CÂMARA DOS DEPUTADOS DEPARTAMENTO DE TAQUIGRAFIA, REVISÃO E REDAÇÃO NÚCLEO DE REDAÇÃO FINAL EM COMISSÕES TEXTO COM REDAÇÃO FINAL COMISSÃO EVENTO: Audiência Pública INÍCIO: 15h01min TEMPO DE GRAVAÇÃO: 02h06min DE DIREITOS HUMANOS N°: 1772/05 DATA: 9/11/2005 TÉRMINO: 17h06min DURAÇÃO: 02h05min PÁGINAS: 36 QUARTOS: 25 DEPOENTE/CONVIDADO - QUALIFICAÇÃO FÁBIO COSTA SÁ E SILVA – Coordenador-Geral de Ensino do Departamento Penitenciário Nacional — DEPEN. KENARIK BOUJIKIAN FELIPE – Representante do Grupo de Estudo e Trabalho da Condição da Mulher Presa e juíza titular da 10ª Vara Criminal de São Paulo. FÁTIMA FRANÇA – Diretora do Centro de Serviço Social da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo. SÔNIA REGINA ARROJO E DRIGO – Coordenadora do instituto Terra, Trabalho e Cidadania do Estado de São Paulo. HEIDI ANN CERNEKA – Coordenadora da Pastoral Carcerária Nacional Feminina. MICHAEL MARY NOLAN – Representante do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo. SUMÁRIO: Considerações sobre o tema Mulheres Encarceradas no Estado de São Paulo. OBSERVAÇÕES Houve exibição de imagens. Há intervenção inaudível. CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 A SRA. PRESIDENTA (Deputada Iriny Lopes) - Boa-tarde a todos. Declaro abertos os trabalhos da presente reunião de audiência pública que tem como finalidade debater o tema Mulheres Encarceradas no Estado de São Paulo. Esta audiência foi solicitada pelo Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, do PT de São Paulo, que recebeu denúncias sobre violação de direitos humanos de mulheres presas naquele Estado. Essas violações decorrem de vários fatores, um deles é a superlotação, que afeta desproporcionalmente as mulheres. Ainda maior é a superpopulação em cadeias administradas pela polícia, sob a autoridade da Secretaria de Segurança Pública. Isso ocorre porque as mulheres não foram beneficiadas igualmente pelo Programa de Construção de Penitenciárias empreendido pelo Governo do Estrado de São Paulo. Em fevereiro de 2005, 4.015 mulheres foram detidas no sistema penitenciário e mais 4.304 mulheres foram detidas em cadeias públicas. O dados revelam que 52% das mulheres ainda estão em cadeias públicas. Ao mesmo tempo, somente 15% de homens estão detidos em cadeias públicas. Esse fato determina que muitas mulheres sejam detidas em condições longe de atender aos padrões internacionais. As condições de vida são particularmente ruins em cadeias administradas pela polícia e as instalações penitenciárias femininas recém-inauguradas tampouco provêm espaço ou instalações penitenciárias adequadas e raramente levam em conta as necessidades de gênero específicas das mulheres. Em função dessa realidade e de denúncias recebidas pelo Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh e pela Comissão de Direitos Humanos, que permanentemente recebe denúncias dessa natureza, decidimos pela realização desta audiência pública. Desde já agradecemos a todos a presença. Após convidar os palestrantes para comporem a Mesa, passarei a presidência desta audiência pública ao Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Convido para compor a Mesa o Sr. Fábio Costa Sá e Silva, Coordenador-Geral de Ensino do Departamento Penitenciário Nacional — DEPEN, e a Sra. Michael Mary Nolan, representante do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana de São Paulo — nossa querida Michael. 1 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Não sei se todos estão presentes. De antemão, sei que a Sra. Fátima França não chegou. Também convido para compor a Mesa a Sra. Kenarik Boujikian Felipe, representante do Grupo de Estudo e Trabalho da Condição da Mulher Presa e juíza titular da 10ª Vara Criminal de São Paulo; a Sra. Sônia Regina Arrojo e Drigo, coordenadora do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania do Estado de São Paulo; a Sra. Heidi Ann Cerneka, coordenadora da Pastoral Carcerária Nacional Feminina. Havíamos convidado o Secretário Estadual de Segurança Pública do Estado de São Paulo e o Secretário de Justiça, mas os 2 declinaram do convite. A Sra. Fátima França, Diretora do Centro de Serviço Social da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado de São Paulo, seria a representante do Governo estadual. Então, caso ela chegue, teremos uma representante do Governo do Estado de São Paulo à Mesa. Solicito ao Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh que assuma a Presidência desta audiência pública. Enquanto S.Exa. se dirige à Mesa, gostaria de explicar que o tempo dos expositores será de até 15 minutos. Após as exposições, será concedida a palavra aos Deputados presentes. Em seguida, daremos oportunidade aos presentes. Passo a Presidência ao Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Em nome da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, renovo os agradecimentos feitos pela Presidenta às pessoas que aqui comparecem para prestar seus testemunhos e expor suas opiniões acerca do tema que será debatido nesta audiência pública. Gostaria de dar uma satisfação aos expositores, para que não se assustem com a falta de Deputados neste plenário. Hoje é um dia particularmente atribulado nesta Casa. Daqui a uma hora será iniciado o processo de julgamento de perda de mandato de um dos Deputados da Casa. O Conselho de Ética e as Comissões estão funcionando, enfim, a Câmara dos Deputados está demasiadamente atribulada hoje. Mas estão presentes assessores, operadores dos direitos humanos, defensores dos direitos das mulheres e especialistas em assuntos carcerários do País. 2 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 As exposições de V.Sas. nesta audiência serão gravadas, como é de praxe e estabelecido no Regimento Interno da Casa. Posteriormente, vou submeter requerimento à Comissão de Direitos Humanos no sentido de que seja editado um opúsculo com as intervenções de V.Sas., para que possamos distribuir este tema na rede nacional de contatos. Consulto a Mesa para saber se os palestrantes já deliberaram sobre a ordem para a exposição. (Pausa.) Primeiramente falarão os homens, depois, as mulheres. Tenho a honra de conceder a palavra ao Dr. Fábio Costa Sá e Silva, Coordenador-Geral de Ensino do Departamento Penitenciário Nacional — DEPEN, que disporá de 15 minutos. O SR. FÁBIO COSTA SÁ E SILVA - Obrigado, Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Boa-tarde a todos. Saúdo as mulheres que têm sido protagonistas de importantíssima luta no País pela melhoria do sistema penitenciário como um todo e que têm conseguido chamar a atenção das autoridades e do próprio Governo Federal em relação a esta situação muito singular das mulheres nos estabelecimentos penais. Ao longo do processo, com nosso apoio, construiu-se uma agenda para discussão, criação e consolidação de propostas que tenham em vista a melhoria das condições do tratamento das pessoas presas, especialmente das mulheres. Já tive oportunidade de tratar deste tema outras vezes, até mesmo em seminários promovidos pelo Governo Federal, pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência. Sempre começo a exposição fazendo um resgate, uma recuperação da discussão mais ampla sobre os direitos humanos nos estabelecimentos penais. Quem tem podido compartilhar comigo estes momentos de discussão sabe que tenho uma opinião muito consolidada no sentido de que é impossível realizar direitos humanos nas prisões, porque parto de uma noção de direitos humanos muito ligada à capacidade de as pessoas construírem seus próprios projetos de vida. Em um estabelecimento penal, na conformidade do modelo de tratamento dos conflitos que a nossa sociedade construiu para si, não há espaço para essa construção. Construir projeto de vida dentro de um presídio, se alguma vez já pôde ser considerado utopia, hoje sabemos que é uma grande falácia. Quem entra no presídio perde, 3 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 desde o momento do seu ingresso, a sua subjetividade; deixa de ser o fulano ou a fulana e passa a ser o preso, o bandido, o malandro. Deixa de ter o direito a exercer e manifestar sua singularidade. Antes de tudo, é preciso termos em mente que a discussão sobre a atenção e a consideração da singularidade da mulher que comete algum delito, algum tipo de crime e, em função disso, recebe um tipo de resposta da Justiça Criminal, no nosso caso, do sistema penitenciário, tem de ser contextualizada à luz da discussão da necessidade de se superar o modelo de encarceramento e de prisão construído ao longo dos séculos e que hoje, por mais que pareça estar em crise, na verdade está em crise de crescimento e não de degenerescência. O número de presos e presas no País vem aumentando a todo momento. Existe uma estimativa de que, por mês, o sistema penitenciário brasileiro é acrescido de cerca de 3 mil indivíduos, o que dá uma média de uns 40 mil por ano. A previsão é de que em 2007 cheguemos a quase meio milhão de pessoas presas no País. Esse modelo precisa ser repensado, se quisermos realmente falar na possibilidade de o sujeito ser observado na sua singularidade, apesar do fato de ele ou ela ter cometido uma conduta considerada violadora de expectativas sociais consolidadas ou de bens jurídicos relevantes, como se costuma dizer no âmbito do Direito Penal. Para sintetizar tudo isso que disse, recorreria a uma frase que Lisandra Arantes, uma das nossas companheiras do CFEMEA, disse em um desses debates: “A prisão é uma instituição que foi feita pelos homens, para os homens e não serve nem para os homens”. Além de promover essa afronta à individualidade e esvaziar o sujeito, justamente porque faz isso, leva a uma situação em que a reincidência é altíssima e as expectativas de reintegração social são muito baixas em nosso País. A luta tem que ser cada vez mais por tornar o cárcere menos cárcere. Acho que é no contexto dessa luta que aparecem oportunidades para que possamos trabalhar projetos e atividades que levem à melhoria da condição das mulheres encarceradas. Da parte do Governo Federal, como disse, esse é um ponto que desde o início do Governo Lula tem sido presente e tem conseguido espaço importante em nossa agenda de trabalho. Tanto é assim que algumas medidas estão sendo 4 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 tomadas e alguns planos e projetos vêm sendo traçados e em todos eles temos procurado observar essa questão e estar sempre atentos às repercussões que esses projetos podem gerar no que diz respeito à condição das mulheres encarceradas. Vou dar alguns exemplos de algumas coisas que estão em andamento nesse propósito. Às vezes falamos muito disso, mas ainda não conseguimos espaço para conversar e colocar em dia, mas estamos buscando celebrar alguns pactos com entidades e pessoas que vêm realizando essa luta social. Vou-me referir aqui à questão dos projetos padrão de engenharia e arquitetura para construção de estabelecimentos penais que o DEPEN vem produzindo. Como vocês todos sabem, a gestão do sistema prisional é feita pelos Estados e pelo Distrito Federal, ou seja, pelas Unidades da Federação, até que se institua o sistema penitenciário federal no País, quando a União também passará a fazer parte disso. Muitos Estados não têm condições de desenvolver projetos de construção de presídios. Nesse caso, pegam projetos que estão disponíveis localmente, recorrem a modelos antigos de construção e vão produzindo unidades que têm poucas condições de boa vivência. Para superar isso, o Governo Federal está elaborando alguns projetos básicos de arquitetura e engenharia. Neste contexto, haverá um projeto para unidades masculinas e outro para unidades femininas, com atenção a todos aqueles requisitos que a Lei de Execução Penal e os diplomas internacionais reivindicam, como espaço para a maternidade e para as visitas íntimas, berçário, creche etc. Tudo isso está contemplado nesses projetos que serão disponibilizados para os Estados. Esse é um sinal de que a questão bem elementar do espaço físico diferenciado vem sendo motivo das nossas preocupações. Outra preocupação é a portaria celebrada entre o Ministério da Justiça e o Ministério da Saúde instituindo o Plano Nacional de Saúde para o sistema penitenciário. Dentro desse Plano Nacional de Saúde — o plano prevê a instalação de unidades de saúde em todos os estabelecimentos penais do País —, para promover a atenção básica, existe um capítulo específico para tratar a saúde da 5 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 mulher. Nossa idéia é que os profissionais que irão atuar nos estabelecimentos femininos, em função disso, também recebam uma carga de informação que lhes permita desempenhar seu papel observando a singularidade da mulher. Além disso, o Governo Federal vem desenvolvendo um sistema de informações que servirá à sua própria necessidade de conhecer o sistema penitenciário no País e também aos Estados, para coletarem informações e produzirem suas políticas, o chamado INFOPEN. O INFOPEN foi desenhado a partir de vários indicadores, muitos dos quais procuram observar dados específicos para um bom tratamento penal da mulher. Por fim, queria fazer alusão a 2 outros campos de ação. Um deles é o chamado Projeto de Reintegração Social, que o DEPEN tem apoiado. Dentro desse projeto, os Estados são estimulados a apresentar projetos e ações que tenham por objetivo beneficiar as mulheres encarceradas. Cito 2 projetos que temos apoiado e atualmente estão em andamento. O primeiro será desenvolvido juntamente com a ONG Viva Rio e visa à formação profissional de mulheres no Rio de Janeiro; o outro é a Brinquedoteca, que, na verdade, é a constituição de espaços lúdicos nas unidades femininas, para que as mulheres presas possam receber seus filhos em espaço específico, já que no Brasil temos dificuldade para manter as crianças por muito tempo nas unidades penais nos casos em que a mulher dá à luz dentro da unidade ou mesmo quando é presa logo após o parto. Esses espaços, portanto, estão sendo constituídos nas unidades para que ali elas possam receber seus filhos e, durante alguns momentos, exercer a maternidade e a afetividade de maneira mais plena. Há uma última ação, ainda em fase embrionária — e é por ela que estamos sempre debatendo e tentando firmar parceria com muitas das organizações aqui presentes —, que é a realização de uma pesquisa nacional sobre as condições de tratamento da mulher presa, para, a partir daí, elaborar um custo de gestão prisional para as unidades femininas. Essa será uma contribuição relevante que o DEPEN vai prestar, porque boa parte dos problemas que se verificam hoje em relação ao tratamento da mulher presa diz respeito justamente à insensibilidade dos gestores, das diretorias de presídios, dos agentes de segurança e, muitas vezes, dos técnicos que trabalham nessas unidades e que não conseguiram ainda representar para si a 6 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 importância que questões relativas ao gênero apresentam quando se trata de mulheres encarceradas. Queria deixar registrado o que tem sido nosso discurso nesse sentido e dar este panorama geral das ações, para depois, eventualmente, responder às indagações que algum dos presentes queira fazer. Muito obrigado. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Muito obrigado, Dr. Fábio Costa Sá e Silva, do DEPEN. Os demais expositores encaminharam à Mesa uma ordem de suas inscrições. Neste momento, tenho a honra de passar a palavra à segunda expositora, Dra. Kenarik Boujikian Felipe, que vem constituindo em São Paulo um marco, um símbolo, uma referência na defesa dos direitos humanos, quer pelas suas decisões judiciais —S.Exa. é juíza titular da 10ª Vara Criminal de São Paulo —, quer pelo trabalho que tem feito com afinco e dedicação em relação aos direitos humanos de forma geral e em especial à questão das mulheres encarceradas. S.Exa. também integra a Associação de Juízes para a Democracia, uma entidade nacional que todos conhecemos e respeitamos. Renovo a V.Sa., Dra. Kenarik, o agradecimento da Comissão de Direitos Humanos pela sua presença. V.Exa. tem 15 minutos. A SRA. KENARIK BOUJIKIAN FELIPE - Eu é que agradeço as palavras excessivas do Deputado. Digo que é sempre bom ter amigos, porque deles ouvimos elogios como este. Queria saudar todos os presentes por intermédio da Deputada Iriny, Presidenta da Comissão, e deixar um registro de afeto e de admiração pelo Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que sempre demonstrou extrema sensibilidade em relação a esse tema e trouxe a questão para esta Comissão. Esta audiência pública é um marco na questão dos direitos humanos, porque é a primeira vez que se realiza nesta Câmara uma audiência para tratar especificamente da questão da mulher encarcerada. (Segue-se exibição de imagens.) Este é um momento de muita alegria para todos que fazem parte desta luta e — reafirmo — é um marco histórico que, tenho certeza, produzirá frutos para aquelas que não estão aqui de corpo, mas que são o sentido da nossa luta, do nosso ideário. De certa forma elas estão presentes, por meio das fotografias 7 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 estampadas na parede. São fotos tiradas na cadeia pública de São Paulo, conhecida como Cadeião de Pinheiros. Foram devidamente autorizadas judicialmente e pelas próprias presas, que quiseram estar presentes de alguma forma durante a audiência pública que discute a questão da mulher encarcerada. Os slides que estavam sendo exibidos são em número maior. É essa a forma que encontramos para tê-las aqui conosco. Eu queria explicar o que é o grupo e como ele surgiu. A superação dos complexos problemas trazidos pela pena privativa de liberdade exige o máximo do comprometimento da sociedade civil. O comprometimento não significa a substituição do Estado em nenhum momento, não somos favoráveis à substituição do papel do Estado. É um comprometimento de atuar de forma diferente. E hoje vemos, o que considero muito grave, que o Estado está-se afastando do seu papel inclusive na questão penitenciária. Dentro dessa premissa, em 2001, algumas entidades de São Paulo se reuniram: a Associação de Juízes para a Democracia, da qual faço parte, o ITTC, o Colibri e a Comissão de Direitos Humanos e da Mulher Advogada de São Paulo. Demos início a uma discussão e somaram-se forças e agregaram-se a este grupo outras entidades, como a Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, a Pastoral Carcerária, o INALUD, o CLADEM, o Centro Dandara de Promotoras Legais Populares, o Movimento do Ministério Público Democrático, a ASBRAD, o IDDD e várias outras, porque, conforme o trabalho, o grupo se agrega a mais entidades e assim nós vamos indo. A exclusão das mulheres encarceradas tem início no seio da própria sociedade patriarcal, que tem como característica a verticalidade e a repressão. Essa sociedade produz inúmeras discriminações, entre elas a de gênero. A prisão feminina não passa de uma fotografia da desigualdade existente no espaço livre, mas é muito mais acentuada. Sua exclusão precede o ingresso na prisão, permanece durante a sua estada e se pereniza depois da obtenção da liberdade. Entendo que a sociedade quer resgatar a questão de gênero nos campos do Direito Penal e da execução penal. Sou um pouco mais otimista do que o Dr. Fábio nesse aspecto e creio que, embora possamos pensar que em sistemas fechados não existe uma forma de respeito aos direitos humanos — entendi que fosse no 8 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 sentido mais amplo —, é possível resguardar o mínimo de dignidade. É esse o sentido de todo o nosso trabalho e do trabalho que o senhor realiza no Ministério. Em uma demonstração de que a sociedade quer resgatar a questão de gênero, tivemos uma experiência interessante em relação ao indulto de 2004. Há muitos anos não havia nenhuma previsão, nenhum recorte de gênero nos indultos natalinos. Em 2004, houve um grande movimento nesse sentido. Cerca de 100 entidades subscreveram um pleito que foi encaminhado ao Ministério da Justiça e ao Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, e a questão de gênero foi retomada nos decretos de indulto. Ao que parece, este ano também isso vai se repetir, segundo proposta encaminhada. Em relação à questão do indulto, faço um parênteses. Não sei como a Comissão poderia colaborar, influir ou o que ela poderia efetivamente fazer. Essa questão é grave. Na consideração do gênero, foi especificado que a mulher condenada poderia ser beneficiada em determinadas situações, além de um ponto que diz respeito à maternidade para quem tiver filhos menores de 14 anos. Isso é um absurdo, porque não existe nenhuma legislação que se refira à idade de 14 anos. O Estatuto da Criança é nossa referência nesse aspecto. Os tratados internacionais ratificados pelo Brasil são nossa referência. Portanto, filhos são crianças e adolescentes até 18 anos. Assim, solicitamos, desde já, se possível, que a Comissão faça algum tipo de encaminhamento junto ao Ministério da Justiça e ao Presidente da República para que essa questão pelo menos seja revista em razão da obediência legal do conceito do que consideramos criança e adolescente. Feito esse recorte, gostaria de tentar fixar a questão do diferencial de mulher. Primeiro, a partir dessa análise, é necessário mostrar que o papel das mulheres dentro da cadeia criminosa é muito diferente da posição dos homens. Sempre estão nos postos mais baixos e sempre nas funções menos relevantes. Essa característica não é nenhuma novidade, não é algo de 2005. A professora da Faculdade de Direito da USP, Esther de Figueiredo Ferraz, realizou um trabalho e observou, na década de 50, que as mulheres envolvidas com criminalidade não assumem na peça criminosa os mesmos papéis nem cometem os delitos pelos mesmos motivos. Considero esse diferencial fundamental, porque se 9 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 não tivermos o pensamento diferenciado da mulher, desde o início até que entre na prisão, não poderemos avançar. Vou pular muitas partes, porque o tempo é curto e é difícil controlá-lo. A exclusão da mulher encarcerada é uma preocupação internacional. Ela não é nova, como já disse. No Brasil, alguns estudos já indicavam esse posicionamento preocupante, na medida em que a Assembléia Geral da ONU, pela Resolução nº 58/183, recomendou que se prestasse maior atenção às questões das mulheres que se encontram na prisão, inclusive no que se refere aos seus filhos. Em conseqüência dessa recomendação da ONU, foi feito um estudo pela Sra. Frolizelli O’Connor que, resumidamente, concluiu: “As mulheres constituem um percentual pequeníssimo da população carcerária em todo o mundo; alta porcentagem das mulheres são mães; são elas que se encarregam de cuidar dos filhos; não há políticas públicas adequadas ao tratamento das presas; há um aumento do aprisionamento feminino que não se circunscreve a delitos violentos mas a um aumento das taxas de encarceramento de mulheres presas em razão do aparecimento de tráfico de entorpecente, sendo usadas, de regra, como mulas e a maioria por delito de pouca quantidade de entorpecente”. Esse retrato que a Dra. Frolizelli apresentou na ONU é o retrato fiel da situação das mulheres brasileiras presas. Faço todas as referências com relação ao ano de 2003, porque os dados do INFOPEN não estão todos cadastrados e inseridos no site do Ministério da Justiça. Assim, ficamos com receio de usar dados de determinado ano e local e achamos por bem tomar como parâmetro os indicadores de 2003 do Ministério da Justiça. Havia um total de 308 mil presos, dos quais apenas 12 mil eram mulheres. Cerca de um terço dessas pessoas estão no Estado de São Paulo; são quase 120 mil. Destes, 112 mil são homens, sendo que 87 mil estavam dentro do sistema penitenciário e 24 mil estavam no sistema de segurança, ou seja, apenas 22%. Desse total que apresentei, 6 mil são mulheres presas em São Paulo, e apenas 2.300 estão no sistema penitenciário e 3.800 no sistema de segurança ou de polícia; ou seja, 62% das mulheres estão cumprindo pena em local inapropriado, embora seja um número diminuto dentro dessa população carcerária. Quando digo que elas estão no sistema de polícia, quero dizer que estão mais ou menos nessa situação. Na 6ª foto dá para ver muito bem, dá para visualizar o que 10 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 é um espaço do Cadeião Público de Pinheiros, Dacar 4. Vemos ao fundo, em cima e embaixo, as celas, e, no meio, o pátio. É isso que temos lá. Nada mais. O Cadeião não tem sala de aula, não tem lugar para trabalhar, não tem lugar para receber visitas, não tem lugar para receber os filhos, não tem atendimento médico adequado etc. Ou seja, a maior parte da população feminina de São Paulo continua sem o mínimo de dignidade. Nesse período todo, o Estado sempre prioriza o atendimento aos homens. Há uma clara ação de discriminação estatal, com frontal descumprimento dos tratados internacionais ratificados pelo Brasil. Elas vivem em condições desumanas. Em algumas prisões, elas recebem o mesmo tratamento destinado aos homens, inclusive usando uniformes iguais, como se a primeira coisa a fazer com a presa é a desconstrução da sua condição de mulher. Essa não é uma realidade exclusiva de São Paulo. Os dados são de São Paulo, mas sabemos que não é exclusividade nossa. Alguns dados podem ser encontrados para estabelecermos o perfil da mulher encarcerada do nosso Estado. Essa pesquisa se encontra no Censo Penitenciário de 2002, realizado na FUNAP, e pode ser vista no site . E o perfil desenhado no relatório da Dra. Frolizelli é compatível com esses dados. Vou repassar alguns deles a V.Exas. As mulheres presas, na sua maioria, 73%, são sozinhas, quer dizer, são solteiras, viúvas ou separadas, ao contrário dos homens — 56% são casados ou têm companheiras. Antes de serem presas, 67% moravam com os filhos, categoria que é reduzida para os homens, cuja maioria vivia com a mãe ou com a cônjuge, reafirmando o que ocorre fora dos muros, onde o ônus da criação dos filhos recai sobre as mulheres. A guarda dos filhos é mais assumida pelas companheiras dos presos. Quando eles são presos, cerca de 87% das mulheres assumem os filhos dos maridos que estão presos, dos companheiros. Mas o inverso não ocorre, esse percentual é reduzido para 19%. Encontramos ainda um percentual expressivo de filhos sob a tutela de avós maternos, o que indica que a criação dos filhos da detenta acaba recaindo mais sobre a família dela do que a do companheiro. Um número significativo de mulheres não recebe visita. São 36% da população que não recebe visita. E uma parcela desta população, 11%, recebe 11 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 visitas menos de uma vez por mês; ou seja, quase 50% da população praticamente não tem visita. As mulheres são mais abandonadas quando em situação de prisão. Apenas 18% recebem visita dos companheiros, ao contrário dos homens, que são visitados em sua maioria pelas mulheres. Se passamos em qualquer dia de visita em frente a uma penitenciária, se for masculina, nós vamos ver uma fila enorme de mulheres carregando as suas sacolas para levar o alimento, a roupa, o material de higiene etc. Se formos em uma cadeia feminina, nós vamos ver poucos homens e poucas visitas, comparativamente. Há um indicador que considero dos mais emblemáticos: 73% dos homens afirmaram que gastavam consigo a sua remuneração. Isso, evidentemente, estou falando dentro do sistema penitenciário que tem trabalho, nunca onde estão a maioria das mulheres. Já 58% das mulheres incluem a família entre as pessoas que recebem seus ganhos. Quer dizer, 73% dos homens afirmam que gastam o dinheiro com eles mesmos e a mulher diz que gasta com os filhos. É uma das coisas mais emblemáticas, porque acontece fora dos muros e acontece também dentro dos muros. Outro dado interessante: em caso de possibilidade, o número de mulheres que faz curso profissionalizante é proporcionalmente superior ao dos homens. Isso é um indicativo de que elas buscam melhor preparo para a volta à sociedade livre. Todo esse quadro indica que há uma real necessidade de atender à resolução da ONU, que mencionei, para que se preste maior atenção às mulheres encarceradas e aos seus filhos. É evidente que o encarceramento traz todas as conseqüências que o Dr. Fábio chegou a mencionar, e nós não podemos esquecer e pensar que a mulher presa é um ser, ou uma coisa, ou um objeto solto no mundo e no espaço, porque há uma repercussão grave não só na pessoa detida, mas também atinge o núcleo familiar ou comunitário e social. Meu tempo já está esgotado, mas eu queria falar da superlotação. Temos dados assustadores em São Paulo. Há cadeias que têm 645% de presas por vaga. É um índice altíssimo. É variável, mas todas elas estão superlotadas. Índice de 381% em São José da Bela Vista; Santo Antônio da Posse, 433%, e assim por diante. Não vou ater-me a isso. 12 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Algumas considerações que eu queria fazer rapidamente dizem respeito a questões importantes. Quando eu disse que essas mulheres não tinham educação, não têm aula, lembrei que tinha de registrar que nesta Casa há um projeto de lei sobre a questão da educação utilizada como remissão. É um projeto de lei que, pelo que consultei no site da Câmara, já está pronto para ir à pauta de votação. Algumas questões, se fosse possível, poderiam ser aprimoradas, e nós poderíamos fazer algumas sugestões. Não sei se há tempo para isso, mas uma questão que considero importantíssima e é para aprovação imediata. Tenho conhecimento de que em vários Estados vários juízes reconhecem a educação como uma possibilidade de remissão, descontando-se tantos dias de estudos em tantos dias de pena. Isso é fundamental. Acho que seria uma vitória se conseguíssemos isso, pois aquelas que não têm acesso à educação deveriam ser beneficiadas, porque a falha é do Estado. Há outro projeto anterior que parece estar arquivado, e nele havia esse elemento que eventualmente poderia ser utilizado. Em relação à saúde, existe mesmo o Plano Nacional de Saúde do Sistema Penitenciário. A Associação e todas as entidades — foi um trabalho do grupo — interferiram para introduzir a questão de gênero. Mas eu não resisti a trazer aqui uma propaganda. Desculpe-me o Ministério da Saúde, mas eu fui a um encontro sobre Execução Penal que ocorreu no Maranhão há pouco tempo, uns 10 dias, em que foi feita uma apresentação sobre saúde, que é uma questão muito delicada. Eu quis especificamente ver aquela palestra. O Dr. Fábio também estava presente a esse encontro. Não vi uma linha especificamente sobre a mulher — uma só linha. Todas as considerações são gerais. É muito duro, precisamos nos policiar, precisamos pensar que estamos em outro patamar. Precisamos estar num patamar de igualdade. Eles colocam uma figura que provavelmente não deve estar com tuberculose, nem com sarna, nem com piolho, os problemas que mais acontecem nas penitenciárias. E eu disse lá, inclusive usei esta expressão, desculpem-me, que havia uns homens saradíssimos na figura e que não são compatíveis. E não haver uma linha sobre isso significa que ainda não entrou no papel. E entre o papel e o fato, entre a palavra e o gesto há uma distância. Precisamos eliminar essa distância. 13 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Rapidamente, falei de educação. Agora quero falar do indulto. Peço aos Srs. Deputados que, se for possível, façam alguma interferência. Lembro que em determinado ano que tenho anotado, esta Casa fez uma lei anistiando mulheres presas, todas as mulheres presas que estivessem em determinada condição. Proponho que a Comissão, se possível e se entender que é correto e justo, faça um estudo e um encaminhamento para que as mulheres tenham alguma anistia. Eu não sei especificar qual seria o categoria das mulheres, mas é alguma coisa para se refletir. Esta Casa uma vez já determinou anistia para as mulheres. É uma solicitação que faço a V.Exas. Termino pedindo desculpas por ter-me excedido no tempo. Muito obrigada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Eu é que agradeço à Dra. Kenarik Boujikian Felipe as considerações. Temos a honra de contar com a presença da Dra. Fátima França, que chegou agora. S.Sa. é nossa convidada para fazer uma exposição. Convido-a a integrar a Mesa. A Dra. Fátima França é diretora do Centro de Serviço Social da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo. V.Exa. tem a palavra, Dra. Fátima França, por 15 minutos. A SRA. FÁTIMA FRANÇA - Boa-tarde, Sras. e Srs. Deputados. Boa-tarde, colegas. Eu queria primeiro prestar um esclarecimento. Não estou aqui como representante do Governo do Estado de São Paulo. Eu soube da audiência pública e vim para cá para me inteirar das discussões a respeito da mulher encarcerada, até por conta do trabalho que está sendo desenvolvido na Secretaria. Posso dar algumas informações a respeito do que estamos procurando fazer em São Paulo com relação ao recorte de gênero na assistência. Vários problemas ainda caracterizam o sistema penitenciário, mas há alguns avanços. A intenção do Secretário Nagashi, já há alguns anos, é fazer o recorte de gênero. Já está funcionando o Núcleo de Atendimento à Mulher, que ainda não existe formalmente — está vinculado à minha Diretoria —, mas efetivamente já desenvolve algumas ações. Esse núcleo surgiu a partir de propostas surgidas em reuniões que fizemos com funcionários de unidades prisionais femininas de São Paulo e algumas 14 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 entidades que trabalham com questões de gênero, com a situação da mulher encarcerada. A primeira atividade do núcleo tem sido visitar unidades femininas, a fim de conhecer a realidade local e de levantar problemas que possam ser solucionados de imediato. Só falta visitarmos 2 unidades. Já tomamos algumas providências para solucionar os problemas mais urgentes. O trabalho está-se estruturando. Já temos uma psicóloga, que é a diretora responsável pelo núcleo, e teremos ainda uma advogada e uma assistente social. Nosso desafio é muito grande. Também estamos fazendo um recorte de gênero para a assistência ao egresso do sistema penitenciário. O Núcleo de Atendimento à Mulher vai ter a responsabilidade de desenvolver para a mulher presa e para a mulher egressa do sistema penitenciário ações com recorte de gênero que envolvam a saúde, a educação, o trabalho, a capacitação profissional, além de questões mais específicas da mulher, por exemplo a relação com os filhos. Tentaremos facilitar a reinserção social e já estamos construindo bancos de dados específicos de mulheres egressas do sistema penitenciário. De maneira geral, era isso o que eu poderia dizer. Não vim preparada como representante do Estado. Se houver mais tempo, posso apresentar outras idéias. Eu não trouxe dados. O núcleo foi construído com a participação de instituições e organizações que trabalham com a mulher presa. Entendíamos que havia necessidade dessa interlocução, desse diálogo constante da administração penitenciária com as entidades que trabalham com a mulher presa, porque as visões são diferentes e as ações também. E queremos continuar esse diálogo, para termos cada vez melhores condições de desenvolver nosso trabalho. Nosso trabalho de recorte de gênero na assistência do sistema penitenciário é ainda embrionário, mas já tem alguns resultados positivos. No decorrer de 2006 esperamos ter respostas maiores. Será inaugurada em dezembro a Penitenciária Feminina de Santana, que é enorme — abrigará 2.500 presas — e visa prioritariamente à retirada das mulheres que estão no Dacar. Era o que eu tinha dizer. Fico à disposição. Obrigada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Muito obrigado, Dra. Fátima França. A Comissão de Direitos Humanos lhe agradece pela presença. 15 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Tenho a honra de passar a palavra à Dra. Sônia Regina Arrojo e Drigo, advogada em São Paulo e coordenadora do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania. A Dra. Sônia Regina vem-se firmando como defensora dos direitos humanos, em especial como defensora do direito das presas que não têm advogado. A SRA. SÔNIA REGINA ARROJO E DRIGO - Sras. e Srs. Deputados, senhoras e senhores presentes, estou aqui por causa do Luiz Eduardo. Em 1997, houve uma denúncia de tortura na penitenciária feminina do Tatuapé, e ele me chamou para integrar um grupo que estava formando acho que em nome da Comissão de Direitos Humanos deste Congresso. Até hoje não consegui sair de lá. Aliás, só saio quando a penitenciária vier abaixo, no dia em que ela for implodida. Já tenho uma relação afetiva com o Tatuapé. Vou falar um pouco aos senhores sobre a situação das presas em São Paulo. Vou contar da penitenciária do Tatuapé, do Dacar, da Cadeia Pública de Pinheiros. E também vou dizer o que a gente sabe sobre a maior penitenciária feminina da América Latina, que é essa de Santana. A penitenciária feminina do Tatuapé é de regime fechado. Tem capacidade para 550 mulheres, mas hoje abriga uma população de 643 detentas. Normalmente 1 ou 2 pavilhões estão interditados. Aliás, o prédio está interditado desde 1991, quando ali ficavam as crianças, os jovens da FEBEM. Retiraram os jovens e colocaram as mulheres. Esse é o retrato do que acontece em São Paulo. É sempre em algum lugar de onde foram retiradas pessoas por falta de condições que se colocam as mulheres presas. Chegamos à Penitenciária do Tatuapé em 1997 e trabalhamos durante quase 1 ano com a ajuda do grupo de estagiários Cidadania nos Presídios. Fomos verificar a denúncia de que uma moça grávida tinha sido jogada do primeiro andar, alguma coisa nesse estilo. No dia 7 de março de 1998 fomos ao Tatuapé felizes da vida, lançar um manual, uma cartilha que reunia todos os direitos daquelas moças. Quando chegamos lá, nesse dia de festa, ficamos sabendo que uma moça tinha sido espancada durante a madrugada porque — na cela onde ela estava não havia banheiro, não havia chuveiro — ela havia se sujado de menstruação durante a noite e pediu para ir ao banheiro. Para que ela nunca mais fizesse aquilo e para que nenhuma outra ousasse fazer esse pedido, ela foi espancada durante a madrugada. 16 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Nós passamos o dia inteiro procurando por ela. Sabíamos que ela estava sendo escondida da comissão, do Deputado Luiz Eduardo. No final da tarde trouxeram a moça, espancada, totalmente dopada. Já tínhamos distribuído a cartilha, mas para ela nosso manual chegou tarde, pelo jeito. Em 2001, conseguimos que a Penitenciária do Tatuapé fosse a primeira a implementar a visita íntima. Mas não podemos esquecer que aquilo é um edifício interditado, sem ventilação, sem luz natural e superlotado. Do jeito que ele está, não tem condições de abrigar essas pessoas. Fazemos um trabalho paralelo, mas sem querer substituir o Estado, de forma alguma. Em março de 2003, numa terceira visita que fizemos com o Deputado Luiz Eduardo, encontramos uma blitz da Polícia Militar. Reviravam as celas, misturavam pó de café com talco, com roupa limpa, com o crochê das moças. Um inferno. Foi uma sorte estarmos lá naquele dia. Verificamos que muitas daquelas mulheres estavam doentes, quase desmaiando por causa do calor que fazia lá dentro. Nem conseguíamos ficar lá. Então resolvemos, mais uma vez, levantar dados sobre aquela população carcerária e denunciar a situação à Corregedoria da Vara das Execuções Penais de São Paulo. O requerimento era do próprio Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh e tinha o apoio de todas as entidades que acompanharam a visita. Elaboramos um dossiê com fotos — vocês não têm idéia do que vimos lá —, com dados, com nomes, um verdadeiro relatório das condições indignas em que viviam aquelas mulheres internadas, principalmente as que estavam na cela do seguro, onde encontramos, lá no fundo, uma moça chamada Quitéria, de 35 anos. De tão violenta, porque estava em surto psiquiátrico, ninguém chegava perto dela. Ela estava lá no fundo, nua, suja de fezes. A comida dela, que era jogada, parte caía dentro da cela, parte caía fora. Temos essas fotos todas. As próprias agentes diziam que tinham medo dela, que não tinham gente para abrir aquela porta. Perguntavam como iriam cuidar da Quitéria. Mais adiante vocês vão saber o que aconteceu com ela. Nesse mesmo dia, solicitamos a transferência imediata da moça para o Hospital de Custódia de Franco da Rocha, onde ela passou algum tempo. De março de 2003 até hoje, nem o Corregedor nem a Secretaria da Administração Penitenciária deram nenhuma resposta ao procedimento que instauramos, apesar do nosso acompanhamento, apesar do empenho da Vigilância 17 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Sanitária, do CONTRU, dos bombeiros. Todo mundo já passou por lá para fazer vistoria, e todo mundo volta, porque ninguém quer colocar um ponto final naquele inferno. Esse procedimento vem-se arrastando. Eu tenho comigo uma certidão, tirada há 2 ou 3 dias, indicando que a Vigilância Sanitária, quando esteve lá, encontrou tudo o que havia de pior. Posso mostrá-la aos senhores. O Ministério Público também foi lá. Fez a visita correicional e também encontrou tudo o que havia de pior. A vistoria dos bombeiros diz que não há segurança nenhuma. Aquilo lá só tem muito perigo. É uma falta de segurança total, não só para as presas, mas também para suas famílias, para os agentes que lá trabalham, para todos os funcionários. Nós não sabíamos que o consultório de odontologia da penitenciária — se é que aquilo pode ser chamado assim — estava nas condições apontadas no laudo. O Conselho Regional interditou a sala que chamavam de consultório odontológico, uma sala onde só faziam extração de dente. Ali o esgoto passava aberto, não esterilizavam os instrumentos. No lavatório — eu tenho as fotos — havia um detergente, um Ajax, coisa assim. O próprio dentista não estava regularizado no Conselho Regional. Mas disso nós só soubemos depois. Não deu tempo de anotar tudo. Então, o consultório foi interditado e depois reinaugurado. Hoje as detentas continuam tendo pelo menos o serviço de extração de dente em condições mais seguras para a saúde. Porém, nenhum levantamento foi feito das mulheres atendidas naquele consultório, então, não sabemos quem adquiriu e quem transmitiu. A Vigilância Sanitária foi lá e disse que está tudo bonitinho, que o consultório pode continuar funcionando. E assim vai. Estamos aguardando uma nova vistoria da Vigilância Sanitária. A Corregedoria pergunta ao Secretário o que ele acha dos procedimentos que estão sendo encaminhados, e ele acha ótimo. E assim eles seguem repetindo as provas, tentando chegar a um acordo para uma coisa que não existe, que não tem como ficar boa. Há um vazamento muito grande na laje daqueles prédios. Há dinheiro para impermeabilizá-la? Decidem pegar recursos no fundo nacional não sei das quantas, mas o dinheiro não dá para todos os prédios, então eles não fazem nada, para ficar tudo equiparado: mantêm a chuva para todas. 18 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Mas a situação no Tatuapé melhorou bastante, de acordo com as informações que eu tenho. Só que não adianta melhorar, porque aquilo não tem jeito. O prédio não ajuda. As pessoas que estão lá hoje podem até ter boa vontade, podem ser capazes, podem ter esperanças de cumprir um bom papel na sociedade, mas o prédio não permite. E há informações de que, depois de inaugurada essa gigantesca penitenciária de Santana, o Tatuapé vai virar um CDP. Ou seja, vão simplesmente continuar trocando a placa na porta do prédio. Em 4 de setembro de 2003, por conta da situação que nós encontramos, solicitamos uma audiência pública na Assembléia Legislativa de São Paulo. O Presidente da Comissão de Direitos Humanos era o Deputado Renato Simões. Na reunião, o Secretário da Administração Penitenciária, Dr. Nagashi Furukawa, assumiu o compromisso de que, até junho de 2004, as presas do Tatuapé seriam transferidas para a penitenciária do Estado, o Carandiru, hoje chamada de Santana. Já estamos quase em dezembro de 2005, e sabemos que no dia 8 parte dessa penitenciária será inaugurada. A Penitenciária de Santana vai abrigar as presas do Dacar, como disse a Dra. Fátima. Há essa previsão. E naquela época se dizia que também as mulheres do Tatuapé iriam para lá. Hoje eu já não sei o que é que vai acontecer, porque ainda há as cadeias públicas. As informações não vêm completas. Sabemos que alguma coisa está sendo feita, mas não sabemos exatamente o quê. A Cadeia Pública 4 de Pinheiros, que é essa das fotos, o Dacar, é a versão feminina da Casa de Detenção. Se não foi implodida, já deveria ter sido. De alguma forma aquilo tem que mudar. Não é lugar para gente morar. Nós aqui de fora deveríamos ficar indignados de ter liberdade enquanto gente semelhante a nós está lá dentro, sendo tratada dessa forma. A capacidade do Dacar, no dia 31 de outubro, conforme informações do site, era para 512 pessoas, mas havia lá 1.350 mulheres, condenadas e em provisória, primárias e reincidentes, em celas coletivas e em celas de triagem, submetidas a funcionários omissos e sem qualificação profissional adequada, sem médicos, sem assistência jurídica, sem material de higiene, vivendo sem nenhum respeito à lei. Sem esperança, as presas perdem a dignidade, a auto-estima, o contato com a família. Aprendem em pouco tempo a voltar àquele inferno. 19 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Foi na triagem, em surto psiquiátrico, que a Maria Aparecida de Matos, vítima de tortura, perdeu a vista direita, no mínimo por omissão dos funcionários. Não adianta me dizerem que ela apanhou de outras presas. Ela não tinha para onde correr, não tinha para onde ir, e ninguém lhe prestou socorro. Lá também está, há 1 ano e quase 5 meses, uma moça chamada Rosemeire, presa por tentativa de furto de um chuveirinho de 19 reais. Essas mulheres cumprem a pena sem receber nenhum tipo de atendimento, nenhuma atenção, porque o número de funcionários é muito abaixo do necessário. Foi por causa dessa situação que houve a audiência pública conjunta da Comissão de Segurança Pública com a Comissão de Direitos Humanos da Assembléia de São Paulo, no dia 5 de outubro, mês passado. Nosso grupo esteve lá, e também o Diretor do Dacar, Dr. José Gonzaga Pereira Marques, que foi nos ouvir e também tentou nos dizer alguma coisa, em nome da Secretaria de Segurança Pública. O Dr. José Gonzaga afirmou que não é fornecido nenhum material de higiene às presas. Nessa unidade que abriga 1.350 mulheres, trabalha apenas um médico, que o Dr. José Gonzaga não sabe dizer se é clínico ou ginecologista, mas acredita que seja um clínico bem-intencionado. Esse médico cumpre 20 horas semanais e atende a 1.350 mulheres. O Diretor do Dacar também disse que o controle de doenças não é feito pela Secretaria de Saúde. Apenas quando há reclamações é que se faz a comunicação. Quando há urgência, o atendimento é prestado por um único hospital, em Osasco. Disse também o Dr. José Gonzaga que a reincidência é grande e que a solução dos problemas está na disponibilidade de mais vagas pela Secretaria da Administração Penitenciária. Garantiu que as denúncias de corrupção são exemplarmente apuradas e coibidas, denúncias de troca de favores com os funcionários, negociados com cigarros, drogas, enfim, alguma forma de atendimento. Eu acredito nele. A Dra. Ivana, que é Juíza Corregedora do Departamento de Inquéritos Policiais de São Paulo, tem realmente instaurado muitos inquéritos e apurado as denúncias. Ele sabe que no final do ano a Secretaria da Administração Penitenciária vai transformar a penitenciária masculina da Capital em penitenciária feminina. Ele ouviu isso do Secretário, mas ainda não teve a confirmação formal. 20 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Esclareceu que a revista íntima, aquela revista vexatória nas visitantes, é realizada para evitar a entrada de celular, de bebida alcóolica, “essa coisa toda” — entre aspas. Eu ainda acho que, se os homens fossem submetidos a essa revista íntima vexatória a coisa ia mudar, ela ia deixar de existir. Ele não vê outra alternativa senão continuar fazendo essas revistas, mas nós sabemos que pessoas que freqüentam a Cadeia Pública de Pinheiros às vezes se sentem mal com tanta fumaça de maconha, e não é raro encontrar mulheres tomando cerveja gelada ali. Essas coisas com certeza não entraram com os visitantes. Eles fazem a revista íntima para inibir as pessoas de entrar no prédio. Nessa audiência pública, o Dr. José Gonzaga disse também que a Secretaria de Segurança Pública não fornecia dinheiro para “esse tipo de material”. Disse isso porque uma colega nossa, a Luciana Zafalon, do IDDD, contou a todos que as mulheres que não têm família, que não recebem visita, que não conseguem trabalhar dentro da penitenciária, guardam miolo de pão para usar como absorvente. O Dr. José Gonzaga acha que esse tipo de coisa pode ficar para ser resolvido depois. A Deputada Ana Martins questionou que ele dizia “esse material”, alegando que as pessoas que estão presas afinal de contas são delinqüentes. É muito menosprezo por aquela população. Ao mesmo tempo, ele dizia que tinha 30 anos de formado, 10 anos na direção do Dacar e 3 na direção do Dacar feminino. Acho que já está na hora disso mudar. Talvez ele tenha sucesso em outro local, em outra atividade. A Deputada Ana Martins disse a ele que quem não acredita na recuperação do ser humano não pode trabalhar com seres humanos. Por que somos melhores? “Porque tivemos mais oportunidades?” — ela perguntou a ele. Nessa audiência ficou demonstrado que a triagem das mulheres com deficiência mental é feita pelos carcereiros e que, quando a mulher está muito agressiva, “recebe um analgésico” — aspas. Deve ser a famosa dipirona, que sempre se encontra nas enfermarias de penitenciária. Essas mulheres são separadas na triagem e ficam segregadas com outras presas, disse ele. O Deputado que presidia a reunião perguntou: “Mas como segregadas com outras presas?” “Ah, porque não dá para ficar sozinha, então são segregadas com outras presas que 21 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 também, como elas, estão esperando uma transferência.” Foi numa dessas segregações que a Maria Aparecida perdeu a vista. A expectativa com a penitenciária feminina de Santana é muito grande também pelas mulheres do Dacar. Elas querem melhorar, querem ir para um lugar diferente, querem ter a possibilidade de trabalho. Então disse o Diretor: “Mas algumas trabalham na faxina dos banheiros, dos corredores da própria Secretaria, e essas têm direito à remição”. O resto é o resto. A penitenciária feminina de Santana está num prédio tombado projetado pelo Ramos de Azevedo. Há muita expectativa com essa inauguração, desde junho de 2003, porque espera-se que as condenadas não precisem mais permanecer em estabelecimentos de prisões provisórias. A reforma vem se arrastando. Nós participamos das primeiras reuniões do núcleo de que falou a Dra. Fátima, e nunca conseguimos ver um projeto escrito, nunca conseguimos entender o que estava previsto para aqueles 3 milhões 750 mil reais do orçamento. Colocaram 2 camas, 2 pedras por cela, e fizeram uma reforma na rede de eletricidade. O que sabemos é isso. São 2.400 para começar, em 3 pavilhões, 2 prédios para cada pavilhão, com administração única e, pelo que se sabe, compartilhada com uma ONG. Nós não sabemos que ONG é essa. Vou adiantar minha exposição, porque agora viria a parte de como foi feita a reforma, a pintura, como será administração e tudo o mais. A penitenciária de Santana vai abrigar o Tatuapé, CDPs... Provavelmente as presas na cadeia pública de Arujá, que tem capacidade para 24 mulheres mas abriga 160, também irão para a Santana. Segundo a própria Secretaria da Administração Penitenciária, a reforma da penitenciária de Santana custou 3 milhões 750 mil reais. E o prédio já abriga a Escola de Administração Penitenciária e a Coordenadoria das Unidades Prisionais. A gigantesca obra será a penitenciária feminina. Isso está no site, nas manifestações de fim de ano do Secretário, que diz ainda que a Secretaria buscou o equilíbrio entre a necessidade de se manter a segurança e a disciplina, de um lado, e a humanização da execução penal, de outro. Diz que nunca se fez tanto por presos no Estado de São Paulo como nos últimos anos. No final de 2004, anuncia como uma nova e ousada ação o primeiro concurso “Reescrevendo o Futuro — Cidadania Hoje para Viver Melhor o Amanhã”, que 22 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 premiou a mais bela e a mais simpática das detentas. Vejam que essa é uma das novas e ousadas ações da Secretaria da Administração Penitenciária do Governo de São Paulo. Este ano deu-se mais ênfase à formação dos agentes penitenciários, o que é de grande importância, porque eles precisam saber o que estão fazendo lá dentro. O Dr. Nagashi termina a mensagem dizendo “Vamos ao trabalho”. Concordo com ele. Vamos ao trabalho. Vamos interditar o Tatuapé e o Dacar. Vamos conhecer a fundo o projeto da penitenciária de Santana. Vamos saber quem vai administrá-la. Vamos saber quem vai ficar lá, por quanto tempo e a partir de quando. Nada em São Paulo é feito com respeito à lei. Sempre se aproveita alguma coisa. A construção desses presídios jamais foi feita para a mulher, sempre houve adaptação. Não se respeita o Regimento Interno Padrão dos Estabelecimentos Prisionais do Estado de São Paulo, regras mínimas para o tratamento do preso no Brasil, nem a Lei de Execuções Penais, nem a lei que dispõe sobre apoio às pessoas portadoras de deficiência. A Associação dos Magistrados do Brasil publicou na revista Consultor Jurídico que grande parte da morosidade ou dos problemas processuais é de responsabilidade dos advogados. Ora, não há advogado que trabalhe sozinho, sem o juiz e sem o promotor. Também não há nenhum promotor que consiga alguma coisa sozinho neste mundo. Acho um abuso o Governo de São Paulo dizer que vai desativar as carceragens e que agora sim a Polícia vai poder investigar e prender mais. Ouvi isso ontem à noite. E hoje, no aeroporto, vi uma propaganda institucional do Ministério Público de São Paulo: “Agora, Ministério Público em São Paulo é outra história”. Falam como se os promotores não fossem responsáveis pela qualidade das denúncias, pelos pedidos de prisão cautelar, pelos pedidos de condenação. É como se a manutenção de pessoas no cárcere independesse dos juízes, que nas decisões ignoram o tempo já cumprido, mas ao mesmo tempo se emocionam com pais e filhos presos no mesmo local, então mandam soltá-los. No Dacar há um caso de mãe e filha presas. Será que não querem estender esse direito? Se lá no Dacar não há anjos, aqui entre nós também não há. O que a gente espera é que se faça daqui para a frente um trabalho sério, responsável, digno, e que não tentem acabar com o processo de execução para esconder a ineficiência do Estado no atendimento 23 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 aos presos, assim como fizeram com a progressividade no cumprimento da pena, na sua individualização e na sua finalidade. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Muito obrigado, Dra. Sônia Regina Arrojo e Drigo. A Mesa foi mais tolerante com V.Sa. porque a Dra. Fátima usou menos tempo do que poderia. Houve uma compensação. (Intervenção fora do microfone. Inaudível.) O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Na hora das perguntas, Dra. Fátima. Vou chamar a próxima expositora, a Dra. Heidi Ann Cerneka, Coordenadora da Pastoral Carcerária Nacional Feminina. Eu e a Dra. Heidi já nos conhecemos há alguns anos. Acho que se reconhece uma pessoa que defende o direito de presos e presas quando ela é referência para os presos e presas. Muitas das denúncias que chegam ao meu conhecimento sobre violação de direitos das presas de São Paulo são feitas pela Comissão Pastoral Carcerária. Acho que se existisse um Prêmio Nobel da Paz brasileiro a Comissão Pastoral Carcerária e a Comissão Pastoral da Terra seriam boas candidatas. Lá em São Paulo ouve-se muito “eu já falei com a Heidi, já encaminhei com a Heidi, sou amigo da Heidi”. Em geral essas pessoas têm consciência dos seus direitos. Tenho muito orgulho de passar a palavra à senhora. A senhora é um exemplo, é um símbolo. Seu tempo é de 15 minutos. (Risos.) A SRA. HEIDI ANN CERNEKA - Boa-tarde a todas e todos e muito obrigada, Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Vou começar fazendo um convite. Acho que a melhor maneira de entender este assunto é fazer uma visita às penitenciárias, para conhecer essa realidade que o Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh conhece bem, porque já entrou muitas vezes em presídios, e sem avisar. É muito importante chegar de surpresa, senão vocês vão ver tudo pintado, limpo, bonitinho, o que também tem suas vantagens, porque assim pelo menos naquele dia limpam tudo. Quero também ressaltar que aqui estão presentes outras duas colegas lutadoras da Pastoral Carcerária de São Paulo, a Irmã Mariza e a Irmã Margareth, grandes defensoras dos direitos das presas. Tenho 14 minutos para falar sobre a saúde da mulher. Faço esse trabalho há muitos anos e acho importante o que disse a Dra. Kenarik. Estamos falando de São Paulo, porém a realidade não é diferente em outros Estados brasileiros. Ela só é 24 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 mais chocante em São Paulo por causa dos números. Tive oportunidade de visitar penitenciárias femininas em muitos Estados. Por exemplo, na penitenciária feminina de Goiânia, que tem capacidade para 12 pessoas, já estão presas 70 mulheres. Elas não são 1.350, mas a superlotação chega a quase 600%. O problema é o mesmo em qualquer trabalho de ressocialização ou de reeducação quando as pessoas estão assim amontoadas. Mas vamos falar de saúde. Eu sempre digo que qualquer relatório deve chamar essas pessoas de “presos em corpos femininos”. É como se a pessoa fosse a mesma, mas num lugar com corpo feminino, noutro com corpo masculino. O tratamento não é diferente. Fico contente em saber — na verdade eu já sabia — desse plano de como fazer um presídio levando em conta a questão feminina, mas por enquanto ainda não vi nenhuma unidade assim. O problema no Estado de São Paulo é que quase todas as unidades femininas ou eram unidades masculinas, ou eram cadeias públicas, ou eram FEBEMs. Pelo menos 2 penitenciárias femininas eram unidades da FEBEM. Não há como aproveitar um plano para a penitenciária feminina enquanto ficarem adaptando penitenciárias antigas ou cadeias públicas para abrigar as mulheres. É muita fala hoje sobre essa questão. Acho que vocês estão vendo a nossa paixão pelo assunto e a esperança que temos de que as coisas mudem. Quero que vocês conheçam uma senhora que eu conheci há pouco tempo. O nome dela é D. Iolanda. Ela tem 79 anos e foi presa dia 8 de agosto deste ano, em casa, por tráfico de drogas. Não vou entrar muito no mérito da questão da droga, porque não sou juíza nem estava presente no dia da prisão, então não tenho como julgar a situação. A D. Iolanda nunca tinha sido presa na vida. Ela tem 79 anos e foi presa com o filho, que deve ter uns 55 anos, não sei. Ele é diabético. Essa senhora tem bolsa de colostomia, tem câncer, pesa uns 33 quilos. Ela apresenta grande ameaça à sociedade, não é? Ela ficou quase 2 meses na Cadeia Pública de Valinhos, onde provavelmente há poucos carcereiros, porque cadeia pública geralmente abriga 5 vezes a capacidade de presos, mas o número de funcionários não aumenta. Os funcionários e algumas entidades e ONGs imploraram, até que essa senhora foi transferida para a penitenciária feminina de Tatuapé. E lá ainda está. O próprio 25 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 promotor no processo pediu liberdade provisória, e o juiz negou. Então vou ficar voltando ao assunto, porque creio que esta senhora mostra um pouco melhor os problemas em torno da questão da saúde. Neste plano nacional para a área de saúde, apenas o SUS está disponível para o atendimento em penitenciárias. Neste ponto entramos de novo na questão de a maioria dessas mulheres estarem em cadeias públicas. Não há como aproveitar o plano SUS, portanto. O Plano Nacional de Saúde prevê que unidades com mais de 500 pessoas devem ter certo número de médicos, uma equipe inteira para tratamento. Além do fato de haver mulheres presas em cadeias públicas, não contempladas pela legislação, também conheço muitas penitenciárias que não têm médicos todos os dias, não têm equipe, não têm psiquiatra. Então, estamos muito longe do que está no papel. Mas a minha questão é que a maioria das mulheres se encontram em cadeias públicas, e essa remoção da cadeia pública para o sistema penitenciário é muito difícil. Então vemos, por exemplo, que Dacar tem pelo menos 50 mulheres grávidas. Infelizmente, elas estão lá sem atendimento pré-natal, vão para hospital e algumas descobrem apenas na hora do parto que são portadoras de HIV. Para conseguirem uma vaga no berçário, voltam para a cadeia pública e têm de esperar o hospital dar alta ao nenê. Só depois a cadeia pública pode pedir a vaga para a amamentação. Até julho deste ano ainda constatamos mulheres que esperaram até 3 semanas ou mais para amamentar, e o nenê fica no hospital porque não pode ficar com as mães na unidade. Há solução? Creio que sim. Por exemplo, transferir as mulheres que estejam no nono mês, pois terão um mínimo de pré-natal antes de irem ao hospital para o parto. Já melhorou muito, sim. Quando começamos nessa luta ninguém amamentava. Mas há muito mais a ser conquistado. Gostaria de falar um pouco sobre a saúde mental. Faço muitos acompanhamentos de mulheres em cadeias públicas e conheço muito as falhas. Sei dizer o que está funcionando bem no sistema. Mas o Hospital de Custódia em São Paulo, que tem uma área reservada às mulheres presas, só aceita mulheres que estão submetidas a medidas de segurança. Então, mulheres que têm problemas de surtos, às vezes, vão para o Hospital de Custódia por muito pouco tempo e, quando voltam para a cadeia pública, ficam na situação que a Dra. Sônia descreveu: 26 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 isoladas, tomando remédio sem acompanhamento. E nós acompanhamos muitas mulheres nessa situação. A Quitéria, sobre quem a Sra. Sônia Regina começou a falar, entrou e saiu do Hospital de Custódia pelo menos 9 vezes. Nunca ninguém pediu e ela nunca conseguiu deixá-la internada. Ninguém pensa que, talvez, essa mulher tenha um problema um pouquinho maior e precise até mudar a sentença para medida de segurança. Ela foi duas vezes para o que se chama regime disciplinar diferenciado. Lá eles fizeram uma avaliação e, em 2 meses, alegaram que ela não tinha estrutura psicológica para agüentar ficar sozinha no RDD. E ela permaneceu mais 4 meses internada lá. Enfim, ela voltou para a penitenciária feminina da capital e foi morta, brutalmente assassinada na rebelião de 2004. A questão de saúde mental é muito preocupante. Na cadeia pública de Pinheiros há uma senhora, Sônia Sibalo, presa há 4 anos, quase 5 anos. Ela estava respondendo por crime de homicídio, sujeita ao Tribunal de Júri. Então, demorou 4 anos para o processo dela ir a Júri. Ela permaneceu por 4 anos sem sentença, mas com problemas psiquiátricos. Finalmente foi sentenciada este ano e ganhou medida de segurança. Em julho, o juiz concedeu medida de segurança. Ela ainda está no Dacar aguardando vaga no Hospital de Custódia. E essa mulher está doente, sabe? Quero dizer que o fato de haver muitas mulheres cumprindo pena ou esperando muito tempo em cadeias públicas prejudica a saúde física e mental, em razão da falta de oportunidade de estudar, trabalhar e ganhar remissão. Ou seja, cada um desses problemas desencadeia outros dez. Somos otimistas, caso contrário não estaríamos aqui, eu creio. Há alguns anos foi inaugurado um centro hospitalar para a saúde da mulher presa. No decreto que criou aquele hospital havia até previsão de sala de parto e de laboratório para se fazer exames. Isso foi há poucos anos. Nunca aconteceu. Logo depois, transformou-se em espaço para amamentação. Havia espaço para as mulheres doentes, apesar de ter médico só uma vez por dia ou coisa assim. O problema ocorreu pelo fato de haver mulheres com tuberculose e doenças contagiosas no mesmo prédio onde havia mulheres amamentando recém-nascidos. Então a Secretaria resolveu mudar essa situação. Mudou as mães para a enfermaria da penitenciária feminina e deixou as doentes lá, porque era centro hospitalar. Tudo bem. A penitenciária feminina não tem espaço. Isso tudo em 27 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 poucos anos. Mandaram as mães de volta para esse Centro de Atendimento à Mulher e as doentes para a penitenciária feminina da capital. Só que isso também não deu certo. Então eles aproveitaram uma ala do Centro Hospitalar de Observação Criminal para 8 mulheres que tinham problemas de tireóide, de pressão alta. Uma grávida de alto risco, aliás, que estava presa por furto de chocolate, foi transferida para uma ala do Centro Hospitalar dos Homens. Também não deu certo. Então a tiraram de lá e a mandaram de volta para a penitenciária feminina da capital, que me parece não estar dando totalmente certo. A D. Iolanda, com todos os problemas que tem, não está lá, está na enfermaria da penitenciária feminina do Tatuapé, que era uma garagem reformada. Está no porão, onde não há janelas, e não sei se fica alguém lá 24 horas ou se à noite ela fica sozinha, todos os 33 quilos daquela senhora. Quando a própria penitenciária reclamou que não estavam cuidando das mulheres doentes na enfermaria da penitenciária feminina da capital, sugeriram que ela ficasse em Tatuapé. Questiono essa orientação, primeiro, pela idade e saúde daquela senhora; segundo, porque o sistema não tem centro hospitalar para mulher, mas tem até UTI para os homens. Se o sistema não tem como cuidar adequadamente das mulheres doentes, deveria haver a alternativa de prisão domiciliar ou transferência para algum lugar onde pudessem ser cuidadas. Creio que é muito séria e urgente a construção de um centro hospitalar com UTI para as mulheres. Vou encerrar. A D. Iolanda iria para uma segunda audiência ontem, e estou rezando muito para que, talvez, algo tenha tocado o juiz segunda-feira à noite. Ele não a soltou na primeira audiência, não concedeu liberdade provisória. Mas Deus é bom, muito maior. Estou torcendo para que, quando voltar a São Paulo, descubra que D. Iolanda está em casa com sua família. Muito obrigada. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Muito obrigado, Sra. Heidi Ann Cerneka, pelo seu testemunho, trabalho, dedicação e pela sua esperança. A senhora falava, e minha memória voltava à minha juventude, em 1970, quando entrei pela primeira vez num presídio. Sou daqueles advogados que no dia em que for preso vou pedir a remissão do tempo em que permaneceu em cadeias 28 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 neste País. A sensação que tenho é de que o tempo passa e as coisas pioram. Gostaria de ter a esperança que a senhora tem. Sou testemunha do problema da penitenciária feminina. O tempo foi passando, as coisas foram piorando e as pessoas são as mesmas. Aquela Dra. Penha, que era Diretora da Penitenciária do Tatuapé, era Diretora da Penitenciária Feminina quando comecei a minha carreira de advogado. Já se vão 35 anos e ainda dispensam o mesmo tratamento, a mesma consideração e relação que havia com as presas na penitenciária feminina do Estado. Voltei, creio, a encontrá-la uns 20 anos depois no Tatuapé, ainda com a mesma filosofia, com os mesmos costumes. De qualquer forma, cada vez que vejo uma pessoa como a senhora, que passa o dia interagindo com o problema, mais acredito na grandeza de Deus e que as coisas vão melhorar. Eu me associo à sua reza para que D. Iolanda tenha sido solta ontem ou hoje. Os senhores sabem que os Deputados são escravos do Regimento e de uma pequena luz que começa a piscar, avisando-nos o início da Ordem do Dia. A partir daí, é proibido que continuemos reunidos em nossas Comissões. Como não há Deputados aqui, vou passar a palavra a Dra. Michael. Vou pedir às pessoas que estão aqui para que, se tiverem alguma pergunta ou esclarecimento a fazer — porque os senhores não podem usar a palavra —, que façam enquanto a Dra. Michael faz a exposição. Faremos o registro como se fossem minhas as perguntas, para que os nossos expositores passem às suas considerações finais. Então quero ter a honra de passar a palavra à Dra. Michael Mary Nolan, advogada. Como quero fazer a publicação desta audiência, não posso dizer tudo o que gostaria. Sobre a Dra. Michael quero dizer que corria a década de 70 quando eu trabalhava com D. Paulo Evaristo Arns na Cúria Metropolitana. Um dia D. Paulo me pediu uma vaga de estagiário no meu escritório para uma freira, sem me dizer o nome. Logo aceitei a indicação. A Dra. Michael, creio, tinha acabado de entrar na faculdade da PUC em São Paulo. Eu tinha raiva, como ainda tenho, de americanos por questões político-ideológicas, mas não sabia que a pessoa para a qual ele pedia o estágio no meu escritório era uma freira americana que queria ser advogada. 29 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Bem, a Dra. Michael é hoje um símbolo de defesa dos direitos humanos, com extrema dedicação e disponibilidade para as questões dos direitos humanos dos oprimidos. É assim com índios, com quilombolas, com presidiárias, com crianças e adolescentes, com trabalhadores rurais sem terra. Por tudo isso, orgulho-me de passar a palavra à Dra. Michael Mary Nolan, que nesta audiência pública representa o Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo. V.Sª tem a palavra. A SRA. MICHAEL MARY NOLAN - Obrigada, Deputado. Precisamos dizer também que S.Exa. assumiu um risco quando aceitou uma americana para trabalhar com ele numa época em que ninguém queria saber de americanos. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Até hoje, Dra. Michael. A SRA. MICHAEL MARY NOLAN - Mas o senhor falou que existem exceções. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - V.Sª e a Heidi também são exceções. (Risos.) A SRA. MICHAEL MARY NOLAN - Cabe-me, porém, falar um pouco sobre a questão das estrangeiras presas no Estado de São Paulo. Em 2000, quando começamos a trabalhar com o problema dos estrangeiros, havia 80 mulheres presas. Hoje há aproximadamente 185 mulheres estrangeiras presas, oriundas de 36 países: 9 de países da África, 3 de países de Europa, 7 de países da América do Sul, além de China, Filipinas, Coréia, Tailândia, Israel e Líbano. No fim de 2004, havia 143 mulheres presas, 122 delas incursas no art. 12, tráfico de drogas, as chamadas “mulas”, de quem a Dra. Kenarik Boujikian Felipe falou. A maioria dessas mulheres são mães solteiras de filhos menores. A elas oferecem mais ou menos 5 mil dólares para fazerem uma viagem ao exterior. Para muitas é a primeira vez que saem de seu país. Chegam no Brasil, recebem a droga e se dirigem ao aeroporto. A polícia recebe uma denúncia anônima do próprio tráfico de drogas de que elas estão passando no aeroporto com drogas. Elas são presas. Enquanto os homens da Polícia Federal estão preocupados em prender essas mulheres, alguma outra pessoa passa com muito mais drogas. Resultado: ficam abandonadas por todos. 30 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Não existe esse relato na defesa processual dessas mulheres. As testemunhas que existem são os policiais que as prenderam. Mas elas nunca saíram de seus países, não conhecem ninguém para arrolar como testemunha. E ninguém que tenha presenciado o ato da prisão no aeroporto aceitaria ser testemunha de defesa. Elas enfrentam um processo judicial e a nossa legislação exige apenas um tradutor no interrogatório. Na audiência de instrução, não há necessidade de tradutor presente, mas ela deve ter direito a um tradutor de sua própria língua. Imaginem se há possibilidade de dispormos de tradutores para as presas de 36 países? Já tivemos casos de mulheres africanas cuja terceira língua era inglês de ter-lhes sido dado um tradutor francês, da língua francesa. Elas vêm para uma cadeia sem saber os costumes da cadeia. Na África, é falta de respeito não olhar alguém olho no olho. Se se entra numa cadeia e se encara um agente penitenciário, ele pensa que a pessoa o está ameaçando, desafiando. Hoje enfrentamos problemas porque antes conseguíamos que todos os estrangeiros fossem diretamente para o sistema prisional e não ficassem na Secretaria da Segurança Pública. Mas na cadeia pública do Arujá, a mais perto do Aeroporto Internacional de Guarulhos, estão presas 160 mulheres em um lugar onde só cabem 24, dentre elas 11 estrangeiras. Devemos lembrar, como a Dr. Sônia Regina bem citou, que a Secretaria de Segurança Pública não tem nenhuma provisão para higiene pessoal das presas. Uma estrangeira, detida no aeroporto de Guarulhos e levada a uma cadeia pública dessas, vai dispor de alguma coisa para sua higiene pessoal? Nada terá. Além disso, a situação de superpopulação em Arujá deixa as presas brasileiras com muita raiva das estrangeiras, o que é normal. Está todo mundo sofrendo e ainda se coloca uma gringa no meio! Elas vão sofrer mais por causa disso? Isso é muito problemático. Há outro problema. Esses são presos federais. Não existe um presídio federal para mulheres nem planos para construção de um presídio federal para mulheres. O Estado de São Paulo possui 11 membros na Defensoria Pública da União. Pouquíssimas dessas mulheres têm advogados, e elas devem ser atendidas pela Defensoria Pública da União. Este ano a Defensoria Pública da União decidiu que não mais poderia atender à Justiça Federal de Guarulhos. Então, as presas foram 31 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 atendidas pelos advogados dativos de Guarulhos, que também não falam a língua de suas clientes. Agora a Defensoria Pública voltou a atendê-las, depois de muita briga. Há sérios problemas processuais, trata-se de presas federais em presídios estaduais. A sentença de uma presa estrangeira deve ser traduzida, porque ela tem de ser cientificada na sua língua original. Não existem tradutores para todas as línguas. Às vezes, mandam para as embaixadas daqui, é uma confusão. Enquanto não houver cientificação, não há dia para começar o processo de execução da respectiva sentença. Por vezes, a demora é de 6, 8 ou 10 meses. Quando o processo de execução começa, há a discussão se ela tem direito ou não à liberdade condicional. Apesar de a Constituição brasileira dizer que os estrangeiros são iguais perante a lei, não existe a opinião unânime dos juízes quanto à concessão de liberdade condicional. A maior parte dessas mulheres serve apenas, como se diz, de “ponto-a-ponto”. E quero chamar a atenção dos Deputados e assessores presentes, porque está em andamento e deve ser apresentada nesta Casa uma nova lei: em vez de ser chamada Lei de Estrangeiros, será chamada Lei da Imigração. Há uma parte nessa lei que trata da questão das presas e precisamos prestar muita atenção para que esse aspectos sejam bem abordados e os dispositivos não sofram alterações que possam prejudicar os presos estrangeiros. A legislação atual exige que o preso estrangeiro seja expulso quando terminar o cumprimento da pena. Neste momento, no Estado de São Paulo, processos de expulsão estão parados, não há funcionários da Polícia Federal para fazê-los. Ao processo de expulsão só é dado andamento quando a mulher é solta. São 2 meses de espera até se obter a passagem do Governo Federal para a mulher viajar. Uma mulher estrangeira, quando é solta, não pode ficar até 2 meses na rua, em São Paulo, sem qualquer apoio, até que o Governo consiga a passagem para que ela possa ser expulsa. Normalmente, as famílias dessas mulheres mandam dinheiro para que o Governo compre a passagem e as expulsem. Temos a casa da Mulher, da qual a Irmã Marisa é uma das diretoras, que recebe essas mulheres egressas dos presídios. Se não existisse a Casa da Mulher, não haveria lugar para elas. Essa é a situação. 32 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Em relação aos presos, portanto, há necessidade de prestarmos atenção ao projeto de lei da imigração. Quero também alertar que existe uma legislação portuguesa chamada Cooperação Judiciária Internacional em Matéria Penal. A legislação portuguesa permite que uma portuguesa presa em outro país cumpra pena em Portugal, e um estrangeiro preso em Portugal cumpra pena em seu país de origem. Não é necessário um convênio bilateral para que isso aconteça, pois está contemplada essa hipótese na legislação portuguesa. Gostaria de sugerir que alguém da Comissão visse a possibilidade de que tal previsão também se inserisse na legislação brasileira, porque, assim, a mulher processada e condenada poderia cumprir a pena em seu país. Isto é muito importante, quando lembramos que a maior parte dessas mulheres são mães de filhos menores e são condenadas a cumprir penas acima de 3, 4 ou 5 anos, geralmente por tráfico de drogas. Está sendo provado no mundo inteiro que a guerra contra as drogas está afetando mais duramente as mulheres e os jovens. Notamos isso no Brasil: 50% das mulheres em Dacar foram presas por tráfico; das estrangeiras, 122 de 143 foram presas por tráfico de drogas. Mas o problema com o art. 12 é que ele traz 10 ou 12 verbos no seu texto, sem descrever a possibilidade de fazer diferença entre as condutas. Sabemos de outra coisa que prejudica a mulher e que traz como conseqüência a condenação em penas maiores. O crime organizado é piramidal, quem pode obter vantagem com a delação premiada é o homem, que está no topo da pirâmide. As mulheres, que estão em baixo, não têm condições de se valer da delação premiada e, portanto, ficam mais tempo presas. Solicitaram que eu falasse um pouco sobre a questão das idosas. Estamos terminando uma pesquisa sobre a situação das idosas em presídios de São Paulo. Temos notado um grande aumento no número de idosas presas, também envolvidas com a questão das drogas. É o exemplo da D. Iolanda: a mulher estava na casa quando a polícia encontrou as drogas. A avó que estava cuidando das crianças é que foi presa. Notamos que as regras mínimas no Brasil estabelecem que o idoso tem direito a uma situação especial de cadeia, e não está tendo. Ela está sendo misturada com toda a população prisional. 33 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Por fim, apenas mais 2 assuntos. Primeiro, sobre o Regime Disciplinar Diferenciado — RDD —, que foi contemplado pela legislação brasileira ano retrasado. Estamos tendo muitos problemas no Estado de São Paulo para evitar a necessidade de autorização judicial para ir ao RDD. Inventou-se, também, o Regime Disciplinar Especial — RDE. A diferença entre os dois é mínima: não são presos em celas individuais, há mais dias de sol, podem ter televisão e outros privilégios. Só que por 4 meses durante o ano. Ninguém foi para o RDD. Todos os presos foram mandados para o RDE. Por quê? Porque o RDE não precisa de autorização judicial. E o diretor da cadeia é que decide quem vai. Houve uma rebelião na penitenciária do Butantã. A diretora mandou 80 mulheres, sendo 52 para o RDD e 28 para o RDE, como resultado da rebelião. O juiz concedeu medida cautelar para 52 mulheres por 15 dias. Elas estão há 50 dias no RDD, sem nenhuma decisão em seus processos disciplinares. Então, nossa sugestão é que a Câmara realmente fiscalize para saber como essa legislação de RDD está sendo aplicada, porque está havendo muitas violações. Por fim, a questão da Lei de Execução Penal — LEP. Há necessidade de reflexão. A Dra. Kenarik falou sobre remissão para quem não pode trabalhar ou estudar, porque o Estado não dá meios. Precisamos, na execução penal, observar a questão das mulheres. Sabemos, por exemplo, que no Estado de São Paulo, quando aquele juiz foi assassinado ao lado de Presidente Prudente, como medida para punir os presos, todas as execuções daquela parte do Estado foram mandadas para a Capital, e ficaram 6 meses sem nenhuma mudança. Estamos passando por problemas sérios: o novo presídio feminino em Campinas está aberto há 6 meses, e os processos de execução dessas presas estão parados em Franco da Rocha, cujo juiz não tem mais competência para decidir. O diretor do presídio solicitou um caminhão para buscar os processos, mas também o juiz de execuções de Campinas não tem pressa em receber mais 700 processos. Então, a maneira como estão sendo organizadas as execuções, com a mudança que vai ocorrer com a abertura de Santana, com todas as transferências, acarreta a espera de 6 a 8 meses para as mulheres, sem a possibilidade de pedirem remissão ou outros benefícios a que têm direito. É um problema sério porque cria 34 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 uma angústia na presa, que não sabe se tem direito ou não, não sabe onde está seu processo de execução. Não concordamos com a proposta do Estado de São Paulo de transferir a jurisdição das execuções penais para a Secretaria de Administração Penitenciária. Parece que o Dr. Nagashi está preparando um projeto de lei para a Câmara com essa proposta. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Muito bem. A Mesa registra a presença da Dra. Alexandra Trivelino. Ela é assessora, Dra. Kenarik, da área técnica de saúde no Sistema Penitenciário do Ministério da Saúde e fez uma consideração. Parabenizo a iniciativa, mas gostaria de ressaltar que no Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário há ações específicas para a saúde das mulheres presas, inclusive com repasse de medicamentos. No folheto mostrado não consta isso, por ser material resumido. Como bem observou as palestrantes, a precária infra-estrutura dos estabelecimentos prisionais constitui grande desafio para a implantação das políticas públicas voltadas para as mulheres presas. Precisamos unir as políticas públicas com a construção de estabelecimentos prisionais adequados a condições de encarceramento mais dignas. A SRA. MICHAEL MARY NOLAN - Só um minuto. Acho que outra proposta importante é que esse convênio inclua as mulheres, que são 60% no Estado de São Paulo. O SR. PRESIDENTE (Deputado Luiz Eduardo Greenhalgh) - Isso. Deixe-me lhes dizer uma coisa: já estamos há 45 minutos com a Ordem do Dia estabelecida, e essa luz vermelha não pára de piscar. Eu quero agradecer a presença de todos vocês, aos que vieram assistir a esta audiência pública, aos nossos expositores. Se não houvesse a Ordem do Dia, poderíamos continuar e fechar uma pauta, porque o objetivo das audiências públicas é estabelecer um diálogo com a sociedade, com os operadores do tema, no sentido de estabelecer metas de curto, médio e longo prazos, para que o Congresso Nacional, via Comissão de Direitos Humanos, possa intervir com mais eficiência e eficácia. Algumas idéias foram levantadas: o projeto de remissão das penas, pelo aprendizado, pelo trabalho, pela educação; a questão da anistia de mulheres presas em determinadas condições. Nós vamos ter que superar um problema, da Lei dos 35 CÂMARA DOS DEPUTADOS - DETAQ Comissão de Direitos Humanos Número: 1772/05 COM REDAÇÃO FINAL Data: 9/11/2005 Crimes Hediondos, que estabelece que o tráfico de drogas é insuscetível de graça, indulto, perdão, anistia, etc. Então, devemos driblar essa situação, do ponto de vista legislativo. A maior parte das mulheres presas atualmente no Brasil foram incursas no artigo que trata do tráfico de entorpecentes, portanto, como disse a Dra. Michael, insuscetíveis de indulto, etc. Vamos achar uma alternativa para uma nova construção jurídica sobre essa questão. Há todos os problemas levantados sobre a condição da presa estrangeira por tráfico, os obstáculos que a Dra. Michael estabeleceu; a questão dos convênios bilaterais de cumprimento de pena no país de origem, em relação às presas estrangeiras; a questão da diferença entre o Regime Disciplinar Diferenciado e o Regime Disciplinar Especial e também da Lei das Execuções. Então, para que não percamos as contribuições dadas nesta reunião, vou encerrar a audiência pública, agradecendo, mas indagando aos expositores, dado que todos, com exceção do senhor, são de São Paulo, se poderíamos continuar este debate em São Paulo ainda nesta semana, talvez na sexta-feira pela manhã, em local que vocês acertarem. Eu me comprometo a ir. Estabeleceremos uma pauta de reivindicação e depois as juntaremos às notas taquigráficas desta audiência pública, Márcio, se for possível, para que possamos estabelecer tarefas para nossa Comissão. Se vocês estiverem de acordo, podemos fazer isso. Posteriormente, em Brasília, reuniremos o material, Dr. Fábio. Agradeço a presença de todos. Foi muito proveitosa a audiência pública, e uma honra para a Câmara dos Deputados. Muito obrigado. Declaro encerrada a reunião. 36