DE MACHADO DE ASSIS A SILVIANO SANTIAGO:
A cultura brasileira entre fronteiras
Gustavo Menegusso (URI)
Ainda somos colônia de Portugal? Em que medida a herança cultural deixada pelos portugueses afligiu e se faz presente em nossas relações sociais, modos de vida, costumes, práticas e valores? Como nos vemos como cultura e nos comportamos em
relação aos países europeus? Este é o eterno debate que perpassa a nossa essência, o
nosso ser nação.
Inspirado no ensaio de Silviano Santiago “Atração do Mundo: políticas de globalização e de identidade na moderna cultura brasileira”, publicado no livro O cosmopolitismo do pobre (2004), este presente artigo procura complementar ou aprofundar as
referências destacadas pelo autor e ao mesmo tempo oferecer novos olhares, isto é, outras perspectivas sobre a nossa visão de cultura ao longo da história.
Nesse sentido, traça-se um itinerário que se inicia como o olhar de Machado de
Assis em Notícia da atual literatura brasileira: Instinto de nacionalidade (1873), passando pelo eurocentrismo de Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900), a perspectiva histórica do período colonial nas Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda, a visão anos 50 dos estudos de Antonio Candido em Formação da literatura brasileira (1959) e Literatura e sociedade (1965) até O entre-lugar do discurso latinoamericano (1971), de Silviano Santiago.
O QUE É CULTURA?
Segundo o dicionário Houaiss o termo cultura significa:
ação ou efeito de cultivar a terra, cultivo; criação de certos animais;
produto de tal cultivo ou criação; conjunto de padrões de comportamento, crenças, costumes, atividades etc. de um grupo social; forma
ou etapa evolutiva das tradições e valores de um lugar ou período específico, civilização; conhecimento, instrução (HOUAISS, 2009:204).
Estes diferentes significados atribuídos pelo dicionário abarcam as versões de
cultura que se fizeram presentes no decorrer dos séculos. Vinda do latim cultura que
significa o cuidado dispensado ao campo ou ao gado, sua primeira concepção data o
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final século XIII, na qual ela aparece para designar uma parcela de terra cultivada. Mais
tarde, no início do século XVI, deixa de significar um estado da coisa cultivada para ser
uma ação, ou seja, cultura é o fato de cultivar. Ainda nesse mesmo período, passa a designar também o cultivo de uma faculdade, o fato de trabalhar para desenvolvê-la. Nesse sentido, por exemplo, tem-se uma cultura das artes, uma cultura das letras, etc. Com
o advento do Iluminismo, um movimento intelectual surgido na França na segunda metade do século XVIII, inicia a oposição entre natureza e cultura. Esta, por sua vez, deixa
de ser uma ação e volta novamente a assinalar um “estado do espírito cultivado pela
instrução”. Fala-se do estado do indivíduo que “tem cultura”, condenando um espírito
natural e sem cultura (CUCHE, 1999:19-20).
Durante o período conhecido como o “século das luzes”, em que se enfatizava a
razão e a ciência como formas de explicar o universo, a cultura começa a ser reconhecida pelos pensadores iluministas como um caráter distintivo da espécie humana. Para
eles, a cultura é “a soma dos saberes acumulados e transmitidos pela humanidade, considerada como totalidade, ao longo de sua história” (CUCHE, 1999:21). Aliada à ideologia do Iluminismo, isto é, às ideias de progresso, educação razão e evolução, o termo
cultura aproxima-se, na França, à concepção de civilização. No entanto, Cuche (1999:
22) assinala uma diferença entre as duas noções: a cultura evoca principalmente os
“progressos individuais” e, a civilização, os “progressos coletivos”.
A partir dessa evolução, percebe-se o quanto a ideia de cultura é intrínseca ao
seu contexto histórico, variando de acordo com determinada época e em cada país. Estas
diferentes versões ou sentidos de cultura não são excludentes, mas complementares.
Através dessa diversidade que abrange seu universo conceitual, hoje não se tem uma
definição do que é cultura, mas várias definições, assim como não se tem uma cultura, e
sim várias e diferentes culturas.
O antropólogo Clifford Geertz (2008:4) em
seu livro A interpretação das culturas defende um conceito semiótico de cultura: “acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados
que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias”. Dessa forma, a cultura
é um processo de acúmulo de signos que resulta de toda uma experiência histórica. É
um processo em que, através desta aprendizagem, começa a surgir a socialização. Em
sua essência, é um conjunto de ações adotadas pelos homens através da partilha de signos, pois todo fenômeno cultural é decorrente de relações comunicacionais. A cultura
deriva justamente da escolha de determinadas relações que, através da comunicação,
podem formar modos de vida.
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AS DIFERENTES PERSPECTIVAS SOBRE A CULTURA BRASILEIRA
Sendo a cultura essas teias de significados tecidas pelo homem, como afirma o
antropólogo Geertz, ou seja, os modos de vida pelos quais uma sociedade se expressa,
apresenta-se nessa seção uma retrospectiva a respeito de como o Brasil se viu como
cultura no decorrer de sua história. Seguindo uma linha cronológica da publicação das
obras e não dos acontecimentos históricos, procura-se evidenciar as diferentes visões
que alguns autores brasileiros têm acerca da cultura de nosso país, desde Machado de
Assis, em Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade (1873) até
Silviano Santiago, em O entre-lugar do discurso latino-americano (1971).
O olhar de Machado de Assis em o Instinto de Nacionalidade
Publicado em 1873, Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade consiste em um ensaio crítico escrito por Machado de Assis, em comemoração aos
cinquenta anos de independência política do Brasil. Como o título já traduz, o texto é
um relato da situação da literatura brasileira desse período que, em meio às transformações sociais e culturais decorrentes, busca também a sua independência literária.
Machado reconhece nas obras literárias um certo instinto de nacionalidade, na
qual romance e poesia buscam “vestir-se com as cores do país”. A literatura, através de
aspectos que caracterizam a vida brasileira, procura ter uma inspiração e ao mesmo
tempo uma “fisionomia” própria, que outrora não existia, ou seja, começa aos poucos a
nossa “independência literária”. No entanto, como afirma o autor, “esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas
pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitos trabalharão para ela até perfazê-la de todo” (ASSIS, 1873:1).
A busca por uma identidade nacional é uma constante numa colônia recém desligada de sua metrópole. Não obstante, esta característica também reflete na arte literária
que, após um longo período sob influências da cultura portuguesa, precisa passar por
um processo de amadurecimento. Nesse procedimento, que envolve tempo e mudanças,
a primeira transformação assinalada compete ao papel do escritor brasileiro: “O que se
deve exigir do escritor antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do
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seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”
(ASSIS, 1873:3).
No decorrer do ensaio, na medida em que elogia a valorização do fator local pelos nossos escritores, isto é, os costumes e tradições da vida brasileira bem como a da
sua natureza, Machado de Assis critica a forma de como estas representações são traduzidas nas obras literárias: “Um poeta não é nacional só porque insere nos seus versos
muitos nomes de flores ou aves do país, o que pode dar uma nacionalidade de vocabulário e nada mais. Aprecia-se a cor local, mas é preciso que a imaginação lhe dê os seu
toques [...]” (ASSIS, 1873:6).
Segundo Assis, a busca pelo espírito nacional não se encontra somente nos assuntos locais, pois isso tornaria a literatura demais limitada. Dessa forma, Machado ressalva a importância de se dialogar com as outras culturas e as outras literaturas, nesse
caso, a européia, considerada por ele como grande referência. Assim, a nossa literatura,
ainda, em sua recente mocidade, poderia alçar vôos mais altos em busca de sua independência literária. Contudo, vale ressaltar que esse atraso cultural do Brasil é também
uma consequência de fatores socioeconômicos vividos pela jovem nação, entre eles, o
grande índice de analfabetos e a escravidão ainda em vigor. Estes fatores são decorrentes ainda do tempo de colônia e não são levados em consideração na crítica de Machado
de Assis.
O Eurocentrismo em Minha Formação de Joaquim Nabuco
Publicado em 1900, Minha formação é uma autobiografia do político Joaquim
Nabuco. Consiste em um livro de memórias que revelam não somente as diferentes facetas identitárias do autor, entre elas, a de intelectual, cosmopolita, abolicionista e escritor, mas a situação política, cultural e social da recém liberta nação brasileira, liberdade,
esta, em dois sentidos: o da escravidão e o do regime monárquico.
Destaca-se em meio a estas diferentes memórias, o capítulo IV, intitulado de “Atração do mundo”. Nele observa-se uma rica descrição de Nabuco acerca da situação
atual, ou seja, do início do século XX, da cultura brasileira e como esta é vista em relação à cultura européia. Joaquim Nabuco relata uma “crise” da cultura sul-americana,
especialmente em relação ao Brasil, devido ao seu atraso político, social e, consequentemente, da tardia Abolição da Escravatura. Nessa perspectiva, aponta a necessidade da
nação brasileira, seja através da sua cultura ou literatura, expandir-se para o mundo.
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Essa ideia é logo perceptível em uma frase célebre do autor, escrita no início do capítulo
“Atração do mundo”: “Sou antes um espectador do meu século do que do meu país: a
peça é para mim a civilização, e se está representando em todos os teatros da humanidade, ligados hoje pelo telégrafo” (NABUCO, 2004:35).
Nabuco considera-se ele mesmo um cosmopolita e, assim, por conhecer inúmeras outras culturas, seja através de viagens ou pelo telégrafo, um importante meio de
comunicação de massa do início do século XX, vê no olhar estrangeiro a “solução” para
a “crise” da nossa atual cultura. A Europa é, por sua vez, o palco central, cuja a arte, a
nação brasileira precisa imitar.
A influência da cultura européia é inevitável em nosso país e algo que não tem
como fugir à nossa imaginação, pois essa, segundo Nabuco “não pára na Primeira Missa
no Brasil [...], segue pelas civilizações todas da humanidade, como a dos europeus, com
quem temos o mesmo fundo comum de língua, religião, arte, direito e poesia [...] a
mesma imaginação histórica” (NABUCO, 2004: 39).
Nesse sentido, a história do Brasil bem como a sua cultura não tem como se desvincular de suas origens, isto é, da Europa, mesmo depois de um século transcorrida a
nossa independência. Devido a esta dupla incapacidade, Nabuco afirma que os sulamericanos estão “condenados a mais terrível das instabilidades”. Segundo ele, esta
inconstância provém do fato “de que na América falta à paisagem, à vida, ao horizonte,
à arquitetura, a tudo que nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana; que na Europa nos falta a pátria, isto é, a forma em que cada um de nós foi vazado ao nascer”
(NABUCO, 2004:40).
O atual cenário do século XX revela um Brasil “ainda derribando a mata virgem”, aspirando e ao mesmo tempo buscando sua identidade cultural, mas de forma
ainda precoce e com diferenças acentuadas em relação à cultura européia. Como afirma
Nabuco (2004:40): “não quero dizer que haja duas humanidades, a alta e a baixa, e que
nós sejamos desta última; talvez a humanidade se renove um dia pelos galhos americanos; mas no século em que vivemos, o espírito humano, que é um só e terrivelmente
centralista, está do outro lado do Atlântico”.
Portanto, a “atração do mundo” a que Joaquim Nabuco se refere, no título do capítulo IV de Minha Formação, é a própria Europa, vista como um modelo cultural e
político a ser inspirado pelas jovens nações, entre elas, o Brasil.
A perspectiva histórica de Sérgio Buarque de Holanda nas Raízes do Brasil
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Em Raízes do Brasil, publicado no ano de 1936, Sérgio Buarque de Holanda traz
à tona uma discussão histórica acerca do desenvolvimento do Brasil desde a era colonial
até o período pós-abolicionista. Como o próprio título traduz, a ideia de Holanda é voltar às remotas origens, ou, as raízes da nação brasileira para explicar até que ponto a
influência da cultura portuguesa (européia) fez-se e continua presente em nosso meio.
Não obstante, o autor relata que a tentativa de implantação de uma cultura alheia
em nosso país é o “fato dominante e mais rico em consequências” desde as origens da
sociedade brasileira. Sendo essa outra cultura inserida de maneira natural ou adversa,
“trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil,
somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra” (HOLANDA, 1981:3).
Nesse sentido, apesar de transcorrido um século de independência política, ainda
somos “dependentes” ou “influenciados” pela mãe-pátria, pelos modos de vida, ideias e
costumes deixados pelos portugueses: “o certo é que todo fruto de nosso trabalho ou de
nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de
outra paisagem” (HOLANDA, 1981:3).
No entanto, segundo Holanda, esta influência européia em nossa nação pode ser
observada de duas maneiras: num primeiro momento, o período colonial, marcado por
um forte controle da metrópole portuguesa e predominância de uma cultura rural ou
agrária; e, em um segundo momento, a era pós-Abolição (1888), vista como um marco
“divisível” entre duas épocas no processo de desenvolvimento nacional, e caracterizada
como “um novo sistema, com seu centro de gravidade não já nos domínios rurais, mas
nos centros urbanos” (HOLANDA, 1981:127).
Inicialmente, em relação à era colonial, Buarque de Holanda ressalta um dos
motivos que fez o Brasil ser uma das colônias mais atrasadas da América. O fato é decorrente do país-metrópole ter ingressado no “coro europeu” de forma tardia, apenas na
época dos grandes descobrimentos marítimos, e assim ter surgido “um tipo sociedade
que se desenvolveria, em alguns sentidos, quase à margem das congêneres européias”
(HOLANDA, 1981:4).
Por sua vez, na era que sucede à libertação dos escravos, tem início um grande
período de mudanças no cenário político-social do país. As principais características
estão na passagem do regime monárquico para o republicano e do rural para o urbano,
isto é, ao predomínio da cultura das cidades. Começa uma espécie de “aniquilamento
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das raízes ibéricas de nossa cultura para a inauguração de um estilo novo, que crismamos talvez ilusoriamente de americano, porque seus traços se acentuam com maior rapidez em nosso hemisfério” (HOLANDA, 1981:127).
Apesar dessas mudanças provocarem uma decaída no “ciclo das influências ultramarinas específicas de que foram portadores os portugueses”, este estilo novo que
passa a dominar a então cultura brasileira, ou seja, o americanismo, não consegue aniquilar, no momento, as influências das raízes ibéricas em nosso meio. Este estilo, como
afirma Holanda (1981:127) é “interiormente inexistente”, pois ainda se resume a “manifestações estranhas, de decisões impostas de fora, exteriores à terra”.
Assim, a busca por uma identidade própria, ou este estilo americano de ser, é
uma conquista que irá se suceder aos poucos, na medida em que a jovem nação independente for se desfazendo dos valores da então sociedade tradicional e ir concretizando
seu processo de transformação, desenvolvimento, evolução.
A visão anos 50 de Antonio Candido em Formação da literatura brasileira e Literatura
e sociedade
Publicadas, respectivamente, em 1959 e 1965, Formação da literatura brasileira
e Literatura e sociedade são resultados dos estudos feitos pelo crítico e sociólogo Antonio Candido durante a década de 1950. Ambas as obras não são divergentes, mas, ao
contrário, explicitam de forma complementar a visão do autor acerca da formação de
nossa literatura e suas relações com o meio social.
Ao propor uma “formação da literatura brasileira”, Candido (1976:9), inicialmente, caracteriza a nossa literatura como um “galho secundário da portuguesa, por sua
vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas”. Contudo, apesar de reconhecer
tamanha inferioridade, o autor acrescenta que “comparada às grandes, a nossa literatura
é pobre e fraca. Mas é ela, não outra, que nos exprime. Se não for amada, não revelará
sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós” (CANDIDO, 1976:10).
Percebe-se, desde já, o quanto o pensamento de Antonio Candido diferencia-se
das ideias eurocêntricas defendidas por Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Enquanto
o primeiro reconhece a existência de “caracteres próprios” em nossas obras literárias,
sem a necessidade de uma exteriorização para tornarem-se reconhecidas, os demais criticam este “apego” ao local e apontam no olhar estrangeiro a solução para a nossa “crise
identitária”.
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A influência de culturas alheias, sobretudo a lusitana, é perceptível em nosso
meio social. Nesse aspecto, em Literatura e sociedade, Candido dedica um capítulo,
cujo nome é “Literatura e cultura de 1900 a 1945”, para expor diferentes perspectivas
acerca da influência cultural portuguesa em nossa sociedade. Num primeiro momento, o
sociólogo ressalta que durante todo o século XIX existe uma “literatura comum” que
perpassa ambos os universos literários, e apesar de haver imitação inglesa e francesa,
depende-se “literariamente de Portugal, através de onde recebíamos não raro o exemplo
e o tom da referida imitação” (CANDIDO, 2006:119).
A partir do começo do século XX, devido às decorrentes transformações sociais,
como a Abolição da Escravatura e a forte valorização à cultura das cidades, apenas para
citar alguns exemplos, dá-se início a um processo dialético marcado pela tensão entre as
características locais e os valores herdados da tradição européia. Nesse período que antecede ao Modernismo, a cultura brasileira, através de sua literatura, procura romper o
“diálogo com Portugal”.
Por sua vez, com o Modernismo rompe-se com as supostas ou reais “deficiências” de nossa literatura, entre elas, a europeização do índio no movimento regionalista.
Estas, por sua vez, agora são reinterpretadas como “superioridades”. As obras literárias
valorizam o primitivismo, visto no momento como “fonte de beleza e não mais de empecilho à elaboração da cultura. Isso na literatura, na pintura, na música, nas ciências do
homem” (CANDIDO, 2006:127).
Aliado ao desenvolvimento social e cultural do país, o Modernismo corresponde
à “tendência mais autêntica da arte e do pensamento brasileiro”. É o período em que “os
frutos se amadureceram” e tem-se “o ardor de conhecer o Brasil” (CANDIDO,
2006:132). Entretanto, na década de 1940, inicia-se uma nova fase, em que nossa literatura cada vez mais “universalmente válida” passa a ter uma preocupação em si mesma,
respondendo mais a questões estéticas do que aos problemas político-sociais.
O entre-lugar da cultura brasileira de Silviano Santiago
Entre os ensaios publicados em Uma literatura nos trópicos (1978) do crítico
brasileiro Silviano Santiago, destaca-se “O entre-lugar do discurso latino-americano”,
escrito, ainda, em 1971. Apesar de utilizar a palavra discurso, esta, por sua vez, revela
um significado muito além do sentido literal, abrangendo também a ideia de literatura e
cultura num contexto tanto brasileiro quanto da América Latina.
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Ao observar os estudos anteriores sobre as influências da cultura européia em
nosso meio social, o autor procura apresentar qual o lugar que vem sendo ocupado pelo
discurso latino-americano no confronto com o europeu. Tendo uma visão contrária a
outros escritores como Sérgio Buarque de Holanda e Antonio Candido, que se preocupam em retratar as influências que a metrópole tivera sobre a colônia, Santiago (1978),
por sua vez, propõe uma abordagem a partir de um processo de inversão de valores.
Durante o processo de colonização, o principal interesse dos portugueses e espanhóis era apoderar-se do maior número de riquezas que existiam em suas respectivas
colônias. Por isso, de acordo com Santiago (1978:12), o empenho dos colonizadores
em (re)educar os nativos que aqui habitavam não estava no “desejo de conhecer”, mas
na vontade de dominar. Assim o código linguístico, ou seja, a língua européia, e o código religioso, o cristianismo, foram a maneira encontrada pelos brancos para impor seu
caráter dominador: “Evitar o bilinguismo, significa evitar o pluralismo religioso e significa também impor o poder colonialista. Na álgebra do conquistador, a unidade é a única
medida que conta. Um só Deus, um só Rei, uma só Língua: o verdadeiro Deus, o verdadeiro Rei, a verdadeira Língua (SANTIAGO, 1978:14).
Nesse sentido, através da conversão, a América torna-se um “produto reprimido
de outra Renascença” e como ainda exprime o autor “transforma-se em cópia, simulacro
que se quer mais e mais semelhante ao original, quando sua originalidade não se encontraria na cópia do modelo original, mas na sua origem, apagada completamente pelos
conquistadores” (SANTIAGO, 1978:14).
Sendo assim, tem-se uma visão passiva acerca do processo de colonização da
América Latina. Entretanto, para o crítico Silviano Santiago (1978, p:15) esse procedimento não se sucedeu dessa forma, mas entre um contraste “de assimilação e de agressividade, de aprendizagem e de reação, de falsa obediência, de desvio na norma”. À
medida que nossos escritores se expressavam através de suas obras, esta já era uma maneira de “libertação”: “Falar, escrever, significa: falar contra, escrever contra”.
Este é, portanto, o entre-lugar da cultura, da literatura brasileira e latinoamericana. Não uma cópia, um silêncio, mas um lugar de interação, uma espécie de
dialogismo bakhtiniano, ou seja, um discurso de várias vozes. Portanto, como afirma
Santiago (1978:21) o discurso dos escritores latino-americanos está “entre o sacrifício e
o jogo, entre a prisão e a transgressão, entre a submissão ao código e a agressão, entre a
obediência e a rebelião, entre a assimilação e a expressão, - ali, nesse lugar aparente-
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mente vazio, seu templo e seu lugar de clandestinidade, ali, se realiza o ritual antropófago da literatura latino-americana”.
Nesses diversos olhares sobre si mesmo, isto é, dos escritores brasileiros, sobre a
cultura brasileira, percebe-se o quanto a influência européia fez-se presente em nosso
meio social e cultural, principalmente durante o colonialismo. Entretanto, mesmo após a
independência política, a nação brasileira, ainda, conviveu com esta dupla incapacidade
a que se referia Nabuco.
Tanto em Machado de Assis quanto em Joaquim Nabuco, tem-se uma visão eurocêntrica, na qual nossa cultura e também literatura necessita se espelhar no olhar estrangeiro, ou seja, na Europa, para buscar sua identidade ou independência literária. Já
Sérgio Buarque de Holanda bem como Antonio Candido, apesar de revelarem a forte
influência de uma cultura alheia, no caso, a portuguesa, defendem uma espécie de “americanismo” ou “nacionalismo”, no qual a jovem nação brasileira busca sua identidade na
medida em que se desenvolve socialmente e economicamente e vai se desfazendo dos
valores da então sociedade tradicional. Por sua vez, Silviano Santiago revela a existência de uma cultura brasileira e latino-americana sendo realizada num entre-lugar, entre o
silêncio e agitação, buscando seu espaço através da interação, de um dialogismo.
Assim, apesar de ter se consolidado ou como afirma Antonio Candido, tornadose universal, a nossa cultura sempre esteve, de certa forma, ligada à cultura européia, se
não sob influências, através do diálogo, ou seja, tivemos e ainda temos uma cultura brasileira entre fronteiras.
REFERÊNCIAS
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CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 9. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul,
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CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: (momentos decisivos). 3. ed.
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CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais. Trad. Viviane Ribeiro. Bauru:
EDUSC, 1999.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales. Minidicionário Houaiss da língua portuguesa. 3. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
NABUCO, Joaquim. Minha formação. São Paulo: Martin Claret, 2004.
SANTIAGO, Silviano. O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Uma literatura
nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 11-28.
SANTIAGO, Silviano. O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG,
2004.
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