Gênero, Família e Homoerotismo entre os indígenas.
Aguinaldo Rodrigues Gomes1
Sandra Nara da Silva Novais2
O tema da sexualidade é um dos tabus no interior da historiografia, sobretudo,
nos estudos referentes à cultura indígena, nos quais os pesquisadores fizeram pouca ou
nenhuma menção a esse aspecto. Tal fato nos causa estranhamento já que, como
mostrou Foucault, há uma nítida ligação entre sexo e poder. Como adverte o autor o
poder não se localiza apenas nas instituições, mas no jogo de forças do cotidiano:
(…) a civilização ocidental, em todo caso, há séculos,
quase nada conheceu da arte erótica; ela amarrou as
relações de poder, do prazer e da verdade, sobre uma
outra forma: uma “ciência do sexo”. Tipo de saber onde
o que é analisado é menos o prazer do que o desejo, onde
o mestre não tem a função de iniciar, mas de interrogar,
de escutar, de decifrar, onde o processo não tem por fim
uma majoração do prazer, mas uma modificação do
sujeito (que se encontra perdoado ou reconciliado, curado
ou liberto).3
Assim, discutiremos as práticas sexuais indígenas e seu confronto com a moral
católica, a qual lhes foi imposta com a chegada dos conquistadores na América.
Em primeiro lugar, focalizaremos o encontro sexual entre as mulheres
indígenas e os europeus e, em seguida, as práticas homoeróticas praticadas por algumas
etnias e bem como sua interdição com a chegada dos jesuítas na América.
A liberação sexual presente entre os nativos indígenas foi um atrativo para os
conquistadores portugueses que deram vazão aos seus apetites sexuais, satisfeitos pelas
nativas, tanto pela força quanto pelo consentimento de tais mulheres. Seria essa
liberdade o ponto inicial dos contatos inter-étnicos entre os colonizadores e indígenas,
que, mais tarde, daria origem a formação de famílias miscigenadas de nosso país.
1
Historiador, mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal de Uberlândia. Professor do
Departamento de História do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
2
Historiadora, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, professora das redes
estadual e municipal de ensino em Aquidauana-MS.
3
Michel Foucault.“L’Occident et la vérité du sexe”, Le Monde, nº 9885, 5 de novembro de 1976, p. 24.
1
Relações de parentesco entre os indígenas da América Espanhola
Para uma melhor compreensão das relações de parentesco entre indígenas,
cabe citar as observações de Guzmán acerca dos povos guaranis. Ao se referir aos
Xarayes nos esclarece que
Os da parte de Jerez se dizem Jerabayanes e os de Santa Cruz os chamam
de Maneses e todos têm o sobrenome de Xarayes, onde há povoados destes
índios com 6.000 casas, porque cada índio vive na sua casa, com sua
mulher e filhos. (...) Há também as mulheres públicas, que vivem de seus
corpos, porque não se misturam com as honestas, ainda que dali saiam
muitas casadas e nem por isso são menos valorizadas.4
Os índios que habitavam a região próxima a Assunção e a Oeste do rio Paraná
eram os Guarani, conhecidos durante as primeiras décadas do século XVI como Carijó
no Brasil e Cário no Paraguai colonial. Para Oeste, no Chaco, viviam povos caçadores
coletores nômades, etnias guerreiras, como os Guaycuru, que eram inimigos tradicionais
dos Guarani. Os espanhóis, nessas circunstâncias, optaram por instalar-se junto à
população indígena sedentária agricultora, estabelecendo uma aliança com os
Guarani/Cário, a qual acabou por satisfazer a ambos, na medida em que os espanhóis
tinham por objetivo a penetração e a permanência nesse território e os Cário desejavam
conseguir apoio e proteção contra as repentinas investidas dos Guaycuru e Agace: Era a
reciprocidade de favores no processo da conquista e da colonização.5
Durante os primeiros vinte anos de contato inter-étnico os espanhóis e os
Guarani formaram uma espécie de aliança que parecia vantajosa para ambos, mas, os
índios não imaginavam o que essa aliança poderia significar no futuro. Os espanhóis,
inicialmente, davam aos índios uma ajuda valiosa contra seus inimigos e em troca eram
integrados à sociedade Guarani como parentes. Recebiam mulheres e alimentos como
presentes e parte das obrigações devidas a esses pelos índios. Assim, puderam dispor
dos recursos humanos para que pudessem implantar definitivamente o modelo
4
GUZMÁN, Ruy Díaz de. Anales del Descubrimiento, Población y Conquista del Río de la Plata.
Ediciones Comuneros: Asunción. 1980, p. 104.
5
BASTOS, Uacury Ribeiro de Assis. Expansão territorial no Brasil colônia no vale do Paraguai (17671801). Tese (Doutorado em História) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade
de São Paulo, São Paulo, 1972, f. 25.
2
colonizador. As regras de parentesco tiveram um papel de suma importância na nova
posição que os espanhóis passaram a ocupar entre os Guarani. O “cuñadasgo” foi o
instrumento que selou a fusão étnica e racial entre índios e brancos no Paraguai
colonial.
Entre os Cário, os irmãos homens da noiva deviam prestar serviços braçais ao
marido da irmã, futuro cunhado, daí o nome cuñadasgo, como parte de suas obrigações
familiares. Os espanhóis puderam contar então com o trabalho e ajuda dos cunhados e
das mulheres, pois na sociedade Guarani eram as mulheres, as esposas, que cuidavam da
agricultura, base da economia, e da tecelagem do algodão. Faziam todo o trabalho.
Quanto mais mulheres um espanhol tivesse em sua casa, mais acesso teria à mão-deobra, tanto dos cunhados como também das próprias esposas.
O espanhol aproveitou-se de um traço cultural da sociedade Guarani
adaptando-o às suas necessidades para obter mão-de-obra. Ao perceberem esse aspecto
cultural dos índios e a utilidade que ele trazia para as metas coloniais, os espanhóis
foram orientados por Irala, a casarem-se com quantas mulheres lhes fossem oferecidas,
assim, cada espanhol casou-se ao mesmo tempo com várias índias. O concubinato,
associado à poligamia em que os espanhóis viviam cercados por várias mulheres, foi
uma pré-condição para a sobrevivência do colono europeu, fato que se tornou a base da
sociedade paraguaia, dando origem a uma grande prole mestiça. Esses mestiços farão
parte de uma segunda geração de conquistadores.
La fundacion de esta ciudad fue mas por via de cuñadasgo que de conquista
porque navegando los españoles por el rio Paraguay arriba, que es muy
caudaloso, los indios que estaban poblados en este puestoles preguntaron
quienes eran, de onde venian, adonde iban, y que buscaban: dixeronse:
responrieron los indios que no passassen adelante porque les pareçia buena
gente; y assi les darian sus hijas y serian parientes. Pareçio bien este
recaudo a los españoles, quedaronse aqui. Reçibieron las hijas de los indios
y cada español tenia buena cantidad: de donde se seguio que en breve
tiempo tubieron tanta cantidad de hijos mestiços, que pudieron com poca
ayuda de gente de fuera poblar todas las ciudades que agora tienen y
tambien las de la governaçion del rio de la plata que son otras quatro y se
llaman san Juan de Vera, Siete Corrientes, La Concepcion Rio Bermejo
Santa Fe y El Puerto de la Trinidad Buenos Ayres. Y assi se poblo este sitio
de la ciudad de la assumpçion mas como los pueblos de España apretados y
com poco sitio, que no al modo de las indias por quadra, llamaronse luego
los indios, y españoles de cuñados, y como cada español tenia muchas
mancebas, toda la parentela acudia a servir a su cuñado honrandose com el
3
nuebo pariente. Viendose los españoles abundosos en comida de la tierra, y
com tantas mancebas no aspiraron a mas, contentandose com un poco de
lienço de algodon teñido de negro para su vestido: e como estaban en el
Parayso de mahoma se governaban a su modo, y assi su govierno mas era
dispotico y tiranico que politico, y christiano, prendiendose y matandose
unos a otros, y casi hasta agora dura este govierno dispotico porque
calquiera cosa que aya menester la Justiça de hacienda agena se la toma sin
tratar de paga, solo com decir que conviene al serviçio de su magestad: y a
los que no son veçinos los mandan ir a la guerra sin sueldo solo com un
conviene: Y los pobres para aviarse venden quanto tienen dejando a sus
mugeres e hijos...6
Bastos considera que o isolamento, a inferioridade numérica do europeu em
relação aos índios e o total desconhecimento dos recursos oferecidos pelo meio natural
hostil teriam resultado em desastrosas perdas para o colonizador e até mesmo
inviabilizado o processo de colonização. Foi esse processo de europeização de índios e
de indianização de europeus, realizado em tempo mínimo que assegurou à sociedade
paraguaia condições de sobrevivência.7
Buscando traçar um paralelo entre a formação das famílias luso-tupi do Brasil
e a formação das famílias hispano-guarani do Paraguai, Jaime Cortesão destacou a
poligamia como sendo uma característica comum também na formação do São Paulo
quinhentista. Os paulistas possuíam na época articulações com o sertão que se estendia
para oeste, através de parentesco estabelecido em tantos lugares quantas eram as
concubinas que possuíam. Através das mulheres do sertão os diversos laços de
parentesco foram sendo estabelecidos.8
Assim como na formação de Assunção, onde os espanhóis adaptaram um traço
cultural da sociedade Guarani, que estabelecia as relações de trabalho baseadas no
parentesco, e passaram a utilizar-se da mão-de-obra das suas concubinas e de seus
cunhados, pois não dispunham de recursos para comprar escravos negros. Muito embora
a Igreja condenasse essa prática, a poligamia foi condição de sobrevivência do colono
europeu. No caso do Paraguai, essa adaptação tornou-se condição de sobrevivência do
6
XXXII – Informe de um jesuíta anônimo sobre as cidades do Paraguai e do Guairá espanhóis, índios e
mestiços. dezembro, 1620. In: CORTESÃO, Jaime (org) Manuscritos da Coleção de Angelis I Jesuítas e
Bandeirantes no Guairá (1549-1640). Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, Divisão de Obras Raras e
Publicações, vol. I, 1951, p. 162-163.
7
BASTOS, Uacury Ribeiro de Assis. Expansão territorial no Brasil colônia no vale do Paraguai (17671801). Op. cit., f. 59.
8
CORTESÃO, Jaime. História do Brasil. Rio de Janeiro: Casa do Saber, 1955, p. 130.
4
adventício. Este ou se deixava assimilar, contribuindo para a formação de uma
sociedade híbrida, pelo sangue ou se extinguia...9
Família e homossexualidade entre os Kadiwéu e os Urubus-Kaapor
Os relatos mais contemporâneos narrados pelo antropólogo Darcy Ribeiro nos
mostram as transformações ocorridas na família indígena e ainda os contatos entre esses
grupos e os “homens brancos”.
Entre os Kadiwéu estudados por Ribeiro a própria estrutura familiar é bem
diferente da nossa, sobretudo por não se basear no autoritarismo. Sobre a noção de amor
o autor nos diz:
Na nossa, o amor é o cimento da família. Ora, o amor e o trabalho são as
duas coisas mais bonitas da vida. Mas o amor pode ocorrer várias vezes na
vida, e até simultaneamente. Nossa estrutura pretende que o amor seja
sempre um só. E quer usar o amor como cimento de uma coisa tão mais
séria que é criar filho. Os filhos exigem 14 anos de atenção e nesse tempo o
amor pode fracassar, mas é preciso agüentar firme por causa dos meninos.
Então nós usamos um cimento errado. O cimento indígena é muito
melhor.10
Gabriel Soares de Souza, a esse respeito, no diz:
É este gentio tão luxurioso que poucas vezes tem respeito às irmãs e tias, e
porque este pecado é contra seus costumes, dormem com elas pelos matos,
e alguns com suas próprias filhas; e não se contentam com uma mulher,
mas têm muitas, como já fica dito, pelo que morrem muitos de esfalfados.11
Em outro trecho Ribeiro nos traz uma descrição da noção de família e senso de
autoridade existente entre os índios Bororó:
Entre os Bororó, por exemplo, uma família é um conjunto de mulheres com
seus irmãos e seus filhos; o filho leva o nome da mãe. E quem é o pai? É a
9
Idem, Ibidem, p. 10-11.
RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Psicologia Atual, ano 1, nº 4, p. 3.
11
SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descritivo do Brasil em 1587. Disponível em
http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me003015.pdf, consultado em 21/09/2010.
10
5
pessoa que teve uma relação com a sua mãe. Este pai, enquanto casado,
mora no clã da mãe. Mas é do outro clã, para onde sempre volta. O pai é
aquela pessoa com quem o menino vai conversar livremente: é o
companheirão, em cujo clã ele poderá casar. A autoridade para ele é o tio.
Uma estrutura, portanto, diferente da nossa. Mas também se poderia dizer
que eles têm, sob outras formas, muitos costumes semelhantes aos nossos.12
Em Diários Índios: os Urubus-Kaapor13 o autor se refere às duas expedições
que fez entre os anos de 1949 e 1951 nas quais percorreu o sertão maranhense com um
objetivo bem definido: resgatar, por intermédio dos herdeiros diretos dos Tupinambá,
parte da nossa identidade cultural. Quando os encontrou assim os definiu: Todos os
homens usam calções e dentro deles estão nus, porque não põem mais o cordel que
atava o prepúcio e metia o pau dentro do corpo. Homens e mulheres falam
inteligentemente o português dos caboclos maranhense, mas entre eles só falam seu
idioma tupi.14 Sobre sua vida sexual, aponta que
O tratamento recíproco de homens e mulheres é simétrico, embora
sempre se portem com decoro nos gestos. Há mulheres que gostam
especialmente de falar de sexo, comentando quem estaria trepando
com quem, até as mulheres casadas. Não têm qualquer descrição nas
palavras, falam de todos os assuntos com naturalidade, comentando a
vida sexual de cada membro sem constrangimento. (...) Não parece
haver qualquer perversão generalizada, mesmo a homossexualidade,
ao que me disseram, é desconhecida. Chega a causar espanto quando é
referida. Os casais são afetuosos, andam quase sempre juntos e, não
raro, se acariciando – no cafuné e nas bolinas. As conversas eróticas
são comuns, delas participam pessoas de todos os sexos e idades.
Devem agir como estimulantes, além de fumo, que os embriaga do
modo como usam os charrutos – aspirando fortemente e retendo a
fumaça no peito - , e das bebidas fermentadas que dão lugar a orgias.15
O autor segue explicando que sobre a concepção do ato sexual: se puro, natural,
doloroso ou perigoso não conseguiu pelas respostas obter muitas informações. No
entanto, afirmou que percebeu um esforço por parte dos homens em advertir as
mulheres que fazer sexo com os brancos pode ser algo perigoso.
12
13
RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Op. cit., p. 4.
RIBEIRO, Darcy. Diários Índios: os Urubus-Kaapor. São Paulo: Companhia das
Letras, 1996.
14
15
Idem, ibidem, p. 12.
Idem, ibidem, p. 163.
6
Mas há um nítido esforço dos homens para convencerem as mulheres
de que as que têm relações com Karaíwas morrem em consequência
disso. Baseiam a suposição no fato de algumas terem morrido no parto
de filhos gerados por brancos e em doenças venéreas apanhadas
durante as andanças, que também têm causado dores e mortes. Porém,
as mulheres não parecem lá muito convencidas disso; contudo, devem
temer. Os homens não têm nenhuma inibição para as trepadas. Suas
expectativa e de que se a mulher se abrir, acolhedora, eles transarão.16
Certamente a advertência para que as mulheres não transassem com os brancos
ocorria pelo fascínio que os homens brancos causavam nas mulheres indígenas. Uma
das principais características que chamavam sua atenção para esse homens eram as
genitálias que eram muito maiores que a dos indígenas.
O característico erótico atribuído ao branco ou ao preto é o
avantajamento da genitália, que eles crêem ser tão exagerada no
homem como na mulher. Essa visão surge do fato de que eles, não
usando os amarrilhos que embutem o membro para dentro do corpo,
os mostram ao natural, fazendo parecer maiores. Alguns índios são
referidos como portadores de membros descomunais “como o dos
brancos”. São, por isso, desejados e temidos pelas mulheres.17
Darcy nos informa, também, sobre os lugares e condições em que ocorrem os
intercursos sexuais entre os casais indígenas, como observa-se no trecho abaixo: :
As relações extraconjugais dos homens são consideradas como
aventuras galantes, de que ele pode vangloriar-se junto aos amigos.
Como não fazem amor sozinhos, haverá tantos homens adúlteros
quanto mulheres. Todos acham que quando um homem chega em casa
de um outro e não encontra o marido, provavelmente anda com a
mulher dele. A atitude para com as mulheres é diferente. Se espera, ao
menos os maridos esperam, que elas sejam fiéis e as castigam com
pancadas e até ameaçando passar pimenta nos olhos e na genitália
delas quando não o são. Isso se explicaria perfeitamente pelo cuidado
que têm na determinação da paternidade. (...) O intercurso sexual se
dá quase sempre na rede, à noite. Casais jovens, às vezes, têm relações
no mato quando passam dias em caçadas e coletas, ou mesmo na roça
quando vão colher mandioca. Nas relações usuais noturnas, o homem
senta-se diante da mulher, ambos atravessados na rede, com as pernas
para fora. Ele põe as pernas dela em cima das dele, descobrindo assim
16
17
Idem.
Idem, ibidem, p. 164.
7
sua genitália, e deita-se sobre ela. Esta é a posição considerada
correta.18
Sobre as relações extraconjugais o autor esclarece que as mesmas eram
praticadas tanto pelos homens quando pelas mulheres, sendo mais comum entre os
homens, mas não uma exclusividade deles:
A mulher de Corai-uhú, filho de Xapy, menina ainda, que aliás é sua
prima cruzada, seria uma devassa. Não quer ter relações com o
marido. Morde-o cada vez que tenta possuí-la. Faz um escândalo
danado quando, à noite, ele procura passar para a rede dela; já que,
para a dele, a menina não vai mesmo. Mas aí vem devassidão: tem
relação é com Tomé, um rapaz da aldeia vizinha, sempre que pode, e
gosta muito. Não quer saber é do marido. (...) Prevêem que Tomé
morrerá em breve, porque, além dessa menina ele tem relações com
outras mulheres que citaram. E como uma delas poderá engravidar, ele
morrerá por não cumprir os preceitos da couvade.19
Para Darcy Ribeiro as dificuldades em falar e saber um pouco mais sobre a vida
sexual daqueles índios não estava nos índios mais sim na equipe que com ele estava e
suas atitudes etnocêntricas que riam e debochavam do que viam, principalmente na
presença das mulheres:
Comentam cada atitude dos índios que lhes parece estranha. Ainda
ontem à noite, divertiram-se muito vendo dois rapazinhos índios que
nos acompanhavam dormirem juntos na rede, meio abraçados. Para
eles, homens só podem dormir de pés contra a cabeça um do outro e,
mesmo assim, fazem coisa insuportável a seus olhos maledicentes.20
Outro caso de relações extraconjugal:
Não devem ser raras as relações extraconjugais. Elas ocorrem sem
dúvida, mas são controladas. É o caso de Iuákang, o rapaz da aldeia de
Piahú que sempre saía com as flechas como se fosse caçar, mas ia para
o mato esperar uma mulher casada, com a qual tinha relações. Isso
aconteceu até que sua esposa descobriu, porque suas caçadas tão
freqüentes não rendiam nada, e passou a acompanhá-la dia e noite.21
18
Idem, ibidem, p. 226.
Idem, ibidem, p. 575.
20
Idem, ibidem, p. 420.
21
Idem, ibidem, p. 423.
19
8
Práticas não aprovadas pelo grupo e que podem indicar relações sexuais entre
mulheres.
Falou-se de casais jovens cujas mulheres são comentadas por todos.
São dois irmãos, filhos de Xapy, casados com duas irmãs; os quatro
andam sempre juntos, principalmente as duas meninas, que são
inseparáveis e parecem divertir-se muito uma com a outra, pois não
param de comer, abraçar-se, rir e mais rir.22
Ainda acerca da homossexualidade entre os grupos indígenas, Darcy Ribeiro
se referiu, também, aos cudinhos ou Kudinas Kadiwéu, com os quais viveu à época de
sua participação nas expedições de Rondon Pacheco. Segundo ele:
Há documentos já do século passado sobre a existência de
homossexualismo entre tribos do Brasil. Inclusive entre os cadiuéu que eu
estudei. Eles chamam o homossexual de kudina. O kudina é um homem
mulher, ou um homem que decidiu ser mulher. Ele se veste como mulher,
pinta o corpo como uma mulher – e menstrua.23
Ribeiro esclarece que, entre os índios, a mulher menstruada – flechada pela
lua, na linguagem deles – está em estado de impureza, pelo que é intocável e perigosa.
Então, para maior segurança dos homens, ela se retira para um ranchinho isolado
durante a menstruação. O ranchinho vira um ninho de fofocas, e por isso os kudina
resolvem menstruar também e ficam alguns dias lá, fofocando o dia inteiro.
É preciso ressaltar que nos relatos de Darcy Ribeiro o kudina é uma figura
absolutamente aceita, integrada no grupo. Suas práticas homoeróticas significam apenas
uma das possibilidades de condução humana que a tribo incorporou e até
institucionalizou.
Ribeiro atribui a boa aceitação dos Kudinas à liberdade existente entre os
Kadiwéu para expressar o afeto que sentem uns pelos outros, sejam homens ou
mulheres. De acordo com ele, os índios se mostram muito livres em suas manifestações
de afeto. Faz ainda uma comparação com nossas tradições de sociabilidade:
Entre nós, um homem mal pode apertar a mão de outro, mulher a gente
deve abraçar de leve. Os índios vivem agarrados uns com os outros. Curtem
22
23
Idem, ibidem, p. 575.
RIBEIRO, Darcy. Lições de humanismo dos índios do Brasil. Op. cit., p. 2.
9
se tocar e conversar bem juntinho. Inclusive os homens. Mal eu chegava
numa aldeia, eles logo me cercavam e vinham se encostando. Uma amiga
achou os índios uns desmunhecados porque não paravam de se encostar no
marido dela.24
A partir dos relatos apresentados nota-se que tanto no século XVI quanto na
década de 1950 o discurso religioso foi o responsável por fim a liberdade sexual de que
desfrutavam os indígenas brasileiros. A respeito do período colonial Vainfas observa
que uma das principais preocupações do padre Manuel da Nóbrega era com a falta de
mulheres brancas na colônia que poderiam garantir a monogamia, tão cara a moral
católica, conforme nota-se no trecho abaixo:
Primeiro provincial jesuíta no Brasil, em 1549, ficou tão desesperado com o
que via, portugueses e índias gemendo nos matos, que suplicou ao rei o
envio urgente de mulheres brancas para casar com os portugueses. Nem que
fossem “mulheres de má vida”, isto é, prostitutas – dizia o jesuíta – desde
que viessem para casar.25
No que se refere à contemporaneidade vale lembras as idéias de Roberto
Cardoso de Oliveira em Antropologia e Moralidade:
24
Idem.
VAINFAS, R. Brasil de todos o pecados: erotismo e religião se mesclavam nos tempos da colônia.
Nossa História, novembro de 2003. p. 12.
25
10
Quero lembrar a ação de missões religiosas (católicas e evangélicas)
junto de povos indígenas, preocupadas com conduzi-los a se
comportarem segundo os princípios da moralidade cristã. O caso da
missão salesiana junto aos Borôro ilustra bem isso, quando os
obrigou a se desfazerem de suas casas comunais por entenderem
serem elas propícias ao pecado do incesto. Mostrando-se incapaz de
perceber que jamais esses índios incorreriam no incesto clânico, a
missão fez com que sua interferência na cultura tribal determinasse o
comprometimento da forma circular das aldeias e a conseqüente
alteração dos parâmetros simbólicos da organização social e da
cosmologia daquele grupo indígena. O moralismo cristão que
impregnava a política missionária certamente teria impedido que os
missionários aprendessem com os Borôro um estilo de vida que, por
ser diferente, nem por isso era menos probo e justo.26
Como destacou Oliveira, poderíamos encontrar ao longo da história diversos
exemplos de imposição da moral cristã no interior desses grupos étnicos, todas com a
nobre preocupação de salvar a alma dos povos indígenas, contudo acabam por aniquilar
os traços de sua cultura ancestral.
26
OLIVEIRA, Roberto Cardoso. Antropologia e Moralidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº
24, São Paulo, 1994, p. 03.
11
Download

5. Aguinaldo Rodrigues Gomes e Sandra Nara da Silva Novais