ESTUDO MORFOLÓGICO DAS CÉLULAS DE PRECIPITAÇÃO DESCONTÍNUA EM LIGA Zn-1,6% Al J. C. Colmenero(1) e K. Akune(2) (1) Coordenação de Mecânica Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, Ponta Grossa, PR, Brasil CEP 84016-210 - (0XX42) 225-1130 R. 256 - FAX:(0XX42) 225-2110 e-mail: [email protected] (2) Departamento de Engenharia de Materiais Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil CEP 13565-905 - (0XX16) 274-8250 - FAX:(0XX16) 272-7404 e-mail: [email protected] ABSTRACT The morphologic characteristics of discontinuous precipitation reaction cells in Zn-1.6 wt% Al alloys, homogenized and cooled to room temperature, was studied by scanning electron microscopy. Discontinuous precipitation cells were observed immediately after the rapid cooling, evidencing the prior formation of metastable discontinuous precipitation cells in the Zn + ZnAl region during the process of homogenization. The process of discontinuous precipitation was characterized by two successive reactions: (i) primary reaction (cellular structure with fine rodlike precipitates) and (ii) secondary reaction with cells formed at original γ’/γ’ grain boundaries and at cell boundaries of primary reaction (cellular structure with gross rodlike non-continuous precipitates). The occurrence of discontinuous precipitation reaction at phase boundaries (mobile interface) has made possible the formation of typical cellular morphologies, i.e., hemispheric and mono-seam, for the primary as well as secondary precipitation reactions. However, the formation of triangle type cellular morphology was also verified in the secondary reaction cells. RESUMO As características morfológicas das células de precipitação descontínua em ligas Zn-1,6 % peso Al homogeneizada e resfriada a temperatura ambiente foram estudadas por meio de microscopia eletrônica de varredura. Células de precipitação descontínua foram observadas imediatamente após o resfriamento rápido, evidenciando a formação anterior de células de precipitação descontínua metaestáveis na região Zn+ZnAL durante o processo de homogeneização. O processo de precipitação descontínua é caracterizado por duas reações consecutivas: (i) primeira reação (estrutura celular com precipitados finos tipo rodlike) e (ii) segunda reação, com células formadas em contornos de grão γ'/γ' originais e contornos de células da primeira reação (estrutura celular com precipitados grossos tipo rodlike não-contínuos). A ocorrência de reação de precipitação descontínua em contornos de fase (interface móvel) possibilita a formação das morfologias celulares típicas, ou seja, hemisférica e mono-bandas, tanto para a primeira quanto para a segunda reação. Contudo, foi constatada também a formação de uma morfologia celular do tipo triangular em células da segunda reação. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27201 1.INTRODUÇÃO As reações de precipitação descontínua em ligas Zn-Al ricas em zinco foi estudada por Manna et al. [1-2] e Colmenero e Akune [3]. A precipitação descontínua em ligas homogeneizadas, resfriadas em água e envelhecidas a temperatura ambiente ocorre em duas regiões distintas: (i) região Zn-ZnAl (T = 628 K), durante tratamento de homogeneização (processo decomposição de fases metaestáveis ZnAl), resultando em uma reação de precipitação descontínua metaestável e (ii) região Zn+Al (temperatura ambiente), após homogeneização total das fases metaestáveis ZnAl e da reação de precipitação descontínua formada na região Zn-ZnAl No presente trabalho foram estudadas as morfologias das células formadas durante os processos de precipitação descontínua em liga Zn-1.6 % p. Al. 2.PROCEDIMENTO EXPERIMENTAL A liga Zn-1.6 % foi preparada através de fusão em forno de indução sob pressão parcial de argônio de zinco (99,99 %)e alumínio (99,99+ %). Amostras em forma de disco cilíndrico (∅ = 10 mm, altura ∼ 3 mm) foram homogeneizados a 628 K durante 115 horas, resfriadas à temperatura ambiente e envelhecidas a temperatura ambiente. As amostras foram examinadas, durante o tratamentos de envelhecimento, em um microscópio eletrônico de varredura Carl Zeiss DSM 940A. 3.RESULTADOS E DISCUSSÃO Em ligas Zn-1,6% peso Al homogeneizadas (628 K, 6900 minutos), resfriadas rapidamente (água, 298 K) e envelhecidas a temperatura ambiente o processo de eliminação da supersaturação ocorre, em um estágio inicial, através de uma reação de precipitação descontínua. A figura 1 mostra a microestrutura da liga para um tempo de envelhecimento tE = 180 minutos (algumas células de precipitação descontínua são indicadas por setas). Em todas as regiões analisadas foi observado que as células da reação de precipitação descontínua nucleiam em um dos lados do contorno de grão da matriz supersaturada γ’ e crescem para o interior de do grão. No estágio inicial da reação as células de precipitação descontínua apresentam dois tipos característicos de morfologia celular: (i) mono-banda, observada principalmente (marcada por setas brancas na figura 1) e no início do envelhecimento (ii) triangular, semelhante a precipitação descontínua durante a homogeneização e presente durante todo o processo de crescimento celular (marcada por seta preta na figura 1). CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27202 Geralmente, as células com morfologia triangular desenvolvem uma frente de reação aproximadamente plana. Com o decorrer do crescimento as células adquirem uma morfologia irregular. Figura 1. Microestrutura da liga Zn-1,6 % p. homogeneizada e envelhecida a 298K ( tE = 180 minutos). BSE. A figura 2 mostra a estrutura celular da reação de precipitação descontínua para tE = 1980 minutos. As células são constituídas por precipitados tipo rodlike com espaçamento interfásico verdadeiro médio σ = 0,14 µm. Contudo, em todas as células examinadas observa-se que os precipitados rodlike apresentam orientações diferentes em relação ao plano de exame metalográfico; em geral, a célula é composta por grupos de precipitados com orientação semelhante (nódulos). Figura 2. Estruturas das células de precipitação descontínua mostrando precipitados tipo rodlike em liga Zn-1,6 % p. Al homogeneizada, resfriada rapidamente e envelhecida (298 K, tE = 1980 minutos). Para melhor visualização e análise da estrutura celular é mostrada, na figura 3, a imagem negativa da figura 2. As linhas brancas delimitam as regiões que apresentam aproximadamente a mesma orientação. Na figura 3 observa-se que: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27203 (a) a célula cresce através do avanço de 3 frentes de reação planares (FR1, FR2 e FR3) correspondentes a 3 regiões distintas (A, B e C, respectivamente) (b) os precipitados rodlike das regiões A, B e C possuem diferentes orientações do eixo axial em relação ao plano de referência (plano de análise metalográfica). Figura 3. Imagem negativa da figura 2 mostrando a estrutura celular com diferentes orientações do precipitado rodlike (nódulos). FRi = frente de reação. A, B e C = nódulos. Em algumas células a existência de regiões com diferentes orientações e densidades de precipitados rodlike resulta em um efeito de relevo na superfície da região analisada mesmo com a utilização de BSE (back scattered electron image) . Em todas as células examinadas durante o processo de envelhecimento não foi observado mecanismo de multiplicação lamelar por ramificação (branching) ou nucleação em recessos da frente de reação. Figura 4. Célula da segunda reação de precipitação descontínua. BSE. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27204 Com o decorrer do envelhecimento as células de precipitação descontínua crescem, aumentando assim a fração de volume transformado; ao final deste processo a matriz é constituída pela fase γ, fase ZnAl nos contornos de grão e células de precipitação descontínua. Contudo, após a transformação completa da solução sólida supersaturada γ' em precipitação descontínua, uma nova reação de precipitação descontínua decompõem a primeira reação. O produto da reação, denominado células secundárias, consiste em uma estrutura duplex com as mesmas fases porém com maior espaçamento interfásico (figura 4). A formação de células secundárias é observada em contornos de grãos γ'/γ' originais e contornos de células da primeira reação de precipitação descontínua. Semelhantemente as células da primeira reação (células primárias), as células secundárias nucleiam em somente um lado do contorno de grão γ'/γ' original. A figura 5 mostra a formação de células secundárias contornos de grão, onde pode-se observar que: (a) as células secundárias nucleiam nos contorno de grão e crescem para o interior do grão (b) as células secundárias crescem através do avanço de uma frente de reação irregular (c) a junção tripla de contorno de grão (marcado por seta branca) não permite o avanço da frente de reação pelo contorno de grão, resultando em um encurvamento local da frente de reação Figura 5. Formação de células secundárias em contornos de grão γ'/γ' originais (a seta branca indica junção tripla de contorno de grão). Contudo, nos contornos das células primárias a nucleação das células secundárias pode ocorrer em ambos os lados. Em geral, as células secundárias formam-se ao longo dos contornos de grão e/ou contornos de células primárias e crescem hemisfericamente para o interior dos grãos (ou células primárias). Apesar de não desenvolver uma morfologia celular do tipo triangular durante o crescimento, CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27205 algumas células secundárias apresentam morfologia triangular. A morfologia triangular em células secundárias é obtida através de duas etapas: (i) nucleação da célula secundária em contornos de células primárias na qual uma das células primárias, necessariamente, apresenta morfologia triangular e (ii) crescimento para o interior da célula primária triangular de modo a transformar a célula completamente. A estrutura das células secundárias é composta por precipitados rodlike e globulares irregulares e, por este motivo, não foi determinado o espaçamento interfásico destas células. Considerando que não ocorra migração do contorno de grão, tem-se que o início da reação de precipitação descontínua em contornos de grão e o posterior desenvolvimento da célula em somente um lado do contorno implica em um mecanismo de nucleação por migração do contorno induzida pelo precipitado. Este tipo de mecanismo de nucleação em geral resulta na formação de células hemisféricas (ou seja, v X = v Y = v Z ) ou mono-bandas ( v X = v Y ≠ v Z , ( v Z << v X ) ). O desenvolvimento de células hemisféricas implica necessariamente na formação e deslocamento de um nova área de contorno (frente de reação) a todo instante, enquanto que na formação de mono-bandas a frente de reação desloca-se paralelamente ao contorno de grão com aproximadamente mesma área de contorno. A formação de células com morfologia triangular é semelhante ao das células hemisféricas; contudo, na morfologia triangular o precipitado não determina o deslocamento local do contorno, uma vez que, em uma frente de reação aproximadamente linear ou curvada são possíveis distintas orientações entre a direção axial do precipitado e a frente de reação. Desta forma, o desenvolvimento de uma célula com morfologia triangular possivelmente depende da interação entre a estrutura da frente de reação com a solução sólida rica em zinco. A pequena influência exercida pelo precipitado no tipo de morfologia desenvolvida no crescimento das células de precipitação descontínua neste sistema pode ser melhor exemplificada nas reações secundárias (precipitação descontínua do Tipo 2), onde o precipitado encontra-se muitas vezes isolado no interior da célula. O processo de formação da célula envolve a dissolução dos precipitados próximos ao contorno de grão e a posterior formação do precipitado. Ainda, torna-se evidente pela distribuição irregular dos precipitados em ambas as reações que o processo de multiplicação lamelar ocorre por re-nucleação na frente de reação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (1) I. Manna, W. Gust, B. Predel, Scripta Metall. Mater. 24 (1990) 1635. (2) I. Manna, Z. Metallk. 82 (1991) 96. (3) J.C. Colmenero, K. Akune, Mat. Charact. 37 (1996) 1. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENGENHARIA E CIÊNCIA DOS MATERIAIS, 14., 2000, São Pedro - SP. Anais 27206