Gênero, Família e Homoerotismo entre os indígenas. Aguinaldo Rodrigues Gomes1 Sandra Nara da Silva Novais2 O tema da sexualidade é um dos tabus no interior da historiografia, sobretudo, nos estudos referentes à cultura indígena, nos quais os pesquisadores fizeram pouca ou nenhuma menção a esse aspecto. Tal fato nos causa estranhamento já que, como mostrou Foucault, há uma nítida ligação entre sexo e poder. Como adverte o autor o poder não se localiza apenas nas instituições, mas no jogo de forças do cotidiano: (…) a civilização ocidental, em todo caso, há séculos, quase nada conheceu da arte erótica; ela amarrou as relações de poder, do prazer e da verdade, sobre uma outra forma: uma “ciência do sexo”. Tipo de saber onde o que é analisado é menos o prazer do que o desejo, onde o mestre não tem a função de iniciar, mas de interrogar, de escutar, de decifrar, onde o processo não tem por fim uma majoração do prazer, mas uma modificação do sujeito (que se encontra perdoado ou reconciliado, curado ou liberto).3 Assim, discutiremos as práticas sexuais indígenas e seu confronto com a moral católica, a qual lhes foi imposta com a chegada dos conquistadores na América. Em primeiro lugar, focalizaremos o encontro sexual entre as mulheres indígenas e os europeus e, em seguida, as práticas homoeróticas praticadas por algumas etnias e bem como sua interdição com a chegada dos jesuítas na América. A liberação sexual presente entre os nativos indígenas foi um atrativo para os conquistadores portugueses que deram vazão aos seus apetites sexuais, satisfeitos pelas nativas, tanto pela força quanto pelo consentimento de tais mulheres. Seria essa liberdade o ponto inicial dos contatos inter-étnicos entre os colonizadores e indígenas, que, mais tarde, daria origem a formação de famílias miscigenadas de nosso país. 1 Historiador, mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor do Departamento de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. 2 Historiadora, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, professora das redes estadual e municipal de ensino em Aquidauana-MS. 3 Michel Foucault.“L’Occident et la vérité du sexe”, Le Monde, nº 9885, 5 de novembro de 1976, p. 24. 1 Relações de parentesco entre os indígenas da América Espanhola Para uma melhor compreensão das relações de parentesco entre indígenas, cabe citar as observações de Guzmán acerca dos povos guaranis. Ao se referir aos Xarayes nos esclarece que Os da parte de Jerez se dizem Jerabayanes e os de Santa Cruz os chamam de Maneses e todos têm o sobrenome de Xarayes, onde há povoados destes índios com 6.000 casas, porque cada índio vive na sua casa, com sua mulher e filhos. (...) Há também as mulheres públicas, que vivem de seus corpos, porque não se misturam com as honestas, ainda que dali saiam muitas casadas e nem por isso são menos valorizadas.4 Os índios que habitavam a região próxima a Assunção e a Oeste do rio Paraná eram os Guarani, conhecidos durante as primeiras décadas do século XVI como Carijó no Brasil e Cário no Paraguai colonial. Para Oeste, no Chaco, viviam povos caçadores coletores nômades, etnias guerreiras, como os Guaycuru, que eram inimigos tradicionais dos Guarani. Os espanhóis, nessas circunstâncias, optaram por instalar-se junto à população indígena sedentária agricultora, estabelecendo uma aliança com os Guarani/Cário, a qual acabou por satisfazer a ambos, na medida em que os espanhóis tinham por objetivo a penetração e a permanência nesse território e os Cário desejavam conseguir apoio e proteção contra as repentinas investidas dos Guaycuru e Agace: Era a reciprocidade de favores no processo da conquista e da colonização.5 Durante os primeiros vinte anos de contato inter-étnico os espanhóis e os Guarani formaram uma espécie de aliança que parecia vantajosa para ambos, mas, os índios não imaginavam o que essa aliança poderia significar no futuro. Os espanhóis, inicialmente, davam aos índios uma ajuda valiosa contra seus inimigos e em troca eram integrados à sociedade Guarani como parentes. Recebiam mulheres e alimentos como presentes e parte das obrigações devidas a esses pelos índios. Assim, puderam dispor dos recursos humanos para que pudessem implantar definitivamente o modelo 4 GUZMÁN, Ruy Díaz de. Anales del Descubrimiento, Población y Conquista del Río de la Plata. Ediciones Comuneros: Asunción. 1980, p. 104. 5 BASTOS, Uacury Ribeiro de Assis. Expansão territorial no Brasil colônia no vale do Paraguai (17671801). Tese (Doutorado em História) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1972, f. 25. 2 colonizador. As regras de parentesco tiveram um papel de suma importância na nova posição que os espanhóis passaram a ocupar entre os Guarani. O “cuñadasgo” foi o instrumento que selou a fusão étnica e racial entre índios e brancos no Paraguai colonial. Entre os Cário, os irmãos homens da noiva deviam prestar serviços braçais ao marido da irmã, futuro cunhado, daí o nome cuñadasgo, como parte de suas obrigações familiares. Os espanhóis puderam contar então com o trabalho e ajuda dos cunhados e das mulheres, pois na sociedade Guarani eram as mulheres, as esposas, que cuidavam da agricultura, base da economia, e da tecelagem do algodão. Faziam todo o trabalho. Quanto mais mulheres um espanhol tivesse em sua casa, mais acesso teria à mão-deobra, tanto dos cunhados como também das próprias esposas. O espanhol aproveitou-se de um traço cultural da sociedade Guarani adaptando-o às suas necessidades para obter mão-de-obra. Ao perceberem esse aspecto cultural dos índios e a utilidade que ele trazia para as metas coloniais, os espanhóis foram orientados por Irala, a casarem-se com quantas mulheres lhes fossem oferecidas, assim, cada espanhol casou-se ao mesmo tempo com várias índias. O concubinato, associado à poligamia em que os espanhóis viviam cercados por várias mulheres, foi uma pré-condição para a sobrevivência do colono europeu, fato que se tornou a base da sociedade paraguaia, dando origem a uma grande prole mestiça. Esses mestiços farão parte de uma segunda geração de conquistadores. La fundacion de esta ciudad fue mas por via de cuñadasgo que de conquista porque navegando los españoles por el rio Paraguay arriba, que es muy caudaloso, los indios que estaban poblados en este puestoles preguntaron quienes eran, de onde venian, adonde iban, y que buscaban: dixeronse: responrieron los indios que no passassen adelante porque les pareçia buena gente; y assi les darian sus hijas y serian parientes. Pareçio bien este recaudo a los españoles, quedaronse aqui. Reçibieron las hijas de los indios y cada español tenia buena cantidad: de donde se seguio que en breve tiempo tubieron tanta cantidad de hijos mestiços, que pudieron com poca ayuda de gente de fuera poblar todas las ciudades que agora tienen y tambien las de la governaçion del rio de la plata que son otras quatro y se llaman san Juan de Vera, Siete Corrientes, La Concepcion Rio Bermejo Santa Fe y El Puerto de la Trinidad Buenos Ayres. Y assi se poblo este sitio de la ciudad de la assumpçion mas como los pueblos de España apretados y com poco sitio, que no al modo de las indias por quadra, llamaronse luego los indios, y españoles de cuñados, y como cada español tenia muchas mancebas, toda la parentela acudia a servir a su cuñado honrandose com el 3 nuebo pariente. Viendose los españoles abundosos en comida de la tierra, y com tantas mancebas no aspiraron a mas, contentandose com un poco de lienço de algodon teñido de negro para su vestido: e como estaban en el Parayso de mahoma se governaban a su modo, y assi su govierno mas era dispotico y tiranico que politico, y christiano, prendiendose y matandose unos a otros, y casi hasta agora dura este govierno dispotico porque calquiera cosa que aya menester la Justiça de hacienda agena se la toma sin tratar de paga, solo com decir que conviene al serviçio de su magestad: y a los que no son veçinos los mandan ir a la guerra sin sueldo solo com un conviene: Y los pobres para aviarse venden quanto tienen dejando a sus mugeres e hijos...6 Bastos considera que o isolamento, a inferioridade numérica do europeu em relação aos índios e o total desconhecimento dos recursos oferecidos pelo meio natural hostil teriam resultado em desastrosas perdas para o colonizador e até mesmo inviabilizado o processo de colonização. Foi esse processo de europeização de índios e de indianização de europeus, realizado em tempo mínimo que assegurou à sociedade paraguaia condições de sobrevivência.7 Buscando traçar um paralelo entre a formação das famílias luso-tupi do Brasil e a formação das famílias hispano-guarani do Paraguai, Jaime Cortesão destacou a poligamia como sendo uma característica comum também na formação do São Paulo quinhentista. Os paulistas possuíam na época articulações com o sertão que se estendia para oeste, através de parentesco estabelecido em tantos lugares quantas eram as concubinas que possuíam. Através das mulheres do sertão os diversos laços de parentesco foram sendo estabelecidos.8 Assim como na formação de Assunção, onde os espanhóis adaptaram um traço cultural da sociedade Guarani, que estabelecia as relações de trabalho baseadas no parentesco, e passaram a utilizar-se da mão-de-obra das suas concubinas e de seus cunhados, pois não dispunham de recursos para comprar escravos negros. Muito embora a Igreja condenasse essa prática, a poligamia foi condição de sobrevivência do colono europeu. No caso do Paraguai, essa adaptação tornou-se condição de sobrevivência do 6 XXXII – Informe de um jesuíta anônimo sobre as cidades do Paraguai e do Guairá espanhóis, índios e mestiços. dezembro, 1620. In: CORTESÃO, Jaime (org) Manuscritos da Coleção de Angelis I Jesuítas e Bandeirantes no Guairá (1549-1640). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Divisão de Obras Raras e Publicações, vol. I, 1951, p. 162-163. 7 BASTOS, Uacury Ribeiro de Assis. Expansão territorial no Brasil colônia no vale do Paraguai (17671801). Op. cit., f. 59. 8 CORTESÃO, Jaime. História do Brasil. Rio de Janeiro: Casa do Saber, 1955, p. 130. 4 adventício. Este ou se deixava assimilar, contribuindo para a formação de uma sociedade híbrida, pelo sangue ou se extinguia...9 Família e homossexualidade entre os Kadiwéu e os Urubus-Kaapor Os relatos mais contemporâneos narrados pelo antropólogo Darcy Ribeiro nos mostram as transformações ocorridas na família indígena e ainda os contatos entre esses grupos e os “homens brancos”. Entre os Kadiwéu estudados por Ribeiro a própria estrutura familiar é bem diferente da nossa, sobretudo por não se basear no autoritarismo. Sobre a noção de amor o autor nos diz: Na nossa, o amor é o cimento da família. Ora, o amor e o trabalho são as duas coisas mais bonitas da vida. Mas o amor pode ocorrer várias vezes na vida, e até simultaneamente. Nossa estrutura pretende que o amor seja sempre um só. E quer usar o amor como cimento de uma coisa tão mais séria que é criar filho. Os filhos exigem 14 anos de atenção e nesse tempo o amor pode fracassar, mas é preciso agüentar firme por causa dos meninos. Então nós usamos um cimento errado. O cimento indígena é muito melhor.10 Gabriel Soares de Souza, a esse respeito, no diz: É este gentio tão luxurioso que poucas vezes tem respeito às irmãs e tias, e porque este pecado é contra seus costumes, dormem com elas pelos matos, e alguns com suas próprias filhas; e não se contentam com uma mulher, mas têm muitas, como já fica dito, pelo que morrem muitos de esfalfados.11 Em outro trecho Ribeiro nos traz uma descrição da noção de família e senso de autoridade existente entre os índios Bororó: Entre os Bororó, por exemplo, uma família é um conjunto de mulheres com seus irmãos e seus filhos; o filho leva o nome da mãe. E quem é o pai? É a 9 Idem, Ibidem, p. 10-11. RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Psicologia Atual, ano 1, nº 4, p. 3. 11 SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. Disponível em http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me003015.pdf, consultado em 21/09/2010. 10 5 pessoa que teve uma relação com a sua mãe. Este pai, enquanto casado, mora no clã da mãe. Mas é do outro clã, para onde sempre volta. O pai é aquela pessoa com quem o menino vai conversar livremente: é o companheirão, em cujo clã ele poderá casar. A autoridade para ele é o tio. Uma estrutura, portanto, diferente da nossa. Mas também se poderia dizer que eles têm, sob outras formas, muitos costumes semelhantes aos nossos.12 Em Diários Índios: os Urubus-Kaapor13 o autor se refere às duas expedições que fez entre os anos de 1949 e 1951 nas quais percorreu o sertão maranhense com um objetivo bem definido: resgatar, por intermédio dos herdeiros diretos dos Tupinambá, parte da nossa identidade cultural. Quando os encontrou assim os definiu: Todos os homens usam calções e dentro deles estão nus, porque não põem mais o cordel que atava o prepúcio e metia o pau dentro do corpo. Homens e mulheres falam inteligentemente o português dos caboclos maranhense, mas entre eles só falam seu idioma tupi.14 Sobre sua vida sexual, aponta que O tratamento recíproco de homens e mulheres é simétrico, embora sempre se portem com decoro nos gestos. Há mulheres que gostam especialmente de falar de sexo, comentando quem estaria trepando com quem, até as mulheres casadas. Não têm qualquer descrição nas palavras, falam de todos os assuntos com naturalidade, comentando a vida sexual de cada membro sem constrangimento. (...) Não parece haver qualquer perversão generalizada, mesmo a homossexualidade, ao que me disseram, é desconhecida. Chega a causar espanto quando é referida. Os casais são afetuosos, andam quase sempre juntos e, não raro, se acariciando – no cafuné e nas bolinas. As conversas eróticas são comuns, delas participam pessoas de todos os sexos e idades. Devem agir como estimulantes, além de fumo, que os embriaga do modo como usam os charrutos – aspirando fortemente e retendo a fumaça no peito - , e das bebidas fermentadas que dão lugar a orgias.15 O autor segue explicando que sobre a concepção do ato sexual: se puro, natural, doloroso ou perigoso não conseguiu pelas respostas obter muitas informações. No entanto, afirmou que percebeu um esforço por parte dos homens em advertir as mulheres que fazer sexo com os brancos pode ser algo perigoso. 12 13 RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Op. cit., p. 4. RIBEIRO, Darcy. Diários Índios: os Urubus-Kaapor. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 14 15 Idem, ibidem, p. 12. Idem, ibidem, p. 163. 6 Mas há um nítido esforço dos homens para convencerem as mulheres de que as que têm relações com Karaíwas morrem em consequência disso. Baseiam a suposição no fato de algumas terem morrido no parto de filhos gerados por brancos e em doenças venéreas apanhadas durante as andanças, que também têm causado dores e mortes. Porém, as mulheres não parecem lá muito convencidas disso; contudo, devem temer. Os homens não têm nenhuma inibição para as trepadas. Suas expectativa e de que se a mulher se abrir, acolhedora, eles transarão.16 Certamente a advertência para que as mulheres não transassem com os brancos ocorria pelo fascínio que os homens brancos causavam nas mulheres indígenas. Uma das principais características que chamavam sua atenção para esse homens eram as genitálias que eram muito maiores que a dos indígenas. O característico erótico atribuído ao branco ou ao preto é o avantajamento da genitália, que eles crêem ser tão exagerada no homem como na mulher. Essa visão surge do fato de que eles, não usando os amarrilhos que embutem o membro para dentro do corpo, os mostram ao natural, fazendo parecer maiores. Alguns índios são referidos como portadores de membros descomunais “como o dos brancos”. São, por isso, desejados e temidos pelas mulheres.17 Darcy nos informa, também, sobre os lugares e condições em que ocorrem os intercursos sexuais entre os casais indígenas, como observa-se no trecho abaixo: : As relações extraconjugais dos homens são consideradas como aventuras galantes, de que ele pode vangloriar-se junto aos amigos. Como não fazem amor sozinhos, haverá tantos homens adúlteros quanto mulheres. Todos acham que quando um homem chega em casa de um outro e não encontra o marido, provavelmente anda com a mulher dele. A atitude para com as mulheres é diferente. Se espera, ao menos os maridos esperam, que elas sejam fiéis e as castigam com pancadas e até ameaçando passar pimenta nos olhos e na genitália delas quando não o são. Isso se explicaria perfeitamente pelo cuidado que têm na determinação da paternidade. (...) O intercurso sexual se dá quase sempre na rede, à noite. Casais jovens, às vezes, têm relações no mato quando passam dias em caçadas e coletas, ou mesmo na roça quando vão colher mandioca. Nas relações usuais noturnas, o homem senta-se diante da mulher, ambos atravessados na rede, com as pernas para fora. Ele põe as pernas dela em cima das dele, descobrindo assim 16 17 Idem. Idem, ibidem, p. 164. 7 sua genitália, e deita-se sobre ela. Esta é a posição considerada correta.18 Sobre as relações extraconjugais o autor esclarece que as mesmas eram praticadas tanto pelos homens quando pelas mulheres, sendo mais comum entre os homens, mas não uma exclusividade deles: A mulher de Corai-uhú, filho de Xapy, menina ainda, que aliás é sua prima cruzada, seria uma devassa. Não quer ter relações com o marido. Morde-o cada vez que tenta possuí-la. Faz um escândalo danado quando, à noite, ele procura passar para a rede dela; já que, para a dele, a menina não vai mesmo. Mas aí vem devassidão: tem relação é com Tomé, um rapaz da aldeia vizinha, sempre que pode, e gosta muito. Não quer saber é do marido. (...) Prevêem que Tomé morrerá em breve, porque, além dessa menina ele tem relações com outras mulheres que citaram. E como uma delas poderá engravidar, ele morrerá por não cumprir os preceitos da couvade.19 Para Darcy Ribeiro as dificuldades em falar e saber um pouco mais sobre a vida sexual daqueles índios não estava nos índios mais sim na equipe que com ele estava e suas atitudes etnocêntricas que riam e debochavam do que viam, principalmente na presença das mulheres: Comentam cada atitude dos índios que lhes parece estranha. Ainda ontem à noite, divertiram-se muito vendo dois rapazinhos índios que nos acompanhavam dormirem juntos na rede, meio abraçados. Para eles, homens só podem dormir de pés contra a cabeça um do outro e, mesmo assim, fazem coisa insuportável a seus olhos maledicentes.20 Outro caso de relações extraconjugal: Não devem ser raras as relações extraconjugais. Elas ocorrem sem dúvida, mas são controladas. É o caso de Iuákang, o rapaz da aldeia de Piahú que sempre saía com as flechas como se fosse caçar, mas ia para o mato esperar uma mulher casada, com a qual tinha relações. Isso aconteceu até que sua esposa descobriu, porque suas caçadas tão freqüentes não rendiam nada, e passou a acompanhá-la dia e noite.21 18 Idem, ibidem, p. 226. Idem, ibidem, p. 575. 20 Idem, ibidem, p. 420. 21 Idem, ibidem, p. 423. 19 8 Práticas não aprovadas pelo grupo e que podem indicar relações sexuais entre mulheres. Falou-se de casais jovens cujas mulheres são comentadas por todos. São dois irmãos, filhos de Xapy, casados com duas irmãs; os quatro andam sempre juntos, principalmente as duas meninas, que são inseparáveis e parecem divertir-se muito uma com a outra, pois não param de comer, abraçar-se, rir e mais rir.22 Ainda acerca da homossexualidade entre os grupos indígenas, Darcy Ribeiro se referiu, também, aos cudinhos ou Kudinas Kadiwéu, com os quais viveu à época de sua participação nas expedições de Rondon Pacheco. Segundo ele: Há documentos já do século passado sobre a existência de homossexualismo entre tribos do Brasil. Inclusive entre os cadiuéu que eu estudei. Eles chamam o homossexual de kudina. O kudina é um homem mulher, ou um homem que decidiu ser mulher. Ele se veste como mulher, pinta o corpo como uma mulher – e menstrua.23 Ribeiro esclarece que, entre os índios, a mulher menstruada – flechada pela lua, na linguagem deles – está em estado de impureza, pelo que é intocável e perigosa. Então, para maior segurança dos homens, ela se retira para um ranchinho isolado durante a menstruação. O ranchinho vira um ninho de fofocas, e por isso os kudina resolvem menstruar também e ficam alguns dias lá, fofocando o dia inteiro. É preciso ressaltar que nos relatos de Darcy Ribeiro o kudina é uma figura absolutamente aceita, integrada no grupo. Suas práticas homoeróticas significam apenas uma das possibilidades de condução humana que a tribo incorporou e até institucionalizou. Ribeiro atribui a boa aceitação dos Kudinas à liberdade existente entre os Kadiwéu para expressar o afeto que sentem uns pelos outros, sejam homens ou mulheres. De acordo com ele, os índios se mostram muito livres em suas manifestações de afeto. Faz ainda uma comparação com nossas tradições de sociabilidade: Entre nós, um homem mal pode apertar a mão de outro, mulher a gente deve abraçar de leve. Os índios vivem agarrados uns com os outros. Curtem 22 23 Idem, ibidem, p. 575. RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Op. cit., p. 2. 9 se tocar e conversar bem juntinho. Inclusive os homens. Mal eu chegava numa aldeia, eles logo me cercavam e vinham se encostando. Uma amiga achou os índios uns desmunhecados porque não paravam de se encostar no marido dela.24 A partir dos relatos apresentados nota-se que tanto no século XVI quanto na década de 1950 o discurso religioso foi o responsável por fim a liberdade sexual de que desfrutavam os indígenas brasileiros. A respeito do período colonial Vainfas observa que uma das principais preocupações do padre Manuel da Nóbrega era com a falta de mulheres brancas na colônia que poderiam garantir a monogamia, tão cara a moral católica, conforme nota-se no trecho abaixo: Primeiro provincial jesuíta no Brasil, em 1549, ficou tão desesperado com o que via, portugueses e índias gemendo nos matos, que suplicou ao rei o envio urgente de mulheres brancas para casar com os portugueses. Nem que fossem “mulheres de má vida”, isto é, prostitutas – dizia o jesuíta – desde que viessem para casar.25 No que se refere à contemporaneidade vale lembras as idéias de Roberto Cardoso de Oliveira em Antropologia e Moralidade: 24 Idem. VAINFAS, R. Brasil de todos o pecados: erotismo e religião se mesclavam nos tempos da colônia. Nossa História, novembro de 2003. p. 12. 25 10 Quero lembrar a ação de missões religiosas (católicas e evangélicas) junto de povos indígenas, preocupadas com conduzi-los a se comportarem segundo os princípios da moralidade cristã. O caso da missão salesiana junto aos Borôro ilustra bem isso, quando os obrigou a se desfazerem de suas casas comunais por entenderem serem elas propícias ao pecado do incesto. Mostrando-se incapaz de perceber que jamais esses índios incorreriam no incesto clânico, a missão fez com que sua interferência na cultura tribal determinasse o comprometimento da forma circular das aldeias e a conseqüente alteração dos parâmetros simbólicos da organização social e da cosmologia daquele grupo indígena. O moralismo cristão que impregnava a política missionária certamente teria impedido que os missionários aprendessem com os Borôro um estilo de vida que, por ser diferente, nem por isso era menos probo e justo.26 Como destacou Oliveira, poderíamos encontrar ao longo da história diversos exemplos de imposição da moral cristã no interior desses grupos étnicos, todas com a nobre preocupação de salvar a alma dos povos indígenas, contudo acabam por aniquilar os traços de sua cultura ancestral. 26 OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Antropologia e Moralidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 24, São Paulo, 1994, p. 03. 11