PAINEL DESCENDENTES DE UMA PROMESSA: A FESTA DE SÃO BENEDITO NA COMUNIDADE TIA EVA Aline Sesti Cerutti1 Amanda Leal2 Nelly Stéfani Cano Viruez3 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande/MS Resumo: A pesquisa de campo teve como objetivo observar, registrar e analisar sob o ponto de vista da dinâmica cultural, a “tradicional” festa de São Benedito, na Comunidade, que completou 92 anos e, hoje faz parte do calendário cultural da cidade de Campo Grande (MS). A Comunidade de São Benedito, formada entre outros, pelos afro-descendentes da ex-escrava Tia Eva, sua fundadora e devota do Santo. O ritual festivo apresenta aspectos sagrados, onde o Santo dos negros é reavivado a cada festa, renova tradições, remarca o território na comunidade, através da procissão, novenas, missa e a adoração no altar com flores e velas. Com a religiosidade de âncora do festejo e a devoção, o pilar “tradicional” do evento, a adaptação do festejo, para atrair pessoas, se fez necessário, resultando na atualização da mesma. Tal atualização se deu pela dinamicidade das atividades realizadas que serviram como atrativo para o público e enriquecimento do calendário festivo. Ao longo da pesquisa de campo foram feitas entrevistas com os membros da comunidade, coletados dados históricos culturais (fim do séc. XIX ao XX) sobre a formação da comunidade, a vinda de Tia Eva e sobre a estrutura da festa, e realizados registros fotográfico e audiovisual. Foi possível observar transformações estruturais nos aspectos do sagrado e profano, como por exemplo, os cantos religiosos que formam parte do cenário ritualístico com os mais velhos e logo após músicas de ritmos dançantes que embalam os mais jovens. Na compreensão do sentido da festa, observamos ressignificações culturais no cenário religioso versus profano, cujas transformações culturais demonstram rupturas e continuidades nos diferentes contextos históricos apresentando tradições reinventadas. PALAVRAS-CHAVE: Aspectos sócio-culturais; Dinâmica cultural; Tradições reinventadas. 2. Fundamentação Teórica Para melhor entendimento da manifestação cultural popular, do embate entre tradição e modernização e o embate do sagrado e profano, foi feita uma revisão bibliográfica entre autores Stuart Hall (2003), Nestor Garcia Canclini (1989) e Mircea Eliade (1996) para formar o embasamento teórico e fundamentar a análise dos dados. 3. Introdução A festa tradicional de São Benedito, realizada na Comunidade, tornou-se um evento tradicional do calendário cultural da cidade de Campo Grande (MS). A pesquisa de campo e bibliográfica foi motivada pela proposta apresentada na disciplina de Fundamentos da Cultura e Cultura Brasileira II, do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, sob a orientação da professora Ma. Aline Sesti Cerutti. O desenvolvimento do trabalho de campo e bibliográfico foi realizado pelos acadêmicos: Amanda Leal, Cícero Rodrigues4, Nelly Stéfani Cano Viruez, que participaram 1 Mestra em História/UFGD; Docente do curso de Artes Visuais /UFMS, e-mail: [email protected] Graduanda do 4° semestre do curso de Jornalismo do DJO/UFMS, e-mail: [email protected] 3 Graduanda do 6° semestre do curso de Artes Visuais – Licenciatura, UFMS, e-mail: [email protected] 4 Graduando do 6° semestre do curso de Artes Visuais – Bacharelado, UFMS, e-mail: [email protected] 2 2 da sistematização dos relatos que resultaram neste artigo, cuja publicação acontece no XXI CONFAEB 2011. A festa de São Benedito pode ser considerada uma manifestação popular de cunho religioso, que foi iniciada pela ex-escrava Eva Maria de Jesus, conhecida como Tia Eva, líder da comunidade São Benedito. Ela deixou como legado aos seus descendentes a devoção a São Benedito e a tradição do festejo em sua homenagem. Isso ocorre a 92 anos, no mês de maio e tem a duração de uma novena. A promessa de Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, feita a São Benedito, de realizar a festa em sua homenagem, continua sendo cumprida e é considerada uma tradição na cidade de Campo Grande. 3.1. A Tia Eva e o Santo: criando identidades, fortalecendo laços na Comunidade No período atual de realização da festa é possível notar consideráveis transformações no contexto estrutural, tanto da cidade, como da Comunidade, que hoje faz parte de uma área urbana. Em 1905, a cidade de Campo Grande era apenas uma rota das tropas imperiais por ocasião da guerra do Paraguai. Acabou se tornando um lugar de refúgio para algumas pessoas e outros se interessaram pela informação de que na região havia terras e condições para se estabelecerem. Na ocasião Eva Maria de Jesus, com 41 anos, veio com as três filhas, Joana, Lázara e Sebastiana e mais duas famílias, em um carro de boi da região de Mineiros, em Goiás, para se juntarem à pequena comunidade que existia desde o final do século XIX, na região da Mata do Segredo. Eis que começa a história de uma tradição que mudaria a vida daquela comunidade. Devota de São Benedito, Tia Eva como ficou conhecida, teve uma graça concedida por Ele ao ser curada de uma ferida que tinha no joelho. Para pagar a promessa, construiu de pau-a-pique uma capela em louvor ao Santo. Depois, com auxílio das pessoas conseguiu erguer uma igreja melhor em 1919. A festa a São Benedito surge em comemoração à reforma da igreja. Com duração de nove dias, uma novena, com reza, terço, muita música, dança, comida, bebida, e três fogos ao subir a bandeira do santo no alto do mastro, na hora do Salve Rainha. Esta história foi contada por um dos descentes à Vanda Moraes, registrado no livro Tia Eva, Negraeva – história da comunidade São Benedito (2003). Nesta ocasião Eva Maria de Jesus promete a realização da homenagem enquanto houvesse um descendente seu. 3.2. A Festa, contada e ressignificada pelos descentes de Tia Eva Até sua morte, em 1926, tia Eva foi fiel a promessa ao Santo. Já são quase 100 anos de festa, contados 92 anos seguindo a sua vontade. Durante a realização das entrevistas com a comunidade e os descentes de Tia Eva percebe-se a mudança nas tradições da celebração, que se reinventa, enfrentando as adversidades da modernidade, para perpetuar a história e memória da líder, através do Santo padroeiro. Na opinião de Sergio Antonio da Silva, o seu Michel, de 77 anos, bisneto, muita coisa mudou. Ele diz que nos anos anteriores adultos e jovens participavam mais da festa, confraternizavam juntos. “Hoje tem menos jovens e tem descendentes que não são mais católicos”. Para ele melhorou a estrutura da festa, pois, na época em que a realização esteve em sua responsabilidade as condições não eram favoráveis, mas acredita que a parte religiosa não é como antigamente. Seu Michel, conta que a festa “melhorou só num lado porque de primeiro não tinha água nem luz, era mais difícil de fazer. A festa era debaixo do arvoredo, com todo sacrifício. 3 Mas a parte religiosa decaiu muito do tempo da minha avó Sebastiana” (sic), afirma, porém, que as rezas e as missas seguem o pedido de Tia Eva. Dona Adair Jerônima da Silva, 77 anos, bisneta, também diz que mudou muita coisa nestes anos, mas o que ela cita em primeiro lugar, é o respeito à opinião dos mais velhos. “Era uma união bonita, se o mais velho falasse tava registrado. Porque nós que somos antigos é que sabemos como é que era. Esses mais novos não sabem nem da metade” (sic). A atual vice-presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, sua tataraneta, Vânia Lúcia Baptista Duarte, 35 anos, vê como algo normal a queixa dos mais idosos no que se refere às transformações que a festa sofreu no decorrer dos anos, pois avalia que pela logística do evento não seria viável realizar da mesma maneira. “Acho que eles têm saudosismo de como era no passado, mas se fosse para realizar como era antes, não teria como realizar os 10 dias de festa como acontece hoje” (sic). Eurides Antônio da Silva, 49 anos, filho de seu Michel, compartilhou a presidência da Associação dos Descendentes com o pai e relata que para tocar o pagode no baile houve muita resistência dos antigos, tocava apenas sertanejo. Comenta que, quando introduziram o pagode tivera problemas. “Foi um Deus nos acuda. Eles não aceitavam, contestaram. Para os mais jovens isso é visto como uma conquista” (sic). A ausência dos adolescentes e jovens na parte sagrada da Festa é nítida. Nas missas e terços a participação maciça é dos idosos. Maria de Lurdes Baptista, 55 anos, bisneta, diz que os mais novos não se preocupam com a tradição religiosa e sim com o baile apenas. Segundo ela “eles procuram mais o pagode, não procuram a religiosidade. A gente fala, mas eles quase não participam. É uma pena, mas é isso que acontece” (sic). O entretenimento da Festa, como o baile, contagia os mais jovens, por isso a Associação que realiza a organização do evento incluiu as atividades desportivas, como o torneio de futebol. 3.4. A disputa no campo do sagrado na Comunidade Outra justificativa para a transformação tanto da tradição religiosa como na própria comunidade está, de acordo com alguns moradores, na interferência de outras crenças, como a evangélica. Hoje há um número elevado de descendentes de Tia Eva, que são evangélicos até porque com o tempo, outras religiões como esta, se firmaram no local, criando disputas dos fiéis no campo do sagrado. Apesar desta constatação, Dona Adair e seu Michel, representantes mais antigos da comunidade São Benedito, a definem como católica devido ao costume passado por sua fundadora. Dona Adair argumenta que não pode haver outra religião dentro da comunidade por fazer parte da tradição, o catolicismo. Percebe-se a afirmação que comunga e reafirma a escolha da devoção da comunidade a adoração ao santo católico eleito como padroeiro. Por isso, os rituais do sagrado são importantes na Comunidade. As comemorações no bairro acontecem onde no salão da Associação dos Descendentes, inaugurado em 1997 ao lado da capela construída por Tia Eva, envolvem práticas religiosas e profanas. Na pequena capela, ocorre a novena - a reza do Terço a São Benedito onde poucas pessoas, geralmente as mais idosas, fazem o ritual. A missa, porém envolve mais pessoas da comunidade, então é realizada no salão, com músicas cantadas em homenagem ao Santo e a cultura dos afrodescendentes, há oferenda de alimentos. 4 Fig. 1. Devotos na Capela. Comunidade São Benedito Foto: Amanda Leal. Fig. 2. Devoção e Fé dos devotos Comunidade São Benedito Foto: Amanda Leal. Os devotos de São Benedito demonstram fé e emoção no toque, nas cantorias e homenagens ao Santo. O altar montado tanto na capela quanto no salão centraliza a homenagem ao Santo padroeiro, que divide espaço com outros santos católicos, como a Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Flores de plásticos coloridas, três velas no chão da capela. Os altares das igrejas são importantes locais dos quais podemos compreender melhor as representações, adquirindo informações sobre a vida religiosa da comunidade, através da disposição de seus elementos iconográficos no espaço paroquial, e da escolha da temática. Segundo Volvelle (1997, p.25-26) “no discurso visual a igreja conserva sua função de hospedar o protetor da comunidade, um santo ligado ao território”. Fig.3: Altar na Capela Comunidade São Benedito Foto: Cícero Rodrigues Fig. 4: Procissão Comunidade São Benedito. Foto: Amanda Leal. A procissão sai pela tarde, mas este ano aconteceu pela manhã, da frente da capela, leva o Santo através da imagem esculpida e representada na bandeira, com cânticos e rezas pelas ruas do bairro, próximas a capela. Forma tradicional cristã de apropriação e santificação do território tornando - o sagrado, pela passagem do Santo. De certa forma, demarca também o território católico, perante outras instituições religiosas. Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo; o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras. Há, portanto, um espaço sagrado, e por 5 conseqüência, “forte”, significativo, e há outros espaços não sagrados, e por conseqüência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos. (ELIADE, 1992, p. 25) O espaço ora sagrado, ora profano, conforme as necessidades e representações vão se constituindo na comunidade. A relação entre comunidade e Igreja, muitas vezes contempla um embate de forças. Eurides, um dos representantes da comunidade São Benedito, aponta o descaso da própria Igreja Católica com a comunidade como um dos motivos da dispersão dos fiéis para outras instituições religiosas. Isso aconteceu quando os padres deixaram de realizar a missa tradicional aos domingos na capela e construíram outra igreja, à Nossa Senhora do Rosário e São Benedito5. “Os padres não vindo celebrar a missa aqui causou uma divisão”. Para ele, Tia Eva, católica, devota de São Benedito, foi a responsável pela propagação da religião católica na comunidade, exercendo assim o papel de missionária. Algumas pessoas quando ouvem falar em comunidade negra, logo imaginam que a religião cultural seja o candomblé ou a umbanda. Seu Michel, bisneto de Tia Eva, diz que ela nunca comentou da parte africana. Segundo ele, ela não conhecia. Mas Eurides diz que se propaga na comunidade essas práticas religiosas, mas ainda há preconceito e os adeptos fazem às escondidas. Percebe-se na análise dos discursos, como se fortalecem as tradições religiosas cristãs advindas da escolha feita pela “missionária” Tia Eva, aos seus descendentes. Porém, não podemos esquecer que o Santo São Benedito foi escolhido como padroeiro, por ter sido um missionário franciscano negro, um “santo que foi um simples cozinheiro”, possibilitou tecer identidades e laços sócio-culturais pelas semelhanças étnicas e sócio-culturais, fortalecendo a aliança com a Comunidade local. A festa ao santo faz parte, junto à outras ações educativas desenvolvidas pela Associação, para a afirmação das identidades afrodescendentes, que ganham força na comunidade. 3.5. Aspectos culturais afrodescendestes: ressignificando as tradições A cultura africana de acordo com Eurides ainda é pouco divulgada na Comunidade, mas há ações que buscam as raízes dos negros, como o dialeto africano. Seu Michel cita as músicas típicas, cantadas nos rituais sagrados da Festa. Nas noites culturais, participam outras pessoas, além dos moradores. No almoço festivo havia pessoas das Moreninhas, da Chácara Buriti, distrito de Anhanduí e Jaraguari. Todos que participam desejam saber o significado da festa. Vânia Baptista afirma que a maioria dos jovens da comunidade conhecem a história local, pois há uma parceria com a escola estadual que fica em frente a capela ensinar a respeito da história da Tia Eva e da Comunidade. 5 A Comunidade de São Benedito faz parte da Paróquia São Francisco de Assis, sob os domínios dos padres católicos franciscanos desde os anos 50 do século XX, com a fundação da Paróquia no Bairro antes intitulado Cascudo. Houve um desentendimento entre a Comunidade e os Franciscanos neste período, devido à disputa do campo territorial do sagrado, a ponto dos franciscanos construírem outra capela na Comunidade, que permanece ate hoje, intitulada “São Benedito e Nossa Senhora do Rosário”, onde as celebrações passaram a ser realizadas nesta outra. Ficando a Capela de São Benedito, construída por Tia Eva, por mais de quinze anos sem ser atendida pela Paróquia. PEREIRA, Aline Cerutti. O Padroeiro Reformador na Paróquia São Francisco de Assis em Campo Grande MS (1950-1980). Dissertação, UFGD, 2006. Disponível em: http://www.ufgd.edu.br/tedesimplificado/tde_arquivos/4/TDE-2007-08-14T060712Z14/Publico/AlineCeruttiPereira.pdf Acesso: 25/08/2011. 6 Quanto às influências externas da comunidade, hoje há a propagação do funk no som dos carros que ficam na avenida. O contra senso questionado está relacionado às letras divergentes da doutrina católica. De acordo com Vânia, os carros que ficam com o som alto não pertencem a comunidade, e mesmo que os moradores solicitem que abaixem o som, não são atendidos e que pedir que saiam do local não é possível. Nas noites de baile da festa os estilos se misturam. Há as influências dos ritmos da fronteira com o Paraguai, e do sul do País, como chamamé, do sertanejo e do pagode. A mistura de ritmos, para atender a diferentes gostos culturais, propicía a participação dos jovens, e embora transformem algumas “tradições”, perpetua a existência de outras. Há, pois, que se atentar ao caráter de perpetuação de algumas tradições. No entanto, a prática do evento sofreu mudanças ao longo do tempo, não tanto com referência ao seu ponto central, que é o de homenagem ao Santo, mas acerca da introdução de novos elementos, principalmente no campo do profano da Festa e outras atividades desenvolvidas pela Associação na Comunidade. A renda dos festejos é em prol da comunidade, coordenado pela Associação, que desenvolve vários cursos de formação para os moradores, inclusive sobre a cultura afro. Ao lado da capela o grupo das descendentes de Tia Eva desenvolve artesanato cuja marca criada é uma tradição reinventada que afirma as identidades culturais. Segundo Stuart Hall, a cultura deve ser compreendida de forma dinâmica fortalecendo identidades, não no sentido de homogeneizar, mas de compreender a convivência das diversidades e o entrecruzamento das culturas, criando novas formas. A tradição é um elemento vital da cultura, mas ela nada tem a ver com a mera resistência das velhas formas. Está muito mais relacionada às formas de associação e articulação dos elementos. (...) As culturas percebidas não como “formas de vida”, mas como “formas de luta” constantemente se entrecruzam: as lutas culturais surgem nos pontos de intersecção (HALL, 2008, pág. 243). Tia Eva, por suas dificuldades, crenças religiosas e a promessa ao Santo, transformase na “missionária da fé” implantando na comunidade a religiosidade católica no grupo. Instaurando a Festa de São Benedito, que se torna uma “tradição inventada”, segundo Hobsbawm é entendida como: (..) um conjunto de práticas, normalmente reguladas por regras tácita ou abertamente aceitas; tais práticas, de natureza ritual ou simbólica, visam inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade com um passado histórico apropriado. (HOBSBAWM, 2002, p. 09) Na festa, a tradição foi reinventada, com o tempo, há presença de pessoas de várias partes da cidade e fora dela, o que pode demonstrar um crescimento para além dos “muros” da Comunidade. Vânia, que é vice-presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva e sua tataraneta, diz acompanhar as transformações da festa, explica que antigamente o lugar ficava em uma área rural de Campo Grande, os familiares saíam com bandeiras de São Benedito pedindo doações nas chácaras e hoje está em uma área urbana, e esses lugares, hoje são vilas de casas, conjuntos habitacionais. Há o reconhecimento de novas necessidades. Diz que contam então, com o apoio da prefeitura, do governo do Estado e da própria comunidade para realizar o evento. Apesar de apresentarem certa crítica e resistência na reformulação das práticas culturais, percebem a necessidade de “negociar” alguns aspectos, pois, a participação na festa envolve tanto pessoas da comunidade como fora dela e o espaço na modernização, amplia-se 7 no cenário cultural para além do local, com outros recursos não somente pertencentes à Comunidade. O processo de modernização e globalização da Festa propõe reinvenções das tradições populares. Canclini (1989) sugere a reformulação do “popular”, constituído por processos híbridos, com a modernização das práticas. O objeto “puro” e “autêntico” não garante a reprodução e o benefício local. A “comunidade imaginada” fluidifica-se para além do local que habita, modificada e revitalizada pela mídia e o turismo. 3.6. O encontro dos afrodescendentes de Tia Eva: fortalecendo os laços comunitários Além da tradição religiosa, percebe-se que a festa possui um caráter de confraternização entre os descendentes. Desde o início do evento em torno do Santo, funcionou como um fator de união e socialização entre os moradores, fortalecendo os laços entre eles. Dona Adair lembra que nos anos anteriores, tornou-se tradição realizar escalas de trabalho para organizar a festa, o que fortaleceu a união familiar. A festa que se prolonga por dez dias, possui o lado sagrado e profano, com baile, eventos culturais artísticos e desportivos. Vânia diz que a festa está para além de um rito religioso é uma oportunidade de encontro das gerações, pois nem todo mundo é católico, mas nesta ocasião os parentes participam como uma maneira de reencontrar aqueles que estão distantes. Vânia relata que: “Hoje, no almoço de enceramento, tinha uma senhora falando para minha tia: „que bom que eu te encontrei porque nós vamos fazer uma reunião pro pessoal da nossa geração que está tudo muito disperso‟. Então, é um ponto de encontro e isso a gente tem que valorizar também”. Com base no relato, Mircea Eliade diz: (...) Os participantes da festa tornam-se os contemporâneos do acontecimento mítico. Em outras palavras, “saem” de seu tempo histórico – quer dizer, do tempo constituído pela soma dos eventos profanos, pessoais e intrapessoais – e reúnem-se ao Tempo primordial, que é sempre o mesmo, que pertence à Eternidade. O homem religioso desemboca periodicamente no Tempo mítico e sagrado e reencontra o Tempo de Origem, aquele que “não decorre” – pois não participa da duração temporal profana e é constituído por um eterno presente indefinidamente recuperável. (ELIADE, 2001, p. 79). O fortalecimento das relações nos grupos, através do processo de produção das identidades e alteridades, favorecem os vínculos sociais. Assim, seus membros adquirem um desejo de fusão, uma empatia – um viver orgânico em que os indivíduos se fortalecem em conjunto formando o corpo social, pelo prazer de pertencer e criar laços, dando-lhes um universo de sentido (MAFESSOLI, 1996). Dessa forma, observamos a comunidade, através do empenho dos descendentes de Tia Eva, demonstram a necessidade de reviver o real através da festa, homenageando ao Santo padroeiro, mas principalmente Tia Eva, mostrando a importância desta para a transmissão do seu legado as novas gerações. Considerações finais Ao finalizar momentaneamente, estas reflexões, não se pode considerar conclusivas, pois o estudo deverá ter continuidade, mas já é possível compreender que a afirmação das 8 tradições na Comunidade se estabelece sobre dois pilares fundamentais na figura da Tia Eva e do Santo Padroeiro São Benedito. A Comunidade reproduz algumas significações “tradicionais”, recriando outras, com o intuito de fortalecer vínculos sócio-culturais, contemplando o espaço cultural, no que tange a religiosidade católica e as influências afrodescendentes. Compreendendo que o diálogo sóciocultural deve ser a ponte para a continuidade destas tradições reinventadas. Referências: CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1998. BAPTISTA, Maria de Lurdes. Entrevista: Campo Grande, 21 de Maio de 2011. (duração: 22h as 22h10). DUARTE, Vânia Lúcia Baptista. Entrevista: Campo Grande, 22 de Maio de 201. (duração: 16h15min às 16h30min). ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2001. HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mestiçagens culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003. HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A Invenção das Tradições. Tradução: Celina Cardim Cavalcante. 3°edição. São Paulo: Paz e Terra, 2002. MAFESSOLI, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. MORAES, Vanda. Tia Eva, Negraeva – História da Comunidade São Benedito. Campo Grande: Diogo Gráfica e Editora, 2003. PEREIRA, Aline Cerutti. O Padroeiro Reformador na Paróquia São Francisco de Assis em Campo Grande - MS (1950-1980). Dissertação, UFGD, 2006. Disponível em: http://www.ufgd.edu.br/tedesimplificado/tde_arquivos/4/TDE-2007-08-14T060712Z14/Publico/AlineCeruttiPereira.pdf. Acesso: 25/08/2011 SILVA. Adair Jerônima da. Entrevista: Campo Grande, 22 de Maio de 2011 (duração: 15h às 15h15min). SILVA. Eurides Antônio da. Entrevista: Campo Grande, 22 de Maio de 2011 (duração: 15h30min às 16h). SILVA. Sérgio Antonio da. Entrevista: Campo Grande, 22 de Maio de 2011 (duração: 09h às 09h14min). VOLVELLE M. Imagens e Imaginário na História: fantasmas e certezas na mentalidade desde a Idade Média até o século XX. São Paulo: Ática, 1997.