Início Nº 4 | Janeiro 2008 Associação Sócios Publicações Agenda/Destaques E‐boletim da Associação Portuguesa de Antropologia www.apantropologia.net Já está disponível o 4º número do eboletim da APA, onde destacamos o dossier sobre a Antropologia em Portugal no contexto do Processo de Bolonha (por Miguel Vale de Almeida), e ainda uma homenagem a Jorge Dias, por ocasião dos 100 anos do seu nascimento (da autoria de Clara Saraiva). Ruy Blanes, responsável pelo eboletim da APA N ESTE N Ú MER O Notícias APA Recordação Dossier Actualidade NOTÍCIAS DA APA Oportunidades Acontecerá Publicações Aconteceu Publicação de notícias no eboletim A política de divulgação vigente na APA à seguinte: 1) o principal canal de divulgação é este boletim semestral, que inclui informação relativa às actividades da APA, notícias no âmbito do World Council of Anthropological Associations, notícias de actualidade antropológica, eventos e lançamentos editoriais (sempre relacionados com a antropologia portuguesa ou de interesse explícito para a mesma); 2) o boletim é editado no final de Junho e Dezembro de cada ano. Pedimos que os interessados em enviar material para divulgação tenham estas datas em conta, enviando a informação com a devida antecedência, de forma a que não se perca informação não enviada em tempo útil; NOTÍCIAS APA CARTA ABERTA AO MINISTRO: Gostaria de começar por chamar a atenção de todos os sócios para a primeira acção pública desta direcção: o envio de uma Carta Aberta ao Ministro da Ciência (com conhecimento ao Presidente da FCT), manifestando preocupações sérias com os critérios de avaliação da investigação científica que têm vindo a ser crescentemente aplicados com base nos parâmetros das ciências exactas. Chamo a vossa atenção para esta carta, à qual podem aceder através de um novo link criado no nosso site (ver abaixo: nova secção na página da APA). Neste mesmo link inserimos documentos que podem ser relevantes para a acção científica e profissional da antropologia em Portugal. Contamos com a vossa participação no envio de mais documentos que considerem relevantes para este dossier. CONGRESSO: Neste semestre, um dos trabalhos da Direcção da APA foi o de dar início à organização e programação do IV Congresso de Antropologia da APA. Procurámos num primeiro momento fazer o Congresso fora de Lisboa, para descentralizar um pouco a antropologia em Portugal. Estamos preocupados com o facto de ao nível do ensino a antropologia estar cada vez mais circunscrita a Lisboa. Não tendo conseguido esta descentralização através do local do Congresso, estamos certos que o conseguiremos fazêlo por outros meios que oportunamente anunciaremos. Acordámos a data do Congresso (ver secção abaixo) tendo em conta decisão já anterior de o fazer fora do período lectivo e em ano alternado com os congressos bianuais das associações europeia e brasileira. Neste congresso da APA teremos simpósios organizados em torno do diálogo entre antropólogos portugueses, de outros países da Europa, de África e/ou Brasil – considerando o seu interesse na antropologia feita em Portugal. Já fizemos vários contactos no sentido de viabilizar esta dinâmica internacional. Na última reunião da direcção da APA (18 de Janeiro de 2008) aprovámos a constituição de uma comissão fundamental para dar início à organização do congresso. Considerámos que, à semelhança do que tem sido praticado em congressos anteriores, a “Comissão de Programa” deveria ser assumida por um grupo da direcção. Assim, esta comissão será presidida pela Presidente da APA, e terá como membros da direcção: João de PinaCabral, Jean Yves Durand e Ruy Blanes. Convidámos ainda um membro de fora da direcção, a Catarina Fróis (CRIA), para reforçar a presença da geração mais jovem de recémdoutorados no planeamento científico do Congresso. Os restantes grupos de trabalho do Congresso serão constituídos nos próximos meses e anunciados no próximo eboletim. TEXTOS EBOLETIM: Neste eboletim chamo a atenção para o texto da Clara Saraiva sobre o Jorge Dias, tendo em conta as comemorações ocorridas em 2007, e o do Miguel Vale de Almeida sobre Bolonha em Portugal. ACTAS CONGRESSO ANTERIOR: Neste período procedemos a pequenas correcções das Actas do III Congresso que agora se encontram na sua versão final online. Vamos agora enviar gratuitamente um CD ROM com as Actas aos autores, mediante a actualização das quotas. (Susana de Matos Viegas, Presidente da Direcção da APA) 3) serão divulgadas através da mailing list informações de caracter urgente e pontual. Reiteramos o nosso apelo para as vossas contribuições, que podem enviar para divulgacao @apantropologia.net (Ruy Blanes, responsável pelo eboletim da APA) NOVA SECÇÃO NA PÁGINA DA APA No âmbito da tomada de posição pública da APA perante as recentes políticas governamentais com incidência no ensino e investigação em antropologia, a APA decidiu criar uma secção especial no site para a divulgação de documentação pertinente relativa ao estatuto do antropólogo e da antropologia em Portugal. Pode acceder à secção aqui. PROJECTOS DA APA PERFIL DO ANTROPÓLOGO – O FUTURO: Este projecto, que assumi coordenar, terá uma primeira reunião para a formação de equipes de trabalho em Março de 2008. Pretendo que as equipes sejam alargadas e diversificadas geracionalmente. Desde já incentivo os sócios que estejam motivados para colaborar, a me contactarem pelo email [email protected]. As equipes irão fazer entrevistas aos sócios da APA, algumas por email, sobre a sua formação, integração no mercado de trabalho, acção social, política e científica. Desde já peço também a colaboração de todos os sócios para resposta a essas entrevistas. PERFIL DO ANTROPÓLOGO – INTEGRAÇÃO EM PROJECTO EUROPEU: Durante o segundo semestre do ano de 2007 fizemos importantes avanços na implementação do projecto de levantamento do perfil do antropólogo em Portugal. Fomos convidados a participar numa rede europeia que está interessada em fazer este mesmo tipo de estudo. O Ruy Blanes representoume numa reunião para a qual fui convidada na qualidade de presidente da APA, que se realizou em Paris em Outubro de 2007, promovida pelo Andrés Barrera e a Martine Segalen e financiada pela Wenner Gren Foundation. Nesta reunião a APA apresentou um sumário da situação da antropologia em Portugal e do projecto Perfil do Antropólogo que foi muito bem acolhido. Está já agendado novo encontro deste projecto europeu para Setembro de 2008 em Madrid. (Susana de Matos Viegas, Presidente da Direcção da APA) IV CONGRESSO DE ANTROPOLOGIA DA APA É com enorme prazer que anunciamos que já foi tomada uma decisão sobre o local e a data de realização do IV Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia. O Congresso terá lugar em Lisboa, nos dias 10, 11 e 12 de Setembro do ano de 2009 – ano em que a APA comemora o seu 20º aniversário. No próximo eboletim avançaremos já com informações mais concretas e detalhadas. ALTERAÇÕES NA POLÍTICA DE DIVULGAÇÃO DA APA Depois de um primeiro ano experimental com a publicação deste eboletim, estamos agora com um modelo mais consolidado que terá uma periodicidade semestral, de forma a melhor se adequar ao ritmo anual de eventos, investigação e ensino da antropologia em Portugal. Assim, o eboletim será publicado na primeira quinzena de Fevereiro e na primeira quinzena de Julho de cada ano. Não se esqueçam de nos enviarem informações, nomeadamente sobre cursos/eventos a realizar entre Julho de 2008 e Dezembro de 2008 e de livros publicado entre Janeiro de 2008 e Junho de 2008. NOVOS CONTACTOS De forma a poder facilitar o contacto e interacção entre a direcção, o secretariado e os sócios, a APA criou emails específicos para responder às diversas solicitações: Divulgação: [email protected] Sócios: [email protected] Presidência: [email protected] NOVOS SÓCIOS A APA saúda publicamente a admissão dos novos sócios: Ana Isabel Falé Barradas (nº 645); Tiago Silveiro de Oliveira (nº 646); Ana Rita Rodrigues (nº 647); Tania Teixeira Laky de Sousa (nº 648); Marta Isabel Figueiredo Pinto Reis (nº 649); Sofia Margarida da Cruz Campos Lopes (nº 650); Susana Paula Fortes Rodrigues (nº 651); Lidia Isabel Valério Nunes (nº 652); Naomi Leite (nº 653); Ana Cristina Gil Espanhol Costa (nº 654); Maria Justina Martins Silvano (nº 655); Francisca Maria Marcelino Sargaço (nº 656); Luis Miguel Vale Fernandes Vale (nº 657); Manishanker Fernandes Bhatt (nº 658); Patrícia Alexandra Amarelo Domingues (nº 659); Fernando Manuel de Oliveira Vaquer de Pinho (nº 660); Luís Miguel Paulino Poupinha (nº 661); Cláudia Maria Novais Toriz da Silva (nº 662). RECORDAÇÃO ANTÓNIO JORGE DIAS (19071973): RECORDAÇÃO DE UM MESTRE DA ANTROPOLOGIA PORTUGUESA Clara Saraiva IICT Departamento de Antropologia, FCSHUNL António Jorge Dias é considerado uma das figuras mais relevantes na moderna antropologia portuguesa. Doutorado em Antropologia pela Universidade de Munique com a tese sobre Vilarinho da Furna, posteriormente editada em Portugal (1948), Jorge Dias consegue reunir em torno de si uma equipa que marcou definitivamente o rumo da disciplina, com a sua mulher, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Enes Pereira. Influenciado fundamentalmente por duas correntes teóricas, o difusionismo alemão e o culturalismo americano, as suas publicações abrangem um vasto leque de interesses; com ele os estudos etnográficos em Portugal passam a contemplar três grandes vertentes, por ele iniciadas, em que o trabalho de campo adquire um papel fundamental. A primeira prendese com as monografias de Jorge Dias sobre comunidades de montanha, como o caso de Vilarinho e de Rio de Onor (uma das suas monografias mais conhecidas Rio de Onor. Comunitarismo agropastoril), a reflexão sobre o “comunitarismo agropastoril”e as reminiscências de organizações colectivas e igualitárias no norte de Portugal. A segunda diz respeito ao aspecto mais desenvolvido por essa mesma equipa, a pesquisa sobre as tecnologias tradicionais portuguesas; Dias escreveu um texto clássico sobre os arados, e, em conjunto com Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, monografias sobre aparelhos de elevar água de rega, sistemas tradicionais de moagem e espigueiros. Salientase que estes estudos sobre as materialidades dos objectos se baseavam sempre na compreensão do que era o seu uso no quotidiano, resultando daí etnografias apuradas sobre as vivências e modos de estar das pessoas que os manipulavam. É no entrecruzar da forte influência da geografia humana de Orlando Ribeiro com a metodologia da “extensive survey” e a vontade de dar um retrato tão exaustivo quanto possível do país e da sua riqueza cultural, espelhada na diversidade da cultura material, que surgem trabalhos como o Atlas Etnológico de Portugal, em que, sob a direcção de Jorge Dias e de Fernando Galhano, se procedeu ao levantamento sistemático e passagem para carta etnológica de uma série de artefactos e equipamentos agrícolas, como os espigueiros e os tipos de arados. A terceira vertente relacionouse com a preocupação em caracterizar a cultura portuguesa, e inserese no que João Leal denomina a “antropologia da construção da nação”; dela resultaram textos de referência, como “os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa” ,em que Jorge Dias caracteriza a personalidade e o ethos do povo português, ou “”Tentâmen de Fixação das Grandes Áreas Culturais Portuguesas”, em que, seguindo a divisão tripartida de Orlando Ribeiro, J.Dias caracteriza social e culturalmente as três zonas, Portugal Atlântico, Transmontano e o Sul. Foi também graças ao seu trabalho que a antropologia portuguesa se tornou conhecida fora do país. Para além da sua colaboração com estudiosos brasileiros, como Gilberto Freyre, Jorge Dias contactou com vários colegas na Europa e América, foi visiting scholar nas Universidades de Witwatersand (África do Sul) e Standford (Califórnia, EUA). A sua colaboração em instituições internacionais ligadas à investigação e divulgação da antropologia foi também notória, tendo sido, entre 1954 e 1956, Secretáriogeral da Comissão Internacional de Artes e tradições Populares (CIAP), e membro do conselho de administração da mesma, em 1964, quando esta instituição mudou a sua designação para Société Internationale d´Ethnologie et Folklore (SIEF). Pertenceu ainda ao grupo fundador da revista Ethnologia Europae. A sua projecção internacional está bem patente nos mais de cinquenta antropólogos estrangeiros que colaboraram no livro de homenagem que os seus companheiros (Ernesto V. Oliveira, Benjamim Pereira, Fernando Galhano e Margot Dias) compilaram após a sua morte (In Memoriam António Jorge Dias, 1974, 3 vols.). O trabalho de Jorge Dias dirigiuse ainda à institucionalização da disciplina antropológica, quer ao nível da investigação etnográfica e museológica, quer no respeitante à divulgação e ensino da disciplina no meio universitário. Deste modo, Jorge Dias foi docente de várias cadeiras de âmbito antropológico na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e no antigo Instituto Superior de Ciências Políticas Ultramarinas (agora denominado ISCP), onde começou o primeiro curso universitário português de antropologia. No que diz respeito à investigação, Jorge Dias criou unidades destinadas exclusivamente à investigação, como o Centro de Estudos de Etnologia (CEE) e o Centro de Estudos de Antropologia Cultural (CEAC). O primeiro destinavase primordialmente ao estudo da etnologia no território nacional, enquanto que o segundo (cuja denominação foi posteriormente mudada para Centro de Antropologia Cultural e Social e que se manteve até à sua extinção em 2004) se dirigia ao estudo das culturas extra europeias. Do trabalho efectuado no âmbito destes centros de estudo surgiu, em 1965, o projecto do Museu de Etnologia como um museu universalista, que incluiria acervos de todas as culturas, portuguesa, europeias e extraeuropeias. Foi nesse sentido também que criou as Missões da Minorias Étnicas do Ultramar, no âmbito das quais realizou a pesquisa entre os Macondes de Moçambique. A morte prematura de Jorge Dias, em 1973, não lhe permitiu ver esse seu sonho de conseguir abrir um museu universal cumprido, e foi a sua equipa, encimada por Ernesto Veiga de Oliveira, que levou a bom porto aquela que foi, durante décadas, uma instituição de referência na antropologia e museologia portuguesa. Clara Saraiva topo DOSSIER ANTROPOLOGIA EM PORTUGAL TEMPOS INTERESSANTES (À BOLONHESA) Miguel Vale de Almeida Departamento de Antropologia, ISCTE CEAS, CRIA Antes de Bolonha Pertenço, como muitos colegas na mesma faixa etária, a uma geração privilegiada. A refundação do ensino da antropologia em Portugal no fim da década de 70 e inícios da de 80, junto com o crescimento, democratização e massificação do ensino superior (relativos, é certo, mas significativos por comparação com a época da ditadura) permitiramnos um percurso relativamente tranquilo de profissionalização académica. Por um lado usufruímos de um ensino da antropologia ainda muito especializado e clássico e, por outro, fomos recrutados para preencher os lugares de ensino nos departamentos em crescimento. Para a maior parte da minha geração a formação avançada do doutoramento foi feita já enquanto profissionais da antropologia, sem excessiva ansiedade relativamente ao emprego futuro. E durante alguns anos os melhores alunos formados nas licenciaturas de 4 anos com pequenas turmas encontravam emprego especializado no sistema universitário em crescimento. Este mundo acabou. Para o bem e para o mal. Os sinais de alarme soaram nos anos 90. Se, por um lado, as instituições estavam a formar cada vez mais diplomados em Antropologia – sobretudo licenciados, existindo graves lacunas no ensino pósgraduado – por outro haviam praticamente deixado de recrutar docentes, devido a políticas de restrição orçamental. A consequência mais imediata foi a criação de uma “elite antropológica”, envelhecendo nos departamentos, e de uma massa de licenciados desempregados ou empregados em áreas distantes da antropologia. O primeiro grupo tem demonstrado uma dualidade algo tensa: se por um lado desenvolveu produção de qualidade com reconhecimento internacional, por outro está há demasiado tempo fechado em departamentos sem renovação. O segundo grupo confrontouse com as dificuldades do desemprego e não soube ou não conseguiu criar (tãopouco foi apoiado pela “elite”), uma agenda de publicitação da antropologia como área de aplicação não necessariamente académica. A transformação mais positiva dos anos 90 terá sido a que resultou da política de investigação científica, em grande medida autónoma do sistema universitário, que permitiu o surgimento de uma geração de doutorandos empenhados em projectos de investigação, embora se comecem a sentir sinais de “encarniçamento escolar” (o prolongamento da situação de bolseiro e contratos temporários de investigação). O medo de Bolonha No início do século XXI surge o espectro de Bolonha. Vejo a Reforma não só enquanto tal mas também enquanto metáfora das transformações sociais, económicas e culturais contemporâneas aplicadas ao sistema universitário e científico. Como em muitas outras áreas (o estado social, por exemplo) Portugal entrou na era “neoliberal” numa situação ambígua. Por um lado, havia uma necessidade premente de reforma de um sistema universitário com traços pré modernos, fortemente hierárquico, paternalista, patriarcal e classista; mas esta sensação colidia com outra, que corria em paralelo: a de que a recente e relativa democratização da universidade pós25 de Abril estava ameaçada pelas tendências gerais no sentido da privatização e da mercantilização – algo visto como ainda mais ameaçador para as ciências sociais e as humanidades (e dentro das ciências sociais para a antropologia, perdedora para uma sociologia largamente empenhada na contratuação com as empresas e o estado). Quando Bolonha foi anunciada a esquerda política, o sindicalismo e o que restava do movimento estudantil denunciaram a reforma como uma estratégia mais para a produção em massa de estudantes subqualificados, que se veriam obrigados a frequentar o 2º ciclo para obterem creditação no mercado académico e de trabalho. E esta formação póslicenciatura teria que ser paga – e a preços de mercado. A oportunidade de Bolonha Algumas pessoas que tinham boas razões para sentir este receio (entre as quais me incluo) pensaram, porém, que Bolonha poderia também constituir uma oportunidade. Para quê? Para a mudança (que tantas vezes entre nós tem que vir “de cima”, i.e. de Bruxelas): para mudar velhos curricula e modos de ensino; para estimular a mobilidade internacional dos estudantes; para permitir formações mais interdisciplinares e flexíveis; para rotinizar o ensino pósgraduado, largamente deficitário. A lógica do mercado – que alardeava a necessidade do ensino contínuo como resposta à flexibilidade e acelerada mutação das profissões – poderia, afinal, servir para abolir o velho “modo de produção”; poderia levarnos de uma universidade “feudal” para uma universidade “burguesa”, por assim dizer... No departamento a que pertenço gerouse inclusive um entusiasmo inaudito – para quem vivia já num envelhecimento "incestuoso" propiciador de uma relativa apatia. Talvez influenciados pela familiaridade com os sistemas norteamericano, britânico e brasileiro (que promovem licenciaturas inter e transdisciplinares, que apostam na especialização disciplinar na formação pósgraduada e que gozam de comunidades antropológicas pujantes) aproveitámos a Reforma para construir uma licenciatura nova, estruturada em 5 pilares ou fileiras com vários níveis cada e leccionáveis por todos os docentes: teoria antropológica, análise antropológica, etnografia, metodologia e ciências sociais; alargámos o leque de cadeiras optativas e de cadeiras noutras áreas científicas; oferecemos cursos de 2º ciclo ainda com custo semelhante ao da licenciatura; estabelecemos planos para articulação entre o trabalho pósgraduado dos alunos e os projectos de investigação dos centros; e estamos agora a implementar um programa doutoral que substituirá o velho sistema do doutoramento meramente tutorial. A ressaca de Bolonha Acabámos agora o primeiro ano “de Bolonha”. Espero estar errado, mas há uma sensação de desilusão no ar. Fomos confrontados com o facto de muitos departamentos e faculdades terem entendido Bolonha como mera imposição administrativa a ser aplicada com o mínimo de esforço. Casos há de cursos que simplesmente redistribuiram as cadeiras das antigas licenciaturas de 5 ou 4 anos por “novas” licenciaturas de 3 anos. As administrações universitárias não conseguiram ou não quiseram adaptarse a novas filosofias de trabalho. Por exemplo, a nossa intenção de deixar os estudantes construirem os seus curricula livremente, aproveitando ao máximo o sistema de ECTS, foi boicotado por resistências burocráticas que mantiveram a “lógica” das turmas e dos anos. Todos os projectos de interdisciplinaridade foram gorados pela “lógica” da protecção dos interesses departamentais. Mais grave ainda, foi o facto de a reforma de Bolonha não ter sido acompanhada por uma reforma do ECDU: mantendose as restrições orçamentais, o critério dos rácios docentediscentes e a competição por recursos entre os departamentos, Bolonha foi “congelada” numa mera adaptação formalista. Esta tendência confirmase agora: antes mesmo da reforma do ECDU, que já deveria ter sido feita antes de Bolonha, surge sim o novo Regime Jurídico do ensino superior – bastante preocupante para a sobrevivência das formas democráticas de gestão. Tudo indica que a retórica da “modernização”, tão utilizada pelo poder político em Portugal, diz mais respeito a umas coisas do que a outras – pelo menos a julgar pela vitória da vertente neoliberalizadora e antidemocrática nestes tempos de Reforma. Que fazer? Corremos sérios riscos de virmos a ter que dizer que se perdeu uma oportunidade. Em primeiro lugar, com Bolonha deveríamos ter permitido ou incentivado a criação de Licenciaturas em Ciências Sociais, no espírito de uma formação académica mais aberta, abrangente e menos fechada em disciplinas, complementada por pósgraduações de especialização disciplinar ou temática. Em segundo lugar, deveríamos ter permitido uma verdadeira liberdade de escolha e construção curricular pelos alunos, produzindo não apenas licenciados em Antropologia mas uma variedade maior e mais personalizada de formações. Talvez o tivessemos conseguido – e aqui o “nós” é a universidade portuguesa em geral – se tivessemos olhado mais para o outro lado do Atlântico, nomeadamente para o Brasil, e não somente para Bruxelas... Duas situações permanecem em aberto com potencial positivo. Por um lado a possibilidade de construção de programas de ensino e formação em rede com universidades estrangeiras; e, no plano da política científica, a possibilidade de entrosamento entre os centros de investigação – com os seus projectos, investigadores e pósdoutorados – com a academia e o ensino, renovando o pessoal dos departamentos e contornando assim (ainda que de forma precária) o envelhecimento destes. A antropologia portuguesa já começou a dar um importante passo, ao nível da investigação, com a enorme inovação que foi a formação do CRIA. Talvez em breve possamos transportar essa dinâmica para a academia e criar cursos de 2º e 3º ciclo organizados por vários departamentos, nacionais e estrangeiros. Por fim, a actual renovação da APA poderá tornar a antropologia visível, mais forte no universo académico e científico, e aumentar a percepção da sua utilidade social. Como membro da geração privilegiada, e profissional há 21 anos, creio ter uma responsabilidade acrescida para falar sobre os “tempos interessantes” – de crise e oportunidade – que atravessamos. O meu maior desejo é que do lado dinâmico e inovador da Reforma de Bolonha – que, como disse, pode ser vista como metáfora das transformações que atravessam os sistemas universitário e científico – ainda se salve alguma coisa. Caso contrário, restarnosá assistir ao triunfo do seu lado mercantil e neoliberal – aculturado, é claro, às resistências bem portuguesas do privilégio, da passividade e da burocracia. Miguel Vale de Almeida topo ACTUALIDADE CRIA: CENTRO EM REDE DE INVESTIGAÇÃO EM ANTROPOLOGIA Está em processo de criação o primeiro centro em rede de investigação em antropologia em Portugal: o CRIA Centro em Rede de Investigação em Antropologia. O Centro associa vários centros de investigação existentes: CEAS, CEMME, CEEP/FCSHUNL, NEA/UM e ETNA/FCSHUNL. A direcção do CRIA é composta por Antónia Pedroso de Lima (ISCTE), João Leal (FCSHUNL), José Gabriel Pereira Bastos (FCSHUNL), Manuela Ivone Cunha (U. Minho), Nuno Porto (U. Coimbra), Paula Godinho (FCSHUNL) ePaulo Raposo (ISCTE). Mais informação no site do centro. GÖTTINGEN INTERNATIONAL ETHNOGRAPHIC FILM FESTIVAL O 9º Festival Internacional de Filme Etnográfico de Göttingen (Alemanha) terá lugar entre os dias 30 de Abril e 4 de Maio de 2008. Mais informações no site do festival. KULA KURSOS, LIVRES, ANTROPOLOGIA Por iniciativa do antropólogo Miguel Vale de Almeida, em associação com o CEAS/CRIA, foi criado o Kula, uma plataforma na internet para desenvolvimento de cursos livres em antropologia. A plataforma, recém criada, já conta com uma primeira proposta. Para mais informação e declaração de intenções, ver aqui. EASA 2008 LJUBLJANA, ESLOVÉNIA Está prestes a abrir o call for papers para o 10th EASA Biennial Conference: Experiencing Diversity and Mutuality, que terá lugar entre os dias 26 e 30 de Agosto de 2008 na cidade de Ljubljana, Eslovénia. A lista de workshops estará disponível a qualquer momento. Recordamos que o processo de submissão de propostas é feito online no site do congresso. EASA NETWORK: MAINSTREAM AMERICAN CULTURE A EASA também anunciou o desenvolvimento de mais uma rede de antropólogos no seu seio, a juntar às já existentes [ Africanist; Anthropology of Religion; Contemporary study of Muslims and Societies; Ethics; Europeanist; Media Anthropology; Medical Anthropology; Mediterraneanist (MEdNeT); Peaces and conflict studies in anthropology (PACSA); Teaching Anthropology; Visual Anthropology (VANEASA)]: a Mainstream American Culture Network (MACNet). Podem consultar o call aqui. Podem também consultar informações sobre as restantes redes da EASA no site da associação. ANNUAL MEETING: AMERICAN ANTHROPOLOGICAL ASSOCIATION O próximo encontro anual da American Anthropological Association (AAA) terá lugar em São Francisco, Califórnia, entre 19 e 23 de Novembro de 2008. Mais informação proximamente no site da AAA. REUNIÃO BRASILEIRA DE ANTROPOLOGIA Também a Associação Brasileira de Antropologia terá o seu encontro anual. Desta vez, terá lugar em Porto Seguro (BA), entre 1 e 4 de Junho de 2008. Mais informação aqui. REVISTA ETNOGRÁFICA A revista Etnográfica foi classificada com o nível "A", categoria "Internacional" na área de Antropologia/Arqueologia pela Qualis sistema de classificação de periódicos elaborada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Ministério de Educação, Brasil), numa escala de A a C e distinguindo entre o âmbito de circulação Local (L), Nacional (N) e Internacional (I). Esta classificação com a nota máxima é mais um reconhecimento à escala internacional do trabalho feito pela revista nos últimos anos, juntandose à classificação de "B" (numa escala de A a C para as revista elegíveis) no European Reference Index for the Humanities, da European Science Foundation. CFP: NÉORITUALISATIONS ET CONSTRUCTION DES IDENTIFICATIONS COLLECTIVES O CERCE (Centre d’Etudes et de Recherches Comparatives en Ethnologie), de Montpellier, lançou um apelo para comunicações para o evento NeoRitualisations et Constructions des Identifications Collectives, que terá lugar naquela cidade nos dias 2 e 3 de Outubro de 2008. O call for papers pode ser consultado no site do centro. (CON)TEXTOS REVISTA ONLINE Um grupo de doutorandos e doutorandas em Antropologia Social e Cultural da Universidade de Barcelona criou a (con)textos, uma revista electrónica que procura dar a conhecer trabalhos de investigação pós graduados no âmbito da antropologia social e cultural. Neste sentido, lançaram um call for papers para o envio de artigos, recensões e notas etnográficas para compor o primeiro número. A data limite para recepção de propostas é o dia 11 de Fevereiro de 2008. Mais informações no blog contextosantropologia.blogspot.com topo OPORTUNIDADES BOURSE EUGÈNE FLEISCHMANN A Société d'Ethnologie francesa anunciou mais um concurso para atribuição da Bolsa Eugène Fleischmann. O prazo para candidaturas encerra no dia 29 de Fevereiro. Mais informações, condições d eacesso e formulário de candidatura no site da SE. WENNERGRENN A WennerGrenn Foundation anunciou mais um programa de financiamento para investigação em antropologia, e nomeadamente para o desenvolvimento académico de departamentos de antropologia. O primeiro prazo para candidatura preliminar termina no dia 1 de Fevereiro de 2008. Mais informações no site da EASA e no site da WennerGrenn. topo plano de estudosgrupo de investigadores ACONTECERÁ CEAS: SEMINÁRIOS DE ANTROPOLOGIA. O CEAS/CRIA divulgou o calendário dos seus seminários de antropologia para o primeiro semestre de 2008. Os seminários decorrerão no ISCTE, em sala ainda a confirmar. Mais informação proximamente no site do CEAS. SextaFeira, 1 de Fevereiro 2008, 11h CATARINA FROIS (ICS) A Sociedade Anónima. Identidade, Transformação e Anonimato nas associações de 12 Passos SextaFeira, 15 de Fevereiro 2008, 11h JULIANA JABOR (Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro) Blogs e configurações subjectivas contemporâneas SextaFeira, 14 de Março 2008, 11h LORENZO BORDONARO (CEAS) Crianças, adolescentes, criminais. As políticas públicas sobre menores ‘em risco’ em Cabo Verde entre protecção e criminalização SextaFeira, 28 de Março 2008, 11h MÓNICA SAAVEDRA (ICS) A malária na vida quotidiana – o mundo rural SextaFeira, 4 de Abril 2008, 11h ELSA LECHNER (CEAS) Título a anunciar QuintaFeira, 8 de Maio 2008, 11h MARIA EUGÉNIA SUAREZ DE GARAY (Universidad de Guadalajara; Centro de Estudios de Género) Rostros del desorden I: usos de la violencia en el mundo policial delictivo mexicano. SextaFeira, 23 de Maio 2008, 11h JOSÉ MAPRIL (CEAS) A 'Modernidade' do Sacrificio: qurbani, espaço e circuitos transnacionais entre bangladeshis em Lisboa SextaFeira, 6 de Junho 2008, 11h CHIARA PUSSETTI (CEAS) O canto do coração queimado. Da ‘vivência emocional’ ao ‘transtorno emocional’ . SEMINÁRIOS DE ANTROPOLOGIA ICSUL O ICSUL também tem em agenda o seu ciclo de seminários para o primeiro semestre de 2008: Susana Pereira Bastos Título a anunciar 8 de Fevereiro de 2008 Sala Polivalente Filipe Reis Título a anunciar 7 de Março de 2008 Sala Polivalente Harry West Local food in a global marketplace: artisan cheese and the 'heritage foods' niche 11 de Abril de 2008 Sala Polivalente Luiz Fernando Dias Duarte Família, reprodução e ethos religioso: subjetivismo e naturalismo como valores estruturantes 16 de Maio de 2008 Sala Polivalente Gísli Pálsson Biosociality 18 de Junho de 2008 Sala Polivalente Alberto López Bargados Los (d)efectos del texto: Islam y prácticas rituales de sacrificio en Catalunya 11 de Julho de 2008 Sala Polivalente Mais informações no site do ICS. ISCSP: SEMINÁRIO DE ANTROPOLOGIA CULTURAL O Departamento de Antropologia do ISCSP está a organizar um ciclo de Seminários de Antropologia Cultural. As primeiras sessões previstas são: 20080110 A formação histórica da identidade nacional portuguesa numa perspectiva comparada José Manuel Sobral 20080310 Da noção de limite na antropologia à antropologia dos limites: teoria e prática etnográfica em zonas intersticiais. Fátima Amante 20080327 A fronteira como «património»: representações da raia entre TrásosMontes e a Galiza. Paula Godinho Mais informação no site do ISCSP. topo PUBLICAÇÕES LEARNING RELIGION: ANTHROPOLOGICAL APPROACHES David Berliner (Université Libre de Bruxelles) e Ramon Sarró (ICSUL), editores, 2007, Learning Religion: Anthropological Approaches. Oxford: Berghahn Books. TERRA CALADA: OS TUPINAMBÁ NA MATA ATLÂNTICA DO SUL DA BAHÍA Susana Matos Viegas (ICSUL), 2007, Terra Calada: os Tupinambá na Mata Atlântica do Sul da Bahía. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras. ETNOGRÁFICA 11 (2), NOVEMBRO DE 2007 Editada pelo CEAS/CRIA. Destaques: dossier sobre "Museus Locais"; Entrevista com Catherine Lutz. ARQUIVOS DA MEMÓRIA Nº 2 (NOVA SÉRIE) Editada pelo CEEP Centro de Estudos de Etnologia Peninsular. Artigos disponíveis no site do CEEP. NOMES:GÉNERO, ETNICIDADE E FAMÍLIA João Pina Cabral (ICSUL) e Susana Matos Viegas (ICSUL), coordenadores, 2007, Nomes: Género, Etnicidade e Família. Coimbra: Almedina. TRÂNSITOS COLONIAIS: DIÁLOGOS CRÍTICOS LUSOBRASILEIROS Miguel Vale de Almeida (ISCTE, CEAS) , Bela FeldmanBianco e Cristiana Bastos (ICSUL), coordenadores, 2007, Trânsitos Coloniais: Diálogos Críticos LusoBrasileiros . Campinas: Unicamp [2002, Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais]. ANTROPOLOGIA PORTUGUESA 22/3 Editada pelo Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra. ATTITUDES TOWARD SEXUAL ABUSE AND EXPLOITATION IN EMERGENCY SITUATIONS José Pimentel Teixeira (Universidade Eduardo Mondlane), 2007, Attitudes Toward Sexual Abuse and Exploitation in Emergency Situations . Maputo: Save the Children. 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SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO Donizete Rodrigues (UBI), 2007, Sociologia da Religião: uma introdução. Porto: Afrontamento. topo ACONTECEU Para informação sobre eventos passados na área da antropologia em Portugal e para consultar números anteriores deste eboletim, consulte a nossa página web, secção de notícias. topo © 2007 Associação Portuguesa de Antropologia