TERCEIRA IDADE: APRENDIZAGEM E SOCIALIZAÇÃO
Autores:
Jaqueline Camargo Brisola
Camila Caetano Dias
Felipe Ferreira
Renato Yoshio Arai
Jéssica Gabriela Trindade Da
Luciana Ferrari Gouvêa
Cristina Diniz Coral
Juliana Oliveira Macedo Dos Santos
Lindomar Fátima Costa Da Silva Poletto
Afiliação Institucional: UNESP
E-mail: [email protected]
Introdução
O projeto UNATI – Universidade Aberta à Terceira Idade – vem sendo
desenvolvido há 17 anos na UNESP de Assis/SP e tem entre seus objetivos ofertar para
o seguimento da Terceira Idade da cidade de Assis e cidades vizinhas, uma alternativa
de resgate e ampliação de vínculos afetivos através de encontros durante as diferentes
atividades e que possibilitam a expansão de conhecimentos, da auto-estima e de
conquistas no plano do exercício da cidadania.
A educação e a aprendizagem dos idosos é emancipatória em seus mais variados
aspectos, pois, através das atividades didáticas e artístico-culturais oferecidas, propiciase a atualização e/ou aquisição de conhecimentos, tanto gerais como específicos, a
promoção da saúde e das relações sociais. Portanto, o projeto tem como principal
objetivo alcançar a promoção e a manutenção da saúde física, psíquica e social dos
idosos inscritos.
Os idosos vêem na universidade uma oportunidade de entrar em contato com o
ambiente acadêmico, o qual propicia um resgate da jovialidade assim como atualização
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de conhecimento e apropriação de novos espaços, pois muitos deles se deslocam de
cidades vizinhas para participar das atividades.
Este ambiente (da universidade) é favorável também aos estagiários envolvidos
no projeto, pois proporciona discussões sobre o envelhecimento humano e formas de
atuação diante dessa nova demanda, tanto no sentido de como lidar com a Terceira
Idade e apurar a escuta diante deles quanto como passar os conteúdos programáticos de
acordo com a demanda deles.
Apesar de o Estatuto do Idoso contemplar como idoso a pessoa com mais de 60
anos, a UNATI de Assis contempla as pessoas a partir dos 50 anos. As oficinas do
projeto promovem atividades regulares e sistemáticas para eles, fazendo com que ocorra
uma reinserção social. É nesse contexto que a experiência individual de cada aluno
(idoso) e dos estagiários bolsistas e voluntários se torna indispensável para fazer com
que essa integração ocorra da melhor maneira possível e que resultados positivos sejam
alcançados, trabalhando com as emoções, motivações, auto-estima, auto-imagem e o
autoconhecimento dos idosos e dos estagiários.
A figura do idoso é vista muitas vezes como alguém sem perspectivas,
esquecido pela família e pela sociedade. No entanto, quando se pensa no movimento das
UNATIs no Brasil, o assunto passa a ser visto através de uma visão mais otimista em
relação ao que o idoso tem a oferecer e principalmente como este vem sendo tratado.
Saad (1990, p. 4) entende que "a pessoa é considerada idosa perante a
sociedade a partir do momento em que encerra as suas atividades econômicas" e,
diz também que "o indivíduo passa a ser visto como idoso quando começa a
depender de terceiros para o cumprimento de suas necessidades básicas ou
tarefas rotineiras".
E como a velhice tem sido vista e tratada, Debert (1999, p. 20), considera que é:
“de modo diferente, de acordo com períodos históricos e com a estrutura social,
cultural, econômica e política de cada povo, e que, os valores intrínsecos à
representação que uma sociedade tem da velhice serão os norteadores responsáveis
pelas ações que possibilitam ou não a proteção e inclusão social de seus
idosos, como também a qualidade das relações estabelecidas com os seres idosos.”
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Nas conversas e atitudes dos idosos podemos observar o quanto a socialização
com essas pessoas acrescenta na realidade em que vivemos. Não somente pensando nos
muitos conhecimentos que foram adquiridos nesta convivência e na importância deles,
mas também podemos observar o quanto o espaço de socialização criado pela UNATI
promove melhoras significativas na vida destas pessoas.
Todo o espaço de convivência dentro das UNATIs coloca o idoso em movimento.
E neste sentido, as datas comemorativas, como meio de socialização, ganham um
grande destaque. Logicamente não são suficientes dentro deste processo de
envolvimento na qual o idoso está submetido, entretanto os sentidos que eles atribuem
às datas surpreende a todos. Independente do que esta pessoa tem como lembranças
boas ou ruins frente a estas datas, elas participam, exigem que sejam lembradas e ainda
compartilham suas vidas com seus colegas de oficina e com os estagiários.
Em todas as atividades, sejam elas artísticas, culturais ou esportivas, nos deparamos
com a satisfação e o entusiasmo dos idosos.
EDUCAÇÃO E TERCEIRA IDADE – Oficinas
O aumento na taxa do envelhecimento populacional, com o aumento da
longevidade, refletiu na tomada de consciência por parte dos programas educacionais,
de que a educação poderia ser um processo permanente, contínuo e aberto a todas as
idades, embora a universidade sempre estivesse aberta a todas as pessoas.
Assim, as universidades começaram a pensar nesse fenômeno do
envelhecimento e sobre a inclusão das pessoas mais velhas em seus programas de
educação permanente. A educação propicia às pessoas uma adaptação social, o
aprendizado contínuo e oportunidades para buscar o seu bem-estar físico e mental. Por
meio da educação permanente, os programas educacionais destinados às pessoas idosas
nas Universidades Abertas à Terceira Idade têm possibilitado a um grande número de
pessoas a atualização, aquisição de novos conhecimentos, participação ativa em
atividades
culturais,
políticas,
sociais,
de
saúde
e
de
lazer.
Nos programas de educação destinados aos idosos, o trabalho em conjunto de
aluno-professor, motiva-os para o aprendizado mútuo, recíproco, em que o professor e o
aluno, juntos, dividem expectativas e histórias, descobrindo formas de vencer
preconceitos
e
enfrentando
os
desafios
impostos
pela
sociedade.
Os conteúdos desenvolvidos pelas UNATIS, estimulam as potencialidades
individuais, a consciência crítica, a reflexão, a autonomia, o exercício de cidadania,
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aumento das redes de relações, abrem horizontes para novas idéias criativas,
proporcionam o aumento da cultura, do lazer, da atividade física e mental.
Ao longo do desenvolvimento de um indivíduo, ele possui oportunidades para
adquirir e colocar em prática seus conhecimentos, aprimorar habilidades, manter
relacionamentos
sociais
significativos
e
assim,
melhora
o
seu
bem-estar.
A educação deve ser um processo contínuo e permanente vivido pelo ser
humano, não só pelo contato com a escola e universidades, através do sistema formal,
mas também por meio da educação não-formal (como ocorre dentro da UNATI) e da
sociedade
que
transmite,
conserva
e
aperfeiçoa
seus
valores.
Na UNATI de Assis, são oferecidas oficinas de Línguas Estrangeiras: Inglês
(níveis básico e intermediário), Espanhol (níveis básico, intermediário e avançado),
Italiano (níveis básico, intermediário e avançado), Francês (níveis básico e
intermediário) e Japonês (níveis básico e intermediário). As aulas são ministradas pelos
alunos de Letras e supervisionadas pelos professores da graduação.
A UNATI oferece também aulas de Letramento nas quais são ensinados os
primeiros passos para a escrita e a leitura além da oficina de Leitura e Produção de
Texto, na qual os idosos entram em contato com a literatura e são estimulados a
produzir pequenos textos e poesias.
Outro curso que merece destaque é a oficina de Informática, com duas turmas devido à
grande demanda. Essa oficina trás inclusão digital àqueles que nunca tinham entrado em
contato com o mundo tecnológico proporcionando o contato da Terceira Idade com os
principais acontecimentos através de um instrumento que oferece facilidade, praticidade
e acesso a informações.
As oficinas de entretenimento são consideradas a parte de lazer do projeto. O objetivo é
manter o idoso em movimento, minimizando os efeitos do que chamamos de mente
ociosa (ocasionada pela exclusão do mercado de trabalho devido a aposentadoria ou
invalidez), fato que pode acarretar em inúmeras doenças (psíquicas e/ou físicas).
Devemos considerar também a necessidade do “ócio”, como fator importante para a
preservação da saúde.
“Mesmo para aqueles que precisam retornar ao mercado, é importante ressaltar a
distribuição equilibrada entre o tempo para o novo trabalho, o cuidado da saúde,
relacionamentos, atividades culturais e de lazer, outros interesses e, até mesmo, tempo
para si ou para o ócio, se assim desejarem.” – (FRANÇA, 2002)
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Segundo Domenico de Masi há um ócio saudável chamado de “ócio criativo”, o
qual é sustentado em três bases: o trabalho, estudo, e jogo.
O estudo consiste em obtenção de conhecimento através do estudo constante,
utilizando os recursos virtuais, por exemplo.
“O jogo é o espaço lúdico de lazer, brincadeira e convivência que deve estar
presente em qualquer atividade que se faça. É a forma de evitar a mecanização do
trabalho, dando-lhe "alma”. ”(Ócio Criativo, Domenico de Masi).
O trabalho é o trabalho em si, as funções necessárias ao cumprimento de uma
tarefa.
“Quando o indivíduo consegue unir estes três pontos, ele está praticando o ócio criativo,
que é uma experiência única e que proporciona uma melhor adaptação para as
necessidades da sociedade pós-industrial, respeitando a individualidade do sujeito e
proporcionando mais alegria e produtividade ao próprio trabalho.” (PRÓSPERO-2009)
Essa teoria é importante na medida em que, na UNATI, como forma de prevenção e
promoção de saúde são disponibilizadas oficinas que, além de manter as mentes
"ocupadas" também oferecem descontração e bem estar aos idosos. As oficinas
oferecidas são: fuxico, pintura em tela, seresta, teatro e xadrez.
Fuxico: ligado ao artesanato, é uma técnica que existe há mais de 150 anos, vinda da
cultura nordestina, que consiste em usar retalhos de panos, dobrados, e costurados em
formato de flor, que unidas por pontos delicados uns aos outros, tomam diversas formas
(vestuário, bolsas, broches, colares, colchas).
Pintura em Tela: A pintura a óleo é uma técnica artística, que se utiliza de tintas a óleo,
aplicadas com pincéis, espátulas, ou outros meios, sobre telas de tecidos, superfícies
de madeira ou outros materiais. As técnicas são transmitidas aos alunos a partir de
imagens escolhidas e que posteriormente serão desenhadas e pintadas para obtenção do
resultado final.
Seresta: Seresta surgiu no século XX no Brasil, para rebatizar a tradição de cantoria
popular das cidades: a serenata. É considerada como a oficina mais descontraída, pois o
intuito é cantar as músicas que os violeiros trazem para as aulas assim como compor
novas canções e tocá-las.
Teatro: é uma forma de arte em que um ator ou conjunto de atores, interpreta uma
história ou atividades para o público em um determinado lugar. A oficina consiste na
montagem de uma peça teatral por semestre onde o coordenador leva uma história que
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os alunos possam representar ou constroem uma juntos para posterior apresentação na
Universidade.
Xadrez: é um jogo de tabuleiro de natureza recreativa e competitiva para dois jogadores.
Há ensinamento básico e de técnicas e estratégias de jogo. Nessa oficina são ensinados
desde posicionamento de peças a estratégias, aos idosos.
Mesmo sendo consideradas oficinas de lazer pode se afirmar que há aprendizagem. Para
explicar essa afirmação, utiliza-se da teoria de Vygotsky sobre Zona de
Desenvolvimento Real e Zona de Desenvolvimento Proximal.
Essa caracterização pode ser explicada da seguinte maneira: os alunos trazem consigo
um conhecimento prévio adquirido de forma autônoma ou não; é tudo aquilo que já foi
consolidado pelo sujeito de forma a torná-lo capaz de resolver situações utilizando seu
conhecimento (Zona de Desenvolvimento Real). Quando os coordenadores lhe passam
atividades (Zona de Desenvolvimento Proximal) ocorre uma mudança no modo de se
pensar dos alunos, pois eles unirão seus conhecimentos prévios a seu novo
conhecimento mediado pelo coordenador.
É interessante ressaltar que os coordenadores também sofrem mudanças com o
conhecimento trazido pelos alunos, logo, é um movimento bidirecional de
aprendizagem.
As atividades, além do que se vê, propõem a promoção e manutenção da
cidadania e respeito entre os idosos no âmbito coletivo e pessoal, a partir do respeito de
regras relacionadas a cada uma das atividades promovidas pela UNATI, como também
normas de convivência, buscando a harmonia entre os participantes e prezando pelo
exercício da justiça social e igualdade entre os pares.
A área da saúde é importante para o idoso, pois com o desgaste físico há uma
necessidade de se conseguir meios para amenizar possíveis danos decorrentes da idade e
propiciar um envelhecimento de maneira controlada e saudável. Visando este problema
são oferecidas oficinas ligadas à área da saúde como: orientação sobre alimentação,
alongamento, florais de Bach, massagem, psicologia e saúde.
Alimentação: são aulas ministradas por discentes do curso de Biologia que passam aos
idosos informações sobre o que uma dieta rica e balanceada pode oferecer de benefícios
na terceira idade. O que pode e o que não se deve ingerir considerando os problemas de
saúde do idoso.
Alongamento: é uma das oficinas onde ocorre atividade física. A exercitação do corpo
na idade senil se torna importante na medida em que o corpo começa a atrofiar e perder
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a agilidade. O alongamento ajuda na prevenção de dores, ativação da circulação,
redução de tensões musculares, da ansiedade e do estresse.
Florais de Bach: é uma terapia holística. A oficina é ministrada por um profissional da
área que oferece em suas aulas a explicação de como funcionam as essências que
compõem os florais e de que modo isto pode ajudar os idosos a ter uma qualidade de
vida melhor.
Massagem: Também considerada uma terapia holística, a massagem oferecida é o
Shiatsu em conjunto com a Auriculoterapia, sendo ambas situadas dentro da Medicina
Tradicional Chinesa.
Psicologia: alunos da graduação de Psicologia atuam em forma de grupos de discussão
em que os idosos trazem assuntos de seus interesses como recordações através de fotos,
convivência familiar, viuvez e temas gerais.
Saúde: a oficina é coordenada por uma enfermeira que discute e ensina quais são as
melhores maneiras de se evitar e prevenir doenças específicas da terceira idade.
Com exceção da oficina de Massagem, todas as outras são também formas de
transmissão de conhecimento não formal, pois ensinam modos de melhorar a saúde de
uma população que cresce cada vez mais no país.
METODOLOGIA
No Brasil, o envelhecimento populacional cresce consideravelmente segundo o Instituto
de Pesquisa e Estatística Aplicada (IPEA, 2002), nos atentando que o segmento
populacional que mais cresce no mundo são os idosos. Segundo estimativas, em 2050, a
expectativa de vida será de 87,5 anos para homens e 92,5 para mulheres, em países
desenvolvidos; e 82 para homens e 86 para mulheres em países em desenvolvimento.
Essa específica população em crescimento passa a constituir um novo
panorama na sociedade, transformando a inatividade e aspectos negativos do
envelhecimento em uma busca de novas alternativas de inserção social, atividades e
oportunidades de aprendizagem. Tais atividades colaboram para que seja banido o
preconceito em relação ao analfabetismo, especificamente, e ao idoso, em geral,
acreditando, assim, que a educação é um caminho para a inclusão social.
Segundo a Lei 8.842/1994, sobre política nacional do idoso, garante que
“a família, a sociedade e o Estado têm o dever de assegurar ao idoso todos os direitos de
cidadania, garantindo sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade, bem
estar e o direito à vida” (BRASIL, 1994). Ainda nessa Lei são previstas ações
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governamentais em diferentes áreas. Já no quesito educação, presume-se o
desenvolvimento de programas educacionais adaptados a condições mais favoráveis aos
idosos, além de apoio à criação de programas específicos para esta faixa etária.
Define-se, segundo a Lei n. 10.741/2003, no Capítulo V, do Estatuto do
Idoso, que é direito do idoso a “educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos,
produtos e serviços que respeitem sua peculiar condição de idade” (BRASIL, 2003).
Complementando essa Lei, o art. 21 decreta que “o poder público criará oportunidades
de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático
aos programas educacionais a ele destinados” (BRASIL, 2003).
Para o bom êxito da educação em idosos, é importante levar em consideração os
métodos já desenvolvidos para o público adulto. Sales, Fialho, Alvarez & Guarezi
afirmam que
“(...) para se ter êxito no desenvolvimento de materiais didáticos para
idosos, precisa-se contemplar as premissas da experiência, das
necessidades e dos interesses. Dessa forma, o idoso poderá perceber
a organização sistêmica do processo e o valor de sua participação.
Além disso, é imperativo que, ao se planejar materiais didáticos para
esse público, considerem-se as alterações cognitivas, emocionais e
físicas decorrentes da idade, especificidades, necessidades, desejos e
expectativas.” (ATHENAS • Revista Científica de Educação, v. 8, n.
8, jan./jun. 2007)
Seguindo os parâmetros anteriormente explicitados, a Universidade Aberta à Terceira
Idade (UNATI) de Assis, programa desenvolvido pela Universidade Estadual Paulista
(UNESP), coordenado pelo Centro de Pesquisa e Psicologia Aplicada (CPPA) e com o
apoio da Pró-Reitoria de Extensão Universitária (PROEX) e da Fundação para o
Desenvolvimento da UNESP (FUNDUNESP) realiza oficinas de cunho didático,
cultural, esportivo e artístico. As oficinas são ministradas de segundas a sextas-feiras,
durante os períodos da manhã e tarde, nos espaços da Universidade.
Contamos com a participação de 47 mediadores voluntários, graduandos dos cursos de
História, Letras, Biologia e Psicologia. Especificamente os de língua estrangeira passam
por um processo de seleção no qual os professores do curso de Letras avaliam se
preenchem as competências necessárias para ministrar as aulas. Há também 10
estagiários na área administrativa, sendo que 02 destes são bolsistas, atuando para que a
boa funcionalidade do projeto se mantenha. Para que isso ocorra, são realizadas
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reuniões semanais entre os estagiários e a coordenadora geral do projeto discutindo os
focos principais e elaborando planejamentos necessários.
O projeto atua com 173 idosos envolvidos nas diversas oficinas já mencionadas.
Visando não só a educação, realizam-se confraternizações, viagens e congressos durante
o período letivo para que haja uma intensificação da socialização entre os participantes
do projeto e a sociedade como um todo.
As oficinas são do âmbito da educação não-formal, pois seus espaços educativos são
locais informais, não-escolares, aonde ocorrem processos interativos; ressaltando que,
assim como a educação formal, há intencionalidade em seu ensino/aprendizagem.
É sempre bom lembra que “No processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente
aquele que se apropria do aprendido, transformando-o em apreendido, com o que pode,
por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a
situações existenciais concretas. Pelo contrário, aquele que é ‘enchido’ por outros de
conteúdos cuja inteligência não percebe; de conteúdos que se contradizem a forma
própria de estar em seu mundo, sem que seja desafiado, não aprende.” (SILVA,
Terezinha, 2008).
BASE TEÓRICA
A base teórica em Paulo Freire é imprescindível para o entendimento e continuidade do
que a própria UNATI oferece à sociedade na medida em que preza pela busca da
autonomia do idoso através da educação não-formal. Para ele, ensinar não é somente
transmitir conhecimentos, mas criar as possibilidades para a produção do saber. Através
desse projeto é possível fazer com que os idosos percebam que as atividades e
dinâmicas oferecidas sejam consideradas como parte de seu cotidiano, encontrando
assim, um ponto de apoio.
Quando a pedagogia de Paulo Freire é realmente vivenciada pelo idoso, os
resultados costumam ser de esperança com relação ao futuro, sentem-se capazes de
produzir e modificar o que está a sua volta, sensação de jovialidade e inspiração para
mudar suas condições de vida.
Portanto o funcionamento desse projeto só é possível pela interação entre os
voluntários, funcionários e os idosos. Cada um desses integrantes leva alguma lição de
vida ao atuar na UNATI, em que as principais são: o respeito entre pessoas de diferentes
idades, o aprender a se colocar na posição do outro e com isso interagir com visões de
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mundo diferentes e a ter a responsabilidade de não ferir e não constranger em momento
algum, nenhum dos idosos.
CONCLUSÃO
Preocupada com as necessidades não só culturais, mas também sociais, a
UNATI oferece um trabalho de integração e troca de conhecimentos e experiências
vividas. Essa inserção do idoso no contexto acadêmico vem aumentando relativamente
e mostra um resultado positivo no que se refere à vida do idoso.
As atividades oferecidas pelo projeto abrangem uma dimensão maior na vida
do idoso buscando dar visibilidade e voz ao grupo. A procura pela UNATI é percebida
de maneira distinta por cada um, abrangendo suas vidas de maneiras e dimensões
diferentes. Bolsanello (1986, p. 762) enfatiza que a questão do envelhecimento “está
intimamente ligada com a coletividade, cujos conceitos estão relacionados com a
experiência de vida” e acrescenta que "o principal objetivo dos cuidados para com
o idoso deve ser o de mantê-lo como parte integrante da sociedade".
Buscamos “Desenvolver processos educacionais – estudos e pesquisas, formação e
acompanhamento
pedagógico,
gestão
compartilhada
(pedagógica,
política
e
administrativo-financeira) e a sistematização de experiências -, fundamentados nos
princípios teórico-metodológicos freirianos, para subsidiar a formação de educadores
(as) populares, fortalecer as iniciativas, a articulação, a mobilização e a participação
popular na efetivação de políticas públicas e transformação social.” (Instituto Paulo
Freire – Educação Popular)
Ao longo dos anos em que o projeto foi desenvolvido, notou-se a satisfação por
parte dos alunos ao criar-se então, um laço de afetividade além do conhecimento, um
bem-estar, e restauração da auto-estima perdida pelos anos. Esse resultado foi
inicialmente o esperado, reconhecendo que a principal busca por eles vem de
necessidades pessoais, contando que cada um deles possui uma história de vida que até
o presente momento se manifesta na sua maneira de ver o mundo. E não deixamos de
considerar também suas lutas, ganhos, perdas e principalmente as ausências que em
alguns casos os desmotivaram a seguir em frente. E esse trabalho permite que cada um
sinta o seu valor, em um espaço de otimismo, para que possam refletir sobre o seu
fundamental papel na construção de uma sociedade melhor, de forma com que se sintam
alegres e realizados.
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Observa-se então as mudanças positivas em suas vidas através de alguns
depoimentos dos usuários da Universidade Aberta à Terceira Idade:
Com a minha viuvez, fiquei muito desanimada e triste, mas quando vim pra
UNATI mudei completamente, pois fiz novas amizades, e isso me tornou mais alegre e
ainda mais por aprender a ler e escrever (Madalena Carneiro Gorni).
O que melhorou muito na minha vida foi a minha convivência com as outras
pessoas e o meu desempenho em casa. Converso melhor agora, antes tinha vergonha e
era muito recatada, desenvolvi o meu vocabulário. Aprendo muito com o letramento, e
ganho o meu dinheirinho com o que aprendo na oficina de artesanato. Pretendo
continuar até ter disposição (Meire Pereira da Silva).
A participação na UNATI é uma questão de satisfação, de me sentir alegre pela
aprendizagem na idade que estou, isso me faz sentir ativo. Aqui conheço novas
amizades e me sinto muito bem por isso. Participo da oficina de japonês. Gostaria de
parabenizar a todos que participam, por oferecer esses serviços para a terceira idade.
Quero continuar vindo, pois quanto mais, melhor (Hélio de Oliveira Ferreira).
A partir dessa perspectiva, procuramos criar um novo idoso, ativo, capaz e
consciente de sua importância ao contribuir conosco suas experiências. Notamos que a
interação entre as pessoas que participam do projeto melhora a qualidade de vida,
encarando a velhice como um processo e não como impossibilidade de participação em
atividades sócio-culturais e de aprendizagem.
“O Estatuto do Idoso se destaca pelos direitos sociais garantidos e apregoados.
Contudo, estes somente serão assegurados se a sociedade assumir a responsabilidade de
permitir o resgate da cidadania das pessoas que contribuíram para a construção de nosso
País.” (Silva, 2005), e é justamente assegurar esses direitos que a UNATI pretende.
Concluímos que a participação na UNATI, não só permite envolver o idoso para
um olhar crítico e diferente do que é imposto, mas também atingir uma melhora pessoal.
Esse é o resultado extremamente positivo que colhemos a cada ano que aperfeiçoamos o
projeto. Desenvolvendo na prática o conhecimento teórico de que cabe a nós como
cidadãos estabelecer políticas públicas para cuidar do idoso. Os mesmos participantes,
além de obter a valorização, obtêm também o respeito por si e pelos companheiros, que
os ajudam no resgate da motivação, percebendo a importância do envolvimento social
entre o idoso e a universidade através, principalmente, da educação.
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13
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(2007) Revista Científica de Educação, v. 8, n. 8.
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