RELATÓRIO FINAL CONCEPÇÕES SOBRE DIREITO À MORADIA DOS AFETADOS PELO PROGRAMA VILA VIVA NAS VILAS SÃO TOMÁS E AEROPORTO E NO AGLOMERADO DA SERRA, EM CONTRAPOSIÇÃO A PROPOSTA OFICIAL DO PROGRAMA Belo Horizonte 2014 1 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] EQUIPE Coordenação Geral: Profa. Dra. Miracy Barbosa Sousa Gustin Coordenadora de Pesquisa: Profa. Dra. Márcia Helena Batista Corrêa da Costa Orientadores de campo Cíntia de Freitas Melo Ricardo Alexandre Pereira de Oliveira Pesquisadores Extensionistas Ananda Martins Carvalho Cecília Reis Alves dos Santos Eneida Crisoulo Gabriel Bueno Silva Lívia Bastos Lages Luiz Fernando Vasconcelos de Freitas Matheus Moura Miranda Paula Oliveira Mascarenhas Cançado Thaís Lopes Santana Isaías Thaís Firmato Fortes Tays Natália Gomes 2 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 4 2 AS INTERVENÇÕES DO VILA VIVA E OS IMPACTOS NA VIDA DA COMUNIDADE ...................................................................................................... 5 3. O DIREITO À PARTICIPAÇÃO ....................................................................... 16 4 A SITUAÇÃO DOS CARROCEIROS: OFÍCIO, RENDA E VÍNCULOS COM A COMUNIDADE .................................................................................................... 20 4.1 Introduções ao tema dos carroceiros em Belo Horizonte.............................................................................................................. 20 4.2 A organização dos carroceiros em meio a um contexto de inseguranças .............................................................................................................................. 24 5. INTERPRETAÇÕES SOBRE A REALIDADE DAS REMOÇÕES......................................................................................................... 27 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 40 REFERÊNCIAS.................................................................................................... 47 3 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] 1 INTRODUÇÃO A Frente Reassentamentos Urbanos é parte da Linha de Pesquisa Empoderamento de Camadas Sociais Marginalizadas, do Eixo Efetivação de Experiências de Justiça Urbana, constitutivos do Programa Cidade e Alteridade. O propósito da Frente Reassentamentos Urbanos é analisar os impactos das políticas públicas de assentamentos e reassentamentos em aglomerados urbanos na cidade de Belo Horizonte. O programa municipal Vila Viva, iniciado em 2005, é o meio de intervenção em vilas e favelas adotado pela Companhia Urbanizadora e de Habitação de Belo Horizonte - URBEL. O Programa consiste em um conjunto de ações integradas, direcionadas à urbanização, desenvolvimento social e regularização fundiária de vilas e favelas de Belo Horizonte. Resultados de pesquisa têm demonstrado que profundas transformações ocorrem nos núcleos habitacionais onde o programa é implantado (MOTTA, 2013). A primeira etapa da pesquisa contemplou o Aglomerado da Serra e as Vilas São Tomás e Aeroporto. Concluída parte das análises, foram incorporadas novas áreas alvo das intervenções promovidas pelo Programa, incluindo o Aglomerado Santa Lúcia e a Vila Bandeirantes. O presente relatório apresenta os resultados das investigações desenvolvidas nas Vilas São Tomás e Aeroporto, áreas que vem sendo analisadas desde a primeira etapa dos trabalhos de campo. O modelo de pesquisa-ação adotado no estudo da realidade desses espaços permite compreender como o tecido social das comunidades-alvo das intervenções urbanas vem sendo alterado e quais os impactos do Programa Vila Viva na vida das famílias. As categorias usadas como sustentação da pesquisa são: as relações sociais, a habitação e o direito à cidade. A interseção entre essas categorias favorece o alcance mais amplo dos problemas enfrentados pelas comunidades. Dentre os propósitos dos estudos, consta a preocupação em identificar e interpretar a percepção dos moradores sobre as opções dadas pela Prefeitura de Belo Horizonte para a remoção e reassentamento das famílias e investigar a 4 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] transformação das demandas, expectativas e projetos de futuro dos moradores antes e após o início das obras. 2 AS INTERVENÇÕES DO VILA VIVA E OS IMPACTOS NA VIDA DA COMUNIDADE A ocupação da Vila São Tomás, de acordo com depoimentos de moradores e de funcionários do Centro Cultural São Bernardo, se deu a partir dos anos 50, intensificando-se na década de 1960. Já a “ilha”, como também é chamada a Vila Aeroporto, teve a ocupação iniciada na década de 1960, ambas na grande área conhecida por “vila dos cabritos”. Na época, o córrego não era poluído, sendo utilizado para pesca e lavagem de roupas. Segundo uma antiga moradora, atualmente beneficiada pelo bolsa moradia: “Cada um tinha sua casa boa, oportunidade de construir sua casa grande porque a gente tinha muito espaço, 41 anos atrás [...]”1. As intervenções da URBEL ocorrem a partir da formulação dos Planos Globais Específicos - PGE. O PGE representa o instrumento de planejamento das intervenções necessárias para regularização e urbanização das vilas e favelas da cidade. Na aplicação dos PGEs, de acordo com informações da URBEL, a participação da comunidade é estimulada não só no momento de concepção do Plano, mas também em função de o financiamento das intervenções ocorrer via Orçamento Participativo da Habitação. Os resultados dos contatos com os moradores decorrentes dos trabalhos de campo demonstram, no entanto, haver um descompasso entre as proposições de participação expostas como parte das concepções dos PGEs e a forma como de fato as famílias são envolvidas nos processos, desde a formulação do Plano e do Projeto Executivo das intervenções, até a realização das ações de assentamento e de remoção de parte da população-alvo. O amadurecimento das propostas de intervenção nas vilas ocorreu entre os anos de 2000 e 2001, período da elaboração do Plano Global Específico. O diagnóstico resultante desse plano constatou áreas de risco geológico, traçou o 1 Entrevista gravada realizada com moradora da Vila Aeroporto e líder comunitária, 2012. 5 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] perfil socioeconômico, ambiental e físico da região, assim como possíveis estratégias de resolução dos problemas. Em 2010 iniciou-se na região a implementação do Programa Vila Viva, que ainda está em andamento. Segundo dados disponibilizados pela URBEL, as intervenções na região contemplam um investimento em torno de 98 milhões de reais (CMBH, 2010). Dentre as ações previstas constam o reassentamento de famílias que vivem em áreas de risco próximas ao córrego, a implantação de um parque ao longo do córrego e a construção de 561 unidades habitacionais. Nas vilas São Tomás e Aeroporto, verificou-se o mesmo problema identificado como resultado das intervenções urbanas no Aglomerado da Serra e em outros aglomerados impactados pelo Vila Viva, um número alto de remoções. A previsão das remoções contempla mais de 1.230 domicílios nas duas vilas (PORTAL PBH, 2012) o que significa aproximadamente 30% dos domicílios (total de domicílios: 4.017). Além disso, logo após as eleições de 2012 houve a paralisação das obras por falta de recursos. Um dado importante sobre as intervenções é a alteração da dinâmica local, além das mudanças nos padrões de moradia e da ruptura dos laços comunitários, os atrasos na conclusão das obras expõem as famílias a ambientes inadequados, devido ao volume de lixo e entulho nas ruas. Os espaços alterados pela presença de entulho e lixo, também precariamente iluminados, geram o aumento da insegurança dos moradores em função das obstruções dos acessos, principalmente à noite. A situação tem gerado outros problemas, inclusive de limpeza e de saneamento, os focos de sujeira e acúmulo de água favorecem a proliferação de doenças, fato que afeta o cotidiano da população. Constatou-se a ausência do Poder Público na provisão de serviços, em ações conjuntas de políticas voltadas para a garantia de saúde e qualidade de vida da população. Verifica-se, portanto, uma priorização das obras de intervenção urbana, muitas vezes executadas em períodos longos, devido a atrasos motivados por fatores diversos, dentre os quais a dependência de repasse de recursos. O programa atualmente é financiado por recursos oriundos do orçamento municipal submetido ao OP – Orçamento Participativo, e trabalha com 6 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] transferências do Programa de Aceleração do Crescimento - PAC2 (URBEL, 2013). A questão dos recursos se apresenta como um problema para o Programa Vila Viva e, por conseguinte, para os moradores das áreas alvo, pois os atrasos e mudanças de prioridades ao longo das intervenções geram situações de descontinuidade das obras. O tempo decorrido entre a formulação do PGE em 2001 e a execução da intervenção iniciada em 2011 prejudicou o acompanhamento continuado das propostas de intervenção por parte dos moradores, desmobilizando grupos antes organizados em associações de bairro, provocando inclusive certa sensação de inevitabilidade da intervenção ou mesmo da impossibilidade de sua negociação de forma menos vertical. Os relatos abaixo ilustram a situação. Entrevistador: É que... Outro dia eu tava conversando com a Maria Lúcia e ela falou que o centro cultural cedeu o espaço, né, pra que as reuniões fossem aqui. O que era discutido nessas reuniões que a URBEL convocava? Moradora B: Quando você diz “essas reuniões” você diz assembleia geral ou você diz reunião do grupo de referência? Entrevistador: Qual que é a diferença dos dois? Moradora B: A diferença é que o grupo de referência são os multiplicadores. É um grupo pequeno que a URBEL, a princípio, tudo que eles vão fazer, reúne esse grupo, passa primeiramente pra esse grupo, e esse grupo se torna multiplicador, passa pra comunidade, cê entendeu? Tudo que vai acontecer, o que tá acontecendo e então, assim, são os multiplicadores. Entrevistador: Esses multiplicadores são essas pessoas, no caso, da comissão de divulgação, né? Que eles colocaram no projeto? [mostro a folha do PGE de 2001] Moradora B.: É porque... O grupo de referência da época do PGE foi um e o grupo de referência que se levantou hoje, ele foi criado agora, pra acompanhar as obras, cê entendeu? Então... São poucas as pessoas daquela época, de 12 anos, que tão acompanhando hoje esse projeto aqui. Entrevistador: Por que teve essa redução? 2 PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) do governo federal e por meio de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e Caixa Econômica Federal. 7 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Moradora B: Muitos faleceram, entendeu? Entrevistador: É... que já são dez anos, né... Moradora B: É.. E muitos mudaram. Entrevistador.: Mas mudaram por coisas próprias deles? Moradora B: É.... Por vontade própria. Entrevistador.: Então, essas assembleias gerais, elas aconteceram antes da formação dos multiplicadores...!? Moradora B: É, o grupo de referência foi tirado de dentro de uma assembleia. Entrevistador; Entendi. E o que que era discutido dentro dessas assembleias gerais? Moradora B.: Dentro da assembleia, geralmente, eles discute tudo o que vai acontecer. Eles colocam o projeto na frente, explica pra comunidade tudo que, né, que vai ser feito, cê entendeu? Abre pra comunidade fazer perguntas... Então, assim, esclarece todos os pontos. Entrevistador.: Mas então, essas assembleias, eles apresentavam o projeto ou eles, é... Eles apresentavam, assim, o projeto pronto ou era um espaço de discussão pra formar o projeto? Quando eles chegavam lá o projeto já tava pronto? Moradora B: Não. É... Durante o levantamento pra fazer o projeto atual, de hoje, foi é.. discutido o tempo todo junto com a comunidade. Cada etapa do projeto eles reunia a comunidade, cê entendeu? Pedia opinião, e tudo, pra montar o projeto. Entrevistador.: E que tipo de participação que tinha, nessas reuniões, dos moradores, que tipo de questão que os moradores apresentavam? Que tipo de pergunta que saía, que tipo de pedido que os moradores faziam? Moradora B: Ó... Geralmente as pessoas queriam saber era justamente isso mesmo: quando eu vou sair...? Cê entendeu? “Ah, eu quero sair hoje”, e... E ficava na dúvida se realmente isso ia acontecer. Cê entendeu? Falava “ah, não, cês tão fazendo aí o projeto e tudo, mas isso vai acontecer mesmo? Por que até então, até começar, né, ficou desacreditado, porque doze anos... Não são doze dias. Então, quando surgiu, que o povo viu que ia acontecer mesmo foi um impacto muito grande. Entrevistador: Mas ninguém fazia, é... Alguém fazia alguma proposta pra... Por exemplo, sei lá, o pessoal da URBEL mostrava uma avenida que ia passar assim em tal lugar, aí, tinha algum morador, alguma liderança que falava assim “não, não passa por aí não, passa pelo outro lado pra ficar melhor...”, pra participar mesmo, efetivamente... 8 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Moradora B: Sempre... teve opiniões, sempre é... aceitaram opiniões da comunidade porque o nosso espaço, cê entendeu? É.... É muito reduzido, cê num tinha, num tem muita opção pra você criar aquele projeto, aquela, aquele sonho, ocê entendeu? Não, que eu tirar avenida daqui, eu vou passar uma avenida aqui... Não. Você num tem essa opção de ficar escolhendo muito. Você visualiza, quem montou o projeto foi passando o tempo todo pra comunidade: “Ó, gente, eu imaginei, visualizei de que eu tenho que passar essa avenida aqui”, num tinha muita opção pra passar em outro local, cê entendeu? E a gente sempre participando a gente concorda, cê entendeu? Por que a gente sabe que num tem outro meio. 3 A remoção das famílias gerou a ruptura de vínculos constituídos há muitos anos, em muitos casos relações consolidadas a partir de décadas de convívio que resultaram em capital social sólido nas comunidades. O problema das remoções torna-se cada vez mais complexo em função do baixo valor das indenizações, impedindo o reassentamento digno das famílias removidas, fato que tem causado sérias dificuldades na busca de novas habitações fora da comunidade. Frisa-se que o valor das indenizações é estipulado com base apenas na estrutura física dos imóveis, desconsiderando o direito de posse, o que reduz o custo para o poder público, mas que é insuficiente para aquisição de uma moradia equivalente em região com equipamentos públicos e infraestrutura minimamente adequada. Tal situação tem gerado a fragilização e fragmentação do capital social das comunidades impactadas. Depoimentos coletados em atividades de imersão em campo mostram a situação comentada por moradores. Entrevistador: O que você acha dessa separação que tá acontecendo entre os vizinhos? Moradora A: Ah, num é bom não, né... Porque a gente tem amizade... E eles num vão deixar nem improvisar, né? Vai separar, cada um vai pra um canto. A gente vai sempre entrar em contato, né, que uns vai voltar pra aqui, né? Quem vai pegar apartamento vai voltar. Inclusive essa menina mesmo, que é minha afilhada, ela pretende voltar, que o irmão 3 Entrevista realizada em maio de 2012 com moradores da Vila Aeroporto, beneficiária de bolsa-aluguel e aguardando a construção das Unidades Habitacionais. Os nomes foram alterados devido ao acordo firmado entre entrevistados e entrevistadores. 9 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] dela quer voltar pra cá. E aí ela vai voltar pra cá, quando o apartamento tiver pronto. Muitos que já foram vai voltar. Quer dizer, saiu, pra poder eles fazer os apartamentos, da demolição daqui, e depois quando terminar os apartamento eles volta. (...) A minha vizinha que mora ali, que foi comigo lá na, comigo lá na hora que eu fui assinar o papel lá, mais a minha irmã... Ela abriu a boca a chorar. No entanto ela quer ir lá comigo domingo lá, eu vou lá na casa, lá. Limpar tudo lá, pra poder levar a mudança. Ela falou que vai lá e já quer olhar a casa por lá pra poder, quando der pra mudar, mudar pra lá. (...) É, pra Vespasiano, muitos tão indo pra lá. É... Igualzinho, tem gente que mora lá na Nova Pampulha. Nova Pampulha é Vespasiano, né? E Morro Alto... Santa Clara... Vespasiano... Tudo. Aquela região ali sempre tem muita gente daqui que até já mudou. Inclusive a sogra da minha irmã já tá morando lá no, na Nova Pampulha. Entrevistador: E a senhora conhece alguém de lá ou ninguém? Moradora A: Não, não, num conheço ninguém lá não. Conheço as pessoa que foi daqui pra lá. 4 Convém registrar que o conceito de capital social tomado como referência nessa pesquisa significa: O Capital Social, em uma comunidade, é constituído pelas relações de solidariedade e confiabilidade entre os indivíduos e, fundamentalmente, pela capacidade de mobilização e organização comunitárias, traduzindo um senso de responsabilidade da própria comunidade sobre seus rumos e sobre a inserção de cada um no todo. Estes elementos, supostamente abstratos, manifestam-se em ganhos concretos sobre a resolução de seus problemas por possibilitarem maior acesso a direitos e, consequente melhoria da qualidade de vida. A comunidade passa a atuar como sujeito compreensivo e atuante em seu meio social, ao invés de mero beneficiário de doação assistencialista. (GUSTIN; MACIEL, 2004) 4 Entrevista gravada com moradora da vila São Tomás em dezembro de 2011, prestes a realizar sua mudança para Vespasiano após ser incluída no PROAS - Programa de Reassentamento Monitorado. 10 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Como apresentado no relatório parcial da presente pesquisa do total de famílias removidas em virtude das obras do Programa Vila Viva, existe a estimativa de reassentamento de apenas 40%5 (quarenta por cento) nas novas unidades habitacionais construídas. Os demais moradores removidos se distribuem entre a indenização simples e a inclusão no Programa de Reassentamento Monitorado – PROAS, no qual se enquadram os moradores removidos cuja benfeitoria foi avaliada em patamar abaixo de R$40.000,00. Não há, porém, dados oficiais que esclareçam quantos moradores foram atendidos pelo programa. Assim, percebe-se uma profunda mudança nas relações sociais, com alterações nas relações de vizinhança e nas redes de confiança e solidariedade existentes nas comunidades. As ações do Programa Vila Viva provocam um claro rompimento dos vínculos sociais das redes comunitárias existentes, gerando um impacto na vida dos moradores. A situação demonstra haver necessidade de se repensar estruturalmente o Programa, de forma que os propósitos de se gerar benefícios às comunidades-alvo de fato possam ser alcançados. O ideal é que as propostas de acompanhamento do pré e pós morar, uma tentativa que tem sido quase sempre falha de readaptar o modo de vida dos integrantes das comunidades, possam resultar em planos de fato executados, de forma que os aspectos socioculturais próprios de cada localidade sejam respeitados. A pesquisa desenvolvida pelo Programa Cidade e Alteridade e outros resultados de investigação sobre o tema demonstram que o modelo de Política de Habitação de Interesse Social aplicado em Belo Horizonte via Programa Vila Viva, gera benefícios em termos das ações de urbanização de vilas e favelas, mas concomitantemente, desencadeia outros problemas sociais graves, dentre os quais, a mudança radical no padrão de vida dos moradores. Seja pela padronização dos assentamentos em unidades habitacionais que altera dinâmicas de vida já estabelecidas, seja pela realocação territorial de antigos moradores em áreas distantes do local originário de moradia, inclusive nas cidades do entorno da capital que compõem a Região Metropolitana. Ponto importante a ser 5 Informações cedidas em entrevista gravada com técnicos da URBEL no posto de atendimento da URBEL nas vilas São Tomás e Aeroporto em 04 de abril de 2012. 11 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] considerado na avaliação dos impactos do Programa Vila Viva é a transferência de problemas sociais para os municípios próximos a Belo Horizonte. O direito à moradia adequada representa um plexo de direitos e não apenas uma moradia em si mesma. Avalia-se que há uma perda significativa da qualidade de vida decorrente nas ações do Programa Vila Viva. As relações sociais tendem a se deteriorar, gerando insatisfação em parte dos afetados, e há registros de deficiências na provisão de serviços públicos às famílias. Para tanto, consideram-se componentes essenciais do conceito de direito à moradia adequada: - a moradia deve ser habitável, com condições adequadas de espaço e proteção contra as variações ambientais; - segurança jurídica da posse, garantindo legalmente a pessoa contra despejos, deslocamentos forçados e outros tipos de ameaça à posse; - localização com acesso a opções de emprego, transporte público eficiente, serviços de saúde, escolas, cultura, lazer e outras facilidades sociais; - acessibilidade a pessoas portadoras de deficiência ou que necessitem de auxílio para sua mobilidade, contemplando todos os grupos vulneráveis; - acesso a serviços e infraestrutura necessários à saúde, segurança, conforto e alimentação, incluindo o acesso a recursos naturais e materiais, água potável, energia elétrica, saneamento, iluminação, condições de estocagem e outros serviços; - possibilidade financeira, isto é, a pessoa precisa ter acesso a uma moradia que possa custear sem prejudicar suas outras necessidades básicas; - adequação cultural, isto é, que a forma da construção, os materiais usados e demais requisitos respeitem a expressão da identidade cultural das comunidades e grupos sociais. (Plataforma DHESCA Brasil, 2008) 6 6 As características da moradia adequada se densificaram a partir do Comentário Geral nº 4 do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU que busca traçar diversos parâmetros para o conceito de moradia adequada. Cf. Comentário Geral n.º 4 do Comitê dos Direitos Econômicos Sociais e Culturais, 1991. Disponível em: <http://www2.ohchr.org/english/issues/housing/docs/CG4_sp.doc>. Acesso em> 04 de junho de 2014. 12 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Há uma inter-relação entre o direito à moradia adequada e o direito à cidade. Aquele é um importante elemento desse, sendo que a violação do direito à moradia e seus vários elementos acarreta em violação também ao direito a cidades sustentáveis. O direito à moradia dos habitantes da cidade é o núcleo central do direito a cidades sustentáveis. As atividades, ações e funções desempenhadas na cidade que tragam como resultado a violação coletiva do direito à moradia, como o abandono do Estado em atender às necessidades básicas das pessoas que vivem em assentamentos informais nas distantes periferias urbanas traz como consequência a violação do direito a cidades sustentáveis. (SAULE JUNIOR, 2004). O Direito à Cidade implica reconhecer uma pluralidade de interesses e direitos que devem ser articulados com os direitos humanos de forma a assegurar que as cidades sejam produto da justiça social. Trilhando esse caminho é que desde o II Fórum Social Mundial, realizado na cidade de Porto Alegre, em 2002, iniciou-se a reflexão sobre a necessidade de inserção do direito à cidade como integrante do sistema internacional de direitos humanos. Tal reflexão acabou por dar origem à Carta Mundial pelo Direito à Cidade. As lutas urbanas vêm gerando a necessidade do reconhecimento, no sistema internacional dos direitos humanos, do Direito à cidade, definido como o usufruto equitativo das cidades dentro dos princípios de sustentabilidade e justiça social. É compreendido como um direito coletivo dos habitantes das cidades, em especial dos grupos vulneráveis e desfavorecidos, que lhes confere a legitimidade de ação e de organização, com base nos seus usos e costumes, com o objetivo de alcançarem o pleno exercício do direito a um padrão de vida adequado. O Direito à cidade está interligado e possui interdependência com todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos, concebidos integralmente. Inclui, portanto, os direitos à terra, aos meios de subsistência, ao trabalho, à saúde, à educação, à cultura, à moradia, à proteção social, à segurança, ao meio ambiente sadio, ao saneamento, ao transporte público, ao 13 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] lazer e à informação. Inclui também o direito à liberdade de reunião e organização, o respeito às minorias e à pluralidade étnica, sexual e cultural; o respeito aos imigrantes e a garantia da preservação da herança histórica e cultural. A partir dessa concepção de direito à cidade percebe-se que o Programa Vila Viva precisa se adequar para garantir o exercício desses direitos às populações afetadas. Um dos núcleos centrais da não adequação do Programa aos princípios do Direito à Cidade são as violações relacionadas a segurança da posse. As famílias que, muitas vezes, moravam há décadas na Vila São Tomás e Aeroporto não possuíam segurança de posse por não serem portadoras do título de propriedade. Tal fato tornou mais vulneráveis tais famílias, tornando-as desprotegidas diante da municipalidade que promoveu remoções com base apenas no valor das benfeitorias edificadas. Tal política fere o direito à moradia e à cidade de centenas de famílias que possuem um direito coletivo à regularização fundiária. Caberia, assim, à Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte – URBEL trabalhar na perspectiva da regularização fundiária plena nas Vilas São Tomás e Aeroporto, priorizando a permanência nas Vilas, com melhoria da qualidade de vida, evitando a remoção das famílias. A forma mais adequada de se promover a urbanização é respeitando o direito de posse dos moradores. Importante destacar as críticas de especialistas em direito urbanístico. O discurso da URBEL nos debates públicos mostra que o órgão ainda não entendeu que, na nova ordem jurídico-urbanística da Constituição Federal de 1988 e do Estatuto da Cidade de 2001, existe um direito coletivo à regularização fundiária de assentamentos informais consolidados. Não se trata apenas de uma questão técnica e discricionária do Poder Público, que faz o que quer, quando quer, como quer. Mesmo que os direitos fundiários dos moradores não tenham sido formalmente declarados, a URBEL – afinal de contas, um órgão da “administração popular” – deveria dialogar com eles não como beneficiários de favores do governo, mas como titulares de direitos próprios. (FERNANDES E DOLABELA, 2010) 14 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] O resultado das ações nas vilas São Tomás e Aeroporto pode significar a remoção de 30% dos domicílios, sendo que as famílias serão levadas a se contentar com indenizações pífias que não correspondem ao direito adquirido à propriedade pelo decurso do tempo. Essas remoções já estão em andamento e não consideram que há um verdadeiro direito subjetivo dos moradores à regularização fundiária. Na contramão desse pensamento houve uma inversão completa da lógica de proteção do direito à moradia e à cidade dessas comunidades na medida em que mais da metade das remoções foram realizadas com indenizações que desconsideraram a dimensão declaratória do direito das famílias ao título de propriedade, uma dentre outras formas de proteção da posse. Nessa linha de intelecção Edésio Fernandes e Heloísa Dolabela consideram sobre o valor das indenizações: Em especial, tal reconhecimento deveria se traduzir no cálculo adequado das indenizações quando a desapropriação for efetivamente necessária, como poderia ser o caso em qualquer outra parte da cidade. Muitos dos projetos de engenharia de grande porte que têm literalmente rasgado várias vilas e favelas no meio – muitos deles ironicamente pagos com recursos do PAC, que deveriam promover inclusão socioespacial – não teriam sido considerados para outras partes da cidade “formal”, não apenas por seus enormes custos se levados em conta os valores reais da indenização, mas também porque a URBEL não ousaria tratar os grupos sociais mais privilegiados da cidade, portadores de títulos fundiários, da forma desrespeitosa como tem tratado os moradores de vilas e favelas. O discurso “técnico” do órgão ainda se refere a “assentamentos subnormais”, e o fato é que muitos moradores têm sido tratados como cidadãos de segunda classe. (FERNANDES E DOLABELA, 2010) A partir do contexto de uma nova ordem jurídico-urbanística não é possível admitir que centenas de pessoas sejam removidas sem a correspondente indenização justa, que não se resume apenas aos valores despendidos pela construção de benfeitorias, mas também a todos os elementos citados acima que integram o direito à moradia adequada, englobando a própria 15 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] segurança da posse materializada no reconhecimento não apenas da posse, mas também da propriedade. Tal concepção da forma de indenização em processos de remoção forçada não leva em consideração que há no país uma nova ordem jurídicourbanística estabelecida a partir da Constituição Federal de 1988, no capítulo de Política Urbana, artigos regulamentados pelo Estatuto da Cidade aprovado em 2001. Existe, ainda, um conjunto normativo aprovado nos anos seguintes, tal como a Lei 12.587/2012 que instituiu as Diretrizes Nacionais de Política Urbana. Desconsiderar esse conjunto normativo constitucional e limitar a fundamentação dos critérios de indenização pela ótica estreita do direito civil, observando apenas se há um título de propriedade ou não, é violar o direito à moradia e à cidade. 3. O DIREITO À PARTICIPAÇÃO É preciso compreender o direito à participação como elemento integrador e fundamental na construção do direito à cidade. Tal preocupação fica expressa no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001) no art. 43, incluindo uma lista dos instrumentos participativos propostos para a efetivação do princípio da gestão democrática das cidades: Art 43. Para garantir a gestão democrática da cidade, deverão ser utilizados, entre outros, os seguintes instrumentos: I- órgãos colegiados de política urbana, nos níveis nacional, estadual e municipal; II- debates, audiências e consultas públicas; III- conferências sobre assuntos de interesse urbano, nos níveis nacional, estadual e municipal; IV- iniciativa popular de projeto de lei e de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano. Percebe-se que a partir da promulgação do Estatuto da Cidade, a cidade ganha o status de espaço de realização da democracia. Os rumos estabelecidos pela gestão pública devem ser fruto de deliberação ampla, coletiva 16 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] e popular. Nesse sentido, entende-se que políticas e ações que impactam e alteram o espaço urbano devem ser submetidas à participação, nesse sentido cabe a administração municipal, por meio do Programa Vila Viva atuar de forma clara e participativa. Resultados dos estudos mostram que a condução da URBEL na execução do Programa Vila Viva precisa aprimorar mecanismos de participação nos processos das intervenções. O Programa tem aplicado um modelo participativo mais formal, verificou-se que ocorrem problemas de interlocução com os moradores em função da linguagem técnica pouco acessível. Resultando em reclamações sobre dúvidas não esclarecidas relacionadas a ações e tomadas de decisões, como se nota a partir dos relatos coletados em dezembro de 2011: Entrevistador:Como foi a negociação com a URBEL? Moradora A: Ah, com a URBEL, quer dizer, eles falou pra mim o valor da minha casa, né, quanto que valia de tudo, né? Quanto que valer, fizeram a medida de tudo, né? Aqui na minha casa deu R$25.207,30, o valor da minha casa. Bem menos do que eu paguei aqui, quando eu comprei. Entrevistador: Pois é, porque a casa é muito grande, né!? Moradora A.: Pois é, né, mas num sei, eles colocam na lei isso. Eu também num, num questionei não... Num fui lá reclamar nem nada não, falei assim.. “ah... deixa pra lá”, tá bom. Aí falei assim, “Ah, como a casa lá que eu vou comprar, eu vou pagar trinta, mas aí vai ser eu e eu e minha irmã. [inaudível] todo mundo falava assim: “Cê vai sair no prejuízo”. Mas eu, como eu quero, mais tarde, melhorar, né, então, vai ser assim, porque a casa da minha irmã, lá a casa lá que eu vou pegar é de três quartos, o problema é que minha irmã tem três filhos, eu não tenho filhos, que ela mora aqui em cima da minha casa. Aí vai ficar com os quartos, com a casa embaixo, e eu vou construir em cima pra mim. Lá são três quartos, sala, cozinha, banheiro, sabe? E tem um quintalzinho, tem pé de manga, pé de limão, é gostosinho lá. Tem lugar que eu posso construir lá também, fazer, abrir minha loja, e eu vou construir pra mim 7 em cima. 7 Entrevista gravada com moradora da Vila São Tomás em dezembro de 2011, prestes a realizar sua mudança para Vespasiano após ser incluída no PROAS. 17 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] A URBEL ao realizar os PGEs, institui os Grupos de Referência, compostos por representantes dos moradores. Apesar de um discurso preocupado com métodos participativos, na realização de reuniões e na apresentação do projeto em assembleias, verifica-se um distanciamento fático dos moradores das propostas apresentadas. A tendência tem sido de priorização de uma visão mais técnica dos problemas decorrentes das intervenções urbanas realizadas. O princípio da gestão democrática das cidades incluída no novo marco legal sobre direito urbanístico estabelecido para as cidades brasileiras, expressa que a participação é fundamental para que, coletivamente se possa efetivar o Direito à Cidade, tal como David Harvey expressa na seguinte fala: O direito à cidade é muito mais do que uma liberdade individual de acessar os recursos urbanos: é o direito de mundar nós mesmos mudando a cidade. É mais do que um direito individual, uma vez que esta transformação depende do poder que a coletividade de recriar o processo de urbanização. A liberdade para fazer e refazer nossas cidades e nós mesmos, que quero discutir, um dos mais preciosos e ainda mais negligenciados dos direitos humanos (HARVEY, 2008, tradução nossa) 8 Intervenções tais como as empreendidas pela URBEL, que alteram substancialmente a vida das pessoas nas localidades onde moram há anos exigem procedimentos mais cuidadosos, de forma que os afetados de fato sejam ouvidos e possam se expressar livremente, sem as amarras de um procedimentalismo burocrático. A participação, portanto, para ser efetiva deve acontecer em todos os momentos, do diagnóstico aos impactos pós-obras. Outro aspecto que chama a atenção é o fato de os PGEs serem conduzidos por empresa terceirizada pela Urbel, o que tem gerado a descontinuidade dos processos participativos, uma vez que as ações do mercado se movem pela eficiência e lucro, em detrimento de um processo de 8 The right to the city is far more than the individual liberty to access urban resources: it is a right to change ourselves by changing the city. It is, moreover, a common rather than an individual right since this transformation inevitably depends upon the exercise of a collective power to reshape the process of urbanisation. The freedom to make and remake our cities and ourselves is, I want to argue, one of the most precious yet most neglected of our human rights. 18 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] empoderamento que garanta a participação real. Além disso, o despreparo das esferas técnicas de compreenderem a diversidade cultural da cidade, bem como a não valorização de uma metodologia de participação clara que inclua esferas de deliberação tem marcado a atuação do Programa. De acordo com Boaventura de Sousa Santos a participação efetiva só acontece quando “o sistema político abre mão de prerrogativas de decisão em favor de instâncias participativas” (Santos 2003a) e a intensidade de tal participação é tanto maior quanto mais se garante a possibilidade de participação e deliberação dos grupos sociais envolvidos na concepção, execução, controle e fruição da intervenção (Santos, 2007). No entanto, a Prefeitura prioriza tão somente o caráter informativo do contato com a comunidade afetada, sendo muito raras as situações em que a comunidade efetivamente delibera sobre alguma questão concreta que seja de seu interesse. É necessário garantir medidas de prevenção contra a participação de “baixa intensidade”, ou seja, uma participação formal que tem como objetivo informar os moradores sobre as ações que serão realizadas e sobre os impactos que tais intervenções terão em suas vidas. O seguinte trecho foi retirado de um texto que analisa como a URBEL conduzia os processos de elaboração dos Planos Globais Específicos, em particular do Aglomerado da Serra. Situação verificada também na realidade das Vilas São Tomás e Aeroporto: Um ponto crítico no que diz respeito ao método do PGE é o planejamento convencional que se divide em coleta de informações, diagnóstico e propostas, que condiz com a cadeia convencional de planejamento, construção e uso, como se o espaço urbano fosse um produto definido, e não um processo permanentemente em construção, conduzido por pessoas aptas a agirem conforme suas escolhas. (KAPP; BALTAZAR, 2011, tradução nossa) 9 9 One critical point in this respect is that the PGE method follows the conventional planning sequence of data gathering, diagnosis and proposal, which fits in the likewise conventional chain of planning, building and using, as if an urban environment were a finished product and not an ongoing, constantly changing process, performed by people able to act according to their own choices. (Tradução dos autores) 19 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Conclui-se, portanto, que a proposta de participação não foi aplicada de forma satisfatória, de modo a garantir o direito das pessoas afetadas à moradia digna e o direito à cidade. O Programa Vila Viva na Vila São Tomás, para sua continuidade, deve priorizar a divulgação de informações aos moradores, e, observar condições necessárias para o aprimoramento da participação popular para que se efetive o princípio da gestão democrática previsto no Estatuto da Cidade e fundamental na ordem jurídica vigente. 4 A SITUAÇÃO DOS CARROCEIROS: OFÍCIO, RENDA E VÍNCULOS COM A COMUNIDADE 4.1 Introdução ao tema dos carroceiros em Belo Horizonte Já na época da construção da nova capital de Minas Gerais no fim do século XIX, os carroceiros exerciam um papel fundamental para o funcionamento da cidade, sendo responsáveis por transportar os materiais e equipamentos de sua construção. Foram homenageados no ano de 2000 com a instituição do Dia Municipal do Carroceiro, comemorado todo primeiro domingo de setembro. Em Belo Horizonte existe desde 2000 o projeto “Carroça Legal”, que visa à legalização das carroças. Os trabalhos acontecem a partir da parceria entre a Superintendência de Limpeza Urbana – SLU, a BHTrans e a Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. De acordo com o site da Prefeitura de Belo Horizonte (PORTAL PBH, 2013), o projeto age em duas etapas: a primeira envolve a vistoria das carroças (medição do veículo e avaliação do estado dos pneus e freios, etc) e dos cavalos, com a conferência do cartão de vacinação dos animais; a segunda etapa conta com um curso de 4 horas, cujo conteúdo inclui legislação para o trânsito e a circulação autorizada, cuidados básicos com os animais e regras de utilização das Unidades de Recebimento de Pequenos Volumes – URPV. Após a aprovação, cumprindo as etapas previstas, as carroças são emplacadas e os condutores recebem o Certificado de Registro e Licenciamento do Veículo de Tração Animal – CRLVTA. Existem, atualmente, cerca de 3 mil carroceiros cadastrados nesse sistema. Porém, de acordo com 20 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Pissolati “estima-se que, somados os não cadastrados, este número chegue a pelo menos 14 mil” (PISSOLATI, 2013, p. 23). Um extenso trabalho de pesquisa etnográfica foi realizado por Nian Pissolati sobre os carroceiros do extremo leste de Belo Horizonte. Na etnografia, o autor descreve e analisa os modos de vida dos carroceiros tendo como base três eixos relacionais intrínsecos à vida carroceira: interação que se estabelece entre homem e animal; relação espaço-temporal que organiza o universo carroceiro e caracteriza sua presença na cidade; e as relações que se estabelecem entre os próprios carroceiros e os diferentes agentes urbanos. (PISSOLATI, 2013). De acordo com constatações do autor [...] a maioria das pesquisas realizadas em Belo Horizonte sobre os carroceiros desenvolvem-se a partir da visão da precariedade social e tem como base estruturadora dados quantitativos, como o de renda e escolaridade (PISSOLATI, 2013, p. 71). Esse tipo de abordagem acaba por ofuscar as distintas temporalidades que convivem na cidade – e que deveriam ser pressuposto de uma convivência multicultural levada a sério - e restringe na figura do carroceiro um executor de determinado ofício, despido de suas dimensões culturais mais profundas. Desconsideram, assim, que o carroceiro representa uma alteridade que compõe a cidade, dentre muitas outras. Reforça-se, desse modo, uma marginalidade simbólica associada à baixa escolaridade, à relação diferenciada com os animais e à relação com os resíduos que a cidade produz (PISSOLATI, 2013) que, somada à marginalidade geográfica na qual têm sido empurrados ao longo das décadas, cria a equivocada impressão de que eles é que estão fora do lugar, fora do espaço e fora de uma época. Seleção de imagens ilustrativas da realidade dos carroceiros nas Vilas São Tomás e Aeroporto: 21 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fotografia 1. Foto tirada em 22 de agosto de 2012. Aviso da URBEL para o afastamento dos animais dos locais das obras. A faixa está pregada nas próprias baias dos carroceiros 22 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fotografia 2. Foto tirada no dia 11 de dezembro de 2012 no local remanescente das antigas baias dos carroceiros. A abordagem da Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte – URBEL - sobre os carroceiros das vilas está baseada nas diretrizes do “Projeto Correção Ambiental e Reciclagem com Carroceiros”10, ou, simplesmente, Projeto Carroceiro, criado em 1997 pela Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com a Faculdade de Veterinária da UFMG. Em sua atividade local, a URBEL está atuando no sentido de criar uma Associação de Carroceiros das Vilas São Tomás e Aeroporto. A partir da pesquisa etnográfica realizada nas vilas desde novembro de 2011, foi possível identificar diferentes fases do processo de intervenção do programa de urbanização. Em determinados momentos os membros do Programa Cidade e Alteridade: Convivência Multicultural e Justiça Urbana estiveram em contato mais próximo com os carroceiros. Entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013, um dos pesquisadores residiu na Vila São Tomás para a imersão etnográfica, o que aumentou a frequência de contatos diretos com os carroceiros. 10 Disponível em http://www.vet.ufmg.br/pesqextensao/projetos/14/>. Acesso em: 23/12/2013. 23 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Assim como entre os carroceiros descritos na etnografia de Pissolati, as seguintes características foram verificadas: o zelo pela própria autonomia e controle sobre o ritmo e tempo de trabalho, além de uma organização social e territorial fluida. Esses fatores dificultam bastante a proposta de criação da Associação de Carroceiros, pois esta cria uma relação burocrática estabelecida não somente entre os carroceiros e o Estado, como também estimula a burocratização das relações entre os próprios carroceiros. Sendo o projeto totalmente idealizado e executado pela URBEL em conjunto com a empresa Assessoria Social e Pesquisa – ASP, que presta serviços terceirizados para a Coordenação Social da intervenção da URBEL, verifica-se a necessidade de atenção para que a proposta seja de fato apropriada pelos carroceiros, caso eles queiram dar continuidade à entidade de representação frente ao poder público. Os carroceiros das Vilas São Tomás e Aeroporto utilizarão a Unidade de Recebimento de Pequenos Volumes - URPV localizada na Av. Washington Luiz, 945, na divisa entre a vila Aeroporto e o bairro São Bernardo. A unidade funciona das 08h às 17h de segunda à sexta e aos sábados das 08h às 12h e fica próxima às baias provisórias atualmente utilizadas pelos carroceiros. Ainda que não esteja definido exatamente o local das baias definitivas, a expectativa é que estejam próximas ao local onde hoje funcionam as provisórias. 4.2 A organização dos carroceiros em meio a um contexto de inseguranças Após algumas visitas recentes ao campo, momento em que aconteceram conversas com os carroceiros do São Tomás, obteve-se a informação de que as reuniões entre a Urbel e os carroceiros foram iniciadas em julho de 2013, época em que passaram a ser convocados quinzenalmente às quintas-feiras às 18h no posto da Urbel do São Tomás. Percebe-se hesitação e desconfiança dos carroceiros na relação com o Poder Executivo, o que envolve muitos aspectos, e muitas vezes é difícil que haja um real diálogo sobre os interesses mútuos e os antagônicos entre os carroceiros e o poder público. 24 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] No dia 19 de dezembro de 2013 um dos membros da equipe acompanhou uma dessas reuniões realizadas quinzenalmente às quintas-feiras. Nem a URBEL nem os próprios carroceiros sabem dizer, por exemplo, quantos carroceiros existem atualmente nas vilas São Tomás e Aeroporto. Sabe-se que muitos deles foram removidos de suas casas pela intervenção e, a suposição é de que muitos tenham migrado para outras regiões da cidade ainda não afetadas por ações de urbanização. As declarações imprecisas estimam a presença de cerca de 20 carroceiros no processo da criação da Associação. É preocupante o fato de o poder público estar desenvolvendo um modelo de cidade-metrópole em que a atividade dos carroceiros seja desestimulada. De acordo com as informações expostas em entrevista realizada com a Coordenação Social da intervenção no São Tomás no dia 11 de dezembro de 2012, a questão dos carroceiros é nova nas atividades relacionadas ao Programa Vila Vila: A cidade adotou, a cidade no modo geral, adotou uma política assim, que uma metrópole não se adéqua muito com a ideia dos carroceiros. Que é uma atividade que vai se extinguir por ela mesma. A São Tomás e a Vila São José, que é aquela lá, que é outra vila viva que você conhece, aqui a realidade dos carroceiros é completamente diferente, grande número de pessoas vive dessa atividade aqui. Então a gente conseguiu levar essa discussão e transformar numa proposta concreta pra cá. Então o que eu tive até o momento, e vi meus outros colegas de coordenação de vila viva ou mesmo da estrutura da urbel perceberem que precisa acertar. 11 Até mesmo pela baixíssima adesão por parte dos carroceiros à regulamentação e legalização propostos pela PBH e UFMG, o poder público parece estar alheio à dimensão e à importância do ser carroceiro na cidade de Belo Horizonte. Portanto, talvez seja esse o motivo que legitime a modificação da atuação da SLU sobre a atividade carroceira: 11 Entrevista gravada realizada em dezembro de 2012. 25 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Hoje há uma diretriz de governo não mais de incentivar a atividade carroceira, que já foi altamente incentivada. A SLU tinha uma série de projetos voltada para a questão dos carroceiros, que hoje estão sendo desarticuladas, assim, numa lógica de que assim: que há uma metrópole, sim, entendo por uma metrópole, mas tem lugares em que a atividade sobrevive fortemente, como é o caso aqui do São Tomás, né. 12 A proposta de criação da Associação partiu da URBEL, e não dos carroceiros. Como estes não compartilham do interesse do poder público na associação, ao menos até agora, os questionamentos costumam ser sobre questões práticas que extrapolam os limites definidos pela equipe da URBEL sobre o propósito de tais reuniões. Na reunião do dia 19, por exemplo, em que a pauta única seria a definição dos nomes a ocupar a primeira diretoria da Associação, por vezes as questões colocadas por parte dos carroceiros eram sobre “quanto irão pagar pelas baias”, “quais taxas precisarão pagar”, “se vão precisar dar dinheiro para o governo”, etc. Contudo, a reunião foi diversas vezes reconduzida no sentido de atender ao objetivo inicial, a escolha dos titulares e dos suplentes dos três cargos que serão criados: Coordenação, Tesouraria e Secretaria. Além desses três cargos, a reunião deveria definir ainda dois membros para comporem o Conselho Fiscal, o que provocou grande alvoroço entre os participantes da reunião, que rejeitaram completamente a proposta, dizendo que aquilo era um absurdo: “colocar uns pra vigiar os outros não dá! Dá é morte!” ou “Eu quero saber é o preço. Só saber o valor e sair”, “eu não vou fazer nada nessa tal de associação, só vou fazer até receber as baias e depois não quero nem saber mais disso”. A funcionária que conduzia a reunião explicou repetidas vezes que a ASP realizará todo o processo de registro sem qualquer custo para os carroceiros e que a empresa dará assessoria ao funcionamento da Associação ao longo dos primeiros seis meses. Na reunião composta por 3 funcionárias da ASP, 12 carroceiros e um pesquisador, ocorreu a definição dos 6 nomes para os cargos da diretoria da 12 Entrevista gravada realizada em dezembro de 2012. 26 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] associação e de 2 possíveis nomes para a composição do Conselho Fiscal. Ficou definido também que a próxima reunião, marcada para o dia 9 de janeiro de 2014, seria também a Assembleia de Fundação da Associação. 5. INTERPRETAÇÕES SOBRE A REALIDADE DAS REMOÇÕES As vilas São Tomás e Aeroporto, por causa do Programa Vila Viva, estão sofrendo intensas transformações espaciais. Nesse processo, muitas residências estão sendo desapropriadas por estarem nas margens do córrego Pampulha, ou em área de risco de alagamento ou de risco geológico ou ainda para a abertura/alargamento do sistema viário. A previsão de remoção no Plano Global Específico (PGE) foi diversa daquela executada quando do início da obra em 2011. O PGE (BELO HORIZONTE, 2001b), previu as remoções num total de 530 domicílios13, como aponta o Quadro 01 abaixo: Quadro 01 - Quadro resumo de relocação (nº de domicílios) das Vilas São Tomás e Aeroporto 13 A metodologia utilizada nos Planos Globais Específicos para definição de domicílios (Vilas São Tomás e Aeroporto) não são claras. Compreende-se que o que se definiu por domicílio foi a unidade que seria objeto de remoção com direito ao reassentamento individualizado. Em muitos casos, houve relatos de moradores que discordavam dos critérios da Urbel em definir esta “unidade” que seria objeto de indenização, por desconsiderar, por vezes, filhos que moravam em habitações construídas no mesmo terreno como uma unidade separada. Assim, a própria falta de metodologia clara da Urbel nestas distinções nos impossibilita de definir estes conceitos conforme parâmetros próprios, mas nos indica que os números ali fornecidos contabilizam o que eles compreendem por família ou domicílio, ou seja, a unidade a quem eles atribuíram o direito ao reassentamento individualizado. 27 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fonte: PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE, 2001b. Porém, após as adaptações a fim de adequar o PGE de 2001 ao projeto executivo, as previsões de remoções nas Vilas São Tomás e Aeroporto superam o total de 1230 famílias (PORTAL PBH, 2012). Sendo assim, o número de remoções estimado corresponde a mais de 30% do total de domicílios das vilas. Diante disso, busca-se compreender como se dá o processo de remoção, quais as consequências e, além disso, qual a pertinência dessas desapropriações. Nas vilas São Tomás e Aeroporto, os moradores já desalojados foram comunicados da desapropriação pela URBEL com antecedência, tiveram tempo para procurar outra moradia e receberam a indenização antes de se mudarem. Isso representa uma mudança positiva de postura em relação ao processo de remoção aplicado em outras vilas da cidade. O trecho da entrevista citado ilustra tal questão: 28 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Entrevistador: como é que foi a mudança assim? Você falou que não demorou... que vocês não tiveram que sair correndo, vocês tiveram tempo então... Morador A: a gente teve tempo pra poder sair. Entrevistador: você chegou a ficar no aluguel, até destruir a casa? Morador B: a gente procurou a casa, eles deram tempo pra gente procurar, arrumar lá tudo direitinho. Ai a gente marcou o dia da mudança, Entrevistador: ai o dia que vocês mudaram eles pagaram ou não? Morador B: não, eles pagam antes. Eles pagam antes e dão 10 dias pra você poder sair. Só que a gente demorou mais que 10 dias pra sair. Morador 3: ahhh.. eles avisaram, foram lá em casa, avisou, marcou com a gente, fez reunião com a gente, eles avisaram direitinho, né, eles avisaram, né. Ai quando foi na data certa, a gente tava procurando um lugar, porque os meninos da C. estudam, né, e trabalham tudo por aqui, né, e acostumaram aqui e num aceitaram mudar pra fora, né, então a gente queria ficar era por aqui né, já tava tudo acostumado, todo mundo ai, né, queria era ficar por aqui mesmo, né. 14 A forma de lidar com o morador tem mudado, porém um grave problema no processo de remoção, constatado ao longo da pesquisa, ainda permanece: não há uma continuidade na execução do plano de demolição, o que tem gerado violações de direitos dos moradores das vilas. A derrubada de cada casa é iniciada assim que a forma de compensação é negociada com a família, ou seja, este processo não é homogêneo. O que tem ocorrido nas vilas São Tomás e Aeroporto é a permanência de famílias aguardando a indenização em meio a quarteirões total ou parcialmente destruídos (Fotografia 03 e Fotografia 04). Isso cria uma situação de insegurança. A demolição das casas somente poderia ocorrer quando todas as famílias definidas para remoção já tivessem se mudado. 14 Entrevista gravada realizada em dezembro de 2012 29 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fotografia 03 – Demolições parciais Fonte: Pesquisadores de campo 30 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fotografia 04 - Demolições parciais Fonte: Pesquisadores de campo Além dos problemas presentes no processo, há consequências sociais e espaciais posteriores às remoções já detectadas nas vilas São Tomás e Aeroporto. A insatisfação é demonstrada pelos entrevistados sobre as consequências das remoções para suas relações sócio-afetivas. Alguns entrevistados ao serem indagados sobre amigos e familiares que possuíam nas vilas São Tomás e Aeroporto se emocionavam. Os moradores que permanecem nas vilas sofrem com a quebra dos laços sociais. Quem é removido precisa se readequar a novos territórios, com os quais não possui qualquer identidade. A remoção é acompanhada por uma reconstrução do espaço e, consequentemente, uma ressignificação. Esse processo, quando promovido por uma política pública padronizada ou homogênea, desconsidera os significados prévios atribuídos ao território. Ocorre a imposição de uma nova forma de compreensão do espaço e das relações, segundo o modelo implantado. Nas vilas São Tomás e Aeroporto é perceptível o processo de homogeneização da paisagem e de quebra da identidade. Considerando todos esses impactos causados nas vilas durante e depois das remoções, questiona-se a indispensabilidade desse processo. As intervenções do programa Vila Viva se baseiam no diagnóstico e propostas feitas pelo Plano Global Específico (PGE). No caso das Vilas São Tomás e Aeroporto, o PGE foi finalizado em 2001. As justificativas para os desalojamentos apresentadas no PGE foram: risco de inundação, risco geológico e abertura/ alargamento do sistema viário. Para o presente trabalho, foi realizada uma comparação entre imagens de satélite que mostram as áreas onde as construções já foram removidas e mapas do PGE que justificariam as remoções. A imagem de satélite feita em junho de 2009 (IMG. 01) mostra a situação das vilas antes do início das intervenções do programa Vila Viva. Havia uma alta densidade e muitas residências nas margens do Córrego Pampulha. As imagens de junho de 2012 (IMG. 02) e agosto de 2013 (IMG. 03), feitas durante as 31 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] obras, ressaltam a dimensão e velocidade das intervenções no território. Foram identificadas grandes áreas das vilas ocupadas majoritariamente por residências que ficaram vazias em um curto espaço de tempo. O contorno dessas áreas identificadas nas imagens de satélite foi representado nos mapas do PGE a seguir que justificariam as remoções. Mas, ao comparar o Plano com as remoções realizadas até agosto de 2013 evidencia-se um descompasso entre os argumentos técnicos e a situação das vilas, ou seja, áreas foram desapropriadas sem que houvesse uma justificativa no PGE. Imagem 01 – Vilas São Tomás e Aeroporto antes das intervenções do Vila Viva - 2009 Fonte: Adaptado de GOOGLE EARTH, 2009 32 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Imagem 02 - Vilas São Tomás e Aeroporto durante as intervenções do Vila Viva – 2012 Fonte: Adaptado de GOOGLE EARTH, 2012 Imagem 03 – Vilas São Tomás e Aeroporto durante as intervenções do Vila Viva – 2013 Fonte: Adaptado de GOOGLE EARTH, 2013 O Diagnóstico do PGE (BELO HORIOZNTE, 2001a) definiu as zonas críticas de risco e insalubridade com base no mapa geotécnico e de declividade do terreno (MAP. 01) e no mapa de graus de risco (MAP. 02). A partir disso, foram 33 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] definidas as casas que deveriam ser removidas, as casas que poderiam permanecer no local com a necessidade de intervenção e, por fim, as casas que não sofreriam intervenção. O Mapa de zonas críticas para intervenção/consolidação (MAP. 03) mostra que as casas situadas nas margens do córrego Pampulha deveriam ser removidas devido à ocorrência de inundação, de solapamento e por causa do alto índice de insalubridade. As demais áreas de risco e insalubridade deveriam sofrer uma reestruturação urbana com a implantação de obras de pavimentação, esgotamento sanitário e contenções (BELO HORIZONTE, 2000). A sobreposição do contorno das grandes áreas modificadas pelo Vila Viva até agosto de 2013 com os mapas a seguir mostra que, em determinados lugares, não havia necessidade de remoção segundo estes itens analisados. Mapa 01 - Mapa geotécnico e de declividade do terreno Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2000 34 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Mapa 02 - Mapa de graus de risco Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2000 Mapa 03 - Mapa de zonas críticas para intervenção/ consolidação Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2001a O mapa de drenagem identifica a área de risco iminente por alagamento e também a área alagável no período de chuva. Na primeira há possibilidade de destruição imediata de moradias, não sendo necessário para isto chuvas elevadas em termos de duração e/ou intensidade. Já a área alagável é a: delimitação da área atingida pelo córrego anualmente nos períodos de chuvas fortes, de Dezembro a Fevereiro, ficando apenas as casas 35 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] marcadas na primeira faixa em situação de risco. Apenas uma enchente em 1989 colocou toda esta área em situação de risco, encobrindo a maior parte das casas. (BELO HORIZONTE, 2000, p. 76) Nesse sentido, a área alagável não corresponde às casas que devem ser removidas. Essas são áreas que precisariam de intervenção para que as casas nelas localizadas permanecessem (MAP. 04). Além do transbordamento do córrego Pampulha, outra razão para alagamentos no período de chuvas fortes é o subdimensionamento da rede de drenagem ou do tamanho e quantidade das “bocas de lobo” (BELO HORIZONTE, 2000). Assim, os pontos críticos estão nas margens do córrego e próximo às linhas de drenagem principais. Mapa 04 - Mapa de Drenagem Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2000 Segundo a Urbel, a maioria das remoções previstas na região se tornou necessária em função das enchentes. Anualmente, as comportas da barragem da lagoa da Pampulha são abertas e o Córrego do Onça inunda a região. Além das perdas materiais sofridas pelas famílias, muitos relataram a ocorrência de mortes. A partir das entrevistas ficou claro que o principal problema enfrentado pela comunidade é a enchente. Segundo os moradores, aqueles que moravam 36 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] nas proximidades do córrego sofriam em épocas das chuvas, preocupados em garantir a segurança de seus familiares e em recuperar seus bens após as inundações. Num volta depois, né, a geladeira quando estraga assim num volta depois, né? Graças a Deus a minha ainda não estragou (risos), mas eu perdi máquina, tanquinho, microondas, porque foi de madrugada, muito de repente, igual eu te falei, como eu tenho pai e mãe por perto e meu irmão é cadeirante, então eu fiquei mais preocupada em ajudar eles do que a mim mesmo, né, porque as minhas meninas eu tirei daqui e pronto, mas a água subiu tanto que eu num conseguia me tirar eu e meu irmão daqui... Ele ficou preso ali numa casa de dois andares, que é na vizinha do lado, né?! Que deu apoio pra gente lá". 15 Da última vez a água veio na minha casa, esse ano ainda, né...? Foi, esse ano não. Final do ano passado, novembro!? Esse sofá que cê tá vendo aqui ficou pura água... As duas televisão que a gente tinha, não sobrou nenhuma, tivemos que comprar outra, então, assim, isso aqui é lavado cê pode ver que o cheiro tá suportável... A marca, isso aqui ó... É de água, então, assim, é muito triste cê ver a sua casa cheia d’água, a geladeira flutuando... Né? 16 - Eles resolveram acabar com isso aqui porque era uma vergonha, isso aqui é uma vergonha. (...) Eu nunca tive um ano de sossego nesse lugar, em trinta e tantos anos. Aqui quando dá fim de ano você não pode viajar, você tem que ter cavalete com três metros de altura pra você guardar suas coisas, você não pode ter nada que presta aqui não. Foi trinta e tantos anos nesse sofrimento. 17 - Aquelas chuvas mais pesadas, ai... isso aqui já foram... já ceifaram vidas ai nesse córrego ai. Ultimamente não é tanto, mas sempre teve essa inundação. 18 15 Entrevista moradora do São Tomás-Aeroporto, 2012. 16 Entrevista com moradora, no São Tomás-Aeroporto, 2012. 17 Entrevista com morador, no São Tomás-Aeroporto, 2012. 18 Entrevista com morador, na Vila São Tomás-Aeroporto, 2012 37 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] - Tinha muita enchente ali embaixo né, enchia muito, a água ali em baixo subia um metro, um metro e meio. A minha mãe morava ali antes de chegar aquela ponte. A casa da minha mãe quantas vezes já não encheu? Nossa, dava dó demais ver aquele pessoal todo sair correndo de um lado pro outro. 19 Observou-se que a opção pelas remoções foi maciça neste local, poucas casas que compunham o todo da vila permanecerão. O aumento do número de remoções ocorreu com pouca resistência dos moradores, fato que foi atribuído a inevitabilidade da intervenção devido ao grave problema das enchentes. Ressalta-se que historicamente a enchente não atingia as vilas por completo. Existem áreas de risco nas vilas, porém, essas áreas não compreendem toda a região do São Tomás e Aeroporto. Faz-se necessário ressaltar esse fato, pois a partir das entrevistas, foi possível perceber certa falta de compreensão dos moradores quanto ao motivo da remoção: Quando enchia, a água chegava a uns 5 metros, não chegava aqui. Ai o quê que acontece, se é São Tomás, é risco. O que eles tinham de fazer à época era se preocupar com o córrego, ou é baixar o nível ou fazer uma contenção de concreto do lado e do outro, que ai o pessoal que tava lá, não ia ter problema nenhum. Mas ai eles põe S. Tomás inteiro.... 20 Nesse sentido, a sobreposição do contorno das grandes áreas modificadas pelo Vila Viva até agosto de 2013 com os mapas de Drenagem, reforça a ausência de justificativa técnica para as remoções em alguns lugares. E, mesmo nas áreas alagáveis, há outras soluções que não a remoção: ampliação da rede de escoamento de águas pluviais, redesenho do trajeto das redes de drenagem, construção de contenções para água pluvial, etc. 19Entrevista com trabalhadora do Salão de Beleza, no São Tomás-Aeroporto, 2012. 20Entrevista com moradora do São Tomás-Aeroporto, 2012 38 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] O padrão construtivo das residências poderia ser usado como justificativa para as remoções. Mas, dados apresentados no PGE (BELO HORIZONTE, 2000) mostram que apenas 8,02% das edificações das vilas São Tomás e Aeroporto possuem padrão construtivo ruim. Em mais da metade dos casos, o padrão é bom (QUA. 02). Quadro 02 – Padrão Construtivo dos domicílios nas vilas São Tomás e Aeroporto Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2000 A ampliação da rede viária foi prevista no PGE para melhorar a acessibilidade e as possibilidades de articulação. As obras para abertura e alargamento das vias também são usadas como justificativa para remoções. No mapa final de Propostas do PGE (MAP. 05) é possível analisar o sistema viário sugerido. Ainda assim, certas desapropriações realizadas até agosto de 2013 permanecem sem justificativa técnica. 39 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Mapa 05 – Mapa Propostas PGE Fonte: Adaptado de BELO HORIZONTE, 2001b O mapa a seguir representa o conjunto de todas as áreas que deveriam obrigatoriamente ser desapropriadas de acordo os estudos e propostas apresentados no Plano Global Específico das vilas São Tomás e Aeroporto. Além disso, foi feita a delimitação das grandes áreas que, até agosto de 2013, sofreram remoção. Percebe-se a ausência de justificativa técnica para a demolição de casas na área amarela do mapa (MAP. 06) Mapa 06 – Mapa Remoções nas Vilas São Tomás e Aeroporto Fonte: Adaptado de GOOGLE EARTH, 2013. As grandes remoções ocorridas até agosto de 2013 podem ter sido definidas no Projeto Executivo, contudo não se justificam plenamente por meio dos estudos e propostas do Plano Global Específico. Poderia o Projeto Executivo propor remoções sem o embasamento no PGE? Considerados todos os impactos negativos das remoções conhecidos e expostos nesse relatório, conclui-se que algumas áreas não precisariam ser desapropriadas, podendo a administração municipal lançar mão de outros recursos, evidenciando, portanto, iniciativas evitáveis e a necessidade de haver uma condução mais transparente das decisões tomadas e adequada a realidade de cada área alvo das intervenções. 40 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS O Programa Vila Viva representa parte do modelo de Política Habitacional, voltado para cumprir a função social da cidade de Belo Horizonte, contemplando atualmente doze comunidades21. Os resultados da pesquisa desenvolvida pelo Programa Cidade e Alteridade tem demonstrado que existe uma lacuna entre as proposições apresentadas pelo Vila Viva e a realidade dos processos de intervenção urbana realizadas nas comunidades. As percepções coletadas a partir de entrevistas realizadas com moradores e as observações de campo demonstram haver necessidade de se avaliar melhor a concepção de participação aplicada pelo Vila Viva. Verifica-se haver uma padronização das fórmulas de mobilização, planejamento e das ações, sem que as peculiaridades de cada comunidade sejam consideradas. A participação aplicada via Grupo de Referência tende a segmentar a comunidade, gerando distinção entre os moradores, abrindo canal de interlocução com representações que nem sempre possuem legitimidade ou de fato se comprometem com a diversidade do local e com posições diferenciadas existentes entre os moradores. Verifica-se que nas comunidades tem ocorrido situações de tensão decorrentes exatamente desses procedimentos aplicados na implantação do Vila Viva. Dentre as questões estruturais relativas à habitação, evidencia-se: o reassentamento das famílias em prédios, sem levar em consideração a quantidade de pessoas a serem alojadas em cada espaço construído; a desconsideração dos padrões tradicionais de moradia adotados pelos moradores; a remoção de famílias para outras localidades com indenizações insuficientes, definidas pelas benfeitorias, sem considerar a posse dos imóveis. 21 Informações disponíveis em: http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPo rtal&app=urbel&tax=8178&lang=pt_BR&;pg=5580&taxp=0&. Acesso em 10 de dezembro de 2013. 41 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] As relações sociais são profundamente afetadas em função das rupturas geradas pelo deslocamento das famílias, rompendo laços de vizinhança e alterando a dinâmica do social existente, devido também ao tipo de moradia implantado. Aspecto importante constatado na pesquisa de campo é a falta de integração entre as políticas públicas por parte da administração municipal. Parece haver uma focalização nas intervenções, sem que outras demandas sociais das comunidades sejam atendidas ou consideradas como parte do processo que envolve as demolições, a construção das novas moradias e abertura de vias. Os entulhos expostos por longo tempo afetam a segurança das localidades, dificulta os deslocamentos e favorece a exposição dos moradores a doenças pelo acúmulo de água, lixo e animais. O acompanhamento dos moradores no pré e pós-morar precisa ser aprimorado, podendo ser definido pela integração de políticas e, consequentemente, de secretarias municipais atuando pelo bem estar da população. O ideal seria que fossem contemplados nas intervenções aspectos sociais, de saúde, esporte e lazer, cultura, educação, dentre outras áreas que compõem o conjunto da vida das famílias nas localidades afetadas pelas obras de urbanização. O monitoramento proposto por meio do Programa de Assentamento de Famílias Removidas em Decorrência de Execução de Obras Públicas (BRASIL, 1998) precisa ser melhor analisado. A análise da efetividade e eficácia desse programa demandaria um estudo sobre a real situação das famílias removidas22. Diante desse quadro, podem ser desenvolvidas ações no sentido de assegurar o direito coletivo das famílias. No que toca às remoções já realizadas em função do Vila Viva, poderiam ser avaliadas possibilidades de indenização como forma de compensar as famílias pela não observância de seus direitos. No que diz respeito às obras do Vila Viva na cidade de Belo Horizonte o MP-MG, em defesa do direito social à moradia e, também da ordem urbanística 22 O Programa Cidade e Alteridade possui projeto elaborado para realização do estudo a ser desenvolvido em parceria com o Laboratório de Estudos Socioterritoriais do Instituto de Geociências da UFMG e a Escola de Arquitetura. 42 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] como direito difuso, pode ajuizar ações civis públicas voltadas para a regularização fundiária de áreas de interesse social. Há dois instrumentos de regularização fundiária que podem ser objeto de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) entre o MP-MG e a Prefeitura de Belo Horizonte como forma de proteger o direito à moradia de interesse social de famílias carentes. Esses instrumentos estão previstos na Lei 11.977/2009 e são denominados demarcação urbanística e legitimação da posse. A primeira constituí-se como a delimitação de uma área ocupada e consolidada para fins de moradia de interesse social. A segunda é um instrumento que reconhece a posse de moradores de áreas objeto de demarcação urbanística. Na dicção da Lei n. 11.977/2009 veja-se o conceito desses instrumentos: Artigo 46 – A regularização fundiária consiste no conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais e sociais que visam à regularização de assentamentos irregulares e à titulação de seus ocupantes, de modo a garantir o direito social à moradia, o pleno desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. III – demarcação urbanística: procedimento administrativo pelo qual o poder público, no âmbito da regularização fundiária de interesse social, demarca imóvel de domínio público ou privado, definindo seus limites, área, localização e confrontantes, com a finalidade de identificar seus ocupantes e qualificar a natureza e o tempo das respectivas posses; IV – legitimação de posse: ato do poder público destinado a conferir título de reconhecimento de posse de imóvel objeto de demarcação urbanística, com a identificação do ocupante e do tempo e natureza da posse A demarcação urbanística e a legitimação da posse, instrumentos que têm utilidade complementar, podem funcionar como instrumentos de publicidade às posses identificadas e qualificadas, por meio de atribuição de título pelo poder público registrado no cartório de imóveis. 43 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] A regularização fundiária, dessa forma, deveria ser prévia a qualquer tipo de intervenção por parte da Prefeitura de Belo Horizonte, e não somente após as obras do Programa Vila Via com a titularização de quem conseguiu uma unidade habitacional na própria comunidade, pois, do contrário, grandes parcelas sociais tem seu direito à moradia e à cidade violados. As ações do Vila Viva no São Tomás e Aeroporto estão quase chegando ao fim, agora, além dos resultados das intervenções para a população, esboça-se o quadro do pós-morar. Trata-se de atingidos diretamente por intervenções de urbanização e regularização fundiária, envolvendo reassentados nas próprias localidades em novas moradias, fora do padrão tradicionalmente experimentado pelos moradores e uma quantidade significativa de famílias indenizadas, removidas, hoje sem acompanhamento sobre condições de realojamento e de vida, em termos ao acesso a serviços. Ainda que a intervenção tenha sido iniciada em 2011, somente em julho de 2013 os carroceiros foram informados oficialmente sobre a proposta da criação da Associação de Carroceiros para que, por meio dela, estejam regulamentados e com acesso às baias definitivas, que ainda não foram construídas. O contexto de mudanças trazido pelo empreendimento pode intensificar ainda mais a situação de incertezas por parte dos carroceiros, já que a coexistência de práticas rurais e urbanas – ou práticas rururbanas – são vistas como se estivessem em vias extinção por grande parte da população que vive em grandes centros e também por parte do poder público. Agora, com o bairro reurbanizado, a situação de marginalidade simbólica e geográfica pode acabar sendo agravada, caso não sejam tomadas medidas que garantam aos carroceiros o direito à cidade. 44 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Fotografia 5. Foto tirada dia 13 de dezembro de 2013 nas baias provisórias construídas pela URBEL. Ainda que a intervenção esteja na reta final, inclusive com a entrega de 8 Unidades Habitacionais – UH -, a situação dos carroceiros permanece incerta, cheia de expectativas e hesitações por parte dos carroceiros e também por parte do poder público. Cabe salientar ainda que a Relatoria Especial das Nações Unidas para o Direito à Moradia recomenda que o conceito de moradia deva incorporar habitabilidade, não discriminação, priorização de grupos vulneráveis e adequação cultural. Percebe-se que o conceito usado pela Prefeitura de Belo Horizonte, prioriza pontos tais como disponibilidade de serviços, infraestrutura e equipamentos públicos, porém, essa ênfase é dada aos reassentados nas Unidades Habitacionais, que são compostas pela menor parte dos atingidos pelas intervenções. A nova moradia deve estar localizada o mais próxima possível do local original, bem como das fontes de meios de subsistência ou outra solução pactuada. A adequação cultural e as tradições do grupo devem ser respeitadas. (ONU, 2011, p. 26) 45 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] Por fim, ainda de acordo com a relatoria, a diversidade local deve ser respeitada e integrada às obras interventivas, caso elas sejam inevitáveis, a partir da manutenção ao acesso aos meios de subsistência, inclusive acesso à terra, infraestrutura, recursos naturais e ambientais, fontes de renda e trabalho” (ONU, 2011). A recomendação indica a redução do impacto sobre as vidas das pessoas pelo “uso de materiais, estruturas e organização espacial de acordo com as preferências e necessidades culturais dos moradores (ONU, 2011). 46 Avenida João Pinheiro, nº 100, Prédio 01, 5º andar, sala 512 – Centro – Belo Horizonte, MG / CEP: 30.130-180. E-mail: [email protected] REFERÊNCIAS BELO HORIZONTE. Secretaria Municipal de Habitação. Plano Global Específico do Aglomerado São Tomás / Aeroporto, Vilas Suzana I e II e Vila São Miguel. Etapa 02 – Levantamento de dados, 2000. BELO HORIZONTE. Secretaria Municipal de Habitação. Plano Global Específico do Aglomerado São Tomás / Aeroporto, Vilas Suzana I e II e Vila São Miguel. Etapa 04 – Diagnóstico, 2001a. BELO HORIZONTE. Secretaria Municipal de Habitação. Plano Global Específico do Aglomerado São Tomás / Aeroporto, Vilas Suzana I e II e Vila São Miguel. Etapa 05 - Propostas e Hierarquizações, 2001b. BRASIL, Lei nº 7597 de 6 de novembro de 1998. 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