Tema: A ESCOLA APRENDENDO COM AS DIFERENÇAS.
A DIVERSIDADE NA ESCOLA
Quando entrei numa escola, na 1ª série, aos 6 anos, tinha uma alegria
verdadeira com a visão perfeita, não sabia ler nem escrever, mas lá mesmo aprendi
coisas que não esqueço mais. Lembro que lá não havia deficiente. Acredito que
naquela época não havia deficiente na escola porque antigamente as pessoas não
aceitavam crianças com deficiência estudando junto com os outros que não tinham
deficiência. Mas pode ser também porque não havia tantos deficientes ou porque os
professores não sabiam trabalhar com esses deficientes. Então os cegos ficavam
parados, quietos. Os que tinham defeitos físicos ficavam sem fazer nada e assim por
diante. Mas, hoje tudo mudou. As escolas aceitam deficientes junto com os normais,
pois já perceberam que eles têm capacidade de aprender como os outros, cada um
aprendendo na sua hora e do seu jeito.
Entre a 1ª e 2ª série, minha vida na escola foi maravilhosa, eu
conseguindo fazer de tudo sem dificuldades, estudando bem, escrevendo letras
bonitas, lendo as leituras normalmente, igual aos outros colegas. Mas foi daí pra
frente que meus problemas começaram.
Minhas letras começaram a ficar feias porque eu escrevia com o lápis
deitado e as letras ficavam tortas. Sem poder quase enxergar pela distância do
quadro na sala de aula, chegava minha mesa mais próxima ao quadro, ficava lendo
devagar nos livros ou cadernos, sem notar os pontos, confundindo palavras e letras.
Mesmo assim, foi preciso continuar a estudar como meus colegas.
Foi aí que minha professora, a Julieta, notou que parecia que eu estava
com algum problema, pelo fato que eu escrevia letras feias, apresentando
dificuldades de leitura. Então ela se preocupou. Os outros professores, os
pedagogos e a diretora também se preocuparam, e se apressaram para marcar as
consultas com o médico de vista.
Foram marcadas muitas consultas por causa disso. Até essa minha
professora e a pedagoga já foram juntos a Vitória, fazer consulta, para saber como
eu poderia ler e escrever no caderno. A médica orientou que era preciso utilizar
recursos especiais para eu estudar, pois tinha atrofia do nervo óptico e iria perder
toda a visão, com o tempo. Ela explicou pra nós que eu deveria ter cadernos
grandes e fazer linhas mais grossas.
Por isso, todas as noites, meu pai fazia linhas no meu caderno para que,
na escola, eu pudesse escrever como a médica orientou. E assim eu escrevia com
lápis grafite seis, que tinha a ponta grossa, e cadernos com linhas grandes, que na
quarta série passei a ganhar na escola. Eram cadernos com folhas mais grossas
que já vinham também com linhas mais grossas.
No início, a professora pensava que ia ser muito difícil trabalhar comigo,
não sabia como me avaliar, mas depois dessa orientação da médica, quase tudo
ficou mais fácil. Pois a professora percebeu que ela só precisava fazer algumas
modificações no jeito de ensinar e de preparar os materiais para mim, que não seria
tão difícil assim.
Para tudo melhorar, quando passei para 3ª série, quase na metade do
ano a escola percebeu que eu precisava de uma pessoa para me auxiliar. Veio,
então, a Ilzilete, uma professora que ficava dois dias da semana comigo me
orientando nas atividades. Quando fui para quarta série, ela passou a ficar todos os
dias para me ajudar. Assim, as aulas mudaram comigo. Ela escrevia no meu
caderno e eu respondia o que estava escrito.
Ainda na 4ª série, fui a Brasília, para fazer outras consultas médicas.
Então as enfermeiras e médicas depois de conseguir diagnosticar todos os
problemas do meu olho, disseram que não tinha cura meu problema, que eu tinha
que aprender o Braille e não podia continuar forçando meu olho escrevendo e lendo,
pois faria muito esforço e acabaria prejudicando ainda mais minha vista.
Quando passei para 5ª série, já não estava enxergando quase nada. Os
professores não sabiam também como eu ia estudar, pois já não enxergava mais as
letras, mesmo quando eram escritas grandes. Mas eu não desisti. Da mesma forma
que eu estudei até a quarta série, passei a estudar nesta série também. Haviam
algumas diferenças, pois os colegas se reuniam comigo para me ajudar quando
tinha algum trabalho de escola e nos deveres. E para eu ir e voltar da escola, dentre
todos estes bons colegas, havia um que me ajudava, com paciência e boa vontade.
Era o Thainan que desde o início do ano me ajudava. E também era acompanhado
por outra professora para ficar comigo na sala de aula me auxiliando nas atividades.
Então minhas aulas mudaram porque foi aí que eu aprendi a usar o
braille para ler e escrever, usando o reglete. Também aprendi a usar o soroban para
fazer as contas e outros materiais que eu ainda tinha de aprender a usar.
No recreio eu era ajudado por colegas que pegavam merenda pra mim,
me conduziam ao banheiro e a outros lugares até eu me acostumar a andar sozinho
pela escola. Alguns poucos colegas ficavam comigo no recreio. Mas o que eu
gostava mesmo de fazer quando estava sem companhia, era de andar no pátio todo.
Nas aulas de educação física, eu participava das atividades junto com os
colegas. A professora sempre preparava aula de acordo com o que eu pudesse
participar. Aprendia a fazer as atividades, que eram variadas cada vez mais.
Na 6ª série comecei a ter aulas especiais no núcleo de educação
inclusiva do município. A professora que trabalhava lá era a mesma que me
acompanhava na escola, a Nilzeti. Lá aprendi a usar melhor o soroban, para ter mais
facilidade em resolver as operações, potências, mínimo múltiplo comum e outros
conteúdos de matemática. Aprendi a usar também a máquina perkins, o notebook
com dosvox para eu fazer meus textos da escola... Eram aulas muito especiais, que
ainda continuo tendo para aprender a viver a vida no dia a dia, de acordo com as
minhas capacidades.
Para eu freqüentar o núcleo, contava com a ajuda da pedagoga
Giovanne e da professora que sempre me buscavam e me levavam de volta para
casa, pois não tinha ninguém da minha casa que pudesse fazer isso.
Depois que eu passei a frequentar as aulas do núcleo, aprendi a utilizar
os pontos do Braille para escrever várias coisas em matemática, e a fazer diversas
outras atividades interessantes como, por exemplo, utilizar muitos programas legais
de computador. Aprendi também a usar a bengala, e muitas outras coisas nas aulas
de atividade da vida diária.
Vejo que, depois que eu passei a ser cego as coisas mudaram na minha
vida e na vida da escola. Como sou o único aluno cego na minha escola chamava a
atenção de todos. Os colegas tinham dúvidas dessas minhas capacidades de ler e
escrever o Braille e de como eu conseguia usar todo o material que eu usava, pois
eram bem diferentes. Como a minha máquina é barulhenta e eu escrevo rápido,
meus colegas riam muito quando meu professor ditava para mim. É que eles não
estavam acostumados com meu jeito de escrever na máquina e com os barulhos
que ela faz a todo momento que eu escrevo.
Tendo só eu de cego na escola, os meus professores não sabiam
trabalhar comigo, meus colegas corriam pela escola sem entender minhas
dificuldades, até que minha professora especializada, que fez vários cursos, foi
ensinando para os professores devagar o Braille, e outras formas especiais de poder
trabalhar comigo. Ensinou para os colegas como andar, brincar ou fazer qualquer
coisa que quiser comigo. Então eles foram vendo que não era difícil.
Meus colegas que gostam muito do Braille, ao terem conhecido um
pouco, pediam para que eu escrevesse para eles. Pegavam uma folha e me davam.
Eles também gostam da máquina perkins. Um colega meu, o Diego, gosta de ficar
apertando os botões da máquina.
Hoje, estou na 7ª série e tudo está maravilhoso. Meus professores são
muito legais, os colegas melhoraram muito, minhas aulas estão melhores e eu
convivo muito feliz na minha escola. Sempre chegam colegas novos, que também
são legais e por isso consigo conviver com todos.
Agora minhas aulas de educação física estão sendo diferentes, é legal do
mesmo jeito, mas as atividades estão sendo diferentes porque mudou o professor.
Hoje eu faço aula sozinho. Enquanto tinha minha bola com guizo, era fácil, mas
agora é bola de basquete que uso e ficou mais difícil. Ainda mais quando a bola cai
da minha mão e rola para o canto e eu não sei onde ela está, fico procurando e
demoro muito pra achar até que alguém me orienta onde está a bola. Porém, a
escola já percebeu minha necessidade e está providenciando outra bola com guizo e
professor especializado também para dar aula de Educação Física para mim.
Quando são aulas de jogos é muito bom. Meus jogos são diferentes dos
outros jogos normais. O xadrez, dama e muitos outros jogos divertidos são todos
preparados de uma forma que dá pra eu jogar com os colegas.
Percebo que, depois da minha chegada naquela escola, muitas coisas
mudaram, agora meus colegas compreendem o que não podem fazer por causa de
mim e as minhas dificuldades, me ajudam no que não consigo fazer sozinho, são
pacientes, eu piso nos pés deles, esbarro, e eles não se importam porque sabem
que eu não vejo eles na minha frente e portanto eu ando com a proteção superior e
inferior com as mãos para não bater. Antes eles não gostavam que eu lhes pisasse,
ou esbarrasse, ficavam com muita raiva.
Como não tem somente eu de deficiente na escola, já chegaram muitos
outros materiais para atendimento de todas as deficiências. Estes materiais são para
a sala multifuncional que vai atender a todos deficientes da escola. Nesta sala serão
atendidos todos deficientes que estudam na escola: visual, que sou eu, cadeirante,
que é uma colega minha da 6ª série, um colega da 5ª série que tem deficiência
intelectual, outro colega que tem paralisia cerebral. Também serão atendidos todos
os alunos deficientes que tem a tarde e que eu não conheço. Esta sala ainda está
sendo montada, mas alguns materiais já foram utilizados com os deficientes da
escola, outras coisas ainda faltam pra utilizar.
Desde o ano passado já haviam colocado corrimão para as escadas e o
pátio. Já compraram a sinalização tátil para o chão, só falta colocar. Já fizeram
rampas para os cadeirantes da minha escola e muitas outras mudanças
aconteceram.
A escola que eu estudo me traz muita alegria, pois os colegas se
compreendem e todos têm paciência com os deficientes. Todos gostam de ajudar e
aprender. Eu vivo muito feliz na vida, pois mesmo sendo cego faço quase tudo como
as outras pessoas podem fazer. Tenho muitos amigos e todos na minha cidade me
conhecem.
Uma coisa eu aprendi, que na vida todos somos diferentes uns dos
outros e devemos aprender com as diversidades.
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Emanuel Ribeiro Vicke. A diversidade na escola