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UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
CURSO DE ODONTOLOGIA
DÉBORA HENRICH
JORACI TEIXEIRA DA SILVA
LESÕES DE GLÂNDULAS SALIVARES NÃO-NEOPLÁSICAS:
ANÁLISE DOS CASOS AVALIADOS PELO SERVIÇO DE
DIAGNÓSTICO HISTOPATOLÓGICO DE LESÕES BUCAIS DA
UNIVALI
Itajaí (SC) 2009
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DÉBORA HENRICH
JORACI TEIXEIRA DA SILVA
LESÕES DE GLÂNDULAS SALIVARES NÃO-NEOPLÁSICAS:
ANÁLISE DOS CASOS AVALIADOS PELO SERVIÇO DE
DIAGNÓSTICO HISTOPATOLÓGICO DE LESÕES BUCAIS DA
UNIVALI
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado como requisito parcial para
obtenção do título de Cirurgião-Dentista no
Curso de Odontologia da Universidade do
Vale do Itajaí.
Orientador: Christine Kalvelage Philippi
Itajaí (SC) 2009
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LESÕES DE GLÂNDULAS SALIVARES NÃO- NEOPLÁSICAS: ANÁLISE DOS CASOS
AVALIADOS PELO SERVIÇO DE DIAGNÓSTICO HISTOPATOLÓGICO DE LESÕES
BUCAIS DA UNIVALI
Débora HENRICH e Joraci Teixeira da SILVA
Orientador: Christine K. PHILIPPI
Data de defesa: setembro de 2009
Resumo:
Os diversos grupos das doenças das glândulas salivares não-neoplásicas põem à
prova as habilidades de diagnóstico e terapêutica do clínico porque as diferentes
etiologias (reativa, metabólica, imunológica, infecciosa e iatrogênica) podem produzir
quadros clínicos ou sintomas semelhantes. O objetivo desta pesquisa, do tipo descritivo
transversal, foi analisar a prevalência destas lesões de glândulas salivares
diagnosticadas no Serviço de Diagnóstico Histopatológico de Lesões Bucais da UNIVALI,
mediante análise dos arquivos e laudos histopatológicos, do período de agosto de 2002 a
dezembro de 2008. De um total de 459 laudos emitidos, 6,75% eram de lesões de
glândula salivar. Deste total, 29 eram de mucoceles (94%), 1 de sialolitíase (3%) e 1 de
hiperplasia adenomatóide de glândulas salivares menores (3%). O gênero feminino foi o
mais afetado nos casos de mucoceles. Em relação à faixa etária, o mucocele teve maior
prevalência (48,38%) entre a 2ª e 3ª décadas de vida. O lábio inferior foi a região mais
afetada. Pacientes da raça branca foram os mais prevalentes. Conclui-se que a
freqüência e as características encontradas neste estudo são concordantes com a
literatura.
Palavras-chave: epidemiologia, glândulas salivares, levantamento, lesões, patologia,
prevalência.
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................08
2 REVISÃO DE LITERATURA...............................................................................10
3 MATERIAIS E MÉTODOS..................................................................................26
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO..........................................................................27
5 CONCLUSÃO.....................................................................................................30
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................31
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1 INTRODUÇÃO
As glândulas salivares apresentam-se em dois grupos; são três pares de
glândulas salivares maiores (parótidas, submandibulares e sublinguais) e
glândulas salivares menores. Estas glândulas podem ser acometidas por lesões,
tanto neoplásicas como não-neoplásicas. Muito embora a freqüência destas
lesões possa ser considerada baixa, geralmente, oscilam entre 0,5 a 5%
(ALMEIDA et al., 1984; BERTOJA et al., 2007; CRUZ et al., 2005; GOMES et al.,
1992; LOUREIRO et al., 1997; VOLKWEIS e SCALABRIN, 1999).
Os diversos grupos das doenças das glândulas salivares não-neoplásicas
põem à prova as habilidades de diagnóstico e terapêutica do clínico, porque as
diferentes etiologias (reativa, metabólica, imunológica, infecciosa e iatrogênica)
podem produzir quadros clínicos ou sintomas semelhantes.
Os vários tipos de doenças das glândulas salivares podem ser melhor
distinguidos por seus padrões histológicos. O comportamento clínico destas
doenças está baseado, como na maioria das lesões, no tipo de lesão bem como
no método de tratamento utilizado.
O curso de Odontologia da UNIVALI, centrado na filosofia orientadora de
promoção de saúde instalou, em agosto de 2002, com financiamento do
FUNCITEC, o Serviço de Diagnóstico Histopatológico de Lesões Bucais, para os
pacientes atendidos nas clínicas do Curso de Odontologia e os encaminhados por
outros setores e serviços da região.
Sabe-se da importância dos estudos epidemiológicos no auxílio do
diagnóstico de uma patologia. Logo, o cirurgião-dentista, conhecedor dos dados
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epidemiológicos, poderá melhor direcionar seu diagnóstico, prognóstico e plano
de tratamento.
Portanto, o objetivo principal deste trabalho foi analisar a prevalência de
lesões das glândulas salivares não neoplásicas diagnosticadas no Serviço de
Diagnóstico Histopatológico de Lesões Bucais do Curso de Odontologia da
UNIVALI.
Acredita-se que os resultados obtidos neste trabalho ajudarão, tanto os
estudantes como os profissionais de odontologia, no conhecimento da real
prevalência das lesões de glândulas salivares que acometem a população local,
auxiliando no diagnóstico precoce de futuras lesões orais, visto que, são poucos
os estudos feitos sobre o tema abordado no estado de Santa Catarina.
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2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Conceito
O Mucocele é uma lesão comum da mucosa oral, que envolve as glândulas
salivares menores, resultante da ruptura de um ducto de glândula salivar e
conseqüentemente do derramamento de mucina para o interior dos tecidos moles
circunjacente. Este derrame, com freqüência, resulta de um trauma local, embora
em muitos casos não haja esse histórico. O mucocele não é considerado um cisto
verdadeiro por não apresentar revestimento epitelial. No entanto, em alguns
casos em que são revestidos por tecido conjuntivo fibroso, por isso recebem a
denominação de cistos de retenção. (TOMASI et al, 1985; MARIANO et al, 2004;
NEVILLE, 2004).
Rânula é um termo usado para mucoceles que ocorrem no soalho da boca,
acompanhados da formação de um tecido fibroso reacional, delgado, que
circunda o muco. O termo descreve uma reação de escape de muco, embora a
fonte de extravasamento de mucina seja usualmente a glândula submandibular.
As rânulas podem originar-se do ducto submandibular ou, possivelmente, das
glândulas menores do soalho da boca. A denominação rânula é utilizada para
toda retenção de saliva que ocorram naquela região, inclusive as originadas de
glândulas salivares menores, císticas ou não. As duas causas principais para o
aparecimento da rânula são o trauma e a obstrução dos ductos das glândulas
pela formação de sialolitos. (TOMASI et al, 1985; NEVILLE, 2004; LEITE, 2006).
O cisto do ducto salivar é uma cavidade revestida por epitélio que se
origina dos tecidos da glândula salivar; é um cisto verdadeiro, já que é revestido
por epitélio. A causa de tais cistos é incerta. Alguns casos podem representar
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uma dilatação ductal decorrente de uma obstrução ductal, o que cria um aumento
na pressão intra-luminal. (NEVILLE, 2004).
Sialolitíase são sialolitos que se desenvolvem no interior do sistema ductal
salivar. Apesar de não se conhecer, em detalhes, a evolução do sialolito acreditase que se origina da deposição de sais de cálcio ao redor de um acúmulo de
restos orgânicos no lúmen do ducto. A causa é desconhecida, mas sua formação
pode ser provocada por sialoadenite crônica e obstrução parcial do ducto. Seu
desenvolvimento não está relacionado a desordens sistêmicas no metabolismo de
cálcio e fósforo. Dentre as doenças das glândulas salivares, 30% dos casos se
referem à sialolitíase. (TOMASI et al, 1985; NEVILLE et al, 2004; JORGE, 2006 ).
A sialoadenite é uma inflamação das glândulas salivares, com origem de
várias causas, infecciosas ou não. A infecciosa pode ser viral ou bacteriana. A
viral mais comum é a parotidite. A maiorias bacterianas originam-se de uma
obstrução ductal ou diminuição do fluxo salivar, permitindo a disseminação
retrograda de bactérias através do sistema ductal. As bacterianas, em sua
maioria, são agudas e provocadas pelo staphylococcus aureus, estreptococo ou
outros microrganismos. Uma das causas mais comuns é cirurgia recente; no
entanto, medicações que produzem xerostomia como efeito colateral, também,
podem predispor à infecção. As de origem não infecciosa incluem a síndrome de
Sjögren, a sarcoidose, a radioterapia e vários alérgenos. Elas podem ser
classificadas em agudas ou crônicas (NEVILLE, 2004; GOMES, 2006).
A queilite glandular é uma condição inflamatória rara das glândulas
salivares menores. A causa é incerta, embora vários fatores etiológicos tenham
sido sugeridos, entre eles, a injúria actínica, o tabaco, a sífilis, a má higiene e a
hereditariedade. Embora a queilite glandular simples tenha sido, primeiramente,
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descrita como um processo inflamatório de glândulas salivares ectópicas, as
evidências atuais mostram alterações inflamatórias com hiperfunção das
glândulas salivares menores. (PENNINI, 2000; NEVILLE, 2004).
A lesão linfoepitelial benigna (sialoadenite mioepitelial) é uma tumefação
bilateral indolor incomum das glândulas lacrimais e de todas as glândulas
salivares. Esta lesão é bastante rara, mas apresenta características tanto
inflamatórias como neoplásicas. É uma doença auto-imune na qual a própria
saliva se torna antigênica. A parótida é a glândula mais frequentemente
acometida, mas eventualmente acontece o comprometimento das glândulas
submandibulares. (SHAFER, 1987; ARRAIS, 1991; NEVILLE, 2004).
A síndrome de Sjögren é uma desordem auto-imune sistêmica crônica, que
envolve as glândulas salivares e lacrimais, resultando em xerostomia e
xeroftalmia. Em alguns pacientes, o processo pode assumir uma forma de uma
doença grave, afetando vários órgãos. As causas específicas não são
conhecidas, mas múltiplos fatores provavelmente estão envolvidos, dentre os
quais os genéticos,viróticos, hormonais ou suas interações. (REGEZI, 1991;
NEVILLE, 2004; LIMA, 2005).
A sialometaplasia necrosante é uma reação inflamatória benigna das
glândulas salivares, que clinicamente e histologicamente imita uma lesão maligna.
No entanto, a maior evidência de sua natureza benigna é a evolução espontânea
para a cura, geralmente entre 3 e 12 semanas, além da ausência de recidivas.
(SHAFER,1978; LIMA, 2002). Segundo Regezi (1991), esta lesão pode ser
encontrada em qualquer sítio que contenha elementos de glândulas salivares,
incluindo as glândulas da cavidade oral, glândulas salivares maiores, trato
sinonasal e trato respiratório. A importância de conhecer essa lesão é o fato de
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simular uma malignidade. O não conhecimento desta lesão pode levar a cirurgias
radicais desnecessárias, por ter feito um diagnóstico errôneo.
A sialodenose é uma desordem não-inflamatória incomum, caracterizada
por uma tumefação assintomática da glândula salivar, envolvendo particularmente
a glândula parótida. A condição está freqüentemente associada a um problema
sistêmico subjacente, que em sua origem podem ser endócrina, nutricional ou
neurológica. (NEVILLE, 2004).
A hiperplasia adenomatóide é uma lesão rara das glândulas salivares
menores caracterizada por uma tumefação localizada que lembra um neoplasma.
Esse pseudotumor ocorre com maior freqüência no palato duro ou mole. A
patogênese é incerta, mas tem sido especulado o papel desempenhado pelo
trauma local. (NEVILLE, 2004; GÓMEZ, 2005).
2.2 Características clínicas
O mucocele apresenta-se como uma tumefação visível assintomática da
mucosa em forma de cúpula, que pode apresentar variações de tamanho que
corresponde entre 1 mm ou 2 mm a vários centímetros. Esta lesão tem sido
encontrada em todas as idades, sendo mais freqüente nas três primeiras décadas
de vida. A lesão logo abaixo da mucosa tem cor azulada e lesões profundas têm
coloração rósea, alguns são flutuantes e outros têm consistência firme à
palpação. A duração da lesão varia de dias a anos. A região mais comum é o
lábio inferior, também são encontrados lateralmente a linha mediana, língua,
soalho da boca, palato mole, região reto molar e ao longo da mucosa jugal
posterior (TOMASI et al., 1985; MARIANO, 2004; NEVILLE, 2004).
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Na rânula há tumefação azulada, flutuante. Tem forma de cúpula. Os
pacientes podem apresentar um abaulamento indolor e flutuante nas regiões
sublingual, submentoniana ou submandibular. A lesão mais profunda tem
coloração rósea, pode atingir muitos centímetros de diâmetro e até ocupar todo o
soalho da boca e elevar a língua. Contém líquido claro, fluido, nitidamente
perceptível à palpação. (TOMASI et al., 1985; NEVILLE, 2004; DEDIVITIS, 2005).
O cisto do ducto salivar normalmente ocorre em adultos e a origem pode
ser tanto de glândulas salivar maior como de glândula salivar menor. De glândula
maior são mais comuns na glândula parótida, apresentando-se como tumefação
assintomática de crescimento lento. Os cistos intra-orais podem ocorrer em
qualquer glândula salivar menor, porém freqüentemente desenvolvem-se no
soalho da boca, mucosa jugal e lábio. Tumefações flutuantes, que podem
apresentar-se com coloração azulada, dependendo da profundidade abaixo da
superfície, alguns cistos apresentam consistência firme à palpação. É raro o
desenvolvimento de múltiplos cistos de retenção de muco. As lesões individuais
com freqüência apresentam-se como nódulos doloridos que exibem orifícios
ductais dilatados na superfície mucosa, onde através deles pode ocorrer
eliminação de muco ou pus. (NEVILLE, 2004).
A sialolitíase desenvolve-se com mais freqüência no interior do sistema
ductal da glândula submandibular; com menos freqüência na parótida. O trajeto
longo, tortuoso e ascedente do ducto submandibular e secreção mucóide mais
espessa dessa glândula podem ser responsáveis por sua maior tendência para a
formação de cálculo salivar. Os sialolitos também podem se formar nas glândulas
salivares menores e, com maior freqüência, nas glândulas do lábio superior e
mucosa jugal. Os de glândulas maiores podem apresentar-se com dor e
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tumefação, especialmente no momento das refeições. A sialolitíase é um
processo doloroso em que há tumefação episódica, hiperemia na região das
carúnculas e comprometimento do fluxo salivar, podendo também, haver a
presença de secreção purulenta. Pode ocorrer em qualquer idade, porém são
mais comuns em jovens e adultos jovens (TOMASI et al., 1985; NEVILLE, 2004;
LINDENBLATT, 2005).
Na sialoadenite, a glândula afetada mostra-se edemecida e dolorosa, e a
pele suprajacente pode apresentar-se eritematosa. Pode estar associada febre
baixa e trismo. Observa-se com freqüência uma drenagem de secreção purulenta
pelo orifício do ducto quando a glândula é massageada. Obstruções ductais
recidivantes ou persistente pode levar a uma sialoadenite crônica. Estão
presentes tumefações e dor no interior da glândula afetada, que se desenvolvem
no momento das refeições, quando o fluxo salivar é estimulado. Apesar desta
infecção ser normalmente restrita à glândula, a disseminação da infecção pode
ocorrer para os espaços fasciais cervicais. (NEVILLE, 2004; GOMES, 2006).
A queilite glandular ocorre no lábio inferior, embora também haja alguns
casos envolvendo o lábio superior e palato. Os indivíduos afetados apresentamse com tumefação e eversão do lábio inferior em conseqüência da hipertrofia e
inflamação das glândulas salivares. As aberturas dos ductos das glândulas
salivares menores mostram-se inflamadas e dilatadas e a compressão nas
glândulas pode produzir secreções mucopurulentas a partir das aberturas ductais.
Estas ao secarem formam crostas impetigóides. A condição tem sido relatada
com maior freqüência nos homens idosos e de meia-idade (PENNINI, 2000;
NEVILLE, 2004).
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A lesão linfoepitelial benigna apresenta-se como uma tumefação firme e
difusa da glândula afetada, que algumas vezes é de tamanho acentuado. Ela
pode ser assintomática ou estar associada a uma dor leve. O início da lesão,
pode estar, associado a febre, infecção das vias aéreas superiores, infecção
bucal,
extração
dentária
ou
alguma
outra
alteração
inflamatória
local.
Freqüentemente desenvolve-se em adultos com idade média de 50 anos. De 60%
a 80% dos casos ocorrem em mulheres e parece estar relacionada com fatores
auto-imunes. Oitenta e cinco por cento ocorrem na glândula parótida e raros
exemplos são relatados nas glândulas submandibulares e salivares menores. Um
indício clínico freqüente é o aparecimento de infecções bacterianas superpostas
secundárias à redução do fluxo. Com surtos repetidos de infecções, tende a se
tornar nodular (SHAFER, 1983; ARRAIS, 1991; REGEZI, 1991; NEVILLE, 2004).
A síndrome de Sjögren não é uma condição rara. Entre 80% e 90% dos
casos ocorrem no sexo feminino e predominam nos adultos de meia-idade. Ela
pode se ligar a qualquer outra doença auto-imune, mas a artrite reumatóide é a
doença mais associada. A causa permanece desconhecida, porém a inter-relação
de fatores genéticos e ambientais pode participar do desenvolvimento e do curso
clínico da doença. O principal sintoma oral é a xerostomia, causada pela
diminuição da secreção salivar. O primeiro tecido atingido são as glândulas
exócrinas, particularmente a glândula salivar e a lacrimal. Os pacientes afetados
podem queixar-se de dificuldade na deglutição, alteração no paladar ou
dificuldade no uso de dentaduras. A língua costuma tornar-se fissurada e
apresentar atrofia das papilas. A mucosa oral pode estar vermelha e sensível,
como um resultado decorrente da candidíase secundária. A linfoadenopatia é
duas vezes mais comum na forma primária da doença. A falta de limpeza da
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saliva predispõe o paciente à cárie dental. O aumento da glândula parótida, com
freqüência recorrente e simétrico, é visto em aproximadamente 50% dos
pacientes. Uma percentagem desses pacientes apresentará queixas de artralgia,
mialgia e fadiga (SHAFER, 1983; REGEZI, 1991; AL-HASHIMI, 2001; NEVILLE,
2004).
A sialometaplasia necrosante intra oral, se caracteriza por seu surgimento
espontâneo. O local de desenvolvimento mais comum é a junção entre os palatos
duro e mole. Na evolução pode ser percebida uma tumefação sensível,
geralmente associada a um eritema da mucosa suprajacente. Em seguida a
mucosa se rompe formando uma úlcera profunda bem demarcada e com uma
base lobular cinza amarelada. Manifesta-se clinicamente por úlceras profundas,
indolores, irregulares, com crescimento rápido, podendo estender-se até o osso,
simulando um carcinoma escamoso. No palato, pode ser uni ou bilateral, com
diâmetro individuais variando entre 1 e 3 cm. Os sintomas dependem do tamanho
da lesão. Sua cicatrização é lenta, de 6 a 10 semanas (REGEZI, 1991; ROCHA,
2002). Segundo Shafer (1978), a maior parte das lesões acontece no palato,
seguida pela mucosa jugal, lábio e região retromolar.
A sialodenose geralmente apresenta-se como uma tumefação indolor de
crescimento lento das glândulas parótidas, que pode ser dolorosa ou não. A
condição usualmente é bilateral. Pode ocorrer diminuição de secreção salivar. A
sialografia demonstra um padrão de “árvores sem folhas”, que parece ser
causado pela compressão dos ductos finos pelas células acinares hipertróficas
(NEVILLE, 2004).
A hiperplasia adenomatóide, na maioria dos casos, é séssil e indolor,
podendo ser mole ou firme à palpação. Usualmente, elas têm coloração normal,
embora algumas lesões sejam vermelhas ou azuladas. Clinicamente é
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assintomática na maioria dos pacientes, sendo portanto, um achado casual em
exames odontológicos de rotina (NEVILLE, 2004; GÓMEZ, 2005).
2.3 Características histopatológicas
O mucocele mostra ao exame microscópio, uma área de mucina
extravasada circundada por tecido de granulação reacional. Pode ser identificado
um ducto rompido, infiltrado de células inflamatórias crônicas e ductos dilatados
(MARIANO, 2004; NEVILLE et al., 2004)
Na rânula, a mucina extravasada é circundada por tecido de granulação
reacional que caracteristicamente contém histiócitos espumantes. Conforme a
pesquisa de Dedevitis e Akaki, 2005, dos vinte pacientes analisados, a avaliação
histopatológica revelou que 14 casos apresentavam cisto verdadeiro com parede
mucosa, ao passo que 6 eram pseudocistos. (NEVILLE et al., 2004; DEDIVITIS,
2005).
O cisto do ducto salivar tem revestimento variável, podendo consistir em
epitélio escamoso cuboidal, colunar ou atrófico, circundando uma secreção fina
ou mucóide no lúmem. Em alguns casos o epitélio pode desenvolver metaplasia
oncocítica, mostrando freqüentemente sulcos papilares dentro do lúmem cístico.
(NEVILLE, 2004).
Na
sialolitíase
as
massas
calcificadas
apresentam
laminações
concêntricas, que podem circundar um nicho de restos orgânicos amorfos. Se o
ducto for juntamente removido, mostrará metaplasia de células escamosas,
oncocíticos ou mucosas. Também é evidente uma inflamação periductal
(NEVILLE, 2004).
Na sialoadenite aguda, observa-se acúmulo de neutrófilos no interior do
sistema ductal e ácinos. A sialoadenite crônica é caracterizada pela infiltração
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dispersa ou em placa, do parênquima salivar por linfócitos e células plasmáticas.
A atrofia dos ácinos é comum, assim como a dilatação ductal (NEVILLE, 2004).
Os achados microscópicos da queilite glandular não são específicos e
consistem, usualmente, em sialoadenite crônica e dilatação ductal. Em alguns
casos, podem ser observadas mudanças displásicas concomitantes no epitélio de
recobrimento da superfície (NEVILLE, 2004).
O exame microscópico da lesão linfoepitelial benigna mostra um intenso
infiltrado linfocitário associado à destruição do ácino salivar. Embora os ácinos
estejam destruídos, o epitélio ductal persiste. As células ductais e as células
mioepiteliais circunjacentes tornam-se hiperplásicas em toda a proliferação
linfóide, conhecidas como ilhas epiteliais. Microscopicamente, esse processo
ocorre no interior e em torno dos ductos intralobulares, produzindo sialadenite ou
parotidite linfocítica. Uma alteração característica encontrada nas lesões
avançadas é a deposição do material hialino, eosinófilo, nas ilhas epiteliais
(SHAFER, 1983; REGEZI, 1991; NEVILLE, 2004).
Os achados microscópicos básicos na síndrome de Sjörgen são os de uma
infiltração linfocítica das glândulas salivares com destruição das células acinares.
A lesão inicial da síndrome de Sjörgen primária e secundária é a infiltração das
células, consistindo predominantemente os linfócitos T ao redor dos ductos. Pode
haver proliferação do epitélio dos ductos e do mioepitélio para formar ilhas
mioepiteliais. Os estudos têm mostrado uma correlação positiva do padrão e
extensão da infiltração entre as glândulas salivares labiais e as glândulas
submandibulares e parótida em pacientes com a síndrome (SHAFER, 1983;
REGEZI, 1991; YAMAMURA, 2000; NEVILLE, 2004).
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A sialometaplasia necrosante é caracterizada por ulceração da mucosa,
hiperplasia pseudo-epiteliomatosa do epitélio da mucosa, necrose e metaplasia
escamosa dos ductos salivares. Pode apresentar células inflamatórias em torno
de áreas lobulares e necrose. Ocorre a presença de tecido de granulação e tecido
fibroso em quantidades variáveis. A arquitetura lobular permanece conservada e
não se nota atipias citonucleares. (SHAFER, 1978; REGEZI, 1991; ROCHA,
2002).
Na sialoadenose, o exame microscópico revela uma hipertrofia das células
acinares. O núcleo é deslocado para a base da célula, e o citoplasma é
ingurgitado com grânulos zimogênicos (NEVILLE, 2004).
Na hiperplasia adenomatóide, o exame microscópico demonstra agregados
lobulares de ácinos mucosos de aparência relativamente normal, em quantidade
maior do que normalmente seria encontrado nesta área. Histologicamente está
constituída por estruturas ductais e lobulares a mais do que o tecido normal das
glândulas salivares menores. Algumas vezes as glândulas podem estar
aumentadas em tamanho ou situadas próximas à superfície mucosa (NEVILLE,
2004; GÓMEZ, 2005).
2.4 Tratamento
Como alguns mucoceles são de curta duração rompem por si próprios e
cicatrizam. Muitas lesões são crônicas e requerem remoção por meio de cirurgia
local.
Na tentativa de diminuir o risco de recidiva, deve-se remover qualquer
glândula salivar menor adjacente que possa estar envolvida com a lesão. Seu
prognóstico é excelente, embora muitas lesões possam recidivar, necessitando
nova remoção. A técnica de micromarsupialização também é utilizada. (TOMASI
et al., 1985; MARIANO, 2004; NEVILLE, 2004).
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Na rânula, o tratamento consiste na remoção ou marsupialização da
glândula sublingual (TOMASI et al., 1985; NEVILLE et al., 2004; LEITE, 2006).
Para o cisto do ducto salivar, casos isolados são tratados com excisão
cirúrgica conservadora. Para cistos de glândulas salivares maiores, pode ser
necessário a remoção total ou parcial da glândula. A lesão não deve recidivar. No
caso de cistos múltiplos, a excisão pode ser realizada para tumefações mais
problemáticas (NEVILLE, 2004).
Sialolitos pequenos das glândulas maiores podem ser tratados de forma
conservadora com massagens leves da glândula, com tentativa de ordenhar o
cálculo para o orifício do ducto. Podem ser usados sialagogos, que são
medicamentos que estimulam fluxo salivar, calor úmido, aumento da ingestão de
líquido que podem promover a eliminação do cálculo. Os grandes sialolitos
requerem remoção cirúrgica. Os de glândulas menores são mais bem tratados
pela remoção cirúrgica, incluindo a glândula associada. A endoscopia da glândula
é o método mais recente que tem demonstrado ser útil na remoção de sialolitos
de algumas glândulas maiores. Esta técnica pode ser associada a litotripsia
intracorpórea para fragmentar os cálculos (NEVILLE, 2004; JORGE, 2006).
Na sialoadenite aguda, o tratamento consiste em antibioticoterapia
apropriada e reidratação para estimular o fluxo salivar. Se acontecer abscesso, a
drenagem cirúrgica se faz necessário.
Na sialoadenite crônica, depende da
gravidade e duração da condição. Se ocorrer destruição inflamatória suficiente do
tecido salivar, poderá ser necessária a remoção cirúrgica da glândula afetada.
Entretanto, a chave para o tratamento das sialoadenites é o correto diagnóstico
da condição patológica associada e a reidratação (NEVILLE, 2004; GOMES,
2006).
18
O tratamento de escolha, nos casos persistentes de queilite glandular
associada ao dano actínico, é uma vermelhonectomia (plástica do lábio), que
comumente produz um resultado cosmético satisfatório. O tratamento consiste
também na erradiação de focos dentários, aplicação de antibióticos e
corticosteróides locais ou sistêmicos, dependendo da gravidade do caso, podendo
ser necessário até ressecção ampla da área comprometida ou limpeza cirúrgica.
(PENNINI, 2000; NEVILLE, 2004).
Embora a lesão linfoepitelial benigna necessite de remoção cirúrgica da
glândula envolvida, o prognóstico na maioria dos casos é bom. Os indivíduos com
lesão linfoepitelial benigna têm maior risco de desenvolvimento de linfomas, quer
no interior da glândula afetada, quer em sítios extra-salivares.
Nos casos leves, depois de feito o diagnóstico, não é indicado qualquer
tratamento. Em certos casos, a tumefação regride espontaneamente. Atualmente,
a maior parte das autoridades é contra a radioterapia rotineira, tendo em vista a
possibilidade de malignidade induzida pela radiação. Portanto, o tratamento varia
de acordo com a severidade do quadro clínico.
O acompanhamento deve ser mantido devido à predisposição para uma
transformação neoplásica e uma possível relação com a síndrome de Sjögren
(SHAFER, 1983; ARRAIS, 1991; REGEZI, 1991; NEVILLE, 2004).
O tratamento do paciente com a síndrome de Sjögren é geralmente de
apoio. Requer a interação entre cirurgião-dentista, reumatologista e oftamologista.
A secura dos olhos é tratada pelo uso periódico de lágrimas artificiais.. As salivas
artificiais estão disponíveis para o tratamento da xerostomia. Os caramelos ou
chicletes sem açúcar podem ajudar a manter a boca úmida. Os sintomas podem
ser
aliviados
pelo
uso
de
produtos
de
higiene
oral
que
contenham
19
lactoperoxidase, lisozima e lactoferrina. Devem ser evitadas medicações que
diminuem o fluxo salivar. As aplicações diárias de fluoreto podem ser indicadas. A
cirurgia tem sido usada, mas geralmente é recomendada somente nos pacientes
com desconforto (SHAFER, 1983; REGEZI, 1991; AMENÁBAR, 2004; NEVILLE,
2004).
Na sialometaplasia necrosante não existe tratamento específico. Portanto
deve ser feito biópsia incisional para estabelecer um diagnóstico definitivo, a
cicatrização secundária acontece no decorrer de várias semanas. São passos
importantes para o controle, a confiança do paciente e a irrigação da ferida. Não
se espera recidiva e nenhum problema funcional (REGEZI, 1991).
O tratamento clínico da sialoadenose freqüentemente não é satisfatório, já
que está intimamente relacionado ao controle de uma causa subjacente. Se a
tumefação tornar-se um problema cosmético, a parotidectomia parcial poderá ser
realizada (NEVILLE, 2004).
Devido à semelhança clínica da hiperplasia adenomatóide com um tumor, é
necessária a biópsia para estabelecer o diagnóstico. Uma vez estabelecido, não
há indicação de tratamento posterior e não deve ocorrer recidiva da lesão
(NEVILLE, 2004).
2.5 Freqüência
Almeida et al. (1984) apresentaram o levantamento de lesões bucais
incluindo lábios e glândulas salivares examinadas pelo serviço de AnatomiaPatológica do Centro de Patologia Clínica e Preventiva da cidade de Piracicaba,
num período de 10 anos. No período de 10 anos o serviço de patologia do
laboratório PREVLAB de Piracicaba examinou 54.845 biópsias, sendo que destas,
foram lesões intraoral ou periorais (lábio e glândulas salivares) um total de 1211.
20
Das lesões de glândulas salivares a mais freqüente encontrada foi o mucocele
com um total de 71 casos, sendo mais prevalente no sexo masculino com 59.1%,
a sua localização prevaleceu lábio inferior com 85.96% e idade média de 23.6. De
1211 lesões de lábio e glândulas salivares o mucocele apresentou 71 casos.
Resultando em 5.86 % no total das lesões. Conclui-se que o mucocele encontrase como lesão mais comum de glândulas salivares, e sua prevalência está no
sexo masculino, e localização no lábio inferior com idade média de adultos jovens.
Gomes et al. (1992) realizaram um estudo com o objetivo de avaliar a
prevalência de entidades patológicas ou não encaminhadas ao laboratório de
Patologia Bucal da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Minas
Gerais, entre os períodos de 1981 a 1990.
A abordagem incluiu 2.566 biópsias
encaminhadas ao laboratório de Anatomia Patológica da faculdade no período de
dez anos. Tendo como base o diagnóstico histopatológico de cada caso, avaliouse a freqüência de lesões ou tecidos não patológicos examinados e a distribuição
geral das amostras. O resultado geral do estudo incluiu 99 lesões das glândulas
salivares, onde foi separado em um grupo específico. A lesão de glândula salivar
mais prevalente encontrada foi o mucocele com 75 casos, com uma porcentagem
geral de 2.92%. Concluíram que o mucocele é tida como uma lesão
relativamente comum na cavidade bucal. Analisando o grupo de lesões de
glândula salivar, fica claro que o achado neste estudo corresponde em linhas
gerais ao que se tem na literatura. Contudo, considerando todo o material
disponível, a sua prevalência foi relativamente baixa (2,92%). Este número
reduzido pode ter explicação no tratamento não-cirúrgico destas lesões aplicado
por alguns profissionais.
21
Loureiro et al. (1997) analisaram o livro de registros de peças operatórias
do laboratório de anatomia patológica do serviço de Estomatologia e Prevenção
do Câncer Bucomaxilofacial do hospital São Lucas da PUCRS. As peças
examinadas eram oriundas do próprio serviço. As lesões foram classificadas em
grupos e entre elas as menos freqüentes estão no grupo outras lesões. De 16.006
lesões diagnosticadas, foram encontradas 93 lesões de glândulas salivares
(0,58%), sendo 9 sialolitíases (0,05%) e 84 sialoadenites (0,52%).
Volkweis e Scalabrin (1999) avaliaram a prevalência de lesões bucais com
diagnóstico microscópico a partir do diagnóstico histopatológico conclusivo.
Foram estudadas 539 lesões. Dentre as 19 patologias de glândulas (3,6%), o
mucocele corresponde a 13 casos (2,4%). Sendo o pico de incidência entre a
segunda e quarta décadas de vida, acometendo 7 homens (53,8%) e 6 mulheres
(46,2%).
Cruz et al. (2005) realizaram um estudo epidemiológico sobre lesões orais
diagnosticadas na cidade de São Luís-MA. Foram analisadas 295 biópsias orais
encaminhadas ao Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Universitário –
Unidade Presidente Dutra, da Universidade Federal da Maranhão (UFMA), no
período de 1992 a 2002. Dentre as lesões mais freqüentes, destacou-se, com 14
casos (28,57%), o mucocele. Além disso, o grupo de lesões de glândula salivar
representou 49 casos do número total de lesões.
Bertoja et al. (2007) realizaram um levantamento epidemiológico por meio
de análise retrospectiva de lesões bucais diagnosticadas no Laboratório de
Histopatologia do Centro Universitário Positivo (Unicenp). Foram analisadas 1.963
espécimes de lesões bucais, no período de fevereiro de 2003 a julho de 2006.
Dentre as patologias diagnosticadas, verificou-se 99 casos (5,04%) de mucocele
22
e 1 caso de sialometaplasia necrotizante. Na literatura há pesquisas em que a
mucocele representou a lesão mais prevalente, apresentando números como
13,5% e 8,6%, recorrente na mesma faixa etária deste estudo.
23
3 MATERIAIS E MÉTODOS
Foi realizada uma pesquisa do tipo descritivo transversal, no Serviço de
Diagnóstico Histopatológico de Lesões Bucais do Curso de Odontologia da
UNIVALI, mediante levantamento de dados secundários, através da análise de
459 prontuários dos arquivos e laudos histopatológicos, relativos ao período de
agosto 2002 a dezembro de 2008, com a devida autorização do responsável. O
projeto foi aprovado sob o número 380/2008, pela Comissão de Ética em
Pesquisa da UNIVALI.
A análise foi efetuada em duas etapas. Inicialmente, foram selecionadas as
biópsias e laudos histopatológicos que identificavam casos de lesões em
glândulas salivares, no período em estudo. Posteriormente, destes casos
selecionados, foram coletados as seguintes informações: faixa etária, raça e
gênero do paciente; localização anatômica e diagnóstico microscópio de cada
lesão segundo o ano de análise.
As lesões de glândulas salivares não neoplásicas foram classificadas de
acordo com Neville et al. (1995) em: Mucocele, Rânula, Cisto do Ducto Salivar,
Sialolitíase, Sialoadenite, Queilite Glandular, Lesão Linfoepitelial Benigna,
Síndrome de Sjögren, Sialodenose, Hiperplasia
Adenomatóide das Glândulas
Salivares Menores, Sialometaplasia Necrosante.
Os dados obtidos foram organizados e tabulados, segundo a análise de
freqüência relativa e absoluta, para cada tipo de lesão, considerando-se as
características faixa etária, raça, gênero e localização anatômica da lesão.
Como retorno à população, será elaborado um informativo abordando a
importância da análise histopatológica de lesões e/ou fragmentos removidos em
24
procedimentos odontológicos. Este informativo será encaminhado ao CRO-SC
para posterior divulgação aos cirurgiões-dentistas credenciados.
25
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em nossa pesquisa, de um total de 459 laudos histopatológicos analisados,
a freqüência de casos de lesões de glândula salivar não neoplásicas, no período
de agosto de 2002 a dezembro de 2008, diagnosticadas pelo Serviço de
Diagnóstico Histopatológico de Lesões Bucais da UNIVALI foi de 31 casos, sendo
29 mucoceles, 1 sialolitíase e 1 hiperplasia adenomatóide das glândulas salivares
menores (Gráfico 01). Estas patologias de glândula salivar correspondem a 6,75%
do total de casos, sendo que 6,31% correspondem a mucoceles.
100 %
94
80
60
40
20
3
3
sialolitíase
hiperplasia
0
mucocele
Gráfico 01: Distribuição da freqüência de sujeitos segundo o tipo de lesão de
glândula salivar.
A predominância de casos de mucocele no grupo das patologias de
glândula salivar identificados neste estudo também foi apontada em outros
trabalhos (ALMEIDA et al., 1984; GOMES et al., 1992; VOLKWEIS; SCALABRIN,
1999; CRUZ et al., 2005; BERTOJA et al., 2007).
Analisando o total de lesões diagnosticadas microscopicamente em um
laboratório, a frequência das lesões de glândula salivar em nosso estudo (6,75%)
foi maior do que aquela citada por Volkweis e Scalabrin (1999), que encontraram
3,6% de patologias envolvendo as glândulas salivares. A freqüência do mucocele
em nosso estudo (6,31%) também foi maior do que os achados de Bertoja et al.
26
(2007), Volkweis e Scalabrin (1998) e, Gomes et al. (1992), que encontraram
5,04%, 2,40% e 2,92%, respectivamente, de mucoceles em suas pesquisas.
Em relação à faixa etária dos sujeitos acometidos por mucocele, encontrouse na literatura revisada que há uma predileção pelo período compreendido pelas
primeiras décadas de vida, ou seja, entre a primeira e quarta décadas. (ALMEIDA
et al., 1984; TOMASI et al., 1985; VOLKWEIS; SCALABRIN, 1999; MARIANNO et
al., 2004; NEVILLE, 2004). Também, nesta pesquisa, pode-se registrar tal
situação, pois 69,00% dos casos de mucocele ocorreram entre a primeira e a
terceira décadas de vida (Gráfico 02).
Gráfico 02: Distribuição da freqüência relativa dos casos de mucocele segundo
a faixa etária.
Acreditamos que a incidência de mucoceles nesta faixa etária deve-se ao
fato de que crianças em atividade escolar estão sujeitas a freqüentes quedas e
conseqüente trauma no lábio, que poderá levar ao rompimento de um ducto de
glândula salivar e o surgimento da lesão. Por outro lado, nos adultos a lesão
geralmente é provocada pelo hábito parafuncional de morder lábio.
Vale ressaltar que os casos de sialolitíase e hiperplasia adenomatóide das
glândulas salivares menores ocorreram em pacientes de 52 e 64 anos,
respectivamente. Segundo Tomasi et al., 1985; Neville et al. 2004 e Lindenblatt,
27
2005, a sialolitíase geralmente acomete pacientes adultos jovens. Para Neville et
al. (2004), a hiperplasia adenomatóide das glândulas salivares menores afeta
indivíduos acima de 40 anos de idade.
Considerando a raça dos pacientes avaliados, este estudo identificou 29
sujeitos leucodermas e 2 melanodermas. Os casos de sialolitíase e hiperplasia
adenomatóide das glândulas salivares menores ocorreram em pacientes da raça
branca e, os casos de mucocele acometeram 27 pacientes leucodermas e 2
melanodermas. A literatura pesquisada não faz referência em relação a este
critério.
Dos 31 laudos microscópicos de patologias de glândulas salivares
pesquisados, 17 eram referentes a pacientes do gênero feminino (54,83%) e 14
do masculino. A sialolitíase ocorreu em paciente do gênero feminino, enquanto
que a hiperplasia adenomatóide das glândulas salivares menores acometeu um
indivíduo do gênero masculino. A literatura pesquisada não faz referência em
relação ao gênero de maior incidência dos casos de sialolitíase. Mas, segundo
Regezi e Sciubba (1991) a hiperplasia adenomatóide é mais prevalente em
pacientes do gênero masculino.
Neste estudo, os casos de mucocele atingiram mais mulheres (16 casos)
do que homens (13 casos). Estes dados são contrários aos de Almeida et al.
(1984) e Volkweis e Scalabrin (1999), que citam o gênero masculino como sendo
o mais prevalente nos casos de mucocele.
Considerando a localização anatômica, o mucocele foi mais freqüente no
lábio inferior (75,86% dos casos), concordando com os resultados de Almeida et
al. (1984), Tomasi et al. (1985), Mariano (2004) e Neville et al. (2004).
Pensamos que o sítio anatômico mais afetado pelo mucocele é o lábio
inferior por ser a área mais susceptível a traumas de diferentes origens e, por ser
a região que primeiro entra em contato com o chão em casos de queda.
O caso de sialolitíase ocorreu no lábio superior (3,22%) e, a hiperplasia
adenomatóide das glândulas salivares menores ocorreu no palato duro (3,22%).
Segundo TOMASI et al. (1985), NEVILLE (2004) e LINDENBLATT (2005), a
maioria dos casos de sialolitíase ocorre no interior do sistema ductal da glândula
submandibular. Para Neville (2004), a localização preferencial da hiperplasia
adenomatóide das glândulas salivares menores é o palato duro.
28
O gráfico 03 demonstra a distribuição das localizações anatômicas
atingidas pelas lesões pesquisadas.
Gráfico 03: Distribuição da freqüência da localização das lesões.
No
gráfico
04
observamos
o
número
de
patologias
analisadas,
considerando cada ano pesquisado. Nota-se um aumento expressivo de casos
diagnosticados nos últimos dois anos.
40,0
35,5
%
25,8
20,0
16,1
9,7
6,5
3,2
3,2
0,0
ano 2002
ano 2003
ano2004
ano 2005
ano 2006
ano 2007
ano 2008
Gráfico 04: Distribuição da freqüência de número de casos de lesões por ano.
A partir deste resultado, observa-se o crescente interesse, por parte dos
cirurgiões-dentistas, em relação ao exame histopatológico no diagnóstico de
lesões da cavidade oral. A utilização deste recurso de diagnóstico como método
de rotina representa, além de maior proteção ao paciente, segurança ao
profissional na elaboração do mais adequado plano de tratamento. Acredita-se
que com a ampliação do atendimento clínico no Serviço de Diagnóstico
29
Histopatológico de Lesões Bucais da UNIVALI, houve um crescimento no número
de lesões enviadas para análise microscópica, nos últimos anos.
Devido ao pequeno número de casos identificados nesta pesquisa e, a
utilização de diferentes metodologias nos outros trabalhos pesquisados,
pensamos que os resultados obtidos talvez não sejam conclusivos. Portanto,
sugerimos a realização uma nova pesquisa, nos próximos anos, contendo um
maior número de diagnósticos microscópicos.
30
5 CONCLUSÕES
Com os resultados desta pesquisa conclui-se que:
1. O mucocele foi a lesão mais freqüente.
2. Houve um maior número de casos entre a 1ª e 3ª décadas de vida.
3. Houve maior prevalência de casos no gênero feminino.
4. A raça branca foi a mais afetada.
5. O lábio inferior foi a região mais afetada pelas lesões analisadas.
31
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lesões de glândulas salivares não-neoplásicas: análise dos casos