33 -Um pobre diabo é o que sou
Um relacionamento proibido fez Nasi perder um velho amigo e quase a maior paixão também: o
Ira!. Em 1994, Nasi namorava Sabrina, mulher bonita que trabalhava com moda. Edgard namorava uma
bailarina. Beatriz. Os dois casais se davam bem. O guitarrista e a namorada gostavam de passar na casa
de Nasi para ouvir um som e fumar um baseado.
Um dia veio só Beatriz. Edgard ficara gravando com Arnaldo Antunes. A namorada começou a
criticar o guitarrista para o amigo.
Nasi: Então, era o velho ditado: a Beatriz era homem para mim. Zagueirão! Namorada de amigo
meu não tinha jogo comigo. No início, achei que ela desabafava meio como coisa de amigo, de terapia de
casal. Mas teve um dia em que a Bia pediu para que eu não comentasse com o Edgard que ela estava
vindo até a minha casa. Eu deveria ter sacado...
Nasi era casado com a cocaína em 1994 e tinha como namorada Sabrina. A relação estava
deteriorada entre os amantes. A aproximação com a mulher do amigo era cada vez mais perigosa. Beatriz
cada vez mais frequentava a casa do cantor à noite.
Nasi: Mesmo namorando a Beatriz, o Edgard tinha um caso com a mulher de um amigo dele. Acho
que a Bia, no começo, queria se vingar da traição ficando comigo... Aí, no feriado de Nossa Senhora
Aparecida, Dia das Crianças, liguei pra minha namorada para sair. A Sabrina disse que não queria. Logo
depois ligou a Beatriz. Perguntou se eu iria na festa que a Sabrina também iria... Fiquei puto! De
madrugada, a Bia apareceu em casa. Nós dois estávamos levando bola nas costas. Fiquei enrolando até
lá pelas seis da manhã, quando criei coragem e arrisquei um beijo na Beatriz. Ela então reclamou que só
naquela hora eu havia me tocado da intenção dela...
Começou uma relação de “filme francês”, segundo Nasi. O relacionamento deixou de ser uma
vingança para ser algo mais sério.
Nasi: A Beatriz meio que se apaixonou. A gente viajava e ficava difícil se controlar. Por baixo da
mesa do restaurante, no quarto de hotel no interior... Eu achava que o Edgard havia sacado esse
movimento paralelo. Ou sacara e não queria falar. Por que ela dava muita bandeira. Parava o carro bem
na frente da minha casa. Não era nada discreta.
Nas cartas que mandou a Nasi, Beatriz abriu o coração. Dizia que “havia cismado” com ele e
“queria saciar os caprichos” dela, “conhecendo quem era aquele “Gangster do Amor”, canção do primeiro
disco com os Irmãos do Blues. “Meu encanto por você cresce a cada encontro. Agora eu vejo teu rosto,
agora eu acho você cada vez mais bonito”. Mas ela também sentia “culpa”. “As pessoas querem ser livres
e se aprisionam cada vez mais. Por quê?”
Um dia Beatriz decidiu morar na Espanha, no final de 1994. Porém, seguia mandando cartas
apaixonadas na era pré-internet. Endereçadas apenas a “Marcos”. Do tipo “Como é bom pensar em você”.
“Eu te adoro cada vez mais. Estou morrendo de saudade de ter você por inteiro. No meu sonho, você vem
me visitar [em Barcelona]”. “Você é meu companheiro das verdades, meu amor verdadeiro”. “Você é muito
mais que esse estereótipo de machão”. “Tu és gentil, amável, agradável, criancinha, lindo, frágil,
romântico, amoroso, perfumado”... “Eu quero te amar para sempre. Quero seu perfume guardado em meus
pulmões”. ”Como é bom te beijar com maciez, sem pressa, sem culpa”. “Você é meu príncipe dos
pecados”. “Por que é tão proibido sonhar? Que Deus é esse que nos sacrifica tanto”. “Por que sofro se
posso ser tão feliz amando e sendo amada por alguém que me diz palavras tão lindas, alguém que me
conta ao telefone e me faz feliz com apenas alguns minutos de verdades”. “Te amo todos os meus dias,
todos os meus instantes e te quero puro e desarmando quando voltar [ao Brasil]. Te quero ´virgem´ e
sincero”. “Eu quero te amar para sempre, nem que seja por algumas horas. Que o mundo me leve, mas
não quero ir sem antes te dar todo meu amor”.
Nasi-Marcos respondia. E ela se derretia com as cartas que ele enviava. “Você é meu companheiro
das verdades, que me diz palavras lindas e me faz sentir plena”. Beatriz ligava muito a cobrar na época
pré-celular. Normalmente de madrugada em Madri ou Barcelona. Foram meses de contas pesadas pagas
por Nasi até ela sumir do mapa e do telefone. Beatriz se comprometera a pagar as ligações a cobrar. Ele
disse que eles poderiam rachar as contas no futuro. Mas ela sumiu no mapa e no telefone.
Nasi: Eu agora a procurava para a gente tentar dar um jeito naquelas contas telefônicas. Eu estava
mal de grana. Eram contas pesadas. Eu deixava recado para ela e nada. Até carta mandei. Nada. Um dia
consegui a achar no bar onde trabalhava na Espanha. Disse que precisávamos acertar as contas. Ela nem
aí. Pediu para falar com a mãe dela. Fiquei mais puto. A Bia sempre me perguntava quem era o “Gangster
do Amor”. Então eu disse que ela iria saber quem era esse mafioso. E os pais dela também iriam saber.
Fiquei louco.
Edgard, mais ainda. Dias depois o guitarrista ligou para o vocalista. Seco, perguntou quanto Beatriz
devia em telefonemas. Nasi, sem gaguejar, falou quanto era. Na maior tranquilidade, Edgard disse que ele
mesmo pagava a conta. E só pedia para o amigo não ligar mais para Beatriz na Espanha.
Nasi: Aí eu realmente fiquei puto com a Bia. Sempre tive uma relação de freio de mão puxado por
motivos óbvios. Mas daí eu perdi o freio. Foi a primeira das muitas vezes que me arrependeria de deixar
certos recados nas caixas postais telefônicas... Disse a Beatriz para ela se ligar, que eu tinha todas as
cartas de amor dela para mim, para ela ver o que havia falado para o Edgard...
O guitarrista ligou uma segunda vez logo em seguida. O tom era outro. Xingou Nasi. Falou que iria
pegá-lo na casa dele. Iria quebrar a cara do vocalista. Que iria deixar a banda. Não tocaria mais com o examigo. O empresário lembra o que teve de fazer para segurar as pontas e o guitarrista:
Junior: O Edgard me ligou e disse que a banda acabara. Ele faria os shows que já estavam
contratados até o final do primeiro semestre de 1995. Mas não iria logo depois para o Japão. Era a
décima-quinta vez que eu ouvia aquele papo. Era o 15º fim do Ira!. Mas desta vez não era fácil administrar.
Chamei então o André para irmos conversar com o Edgard. Depois de três horas conseguimos convencêlo a viajar.
Nasi: Avisei ao Edgard que ele deveria pensar bem no que estava fazendo ao deixar a banda. Que
em relação à ameaça física que me fizera, que, pois bem, sabia onde me encontar. Tentei argumentar que
havia sido ela a me procurar primeiro. Mas o Edgard disse que não seria possível, que ela não gostava de
um homem com tantas banhas como eu... De fato, eu estava pesado naquele tempo.
O clima na banda ficou ainda mais pesado. Dois shows em seguida foram horríveis.
Nasi: Pensava que não poderia nem virar de costas para o Edgard com medo de ser esfaqueado,
de levar uma guitarra na cabeça.
As coisas foram (bem) aos poucos normalizando. Na excursão ao Japão, logo depois, em agosto
de 1995, o ambiente ainda não era legal. Se Nasi estivesse andando em uma calçada, Edgard tinha de
cruzar a rua e andar na outra.
Junior: Mas as coisas foram se ajeitando lá mesmo. Rolou uma vibe ótima. Mesmo com o Nasi
sendo parado e revistado toda vez nos aeroportos japoneses. Acho que eles viam a gente com aquelas
roupas, caras e instrumentos de roqueiros. Mas só o Nasi era parado pelas autoridades. Foi assim em seis
aeroportos. Já na quarta vez ele se apresentava espontaneamente para a revista.
A banda lucrou muito com os shows no Japão. Também pelo que eles achavam nas latas de lixo:
Junior: Era uma coisa louca. A gente parecia mendigo mexendo no lixo. O pessoal encontrou rádio,
um monte de coisa legal. O Nasi achou até um taco de beisebol... Foi um clima muito divertido. Ajudou um
pouco na reaproximação entre eles. Nunca mais foi a mesma coisa. Mas deixou de ser aquela
animosidade tão forte.
Nasi: Anos depois tentei falar melhor com ele a respeito da Beatriz, mas não deu certo. Isso
acabaria minando a banda. Poderíamos ter superado isso, mas não deu.
A pior fase passou. Curou. Ou parecia ter curado. A banda se manteve e voltou a acertar o som e o
tom. Um bom disco foi 7, de 1996. Com a faixa de Edgard Scandurra “O Girassol”. Cantada por ele. Letra
inspirada em Beatriz. “Sou agora um frágil cristal / Um pobre diabo / Que não sabe esquecer / Que não
sabe esquecer.”
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