2005 International Nuclear Atlantic Conference - INAC 2005 Santos, SP, Brazil, August 28 to September 2, 2005 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENERGIA NUCLEAR - ABEN ISBN: 85-99141-01-5 FADIGA TÉRMICA EM TUBULAÇÕES PROVOCADA PELO FENÔMENO DA ESTRATIFICAÇÃO TÉRMICA Luiz Leite da Silva1, Ernani Sales Palma2 e Tanius Rodrigues Mansur1 1 Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CNEN/CDTN) Caixa Postal 941 30.123-970 - Belo Horizonte, MG [email protected] [email protected] 2 Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Av. D. José Gaspar, 500 Coração Eucarístico 30.535-610 Belo Horizonte, MG [email protected] RESUMO Este trabalho é referente à pesquisa bibliográfica e à proposição de experimentos para estudos de danos devidos à fadiga térmica, causada pelo fenômeno da estratificação térmica em tubulações horizontais. O fenômeno da estratificação térmica merece uma atenção especial por ser um fenômeno que aparece com freqüência em processos das indústrias nuclear e convencional, onde há escoamento de fluidos, geralmente em circuitos fechados, a baixas velocidades e a diferentes temperaturas. Quando uma tubulação é submetida ao escoamento termicamente estratificado, aparecem esforços não lineares tanto longitudinal quanto circunferencialmente e ciclagem térmica na interface entre as duas camadas de fluido. Nas centrais nucleares construídas até a década de 80, os cálculos das tubulações eram feitos considerando-se estes esforços como sendo lineares. Conseqüentemente, começaram a haver falhas em tubulações de algumas centrais nucleares, sendo a primeira delas em 1988 na central nuclear de Farley 2. Após este evento o NRC[5], publicou um boletim recomendando a avaliação e ações corretivas das tubulações sujeitas à estratificação térmica. Em uma central nuclear os principais locais com maior possibilidades de ocorrer a estratificação térmica são as pernas quentes e fria do circuito primário, a linha de surto do pressurizador, o circuito de remoção do calor residual e o bocal de injeção do gerador de vapor. Os estudos propostos, são referentes a um projeto de tese e, consistem em promover escoamentos termicamente estratificados em uma tubulação, analisar os danos causados em seu material, levantando as suas curvas S-N e a validação de um modelo numérico. 1. INTRODUÇÃO A estratificação térmica ocorre em tubulações horizontais quando dois fluidos escoam, em temperaturas diferentes e em baixas velocidades[3]. Este fenômeno é freqüente em centrais nucleares, centrais térmicas convencionais e em muitos processos industriais que utilizam fluidos com a mesma fase ou com fases diferentes. Durante a estratificação térmica ocorrem bruscas flutuações locais na temperatura do fluido, o que é nocivo ao material da tubulação. Este trabalho tratará do fenômeno da estratificação térmica monofásico, entre dois fluxos de água, sendo este o fenômeno mais freqüente nos processos industriais. Ao final da década de 80 as tubulações de algumas linhas de centrais nucleares apresentaram vazamentos devidos a trincas passantes na parede dos tubos, tanto no material base quanto nas soldas. Naquela época, descobriu-se que estas trincas eram devidas à fadiga causada pelas tensões que surgiam em decorrência das condições do escoamento estratificado presente nestas tubulações. O projeto das centrais nucleares construídas até aquela data não considerava os efeitos não lineares dos carregamentos impostos às tubulações. Os cálculos eram realizados considerando-se uma distribuição linear de temperaturas e de tensões tanto na seção transversal quanto na longitudinal. Neste trabalho optou-se por estudar os efeitos da fadiga, com origem no fenômeno de estratificação térmica, em um tubo simulador do bocal de entrada do gerador de vapor de uma central nuclear com reator a água pressurizada. Neste componente, em operações do reator a baixa potência, a água retorna para o gerador de vapor a uma temperatura entre 0 e 40oC e com baixa velocidade de escoamento, misturando-se à água do gerador de vapor que se encontra a 280oC e a uma pressão de 64bar, o que favorece a estratificação térmica. Para avaliar os efeitos da estratificação térmica no material do tubo, serão realizados testes de estratificação térmica, ensaios de fadiga com deformação constante em corpos de prova retirados do tubo ensaiado e em corpos de prova retirados de uma porção virgem deste tubo e o levantamento das curvas S-N do material. Comparando os resultados destes ensaios de fadiga será possível avaliar os efeitos da estratificação térmica no material do tubo e a influência deles na vida da tubulação. 2. ANÁLISE DO FENÔMENO Quando o fenômeno da estratificação térmica ocorre, a tubulação fica solicitada por tensões que surgem devido à diferença de temperatura entre as regiões superior e inferior de sua seção transversal. A região superior do tubo tende a se alongar e a inferior tende a conter este alongamento, o que faz aparecer tensões longitudinais no tubo. Assim, surgirão tensões axiais na tubulação, resultantes da tendência ao encurvamento do tubo no sentido longitudinal (efeito banana visto na Figura 1). Na interface de separação entre a camada fria e a camada quente do fluido, a seção transversal do tubo fica tracionada na parte inferior e comprimida na parte superior. Este fenômeno provoca o aparecimento de tensões circunferenciais que tendem a deformar a seção circular do tubo, como mostrado na Figura 2. Outro fenômeno que ocorre devido à estratificação térmica é uma flutuação significativa na temperatura local entre as camadas dos fluidos, denominado de ciclagem térmica, o qual pode causar fadiga térmica de alto ciclo e trincas nas imediações da superfície interna da parede do tubo. Deformação devida à diferença de temperatura Figura 1 Deformação Devida à Diferença de Temperatura na Seção Transversal INAC 2005, Santos, SP, Brazil. Tensões na Seção Figura 2 Tensões na Seção Transversal do Tubo Pela característica de operação de um reator a água pressurizada, a água dos circuitos primário e secundário percorre ciclos fechados, sofrendo variações de temperaturas em seu percurso, favorecendo o fenômeno de estratificação térmica, que pode ocorrer também na entrada em operação e nos desligamentos da central e em alterações de potência. Os locais com maior potencial para sofrer a estratificação térmica são a linha de surto do pressurizador, as linhas de refrigeração de emergência do núcleo, as linhas de remoção do calor residual, as linhas de pulverização do pressurizador e as linhas de carga (pernas quentes e frias). Dentre estas linhas, três são mais sensíveis ao fenômeno[2]: as pernas quente e fria do reator; a linha de surto do pressurizador e o bocal de injeção de água do circuito secundário no gerador de vapor. 2.1 O Modelo Utilizado e Simplificações A seção de testes para realizar os experimentos manterá a faixa de número de Froude para o escoamento do experimento entre 0,02 e 0,2. A faixa de número de Froude normalmente encontrada nas centrais nucleares tipo RAP (PWR) é de 0,02 a 0,2 e, uma análise preliminar da seção de testes, mostrou que é possível realizar experimentos com números de Froude nesta faixa. Com números de Froude nesta faixa, espera-se realizar experimentos com ampla faixa de mistura dos fluxos de fluidos e de gradientes de temperaturas. O circuito experimental, onde serão realizados os experimentos, não permite utilizar pressões acima de 23bar, o que reduz a temperatura máxima que a água pode trabalhar, enquanto que no bocal de injeção do gerador de vapor a pressão vai a 64bar. No experimento, a temperatura máxima de trabalho será de 210oC e no gerador de vapor a temperatura é de 280oC. As temperaturas são importantes na caracterização da estratificação térmica e serão medidas diametral e circunferencialmente em três pontos ao longo do comprimento horizontal do tubo, identificando a formação da estratificação térmica e a correlação desta com as deformações sofridas pelo tubo. A amplitude das oscilações da camada de separação será determinada por um conjunto de cinco termopares com espaçamento de 2mm entre eles. A freqüência das oscilações é estabelecida como sendo o inverso do tempo de variação da temperatura detectada pelos termopares, sem considerar o tempo de resposta dos mesmos. INAC 2005, Santos, SP, Brazil. As deformações impostas à tubulação pela estratificação térmica serão medidas por extensômetros Tipo Roseta, fixados na parede externa do tubo nas posições I, II, III, A e B, vistas na Figura 3. Os valores das deformações serão utilizados como parâmetros para realizar os ensaios de fadiga nos corpos de prova retirados do tubo ensaiado e do material preservado. O fluido utilizado nos experimentos será água, e em um reator RAP, a água utilizada contém ácido bórico, o que altera suas propriedades químicas e físicas, tornando-a mais corrosiva. 2.2 Fadiga Térmica Fadiga térmica é um modo de falha que origina danos e promove o crescimento destes em componentes estruturais. A origem dos danos está nas variações da energia interna dos componentes, causadas por múltiplos ciclos térmicos ou por oscilações de temperatura. Em conseqüência da fadiga térmica, um componente mecânico pode sofrer variações em sua geometria, o seu material pode sofrer variações de propriedades e trincas podem surgir. A fadiga térmica origina-se basicamente na ciclagem térmica ou em variações periódicas de temperaturas, combinadas com a contenção parcial ou total da expansão térmica do componente. A contenção da expansão térmica pode ser devida a fatores externos e internos. As contenções externas produzem esforços que atuam alternadamente no componente quando ele for aquecido e resfriado. Já as contenções internas podem resultar de gradientes de temperaturas, de anisotropia do material e de diferentes coeficientes de expansão de grãos ou de fases adjacentes do material. Uma definição possível para fadiga térmica pode ser: "Fadiga térmica é a deterioração gradual e eventual quebra de um material por aquecimentos e resfriamentos alternados durante os quais a expansão térmica é parcial ou totalmente restringida"[4]. Um componente submetido à fadiga térmica deve ser projetado para prevenir danos inaceitáveis e, para isto, o número de ciclos de fadiga esperado deve ser menor do que o número máximo de ciclos de fadiga determinado pelo código de projeto. Em uma central nuclear, devido a vários fenômenos térmicos, algumas de suas tubulações sofrem tensões térmicas, que têm suas origens na flutuação da interface entre as duas camadas de água a diferentes temperaturas. Nesta interface, dependendo das condições de escoamento, forma-se uma ondulação entre as duas camadas, causando a ciclagem térmica do material. 3. PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL A seção de testes constitui-se de um tubo em aço inoxidável Tipo AISI 304 na posição horizontal, com diâmetro externo de 141,3mm, parede de 9,5mm de espessura e comprimento de 2.000mm (Figura 3). As dimensões e geometrias da seção de testes foram projetadas para se estudar o fenômeno de estratificação térmica da maneira mais abrangente possível. Para medir as temperaturas de estratificação térmica do fluido e também as deformações da seção de testes, foram definidas posições de fixação de termopares e de extensômetros em seis posições de medição ao longo do comprimento horizontal da seção de testes, vistas na Figura 3. As seções I, II e III serão instrumentadas com termopares e com extensômetros. As seções A e B terão apenas extensômetros e na seção A serão montados dois termopares e um extensômetro. Os extensômetros serão fixados suficientemente afastados das perfurações da parede da seção de testes para que suas medidas não sofram interferência delas. INAC 2005, Santos, SP, Brazil. Figura 3 Esboço da Seção de Testes Para estudar a influência do fenômeno da estratificação térmica no material do tubo, foi estabelecido um conjunto de testes semelhante ao estabelecido para o estudo termo-hidráulico deste fenômeno (30 testes). A variação do número de Froude, na faixa de 0,02 a 0,2, será conseguida alterando-se a velocidade média de injeção da água fria, entre os valores de 0,0099 e 0,0989m/s e, pela variação da temperatura da água quente de 140oC a 219oC. Um maior número de experimentos serão realizados para baixos números de Froude, que propiciam uma estratificação térmica mais acentuada. Os experimentos serão realizados em sua maioria para números de Froude até 0,05. Durante os experimentos surgirão ondulações na interface dos fluidos com freqüência máxima de 1Hz[1] e amplitude máxima(em h=0,5D) de 5mm, para números de Froude de 0,02 a 0,2. As amplitudes serão medidas por um dispositivo contendo 5 termopares espaçados de 2mm, podendo a amplitude máxima, em função das vazões do experimento, ocorrer em posição diferente de h=0,5D, sendo maiores na região próxima à parede do tubo[1]. 4. RESULTADOS A SEREM OBTIDOS Os resultados experimentais permitirão traçar curvas do perfil de temperatura na parede do tubo, da distribuição de temperatura no fluido e das tensões e deformações na tubulação da seção de testes. A distribuição de temperatura no fluido, determinada pela estratificação térmica, tem relação direta com o perfil de temperatura na parede do tubo. Assim, as medidas da velocidade do fluxo de água injetada e da diferença de temperatura entre a água fria e a quente, serão de grande importância para os experimentos. As temperaturas da parede externa da seção de testes deverão ser correlacionadas com as deformações medidas. Para analisar as cargas térmicas induzidas na tubulação, serão necessários modelos de análise estrutural de tubulações sujeitas a estas condições de carregamento. A análise pode ser feita INAC 2005, Santos, SP, Brazil. utilizando-se métodos clássicos de engenharia ou métodos de elementos finitos. Na análise deve-se considerar a relação entre as propriedades do material e as cargas térmicas, tanto no regime transiente quanto no regime estacionário. Com estes valores deseja-se validar um procedimento numérico que auxiliará estudos futuros. A freqüência e a amplitude das oscilações da interface entre os fluidos frio e quente serão de grande importância para estudar a fadiga térmica. Uma maneira de determinar estes valores é variar a vazão de água fria injetada até a interface se situar na região dos termopares que irão medi-las. A freqüência das oscilações de temperatura será obtida diretamente da freqüência de oscilações das temperaturas nos termopares. A amplitude das oscilações será obtida pela distância entre o termopar mais baixo e o termopar mais alto que detectar as oscilações. Por outro lado, é importante determinar as condições para as quais a estratificação térmica deixa de existir, o que se dá quando não houver mais variação de temperatura na seção transversal do tubo da seção de testes. Após os experimentos termos-hidráulicos, corpos de provas do tubo da seção de testes e do material testemunho deste mesmo tubo serão retirados e submetidos a ensaios de fadiga com deformação constante. Os resultados dos ensaios de fadiga permitirão levantar as curvas S-N do material para estudos comparativos das características mecânicas do aço vigem e do aço submetido ao fenômeno de estratificação térmica. Conhecendo-se o nível de dano induzido no material do tubo, será possível estimar o tempo de vida de tubulações submetidas ao fenômeno da estratificação térmica. 5. CONCLUSÕES Neste trabalho é apresentada uma proposta de estudo para relacionar os efeitos da fadiga térmica, com origem no fenômeno da estratificação térmica, aos danos causados às tubulações. É buscada uma estimativa da vida de tubulações submetidas à estratificação térmica, baseando-se no nível de danos causados ao material da tubulação. A seção de testes proposta simulará os transientes que ocorrem no bocal de injeção do gerador de vapor. Curvas S-N do material serão levantadas para sua caracterização. Os resultados experimentais serão utilizados para validar um modelo numérico. 6. BIBLIOGRAFIA 1. Ensel, C., Colas, A. e Barthez, M. – Stress analysis of a 900 MW pressurizer surge line including stratification effects – Nuclear Engineering and Design, Vol. 153, 1995. 2. Jo, Jong Chull; Kim, Yun Il and Choi, Seok Ki – Numerical Analysis of Thermal Stratification in Circular Pipe – Journal of Pressure Vessel and Technology – Transactions of the ASME, Vol. 123 2001. 3. Liu, T. H. and Cranford, E. L. – An investigation of Thermal Stress Ranges Under Stratification Loadings – Journal of Pressure Vessel Technology – Transactions of the ASME. Vol. 113, May 1991. 4. Merola, Mario – Normative issues in thermal fatigue design of nuclear components – Nuclear Engineering and Design, Vol. 158, 1995. 5. NRC Bulletin No. 88-08: Thermal Stress in Piping Connected to Reactor Coolant Systems – July 22 1988 – Washington. INAC 2005, Santos, SP, Brazil.