa está localizada no segundo andar do prédio central e conta com 30 leitos de internação incluindo pré e pós-parto, com uma equipe de 59 funcionários sob a chefia de uma enfermeira. A equipe funciona com quatro diaristas e o restante em escala de trabalho de 12 por 60 horas (12 horas de trabalho seguidas por 60 horas de descanso mais folga). O estudo foi autorizado pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, visando a autorização da coleta de dados, publicação e apresentação dos resultados da pesquisa em eventos científicos. Foi utilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme determina a Resolução nº 196/96 que trata da pesquisa com seres humanos, para participação dos sujeitos no estudo. Os dados obtidos com o grupo total de auxiliares, técnicos e enfermeiros foram submetidos à análise estatística, sendo apresentados através de tabela utilizando freqüência simples e percentual. Para a análise de dados, foram aplicados os programas Excel/ Windows. Mauro MYC, Veiga AR RESULTADOS E DISCUSSÃO Os resultados são discutidos em três tópicos: perfil social da população, fatores de riscos ocupacionais e problemas de saúde ocupacional. Perfil social da população A população alvo foi de 53 profissionais de enfermagem, assim distribuídos: 33% de enfermeiros concursados, 16% de enfermeiros contratados, 51% de auxiliares e técnicos de enfermagem. A maioria dos participantes da pesquisa é do sexo feminino, com uma distribuição de 95% de mulheres e 5% de homens, estando concentradas na faixa etária de 20 a 39 anos de idade considerada economicamente produtiva. Registra-se que 49% dos sujeitos têm filhos, 95% dos quais têm de um a dois filhos. Observou-se que 51% de trabalhadores ainda não têm filhos e 5% possuem três filhos. Evidencia-se que, na distribuição dos trabalhadores de enfermagem de acordo com o estado civil, 51% deles são solteiros e 49% casados. O fato de ter companheiro é mais uma responsabilidade para o cônjuge, pelas características do trabalho na Saúde, com jornadas prolongadas, em turnos, o que muito interfere na vida social e familiar11. Fatores de riscos ocupacionais Com relação à jornada de trabalho, 58,1% realizam só uma jornada de trabalho, enquanto 41,9% têm duas ou três jornadas. Entre os trabalhadores de enfermagem que participaram da pesquisa, 58,1% trabalham apenas no hospital (campo do estudo), cumprindo carga horária de 30 horas semanais; 20,9% trabalham 60 horas semanais (o equivalente a dois empregos), enquanto 16,3% realizam outras cargas horárias (a maioria dos quais tem três empregos ou mais) e 4,7% trabalham 40 horas semanais. Tais situações às vezes coincidem com as escalas dos diferentes empregos, o que os leva a vender plantões ou fazer plantões extras pagos. A disponibilidade de tempo em função da jornada de trabalho para realizar atividades cotidianas que favoreçam a sua própria saúde são mostradas nos seguintes resultados: 41,8% e 51,2% consideraram o tempo livre respectivamente como, satisfatório e deixa a desejar em relação ao lazer, sendo a última resposta significativamente preocupante porque demonstra a precariedade do atendimento dessa necessidade humana básica para mais da metade dos trabalhadores; eles não conseguem aliviar as tensões do trabalho no período de lazer, o que resulta em mais estresse, acumulando tensões que poderiam ter sido ludicamente eliminadas, constituindo uma fadiga crônica2-4,12. Ressalta-se que 44,2% dos trabalhadores responderam ter um repouso satisfatório, enquanto a maioria – 51,2% - informa que o repouso deixa a desejar, revelando um quadro de repouso aquém do recomendado para a reposição da energia desgastada e favorecimento do bem-estar e da saúde . O repouso e o lazer são insuficientes para mais da metade dos trabalhadores que participaram desta pesquisa, e quanto mais cansados se apresentarem, mais propensos estarão para o erro profissional e acidentes no trabalho. Contribuindo para agravar esse quadro, observa-se que a atividade física também está comprometida: 76,7% dos trabalhadores admitem que deixa a desejar, ou seja, não se exercitam com a freqüência adequada. Percebe-se que também a qualidade do sono para 62,7% deixa a desejar; sendo que as atividades da enfermagem exigem esforço físico e muita disposição, razão pela qual o descanso e a qualidade do repouso são fundamentais4. Com relação aos hábitos alimentares dos trabalhadores da enfermagem 44,2% consideram seus hábitos satisfatórios e 53,55 % entendem que deixam a desejar neste item, o que ainda merece grande atenção por parte dos enfermeiros, inclusive no seu encaminhamento para serviços de orientação e apoio nutricional e de suporte psicológico. Problemas de saúde ocupacional Foram analisados os problemas de saúde percebidos pelos trabalhadores de enfermagem e sua relação com as condições de trabalho, e entre os mais significativos estão os seguintes: dores lombares – 43 trabalhadores apontam este item como problema de saúde, dos quais 43,4% o consideram provocado pelas condições ocupacionais e 32,1% informaram que essas dores foram agravadas pelas condições de trabalho; o item dores dos membros inferiores foi mencionado por 40 trabalhadores, entre os quais, 43,4% como provocado pelo trabalho e 26,4% agravado pela condição ocupacional. Ver Tabela 1. Observando-se o processo de trabalho e a sua organização na área da enfermagem, constata-se que na maior parte do tempo trabalha-se em pé em função das atividades desenvolvidas e adota-se posturas forçadas e inadequadas, como no caso da posição utilizada para a punção de veias devido ao mobiliário inadequado, movimentos repetitivos entre outros13. R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):64-9. • p.67 Problemas de saúde e riscos ocupacionais TABELA 1: Problemas de saúde percebidos e sua relação com as condições de trabalho segundo informação dos trabalhadores de enfermagem. Unidade Materno-Infantil do Hospital Federal X. Rio de Janeiro, fevereira a agosto de 2007. O estresse aparece em 36 trabalhadores, dos quais 43,4% responderam que ele foi provocado pelas condições de trabalho e 22,6% afirmam ter sido ele agravado. Esta situação pode ser decorrente da rotina diária: dos trabalhadores que participaram deste estudo, 29 convivem com a mudança de humor, dos quais 26,4% creditam ao trabalho esta alteração, enquanto 22,6% consideram que a atividade laboral apenas agrava a mudança de humor. Esses resultados ratificam outros estudos em que o estresse do trabalho de enfermagem é relacionado à mudança de humor de seu pessoal, prejudicando a qualidade assistencial a saúde e satisfação profissional12-16. Nas primeiras horas do plantão começam as atividades mais exaustivas da rotina de enfermagem: para o desjejum das puérperas (no setor de puérperio, por exemplo), removem-nas do leito; auxiliam seu levantamento do leito no pós-parto imediato para o banho de aspersão (chuveiro), encaminhando-as de volta ao leito após o banho; a seguir, para a realização de curativo da ferida operatória, entre outras. Essa rotina é estressante porque é muitas vezes repetida, levando a percepção de uma atividade mecanizada2-4. Os transtornos do sono são um problema que tem importância para 30 trabalhadores deste estudo, dos quais 35,8% consideram o trabalho como o responsável por esse transtorno e 15,1% informaram que o trabalho apenas agrava o distúrbio, conforme relata a literatura13-16. Problemas no sistema vascular são comuns à enfermagem, pois muitas vezes trabalham longos períodos de pé. As varizes atingem 31 profissionais de enfermagem desta pesquisa, dos quais 28,3% apontam o trabalho de enfermagem como causa desse problema, enquanto 26,4% responderam que suas atividades são fatores que agravam essas alterações. Tais resultados corroboram estudos anteriores12-16. Os problemas oculares foram percebidos como importantes para 26 sujeitos, dos quais 20,8% menp.68 • R Enferm UERJ, Rio de Janeiro, 2008 jan/mar; 16(1):64-9. cionaram que a atividade ocupacional os provocou e 9,4% disseram que o trabalho de enfermagem apenas agravou esses problemas. Esses achados ratificam outras pesquisas12-16. CONCLUSÃO A atividade ocupacional se torna mais penosa à medida que a maior parte da força de trabalho de enfermagem é do sexo feminino, com responsabilidades nos afazeres do lar, cumprindo dupla e às vezes tripla jornada. Tal esforço favorece o aumento da renda familiar, mas também a probabilidade de adquirir problemas de saúde no ambiente de trabalho. O grau de responsabilidade desses trabalhadores tem aumentado, entretanto as remunerações não são suficientes nessa área e o trabalhador precisa de outros empregos, com maior desgaste físico e mental, não lhe restando tempo para a família, principalmente para educar os filhos. O perfil dos trabalhadores de enfermagem deste estudo leva à constatação que se tem uma maioria do sexo feminino, solteira, sem filho e com uma jornada de trabalho; há predominância de jovens. Destaca-se que quase a metade da população é casada e realiza duas ou três jornadas de trabalho, não restando tempo para o lazer, repouso, atividade física, qualidade do sono; ainda, mais da metade considerou que seus hábitos alimentares deixam a desejar. Esse perfil, com as condições explicitadas, leva a concluir-se que esses profissionais de enfermagem estão substituindo sua qualidade de vida por atividade produtiva sem compensação satisfatória para sua saúde, ou seja, expondo–se ao aceleramento do envelhecimento precoce, comprometendo suas dimensões bio-psico-social. Os problemas de saúde referidos, e relacionados às condições de trabalho, como: dores lombares, dores em membros inferiores, estresse, mudanças de Mauro MYC, Veiga AR humor, transtornos do sono, varizes, entre outros, foram agravados ou provocados pelo trabalho, segundo a informação de parte expressiva da população pesquisada. De forma mais específica, percebese que as condições laborais corroboram uma qualidade de trabalho precário, levando ao adoecimento provocado ou agravado. Os problemas de saúde mais detectados pelos trabalhadores de enfermagem e sua relação com as condições de trabalho os expõem a riscos e podem ser somados aos problemas da própria característica pessoal. Essa situação sugere que precisa ocorrer efetivamente uma intervenção das organizações de saúde e da classe de enfermagem, mediante ações participativas com esses trabalhadores, para a promoção da sua saúde, levando em consideração a proposta de Política Nacional de Segurança e Saúde do trabalhador. REFERÊNCIAS 1. Mendes R. Patologia do trabalho. Rio de Janeiro: Atheneu; 2003. 2. Mauro MYC, Farias SNP, Zeitoune RCG. Riscos no trabalho e agravos à saúde do trabalhador de enfermagem de saúde pública. Editora da EEAN / UFRJ. Rio de Janeiro; 2005. 3. Guimarães RM, Mauro MYC. Potencial de morbimortalidade por acidente de trabalho no Brasil - período de 2002: uma análise epidemiológica. Epístul ALASS (España). 2004; 55(2): 18-20. 4. Mauro MYC, Guimarães RM, Mauro CCC. 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