AS COLÔNIAS DE FÉRIAS COMO OBJETO DE PESQUISA DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA AMÉRICA DO SUL Prof. Ms. André Dalben [email protected] Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UNICAMP Pesquisa realizada com apoio das agências: FAPESP (Processo no. 2009/53593-3) CAPES (Processo PDSE no. 3545/11-3) Colônias de férias escolares, história da educação, América do Sul Introdução No ano de 1954 o pedagogo francês Philippe-Alexandre Rey-Herme publicou a obra Les colonies de vacances : origines et premiers développements (1881-1906), a qual seria largamente ampliada em 1961 pela série de dois tomos intitulada Les Colonies de vacances en France de 1906 à 1936. Estas obras podem ser consideradas como um dos primeiros grandes estudos que tomaram as colônias de férias como objeto central de pesquisa. As fontes utilizadas foram principalmente a documentação produzida pelas colônias de férias francesas entre 1881 e 1936. Somente após vinte e oito anos após a publicação dos estudos de Rey-Herme, o tema seria novamente abordado. Em 1989, o professor em ciência da educação Jean Houssayer, responsável pela direção de diversas colônias de férias na França, publicou a obra Le livre des colos, a qual resgataria novamente a história dessas instituições. Houssayer dedicou grande parte de sua carreira a formulação de uma corrente pedagógica denominada como “pedagogia da decisão”, a qual teve nas colônias de férias por ele dirigidas seu principal campo de aplicação. Houssayer foi também o responsável pela organização de uma série de simpósios que reuniu diferentes profissionais que trabalhavam nas colônias de férias francesas, além de pesquisadores que as abordavam como objetos de estudos. Em 2005 realizou o primeiro simpósio, o qual contou com a participação do sociólogo Jean-Marie Bataille, responsável pela publicação, em coautoria com Audrey Levitre, do livro 1 Architectures et éducation: les colonies de vacances em 2010. Esta obra teve como principal objetivo realizar um estudo arquitetural das colônias de férias francesas. A respeito dos pesquisas realizados pelo campo da arquitetura, em 2007 fora publicada a obra Architecture and society of the holidays camps: history and perspectives, dirigida pelos pesquisadores italianos Valter Balducci e Smaranda Maria Bica e que reuniu uma série de profissionais que pesquisam temas co-relacionados ao das colônias de férias. Durante os anos 2000, a historiadora inglesa Laura Lee Downs publicou sua tese de doutoramento sob o título Childhood in the Promised Land: Working-Class Movements and the Colonies de Vacances in France, 1880–1960. A repercussão de sua obra foi bastante notória, ganhando em 2009 uma versão aumentada em francês sob o título de Histoire des colonies de vacance de 1880 à nous jours. Suas investigações são consideradas por muitos como a pesquisa historiográfica mais consistente sobre a história das colônias de férias na atualidade. No campo da sociologia, se destaca a obra Du gouvernement des enfants, publicada em 1993 pelo doutor em sociologia e atual professor de ciências da educação, Alain Vulbeau. Inspirado largamente pelos estudos de Michel Foucault, seu principal objetivo nesta pesquisa foi de compreender a ortopedia e a educação como dois sistemas normativos da infância, sendo reservado um amplo espaço para análise das colônias de férias francesas. De modo geral, estas obras listadas podem ser consideradas como as principais pesquisas que centralizaram suas investigações no tema das colônias de férias. É certo que inúmeros outros estudos também abordaram estas instituições, no entanto não como objeto central de análise. É possível, assim, afirmar que as colônias de férias são estudadas principalmente pela área da educação, da arquitetura e da história, sendo que estes estudos se centralizam em países europeus, com maior destaque para a França. Na caso da América do Sul, apesar alguns trabalhos relatarem a existência de colônias de férias no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai desde o final do século XIX, poucas são as pesquisas que as tomem como objeto central de análise. De fato, poucos arquivos foram abertos e pesquisados com o objetivo específico de descobrir mais a respeito destas instituições na América do Sul, sendo este, na atualidade, um profícuo campo de estudo para os pesquisadores da história da educação sul-americana. 2 Atualmente diversos projetos de colônias de férias tem sido organizados por iniciativa de secretarias estaduais e municipais de educação, cultura, esporte e lazer, ou assistência social no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Ceará, Pernambuco, entre outros estados brasileiros. O Uruguai também mantém duas grandes colônias de férias em funcionamento e a Argentina uma rede de instituições instalada em diversos parques públicos da cidade de Buenos Aires. No entanto, a história de iniciativas como estas é ainda pouco conhecido na América do Sul. Objetivos Tendo em vista que diferentes países da América do Sul organizaram colônias de férias em seus territórios e que estas instituições podem ser um rico tema de pesquisa para a história sul-americana, a presente pesquisa procurou identificar quais foram as principais políticas de criação de colônias de férias em países sul-americanos durante a primeira metade do século XX. Metodologia A pesquisa, de cunho bibliográfico documental, iniciou o levantamento de fontes pela Biblioteca “Dr. Luis Morquio”, pertencente ao Instituto Interamericano del Niño, la Niña y Adolescentes em Montevidéu. De acordo com o material levantado, o debate a respeito da necessidade da criação de colônias de férias escolares na América do Sul teve seu início na década de 1910, conquistando especial atenção em 1916, durante o I Congreso Panamericano del Niño. Segundo Eduardo Silveira Netto Nunes (2008, p.1) Na busca pela construção de um foro de debate, troca de idéias, cooperação e intercâmbio de experiências abordando a vida infantil e possíveis problemas a ela correlacionados, o continente Americano, de modo especial o cone sul (Argentina, Chile, Uruguai, e também o Brasil), através de personagens como médicos, juristas, publicistas e pessoas comprometidas com a assistência social (seja filantrópica, científica, caridosa) promoveram os Congresos Panamericanos del Niño. 3 Os anais deste evento científico são de grande importância para compreendermos o debate realizado entre diferentes países do continente sul-americano sobre questões ligadas a saúde e a educação infantil, e mais especificamente sobre os discursos relativos às colônias de férias escolares. Ao verificar as conferências transcritas nos anais dos Congresos Panamericanos del Niño foi possível constatar que o tema das colônias de férias escolares foi debatido majoritariamente até os anos de 1940, sendo então adotado como recorte temporal da pesquisa o período de 1910 à 1940. Os Congresos Panamericanos del Niño contaram com a participação de diferentes países da América do Sul, no entanto, houve uma predominância de profissionais da Argentina, Uruguai, Brasil e Chile, sendo estes países também os responsáveis por sediar respectivamente as quatro primeiras edição do evento. No que se refere ao Brasil, destacaram-se a participação de médicos e educadores de São Paulo e Rio de Janeiro. Na América do Sul, a região que compreende estes territórios é comumente denominada por Cone Sul-Americano, a qual, por haver um predomínio dos climas temperado e subtropical, apresenta fauna e flora bastante distintas das porções centrais e nortes do continente. Seu clima mais ameno e sua vegetação menos densa, assemelha-se mais as características naturais da Europa. Estas peculiaridades foram discutidas principalmente pelos discursos higienistas do fim do século XIX e início do XX (STEPAN, 2005), e compuseram um imaginário favorável à instalação de colônias de férias escolares nestas localidades. É importante destacar também que as colônias de férias nasceram a partir de um imaginário eminentemente europeu, uma vez que o Cone Sul-Americano também é a região que recebeu a maior parte dos imigrantes europeus durante o final século XIX e início do XX, os quais trouxeram consigo valores, saberes e memórias de suas terras natais. Levando-se em consideração todos esses dados apresentados, se estabeleceu o Cone Sul como o recorte geográfico desta pesquisa. Após definidos os recortes temporais e espaciais da pesquisa, o levantamento de fontes se centralizou em arquivos e bibliotecas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Montevidéu e Santiago. Os arquivos consultados nesta etapa foram: 4 • Biblioteca Central da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo / Coleção Carlos da Silva Lacaz. • Centro de Informação e Referência em Saúde Pública da Universidade de São Paulo. • Biblioteca de História das Ciências da Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro). • Biblioteca da Escola de Educação Física do Exército no Rio de Janeiro. • Arquivo da Associação Brasileira de Educação no Rio de Janeiro. • Biblioteca Nacional de Maestros em Buenos Aires. • Biblioteca Pedagógica Central “Mtro. Sebastián Morey Otero” do Museu Pedagógico em Montevidéu. • Museo de la Educación “Gabriela Mistral”, em Santiago. • Biblioteca Nacional de Chile, em Santiago. Resultados e Discussão Em análise da documentação levantada foi possível constatar que as colônias de férias escolares foram debatidas em congressos e periódicos científicos como uma importante instituição para a prevenção da tuberculose infantil. Pode-se verificar também que houve, principalmente entre os anos de 1910 e 1940, diversas políticas de criação de colônias de férias escolares nos países do Cone Sul-Americano. No Brasil, no Estado de São Paulo, foram criadas, entre os anos de 1937 e 1955, colônias de férias escolares nas cidades de Campos do Jordão, Santos, Limeira e Pindamonhangaba; todas de iniciativa do Departamento de Educação Física, órgão subordinado à Secretaria da Educação e Saúde Publica do Estado de São Paulo (DALBEN, 2009). No Estado do Rio de Janeiro foi criada no final da década de 1940 a Colônia do Sol, na cidade de Niterói, por iniciativa da Diretoria de Proteção a Maternidade e a Infância (LENK, 1942, p.20; MARINHO, 1941, p.33; DIP, 1940). A Escola de Educação Física do Exército também organizou uma colônia de férias no bairro da Urca em 1936 (ECOS, 1936). No Estado do Espírito Santo, a primeira instituição deste gênero teria sido organizada em dezembro de 1935, sob a direção da Secretaria da Educação e Saúde Pública na praia de Guarapari. No ano seguinte foi 5 criada uma colônia de férias na praia de Marataízes, na cidade de Cachoeiro de Itapemirim (RIBEIRO, 1936). Estas iniciativas tiveram uma vida curta, cessando suas atividades após alguns anos de atividade. Somente as colônias de férias do Estado de São Paulo foram realizadas com uma periodicidade mais constante, ultrapassando quinze anos de existência. Na Argentina as colônias de férias foram instaladas, em sua maioria, dentro de parque públicos. Por meio de um informe médico referente ao ano de 1923, foi possível mapear a existência de uma colônia de férias no Parque Nicolás Avellaneda em Buenos Aires, a qual teve início em 1920 sob a administração da Dirección de Plazas de Ejercicios Físicos; outra instalada em 1922 no recinto de exposições agropecuárias de La Sociedad Rural Argentina; e uma terceira, a Parque de los Patrícios criada em 1923. Segundo Carlos Alberto Bianchi (2007), a iniciativa destas três colônias de férias infantis foi acompanhada, nos anos seguintes, por diversas outras que também se alocaram em parques públicos da cidade de Buenos Aires. Em 1936, quando a Dirección de Plazas de Ejercicios Físicos, responsável por todas essas iniciativas, já havia alterado seu nome para Dirección de Educación Física, totalizavam-se onze colônias de férias na capital portenha. Algumas dessas colônias de férias continuam a ser realizadas até os dias atuais. O Uruguai contou com três colônias de férias, criadas durante a década de 1920 pela Direccion de Enseñanza Primária y Normal do Uruguai. A Colonia Escolar de Vacaciones de Miramar, que ocupou o prédio do antigo Hotel Miramar de Carrasco, balneário da cidade de Montevidéu; a Colônia Escolar de Vacaciones de Malvin, que funcionou nas instalações da Escuela Marítima de Malvin, na praia de mesmo nome localizada também em Montevidéu; e a Colônia Escolar de Vacaciones de Piriápolis, que possivelmente ocupou o antigo Gran Hotel neste balneário situado ao sul de Punta del Este. É interessante notar a existência, até os dias de hoje, de duas colônias de férias no Uruguai, a de Malvin e a de Piriápolis. Diversas iniciativas ligadas à Comisión Nacional de Educación Física, responsável pela criação das Plazas de Desportes na década de 1920 foram realizadas no Uruguai. No entanto estavam mais próximas ao modelo dos acampamentos. Mesmo modelo adotado pela Asociación Cristiana de Jóvenes (criada no Uruguai em 1909) e pelos grupos escoteiros. 6 O Chile também contou com uma política de criação de colônias de férias, no entanto, esta se diferenciava dos demais por ser de cunho filantrópico. Em 1910 foi fundado a Sociedad de Colonias Escolares Villalobos, responsável por oferecer este serviço no país até meados da década de 1950. (RIVERA, 2007, 124). A Junta de Beneficencia Escolar de Santiago, entidade fundada em 1916, também ofereceu este serviço, com uma colônia de férias criada na cidade Viña del Mar. A colônia de férias da Sociedad Villalobos se localizava inicialmente no município de Constitución, sendo alterada na década de 1930 para a San Antonio. A pesquisa localizou também uma série de documentos referentes as colônias de férias organizadas por associações filantrópicas, na Argentina, no Uruguai e no Brasil, no entanto elas tiveram um vida curta e não alcançaram a mesma representatividade e abrangência que a iniciativa chilena. Conclusão No período de 1910 a 1940, havia, entre os educadores e médicos dos países do Cone Sul-Americano, um consenso quanto à importância da criação das colônias de férias escolares nestes territórios. Seus discursos embasaram políticas de implantação de colônias de férias escolares no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile. É possível afirmar que houve em cada um destes países, não apenas iniciativas esporádicas ou particulares, mas, organizadas por seus governos no sentido de criar e gerir essas instituições. No caso do Brasil e da Argentina, destacam-se as políticas relacionadas a departamentos oficiais de educação física, no Uruguai foram geridas diretamente pelo sistema de educação e no caso chileno foi criado uma associação filantrópica para implantar e gerir estas instituições no país. Estas singularidades estavam relacionadas com o governo de cada país, assim como com suas histórias locais. Ao analisar a documentação levantada foi possível verificar que a expansão das colônias de férias na América do Sul durante o período de 1910 a 1940 teve como principal prerrogativa o combate a tuberculose infantil, uma vez que eram compreendidas como uma importante instituição para a prevenção desta doença. Com a mudança progressiva ocorrida no tratamento e prevenção da tuberculose infantil a partir de 1950, houve um acentuado decréscimo na criação de colônias de férias nestes países. 7 A mudança no tratamento da doença começara em 1920, quando a vacina BCG, obtida experimentalmente em 1906, começou a ser inoculada em crianças. Durante a década de 1940, a descoberta de drogas eficientes para o tratamento da tuberculose fizeram com que os casos da doença diminuísse consideravelmente entre a população infantil de diversos países, principalmente naqueles em que era oferecida a distribuição gratuita desses medicamentos. A publicação de estudos médicos que justificavam cientificamente a criação de colônias de férias como instituições de prevenção foram, assim, se tornando cada vez mais escassos a partir da década de 1940. Durante a década de 1950 o discurso médico que justificava a criação de colônias de férias cairia em descrédito, oferecendo espaço para que seu caráter educacional se sobressaísse. O discurso médico cederia lugar, assim, a emergência do discurso pedagógico que justificava a existência dessas instituições como importantes principalmente para a socialização das crianças no momento das férias escolares. De um modo geral, este foi o caso da Argentina e do Uruguai que mantem em funcionamento até a atualidade grande parte de suas colônias de férias criadas entre 1910 e 1940. Já o Brasil e o Chile deixaram de investir quase que por completo nestas instituições a partir de meados da década de 1950, deixando-as a cargo de clubes e escolas particulares. Nos últimos anos, principalmente a partir dos anos 2000, diversos projetos de colônias de férias tem sido organizados por iniciativa de prefeituras e governos estaduais brasileiros, com o objetivo de oferecer atividades lúdicas como jogos, esportes, ginástica, entre outros conteúdos clássicos da educação física, demonstrando, assim, uma possível revitalização destas iniciativas no país. Bibliografia BALDUCCI, Valter; BICA, Smaranda Maria. Architecture and society of the holiday camps: history and perspectives. Timisoara: Mirton, 2007. Disponível em: colonie2000.openweb.it/ Acessado em 20/07/2009. BATAILLE, Jean-Marie; LEVITRE, Audrey. Architecture et éducation. Les colonies de vacances. Vigneux: Matrice, 2010. BIANCHI, Carlos Alberto. Las colonias de vacaciones en la ciudad de Buenos Aires: una oportunidad educativa. Publicación del Centro de Documentación, Investigación y 8 Referencia Histórica-Deportiva, Buenos Aires abr., 2007. 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