AS REPRESENTAÇÕES DE SANTIDADE NA HAGIOGRAFIA DE TOMAS DE CELANO. Fernanda Amélia Leal Borges Duarte1 RESUMO: A hagiografia de Tomas de Celano sobre São Francisco de Assis. Foi escrita em 1229, após a morte do santo e um ano depois de sua canonização. Pretendese analisar as representações de santidade criadas sobre São Francisco de Assis durante o processo de composição da ordem Franciscana no século XIII. Existiram várias formas de compor a sua representação, através dos escritos hagiográficos e da construção da santidade do corpo do fundador. As representações de santidades, construídas em torno do santo foram feitas gradualmente; primeiro com a canonização e em seguida através do texto hagiográfico. Palavras-chaves: Hagiografia. Representação. Santidade. Tomás de Celano. Francisco de Assis. Introdução A hagiografia de Tomás de Celano, publicada no ano de 1229, tem o objetivo de descrever a vida de São Francisco de Assis. Tomás de Celano era membro da Ordem Franciscana, desde 1215, era homem culto e de família abastada. Sua obra esta dividida em dois momentos: Primeira Vida; Vida religiosa de Francisco (1206-1224), Segunda Vida; O tempo da estigmatização (1224 a 1226) e os milagres obtidos por sua intercessão. Nossa pesquisa está concentrada na Segunda Vida: O tempo da estigmatização na busca de compreender a representação de santidade construída em torno de São Francisco de Assis e a importância do corpo santo para a Ordem Franciscana antes e após a morte do santo. São Francisco dedicou sua vida ao trabalho espiritual e caridade com o próximo, principalmente com os leprosos. Escolheu como modo de vida a pobreza absoluta e na humildade do Evangelho seguindo os exemplos de Cristo. Com o tempo sua fraternidade cresceu e tornou se uma Ordem vinculada a Igreja Católica, surgindo vários argumentos sobre sua santidade ainda em vida. Após a sua morte objeto de 1 Mestranda em História na PUC GO e graduada em História pela UFMS. email: [email protected] 1 representação e legitimação para a Ordem Franciscana no contexto do século XIII e na busca da canonização do santo. As representações do corpo santo São Francisco de Assis faleceu em 1226 e logo após sua morte foi pronunciado à Ordem Franciscana a perda de seu líder religioso, e os milagres dos estigmas no corpo de Francisco. A carta circular é o documento escrito e lido por Frei Elias de Cortona, que na época era vigário-geral, cujo conteúdo é a comunicação do falecimento e os milagres dos estigmas. A história Tradicional da Ordem Franciscana relata que os estigmas de Cristo teriam aparecido no corpo de Francisco após uma visão do serafim em La Verna no ano de 1224. Tomás de Celano descreve no capítulo 3 Da visão do homem com a imagem de um serafim crucificado2: (...) estando no eremitério que, por sua localização, tem o nome de Alverne Deus lhe deu a visão de um homem com a forma de um serafim de seis asas, que pairou acima dele com os braços abertos e os pés juntos pregado numa cruz. Duas asas elevavam-se sobre a cabeça, duas abriamse para voar e duas cobriam o corpo inteiro. (...) Tentava descobrir o significado da visão e seu espírito estava ancioso para compreender o seu sentido. Estava nessa situação, com a inteligência, sem entender coisa alguma, e o coração avassalado pela visão extraordinária, quando começaram aparecer-lhe nas mãos e nos pés as marcas dos quatros cravos, do jeito que as vira pouco antes no crucificado. O corpo de Francisco já era considerado santo antes mesmo de sua morte, pois o “milagre” dos estigmas estava presente dois anos antes da morte do santo. Mais tarde houve uma disputa entre as cidades Italianas, Assis e Perusa pela posse de seu corpo. (...) “A existência de corpos de santos numa cidade constituiu uma tutela que, aliada ao grande sentimento de liberdade entre citadinos, afugenta o perigo de qualquer dominação”. (...) (MIATELO, 2013; p.176) 2 Fontes Franciscanas, organizada pelo FreiDorvalino Francisco Fassini (OFM). Santo André, São Paulo; Editora O mensageiro de Santo Antonio, 2004. O documento hagiografia de Tomás de Celano segunda vida, p.248 e 249. 2 No capítulo 983 da Ocultação dos Estigmas, Tomás de Celano argumenta que os frades que conviviam com Francisco já tinham o conhecimento dos estigmas e a preocupação do santo em escondê-los. Não podemos deixar passar em silencio com quanta preocupação e empenho procurou esconder aqueles gloriosos sinais do crucificado, dignos de serem venerados até pelos espíritos celestiais. Nos primeiros tempos, quando o verdadeiro amor de cristo transformar em própria imagem. (...) Os estigmas são vistos como algo divino ou como um presente de divindade. Compreende-se que Celano apresenta Francisco como a representação de Cristo no contexto do século XIII. (...) “dos estigmas que segundo o biógrafo significariam parte de Francisco identificação com Cristo, de natureza metal e não física”. (...) (FRUGONI, 2011; p.139 e 140) A representação da santidade seria uma construção da identidade da Ordem Franciscana como um grupo escolhido para vivenciar a pobreza e evangelho. Esta escolha teria sido através de seu líder religioso que recebeu os milagres dos estigmas de Cristo. No capítulo 1º da Segunda Vida4: Sua vida gloriosa faz brilhar a santidade dos santos antigos com uma luz mais clara. Prova cabal é o seu amor à paixão de Jesus cristo é a sua cruz. De fato, nosso pai venerável foi marcado nas cinco partes do corpo pelo sinal da paixão e da cruz, como se tivesse sido pregado na cruz como o filho de Deus. Este sacramento é grande e indica a grandeza de seu particular amor. Mas acreditamos que existia nesse fato um plano oculto, um mistério escondido, que só Deus conhece e que o próprio santo só revelou a uma pessoa, e em parte. Por isso, não adianta insistir muito em elogios, porque seu louvor vem daquele que é o louvor de todas as coisas, fonte de toda glória e que concede os prêmios da luz. Neste capitulo Tomás de Celano posiciona Francisco acima de todos os santos anteriores a ele e este é visto como igual ao Cristo. Esta igualdade estaria relacionada ao amor, à Cristo representado no modo de vida da pobreza e aos estigmas que seriam um 3 Fontes Franciscanas, organizada pelo FreiDorvalino Francisco Fassini (OFM). Santo André, São Paulo; Editora O mensageiro de Santo Antonio, 2004. O documento hagiografia de Tomás de Celano segunda vida, p.374 4 Fontes Franciscanas, organizada pelo FreiDorvalino Francisco Fassini (OFM). Santo André, São Paulo; Editora O mensageiro de Santo Antonio, 2004. O documento hagiografia de Tomás de Celano segunda vida, p.246. 3 mistério de Deus. Francisco revelou uma parte do mistério e segredo dos estigmas para uma pessoa, quem seria esta pessoa? A hagiografia não menciona quem poderia ser este confidente do santo, mas podemos levantar algumas hipóteses que poderiam ser Frei Rufino, quem esteve com o santo até o momento de sua morte, Frei Elias por ter sido o primeiro a escrever sobre os estigmas, ou Santa Clara que era considerada filha espiritual de São Francisco. Compreendendo a construção da fraternidade Franciscana, após a morte de Francisco, a acreditamos que seu corpo se tornou um símbolo, uma relíquia religiosa para a ordem, tornando-a o seu principal bem de santidade. Na perspectiva de André Vauchez a santidade de São Francisco, comparada à Cristo, seria uma busca de legitimidade sobrenatural construída pela Ordem Franciscana “em uma época em que seu papel no seio da Igreja era objeto de vivas polêmicas, logo fizeram com que se perdesse de vista a existência concreta do Pobre de Assis e o significado profundo do seu testemunho.” (1995: 133) Os interesses institucionais da Ordem Franciscana e a busca pela santidade, composta em uma obra que foi escrita de acordo com os interesses e sob controle do papado de Gregório IX, que usava a santidade dos santos mendicantes para “implantar a política papal de grande centralização e exacerbação do poder pontifício sobre a cristandade interna.” (MIATELO, 2013; p.58) Além dos interesses institucionais da Igreja, não se pode deixa de argumentar sobre os aspectos culturais e religiosos do século XIII e a presença de São Francisco nestes, com objetivo de definir as ações dos franciscanos através dos modos culturais, tentando dialogar com o conceito de imaginário para compreender as relações de santidade construída pela Ordem Franciscana. Jacques Le Goff (2005) que possibilita a compreensão da formação do franciscanismo e as suas propostas e mudanças no decorrer de sua composição no contexto do século XIII. (...) preparar um inventário de modelos antes de conceitos-chaves da mentalidade e da sensibilidade comuns do século XIII e buscar definir atitude dos franciscanos em face desses modelos na sua perspectiva de evangelização da sociedade leiga. (...) Não existe, na Idade Média, domínio da cultura no sentido moderno do termo. A expressão “modelos culturais” é tomada aqui num sentido amplo e os conceitos-chaves dos sistemas de valor são considerados em uma perspectiva de antropologia histórica. Estou interessado principalmente nos valores novos ou que se impuseram no século XIII. (LE GOFF 2005, p.185 e 186) 4 A ordem Franciscana como instituição deixa de um lado de preservar na sua pureza original as convicções de São Francisco, mas teve papel importante no contexto medieval ao abrir as discussões sobre o trabalho de assistência e da vida apostólica, tendo como base somente o evangelho. As discussões da santidade de Francisco que permearam o franciscanismo no século XIII nas hagiografias de Tomás de Celano e mais tarde na de São Boaventura possibilitam estudos na historiografia no âmbito da religiosidade e da sociedade. Estas reflexões ajudam a entender a influência e o poder da Igreja Católica medieval, a oficialização da Ordem Franciscana e os seguimentos deste que representaram os marginalizados da sociedade na sua época e buscando sua legitimidade dentro da Igreja Católica, com a representação da santidade do fundador da ordem religiosa. 5 Conclusão As representações de santidade construídas sobre São Francisco de Assis foram realizadas primeiro com a canonização em 1228 e depois com a hagiografia de Tomás de Celano escrita em 1229. No decorrer do século XIII outras, hagiografias foram escritas como de São Boaventura, publicada em 1266, sendo declarada como a vida oficial de São Francisco de Assis, esta que deveria ser seguida pela ordem, decretando que as outras hagiografias escritas sobre o santo fossem destruídas. As hagiografias Legenda dos Três companheiros e o Anônimo Perusino não se sabe a autoria e a datação das obras. Sendo que a Legenda dos Três companheiros possui 18 capítulos e a Anônimo Perusino 12 capítulos. Todas foram escritas com o objetivo de relatar a vida do santo de Assis e em alguns momentos fazem a representação da santidade do corpo santo. Estas hagiografias começaram a ser escritas pelos membros da ordem Franciscana, (...) “Os franciscanos das duas tendências tinham multiplicado a biografia do santo, atribuindo-lhes palavras e atitudes de acordo com as suas posições. Não se sabia mais a que São Francisco se apegar” (...) (LE GOFF, 2005, p.52). A complexidade dos estudos das fontes escritas pela própria ordem refletem que não há um consenso sobre a vida do fundador da instituição. As representações de santidade não estavam apenas nos escritos hagiográficos, mas na construção da Basílica de Assis. No ano de 1230 o corpo de Francisco é transferido para esta basílica e analisa se como o corpo do santo tem significado de relíquia religiosa para a ordem Franciscana. “(...) A função atribuída às relíquias dos santos no mundo cristão deve ter modificado profundamente a atitude em relação às imagens.(...)” (GINZBURG,2001,p.96). Entende-se que a construção de Basílica de Assis e a posse do corpo santo como bem materiais são ações contrárias ao modo de vida proposto pelo santo a renúncia de todos os bens materiais como foi pontuado por São Francisco no seu testamento5. (...) cuidem-se os irmãos de receber, de modo algum, igrejas, pequenas e pobres, habitações e tudo o que for construído para eles, a não ser que sejam como convém a santa Pobreza, que prometemos na regra, nelas hospedando-se sempre como estrangeiros e peregrinos.(...) 5 Fontes Franciscanas, organizada pelo FreiDorvalino Francisco Fassini (OFM). Santo André, São Paulo; Editora O mensageiro de Santo Antonio, 2004. O documento testamento, p.84. 6 As mudanças de convicções em relação a pobreza, principalmente em obter os bens matérias como as Igrejas e conventos da Ordem Franciscana foram realizadas no decorrer do século XIII, talvez pelo aumento dos membros na fraternidade ou pelos interesses institucionais e políticos da época. Fontes FONTES FRANCISCANA, organizada pelo Frei Dorvalino Francisco Fassini (OFM). Santo André, São Paulo; Editora O mensageiro de Santo Antonio, 2004. 7 Referências BLOCH, Marc. Apologia da história ou o oficio de historiador. Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed, 2001. BARROS. José D´ Assunção. Considerações sobre a história do franciscanismo na Idade média. In Estudos da Religião, v.25, n. 40, 110-126, jan/jun. 2011. CARVALHO. Cibele. As hagiografias franciscanas. In Revista Dialogos mediterrâneos. Nº4 – junho 2013 ISSN 2237-6585. CHARTIER, Roger. A “nova” história cultural existe? In.LOPES, Antonio Herculano. VELLOSO, Monica Pimenta e PESAVENTO, Sandra Jatahy (orgs). 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