COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. Caracterização Geológico-Geotécnica dos Materiais Presentes nas Encostas na Região Metropolitana do Recife Ana Patrícia Nunes Bandeira UFPE, Recife, Brasil, [email protected] Roberto Quental Coutinho UFPE, Recife, Brasil, [email protected] Margareth Mascarenhas Alheiros UFPE, Recife, Brasil, [email protected] RESUMO: Este trabalho tem como objetivo principal apresentar uma caracterização geológicogeotécnica dos materiais presentes nas áreas de risco de escorregamentos de encostas da Região Metropolitana do Recife, para subsídio ao entendimento dos mecanismos e dos processos atuantes. Os materiais envolvidos na área de estudo pertencem às seguintes unidades geológicas: Formação Barreiras e Embasamento Cristalino Precambriano, constituído de gnaisse-granítico e milonito. A Formação Barreiras apresenta três tipos de fácies: fácies de leque proximal; fácies de leque distal/planície aluvial e fácies fluvial entrelaçada (braided). O solo residual de granito-gnaisse é o mais encontrado nas localidades estudadas, sendo considerado de elevada susceptibilidade a escorregamentos. A caracterização geológico-geotécnica foi realizada por meio da análise tátilvisual das amostras e por meio de ensaios de laboratório (ensaios básicos de caracterização, permeabilidade e resistência ao cisalhamento). A análise da resistência foi verificada por meio de ensaios de cisalhamento direto na condição inundada, simulando a pior situação nas áreas de morros, que se dá sob condições de chuvas intensas. O estudo dos materiais permitiu classificar os solos e identificar a faixa de variação dos parâmetros de resistência ao cisalhamento dos materiais que estão presentes nas áreas de risco. Essas informações são de grande importância para a tomada de decisões das ações municipais, seja para elaboração de projetos de engenharia, através de obras estruturadoras ou para realização de ações não-estruturais. Os resultados deste estudo darão subsídios para o aprimoramento da gestão de risco de escorregamentos na Região Metropolitana do Recife. PALAVRAS-CHAVE: Caracterização geológico-geotécnica, Escorregamentos de encostas, Gerenciamento do risco. 1 mobilizaram equipes técnicas especializadas em todo o Brasil para a contribuição à gestão de risco nas cidades. A Região Metropolitana do Recife apresenta um histórico de 202 mortes diretamente relacionadas a movimentos de massa. Os municípios do Recife, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e Olinda são os que apresentam maiores números de mortes. Os três municípios citados preliminarmente foram escolhidos para fazer parte da pesquisa de doutorado da engenheira Ana Patrícia N. Bandeira, primeira autora deste trabalho, no Programa de Pós- INTRODUÇÃO Os problemas de instabilidade de encostas em áreas ocupadas estão presentes em cerca de 150 cidades brasileiras e o agravamento e frequência dos desastres levou à formulação, ainda não consolidada, de uma política pública de redução de riscos de deslizamentos, abrangendo os três níveis de governo. Os recentes desastres ocorridos na região sudeste do Brasil (Angra dos Reis, São Paulo e Santa Catarina) deixou centenas de vítimas fatais e milhares de desabrigados. Esses fatos 1 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. zona 25S segundo a projeção Universal Tranverse Mercator – UTM (Figura 1). Os três municípios ocupam juntos uma área total de aproximadamente 530 km2, dos quais cerca de 21% (111,3 km2) correspondem aos depósitos da Formação Barreiras. Esses depósitos ora estão recobertos por vegetação de Mata Altântica, ora estão expostos em cortes e erosões provocados por ações antrópicas. Graduação em Engenharia Civil da UFPE, onde parte dos resultados estão apresentados aqui. Para melhorar a gestão das áreas de risco nas nossas cidades é preciso avançar no conhecimento geológico-geotécnico dos solos das áreas de morros, entender os mecanismos e os processos atuantes e investir em tecnologias mais eficientes de análise e contenção. Leroueil (2004) define, como essenciais para análise do risco, a observação de um conjunto de fatores de causa: fatores predisponentes; fatores acionantes ou agravantes e os fatores revelantes. O perfil geológico-geotécnico é o fator predisponente dos processos atuantes, sendo essencial seu conhecimento para o entendimento dos mecanismos. Reconhecendo esta importância, diversas pesquisas foram realizadas pelo Grupo de Pesquisa GEGEP, no Departamento de Engenharia Civil da UFPE. Na RM-Recife, a chuva é o principal fator acionante ou agravante dos deslizamentos de encostas, sendo muito forte a indução pela ação antrópica na área, tais com: cortes irregulares, retirada da cobertura vegetal e lançamento de águas servidas (Bandeira et al., 2009, Coutinho e Silva, 2005). A caracterização geotécnica é uma atividade importante para análise de movimentos de massa, a qual permite relacionar os tipos de movimentos com os materiais envolvidos. Coutinho e Severo (2009) fazem uma ampla revisão bibliográfica sobre parâmetros de investigação para estabilidade de taludes. Este trabalho apresenta os resultados do estudo da caracterização geológico-geotécnica dos principais materiais presentes nas encostas da RM-Recife, com objetivo de contribuir na gestão de risco e nas ações estruturais públicas. 2 CARACTERISTICAS ÁREA DE ESTUDO GERAIS Figura 1. Localização da Área de Estudo (Recife, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes). Em relação ao clima, a área se apresenta como As’, pela classificação de W. Köppen, (clima tropical chuvoso com verão seco e estação chuvosa que se adianta para o outono, antes do inverno). As precipitações médias e máximas mensais na RM-Recife indicam um período chuvoso entre os meses de março à agosto, com médias mensais maiores que 150 mm, considerado de alerta para as defesas civis municipais. No mês de junho são registrados médias superiores a 400 mm. De setembro a fevereiro têm-se baixos índices pluviométricos. Com relação ao relevo, a área é caracterizada por uma quebra pronunciada entre a planície e os morros. Nas áreas de morros podem-se encontrar altitudes, em relação ao nível do mar, de até: 100 m no Recife; 150 m em Camaragibe; e 200 m em Jaboatão. Geomorfologicamente, a área está representada por pelo menos três componentes bem definidos: Planície Costeira, Tabuleiros, e Morros, onde a planície fluvio-marinha é circundada por morros cristalinos e colinas sedimentares e tabuleiros de sedimentares (Bandeira et al., 2009). 3 CARACTERIZAÇÃO GEOLÓGICA- DA A área de estudo deste trabalho envolve os municípios de Recife, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes. Estes municípios estão situados na porção oriental do Estado de Pernambuco, pertencentes à RM-Recife, e juntos estão compreendidos entre as projeções 265000 a 300000 Leste e 9085000 a 9125000 Norte do sistema de coordenada geográfica WGS-1984 2 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. das superfícies expostas do embasamento colmatando um relevo movimentado (Alheiros, 1998). Este sedimento é dominado por processos fluviais, sendo expressos por três principais sistemas deposicionais: fácies de leque aluvial proximal; fácies de planície aluvial; e fácies de canal fluvial entrelaçado (Bandeira et al. 2005 e De Paula, 2008). O sistema deposicional de leque aluvial proximal é formado pela deposição de sedimentos no sopé de regiões com relevo acentuado e sob condições climáticas variando entre semi-árido e úmido. Na cidade do Recife, os depósitos deste sistema ocorrem na região norte, noroeste e oeste do município; e na cidade de Camaragibe ocorre no centro norte e sudoeste. Num contexto mais regional, estão localizados na faixa sedimentar em contato com o embasamento cristalino (Figura 2). Este sistema deposicional é desenvolvido sob um regime de fluxos de alta energia devido aos fortes gradientes capazes de tracionar e depositar seixos e outros materiais provenientes dos solos do embasamento cristalino (Figura 3). GEOTÉCNICA DA ÁREA DE ESTUDO 3.1 Aspectos Gerais das Unidades Geológicas As áreas de morros da Região Metropolitana do Recife apresenta significativa presença de sedimentos da Formação Barreiras e de solos residuais. Observando a área de estudo (Recife, Camaragibe e Jaboatão), verifica-se que, embora predominem áreas do embasamento cristalino, a unidade mais extensamente ocupada nas áreas de morros é a Formação Barreiras, onde são freqüentes os acidentes por deslizamentos de encostas devido às formas inadequadas de ocupação (Figura 2). Figura 3. Fm Barreiras - Fácies Leque Aluvial Proximal Figura 2. Mapa das Principais Unidades Geológicas da Área de Estudo. (Fonte: Bandeira et al., 2009) A fácies de leque aluvial / planície aluvial refere-se aos depósitos formados em extensas áreas que são recobertas ciclicamente por água nos períodos de cheia e transbordamento dos canais de sistemas fluviais. Sua área está restrita às porções à oeste, próximo ao limite entre Camaragibe e Recife; e a sul, próximo ao limite entre Jaboatão e Recife. Este sistema mostra uma estratificação horizontal com intercalação de camadas arenosas e argilosas (Figura 4), decantadas durante os períodos de menor energia do fluxo fluvial, nas partes mais baixas do relevo da época. Os sedimentos da Formação Barreiras estão localizados basicamente em duas porções: a primeira é mais setentrional, abrangendo os tabuleiros do norte de Camaragibe e de Recife; e a segunda, mais meridional, compreendendo os restos de tabuleiros e os morros existentes entre os limites municipais: norte de Jaboatão dos Guararapes e sul do Recife. A Formação Barreiras teve sua deposição associada aos eventos cenozóicos de natureza climática e/ou tectônica, permitindo no final do Terciário (Plioceno), o extenso recobrimento 3 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. Devido à intensa argilização desses solos, os técnicos o denominam informalmente de molemole, tamanha a sua plasticidade. A fácies de canal fluvial entrelaçado está presente nos depósitos a norte-nordeste da área de estudo. É caracterizado por sedimentos formados sob regimes de fluxo de alta energia com transporte de areias e cascalhos por tração, e de finos por suspensão. Sua coloração é predominantemente creme, porém varia com aspecto mosqueado no perfil, deixando zonas esbranquiçadas em contraste com manchas avermelhadas do óxido de ferro em decorrência do intemperismo (Figura 5). Os fluxos são de alta energia, fortes declives e de altas taxas de sedimentos resultando no estabelecimento de múltiplos canais interligados onde se destacam barras fluviais de areia e cascalho. Os solos residuais têm origem nas rochas do embasamento cristalino, especialmente nos gnaisses graníticos. São de idade arqueana (2,1 a 1,5 bilhões de anos), pertencentes ao Maciço Pernambuco-Alagoas (Alheiros, 1998). Esse embasamento apresenta quatro fases de deformação, das quais a última, associada a falhamentos sob regime cisalhante, resultou no Lineamento Pernambuco. As rochas graníticas, quando sofrem ação do intemperismo químico têm os feldspatos alterados para materiais argilosos, contribuindo para os deslizamentos ocorridos nos municípios da área de estudo. Nos municípios envolvidos nesta pesquisa, as rochas do embasamento cristalino do Complexo Granito-Gnáissico são extensamente capeadas pelo seu solo residual jovem a maduro), aflorando de forma isolada em alguns pontos dos municípios. A Figura 6 apresenta um exemplo do solo residual do Complexo Granito-Gnáissico com característica de saprolito evoluindo para o solo residual maduro. A área de estudo também apresenta encostas problemáticas constituídas de solos residuais de milonito, os quais apresentam a mesma composição granítica, porém profundamente triturados pelos esforços cisalhantes do Lineamento Pernambuco. Os solos residuais provenientes dos milonitos, devido ao intenso cisalhamento, são de fácil percolação determinando um alto grau de alteração pelo intemperismo químico. Nas proximidades da estação do Metrô do Recife em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, ocorreram vários deslizamentos sucessivos. Figura 4. Fm Barreiras - Fácies Leque Aluvial / Planície Figura 5. Fm Barreiras / Canal Fluvial Entrelaçado Figura 6. Solo Residual do Complexo Granito-Gnáissico 3.2 Resultados da Caracterização GeológicaGeotécnica A caracterização geotécnica foi realizada por meio de ensaios básicos de caracterização e de resistência ao cisalhamento. Para a coleta de amostras foram escolhidas áreas com histórico de acidentes, classificadas como de risco alto e muito alto no mapeamento de risco executado através do Plano Municipal de Redução de Riscos e com características geológicas de 4 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. interesse. Na Tabela 1 estão os locais da amostragem com suas unidades geológicas. Tabela 1. Locais de Amostragem com as Unidades Geológicas Associadas. Município Localidade Unidade Geológica Bairro dos Fm Barreiras / Estados Planície Aluvial Fm Barreiras / Leque Camaragibe Ostracil Proximal Solo Residual de Alberto Maia Rocha Gnaissica Fm Barreiras / Canal Recife Dois Unidos Fluvial Entrelaçado Fm Barreiras / Leque Alto II Aluvial Mediano com Carneiros influência Proximal Jaboatão dos Solo Residual de Guararapes Cavaleiro Milonito Solo Residual de Vista Alegre Milonito Figura 7. Sedimentos da Formação Barreiras de Leque Aluvial Proximal (Ostracil / Camaragibe). A alternância argila/areia na fácies de planície aluvial cria situações peculiares quanto à estabilidade das encostas: se o talude cortado tiver como camada de topo um solo argiloso, esta segurará o relevo, manterá mais facilmente a cobertura vegetal e reduzirá a erosão da camada subjacente; porém, em casos de erosão no pé do talude, a camada superior pode sofrer processos de solapamento (Figura 8); quando a camada de topo é arenosa, a alta infiltração em superfície favorecerá a saturação desta camada e poderá ocorrer erosão na crista; a camada de solo argiloso funcionará como uma barreira impermeável, induzindo a um caminho preferencial da água e consequentemente a possíveis superfícies de escorregamentos. Santana e Coutinho (2006) mostram a presença de camada menos permeável como fator predisponente de um deslizamento ocorrido no Recife, provocando a morte de 01 pessoa em outubro de 2005. Para subsídios ao entendimento dos mecanismos dos processos atuantes nos morros da RM-Recife (erosão e escorregamentos), nas fácies de Planície aluvial foram retiradas amostras deformadas e indeformadas em cinco camadas mais significativas do relevo (Figura 9). As amostras deformadas foram retiradas em saco e as indeformadas em blocos (04 blocos). O Bloco 4 é constituido de 02 camadas (amarela e vermelha) e o Bloco 2 apresenta uma areia caulínica com presença de quartzo. Os ensaios geotécnicos realizados nos sedimentos da Formação Barreiras de planície aluvial apresentaram os seguintes resultados: 3.2.1 Fm Barreiras / Fácies de Leque Proximal Os sedimentos da fácies de leque proximal (Figuras 3 e 7) mostram granulação grossa e má seleção granulométrica, ocorrendo principalmente na parte central do município de Camaragibe. A amostragem realizada em Ostracil (Camaragibe) apresentou solo arenoso com pedregulho, com presença de seixos de grandes dimensões (1,0 cm a 10 cm). Devido a isto os ensaios de resistência ao cisalhamento foram realizados na camada que não apresentou pedregulho, pois a presença do mesmo gerou dificuldades na moldagem do corpo de prova e poderia danificar a prensa de cisalhamento. Ensaios de caracterização geotécnica realizados em camada não pedregulhosa indicaram solos de textura grossa (SC-areia argilosa). Os parâmetros de resistência foram obtidos através de ensaios de cisalhamento direto drenado na condição de corpo de prova inundado. O intercepto de coesão (c’) foi nulo e o ângulo de atrito (φ’) de 35,3º. 3.2.2 Fm Barreiras / Fácies de Planície Aluvial A fácies de planície aluvial da Formação Barreiras ocorre no sul do município de Camaragibe, mais frequente no Bairro dos Estados, limite com Recife (Figura 4), onde foi realizada a amostragem. 5 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. baixo grau de arredondamento, e uma alta relação da fração areia sobre a fração lama. No entanto, são comuns as intercalações com níveis síltico-argilosos de pequena espessura e boa continuidade lateral, associados às fases de enchentes, com transbordamento de canal e instalação temporária de uma planície de inundação. Este tipo de sedimento apresenta alta susceptibilidade a processos erosivos, como pode ser observado nos sulcos apresentado na Figura 10. Para a amostragem foi escolhida a localidade de Dois Unidos, Oeste do Recife. Ensaios de caracterização geotécnica indicaram solos de textura grossa (SC - areia argilosa). Os parâmetros de resistência do solo foram obtidos através de ensaios de cisalhamento direto drenado na condição inundada, apresentando c’=10 kPa e φ’=29º. Figura 8. Erosão no Pé do Talude em Sedimentos da Formação Barreiras de Planície Aluvial Bloco 1 Bloco 2 Bloco 3 Bloco 4 Figura 9. Camadas Amostradas na Formação Barreiras de Planície Aluvial (Bairro dos Estados / Camaragibe). - Bloco 1: solos de textura grossa, classificados como SC (areia argilosa); intercepto de coesão (c’) de 15 kPa e ângulo de atrito (φ’) de 30,5º; - Bloco 2: solos de textura grossa, classificados como SM (areia siltosa); c’=4,5 kPa e φ’=32,3º; - Bloco 3/camada amarela: solos de textura fina, classificados como CL (argila de baixa plasticidade); c’=4,4 kPa e φ’= 28,2º; - Bloco 3/camada inferior vermelha: solos de textura fina, classificados como CL (argila de baixa plasticidade); c’=10,5 kPa e φ’=26,8º; - Bloco 4: solos de textura fina classificados como como MH (silte de alta plasticidade); c’=14,4 kPa e φ’=29º. Figura 10. Formação Barreiras de Fácies de Canal Fluvial Entrelaçado (Dois Unidos / Recife). 3.2.4 Formação Barreiras de Fácies de Leque Aluvial Mediano com Influência Proximal Os sedimentos de leque aluvial mediano com influência proximal formou-se sob processo de alta energia gravitacional, sem grande distância de transporte. Sua granulometria é bastante variada, apresentando heterogeneidade mineralógica. Este tipo de formação geológica foi encontrada no Alto Dois Carneiros, em Jaboatão, limite com Recife. Nesta localidade houve um deslizamento provocando a morte de 03 pessoas, em 12 de junho de 2009, após uma forte precipitação de 142,5 mm em 12 horas de duração (Figura 11). Através da coleta de amostras foi possível visualizar a presença dos minerais da rocha de origem, sendo marcante a presença do feldspato. 3.2.3 Formação Barreiras de Fácies de Canal Fluvial Entrelaçado Os sedimentos da fácies de canal fluvial entrelaçado (ver Figura 5) apresentam, em geral, texturas convergentes para sedimentos mal selecionados, de granulometria variando entre cascalhos e areias grosseiras a finas com 6 COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. a argila de alta plasticidade o c’ foi de 20,7 kPa e o ângulo de atrito (φ’) foi de 24,1º. 3.2.6 Solo Residual de Milonito A amostra de solo residual de milonito presente nas encostas de Cavaleiro (Jaboatão) foi caracterizada como residual jovem, evoluindo para um residual maduro, com finos veios de feldspato. Os perfis das encostas deste tipo de solo podem ser heterogêneos por pertencer a faixa de influência do Lineamento Pernambuco. Esta característica confere ao solo múltiplos caminhos preferenciais na percolação da água de subsuperfície, aumentando a susceptibilidade aos processos de escorregamentos. Ensaios de caracterização geotécnica realizados neste tipo de material indicaram solos de textura fina, classificados de silte argiloso de alta (MH) plasticidade. Os parâmetros de resistência foram obtidos através de ensaios de cisalhamento direto drenado na condição de corpo de prova inundado. Para o solo silte arenoso (MH) o c’= 22 kPa e o ângulo de atrito (φ’) = 19,6º. A Tabela 2 sintetiza os resultados da caracterização geotécnica de todos os materiais estudados na pesquisa. Figura 11. Acidente em encosta da Formação Barreiras de Fácies de Leque Aluvial Mediano com Influência Proximal (Alto II Carneiros / Jaboatão dos Guararapes). A coloração do solo variou de creme a avermelhada, com grãos angulosos devido ao material ter sido pouco retrabalhado. Ensaios de caracterização geotécnica realizados nesta fácies indicaram solos de textura fina (CL - argila de baixa plasticidade). Os parâmetros de resistência foram: c’=13,7 kPa e φ’ = 30º. Estes resultados indicam solo de baixa susceptibilidade aos processos de instabilização. Ação antrópica inadequada associada aos elevados índices de chuva podem explicar o deslizamento ocorrido em 12/06/09. 3.2.5 Solo Residual de Granito-Gnaisse As amostras de solo residual de granito-gnaisse foram retiradas em duas localidades: Alberto Maia (Camaragibe) e Vista Alegre (Jaboatão). A amostra de Camaragibe apresentou características de solo saprolítico evoluindo para o residual maduro de coloração bastante avermelhada (Ver Figura 6). Apresentou intercalações de níveis quartzosos preservados na amostra e fragmentos de rocha mostrando bandamento estrutural indicando caráter gnaissico. A amostra retirada em Vista Alegre mostrou-se ser um solo residual maduro. Ensaios de caracterização geotécnica realizados nas amostras indicaram solos de textura fina, classificados como: silte argiloso de alta plasticidade (MH), em Camaragibe; e argila de alta plasticidade (CH), em Jaboatão. Os parâmetros de resistência foram obtidos em ensaios de cisalhamento direto drenado na condição de corpo de prova inundado. Para o solo silte argiloso o intercepto de coesão (c’) foi de 27 kPa e o ângulo de atrito (φ’) de 25º. Para Tabela 2. Resultados da Caracterização Geotécnica (Parâmetros de Resistência na Condição Inundada). Unidade Geológica Classe c’(kPa) φ’(º) SC 15,0 30,5 SM 4,5 32,0 Fm Barreiras / CL 4,0 28,0 Planície Aluvial CL 10,0 27,0 MH 14,0 29,0 Fm Barreiras / Leque SC 0 35,3 Proximal Fm Barreiras / Leque Aluvial Mediano c/ CL 13,7 30,0 influência Proximal Fm Barreiras / Canal SC 10,2 28,6 Fluvial Entrelaçado Solo Residual de MH 27,1 25,3 Rocha Gnaissica Solo Residual de MH 22,0 19,6 Milonito Solo Residual de CH 20,7 24,1 Granito 4 ANÁLISE RESULTADOS 7 E DISCUSSÃO DOS COBRAMSEG 2010: ENGENHARIA GEOTÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO, INOVAÇÃO E SUSTENTABILIDADE. © 2010 ABMS. de ações estruturais neste tipo de solo devem ser de contenção. Salientamos que para elaboração de projetos de estabilização de encostas, análises de detalhe devem ser realizadas em cada caso. Os ensaios realizados no perfil dos sedimentos da Formação Barreiras de Planície Aluvial apresentaram camadas de solo de textura grossa (arenosa), seguidas de camadas de solo de textura fina (argila e silte). Os parâmetros de resistência da Formação Barreiras de Planície Aluvial foram semelhantes aos encontrados por Coutinho et al. (1999), no estudo da erosão no Dois Irmãos/Recife-PE. Neste estudo, a camada arenosa revelou c’=0 kPa e φ’=30º. As amostras da Formação Barreiras com influência de Leque Aluvial Proximal indicaram maior valor de φ’ no solo arenoso, lhes conferindo uma maior resistência a escorregamentos. Porém a variação dos baixos valores de coesão mostra que pode haver camadas de solos susceptíveis a erosões. As amostras de solos residuais apresentaram interceptos de coesão (c’) mais elevados que as amostras de solos da Formação Barreiras, o que é justificado pela classificação do solo. 5 AGRADECIMENTOS Agradecemos ao CNPq pelo apoio financeiro através do projeto PRONEX (CNPq/FACEPE) e Projeto Universal, sem os quais esta pesquisa não seria possível; e à CAPES, pela bolsa de pesquisa de doutorado. REFERÊNCIAS Alheiros, M. M. (1998), Riscos de Escorregamentos na Região Metropolitana do Recife. Tese de Doutorado em Geologia Sedimentar, UFBA, Salvador-BA, 129p. Bandeira, A. P., Coutinho, R. Q. e Alheiros, M. M. (2009). Importância da Caracterização GeológicoGeotécnica e da Chuva para Gerenciamento de Áreas de Riscos. In 5ª COBRAE. São Paulo/SP. CD-ROM. Bandeira A.P.N., Alheiros, M. M. e Coutinho, R.Q. (2005). Mapeamentos de Risco de Escorregamento: Contextualização e Estudo de Caso em Camaragibe (PE). IV COBRAE. Salvador-BA. Coutinho e Severo (2009) Investigação Geotécnica para Projeto de Estabilidade de Encostas. In 5ª COBRAE. São Paulo/SP. CD-ROM. Coutinho, R.Q. e Silva, M.M. (2005) Conferência: “Classificação e Mecanismos de Movimentos de Massa”. IV COBRAE. Escola Politécnica da UFBA, Salvador –BA. Vol. Pós-congresso. Coutinho, R. Q., Oliveira, J. R., Lima Filho, M. F., Coelho, F. A. A., Santos, L. M. (1999). Estudo da Erosão da Encosta do Horto de Dois Irmãos –PE. 9o Congresso Brasileiro de Geologia de Engenharia (CD-ROM). ABGE, Novembro, São Paulo - SP. De Paula, T. (2008). Detalhamento das Fácies da Formação Barreiras nos Municípios de Recife, Camaragibe, Olinda e Jaboatão dos Guararapes. Relatório. Projeto PRONEX/Facepe. Leroueil, S. (2004). Geotechnics of slopes before failure. In IX International Symposium on Landslides”. Rio de Janeiro. V.2, pp. 863-884. Leroueil, S. (2001). Natural slopes and cuts: movement and failure mechanisms. Geotechnique, Vol. 51, nº 3, pp. 197-243. Santana, R. G. e Coutinho, R. Q. (2006). Análise de soluções de engenharia para contenção em encostas ocupadas na Região Metropolitana do Recife-PE. In: XIII COBRAMSEG, Curitiba. Vol 4 . pp 2351-2356. CONCLUSÕES A disposição dos sedimentos da Formação Barreiras de Planície Aluvial, segundo a amostragem realizada, confere ao solo um perfil de maior susceptibilidade a processos erosivos na parte superior do talude e uma barreira menos permeável na parte inferior. Neste perfil é freqüente encontrar uma camada lateritizada, acima da camada argilosa, aumentando a possibilidade de formação de caminhos preferenciais do fluxo. As ações estruturais nestes sedimentos devem levar em consideração a maneira de sua disposição. Por exemplo, no Bairro dos Estados (Camaragibe), conforme o perfil da amostragem, as intervenções podem ser de contenção no pé do talude e de proteção superficial na parte superior, com obras de drenagem. Nas áreas de influência de Leque Aluvial Proximal e de Canal Entrelaçado, se recomenda intervenções de proteção superficial, devido ao solo ser mais susceptível a erosões. As amostras de solos residuais apresentaram parâmetros de resistência mais susceptíveis a processos de escorregamentos. Recomendações 8