INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO E TRABALHO DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM EDUCAÇÃO ÁREA DE ESPECIALIZAÇÃO DE ADMINISTRAÇÃO EDUCACIONAL O Director de Turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico Dissertação orientada por: Professora Doutora Maria Manuela Nogueira Pinto Teixeira Maria Celeste Cardoso de Oliveira Porto, Abril de 2010 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 2 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Resumo O director de turma ocupa uma posição importante nas estruturas de coordenação educativa da escola, desdobrando a sua intervenção numa diversidade de funções. O cargo de director de turma assume uma particular relevância no que diz respeito ao acompanhamento do processo educativo das crianças e adolescentes que frequentam as escolas portuguesas do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico, pelo que se procurou responder à seguinte questão: “Que representações é que os alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico têm do seu director de turma e das funções que ele desempenha?”. A fundamentação teórica reporta-se, fundamentalmente, à socialização escolar e às representações sociais; à relação escola - família; às competências legais atribuídas aos directores de turma, bem como às funções do director de turma numa perspectiva sociológica e, ainda, considerando o director de turma um líder pedagógico intermédio, foca a importância das lideranças educativas e procura traçar um perfil de competências básicas desejável para o director de turma. O trabalho de terreno teve como base um questionário, aplicado à totalidade dos alunos do 2.º e 3.ºciclos que em Fevereiro de 2009 frequentavam as escolas do Concelho de Condeixa-a-Nova. Entre outras conclusões, as respostas obtidas apontam no sentido da maioria dos alunos assumir globalmente como muito ou muitíssimo importantes as funções do director de turma e considerar que o seu director de turma: - se relaciona positivamente com os outros professores da turma, com os pais/encarregados de educação, com a turma, com eles próprios e com os auxiliares de acção educativa; - se interessa pelas suas dificuldades, que ajuda a resolver os problemas da turma com os professores e que ajuda mesmo quando os alunos fazem “asneiras”; - exerce uma liderança democrática, pois ouve os alunos e negoceia soluções para os problemas que vão surgindo com a turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 3 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Abstract O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 4 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Agradecimentos Sendo sempre difícil a tarefa de um agradecimento quando se sente que esta corre o risco de conter muitas omissões devo, no entanto, deixar aqui expresso o meu reconhecimento a todos os amigos e familiares que, embora não nomeados, me ajudaram ou incentivaram por variadas formas. Em primeiro lugar, agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Maria Manuela Teixeira pela sua amabilidade, compreensão, profissionalismo, disponibilidade e por todo o apoio prestado. Aos professores e colegas do Mestrado em Educação na área de especialização de Administração Educacional do Curso de Especialização em Administração Escolar, pelo apoio que sempre mostraram. A todos aqueles que colaboraram na investigação empírica respondendo às questões colocadas no questionário, e aos que contribuíram emprestando bibliografia ou simplesmente encorajando. Aos meus pais, Leonel e Leopoldina, por tudo. Ao meu marido, Luís, pela compreensão, apoio e carinho prestado. E finalmente aos meus filhos, Inês e Pedro, pelo tempo que lhes roubei e pelo amor demonstrado. A todos, muito obrigada! Maria Celeste Cardoso de Oliveira O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 5 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Índice Resumo ..............................................................................................................................2 Abstract..............................................................................................................................3 Agradecimentos .................................................................................................................4 Índice ................................................................................................................................5 Introdução ..........................................................................................................................8 1. Problemas centrais do estudo ................................................................................11 2. Objectivos do estudo ...............................................................................................11 3. Organização do trabalho .........................................................................................12 4. Limites da investigação ...........................................................................................12 Capítulo I .........................................................................................................................14 Socialização escolar e representações sociais .......................................................14 Introdução ........................................................................................................................14 1. Socialização escolar.....................................................................................................15 1.1 A relação escola - família .................................................................................. 17 1.1.1 Benefícios de uma boa relação entre a escola e a família ............................. 19 1.1.2 Alguns obstáculos a uma boa relação entre a escola e a família ................... 21 1.1.3 O papel do aluno na comunicação entre a escola e a família ........................ 22 2. Representações sociais ................................................................................................23 3. Efeitos da socialização escolar nas representações sobre a escola ..............................26 3.1 Socialização escolar e homogeneização de grupos .............................................. 26 3.2 Socialização escolar e auto-imagem ..................................................................... 28 3.3 Socialização escolar e construção da imagem do professor ................................. 29 Conclusões ....................................................................................................................31 Capítulo II .......................................................................................................................32 As funções do director de turma do 2º e 3ºciclos do ensino básico .....................32 I - Quadro Normativo e Sociológico ...............................................................................33 1. O Conceito de função ..................................................................................................33 2. As funções do Director de turma: enquadramento legislativo ....................................34 2.1 O Mandato e o contrato dos professores....................................................... 34 2.2 As funções do director de turma: percurso histórico ............................................ 37 2.2.1 A evolução do cargo de director de turma até à Lei 46/86, de 14 de Outubro ................................................................................................................................ 37 2.2.2 O cargo do director de turma no âmbito do processo de democratização da administração da escola .......................................................................................... 43 2.2.3 O cargo do director de turma no início do século XXI ................................. 50 3. As funções do director de turma, numa perspectiva sociológica ................................60 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 6 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.1 O director de turma na relação com os alunos - função de promoção.................. 61 3.2 O director de turma na relação com os outros professores - função de cooperação .................................................................................................................................... 63 3.3 O director de turma na relação com os pais dos alunos - função de complementaridade ..................................................................................................... 66 3.4 O director de turma na relação com os outros profissionais da educação - função de descoberta .............................................................................................................. 68 II- Lideranças educacionais. O caso do director de turma .....................................70 1. Teorias sobre estilos de liderança .........................................................................70 2. O director de turma enquanto líder ..............................................................................72 3. Perfil de director de turma ...........................................................................................75 Conclusões ....................................................................................................................79 Capítulo III ......................................................................................................................81 Apresentação dos resultados do inquérito realizado ..............................................81 Introdução ......................................................................................................................81 1. O instrumento utilizado ...........................................................................................81 2. Características da Amostra ......................................................................................84 3. Funções do director de turma ..................................................................................86 3.1 Importância das funções do director de turma..................................................... 87 3.1.1 Variações do grau de importância atribuída às funções do director de turma segundo as características dos respondentes .......................................................... 87 3.2 Director de turma: instrutor ou educador? ............................................................ 90 3.3 Funções desempenhadas pelo director de turma ............................................... 92 3.3.1 Funções do director de turma: indicadores parcelares................................ 93 3.3.2 Funções do director de turma: indicadores Agregados ................................. 95 3.3.3 Variações das funções do director de turma segundo as características dos respondentes ........................................................................................................... 97 4 Relações estabelecidas entre o director de turma e diferentes actores educativos 104 4.1 Relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos ........ 105 4.1.1 Relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos – indicadores parcelares........................................................................................... 105 4.1.2 Relacionamento entre o director de turma e diferentes interlocutores educativos – indicador agregado .......................................................................... 106 4.1.3 Variações do relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos segundo as características dos respondentes ...................................... 107 4.2 Relações entre o director de turma e os alunos .................................................. 109 4.2.1 Relações entre o director de turma e os alunos: indicadores parcelares ...... 110 4.2.2 Relações entre o director de turma e alunos - indicadores agregados ......... 111 4.2.3 Variações das relações entre o director de turma e os alunos, segundo as características dos respondentes ........................................................................... 112 4.3 Relações entre o director de turma e pais ou encarregados de educação .......... 118 4.3.1 Frequência com que os pais vão à escola para falar com o director de turma .............................................................................................................................. 118 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 7 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 5 4.3.2 Variações da frequência com que os pais vão à escola para falar com o director de turma, segundo as características dos respondentes ........................... 119 4.3.3 Conteúdo e sentido da interacção estabelecida entre director de turma e pais/encarregados de educação ............................................................................. 121 4.3.4 Relações entre director de turma e pais/encarregados de educação ............ 122 4.3.5 O poder da criança enquanto mensageira entre a escola (director de turma) e a família ................................................................................................................... 132 O Director de turma enquanto líder .......................................................................135 5.1 O Director de turma enquanto líder: indicadores parcelares .............................. 135 5.2 Variações dos tipos de liderança do director de turma segundo as características dos respondentes ....................................................................................................... 136 5.2.1 Segundo o género ........................................................................................ 137 5.2.2 Segundo o histórico escolar ......................................................................... 137 5.3 As qualidades mais apreciadas e as características menos desejadas do director de turma ......................................................................................................................... 137 5.3.1 Características/qualidades que um bom director de turma deve possuir ..... 138 5.3.2 Características/defeitos que um director de turma não deve possuir .......... 139 Conclusão ................................................................................................................. 140 Conclusão ......................................................................................................................145 Bibliografia .................................................................................................................149 Anexos ...........................................................................................................................157 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 8 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Introdução Na Declaração Universal dos Direitos do Homem a educação é mencionada como um dos ideais a atingir por todos os povos e todas as nações. No artigo 26º é afirmado que “toda a pessoa tem direito à educação”1 e que “a educação deve visar à plena expansão da personalidade humana”2 . Dias (2000, p.9) refere que “…educar não consiste primordialmente em ensinar ou mesmo em formar, mas em contribuir para criar condições para que todos os seres humanos, a começar por cada um de nós, se desenvolvam em todas as suas capacidades, cresçam, sejam, até à sua plena realização”. Neste contexto, compreende-se a educação como um processo de desenvolvimento integral do ser humano, em todas as fases da sua vida. No ponto 3 do artigo 26º da Declaração Universal dos Direitos do Homem é afirmado que “aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos seus filhos” e no preâmbulo da Convenção dos Direitos da Criança é dito que “…a família, elemento natural e fundamental da sociedade e meio natural para o crescimento de todos os seus membros, e em particular das crianças, deve receber a protecção e a assistência necessárias para desempenhar plenamente o seu papel na comunidade” 3. Neste âmbito, também na Constituição da República Portuguesa4 é referido que “os pais têm o direito e o dever de educação e manutenção dos filhos”5 e que ao Estado incumbe “cooperar com os pais na educação dos filhos”6. 1 Ponto 1 do artigo n.º26 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948. 2 Ponto 2 do artigo n.º26 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948. 3 A Convenção dos Direitos da Criança foi adoptada pela Assembleia Geral nas Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990. 4 Saliente-se que o artigo 16.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa determina que «os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem». 5 Ponto 5 do artigo n.º36 da Constituição da República Portuguesa. 6 Alínea c) do artigo 67º da Constituição da República Portuguesa. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 9 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Assim, em termos naturais e constitucionais, a família é a instituição primeiramente responsável pela educação das gerações mais jovens. No entanto, assiste-se, hoje, na Sociedade Portuguesa a um elevado grau de desagregação da família tradicional, à criação de novas fórmulas familiares, ao acesso ao trabalho remunerado por parte das mulheres, à restrição do tempo para cuidar dos filhos, ao distanciamento e até alheamento dos pais em relação à educação dos filhos, o que, na maioria das vezes, tem origem numa excessiva absorção profissional ou, em contraponto, na instabilidade emocional das famílias face ao desemprego que assume proporções alarmantes. Cabe, pois, à escola - “…quadro que a sociedade actual organiza para facilitar o acesso a uma participação plena na sociedade” (Alves-Pinto, 2008, p.25) -, colmatar este défice educacional, ao que, aliás, corresponde o alargamento dos objectivos da escola e das funções atribuídas aos professores (cf. Teixeira, 1995, pp. 37-44 e pp. 94-109) Na escola, a cada turma está associada um conjunto de professores, a quem são atribuídas as tarefas de instruir e educar, tendo em conta as características específicas daquele grupo de alunos: contexto familiar; acompanhamento familiar da vida escolar; percurso escolar; comportamento; ritmos de aprendizagem; dificuldades e potencialidades dos discentes, etc., pelo que o Conselho de turma, enquanto estrutura pedagógica de gestão intermédia, é um órgão fundamental na organização do processo de ensinoaprendizagem. O conselho de turma é coordenado por um professor, o director de turma, a quem são atribuídas diversas competências: ”O director de turma (…) enquanto coordenador do plano de trabalho da turma, é particularmente responsável pela adopção de medidas tendentes à melhoria das condições de aprendizagem e à promoção de um bom ambiente educativo, competindo-lhe articular a intervenção dos professores da turma e dos pais e encarregados de educação e colaborar com estes no sentido de prevenir e resolver problemas comportamentais ou de aprendizagem”7. O cargo de director de turma assume uma particular relevância no que diz respeito ao acompanhamento do processo educativo das crianças e adolescentes que frequentam as nossas escolas do 2.º e 3.ºciclos do ensino 7 Ponto 2 do artigo 5º da Lei nº 30/2002, de 20 de Dezembro. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 10 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ básico, especialmente quando nos anos iniciais de ciclo (5º ou 7ºanos de escolaridade), são, em muitos casos, obrigados a transitar de uma escola para outra, certamente com um cenário diferente daquele a que estavam acostumados. Habitualmente, a integração destes alunos fica por conta do director de turma e a importância atribuída pelos alunos ao professor do 1ºCiclo passa para o director de turma. Por outro lado, a facilidade do estabelecimento de relações entre os pais e o professor que se verifica no 1º Ciclo, em que cada turma tem apenas um professor, perde-se com a entrada no 2º Ciclo, em que cada aluno tem muitos professores, funcionando o director de turma como uma ponte entre a escola e a família. Na generalidade das escolas espera-se que o director de turma seja um professor dinamizador de projectos, coordenador de uma equipa de trabalho, relações públicas, mediador de conflitos, etc. Refira-se, no entanto, que o estatuto sócio-profissional dos titulares do cargo não tem sido devidamente valorizado. De facto, de acordo com o enquadramento jurídico normativo, ao director de turma não é exigida preparação profissional específica e, no novo Estatuto da Carreira Docente, o cargo de director de turma é o único de coordenação para o qual não é necessário, no Estatuto da carreira docente de 2008, ser-se professor titular8, categoria introduzida com essa alteração estatutária. Assim, face aos pressupostos, parece-nos legítimo equacionar a nossa pergunta de partida: Que representações é que os alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico têm do seu director de turma e das funções que ele desempenha? 8 Esta categoria cairá nos termos de um acordo firmado entre o Ministério da Educação e os Sindicatos de Professores, mas tal acordo não foi ainda transformado em lei no momento em que concluímos esta dissertação. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 11 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 1. Problemas centrais do estudo Dentro da ampla problemática da direcção de turma no 2.º e 3.ºciclos do ensino básico e de acordo com a nossa pergunta de partida, passamos a enunciar os problemas centrais deste estudo: - Os alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico vêm o seu director de turma como instrutor ou como educador? - Que representações é que os alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico têm das funções desempenhadas pelos directores de turma? - Que opinião têm os alunos dos 2º e 3º ciclos do ensino básico sobre as relações interpessoais estabelecidas entre o director de turma e diferentes interlocutores educativos? - Que representações é que alunos do 2º e 3º ciclos do ensino básico têm do seu director de turma, enquanto líder? 2. Objectivos do estudo De acordo com a nossa pergunta de partida e perante os problemas identificados, definimos, como principais objectivos a perseguir, os seguintes: Conhecer a representação que os alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico têm do seu director de turma, enquanto instrutor ou educador; Conhecer a percepção dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico sobre as funções desempenhadas pelos directores de turma; Conhecer a opinião dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico sobre as relações que se estabelecem entre o director de turma e diferentes interlocutores educativos; Conhecer as representações que os alunos do 2º e 3ºciclos do ensino básico têm do seu director de turma, enquanto líder. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 12 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3. Organização do trabalho A apresentação do nosso estudo está organizada em três capítulos. No primeiro capítulo clarificamos os conceitos de socialização escolar e de representações sociais e fazemos uma breve reflexão sobre os efeitos da socialização escolar nas representações que os alunos vão construindo acerca da escola e dos professores ao longo do seu percurso escolar. Tecemos ainda algumas considerações gerais sobre a colaboração entre a escola e a família e analisamos os benefícios e os obstáculos que se colocam a essa colaboração, bem como o papel do aluno na comunicação entre a escola e a família. No segundo capítulo estudamos as funções do director de turma nas escolas do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico. Abordamos as competências legais atribuídas ao professor na Lei de Bases do Sistema Educativo e no Estatuto da carreira docente, seguida de uma análise diacrónica da legislação que se refere às funções do director de turma, acompanhando a evolução do sistema educativo, desde a criação do cargo de director de turma até aos nossos dias. Estudamos ainda as funções do director de turma numa perspectiva sociológica. De seguida, considerando o director de turma um líder pedagógico intermédio, focamos a importância das lideranças educativas e procuramos traçar um perfil de competências básicas desejável para um director de turma. No terceiro capítulo apresentamos os resultados do inquérito realizado, assim como o seu tratamento e análise, recolhidos em duas escolas do Concelho de Condeixa-a-Nova. 4. Limites da investigação Ao finalizarmos esta breve introdução, não podemos deixar de referir alguns dos limites deste estudo de que temos consciência Um primeiro limite está relacionado com a pesquisa bibliográfica. Face à complexidade da temática em estudo, sentimo-nos insatisfeitos por não poder O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 13 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ alargar mais o âmbito das leituras, por escassez de tempo e por razões que não consideramos necessário explicitar. Um segundo limite prende-se com a amostra utilizada no estudo, que, não é representativa do universo dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico já que foi restringida aos que estudavam no ano lectivo de 2008/09 no Concelho de Condeixa-a-Nova. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 14 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Capítulo I Socialização escolar e representações sociais Introdução Todas as pessoas diferem na maneira de perceber, pensar e agir. No entanto, ninguém nasce com impressões, expectativas ou atitudes. É em interacção com os outros que a pessoa se vai desenvolvendo e assimilando a cultura ao mesmo tempo que perpetua a sociedade. Este processo de desenvolvimento, de socialização, permanece ao longo de todo o ciclo vital. Com a entrada na escola, a criança vê-se confrontada com vários tipos de actores: os professores, os colegas e os auxiliares de acção educativa. Ao comunicar com os outros a criança vai-se adaptando à escola, partilhando pensamentos, saberes, ideias, emoções, imagens e atitudes, ou seja, vai construindo, em grupo, um alargado conjunto comum de representações acerca das coisas mais variadas (escola, professores, regras comportamentais, amizade, …). O nosso objectivo, neste capítulo é uma breve reflexão sobre os efeitos da socialização escolar nas representações que os alunos vão construindo. Vamos clarificar os conceitos de socialização escolar e de representações sociais, bem como tecer ainda algumas considerações sobre a colaboração entre a escola e a família. Finalmente, abordaremos a problemática mencionando os resultados de alguns estudos. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 15 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 1. Socialização escolar O homem não é uma entidade isolada, vive em sociedade. Uma sociedade que o determina mas que também é condicionada por ele. Viver em sociedade implica manter com os semelhantes um conjunto complexo de relações e cooperar com eles para que a sociedade tenha continuidade e funcione bem. Refira-se que “a socialização corresponde à participação progressiva da pessoa no “jogo de trocas” complexas que fazem a sociedade existir, e particularmente nos sistemas de interacção de que a pessoa participa. Nesta interpretação, o processo de socialização tem de ser perspectivado em relação àquilo a que o ser humano atribui significado” (Alves-Pinto, 2001, p. 22). Durante a infância, por influência privilegiada da família, decorre o processo de socialização primária, em que a criança em interacção com os adultos encarregues da sua socialização, vai interiorizando um conjunto de hábitos necessários para uma adaptação a situações diversas da vida quotidiana. Segundo Alves-Pinto (1995, p.122) “ o que é específico da socialização primária é a criança estar profundamente tributária do mundo dos adultos responsáveis pela sua socialização e da definição que os outros significativos dão das situações”. Após a socialização primária, a socialização escolar é a primeira socialização secundária, que vai evoluindo desde o início do 1ºciclo até ao final do ensino superior, passando pelo secundário. A socialização secundária é a “interiorização de submundos institucionais ou baseados em instituições” (ibid, p.123). Refira-se que a socialização secundária não se esgota na socialização escolar, comporta também a socialização profissional que, por sua vez integra várias etapas. A evolução da sociedade tem vindo a exigir progressivamente um aumento da qualificação académica e profissional, o que tem implicado sucessivos prolongamentos da escolaridade obrigatória. No fim da década de 60, ao ensino obrigatório de quatro anos, sucedeu-se o de seis (Decreto Lei n.º 45 810 de 9/7/64). A escolaridade obrigatória passou a nove anos no início da década de 90 (Lei nº46/86, de 14 de Agosto) e a doze anos recentemente (Lei O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 16 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ n.º 85/2009, de 27 de Agosto), pelo que importa reflectir sobre os seus objectivos. A Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei nº 46/86, de 14 de Outubro) define instruir, educar e intervir no meio como os objectivos da escola básica e secundária. Segundo Teixeira (1995, pp. 37- 43), a escola: - instrui quando ministra conhecimentos e promove a formação intelectual dos alunos; - educa quando promove a formação integral do aluno; fomenta nos alunos o interesse pelas manifestações culturais e promove aptidões nas áreas artísticas; desenvolve atitudes de cooperação, de participação, de intervenção cívica; promove a capacidade de trabalho individual e em grupo e desenvolve nos alunos um sentimento positivo face ao trabalho, bem como quando apoia os jovens na escolha do seu futuro profissional; - intervêm no meio por acção directa; por acção dos professores no meio e mediante a formação dada aos alunos. A autora acrescenta ainda que o objectivo de educar é o que aparece mais frequentemente na Lei nº 46/86, de 14 de Outubro. Os objectivos de instruir e de intervir no meio aparecem em percentagens muito próximas, embora o último seja mais frequente que o primeiro. Assim, com a Reforma do Sistema Educativo, que se seguiu à promulgação da Lei de Bases do Sistema Educativo, a escola deixou de ser apenas um local de transmissão de conhecimentos, para passar a ser reconhecida como centro de desenvolvimento das capacidades e aptidões de autonomia pessoal, cidadania e solidariedade (Lei n.º 46/86, artigo 7.º), por isso, “a socialização escolar caracteriza-se por uma grande complexidade que decorre de múltiplos aspectos nomeadamente da diversidade de tempos e contextos em que acontece” (Alves-Pinto, 2008, p.26). Cada vez é mais longo o tempo que crianças e adolescentes permanecem na escola. A escola continua a exercer uma grande influência nos jovens, dela dependendo grande parte do seu sucesso pessoal, social e profissional quando adultos, uma vez que “neste tempo, espaço e sistema de interacção, cada jovem vive progressos específicos de socialização e O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 17 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ construção de imagens de si próprios, da escola e da sua forma de estar na escola” (Alves-Pinto, 1995, p.142). Para compreender as necessidades únicas de um aluno no seu todo, o professor precisa de ter consciência e de ser sensível às influências ecológicas inerentes aos contextos da sociedade em geral e da casa-escola - comunidade em particular em que funciona cada aluno visto que ”O aluno transporta consigo o seu contexto de vida através das suas representações, modalidades de interacção e referenciais da atribuição de sentido à sua experiência na escola” (ibid, p. 29). Este conhecimento obtém-se pela formação profissional (inicial e permanente), pela observação e análise dos comportamentos dos alunos, pela comunicação empática com os alunos e com os pais e pela cooperação com os colegas professores. Ao tentarem compreender os comportamentos dos alunos e os factores que afectam esses comportamentos, os professores poderão tomar decisões baseadas no conhecimento, de forma a fornecerem experiências educativas adequadas a cada aluno (Heck e Williams, 1984, pp. 51-71). 1.1 A relação escola - família O investimento das famílias na carreira escolar dos filhos evoluiu no sentido de uma intensificação da procura de diplomas de nível mais elevado. As famílias estão interessadas em mandar os filhos estudar e a escola torna-se cada vez mais central nas interacções familiares quotidianas. No entanto, numa sociedade heterogénea como a nossa coexistem diferentes tipologias de família. A família tradicional composta pelos pais biológicos e pelos filhos, com a mãe a trabalhar em casa, assume hoje novos modelos familiares, como as de tipo monoparental, as resultantes de segundos casamentos, entre outros. A mulher vem também assumindo novas responsabilidades sociais, limitando, em consequência, a sua disponibilidade para apoiar os filhos nas tarefas escolares. Perrenoud (2001) oferece uma descrição detalhada das formas com que a escola interfere na vida quotidiana da família contemporânea. Também Alves- O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 18 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Pinto (1995), reflectindo sobre a fronteira da escola, chama a atenção para o facto da escola pública portuguesa ter integrado os pais e familiares dos alunos no sistema organizacional da escola – explicitamente (assento em alguns nos órgãos de escola) ou implicitamente (ajuda nos trabalhos escolares, por exemplo). Saliente-se que a participação dos pais na vida escolar dos seus filhos está devidamente acautelada na Lei de Bases do Sistema Educativo 9. Essa participação pode verificar-se ao nível: - Central ou nacional, integrando o Conselho Nacional de Educação, com vista à definição e planeamento de orientações gerais sobre a política educativa. - Institucional ou da administração da educação, correspondente a órgãos e serviços centrais e regionais do Ministério da Educação, com atribuição de participação no processo de elaboração de legislação sobre educação e ensino. A representação nos órgãos centrais é feita pela Confederação das Associações de pais e nos órgãos regionais pela Federação. - Local ou do estabelecimento de ensino onde os pais podem participar e intervir directamente ou através dos seus representantes. Família e a escola têm, por vezes, concepções diferentes da criança e, por isso, ”para compreender a criança importa, pois, que professores e pais dialoguem e partilhem” (Teixeira, o.c., p.115). De facto, “Um dos problemas que está na base do insucesso escolar de muitas crianças é a descontinuidade entre a escola e a família. Quando não há comunicação entre estas duas partes fundamentais do mundo do aluno, quando a escola e a família estão de 9 « O sistema educativo deve ser dotado de estruturas administrativas de âmbito nacional, regional autónomo, regional e local, que assegurem a sua interligação com a comunidade mediante adequados graus de participação dos professores, dos alunos, das famílias, das autarquias, de entidades representativas das actividades sociais e culturais e ainda de instituições de carácter científico » (artigo 43º, ponto 2). « Em cada estabelecimento de ensino ou grupo de estabelecimentos de educação e ensino a administração e gestão orientam-se princípios de democraticidade e de participação de todos os implicados no processo educativo ...» (artigo 45º, ponto 2). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 19 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ costas voltadas, quando a escola não valoriza nem respeita a cultura da família e da comunidade dos alunos, está aberto o caminho para o falhanço e o abandono escolar” (Marques, 1997, p.10). É fundamental que haja um entendimento entre estes dois “mundos” para que a criança possa conciliar os dois universos por ela coabitados, caso contrário, o go-between10 (criança -aluno que “veste” alternadamente o papel de filho e de aluno) pode ver-se obrigado a desempenhar papéis contraditórios, em casa ou na escola. Refira-se que “a dupla pertença do go-between só constitui um problema se parecer ameaçar ou servir os interesses dos grupos em causa” (Perrenoud, o.c., p. 31). Alves-Pinto (2003, p.43) chama a atenção para o facto dos problemas de articulação entre a socialização familiar e a socialização escolar poderem levantar questões à criança, ao tornar-se aluno, ao nível da descodificação da linguagem simbólica do universo escolar, relativas à não adesão ao universo escolar e relacionadas com a coexistência de contraditórios referenciais educativos (familiares e escolares). 1.1.1 Benefícios de uma boa relação entre a escola e a família Vários autores referem que a colaboração entre a escola e as famílias tem efeitos positivos não só para os alunos, mas também para os pais e para os professores. Heck e Williams (o.c., p.30) salientam que a investigação tem mostrado que uma boa relação escola/família tem vantagens: - para o aluno (os níveis de Quociente de Inteligência dos alunos, os níveis de aquisição verbal, os hábitos de estudo e sociais, as perícias visuais e de tacto e a frequência escolar sobem); - para os pais (melhoria da própria imagem e da sua confiança em si mesmos enquanto pais; bem como o desenvolvimento, da parte dos 10 Conferir artigo PERRENOUD, P (2001), “ Entre a família e a escola, a criança mensageira e mensagem. O go-beteween” In MONTANDON, C. e PERRENOUD, Entre Pais e Professores, um Diálogo Impossível?, Oeiras, Celta Editora. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 20 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ professores, de uma maior empatia e maior apreço pelas dificuldades que os pais têm na educação dos filhos); - para os professores (os pais desenvolvem uma melhor compreensão e apreço pela função dos professores). Marques (o.c., p. 12) refere que o envolvimento dos pais no processo educativo dos filhos está ligado ao desenvolvimento da criança e do adolescente e ao sucesso escolar do aluno, contribuindo também para o desenvolvimento dos próprios pais, enquanto cidadãos e educadores, bem como pode trazer ainda benefícios para as escolas, ao nível da aproximação às comunidades e tornar mais agradável e mais leve o trabalho dos professores. A participação dos pais na vida das escolas pode ainda contribuir para “defender a importância do ensino público e dos investimentos na Educação”, além ser uma forma de educar para a cidadania e de exercer a democracia. 11 Davies (2003, pp. 77-79), conclui que: - “as famílias contribuem positivamente para o sucesso do aluno desde o pré-escolar até à universidade”; - “as oportunidades de sucesso, na escola, das crianças e a sua própria vida têm boas possibilidades de melhorarem quando as famílias, as escolas e comunidades colaborarem de muito perto”; - “quando os pais estão envolvidos na escola, esta, enquanto todo, melhora”; - “as crianças têm melhores resultados quando os pais desempenham uma maior variedade de papéis na sua aprendizagem”; - “as comunidades contribuem para o sucesso dos alunos”; -“a colaboração ajuda a desenvolver atitudes mais positivas acerca dos pais e dos alunos”. 11 Davies e Epstein distinguem envolvimento parental de participação dos pais nas escolas. O envolvimento parental refere-se a todas as formas de colaboração dos pais no processo educativo dos filhos: ajuda nos trabalhos de casa, trabalho voluntário na escola e comunicação com os professores. A participação dos pais na escola contempla apenas as formas mais actuantes de colaboração dos pais nas escolas: participação e a influência na tomada de decisões. (cf. Silva, 1993, p.81). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 21 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Por todos os motivos supra-citados, parece-nos importante realçar que escola e família devem olhar-se mutuamente como verdadeiros parceiros, na educação das crianças. 1.1.2 Alguns obstáculos a uma boa relação entre a escola e a família A escola afecta a vida da família e, especialmente, em períodos de mudança e inovação “exige aos pais um verdadeiro processo de socialização relativamente aos seus papéis e à sua intervenção no processo educativo dos seus filhos” (Alves – Pinto, 1995, p. 114). Segundo Musitu (2003, pp.158-161) as dificuldades de relacionamento entre pais e professores podem classificar-se em quatro grandes blocos: - filosóficas: existem profissionais que não concordam com a participação activa dos pais na escola e, por seu lado, pais que consideram que lhes pertencem a eles algumas das funções desempenhadas pela escola; -de comportamento: as relações positivas entre a família e a escola dependem de três aspectos: territorialidade, confiança na própria competência e conflito de valores. Os conflitos entre a escola e a família surgem, algumas vezes, pelo facto de existirem pais e professores que receiam a “intromissão do outro” no seu território e que tendem a considerar o seu próprio grupo mais competente do que o outro. - problemas lógicos: a escola não dispor de meios suficientes para responder a todos os problemas que vão surgindo; de comunicação em situação de crise; situações em que os pais têm de pedir dispensas no trabalho para ir á escola etc; - deficiente capacitação: falta de conhecimentos e competências em técnicas de comunicação. Muitos pais não entendem o que a escola espera dos seus filhos e deles próprios (Alves – Pinto, o.c., p 114); para outros a ida à escola é sinal de que “há problemas” (Sá, 1997, p. 124); para alguns a escola pode recordar os seus próprios fracassos e os seus próprios conflitos com professores; outros O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 22 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ afastam-se por não compreenderem a linguagem utilizada pela escola, e outros têm medo de serem rejeitados (Heck e Williams, o.c., p 36). 1.1.3 O papel do aluno na comunicação entre a escola e a família . Perrenound (2001, p.29) salienta o facto de existir sempre comunicação entre a escola e a família. Mesmo quando esta parece estar perto do “grau zero”, tal não passa de uma ilusão, “porque os contactos directos não são senão a parte mais visível das relações entre os pais e a escola” , porque uma significativa parte da comunicação se estabelece através da criança que é, em si mesmo, simultaneamente mensageira e uma mensagem ”que exprime, muitas vezes sem o saber, o seu meio familiar ou o seu meio escolar”(ibid, p.34). Perrenoud (2001, p.31) atribui às crianças e aos adolescentes que frequentam as escolas a designação de go-between – a criança entre os mundos familiar e escolar. Umas vezes vestindo o papel de filho, outras de aluno, a criança-aluno, vai transmitindo informações à escola daquilo que acontece na família e à família o que acontece na escola, às vezes sem disso ter consciência e até mesmo contra a sua vontade. Na condição de mensageiro, o go-between pode ainda controlar a comunicação em seu proveito porque “como mensageira, a criança não está destituída de poder” (p.37): pode alterar as mensagens (pode falsificar os recados, não os entregar ou atrasar-se a entregá-los, fazendo-os perder toda a sua actualidade); influenciar a interpretação de uma mensagem, comentando-a à sua maneira ou participar na sua redacção. No caso de a mensagem ser oral, a influência da criança ainda é maior: pode esquecer-se de a transmitir; censurar ou alterar deliberadamente o seu conteúdo. Guedes (2003, p.109) salienta que ”os “gobetween” ensaiam, perante os dois planetas [escola e casa], estratégias divergentes que vão desde o “cessar – fogo” ou à “declaração de guerra”, num verdadeiro jogo de diplomacia entre exércitos por vezes desavindos, consoante a defesa dos seus interesses”. Evidencia-se, então, a importância do papel do go-between para o sucesso ou insucesso das relações entre a escola e a família. Com efeito “ Se O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 23 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ os dois grupos mantêm relações de cooperação, o go-between pode tornar-se um “agente de ligação”, uma espécie de traço de união valorizado: ele simboliza uma aproximação, através da qual se estabelecem trocas que beneficiam os dois grupos. Em caso de conflito, rapidamente suspeito de ser um ”agente duplo”, o go-between será instado a tomar partido, a dar garantias de lealdade às duas partes” (Perrenoud, o.c., p. 31). Refira-se que num estudo realizado por Guedes (o.c., p.114 ) a principal fonte informativa na comunicação escola/família para 32% dos pais inquiridos é a criança-aluno, seguida do director de turma (26%), da Caderneta escolar (12,5%). As reuniões de pais, as fichas informativas, a associação de pais, o telefone, os outros pais e outras fontes não especificadas são fontes informativas menos relevantes. Zenha (2006, p.62) refere também que “é fundamental que os professores, particularmente os directores de turma, estejam conscientes dos riscos de distorção das mensagens pelos alunos e do papel positivo que eles podem desempenhar na comunicação entre a escola e a família”, e que desenvolvam estratégias para minimizar os primeiros e promover o segundo. 2. Representações sociais A sociedade é caracterizada por uma certa estabilidade e as relações entre os seus membros são recíprocas e interdependentes. Em todas as sociedades observa-se a formação de grupos como as famílias, as comunidades, as associações, entre outros, constituindo conjuntos de pessoas cujos interesses se identificam em certa medida. As relações estabelecidas num determinado grupo conduzem à partilha, entre os membros do grupo, de representações, de maneiras de perceber e interpretar os objectos com que o grupo interage no seu quotidiano. Esclareça-se que o “termo representação é utilizado em psicologia social para designar o modo de apreensão de um dado objecto social por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos” (Postic, 2007, p.110). Segundo Borges (2008, p.126) “a representação social não é apenas o conjunto das O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 24 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ representações individuais de um dado sujeito ou um conjunto de sujeitos. Ela será um constructo, comum, partilhado por um conjunto de actores que partilham objectivos, valores, experiências através das interacções sociais em que acontece estarem envolvidos”12. Então, como evidencia Borges (o.c., p.146) as representações sociais podem ser entendidas como: - forma de pensamento social na medida os actores constroem as suas representações através do seu sistema cognitivo influenciados pelas interacções sociais estabelecidas entre os elementos do grupo; - um conjunto de conhecimentos ou de saber: atendendo à adesão das pessoas ao grupo, a representação social resulta de uma construção colectiva; de um conjunto de noções, saberes e conhecimentos práticos partilhados e comuns aos elementos do grupo; - uma forma de ver o mundo, imagem ou cultura: as representações são construções complexas que têm em conta os acontecimentos, os contextos mas acima de tudo as leituras que cada um e o próprio grupo faz dos mesmos. Esta forma partilhada de ver o mundo (no sentido lato – planeta, nações ou povos -, ou no sentido restrito - grupo a que cada um pertence) só é possível porque as representações individuais de cada elemento são partilhadas, percebidas pelos outros elementos do grupo e adoptadas pelo grupo como suas; - atitude, emoção ou comportamento: as representações sociais podem ser entendidas como atitudes, emoções ou comportamentos a por em prática pelos elementos de um grupo, que as elabora, as assume e as partilha; 12 Abrunhosa e Leitão (2009, p. 51) referem que segundo Serge Moscovici as representações sociais têm na base da sua constituição dois processos: a objectivação e a ancoragem. A objectivação é “forma como se organizam os elementos da representação e o percurso que efectuam até exprimirem uma realidade pensada que é tida como natural”. A ancoragem é “um processo cognitivo que consiste em recorrer a noções conhecidas para induzir a compreensão de outros conceitos ou outras situações e agir em conformidade com eles”. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 25 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ - relação, comunicação acção ou guia para acção: um acto comunicativo não se limita a transmitir informação mas, simultaneamente, também impõe um comportamento ao destinatário – relação. No relacionamento com os outros, a comunicação (verbal ou não) é constante. E é na interacção com os outros que criamos e transmitimos imagens que poderão ser confirmadas, rejeitadas os desconfirmadas. “É na comunicação que as representações se constroem e se partilham e por isso mesmo se tornam sociais”; - processo ou produto da sua própria construção - as representações sociais geram acções e processos de tomada de decisão – processo ”complexo” que, mesmo quando parece como individual, vive de escolhas individuais, de influências dos outros, do(s) grupo(s) a que o actor pertence e do ambiente que o rodeia. Note-se que as representações sociais não são imutáveis, mas têm um carácter dinâmico e reconstrutivo porque “As representações sociais acontecem, nascem, constroem-se, transformam-se, a toda a hora e a todo o momento. Elas acontecem nas conversas quotidianas, nascem constroem-se e transformam-se por referência aos contextos em que cada sujeito se insere, sejam eles contextos sociais, temporais, culturais, contribuindo assim para o desenvolvimento dos processos que irão propiciar e orientar quer os comportamentos quer as comunicações que se vão estabelecer” (ibid, p.143). Toda a representação social é um “saber prático”, muitas vezes derivado de um “senso comum” mas que permite ao sujeito confrontar-se e interagir com os objectos do seu mundo (cf., Jodelet, 1990, p.361). Este saber é construído pelo indivíduo com base nas dimensões cognitivas, afectivas, emocionais e, por isso, sobre um mesmo objecto, diferentes sujeitos constroem diferentes representações. Assim, sobre a escola, professores, pais e alunos têm representações diferentes e até mesmo dentro de cada um destes grupos sociais há representações diversas. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 26 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3. Efeitos da socialização escolar nas representações sobre a escola Os pais e os professores tomam decisões que afectam as vidas das crianças e são portanto membros activos da equipa educativa. No entanto, não havendo uma clara delimitação de fronteiras sobre as tarefas reservadas à família e à escola, ocorrem muitas vezes algumas tensões entre a família e a escola – o próprio título do livro “Entre Pais e Professores, um Diálogo Impossível?” (Montandon e Perrenoud, 2001) mostra, de certa forma, as dificuldades que podem envolver a relação família/escola. De facto, como já foi referido, por um lado, a escola tendo como objectivo a educação em termos gerais, não se limita às tarefas voltadas para o desenvolvimento intelectual dos alunos, estendendo a sua acção a outros aspectos do processo de desenvolvimento integral do aluno. Por outro lado, a família questiona-se sobre o papel da educação escolar no projecto de vida do seu filho e questiona cada vez mais a escola sobre aspectos de ordem pedagógica e disciplinar. É também chamada a participar cada vez mais na vida escolar do seu educando, seja integrando órgãos de administração ou de apoio, seja no acompanhamento em casa nas tarefas escolares. 3.1 Socialização escolar e homogeneização de grupos Em 1985, foi realizado um estudo sobre a população jovem portuguesa levado a cabo pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento, tendo-se baseado numa amostra de jovens estudantes e não estudantes dos16 aos 25 anos, que permitiu comparar representações e atitudes de jovens, nomeadamente em relação à escola. Alves-Pinto (1995, p.136 -137) sintetiza as conclusões a que chegou na altura e que apontam “para efeitos de escolarização na socialização, nomeadamente nas representações que os jovens revelaram ter da escola”, a saber: - em termos globais, a representação que os jovens têm da escola é diferente , consoante sejam estudantes ou não; 27 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ - na totalidade da amostra, a representação que os jovens revelam ter da escola varia com a sua origem social. No entanto, estudadas em separado a subpopulação de não estudantes e a subpopulação de estudantes, verifica-se que a relação estatisticamente significativa entre origem social e forma de encarar a escola só se verifica para jovens não estudantes. A forma como os jovens estudantes vêem a escola não varia estatisticamente com a origem social; - de entre os jovens com o mesmo nível de habilitações – estudantes ou não no momento em que foram inquiridos -, para um mesmo nível de instrução familiar, tendo em conta o prolongamento da escolarização escolar dos mesmos verifica-se que os alunos que avançaram no percurso escolar (tendo completado o 9º ou 11º de escolaridade) não apresentam formas significativamente diferentes de encarar a escola. Entre os jovens que não completaram o unificado, às variações de origem social correspondem variações na forma de ver a escola. Num estudo realizado por Alves-Pinto e Formosinho (1985), acerca da problemática da construção da identidade do jovem estudante, as autoras verificaram que no que respeita à alienação em contexto escolar, a alienação manifestada pelos alunos não varia nem com o nível de rendimento escolar tanto bons como maus alunos manifestam níveis semelhantes de alienação -, nem com a origem social. A alienação varia significativamente com o nível escolar (unificado/complementar) que o aluno frequenta - atingindo os valores mais elevados para os alunos do complementar - e de escola para escola13. As autoras concluíram que “o jovem se situa algures numa sociedade estratificada e que é a partir dessa posição social de origem que ele se vai situar na escola. No entanto, os jovens de 13-17 anos viveram todo um processo de 13 Estas conclusões baseiam-se nos dados de duas escolas secundárias de Lisboa (num total de 607 alunos). A escolha das duas escolas teve como critério a diferença da composição social dos alunos que as frequentavam (Cf ALVES-PINTO, M.C. e FORMOSINHO, J. O., (1985), “Alienação na escola: conceito relevante para a compreensão da socialização escolar” in Análise Social, vol. XXI, n.º 87-88-89, 10411051). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 28 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ socialização escolar que homogeneizou, em parte, atitudes e comportamentos diversos (decorrentes de origens sociais distintas). E aí encontramos um efeito escola nítido (…) que é mais forte do que o efeito origem social” (p. 1049). Alves-Pinto (2008) apresenta o resultado de um conjunto de investigações realizadas acerca da socialização escolar dos alunos, que considera diversa (não se regendo por uma única matriz) e plural face à integração que a criança e jovem tem de fazer das expectativas de “outros significativos” com quem interage, pertencentes ao quadro escolar e a outros espaços a que pertence, nomeadamente a família. Na socialização das crianças do 1º e 2ºciclos a autora encontra como tendência a preponderância das práticas educativas familiares em detrimento do nível de instrução parental. Na socialização dos adolescentes a tendência encontrada vai no sentido da convergência entre pais e professores ser preponderante em detrimento do nível de instrução parental. Os estudos mencionados apontam para que “a socialização escolar se estará a sobrepor à socialização familiar, homogeneizando grupos que pela socialização familiar – referida ao indicador de instrução -, se pensaria que se diferenciassem” (Alves-Pinto, 2008, p.74). 3.2 Socialização escolar e auto-imagem No estudo referido realizado por Alves-Pinto e Formosinho (1985), Alves-Pinto (1995, pp.137-139) revela que, no que respeita a autoconceito e sucesso escolar, concluiu-se que “(…) a imagem global (auto-estima) que o aluno revela de si mesmo está fortíssimamente correlacionada com a sua imagem no campo académico”. Tanto a auto-estima como o autoconceito académico apresentam variações com o nível de sucesso escolar tendencialmente os alunos com melhor rendimento académico são os que revelam melhores níveis de auto-estima e de autoconceito académico - e com a qualificação que os alunos dão à sua relação com os colegas - tanto em termos de auto-estima como em termos de autoconceito, os alunos que têm melhor imagem da sua relação com os colegas são os apresentam a melhor imagem de si. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 29 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Postic (2007) refere alguns estudos que revelam que o estatuto escolar de uma criança influencia a sua auto-imagem, levando a que o aluno atribua a si próprio qualidades ou defeitos em função de ser considerado “bom” ou “mau” aluno. Alves-Pinto (2008, p. 48) enfatiza que “a socialização escolar não interfere só na produção de imagens da criança e adolescente enquanto aluno. A imagem que a criança e o jovem adolescente têm de si próprios em geral não apresenta nenhuma imunidade constantemente avaliado (…)”. relativamente à experiência de ser No estudo que a autora realiza sobre a socialização escolar dos alunos mais novos (1º e 2ºciclos), já referenciado, e verifica que as imagens que os alunos têm de si na dimensão da aprendizagem e na dimensão do comportamento são, respectivamente, tendencialmente positivas e claramente positivas. São as raparigas e os alunos que nunca foram retidos que revelam melhor imagem de si nas duas dimensões assim como os alunos do 1ºciclo relativamente aos do 2ºciclo, no tocante à auto-imagem de aprendizagem. A auto-imagem melhora à medida que aumenta o nível de instrução parental e à medida que se intensificam as práticas educativas em casa. No que concerne à auto-imagem geral, esta é claramente positiva; não apresenta variações entre as raparigas e os rapazes, embora seja menos favorável entre os alunos do 2ºciclo e nos que já foram retidos. Os alunos que revelam uma distribuição mais favorável são os de nível de instrução parental intermédio, e a menos favorável são os alunos de nível de instrução mais fracos. 3.3 Socialização escolar e construção da imagem do professor A evolução das tecnologias da aprendizagem faz pensar, hoje, num modelo de relação pedagógica não tanto como transmissão de conhecimentos, ou como pura descoberta autónoma efectuada pelo aluno, mas como síntese pedagógica, fundada na interacção entre professor e aluno. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 30 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Postic (2007, p.113) refere-se a diferentes trabalhos de Michel Gilly 14 dizendo que enquanto “o docente privilegia, na sua representação do aluno, os aspectos cognitivos da personalidade da criança e as suas atitudes morais face ao trabalho, deixando para segundo plano as qualidades afectivas e relacionais (…) o aluno, pelo contrário, concede mais importância às qualidades humanas (…) do que às qualidades técnicas”. Estudos realizados por Alves-Pinto (2008), Borges (2008) e Teixeira (2008) revelam que a representação que os alunos portugueses têm da sua relação com o professor é tendencialmente bastante positiva. Segundo Borges (2008) a maioria dos alunos assume os aspectos relacionais pessoais (amizade, simpatia, professores brincalhões, divertidos, …) como as qualidades mais apreciadas num “bom Professor”. Os aspectos profissionais (o método de ensino, a exigência, a injustiça, …) são os mais indicados quando se questionam os alunos sobre as características menos apreciadas nos professores. No caso concreto do director de turma, Castro (o.c. p.127) refere a importância da imagem do director de turma, como pessoa e como profissional, no sucesso/insucesso da sua actividade. Funcionando como referencial positivo para os alunos, para os professores da turma e para os pais, o director de turma contribuirá positivamente para o desenvolvimento integral do aluno, para a dignificação e valorização do conselho de turma e promoverá mais facilmente a mobilização e participação dos pais na escola, incentivando-os a colaborarem e a acompanharem mais de perto todo o percurso escolar dos seus filhos. 14 Nas palavras de Postic (2007, p.112) “Gilly utiliza a noção de representação para designar o universo mais ou menos coerente constituído pelo conjunto das apresentações a outrem e a si mesmo”. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 31 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Conclusões A socialização é um processo interactivo que se inicia com o nascimento e permanece ao longo de todo o ciclo vital. A escola exerce um papel importante no processo de socialização da criança e do jovem. Nas sociedades actuais, de escolarização massificada, a intensificação da procura de diplomas de nível mais elevado, tem como consequência a crescente importância da escola na vida das famílias. O investimento das famílias na carreira escolar dos filhos leva a que haja uma penetração da escola no próprio funcionamento das famílias, bem como uma maior participação da família na escola. A criança chega à escola levando consigo a sua história de vida e as suas vivências familiares, sendo fundamental o diálogo entre professores e família para que o go-between possa conciliar estes dois referenciais. Apesar de alguns obstáculos que possam existir, está provado que uma boa relação entre a escola e a família tem efeitos positivos para os alunos, para os pais e para os professores. Na escola vivem-se múltiplas experiências. A criança ou jovem, vai construindo, em grupo, um conjunto de representações sociais acerca de diversas coisas (cumprimento de horários, “bom professor”, “mau professor”, …). Estas noções comuns resultam de uma produção colectiva, forjada nas interacções sociais e na comunicação estabelecida entre os elementos de um grupo, que as põe em acção sempre que necessário. Estudos efectuados mostram que “globalmente, a experiência escolar marca tendencialmente a imagem que os jovens têm de si mesmos e que a socialização escolar, a partir de certa duração, esbate as representações que os jovens revelam relativamente à escola e à leitura que fazem da sua inserção escolar” (Alves-Pinto, 1995, p. 142), bem como revelam que a representação que os alunos portugueses têm da sua relação com o professor é tendencialmente bastante positiva e que os alunos apreciam sobretudo as qualidades humanas dos professores. 32 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Capítulo II As funções do director de turma do 2º e 3ºciclos do ensino básico A sociedade moderna, caracterizada pela globalização e pela competitividade desenfreada a todos os níveis, exige a cada indivíduo uma aprendizagem permanente. Com efeito, as descobertas científicas sucedem-se com tal rapidez, que o que é hoje ficção científica é amanhã realidade. As novas fontes de informação, os meios de comunicação de massas e as novas tecnologias, divulgam as “últimas”, da ciência e da vida, do mundo e dos seus fenómenos, ultrapassando em actualidade os manuais e os professores, mesmo os mais atentos. Desta forma, há uma redefinição constante dos objectivos da escola e “os professores são chamados a desempenhar um conjunto alargado de papéis, numa dinâmica de (re) invenção da profissão de professor” (Nóvoa, 1992, p.36). Neste capítulo, pretendemos focar dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, falar acerca das funções do director de turma nas escolas do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico. Começamos por clarificar em que termos é que usamos o conceito de função e, de seguida, abordamos a problemática segundo duas perspectivas: por um lado, numa perspectiva de política educativa, iremos proceder a uma análise das funções do director de turma explícitas nos textos legais e, por outro lado, numa perspectiva sociológica, tendo em conta que o director de turma é um professor e, como tal, um entre vários actores envolvidos no processo educativo dos alunos. Um segundo ponto remete para as funções de liderança atribuídas ao director de turma nas escolas do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico. Começamos por caracterizar os diversos tipos de liderança, baseando-nos nos autores White e Lippit. De seguida, considerando o director de turma um líder pedagógico intermédio, estudamos as lideranças educativas, e analisamos um perfil desejável para um director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 33 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ I - Quadro Normativo e Sociológico 1. O Conceito de função Comecemos, então, por tecer algumas breves considerações sobre o conceito de função. Postic (o.c. pp. 120-121) liga a noção de função às noções de estatuto “lugar” que um determinado individuo ocupa - e de papel - tipo de actuação pedido ou esperado do individuo que ocupa uma certa posição num sistema de relações. Para o autor, aplicada à acção do docente, esta noção, num sentido lato designa “o conjunto de actos pedagógicos, organizados com vista a atingir um fim muito preciso (por exemplo, função de animador, de conselheiro, etc.)”, assumindo-se então como o ”agente de transmissão do modelo cultural em vigor numa sociedade”. Num sentido restrito, no âmbito da escola, a contribuição do docente para a concretização dos objectivos definidos pela escola constitui a sua função. Teixeira (1995, p. 87) fala de funções do professor “enquanto conjunto de actividades, actuações e comportamentos esperados que decorrem do seu estatuto profissional”. Esta definição engloba, no nosso entendimento, os conceitos de papel e de função defendidos por Postic e acima referidos. Adoptando a definição de Teixeira, falaremos em funções do director de turma, para expressar o conjunto de actividades, actuações e comportamentos esperados que decorrem do seu estatuto profissional, enquanto professor; bem como as enunciadas nos diplomas legais específicos sobre o cargo. Gostaríamos de enfatizar, em plena concordância com Heck e Williams (o.c., pp.1-13), que ninguém nasce professor - “fazer-se” professor é um processo contínuo que se processa ao longo de toda a carreira profissional -, e que as funções desempenhadas pelo professor são muito complexas e inter relacionadas no processo de ensino-aprendizagem. Os autores defendem que é à medida que o professor adquire um maior conhecimento de si próprio e de cada aluno, que selecciona intuitivamente a função que, em dado momento, melhor vai de encontro às necessidades do aluno. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 34 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 2. As funções do Director de turma: enquadramento legislativo Numa perspectiva de política educativa, iremos debruçar-nos sobre as funções atribuídas ao professor na Lei de Bases do Sistema Educativo e no Estatuto da carreira docente, seguindo Teixeira (1995). De seguida, apresentaremos uma breve resenha do percurso histórico atinente ao cargo de direcção de turma, realçando a configuração de funções nele assumidos. Uma vez que o director de turma desempenha funções de responsabilidade em dois órgãos: conselho de turma e conselho dos directores de turma, as funções atribuídas pelos normativos aos mesmos também serão abordadas. 2.1 O Mandato e o contrato dos professores Teixeira (o.c., pp. 88-90) refere que as funções atribuídas aos professores decorrem de um mandato que a sociedade lhes confia e dos termos do contrato que estabelecem com o Estado, entidade empregadora. Assim, através da Lei de Bases do Sistema Educativo, o professor é mandatado pela sociedade “… não apenas para instruir, mas também para educar, não apenas para exercer as suas funções dentro das paredes da escola mas, ainda, para alargar a sua acção à própria comunidade” (ibid, p.90). A visão do professor receber da sociedade a missão nobre de ensinar, comparando-o a um “missionário” ou a um “sacerdote” (Teixeira, 1995), talvez possa ser explicada pelo facto da função docente ter tido o seu início “de forma subsidiária e não específica, constituindo uma ocupação secundária de religiosos ou leigos das mais diversas origens” (Nóvoa, 1992, p. 12). Refira-se que “o primeiro-ministro João Franco aconselhava os professores das cidades a completarem, os seus salários com outras actividades e os do campo a cultivarem umas batatas, bem como no período do Estado Novo durante o qual O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 35 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ o salário dos professores chegou a ser considerado uma espécime de “gratificação”, admitindo, assim tacitamente a “dupla actividade” (ibid, p. 22). Por outro lado, Teixeira (o.c., p. 88 e pp. 90-93) enfatiza que o professor é também um trabalhador, com deveres e direitos próprios. Segundo a autora, as funções do professor expressas no Estatuto da carreira docente (Anexo III do Decreto-Lei nº 15/2007) podem-se dividir em funções expressivas - instruir, educar e desenvolver uma acção no meio -, que exprimem o que é essencial na profissão e funções instrumentais - que se subdividem em funções instrumentais genéricas e funções de cooperação com a Administração da escola -, orientadas para a melhor consecução das primeiras. Teixeira (2007, pp. 12-17), concluiu que, sem prejuízo de outras competências, se espera que o professor: - instrua, ou seja, que promova o desenvolvimento do rendimento escolar do aluno e a qualidade das aprendizagens; que regule o processo de ensino -aprendizagem; que adopte estratégias de diferenciação pedagógica; que adeqúe os instrumentos de avaliação; que partilhe com os seus pares informações, recursos e métodos didácticos e que promova a participação activa dos pais. - eduque criando laços de cooperação com os outros parceiros educativos; promovendo a formação e realização integral dos alunos estimulando o desenvolvimento das suas capacidades, a sua autonomia e criatividade; reflectindo com os pares sobre o trabalho realizado; colaborando com os pais na partilha de responsabilidade pela educação e formação integral dos alunos; criando condições de integração bem sucedida dos alunos na escola; promovendo o enriquecimento cultural e a inserção dos educandos na comunidade e orientando e acompanhando os alunos nos diferentes espaços escolares - intervenha no meio mediante a colaboração com todos os intervenientes no processo educativo numa relação de respeito; que previna processos de exclusão e de discriminação; que colabore na prevenção e detecção de situações de risco social; que colabore em actividades de complemento curricular em que se procura a inserção dos educandos na comunidade e colabore com as famílias e com as estruturas escolares locais e O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 36 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ regionais com o objectivo de dar aos alunos informação e orientação educacional. As funções do professor referidas vão de encontro ao estipulado no relatório da UNESCO elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, coordenada por Delors, segundo o qual a educação deve organizar-se em torno de quatro aprendizagens fundamentais: aprender a conhecer (domínio dos próprios instrumentos do conhecimento); aprender a fazer (para poder agir sobre o meio envolvente); aprender a viver juntos (a fim de participar e cooperar com os outros em todas as actividades humanas) e aprender a ser (contribuir para o desenvolvimento total da pessoa – espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal e espiritualidade) (UNESCO, 1999, pp. 89-102). Segundo Dias (2009, p.230) o conceito de educação tem sido interpretado de maneira diferente pelos pais, pelos educadores - professores e pelos políticos. O autor defende que na ascendência do verbo educar se encontram três verbos latinos, com sentidos diferentes: o “educar” - que está relacionado com prática educacional exercida pelos pais cuja preocupação é” amamentar, nutrir, cuidar, assegurar o sustento” -; o “eduzir” - que domina no sistema escolar, na medida em que os educadores - professores se preocupam em desencadear nos alunos o processo interno que os leve a desenvolverem a sua capacidade de prender, apreender, aprender e compreender -, e o “conduzir” – adoptado no processo sociopolítico, quando se pretende conduzir, liderar, orientar e formar os cidadãos. Na nossa perspectiva, regra geral, e apesar de todas as reformas educativas e das inovações tecnológicas, ainda persiste nas nossas escolas uma prática escolar tradicional, centrada na informação transmitida pelo professor, que, apesar de tudo, é a que, a nosso ver, consegue responder mais atempadamente ao cumprimento (obrigatório) do rol de conteúdos e competências previstas pelo sistema. O congelamento da carreira docente (Lei n.º43/2005), o aumento do tempo de serviço para a reforma (Lei n.º 60/2005 e Decreto-Lei n.º 229/2005, ambos de 29 de Dezembro), as alterações das regras de concurso (Decreto-Lei n.º 20/2006), a imposição de um novo Estatuto da Carreira docente (Anexo III do Decreto-Lei nº 15/2007) e o receio de uma O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 37 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ avaliação pouco rigorosa têm vindo a criar insatisfação junto dos docentes. Neste âmbito, concordamos com Dias (ibid, p.127) quando o autor defende que “estamos a precisar e com a máxima urgência… de uma revolução da educação que … vise o pleno desenvolvimento da pessoa humana, não, portanto, apenas na dimensão cognitiva que deverá manter-se, aprofundar-se e integrar-se no processo global, mas também nas dimensões física, afectiva, artística, ética e, sobretudo, nesta última”. 2.2 As funções do director de turma: percurso histórico 2.2.1 A evolução do cargo de director de turma até à Lei 46/86, de 14 de Outubro Segundo Sá “A coordenação do ensino e dos professores ganha relevância organizacional a partir do momento em que, por um lado, se torna necessário ensinar a vários alunos em simultâneo e, por outro, a especialização dos saberes obriga a que um mesmo grupo de alunos seja submetido à acção de vários professores” (1997, p. 25). Castro (o.c.) e Sá (o.c.) defendem que, em Portugal, a preocupação com a orientação educativa dos alunos e a coordenação de professores da mesma classe remota aos finais do século XIX, tendo-se concretizado na criação da figura do Director de Classe, gestor pedagógico intermédio, que, segundo os autores, pode ser considerado o “antepassado remoto” do actual director de turma15. 15 Na opinião dos autores, o Director de Classe, figura criada em 1895 pela reforma de Jaime Moniz, pode ser considerado o precursor do cargo de director de turma. Para uma análise mais detalhada, consultar Castro (1995, pp. 31-86) ou Sá (1997, pp.2561). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 38 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ No entanto, o cargo de director de turma é criado e regulamentado apenas em 1968, com a aprovação do Estatuto do Ciclo Preparatório do Ensino Secundário, pelo Decreto-Lei nº 48 572, de 9 de Setembro de 1968. “Haverá para cada turma um director de turma, a quem competirá, além de presidir aos conselhos de turma e ao serviço de orientação escolar [...], apreciar os problemas educativos e disciplinares relativos aos alunos da turma e assegurar os contactos com as famílias” (Artigo 144º do Decreto n.º 48 572, de 9 de Setembro de 1968). O Artigo 115.º do Decreto-Lei define pormenorizadamente as competências do director de turma, a saber: - presidir aos conselhos de turma e ao serviço de orientação escolar, quando não estiver presente autoridade superior; apreciar os problemas educativos e disciplinares dos alunos e assegurar os contactos com a família; - assegurar a coordenação entre os grupos de disciplinas; - requisitar o material didáctico necessários para os diferentes grupos de disciplinas e velar pela sua utilização; - propor ao director ou, por seu intermédio, à Direcção de Serviços do Ciclo Preparatório o que lhe afigure de utilidade para o ensino e acção educativa dos alunos; O cargo é de aceitação obrigatória e a cada director de turma, designado pelo director da escola, preferencialmente de entre os professores das turmas respectivas, é atribuída uma gratificação mensal ao longo de todo o ano escolar, podendo cada professor assumir, no máximo, a direcção de quatro turmas. Os conselhos de turma reúnem sob a presidência do director de turma, tendo em vista estudar os elementos respeitantes à observação e orientação dos alunos e relações com o meio escolar; indicar os alunos para os quais se torna aconselhável a frequência das aulas de recuperação e as disciplinas respectivas e proceder à avaliação do comportamento e aproveitamento dos alunos, no termo de cada período escolar. Este diploma consagra, também, uma nova estrutura de gestão pedagógica intermédia, os Serviços de Orientação Escolar, que através do O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 39 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Conselho de Orientação Escolar são incumbidos de efectuar “o estudo dos problemas relativos às dificuldades escolares e educativas dos alunos (…) procurando estabelecer, no que for possível os respectivos diagnósticos e as normas de acção a aconselhar, quer no que respeita às actividades escolares, quer no que interessa à vida familiar” (Artigo 118.º). Castro (o.c.) defende que o Decreto-Lei citado está imbuído de um espírito inovador, configurando-se um paradigma de Escola diferente - uma escola de Massas. Refira-se que no Estado Novo, a escola limitava-se a executar as decisões tomadas a nível central, dando corpo a um projecto de educação para todas as escolas e para todos os alunos. A partir dos anos cinquenta, assistese a um aumento progressivo da população escolar que se acentua na década seguinte com a extensão da escolaridade obrigatória para seis anos (1964). O aumento do número de alunos e de turmas criou problemas de disponibilidade de espaços e descaracterizou a turma como conjunto homogéneo de alunos. Em 1973, pelo Decreto-Lei n.º 102/73, de 13 de Março, ”O cargo de director de turma já existente no ensino preparatório é extensivo ao ensino liceal e técnico” (Artigo 4.º, ponto 1), competindo “ao director de turma presidir aos conselhos de turma, apreciar os problemas educativos e disciplinares dos alunos e assegurar os contactos com as famílias” (Artigo 4.º, ponto 2). Segundo o entendimento de Teixeira com o alargamento do cargo de director de turma, “o Governo teve mais preocupação em aumentar, ainda que de modo indirecto, os vencimentos aos professores do que pretender uma alteração na estrutura de funcionamento das escolas” (Teixeira, o.c., p.139). Em 1973 surge a Lei nº. 5/73, de 25 de Julho, conhecida como a Reforma de Veiga Simão que, apesar de nunca ter sido regulamentada, visava a “democratização” do ensino, criando espaços de participação, dentro da escola, a professores e alunos, efeito não desejado pelo sistema politico então vigente. (Formosinho. J e Machado J., 2000, p. 100). Com o 25 de Abril produziram-se profundas rupturas políticas, económicas, sociais e culturais que se reflectiram na escola. Os reitores e directores foram destituídos dos seus cargos e as “Comissões de Gestão” integrando, em número variável, alunos, professores e funcionários tomaram o poder, O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 40 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ utilizando formas de democracia directa. A de 27 de Maio de 1974 é publicado o decreto-lei n.º 221/74 que pretende regularizar estas Comissões de Gestão já em funcionamento em diversas escolas imputando-lhes “atribuições que incumbiam aos anteriores órgãos” e, embora aceitando a colegialidade das “comissões de gestão”, determina a escolha de um dos docentes para presidente (ibid., p.101). O Decreto-Lei nº. 735-A/74, de 21 de Dezembro surge para normalizar a vida nas escolas, estipulando o Conselho Directivo, o Conselho Pedagógico e o Conselho Administrativo como órgãos de gestão da escola e ignorando toda a organização pedagógica intermédia. Este decreto foi objecto de oposição a nível dos actores escolares dado que representava, do ponto de vista formal, um golpe na democracia directa e no poder deliberativo dos plenários de professores, alunos e funcionários agora transformados em “assembleias consultivas” (Artigo 32º, ponto1), sujeitas a autorização prévia do conselho. (ibid, 102). No ano de 1976 é aprovada a Constituição, é eleito o Presidente da República e é formado o primeiro governo constitucional liderado pelo partido socialista. Em 23 de Outubro é publicado o Decreto-Lei n.º 769-A/76, que regulamenta a gestão das escolas. O diploma mantém os órgãos de topo das escolas: Conselho Directivo, Conselho Pedagógico e Conselho Administrativo definindo, com mais pormenor, as suas regras de constituição, as funções respectivas e o processo de eleição; embora remetendo para legislação posterior a regulação de funcionamento do conselho directivo (Portaria nº 677/77, de 4 de Novembro) e do conselho pedagógico (Portaria n.º 679/77 de 8 de Novembro). A publicação da Portaria n.º 679/77, de 8 de Novembro, constitui a primeira tentativa de regulamentação do cargo de director de turma, após o 25 de Abril. Esta portaria cria a figura dos representantes dos directores de turma, eleitos no início do ano lectivo de entre os directores de turma em exercício. De acordo com o normativo supracitado, as áreas de intervenção do director de turma (pontos 7.3.1 e 7.3.9) são agrupadas em três domínios: O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 41 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ articulação com o Conselho Directivo e Conselho Pedagógico; articulação com os alunos; ligação com os encarregados de educação. O director de turma deve ainda assumir a responsabilidade pela organização e actualização do dossier de turma, bem como pela verificação e registo de faltas dos alunos e sua comunicação aos encarregados de educação. Não se esclarece o processo de designação do director de turma, nem os requisitos para o exercício do cargo. No entanto, no ponto 2 do artigo 25º do Decreto-Lei n.º769A/76, determina-se que "Os conselhos referidos no número anterior [onde se inclui o conselho de turma] serão presididos por professores eleitos anualmente de entre os professores profissionalizados, salvo onde os não haja, caso em que caberá ao conselho directivo a sua nomeação, ouvidos os respectivos conselhos". Sá (o.c., p. 53) refere que merece destaque este articulado porque este foi o único momento em que se previu o recurso à eleição como forma de designar o director de turma, reservando-se a nomeação pelo conselho directivo apenas para os casos em que não houvesse professores profissionalizados na turma. Esta portaria atribui ao conselho de turma, estrutura pedagógica intermédia constituída por todos os professores da turma, pelo aluno delegado de turma e tendo como presidente o director de turma, o apuramento periódico do aproveitamento e assiduidade dos alunos; a coordenação da actividade dos professores da turma, tendo em vista a análise e solução de problemas referentes ao binómio ensino-aprendizagem e o conhecimento e proposta de resolução de questões disciplinares dos alunos. A integração de dois representantes dos directores de turma na constituição do Conselho Pedagógico, põe em evidência a intenção de não limitar a sua actividade à coordenação da componente instrucional e/ou à vertente burocrático - administrativa, esboçando-se já um projecto pedagógico – educativo (Castro, o.c., p.55). A Portaria n.º 970/80, de 12 de Novembro, que revogou a Portaria n.º679/77, à excepção no que se refere aos procedimentos disciplinares, teve o intuito de, na nossa opinião, proceder a um reforço da gestão intermédia criando a figura do coordenador e subcoordenador dos directores de turma, O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 42 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ eleitos entre os seus pares e regulamentando o funcionamento do conselho de directores de turma e cujas atribuições, se situavam ao nível da coordenação da interdisciplinaridade, da ligação/mediação entre os conselhos de turma e o conselho pedagógico e a dinamização da execução das orientações do Conselho Pedagógico relativamente à formação dos professores. Os conselhos de turma, que reuniam ordinariamente apenas no início do ano lectivo e no final de cada período escolar, deviam planear e coordenar acções interdisciplinares a nível da turma; analisar os problemas de integração dos alunos, colaborar nas acções que favorecessem as relações da escola com o meio e dar execução às orientações do concelho pedagógico (Artigo nº 81). O diploma declara o cargo de director de turma como de aceitação obrigatória e consagra, também, a atribuição de duas horas de redução de componente lectiva para o exercício do cargo, não podendo ser atribuídas a cada professor mais do que duas direcções de turma. Pela primeira vez foi definido um perfil específico para o desempenho do cargo de director de turma, incidindo nos requisitos de natureza humana Assim, os directores de turma, designados pelo conselho directivo, além de serem professores profissionalizados, sempre que possível, deviam possuir capacidade de relacionamento fácil expressa pela sua comunicabilidade, tolerância e compreensão associadas a atitudes de firmeza que impliquem respeito mútuo, bom senso e ponderação, espírito metódico e dinamizador, disponibilidade, capacidade de prever situações e de solucionar problemas (Artigo nº74). As atribuições do director de turma são agrupadas em três áreas de intervenção (alunos, professores da turma e pais): desenvolver acções que promovam e facilitem uma integração correcta dos alunos na vida escolar; assegurar os contactos com os encarregados de educação; criar condições de participação efectiva dos professores na planificação dos trabalhos e proporcionar-lhes a existência dos meios e documentos de trabalho necessários às actividades educativas (Artigo nº80) A partir de finais de 1980, verificou-se uma diminuição na produção normativa referente às estruturas e órgãos de gestão. Salientamos, neste O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 43 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ período, a Portaria n.º 335/85, de 1 de Junho, que extinguiu o cargo de subcoordenador dos directores de turma e definiu uma nova redução de tempo de serviço a atribuir aos coordenadores de directores de turma, em função do número de directores de turma que tinham de apoiar e coordenar. 2.2.2 O cargo do director de turma no âmbito do processo de democratização da administração da escola Num contexto em que começava a questionar-se a Escola enquanto Organização, em que persistia uma desarticulação entre as estruturas e os órgãos ao nível do Sistema Educativo (nível macro), Escola (nível meso) e Sala de Aula (nível micro) e no sentido de consagrar à Escola a sua especificidade, é publicado o Decreto-Lei 211-B/86, de 31 de Julho (Castro, 1995, p.59). Com este Decreto-Lei é criado o conselho consultivo do conselho pedagógico das escolas preparatórias, C+S e secundárias, o qual conta com um representante da associação de pais e reúne mensalmente. Ao director de turma, ao conselho de turma, ao conselho dos directores de turma e ao conselho pedagógico, são atribuídas funções de ligação entre a escola, as famílias e a comunidade. Apesar do conselho consultivo ser um órgão sem poder efectivo, tem o mérito de formalizar, em definitivo, a presença dos pais na escola. À vertente humana do director de turma (já consignada na Portaria nº 970/80, de 12 de Novembro), acrescenta-se agora uma hierarquização no que concerne à sua formação profissional 1.º- professores em profissionalização no 2º ano; 2.º- professores profissionalizados efectivos; 3.º- professores profissionalizados não efectivos; 4.º- professores provisórios com habilitação própria (Artigo nº 72). Em relação às atribuições do director de turma, definidas no artigo 78º promover a integração dos alunos na vida escolar; assegurar os contactos com os encarregados de educação; criar condições de participação efectiva dos professores na planificação dos trabalhos e proporcionar-lhes a existência dos O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 44 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ meios e documentos de trabalho necessários às actividades educativas e ainda as funções de planificação e organização -, verifica-se uma ausência de poder deliberativo, mesmo no que concerne às convocatórias dos conselhos de turma, que são da responsabilidade do conselho directivo. Valorizou-se o conselho de turma, com um representante dos alunos e com um mínimo de três reuniões ordinárias, por período, deixando de ser uma estrutura de apoio ao conselho pedagógico. O coordenador dos directores de turma passou a ser eleito por um período de dois anos escolares pelos directores de turma, a quem compete “promover a interacção entre a escola e o meio”, reunindo ordinariamente duas vezes por período. A Constituição de 1976 definiu os princípios orientadores da política educativa portuguesa, tornando pertinente a existência de uma nova Lei de Bases do Sistema Educativo, remetendo para a Assembleia da República a competência da legislação nessa matéria. Porém, só ao fim de 10 anos é que é publicada, em 14 de Outubro de 1986, a Lei de Bases do Sistema Educativo – Lei n.º 46/86 aprovada, por unanimidade, pela Assembleia da República. Com a Reforma do Sistema Educativo, que se seguiu à publicação da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86, de 14 de Outubro), surge a luz ao fundo do túnel. À escola é dada a possibilidade de passar de “Serviço local do Estado” – escola sem autonomia, que é dirigida de fora pelos Serviços Centrais, a “escola comunidade educativa” – escola em que a direcção se encontra na comunidade educativa que a constitui16 (Formosinho, J. 1989). No artigo 2.º são consagrados os princípios do direito à educação; direito à igualdade de oportunidades no acesso e sucesso escolares; tolerância para com as escolhas possíveis; contributo para o “desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos e Integração Comunitária. Esta concepção de escola, à luz da Lei de Bases do Sistema Educativo, implica, 16 Para uma análise detalhada destes conceitos consultar Formosinho, J. (1989),“De serviço do Estado a Comunidade Educativa: uma nova concepção para a Escola Portuguesa” in Revista Portuguesa de Educação, C.E.E.D.C., Universidade do Minho. 2(1), pp. 53-86. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 45 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ obviamente, alterações profundas nos seus modelos organizacionais. Os debates em torno da descentralização, participação e autonomia bem como as exigências de formação de professores e realizações como a “gestão democrática” incitam a novas abordagens da escola como organização. (Formosinho, J. e Machado. J, o.c., p. 106). Em Janeiro de 1986 é criada a Comissão de Reforma do Sistema Educativo, sendo constituída por diversas equipas de trabalho, que tinham a seu cargo a difícil tarefa de conceber e elaborar projectos de reforma do sistema educativo português. A gestão intermédia foi o domínio que mereceu um investimento mais inovador, estando o exercício dos cargos de coordenação e orientação educativa dependentes de uma especialização. Não obstante o carácter inovador da proposta apresentada, esta permanecerá à margem dos grandes debates em torno da reforma educativa, uma vez que os temas da direcção e da gestão de topo ao nível das escolas monopolizaram a atenção da generalidade dos intervenientes (Sá, 1997, p.54). Cabe realçar que a Constituição garante somente a autonomia das universidades. No entanto, a constatação de que “um mesmo modelo de administração escolar para todas as escolas públicas, centralmente dirigido a partir dos Ministérios de Educação dos respectivos países, não é a resposta adequada à melhoria das performances escolares que se visa alcançar … esteve, certamente presente, nas transferências de competências para as escolas, autarquias e serviços desconcentrados que marcaram os anos 80 e 90 do século passado” (Teixeira, 2009, p. 6). A 3 de Fevereiro de 1989 é promulgado o primeiro diploma legal que trata da autonomia da escola (escolas oficiais dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e escolas do ensino secundário) - Decreto-Lei nº 43/8917. No preâmbulo do mesmo pode ler-se: “A reforma educativa não se pode realizar sem a reorganização da administração educacional, visando inverter a tradição de 17 “Etimologicamente autonomia, autos - nomos, significa que a lei se formula por referência a si próprio” (Alves - Pinto, 1998, p.16), mas não implica a “ausência de todas as dependências” (idem, p.16). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 46 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ uma gestão demasiado centralizada e transferindo poderes de decisão para os planos regional e local. (...) Entre os factores de mudança da administração educacional inclui-se, como factor preponderante, o reforço da autonomia da escola (…)”. A autonomia do estabelecimento de ensino concretiza-se na elaboração de um projecto educativo18 próprio, constituído e executado de forma participada com a responsabilização dos vários intervenientes no processo educativo, adequado às características e recursos da escola e às solicitações e apoios da comunidade em que se insere. Este decreto é denominado por Teixeira por “decreto discurso, pela indefinição em que assenta, o que não viabilizou a sua aplicação prática” (1995, p.156) e corresponde, segundo Barroso (1995, p.19), à chamada “autonomia decretada19”. Passados cinco dias da promulgação do Decreto-Lei nº. 43/89 que revoga o Decreto-lei n.º 211-B/86, de 31 de Julho, pelo Despacho n.º 8/SERE/89, de 8 de Fevereiro, é regulamentado o conselho pedagógico e dos seus órgãos de apoio, que logo no preâmbulo se assume como provisório. A nível da regulamentação do Conselho Pedagógico verifica-se um mero arranjo do Decreto-lei n.º 211-B/86, de 31 de Julho. O director de turma tem as suas atribuições definidas no n.º 41 deste Despacho, não se notando alterações às definidas no Estatuto do Ciclo Preparatório do Ensino Secundário pelo decreto n.º 48 572, de 9 de Setembro de 1968 (Teixeira, 1995). 18 “O projecto educativo traduz-se designadamente, na formulação de prioridades de desenvolvimento pedagógico, em planos anuais de actividades educativas e na elaboração de regulamentos internos para os principais sectores e serviços escolares” (Ponto 2 do artigo n.º2. do Decreto-Lei nº 43/89A, de 3 de Fevereiro de 1989). 19 Segundo Barroso (o.c., pp.17-21), “autonomia decretada” significa uma autonomia jurídico-administrativa, uma autonomia “normativa”. Por outro lado, o autor defende a “autonomia construída”: autonomia construída, em cada escola, de acordo com o meio em que está inserida e, que, simultaneamente, respeite os princípios e objectivos do sistema público nacional de ensino. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 47 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Este despacho elimina as "características de personalidade" do director de turma. Sá (o.c., p.54) refere que esta eliminação pode ser justificada pela dificuldade prática da execução quer dos requisitos de personalidade, quer da escala de prioridades dada a falta de recursos para o cumprimento das características exigidas, mas também devido às pressões que certos grupos exerciam ora no sentido de lhes ser, ora de não lhes ser atribuída a direcção de turma. Perante a necessidade de uma escola diferente, dirigida e gerida de uma forma diferente que dê resposta a “uma educação de qualidade para todos” surge o Decreto-Lei n.º 172/91, de 10 de Maio, tendo como grande objectivo um modelo de administração e gestão, que estabeleça mecanismos de partilha de poderes e responsabilidades. No entanto, “ este diploma legal aborda a autonomia das escolas como um adquirido quando, na realidade, só o era na lei que não na prática” (Teixeira, 2009, p.10). Este modelo, que não chegou a generalizar-se, implicava a elaboração de três documentos fulcrais: Projecto Educativo, Plano Anual de actividades e o Regulamento Interno. No que concerne às estruturas de orientação educativa, o decreto limita-se basicamente a enumerá-las, remetendo a sua regulamentação para futura legislação. Em relação ao director de turma ficámos apenas a saber que "é escolhido pelo director executivo de entre os professores da turma “(Artigo 41º) A portaria nº 921/92, de 23 de Setembro, estabelece as competências do director de turma. Para além das funções já consignadas em normativos anteriores, ressalta aqui o grande peso das relacionadas com a implementação do novo sistema de avaliação dos alunos do ensino básico, definido pelo despacho normativo nº 98-A/92, de 20 de Junho, bem como a criação de condições para a realização das actividades da área-escola.20 Ao director de turma passa agora a exigir-se a apresentação de um relatório de avaliação das actividades desenvolvidas, até 20 de Junho de cada ano, ao coordenador de ano dos directores de turma. 20 A natureza e o âmbito da « Área Escola » encontram-se consignados no artigo 8º do Decreto-Lei nº286/89, de 29 de Agosto. O seu plano de concretização e o seu modelo organizativo são definidos no Despacho nº 142ME/90, de 1 de Setembro. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 48 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ O perfil e os requisitos exigidos para o desempenho do cargo não são, no essencial, alterados. Determina-se que o "director de turma deverá ser, preferencialmente, um professor profissionalizado nomeado pelo director executivo de entre os professores da turma tendo em conta a sua competência pedagógica e capacidade de relacionamento" (pontos 1 e 2 do Artigo 9º). No decreto-lei nº270/98 de 7 de Janeiro, o director de turma assume um papel importante na definição e aplicação das medidas nele prescritas bem como na prevenção de comportamentos inadequados subordinando a intervenção disciplinar a critérios pedagógicos. É da responsabilidade do director de turma a tomada de medidas tendentes à melhoria das condições de aprendizagem dos alunos bem como a promoção de um bom ambiente educativo, sendo da sua competência, articular a intervenção dos professores da turma e dos pais/ encarregados de educação. A 4 de Maio de 1998 entra em vigor um novo regime de autonomia, direcção e gestão dos estabelecimentos de educação pré-escolar e ensino básico e secundário - Decreto-Lei 115-A/98, de 4 de Maio. Para Teixeira (2009), segundo a qual a autonomia das escolas não existe se não existir a partilha de poder que envolva toda a comunidade, o Decreto-Lei 115-A/98 “constitui um retrocesso por relação ao Decreto-Lei de 1991 já que retira ao órgão que integra os representantes da comunidade um conjunto importante de poderes” (p.11).21 Segundo o diploma, a autonomia das escolas, concretizada no respectivo projecto educativo, pressupõe a celebração de contratos de autonomia, ou seja “ o acordo celebrado entre a escola, o Ministério da Educação, a administração municipal e, eventualmente, outros parceiros 21 O Decreto -Lei nº172/91, de 10 de Maio designava o órgão de participação da comunidade como «Conselho de Escola» e definia-o como o órgão responsável, perante a administração educativa, pela orientação das actividades da escola, com vista ao desenvolvimento global e equilibrado do aluno (Artigo 7º). No Decreto-Lei 115A/98, de 4 de Maio, é a « Assembleia », o órgão de representação e participação da comunidade educativa, responsável pela definição das linhas orientadoras da actividade da escola. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 49 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ interessados, através do qual se definem objectivos e se fixam as condições que viabilizam o desenvolvimento do projecto educativo apresentado pelos órgãos de administração e gestão de uma escola ou de um agrupamento de escolas. (Artigo 48.º) No Decreto-Lei supra citado, atribui-se ao director de turma a função de coordenar o desenvolvimento do “plano de trabalho da turma”, o qual devia "integrar estratégias de diferenciação pedagógica e de adequação curricular para o contexto da sala de actividades ou da turma, destinadas a promover a melhoria das condições de aprendizagem e a articulação escola-família" (Artigo 36.º). Só passados mais de nove anos sobre a publicação do Decreto-Lei n.º115A/98, de 4 de Fevereiro, em Setembro de 2007, é que foram assinados os primeiros vinte e dois contratos de autonomia. Será que as escolas não querem autonomia? Talvez a resposta a esta questão passe pela reflexão de que “A autonomia não é algo que se recebe” (Alves-Pinto, o.c., p. 23) e que a autonomia da escola ” só terá sentido se cada escola encontrar a sua identidade, se ela for irrepetível na construção de um projecto educativo partilhado” (Teixeira, 1995, p.73). O Decreto Regulamentar n.º10/99 de 21 de Julho determina formalmente as condições de funcionamento e respectiva coordenação das estruturas de orientação educativa quanto às competências que em geral lhes são atribuídas e quanto ao modo como a escola poderá gerir a sua organização. No ponto 2 do artigo 7.º são fixadas as competências do director de turma que continua a ser o elo de ligação entre os alunos, os professores da turma e os pais e encarregados de educação. O director de turma deve ainda coordenar, em colaboração com os docentes da turma, a adequação de actividades, conteúdos, estratégias e métodos de trabalho à situação concreta do grupo e à especificidade de cada aluno; coordenar o processo de avaliação dos alunos garantindo o seu carácter globalizante e integrador e apresentar à direcção executiva um relatório crítico, anual, do trabalho desenvolvido. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 50 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 2.2.3 O cargo do director de turma no início do século XXI No início do século XXI, mais concretamente pelo Decreto-Lei n.º 6, de 18 de Janeiro de 2001, é lançado um desafio à autonomia, à responsabilização e à capacidade de decisão de toda a comunidade educativa: a reorganização curricular do Ensino Básico. No preâmbulo, o normativo anuncia o estabelecimento dos ”princípios orientadores da organização e gestão curricular do Ensino Básico, bem como da avaliação das aprendizagens e competências, integrando os conhecimentos, as capacidades, as atitudes e os valores, a desenvolver nos alunos ao longo do Ensino Básico, de acordo com os objectivos consagrados na Lei do Sistema educativo”. O Decreto visa uma reorganização curricular (quer no plano curricular, quer na organização de processos de acompanhamento) que assegure “a garantia de uma educação de base para todos, entendendo-a como início de um processo de educação e formação ao longo da vida”22 . Nesta reorganização, para além das áreas curriculares disciplinares, o diploma determina a criação de três áreas curriculares não disciplinares - área de projecto, estudo acompanhado e formação cívica, bem como a obrigatoriedade do ensino experimental das ciências, o aprofundamento da aprendizagem das línguas modernas, o desenvolvimento da educação artística e da educação para a cidadania e o reforço do núcleo central do currículo nos domínios da língua materna e da matemática. A concretização da definição de estratégias tendentes à adequação do currículo nacional ao contexto específico de cada escola, requer a concepção de um projecto curricular de escola (a ser concebido, aprovado e avaliado pelos órgãos de administração e gestão - artigo 2º; ponto 2), o qual deverá ser desenvolvido, num projecto curricular de turma, que se destina a adequar a cada turma, “as estratégias de concretização e desenvolvimento do currículo nacional e do projecto curricular de escola” (Artigo 2.º, ponto 4.º). 22 Preâmbulo do Decreto-Lei n.º 6, de 18 de Janeiro de 2001. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 51 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ O projecto curricular de escola visa apontar caminhos de concretização do projecto educativo da escola, definindo, em função do currículo nacional, as prioridades da escola ao nível das competências, conteúdos das diferentes áreas disciplinares e a sua articulação. De acordo com a especificidade de cada grupo turma (heterogeneidade dos alunos, diferentes ritmos de aprendizagem, diferentes motivações e expectativas), surge a necessidade da construção de um projecto curricular de turma que contribua para que os alunos desenvolvam as competências gerais que estão definidas para o ensino básico. Às áreas curriculares não disciplinares confere-se o espírito implícito na reorganização curricular, de modo a que elas contribuam para o desenvolvimento de competências, bem como para a mobilização de saberes dos alunos. Convém salientar que o Decreto-Lei em análise não faz qualquer referência ao director de turma. A presença deste é apenas percepcionada enquanto elemento do conselho de turma, órgão a que preside e cuja referência surge nos capítulos II (organização e gestão do currículo nacional) e III (Avaliação). No entanto, o Despacho Normativo 30/2001 de 19 de Julho (Avaliação das aprendizagens dos alunos do Ensino Básico) que substitui o Despacho Normativo n.º 98-A/92, de 20 de Junho, e demais legislação subsequente sobre a mesma matéria, explicita a actuação do director de turma nesta matéria, a saber : -responsabiliza o director de turma pela organização do dossier individual do aluno (parte I) – registo sistemático do seu percurso escolar que o acompanha ao longo de todo o Ensino Básico ; - no processo de avaliação (parte II) : no tocante à avaliação formativa, o director de turma deve propor ao órgão de direcção executiva “os recursos educativos com vista a desencadear respostas adequadas às necessidades dos alunos”; no que concerne à avaliação sumativa, o director de turma ” deve coordenar o processo de tomada de decisões … e garantir a sua natureza globalizante”. O enquadramento dos procedimentos disciplinares passou, recentemente, a ser feito segundo a Lei n.º30/2002 de 20 de Dezembro O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 52 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ (Estatuto do Aluno do Ensino Não Superior) que tem como objectivos (Capítulo I; artigo 2.º) promover “…a assiduidade, a integração dos alunos na comunidade educativa e na escola, o cumprimento da escolaridade obrigatória, o sucesso escolar e educativo e a efectiva aquisição de saberes e competências”. Esta nova lei “pressupõe a responsabilidade de todos os membros da comunidade educativa pela salvaguarda efectiva do direito à educação e à igualdade de oportunidades no acesso e no sucesso escolares, pela prossecução integral dos objectivos dos referidos projectos educativos, incluindo os de integração sócio-cultural, e pelo desenvolvimento de uma cultura de cidadania capaz de fomentar os valores da pessoa humana, da democracia e do exercício responsável da liberdade individual” (capitulo II; artigo 4º).23 A questão do controlo da assiduidade pelo director de turma está estipulada no capítulo IV. Assim, o artigo 19.º dá conta que as faltas são justificadas ao director de turma (ponto1), que pode solicitar os comprovativos adicionais que entenda necessários à justificação da falta (ponto 4). O director de turma deve comunicar, no prazo de cinco dias úteis, aos pais e encarregados de educação ou, quando maior de idade, ao aluno, quando não for apresentada justificação ou quando a mesma não for aceite (ponto 6). O ponto 2 do artigo 21º decreta ainda que quando for atingido metade do limite de faltas injustificadas24, o director de turma convoca os pais e encarregados de educação ou, quando maior de idade, o aluno com o objectivo de os alertar 23 “A comunidade educativa (…) integra, sem prejuízo dos contributos de outras entidades, os alunos, os pais e encarregados de educação, os professores, os funcionários não docentes das escolas, as autarquias locais e os serviços da administração central e regional com intervenção na área da educação, nos termos das respectivas responsabilidades e competências” (capitulo II; artigo 4º). 24 “ As faltas injustificadas não podem exceder, em cada ano lectivo, o dobro do número de dias do horário semanal, no 1.º ciclo do ensino básico, ou o triplo do número de tempos lectivos semanais, por disciplina, no 2.º e 3.ºciclos do ensino básico, no ensino secundário e no ensino recorrente” (Artigo 21.º, ponto 1). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 53 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ para as consequências da situação e de se encontrar uma solução que permita garantir o cumprimento efectivo do dever de frequência. São vários os agentes de controlo disciplinar considerados na organização escolar. Nos quadros seguintes, a propósito das medidas previstas, pretende-se, de uma forma breve, fazer uma pequena descrição daquilo em que consistem, dos agentes competentes para a sua aplicação e as competências próprias de alguns deles, nomeadamente das atribuídas ao director de turma. MATÉRIA DISCIPLINAR (Lei nº 30/2002, de 20 de Dezembro) MEDIDAS DISCIPLINARES PREVENTIVAS E DE INTEGRAÇÃO 1.A advertência (Artigo 29º) COMPETÊNCIA PARA APLICAÇÃO Professor; Director de Turma; Pessoal não docente; Presidente do Conselho Executivo/Director; Conselho de Turma Professor 2. A ordem de saída da sala de aula (Artigo 30º) Conselho de Turma Disciplinar DESCRIÇÃO FUNÇÃO DO DIRECTOR DE TURMA FUNÇÃO DO PRESIDENTE DO CONSELHO EXECUTIVO OU DIRECTOR Chamada verbal de atenção ao aluno. Marcação de falta Permanência do aluno na escola Conhecimento ao directorde turma Desempenho, pelo aluno, de um programa de tarefas de carácter pedagógico, que contribuam para o reforço da sua formação cívica. Depende de procedimento disciplinar Comunica ao encarregado de educação Considera o comportamento grave ou muito grave, participao ao presidente do conselho executivo para instauração de procedimento disciplinar. Acompanha o aluno na execução da medida disciplinar. Instaura o respectivo procedimento disciplinar Prazo - 1 dia útil; 3. Actividades de Nomeia instrutor (deverá ser um integração na escola professor da escola) (Artigo 31º) Convoca o conselho de turma disciplinar. Notifica a decisão final ao aluno e/ou ao encarregado de educação Conselho de Turma Comportamento considerado Instaura o respectivo procedimento Esta medida só pode ser Director Regional de grave ou muito grave, participa- disciplinar aplicada a alunos com idade Educação * o ao presidente do conselho Nomeia instrutor. não inferior a 10 anos e 4 A transferência de executivo para instauração de Convoca o conselho de turma quando estiver assegurada a Escola procedimento disciplinar. disciplinar. frequência de outro (Artigo 32º) Notifica a decisão final ao aluno e/ou ao estabelecimento de ensino. encarregado de educação Depende de procedimento Comunica a decisão disciplinar ao disciplinar. Director Regional de Educação * O Director Regional de Educação é competente para os procedimentos destinados a assegurar a frequência, pelo aluno dentro da escolaridade obrigatória, de outro estabelecimento de ensino. MEDIDAS DISCIPLINARES SANCIONATÓRIAS 1. A repreensão (Artigo 33º) 2. A repreensão Registada (Artigo 34º) 3. A suspensão da escola até 5 dias úteis (Artigo 35º) 4. A suspensão da escola de 6 a 10 dias úteis (Artigo 35º) 5. A expulsão da Escola (Artigo 36º) COMPETÊNCIA PARA APLICAÇÃO Professor Director de Turma. Presidente do Conselho Executivo/Director. Conselho de Turma Professor Director de Turma Presidente do Conselho Executivo/Director. Conselho de Turma DESCRIÇÃO Conselho de Turma Director Regional de Educação* FUNÇÃO DO PRESIDENTE DO CONSELHO EXECUTIVO OU DIRECTOR Censura verbal Censura escrita ao aluno e arquivada no seu processo individual. Comunicação ao director de turma Procede, se necessário, a prévia averiguação sumária, no prazo de dois dias úteis, na qual são ouvidos o aluno, o participante e eventuais testemunhas. Regista no processo individual do aluno. Comunica ao encarregado de educação Procede, se necessário, a prévia averiguação sumária, no prazo de dois dias úteis, na qual são ouvidos o aluno, o participante e eventuais testemunhas. Exerce o poder disciplinar ou convoca o conselho de turma disciplinar. Presidente do Conselho Executivo/Director Conselho de Turma disciplinar Conselho de Turma disciplinar FUNÇÃO DO DIRECTOR DE TURMA Depende de procedimento disciplinar. Depende de procedimento disciplinar. Instaura o respectivo procedimento disciplinar (Prazo - 1 dia útil); Nomeia instrutor, que deverá ser um professor da escola. Convoca o conselho de turma disciplinar. Notifica a decisão final ao aluno e/ou ao encarregado de educação Instaura o respectivo procedimento disciplinar (Prazo - 1 dia útil); Nomeia instrutor. Convoca o conselho de turma disciplinar. Notifica a decisão final ao aluno e/ou ao encarregado de educação Comunica a decisão disciplinar ao Director Regional de Educação * O Director Regional de Educação é competente para os procedimentos destinados a assegurar a frequência, pelo aluno dentro da escolaridade obrigatória, de outro estabelecimento de ensino. No que concerne à avaliação do ensino básico, pelo Despacho n.º50/2005, de 20 de Outubro, no âmbito dos apoios e complementos educativos, cabe ao conselho de turma a elaboração e aplicação de planos educativos (planos de recuperação, de acompanhamento e de desenvolvimento), consoante as capacidades dos alunos e os resultados da avaliação sumativa.25 No nosso entendimento, estas competências carecem de uma coordenação eficaz do director de turma e sublinham a necessidade de um espírito de equipa colaborativo do conselho de turma. Para alunos em que as necessidades educativas “se revestem de contornos muito específicos, exigindo a activação de apoios especializados”26, o Decreto-Lei nº3/2008, de 7 de Janeiro - tendo como objectivos “a promoção de uma escola democrática e inclusiva, orientada para o sucesso educativo de todas as crianças e jovens”27 -, prevê a elaboração de um programa educativo individual, “que fixa e fundamenta as respostas educativas e respectivas formas de avaliação” (artigo 8.º, ponto1). Nos 2º e 3º ciclos e no ensino secundário, o programa educativo individual é elaborado pelo director de turma, pelo docente de educação especial, pelos encarregados de educação e por outros serviços, se necessário (artigo 10º). A avaliação da implementação das medidas educativas deve assumir carácter de continuidade e, no final do ano lectivo deve ser elaborado um relatório conjuntamente pelo director de turma, pelo docente de educação especial, pelo psicólogo e pelos docentes e técnicos que acompanham o desenvolvimento do processo educativo do aluno e aprovado pelo conselho pedagógico e pelo encarregado de educação (artigo 13º). 25 O plano de recuperação é elaborado no final do 1ºPeríodo, quando o aluno obtenha três ou mais níveis inferiores a três, ou na reunião intercalar do 2º período, quando a situação indicie dificuldades de aprendizagem que possam comprometer o sucesso escolar do aluno (artigo 2º). O plano de acompanhamento é elaborado no final do 3º Período. È aplicável aos alunos que tenham sido objecto de retenção em resultado da avaliação sumativa final do respectivo ano de escolaridade (artigo 3º). O plano de desenvolvimento é elaborado no final do 1ºPeríodo, quando o aluno demonstre capacidades excepcionais de aprendizagem (comprovadas por relatório de técnicos ou médicos especialistas) (artigo 5º). 26 Preâmbulo do Decreto-Lei n.º3/2008, de 7 de Janeiro. 27 Preâmbulo do Decreto-Lei n.º3/2008, de 7 de Janeiro. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 57 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ A 22 de Abril de 2008 foi publicado o Decreto-Lei n.º 75/2008, da autoria do XVII Governo Constitucional. O novo “regime jurídico da autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário”, preconiza, no seu preâmbulo o reforço da participação das famílias e comunidades na direcção das escolas e o favorecimento da constituição de lideranças fortes. Esperemos que na prática tal aconteça pois, segundo Alves-Pinto (1998), a garantia da autonomia da escola pública passa pela atribuição de poderes “da coisa pública” a um órgão da escola onde estejam representantes da comunidade (pais, autarcas, representantes dos interesses culturais e económicos), que não estejam sujeitos ao dever de obediência à hierarquia da Administração pública. Para a autora, uma escola autónoma “é uma escola que escolhe objectivos, que toma decisões. Que opta por determinadas estratégias para implementar as suas decisões e que consegue reflectir sobre os resultados que vai obtendo” (Alves-Pinto, 1998, p.18). O diploma supra-citado define como órgãos de direcção, administração e gestão dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas o conselho geral (órgão de direcção); o director (órgão de administração e gestão); o conselho pedagógico (órgão de coordenação e supervisão pedagógica e orientação) e o Conselho Administrativo (órgão deliberativo em matéria administrativo – financeira). A autonomia é definida como “a faculdade reconhecida ao agrupamento de escolas ou à escola não agrupada pela lei e pela administração educativa de tomar decisões nos domínios da organização pedagógica, da organização curricular, da gestão dos recursos humanos, da acção social escolar e da gestão estratégica, patrimonial, administrativa e financeira, no quadro das funções, competências e recursos que lhe estão atribuídos” (Artigo 8º), não existindo uma diferença substancial entre o âmbito da autonomia relativamente ao diploma de 1998 (Teixeira, 2009). Os principais instrumentos de autonomia definidos no diploma são o projecto educativo, o regulamento interno, os planos anual e plurianual de actividades e ainda, para efeitos de prestação de contas, o relatório anual de actividades, a conta de gerência e o relatório de auto-avaliação (Artigo 9º).28 28 O Decreto-Lei n.º115A/98, de 4 de Fevereiro definia como instrumentos de autonomia o projecto educativo, o regulamento interno e o plano anual de actividades. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 58 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ O contrato de autonomia constitui o instrumento de desenvolvimento e aprofundamento da autonomia dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas, sendo celebrado na sequência de procedimentos de auto -avaliação e avaliação externa. Por contrato de autonomia entende-se o “acordo celebrado entre a escola, o Ministério da Educação, a câmara municipal e, eventualmente, outros parceiros da comunidade interessados, através do qual se definem objectivos e se fixam as condições que viabilizam o desenvolvimento do projecto educativo apresentado pelos órgãos de administração e gestão de uma escola ou de um agrupamento de escolas” (Artigo 57.º).29 Refira-se que Teixeira (2009) ao analisar a autonomia das escolas na legislação portuguesa concluiu que este é “um conceito enganador já que nunca lhe foi atribuído substância” (p. 34) O diploma atribui a organização, o acompanhamento e a avaliação das actividades a desenvolver com os alunos e a articulação entre a escola e as famílias ao conselho de turma, com a seguinte constituição: os professores da turma; dois representantes dos pais e encarregados de educação; um representante dos alunos, no caso do 3.º ciclo do ensino básico e no ensino secundário. Quanto ao director de turma, apenas é referido que “para coordenar o trabalho do conselho de turma, o director designa um director de turma de entre os professores da mesma, sempre que possível pertencente ao quadro do respectivo agrupamento de escolas ou escola não agrupada (pontos 1 e 2 do Artigo 44º). Com a revogação dos Decreto -Lei n.º 115 -A/98, de 4 de Maio e do Decreto Regulamentar n.º 10/99, de 21 de Julho, o Governo criou, na nossa opinião, um vazio legal sobre as matérias constantes no Decreto Regulamentar. No entanto, o Despacho nº 19117/2008, de 17 de Julho veio esclarecer, no artigo 11º, que cabe ao conselho de turma: - sempre que possível, em momento anterior à elaboração dos horários para o ano lectivo seguinte, efectuar o diagnóstico, identificar as características e dificuldades de aprendizagem dos alunos da turma, assim como a elaboração do plano curricular da turma, concretizando planos e estratégias para colmatar as dificuldades (ponto 2); - o planeamento da leccionação dos conteúdos curriculares da disciplina, assim como o trabalho desenvolvido nas áreas curriculares não disciplinares, de modo a 29 Definido de modo idêntico no Decreto-Lei n.º115A/98, de 4 de Fevereiro (Artigo 48º). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 59 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ garantir a interdisciplinaridade do trabalho e uma eficaz articulação curricular, tendo em vista a melhoria dos resultados escolares dos alunos (ponto 4) ; - a leccionação das áreas curriculares não disciplinares é atribuída, preferencialmente, a docentes do conselho de turma (ponto 5); - no final de cada ano lectivo, deverá proceder a uma rigorosa avaliação do trabalho realizado e efectuar o planeamento do ano lectivo seguinte (ponto 10). Quanto ao trabalho a desenvolver pelo director de turma apenas, no artigo 11º, é referido que: - os docentes titulares da turma, disciplina e de educação especial que integram a equipa pedagógica são responsáveis pela evolução das aprendizagens dos alunos, sob a supervisão do director de turma (ponto 3); - no final de cada período, na reunião com os pais e encarregados de educação, o director de turma deverá prestar informação sobre os conteúdos programados e leccionados em cada uma das disciplinas, bem como sobre o número de aulas previstas e ministradas (ponto 9). O Despacho n.º 19308/2008, de 21 de Julho de 2008 define as três “áreas curriculares não disciplinares (área de projecto, estudo acompanhado e formação cívica) como espaços de autonomia curricular da escola e dos professores”30, e defende uma distribuição de serviço lectivo de forma a permitir a redução do número de professores por turma. Assim, o director de turma deve leccionar à mesma turma as disciplinas ou áreas disciplinares atinentes ao seu grupo de recrutamento, a área curricular não disciplinar de formação cívica e, sempre que possível, uma das áreas curriculares não disciplinares de área de projecto ou de estudo acompanhado. Gostaríamos de terminar referindo Castro, que ao analisar as competências atribuídas ao director de turma, as enquadra nas funções de Administração: planificação, organização, controlo e avaliação, o que a leva a problematizar “ estará correcta a terminologia “director de turma” - perante uma figura que não desenvolve, de facto, funções de direcção no seio de turma e da Organização em geral?”31(1985, p.84) 30 Preâmbulo do Despacho n.º 19308/2008, de 21 de Julho de 2008. 31 Segundo Teixeira (1994, p.34), “A direcção está ligada à definição das orientações gerais, ao controlo da execução, à capacidade para escolher os gestores. A gestão, essa, prende-se com a concretização, com a execução das orientações gerais e está sempre subordinada à direcção”. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 60 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ e considera ainda que o desempenho credível do cargo se encontra ameaçado, que existe o perigo de, na prática, o director de turma se entregar à monotonia do cumprimento restrito das normas, face à não exigência de uma especialização adequada para o cargo, às escassas forças motivadoras existentes, à ausência de condições e, até, por vezes, à resistência de outros actores (1995, p 85). Também Sá afirma que “a não consagração da exigência da capacidade de liderança, como requisito para o exercício do cargo de director de turma, merece-nos destaque porque pode significar que deste não se espera um papel de grande protagonismo ao nível da turma, cabendo-lhe antes tarefas essencialmente instrumentais, próprias de um amanuense” (Sá, 1997, p.58). 3. As funções do director de turma, numa perspectiva sociológica Segundo Alves-Pinto “a escola é um determinado conjunto de acções levadas a cabo por pessoas situadas num sistema de interacção caracterizado por determinados estatutos, papéis e regras de funcionamento (formal e informal)” (Alves-Pinto, 1995; p. 146). Nesta perspectiva, Teixeira para quem o professor é “um ser de relação numa profissão de relação” (1995, p.160), analisa as funções dos professores “no seio de uma rede de relações”, que considera segundo diversos tipos de interacção: - dos professores consigo próprios – uma função de relação; - dos professores com os alunos - função de promoção; - em relação aos outros professores – uma função de cooperação; - em relação aos pais dos alunos – função de complementaridade; -em relação aos outros profissionais da educação – uma função de descoberta; - em relação com a comunidade – uma função de extensão. Seguindo Teixeira iremos entender algumas das funções mencionadas como funções do director de turma, isto porque a meu ver, a dimensão mais relevante do director de turma se prende com as funções expressivas atribuídas a toda a educação. Salientando desde já que, como refere a autora, para que o professor/director de turma possa ser um centro positivo da relação com os outros actores do processo educativo, deve dar atenção a si mesmo e apostar no enriquecimento da sua dimensão de relação O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 61 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ (ibid, p. 111). Esta ideia é também partilhada pelos autores Heck e Williams (1984, pp. 1-13) que referem que só o professor que se compreende a si mesmo pode compreender verdadeiramente as crianças. O professor que não conhece a sua própria realidade contribui para o distanciamento que ocorre, muitas vezes, nas escolas; dado que o conhecimento do “eu” condiciona a experiência do “nós”. Neste contexto, a formação de professores é essencial. Para que o professor se sinta seguro de si e tenha segurança no que está a fazer, tem de estar sempre actualizado, precisa de investir na sua formação contínua (Teixeira, o.c. e Heck e Willians, o.c.) porque é a formação “que permite uma participação qualificada e o assumir de novos papéis quer se trate de professores que desempenham cargos de gestão de topo, ou de gestão intermédia, ou simplesmente se integrem em equipas de ensino” (Barroso, 1995, p.10). 3.1 O director de turma na relação com os alunos - função de promoção No que concerne à função de promoção, Teixeira (o.c., p.112 ) salienta que o centro da actividade do professor é o aluno. Assim, o professor, precisa de conhecer cada aluno e fazer com que ele deseje adquirir conhecimentos. Este desejo, segundo a autora, depende mais da relação que o professor estabelece com o aluno do que da forma como dá o programa. A chave do sucesso do “professor facilitador de aprendizagem”, é, pois, a sua capacidade de criar um ambiente que promova a curiosidade, o pensamento crítico, a independência intelectual e a autoconfiança dos alunos. Barroso defende que “O professor já não é o que transmite conhecimentos aos alunos, mas o que cria as condições necessárias para que estes aprendam. Ele é, portanto um organizador e disponibilizador de recursos, em conjunto com os seus colegas e, por vezes, outros adultos, quer na sala de aula, quer noutras dependências do estabelecimento de ensino, quer envolvendo alunos isolados, quer em pequenos ou grandes grupos, em actividades estritamente curriculares ou extra-curriculares, no interior ou no exterior da escola” (o.c., p.10). Com efeito, a “relação educativa frutuosa baseia-se na confiança que o aluno tem em quem o conduz para o mundo social, e na implicação pessoal dos dois parceiros num processo vivo de descoberta” (Postic, 2007 p.123). Ora, para compreender as necessidades únicas de um aluno no seu todo, o O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 62 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ professor precisa de ter consciência e de ser sensível às influências ecológicas inerentes aos contextos da sociedade em geral e da comunidade, em particular, em que funciona cada aluno (Heck e Williams, o.c., pp.51-57). É o director de turma que, regra geral, conhece melhor os alunos. Um director de turma (interessado) consagra, na parte inicial do ano lectivo, uma parcela significativa do tempo dedicado à direcção de turma à recolha e organização de informação acerca de cada aluno que vai completando ao longo do ano. O director de turma é professor de uma ou várias disciplinas do plano de estudos, é o responsável pela leccionação da Formação Cívica, acompanha os registos avaliativos que todos os docentes fazem no percurso dos alunos e recolhe informações nos contactos que faz com os encarregados de educação. Possuidor destes conhecimentos, o director de turma poderá orientar o aluno para além das actividades próprias do ensino-aprendizagem, na selecção de actividades extra-curriculares e até, nalguns casos, em colaboração com os Serviços de Psicologia e Orientação Vocacional, na escolha de caminhos conducentes à sua vida profissional futura. Para Zenhas (2006) o director de turma em vez de ver a criança como um elemento de um grupo – a turma, como a escola se inclina a fazer, tende a considerar a criança como pessoa, na sua individualidade e pode contribuir para que os restantes professores não a vejam apenas como um aluno entre os outros. Assim, “o director de turma deverá transmitir aos colegas estes elementos relativos à análise da situação da turma e debatê-los numa perspectiva formativa e construtiva, ou seja, acentuando a necessidade de usar este conhecimento da situação para adequar os processos de trabalho e as estratégias no sentido de conseguir para todos aprendizagens bem sucedidas, evitando leituras subjectivas eventualmente discriminatórias” (Roldão, 1997, p.10). Neste âmbito, Marques chama a atenção para os efeitos nefastos da sobrelotação das escolas, salientando que quanto mais alunos os professores tiverem em cada ano e quanto mais as escolas estiverem sobrelotadas tanto mais impessoais e desumanizadas serão as relações que se mantêm, afirmando que “quanto menos tempo o director de turma tiver para comunicar com os alunos, mais difícil será a sua integração escolar” (Marques, 1997, p. 37). Um estudo realizado por Sá (1997, p.107) revela que a maioria dos directores de turma (56,1%) julga possuir uma imagem positiva junto dos seus alunos considerando mesmo que estes os vêem como "um amigo/confidente". Por seu lado, as O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 63 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ representações menos gratificantes para a auto-imagem do director de turma são pouco referidas. Esta imagem autopositiva referenciada pelos directores de turma nem sempre surge legitimada pelos alunos. De facto, num estudo de Castro (1995), sobre o papel do director de turma na Escola Básica, apenas 32,2% dos inquiridos vêem no seu director de turma como "o professor em quem os alunos confiam e a quem fazem confidências", enquanto 46,8% percebem o seu director de turma como "o professor que faz queixas dos alunos aos pais/encarregados de educação". Além disso, são mais os alunos que recordam os directores de turma dos anos anteriores "com indiferença" (43,5%) do que os que os recordam "com agrado" (40,3%) e alguns (12,1%) recordamnos mesmo "com desagrado". A representação dominante que os alunos inquiridos (87,1%) têm do seu director de turma é a do "professor que informa os pais/encarregados de educação sobre o aproveitamento, comportamento e faltas dos alunos”. Por outro lado, estudos mais recentes, já referenciados, de Alves-Pinto (2008), Borges (2008) e Teixeira (2008) mostram que a representação que os alunos têm da sua relação com o professor é tendencialmente bastante positiva. No que concerne às relações estabelecidas entre aluno e director de turma, Teixeira (2008) conclui que “uma expressiva maioria (dos respondentes) assume que o director de turma se interessa pelos seus problemas, ajuda a resolver os problemas que surgem entre alunos e professores e os ajuda mesmo quando “fazem asneiras”” (p. 91)·. 3.2 O director de turma na relação com os outros professores - função de cooperação Teixeira (1995, pp.113-114) considera que para o professor ter a auto-estima necessária para assumir com êxito a profissão, face à carga relacional que ela comporta, necessita de se sentir apoiado. Também para Heck e Williams (1984, p.14) a interacção entre os professores é vital para o crescimento profissional e para o desenvolvimento do programa educativo. A interacção promove-se e é facilitadora num ambiente onde se estabelece uma relação de confiança entre os colegas. Dado que a vida pessoal e profissional do professor não podem estar completamente separadas, é O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 64 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ necessário estabelecer nas escolas, entre os professores, um clima que facilite o desenvolvimento pessoal e profissional do professor. A partilha de experiências com outros professores permite ao professor “encontrar – se a si mesmo”, bem como desenvolver sentimentos de pertença (à escola, ao grupo, …) que são decisivos para o desenvolvimento de uma visão própria mais positiva. A visão positiva do “eu” fornece segurança e traduz-se em sentimentos positivos para com os outros. Roldão defende que a gestão curricular32 implica o envolvimento do professor, ao nível micro da sala de aula, ao nível meso o delegado de disciplina (ou o coordenados do departamento curricular) e o director de turma e a nível macro, os responsáveis pela gestão e direcção da escola. As funções do director de turma colocam–no na “interface” da docência e da gestão, já que, junto dos docentes da turma, desempenha “uma função de coordenação – das articulações de cada um deles no âmbito da respectiva área de docência -, e de articulação/mediação entre essa acção dos professores e os restantes actores envolvidos no processo educativo: os alunos e os encarregados de educação”(o.c., p.3). Ao director de turma cabe coordenar/dinamizar a reconstrução, a diferenciação a adequação curricular e a adequação do currículo.33 Deve, entre outras tarefas, 32 Segundo Roldão (2007) a « gestão curricular envolve todo o conjunto de processos e procedimentos através dos quais se tomam as decisões necessárias quanto aos modos de implementação e organização de um currículo proposto, no quadro de uma instituição escolar. Incluem-se nestes processos, por exemplo, o estabelecimento de objectivos e conteúdos prioritários e respectiva sequência, a definição do nível de aprofundamento e desenvolvimento das diferentes componentes curriculares, a sequência temática a adoptar, as metodologias a privilegiar, os projectos a desenvolver, as modalidades de integração interdisciplinar a promover » ( p.1). 33 « Reconstrução curricular - diz respeito a todo o processo de reajuste do currículo à situação real que se enfrenta, o que implica reequacionar, em termos da situação específica da turma (...) os objectivos, conteúdos e conceitos propostos no currículo formal. A diferenciação curricular - refere-se a todo o processo de diferenciação de estratégias e ritmos de trabalho correspondentes às características de indivíduos ou grupos dentro de uma dada turma, de forma a permitir a coexistência de diversas actividades dirigidas para objectivos de aprendizagem comuns. Adequação curricular - Trata-se de articular o currículo com características especificas dos alunos com que trabalha.(...) O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 65 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ fomentar a coordenação interdisciplinar e orientar a harmonização das práticas pedagógicas dos diferentes professores, tendo em conta as características dos alunos. A coordenação da articulação curricular, visando a integração das aprendizagens num todo com sentido aos olhos dos alunos e não como segmentos curriculares separados que nada têm a ver uns com os outros constitui um grande desafio do Conselho da Turma. Esta tarefa implica o estabelecimento consensual de um perfil de competências necessárias ao aluno que se pretendem desenvolver através do conjunto das disciplinas e áreas curriculares; a estruturação das actividades de aprendizagem da turma como um todo coerente e adequado às suas características, necessidades e potencialidades; bem como a clarificação de atitudes e valores a promover, e por que meios, através do trabalho concertado dos diversos docentes, de modo a evitar indesejáveis contradições inter-docentes, com que os alunos terão dificuldade em lidar. Hutmacher (1992) chama a atenção para o facto de, nas escolas, em geral, existirem poucas permutas de conhecimentos entre os professores, o que “dá um estatuto paradoxal ao saber escolar: os alunos são chamados a investir em todos os ramos do plano de estudos, enquanto os professores podem ignorar os saberes exteriores à sua disciplina” (p.68). O autor salienta que para a escola para aprender “precisa de mobilizar os conhecimentos e as competências dos seus membros para realizar os seus objectivos e enfrentar os acontecimentos quotidianos”(pp.67-68) o que implica acabar com o isolamento dos saberes e saber -fazer pedagógicos. Sá (1997, p.129-132) salienta que ser director de turma representa ser director dos alunos, e não dos professores. Tendo em conta a identidade disciplinar e o individualismo pedagógico que caracteriza os professores, a coordenação dos docentes pelo director de turma não é tarefa fácil. Qualquer tentativa de exercer um controlo mais apertado sobre os desempenhos individuais, é apercebida como uma afronta, tendendo por isso a gerar conflitos, imperando a “lógica da confiança”. Confiase que, ao nível da sala de aula, de acesso reservado, o colega implemente o que é decidido no Conselho de turma. Na visão dos seus pares, o director de turma é alguém que pode e deve ser o mediador adequado quando surgirem conflitos. Quando essas situações aparecem, o director de turma ganha força, quando intervém no sentido de Construção curricular - Falamos aqui daqueles espaços de intervenção em que os professores criam currículo, ... » (ibid, p.9). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 66 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ repor o equilíbrio perdido. 3.3 O director de turma na relação com os pais dos alunos - função de complementaridade As competências atribuídas ao director de turma no âmbito da relação escola família, nos textos legais, são a articulação entre os professores da turma, os alunos e os encarregados de educação e a articulação das actividades da turma com os encarregados de educação, promovendo a sua participação. Segundo Marques (1997), em atendimentos individuais e/ou em reuniões gerais, o director de turma além de informar os encarregados de educação sobre o comportamento, assiduidade e aproveitamento dos respectivos educandos; sobre os objectivos e conteúdos das várias disciplinas, e normas de funcionamento interno da escola, deve ainda estimular as relações entre encarregado de educação e escola. No entanto, a dificuldade de trazer os pais à escola é uma das queixas dos professores/directores de turma que, diga-se em abono da verdade, também lamentam os “excessos de participação” de alguns encarregados de educação. Zenhas (2006) considera que “o tipo e a qualidade do trabalho desenvolvido no exercício do cargo de direcção de turma, no âmbito da relação com a família, dependem muito do indivíduo que o ocupe, dada a inexistência da definição de um perfil, a inexistência de formação específica dos professores para este cargo e a forma vaga como a lei estabelece as suas competências de relação com a família” (p.49). “Os teóricos da escola de Palo Alto dizem, tudo é comunicação” (Amoureux, 1996, p. 84) e nós acrescentamos que nem sempre a comunicação director de turma/pai é fácil. O director de turma tem que lidar com uma multiplicidade de pais, com motivações, temperamentos, expectativas, formações e características pessoais diferentes. O director de turma como ponte comunicativa entre a escola e a família, tem de estar atento à linguagem que utiliza e à sua adequação às características das famílias, pois a forma como a comunicação director de turma/pais se processa pode contribuir para incentivar ou desmotivar o relacionamento dos pais com o estabelecimento de O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 67 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ ensino. Davies (2003) aconselha a “comunicação inteligente” como uma prática a utilizar para promover uma maior colaboração com as famílias 34. Neste âmbito parecenos pertinente referir Amoureux (1996, pp. 77-111) que defende que para enriquecer o conteúdo da comunicação, o emissor poderá preparar as mensagens estruturando-as sobre a essência e sobre a forma; prestar tanta atenção ao interlocutor como à mensagem que quer passar; dar a palavra ao outro para escutar o que ele compreendeu e as necessidades de clarificação; estar pronto para integrar as reacções do interlocutor; pensar mais no objectivo a conseguir do que nos argumentos a fazer passar e vigiar todos os sinais de enfadamento da comunicação. O autor faz também algumas recomendações para melhorar os processos de comunicação: o emissor deve treinar-se a nomear e a exprimir emoções; falar em nome próprio e convidar o outro a fazer o mesmo; envolver-se na comunicação, ultrapassando o nível de passatempo (conversa na qual nada de novo se dá nem se recebe); recorrer ao “ponto da situação” sobre o modo como cada um dos interlocutores vive a troca e identificar os pontos fortes e fracos do estilo pessoal de comunicação. Câmara et al, (1997, p.349) alertam para o facto de “uma determinada mensagem verbal pode dar origem a diferentes significados, dependendo do não verbal (tom de voz, expressão facial, etc); do conhecimento que os intervenientes possuem um do outro; do tipo de relação que têm e dos seus antecedentes, das diferenças individuais, do contexto em que a relação decorre, etc.”. Marques (1997) salienta que o director de turma não tem, muitas vezes, experiência e preparação pedagógica necessária para o exercício das suas funções; que a redução horária que lhe é concebida não chega para realizar um trabalho continuado com os pais e que muitas escolas não dispõem de espaços adequados o director de turma receber os encarregados de educação. O autor acrescenta ainda que no que concerne aos pais de “baixo nível cultural”, “a escola não está preparada para os receber e, por vezes, não deseja recebê-los” (p.13). Neste contexto, pensamos que o cargo de director de turma deveria carecer de formação específica, nomeadamente em conhecimentos e competências em técnicas de comunicação. A comunicação seria, por conseguinte, uma componente importante 34 « comunicação inteligente significa conhecer as diferentes audiências que quer atingir e o desenho dos meios para o fazer» (Davies, 2003, p.87). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 68 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ na sua formação de base e na sua formação contínua. 3.4 O director de turma na relação com os outros profissionais da educação função de descoberta Teixeira (1995, pp.119-121) lamenta que, nas escolas, professores e pessoal trabalhem lado a lado mas “de costas voltadas” uns para os outros. Num estudo que realizou, 79,2% dos professores respondentes declararam-se satisfeitos com o relacionamento existente entre professores e pessoal não docente; 10,7% não se consideraram satisfeitos nem satisfeitos; 4,2 % declararam-se insatisfeitos e 6,8% não responderam à questão. Apesar dos resultados satisfatórios obtidos, a autora refere que é necessário que se investigue o sentido da satisfação declarado pelos professores. Com a passagem de escola “serviço local do Estado” a “escola comunidade educativa”35, cabe à comunidade educativa a conquista da autonomia da sua escola, neste âmbito Barroso (1995) defende que a cultura de participação na escola passa pela forma como se efectua a interacção entre os diversos actores e pelo modo como se decide, se organiza e se realiza o trabalho, desde a sala de aula, à escola no seu conjunto e à sua relação com a sociedade local. Acrescenta ainda que os membros do pessoal não docente deverão integrar as estruturas e as redes de participação da escola, na sua qualidade de adultos com responsabilidades educativas e como técnicos de apoio logístico às actividades de ensino, embora seja necessário uma maior especialização destes trabalhadores e a diversificação das suas competências e qualificações Heck e Williams (o.c.) chamam a atenção para o papel fundamental do pessoal não docente das escolas na educação dos alunos e salientam que os mesmos devem 35 A “comunidade educativa” é definida no Estatuto do Aluno do Ensino não Superior (Lei n.º30/2002, de 20 de Dezembro), de uma forma abrangente, integrando “ os alunos, os pais e encarregados de educação, os professores, os funcionários não docentes das escolas. As autarquias locais e os serviços da administração central e regional com intervenção na área da educação, nos termos das respectivas competências”(Artigo 4.º, ponto3.º) O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 69 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ ser integrados nas actividades desenvolvidas na escola. Também Teixeira (o.c.) defende que, tendo em vista a formação integral dos alunos, a cooperação entre professores e pessoal não docente é importante dado que as relações estabelecidas entre professores e funcionários “dão aos alunos uma perspectiva das relações que os adultos são capazes de manter entre si” (p.120). No entanto, Alves-Pinto (1995) lamenta o facto de “nada se tem feito para facilitar a socialização destes intervenientes quotidianos no processo educativo”, salientando que “eles são chamados a desempenhar funções e tarefas educativas numa escola que desconhecem em muitos aspectos”(1995, p.115). Gostaríamos de terminar com uma belíssima lenda persa que, no contexto escola, pode significar que a participação de todos os intervenientes no processo educativo não é só um direito, mas também um dever e que só assim se conseguirá resolver muitos dos problemas da escola actual. Na aurora dos tempos, os deuses distribuíram a verdade, entregando a cada pessoa uma pequena parte. De modo que para se reconstruir a verdade, era necessário que cada qual contribuísse com o seu quinhão. Nenhuma destas partes é insignificante ou desnecessária. Todas acabam por ser imprescindíveis para a reconstrução da verdade. Segundo esta formosa lenda, verdade e comunicação seriam duas faces da mesma moeda. A participação não é só um direito de toda e qualquer pessoa, mas também um dever que permite a reconstrução da verdade. (Guerra, 2005, p.117) O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 70 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ II- Lideranças educacionais. O caso do director de turma A liderança é um conceito que tem vindo a ocupar um lugar central na investigação e na reflexão em torno das organizações. Segundo a visão mecanicista da liderança (desenvolvida desde os anos 40 até ao início dos anos 80), o líder era alguém que possuía determinadas características – inatas (líder nato), adquiridas através do treino (líder treinado), adquiridas e ajustáveis aos contextos (líder ajustável) – que o distinguiam dos outros membros organizacionais e o levava a conduzir, de forma mecânica, o processo de influenciar os outros a atingir os objectivos prédefinidos. Na década de 80, com a visão cultural da liderança, surge o líder cultural, ou seja, “aquele que centra a sua acção na criação e na gestão da cultura da organização (manipulando valores, rituais cerimónias, histórias, heróis e toda uma série de artefactos simbólicos) de modo a criar nos membros da organização um sentido para a realidade, uma mobilização colectiva para a acção sustentados por uma determinada visão organizacional “ (Costa, 2000, p. 23). Nos nossos dias, as organizações são vistas como flexíveis, instáveis e imprevisíveis e a liderança passa ser vista não como um atributo dos líderes formais, mas sim como uma actividade dispersa que percorre a organização na sua totalidade (visão ambígua da liderança), fazendo mais sentido falar em lideranças do que em liderança, mais nos líderes do que no líder (ibid, p. ). 1. Teorias sobre estilos de liderança Segundo Chiavenato (1999) a liderança é um fenómeno social que apenas ocorre em grupos sociais e nas organizações e pode ser definida como “uma influência interpessoal exercida numa dada situação e dirigida através do processo de comunicação humana para a consecução humana de um ou mais objectivos específicos” (p.558). Assim, a liderança é caracterizada por quatro elementos: a influência, a situação, o processo de comunicação e os objectivos a alcançar. O autor descreve os três diferentes estilos de liderança usados num estudo de White e Lippit - que procurava verificar a influência de diferentes estilos de liderança O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 71 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ nos resultados de desempenho e no comportamento das pessoas -, que sintetizámos no quadro seguinte: Caracterização de tipos de liderança (Os três estilos de White e Lippit) Tipos de liderança Autocrática Ênfase no líder no Liberal grupo (laissez-faire) no líder Democrática e no grupo Características O líder (chefão): - centraliza totalmente a autoridade e as decisões; - é dominador, emite ordens e espera obediência plena e cega dos subordinados; - é temido pelo grupo, que só trabalha quando ele está presente; - não dá nenhuma liberdade de escolha aos subordinados. Subordinado: - obedece, aceita cegamente, desconhece. O líder (mero colega): -permite total liberdade para a tomada de decisões individuais ou de grupo, participando delas apenas quando solicitado pelo grupo; - tem um comportamento evasivo e sem firmeza; - é ignorado pelo grupo. Subordinado: - faz o que quer e quando quer. O líder (impulsionador): -é extremamente comunicativo, encoraja a participação das pessoas e preocupa-se igualmente com o trabalho e com o grupo; - actua como um facilitador para orientar o grupo, ajudando-o na definição dos problemas e nas soluções, coordenando actividades e sugerindo ideias. Subordinado: - colabora, participa, sugere, decide, ajuda, coopera “Na prática, o administrador utiliza os três tipos de liderança de acordo com a tarefa a ser executada, as pessoas e a situação. O administrador tanto manda cumprir ordens como sugere aos subordinados a realização de certas tarefas, ou ainda os consulta antes de tomar alguma decisão. O desafio está em saber quando aplicar cada estilo, com quem e em que tarefas a serem desenvolvidas.” (Chiavenato, p. 566) O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 72 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 2. O director de turma enquanto líder Segundo Costa (o.c., pp. 29-30), dada a especificidade da missão das organizações escolares, que é uma missão essencialmente pedagógica e educativa, a liderança escolar deverá ser concebida como uma liderança de tipo educativo e pedagógico que se encontra distribuída pelos vários sectores educativos; que é entendida de modos distintos no que diz respeito aos conteúdos, aos processos e aos estilos, tendo em conta as diferentes culturas, contextos organizacionais ou situacionais onde ocorre; que “deverá desenrolar-se no sentido da revitalização da democracia e da participação de todos os implicados nos processos educativos, assumindo assim uma feição emancipadora e facilitadora na capacidade de decisão colectiva” (p.29) e, enquanto processo que se desenrola inter pares, implica uma liderança colaborativa, colegial e solidária, respeitadora das autonomias individuais e grupais e exercendo-se em conjunto com elas. Ao longo desta exposição houve já oportunidade de referir o papel de liderança que o director de turma é chamado a desempenhar, tanto na acção instrumental da realização de tarefas quanto ao nível do cumprimento das actividades pedagógicas que lhe estão inerentes e que implicam o estabelecimento de relações interpessoais de diferentes tipos e com diferentes interlocutores. Face à posição estratégica que ocupa em relação a outros actores educativos (alunos, professores, pais e encarregados de educação), o director de turma assume uma particular relevância no seio da organização escolar como coordenador de todo um processo de socialização e estimulação dos seus alunos, contribuindo, claramente, para a sua formação integral; bem como coordenador do trabalho dos professores da turma, mobilizando-os para a construção de um projecto curricular de turma, numa perspectiva de desenvolvimento integral de todos e cada um dos alunos. Barroso defende que “No caso das equipas de trabalho enquanto forma de promover a participação na gestão e funcionamento da escola, o líder deve ter as características e competências necessárias para desempenhar as seguintes funções: - ser um animador qualificado capaz de ajudar a equipa a definir os seus objectivos e a programar as suas actividades de acordo com as finalidades internas e externas que presidiram à sua constituição; O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 73 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ - ser um «agente de desenvolvimento» capaz de reconhecer e utilizar as competências individuais dos membros da equipa para promover a realização do trabalho colectivo; - ser um moderador dos conflitos e tensões existentes no grupo, contribuindo para a criação de um clima favorável à realização da tarefa de que a equipa foi incumbida; - ser um promotor da livre circulação da informação na equipa, nomeadamente através de uma boa condução das suas reuniões.” (Barroso, o.c., p. 22). No caso concreto do director de turma, Roldão defende que a eficácia do funcionamento do conselho de turma depende muito da sua estratégia como líder, nomeadamente na gestão as relações pessoais/ profissionais dentro do conselho, nomeadamente: - “conhecendo os objectivos e natureza das áreas curriculares com que cada professor trabalha; - valorizando todas as áreas disciplinares e o seu contributo para a formação integral dos alunos; - conhecendo bem os professores, os seus modos de trabalhar e as suas preferências em termos de tarefas cooperativas; - apelando e dinamizando a responsabilização e participação de todos no trabalho comum a desenvolver relativamente à turma.” (Roldão, o.c., pp. 28-29). Por outro lado, a autoridade e o poder do director de turma merecem também a nossa reflexão36. Castro refere que “pese embora a sua (do director de turma) “autoridade hierárquica ou formal” se situar a um nível muito restrito (…) o sucesso /insucesso da sua actividade assentará fundamentalmente na sua “autoridade funcional”, conquistada 36 Pela voz de Castro (o.c.), Max Weber define autoridade como « a probabilidade de que um mandato de ordem específica seja obedecida, representando o poder institualizado - legitimado por um cargo, posição ou papel” e poder como “a probabilidade que um actor tem dentro de uma relação social de impor ou realizar a sua própria vontade apesar da resistência e a despeito da base em que se fundamenta essa probabilidade”. A autora salienta “que o “poder” está essencialmente ligado à personalidade dos indivíduos e à sua capacidade profissional, enquanto que a “autoridade” está sempre associada a cargos, posições ou papéis sociais (Castro, 1995, p.109) O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 74 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ através da competência humana e profissional reveladas no exercício da sua actividade ”(1995, p.123)37 Sá (1996, pp.144-148 ) parte da tipologia de poder de Formosinho 38 e defende que a aplicação dos poder físico e poder material ou remunerativo não tem qualquer legitimidade na caracterização da acção do director de turma em contexto escolar. O poder normativo do director de turma pode ser algo dificultado devido à diversidade de ideologias pedagógicas que caracterizam o corpo docente. No entanto, o apelo à consciência profissional dos professores poderá ser um dos recursos dos directores de turma para influenciar as acções organizacionais ao nível do conselho de turma 39. A inexistência de uma preparação específica para o exercício de funções de gestão intermédia impede o director de turma de convocar o poder cognoscitivo, pois o saber de especialista do director de turma decorre da sua condição de professor e não da de gestor pedagógico intermédio, uma vez que esta não carece de formação específica. A superioridade hierárquica do director de turma em relação aos professores da turma, base essencial do poder autoritativo ou de autoridade também nem sempre é 37 « A autoridade formal” tem como bases a legitimidade e a posição na hierarquia. A “autoridade funcional” deriva da competência pessoal e profissional revelada. Segundo Castro estas concepções são defendidas pelos autores Peabody e Hartman (ibid,p.110). 38 Segundo Sá (1996,p.144-148) a tipologia de poder de Formosinho discrimina os seguintes poderes: o poder físico, poder material ou remunerativo, poder normativo (moral e ideológico), poder cognoscitivo (cognoscitivo académico e cognoscitivo pedagógico), poder autoritativo ou de autoridade e poder pessoal. O poder físico tem por base a superioridade física de quem o exerce. O poder material ou remunerativo materializa-se na distribuição de recompensas materiais. O poder normativo baseia-se na manipulação de recompensas simbólicas: morais (poder normativo moral) ou ideológicas (poder normativo ideológico). O poder cognoscitivo tem a sua base no saber profissional. Nas organizações educativas esse poder pode ser dividido em cognoscitivo académico (saberdisciplinar) e cognoscitivo pedagógico (capacidade para o transmitir). O poder autoritativo ou de autoridade decorre do cargo exercido. O poder pessoal é independente do poder que o actor organizacional possui em virtude da sua posição dentro da estrutura hierárquica da organização, está associado a uma personalidade. 39 Para Sá (ibid, p.147), o leque de significações que a expressão consciência profissional pode assumir para os diferentes professores pode variar entre a orientação para o cliente (acepção sociológica) e a fidelidade aos pares (acepção ideológica). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 75 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ reconhecida pelos pares, dado que o director de turma não dispõe, no essencial, de competências próprias de um órgão de direcção40. Já o poder pessoal, não resultando do cargo exercido ou da posição que se tem na organização, depende de quem exerce o cargo. 3. Perfil de director de turma Gostaríamos de iniciar este item com duas perguntas que consideramos bastante pertinentes da autoria de Sá (ibid, p.151): ““Nasce-se” director de turma ou serão as competências consideradas necessárias para o “bom” desempenho desse cargo susceptíveis de uma aprendizagem? E, neste último caso, será a formação geral para o exercício da docência suficiente ou será necessário uma formação específica complementar?” Num estudo por si realizado, Sá concluiu que “as qualidades pessoais” do director de turma constituem o factor considerado mais relevante para o “bom desempenho do cargo”, a grande distância, por exemplo, da “formação especializada”. Enquanto 78,5 % dos professores incluem o primeiro factor entre os três que consideram mais relevantes, apenas 41% incluem a formação especializada para o exercício do cargo dentro desse grupo. A “regular participação dos pais” surge como o segundo factor mais valorizado para o 'bom desempenho do director de turma. Os 33,9% docentes que se inclinaram pelo item - “maior consciência profissional dos professores”- deixam transparecer alguma crítica ao desempenho profissional dos pares. Apenas 8,9% dos professores integraram a “articulação entre o desempenho do cargo e a progressão na carreira” nas três condições mais relevantes, o que pode indiciar a pouca receptividade em relação à eventual profissionalização do cargo de director de turma. A redução da carga lectiva do director de turma, apesar de reclamada de forma quase unânime, não aparece fortemente ligada ao bom desempenho do director de turma e menos relevante ainda é a redução do número de alunos por turma. Para Sá estes dados, no essencial, suportam a ideia de que o “director de turma não se faz”, que o “bom director de turma” é aquele que é um líder 40 Na nossa opinião, o novo Estatuto da Carreira Docente permitia conceber um conselho de turma em que todos os professores eram professores titulares, com excepção do seu director! O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 76 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ natural e que o que verdadeiramente conta são “as qualidades pessoais”, traduzidas na dedicação, na capacidade de diálogo, na capacidade de negociação e na sensibilidade para tratar de assuntos delicados O mesmo estudo revela ainda que mais de metade dos professores da amostra utilizada que na altura eram ou já tinham sido directores de turma consideravam que a necessidade de “completar o horário” era uma das razões mais plausíveis para terem sido nomeados para o exercício do cargo, o que leva o autor a concluir que os constrangimentos com que os conselhos directivos se debatiam no momento de seleccionar os directores de turma, pressionavam-nos no sentido de optarem por soluções pragmáticas (ibid, p.152-153). Saliente-se que, de acordo com o já mencionado Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de Abril, o director de escola, ao designar o director de turma apenas deve respeitar que o mesmo seja professor da turma e, sempre que possível, pertença ao quadro do respectivo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, ou seja, a exigência de formação específica está ausente dos requisitos para se ser director de turma, facto que lamentamos porque “quanto menor for a preparação científica, psicológica e pedagógica dos directores de turma, mais difícil será estimular o desenvolvimento pessoal e social dos alunos e mais longe estaremos dos objectivos educacionais da Lei de Bases do sistema educativo” (Marques, 1997, p.37). Os autores Heck e Williams (1984) defendem que a liderança educativa implica a integração e interligação das qualidades pessoais e da competência profissional, dado que o verdadeiro líder é uma fonte de apoio para os outros e distingue-se pela capacidade de libertar o “potencial humano”, o que requer uma apreciação e compreensão dos sentimentos e sensibilidades especiais dos outros. Parece-nos que a noção de liderança referida vai de encontro ao estipulado na Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais (…) ” (Ponto 2 do Artigo 26.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem, 10 de Dezembro de 1948). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 77 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Apesar de mencionar que a teoria de traços de personalidade41 não tem em conta a situação dentro da qual actua o líder e que as características de personalidade geralmente não são medidas de maneira precisa, Chiavenato (o.c., p. 561), identifica alguns traços de personalidade desejáveis no líder: inteligência, optimismo, calor humano, comunicabilidade, mente aberta, espírito empreendedor, habilidades humanas, empatia, assunção de riscos, criatividade, tolerância, impulso para a acção, entusiasmo, disposição para ouvir, visão do futuro, flexibilidade, responsabilidade, confiança, maturidade, curiosidade e perspicácia. Baseada numa revisão da literatura Zenhas (2006, pp.50-53) identificou diversas competências importantes para o exercício do cargo: competências de comunicação (verbal e não verbal); de relacionamento interpessoal (empatia, autenticidade, disponibilidade para prestar apoio, cooperação, compreensão de outras culturas, percepção e respeito pelas diferenças sociais e culturais); competências de resolução de problemas; conhecimentos em microaconselhamento42 e em gestão de conflitos. Também Sá afirma que “a não consagração da exigência da capacidade de liderança, como requisito para o exercício do cargo de director de turma, merece-nos destaque porque pode significar que deste não se espera um papel de grande protagonismo ao nível da turma, cabendo-lhe antes tarefas essencialmente instrumentais, próprias de um amanuense” (Sá, 1997, p.58). Na nossa opinião todas as competências mencionadas são importantes para que o director de turma possa cumprir a sua missão fundamental: apoiar o sucesso pessoal dos alunos. De facto, o director de turma tem de relacionar-se com muitas pessoas e o seu sucesso depende do clima de comunicação, de colaboração e, até, de relação amistosa que consiga criar com todos (e cada um) os elementos com quem tem de interagir. Em concordância com Castro, acrescentamos ainda que a definição de critérios que devem presidir à selecção dos directores de turma e a exigência da necessidade de formação adequada para o exercício do cargo são urgentes e fundamentais e que precisam de ser complementadas por “condições institucionais e medidas organizacionais que permitam um desempenho digno de tão importante 41 As mais antigas teorias sobre liderança preocupavam-se em identificar os traços de personalidade capazes de caracterizar os líderes. 42 O microaconselhamento é uma abordagem orientada por competências que tem como objectivo ajudar as pessoas a relacionarem-se eficazmente com os outros. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 78 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ cargo” (o.c., p.217), face à importância e polivalência da actividade do director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 79 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Conclusões Do director de turma, enquanto professor, espera-se que instrua, eduque e exerça uma actividade de intervenção educativa no meio. Estas funções estão expressas na Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86, de 14 de Outubro) e no Estatuto da carreira docente (Anexo III do Decreto-Lei nº 15/2007), que representam, respectivamente, o mandato que a sociedade confia aos professores e os termos do contrato que estabelecem com o Estado, entidade empregadora. O estudo dos textos legais que têm tratado a problemática das funções específicas do director de turma, permitiu-nos concluir que a tríplice função do Director de turma (relação com os alunos, relação com os encarregados de educação e relação com os professores) permanece desde a criação do cargo até aos nossos dias. A partir dos anos 90 exige-se ainda mais ao director de turma: - foi-lhe atribuída a função de coordenar o conselho de turma na elaboração de um plano de trabalho (Decreto-Lei n.º 115-A/98, de 4 de Maio), tendo como objectivos a organização, o acompanhamento e a avaliação das actividades a desenvolver com os alunos. O plano de trabalho foi, posteriormente, substituído pelo projecto curricular de turma (Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de Janeiro), o qual deve ser contextualizado de acordo com a especificidade de cada escola e, em particular de cada grupo turma ; - com a reorganização curricular (definida no Decreto-Lei n.º 6/2001, de 18 de Janeiro), o conselho de turma vê o seu papel acrescido na organização de processos de acompanhamento que assegurem uma maior qualidade das aprendizagens, implicando um reforço do trabalho colaborativo entre professores e, consequentemente, a intensificação da função de coordenação do director de turma. - o Despacho normativo 30/2001 de 19 de Julho (Avaliação das aprendizagens dos alunos do Ensino Básico) responsabiliza o director de turma pela organização do dossier individual do aluno e pela coordenação de tomada de decisões no que concerne à avaliação sumativa dos alunos ; - a Lei n.º30/2002, de 20 de Dezembro (Estatuto do Aluno do Ensino Não Superior) estipula a questão do controlo da assiduidade pelo director de turma e designa o director de turma como um dos agentes de controlo disciplinar ; O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 80 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ - pelo Despacho n.º50/2005, de 20 de Outubro, no âmbito dos apoios e complementos educativos, cabe ao director de turma a coordenação ao conselho de turma no tocante à elaboração e aplicação de planos educativos (planos de recuperação, de acompanhamento e de desenvolvimento), consoante as capacidades dos alunos e os resultados da avaliação sumativa; - o Decreto-Lei nº30/2008, de 7 de Janeiro prevê para alunos com necessidades educativas especiais a elaboração de um programa educativo individual que deve ser elaborado e avaliado pelo director de turma, pelo docente de educação especial, pelos encarregados de educação e por outros serviços, se necessário. Além das funções administrativas (organizar o dossier da turma, registar as faltas dos alunos, …) ao director de turma são atribuídas funções pedagógicas de grande responsabilidade que implicam o estabelecimento de relações interpessoais de diferentes tipos e com diferentes interlocutores: funções de promoção, de cooperação, de complementaridade e de descoberta. Para coordenar a adequação do trabalho à situação concreta do grupo-turma e à especificidade de cada aluno, o director de turma tem de acompanhar individualmente cada aluno, mas tem de trabalhar com todos os alunos inseridos no grupo-turma; tem de contactar e colaborar com cada encarregado de educação no acompanhamento do seu educando, em atendimentos individuais, mas tem de trabalhar com o colectivo dos encarregados de educação, em reuniões gerais; tem de ir contactando e articulando estratégias com cada um dos professores da turma, mas tem de o fazer igualmente com o colectivo de professores e finalmente é ainda chamado a estabelecer comunicação entre os vários intervenientes no processo educativo. “Poder pessoal” baseado nas suas capacidades comunicativas e relacionais e “poder normativo”, em determinados momentos e situações, serão condições imprescindíveis para o prestígio do director de turma junto dos actores educativos com quem interage e com quem tem de manter uma relação de inter-dependência (alunos, pais/encarregados de educação, professores da turma e director de escola).Todavia, saliente-se que o director de turma não tem, muitas vezes, nem a preparação nem as condições necessárias normativas e organizativas para o exercício das múltiplas funções que lhe são atribuídas. Neste âmbito, pensamos que o estatuto socioprofissional do director de turma deveria ser mais valorizado e que o cargo de director de turma deveria carecer de formação específica! O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 81 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Capítulo III Apresentação dos resultados do inquérito realizado Introdução Neste capítulo vamos descrever o estudo realizado e proceder à sua discussão, tendo por base o quadro teórico e conceptual abordado nos capítulos anteriores. O processo de recolha, tratamento e interpretação de dados, teve como objectivo fundamental averiguar as representações que os alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico têm do seu director de turma e das funções que ele desempenha. O inquérito por questionário constituiu a técnica utilizada para a recolha de dados, tendo sido aplicado à totalidade dos alunos do 2.º e 3.0 ciclos que em Fevereiro de 2009 frequentavam as escolas do Concelho de Condeixa-a-Nova. Os questionários foram aplicados em meados do mês de Fevereiro de 2009. Do exposto, deve concluir-se que a amostra sobre que trabalhámos não é representativa dos alunos que frequentam as escolas portuguesas no 2º e 3º ciclos do ensino básico no ano lectivo de 2008/09. Deve inferir-se também, como já tivemos oportunidade de realçar, que o nosso estudo não tem qualquer pretensão de assegurar uma generalização das conclusões encontradas, mas apenas dar um contributo para uma melhor compreensão da realidade. 1. O instrumento utilizado O questionário que aplicámos apresenta uma nota introdutória sucinta para elucidar os inquiridos quanto às suas finalidades, sendo garantido o seu total anonimato. Na primeira parte, pede-se aos alunos que respondam a itens relacionados com a caracterização do inquirido, tais como idade; sexo; ano que frequenta; se é repetente; se já repetiu algum ano antes e por último habilitações académicas dos pais. Na segunda parte, são apresentadas questões no âmbito da estrutura de Direcção de Turma, tendo por base o director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 82 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Na elaboração do questionário privilegiámos o recurso a questões fechadas, apresentando para cada questão um número relativamente amplo de alternativas de respostas previstas de entre as quais, consoante os casos, os inquiridos foram convidados a indicar a resposta com que concordam mais ou a que consideram que acontece mais frequentemente. Procurando também construir perguntas neutras, em determinadas questões indicámos umas respostas com opiniões favoráveis e outras com pareceres desfavoráveis. Com o objectivo de proporcionar ao inquirido a oportunidade de expressar de uma forma mais livre as suas opiniões introduzimos também três questões abertas. Para facilitar o posterior tratamento dos dados para as questões abertas, elaborámos previamente um conjunto de categorias fazendo de seguida corresponder cada uma das respostas a uma das categorias construídas. Procurámos conhecer a opinião dos alunos do 2º e 3ºciclos do ensino básico sobre a figura do director de turma nos seguintes aspectos: - funções desempenhadas; - relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos; - o director de turma como líder. No tocante às funções que o director de turma desempenha, procurámos saber o grau de importância global atribuído pelos alunos às mesmas, aferir se vêem o seu director de turma como instrutor ou como educador e quais as funções que os alunos consideram como funções do director de turma, inspirando-nos na tipologia de Teixeira (1995) sobre as funções sociológicas do professor. No que concerne ao relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos procurámos discernir o que pensam os alunos sobre a qualidade do mesmo, bem como auscultar a sua opinião sobre as relações estabelecidas entre o director de turma e os alunos e entre o director de turma e os pais/ encarregados de educação. Na dimensão das relações director de turma/aluno foram considerados os seguintes aspectos: interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos, intervenção e apoio, utilizando para o efeito uma questão da autoria de Teixeira (2008, p.89). Na dimensão das relações entre o director de turma e o encarregado de educação analisámos os seguintes itens: frequência com que os pais vão à escola falar com o director de turma; convergência de opiniões entre pais e director de turma, O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 83 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ utilizando para o efeito uma questão da autoria de Alves-Pinto (2008, p. 54); o que os pais esperam do director de turma (instrução/educação) e efeitos da comunicação entre pais e director de turma. Através de uma pergunta aberta, e inspirando-nos em Teixeira (1995, p. 116), quisemos saber também a opinião dos alunos sobre o conteúdo e o sentido da interacção estabelecida entre pais e director de turma, ou seja se as razões que levam os encarregados de educação a irem ao encontro do director de turma do seu educando, estão ligadas principalmente à instrução ou à educação e se os pais procuram dar ou receber informação. Dentro da problemática da comunicação entre a escola (director de turma) e a família, procurámos também conhecer o poder da criança como mensageira, inspirando-nos em Philippe Perrenoud (2001, pp.29-32 e pp. 37- 40). No que respeita ao estudo do director de turma como líder tentámos discernir a imagem que os alunos têm sobre o tipo de autoridade exercida pelo director de turma, face a problemas existentes na turma, inspirando-nos nos tipos de liderança de White e Lippitt: Autocrática, Democrática e Permissiva. Quisemos compreender também o que é, para os alunos, um bom director de turma através de duas perguntas abertas pedindo-lhes as características/qualidades que um bom director de turma deve possuir e características/defeitos que um director de turma não deve ter, que categorizamos em aspectos ligados à vertente humana e aspectos relacionados com a vertente pedagógica do director de turma. Começaremos por apresentar as características da amostra para, de seguida, analisarmos as respostas que obtivemos segundo as categorias enunciadas. Para estudarmos as eventuais diferenças de opinião, segundo as características dos respondentes, calculámos tabelas de contigência e com o recurso ao teste do 2 pudemos calcular a probabilidade de erro. Refira-se que o limite superior da probabilidade de erro que admitimos é de 0,05. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 84 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 2. Características da Amostra Como anteriormente afirmamos, a amostra do nosso estudo é constituída pelo total dos alunos (497) do 2º e 3º Ciclos do ensino básico que no ano lectivo de 2008/09 frequentaram escolas do Concelho de Condeixa-a-Nova com aqueles níveis de ensino. Seguidamente, procederemos à caracterização dos alunos segundo a idade, género, ciclo de ensino frequentado, histórico escolar– que se estabelece em duas categorias: nunca reprovou e já reprovou – e do nível de instrução familiar (NIF) – que se obtém através da majoração das habilitações literárias dos pais. Por idade – a grande maioria dos nossos respondentes situa-se nas faixas etárias intermédias (entre os 11 e os 14 anos). Por género – regista-se um equilíbrio entre sexos com ligeira preponderância do sexo masculino. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 85 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Por ciclo frequentado – Tendo adicionado as respostas obtidas por ano de escolaridade nos respectivos ciclos de ensino, concluímos que os alunos do 3ºCiclo constituem a maioria da nossa amostra. Por histórico escolar – verifica-se que o número de alunos que registam uma ou mais retenções ao longo do seu percurso escolar é elevado, embora a grande maioria nunca tenha sofrido qualquer retenção. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 86 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Por nível de instrução familiar – os níveis de instrução familiar são muito heterogéneos, como o quadro seguinte permite verificar. 3. Funções do director de turma O director de turma ocupa uma posição importante nas estruturas de coordenação educativa da escola. Sob a coordenação do director de turma resulta a possibilidade de execução de um trabalho participado por pais, alunos e professores. De facto, ao director de turma estão atribuídas as funções de acompanhamento de cada um dos alunos da turma (considerando o seu desenvolvimento global e não apenas académico) e a coordenação da intervenção concertada de todos os intervenientes no processo educativo, com destaque para os professores e os encarregados de educação. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 87 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.1 Importância das funções do director de turma Para globalmente discernirmos o grau de importância atribuída pelos alunos às funções desempenhadas pelo director de turma, pedimos aos nossos respondentes que o classificassem optando por uma de cinco alternativas: muitíssimo importantes, muito importantes, importante, pouco importante ou nada importantes. Os resultados obtidos são apresentados no quadro seguinte. Grau de importância Frequências Muitíssimo importantes 194 39,3% Muito importantes 181 36,6% Importantes 109 22,1% Pouco importantes 6 1,2% Nada importantes 4 0,8% Totais 494 100,0% Conclui-se que a grande maioria dos alunos que inquirimos (75,9%), considera muito ou muitíssimo importantes as funções desempenhadas pelo director de turma. Vale a pena lembrar um estudo realizado por M. Teixeira (1995, p.151), com professores, que aponta no mesmo sentido: 73,3% dos professores inquiridos consideraram o papel do director de turma “muito ou mesmo muitíssimo importante” para a organização global da escola e nenhum o considerou “nada importante”. 3.1.1 Variações do grau de importância atribuída às funções do director de turma segundo as características dos respondentes Para estudarmos as variações do grau de importância atribuída às funções do director de turma segundo as características dos respondentes, apresentadas no quadro que se segue, considerámos, separadamente, por um lado as respostas de muitíssimo importante, por outro as de muito importante e finalmente em conjunto as respostas de importante ou menos. 88 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Idade Graus de liberdade 2 observado Probabilidade observada Género Ciclo de ensino NIF Histórico escolar 6 2 2 6 2 72,40 1,75 57,60 9,26 13,97 0,16 0,0009 0,0000000000001 < 0,0001 0,42 0,0000000000003 < 0,0001 Verifica-se que o grau de importância atribuída às funções do director de turma não varia com o sexo nem com o nível de instrução familiar dos respondentes. Registase a baixa probabilidade de erro nas variações encontradas (inferior a 1 em 1000) segundo a idade, a etapa do percurso escolar (ciclo frequentado) e histórico escolar dos respondentes Para analisarmos as tendências registadas iremos apresentar as respectivas tabelas de contigência. 3.1.1.1 Importância atribuída às funções do director de turma segundo a idade .Idade [9,10] Importância das tarefas do director de turma [11,12] [13,14] [15,17] TOTAL Muitíssimo importantes [1,1] 64 69% 72 39% 50 29% 7 16% 193 39% Muito importantes [2,2] 21 23% 73 40% 76 44% 11 26% 181 37% Importantes ou menos [3,5] 8 09% 38 21% 48 28% 25 58% 119 24% 93 100% 183 100% 174 100% 43 100% 493 100% TOTAL Graus de liberdade=6 ; 2 observado=72,40, Probabilidade observada <0,0001 Por idade, verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui a muita importância atribuída às funções desempenhadas pelo director de turma. No outro extremo, verifica-se o inverso. Na nossa opinião, esta tendência pode estar relacionada com o facto de os directores de turma terem responsabilidades acrescidas na promoção da integração escolar dos alunos. Refira-se que esta função assume uma particular relevância na entrada dos alunos no 2ºciclo. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 89 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.1.1.2 Importância atribuída às funções do director de turma segundo o ciclo Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL Importância das tarefas do director de turma Muitíssimo importantes [1,1] 125 58% 69 25% 194 39% Muito importantes [2,2] 58 27% 123 44% 181 37% Importantes ou menos [3,5] 32 15% 87 31% 119 24% TOTAL 215 100% 279 100% 494 100% Graus de liberdade = 2; 2 observado = 57,60; Probabilidade observada <0,0001 Por etapa do percurso escolar, são os alunos do 2ºCiclo os que, em maior percentagem, têm uma opinião mais favorável sobre a importância das funções desempenhadas pelo director de turma. Esta tendência era esperada face aos resultados obtidos em função das idades dos alunos observados no ponto anterior. 3.1.1.3 Importância atribuída às funções do director de turma segundo o histórico escolar Histórico escolar Já repetiu Nunca repetiu Importância das tarefas do director de turma TOTAL Muitíssimo importantes [1,1] 28 29% 165 42% 193 40% Muito importantes [2,2] 32 33% 145 37% 177 36% Importantes ou menos [3,5] 37 38% 80 21% 117 24% TOTAL 97 100% 390 100% 487 100% Graus de liberdade = 2; 2 observado = 13,97 Probabilidade observada =0,0009 Por histórico escolar, são os alunos que nunca repetiram os que, em maior percentagem, atribuem maior importância às funções desempenhadas pelo director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 90 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.2 Director de turma: instrutor ou educador? Para compreendermos a representação que os alunos têm do director de turma, enquanto instrutor ou educador, construímos uma questão em que pedíamos aos discentes que classificassem o respectivo director de turma optando por uma das seguintes alternativas: “o professor que te espicaça para teres um bom aproveitamento”; “o professor que te incentiva a tratares com respeito os teus professores”; “o professor que informa os teus pais acerca do teu aproveitamento” e “o professor que procura que te relaciones bem com os teus colegas”. O que representa para ti o teu director de turma? O professor que te espicaça para teres um bom aproveitamento O professor que te incentiva a tratares com respeito os teus professores O professor que informa os teus pais acerca do teu aproveitamento O professor que procura que te relaciones bem com os teus colegas Totais FREQUÊNCIAS 199 40,4% 76 15,4% 135 27,4% 82 16,7% 492 100,0% Como o quadro anterior permite verificar, as respostas que reuniram um maior número de opiniões foram, em primeiro lugar a que se relaciona com o incentivo ao aproveitamento do aluno e, em segundo lugar, a que se relaciona com a comunicação deste mesmo aproveitamento aos pais Seguidamente, procedemos à recodificação dos itens. Para termos uma posição para o director de turma - instrutor agrupámos os aspectos “o professor que informa os teus pais acerca do teu aproveitamento” e “o professor que te espicaça para teres um bom aproveitamento”; a outra posição, para o director de turma – educador, foi encontrada associando “o professor que te incentiva a tratares com respeito os teus professores” e “o professor que procura que te relaciones bem com os teus colegas”. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 91 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Director de turma: instrutor ou educador? FREQUÊNCIAS Director de turma – Instrutor 334 67,9% Director de turma – educador 158 32,1% Totais 492 100% Decorrente da análise efectuada relativamente aos indicadores parcelares, verifica-se que a maioria dos respondentes vê o seu director de turma como um professor mais preocupado com os aspectos instrucionais do que com os aspectos educacionais. Curiosamente, este resultado vai de encontro ao estipulado no Novo Estatuto da Carreira Docente, em que a função instrucional toma particular relevo e a função educacional é reduzida em mais de 50% do seu peso relativo, em comparação com as funções do professor estipuladas no Estatuto da Carreira docente de 1990 (conferir Teixeira, 2007). De seguida iremos estudar as variações da imagem “director de turma: instrutor ou educador” segundo as características dos respondentes. Os valores do teste 2 das tabelas de contigência encontram-se no quadro seguinte. 3.2.1 Variações da imagem “director de turma: instrutor ou educador” segundo as características dos respondentes Idade Género 1 Ciclo NIF REP/REP 1 3 1 Graus de liberdade 3 2 observado 14,68 0,04 2,19 7,17 1,14 Probabilidade observada 0,002 0,84 0,14 0,07 0,28 Pela leitura da tabela, constata-se que a imagem que os nossos respondentes têm do director de turma como instrutor ou como educador só varia de forma estatisticamente significativa com a idade. A variação encontrada, por idade, é apresentada na tabela de contigência que se segue: O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 92 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] Director de turma - instrutor 56 60% 141 78% 112 64% Director de turma - educador 37 40% 40 22% 62 36% 19 44% 158 32% 93 100% 181 100% 174 100% 43 100% 491 100% TOTAL 24 56% TOTAL 333 68% Graus de liberdade = 3; 2 observado=14,68; Probabilidade observada = 0,002 Verifica-se que são os alunos de 11-12 anos que de forma mais expressiva salientam a imagem de director de turma enquanto instrutor e esta imagem vai diminuindo tendencialmente à medida que aumenta a idade considerada. Saliente-se, no entanto, a única excepção é a opinião dos alunos mais novos (9-10 anos), que poderá estar ligada às estratégias que os professores desenvolvem para integrarem os alunos de um contexto mais protegido (monodocência) para um contexto mais diversificado que exigem deles uma maior autonomia e responsabilização. Curiosamente, constata-se também que são os alunos mais velhos (15-17 anos) seguidos dos mais novos (9-10anos) quem mais vêem o director de turma como educador. 3.3 Funções desempenhadas pelo director de turma O director de turma desdobra a sua intervenção numa diversidade de funções. Numa questão que integrámos no nosso questionário procurámos ver como é que os alunos apreciavam as funções de promoção, de cooperação, de complementaridade e de descoberta desempenhadas pelo director de turma, pedindo-lhes que optassem por uma de quatro alternativas: não é tarefa do director de turma, pouco importante, importante ou muito importante. Os resultados que obtivemos estão expressos no quadro seguinte. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 93 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.1 Funções do director de turma: indicadores parcelares Não é tarefa do director de Pouco turma Muito importante Importante Importante Totais FUNÇÃO DE PROMOÇÃO O director de turma ensinar a resolver problemas (da escola ou não) O director de turma ajudar os alunos a terem confiança em si próprios 12 2,4% 16 3,2% 278 56,0% 190 38,3% 496 100,0% 11 2,2% 33 6,6% 174 35,0% 279 56,1% 497 100,0% 4 0,8% 14 2,8% 228 45,9% 251 50,5% 497 100,0% 14 2,8% 55 11,1% 269 54,2% 158 31,9% 496 100,0% 26 5,2% 140 28,2% 235 47,3% 96 19,3% 497 100,0% 9 1,8% 19 3,8% 159 32,0% 310 62,4% 497 100,0% 71 14,3% 116 23,3% 216 43,5% 94 18,9% 497 100,0% 72 14,5% 167 33,6% 209 42,1% 49 9,9% 497 100,0% FUNÇÃO DE COOPERAÇÃO O director de turma colaborar com os restantes professores na resolução dos problemas da turma O director de turma participar nas actividades que outros professores organizem para a turma FUNÇÃO DE COMPLEMENTARIDADE O director de turma convidar os pais a participarem nas actividades da escola O director de turma ouvir os pais quando existem problemas na turma FUNÇÃO DE DESCOBERTA O director de turma falar com os auxiliares da acção educativa sobre a forma como os alunos se comportam nos intervalos O director de turma convidar os auxiliares da acção educativa a participarem nas actividades da turma A análise das respostas obtidas permite-nos concluir que, em todos os casos, a maioria dos respondentes considera importante ou mais todas as funções referidas do director de turma e que a maioria absoluta de respondentes considera muito importante O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 94 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ as funções de promoção, de cooperação e de complementaridade do director de turma. Note-se, ainda, que a opção “não é tarefa do director de turma” obtém muito baixo nível de concordância. A função de descoberta foi a menos valorizada pelos alunos. Teixeira (1995) é de opinião que esta função - que faz alusão à relação entre o professor e os outros profissionais da educação - ainda não foi verdadeiramente “descoberta” pelos professores, e daí a sua denominação. Face aos resultados obtidos parece-nos que os alunos também ainda não “descobriram” verdadeiramente a importância de um bom relacionamento entre o director de turma e os auxiliares da acção educativa. A análise dos dados permite-nos verificar ainda que: 1- No tocante à função de promoção, o grau de maior importância do “director de turma ajudar os alunos a terem confiança em si próprios” é superior ao “director de turma ensinar a resolver problemas”. Registe-se que, no primeiro caso, a soma das hipóteses importante e muito importante atinge 94,3% e no segundo 91,1%. 2- Na relação do director de turma com os restantes professores (função de cooperação), é atribuída maior importância ao facto do director de turma colaborar com os restantes professores na resolução dos problemas da turma do que participar nas actividades que outros professores organizem para a turma. Refira-se que a soma das hipóteses importante e muito importante atinge, no primeiro caso 96,4% e no segundo 86,1%. 3- No que concerne à relação do director de turma com pais dos alunos (função de complementaridade), os respondentes acham mais importante que o director de turma ouça os pais quando existem problemas na turma do que os convide a participar nas actividades da escola. Neste caso, a soma das hipóteses importante e muito importante atinge, no primeiro caso 94,4% e no segundo 66,6%. 4- No tocante à função de descoberta, os respondentes consideram ser mais importante que o director de turma fale com os auxiliares da acção educativa sobre a forma como ao alunos se comportam nos intervalos, do que convidá-los a participarem nas actividades da turma dos seus educandos. Saliente-se que, a soma das hipóteses importante e muito importante atinge, no primeiro caso 62,4% e no segundo 52%. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 95 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.2 Funções do director de turma: indicadores Agregados Criados os indicadores agregados, e sendo 5 o ponto médio dos valores possíveis, denominámos o menor valor obtido - 2 - de “Não é tarefa do director de turma” e o maior valor encontrado - 8 – de “muito importante”. Função de promoção: indicador Agregado ...Agr F. Promoção Percentagem 2- Não é tarefa do director de turma 1 0,2% 3 5 1,0% 4 10 2,0% 5 39 7,9% 6 131 26,4% 7 169 34,1% 8- Muito importante 141 28,4% Totais 496 100,0% Pela análise da tabela, verificámos que a grande maioria dos respondentes (96,8%) considera “importante ou mais” a função de promoção do director de turma. Função de cooperação: indicador Agregado QUESTÃO: ...Agr f. Cooperação INTERVALOS FREQUÊNCIAS 3- Irrelevante 3 0,6% 4 11 2,2% 5 40 8,1% 6 172 34,7% 7 163 32,9% 8- Muito Importante 107 21,6% Totais 496 100,0% Verificámos igualmente uma clara assunção em relação à função de cooperação. De destacar que esta se sobrepõe mesmo à função de promoção, pois a percentagem dos alunos que a assumiram nos três escalões mais fortes é de 97,3%. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 96 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Função de complementaridade: indicador Agregado QUESTÃO: ...Agr F. Complementaridade INTERVALOS FREQUÊNCIAS 2- Não é tarefa do director de turma 2 0,4% 3 5 1,0% 4 18 3,6% 5 77 15,5% 6 159 32,0% 7 159 32,0% 8 -Muito Importante 77 15,5% Totais 497 100,0% Também neste caso, os inquiridos assumem na grande maioria (95%) ser “importante ou mais” que o director de turma trabalhe em parceria com os pais. Função de descoberta: indicador Agregado QUESTÃO: ...Agr F. Descoberta INTERVALOS FREQUÊNCIAS 2 -Não é tarefa do director de turma 31 6,2% 3- 52 10,5% 4- 84 16,9% 5- 94 18,9% 6- 142 28,6% 7- 72 14,5% 8- Muito importante 22 4,4% Totais 497 100,0% O quadro anterior permite-nos concluir que a maioria dos nossos inquiridos (52,5%) assume como “pouco importante ou menos” a função de descoberta dos outros profissionais pelo director de turma. A comparação entre estes quadros leva-nos à conclusão que a importância dada pelos nossos correspondentes à função de cooperação se sobrepõe a todas as outras, sendo a função de descoberta a menos valorizada. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 97 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ No tratamento estatístico dos resultados segundo as características dos respondentes agrupámos as respostas em três intervalos: [2,5], [6,7] e [8,8], no caso do estudo das funções de promoção, cooperação e de complementaridade. Ficámos assim com três tipos de respostas que designámos por “Pouco importante”, “Importante” e “Muito Importante”. No caso do estudo da função de descoberta, trabalhámos com três tipos de respostas: “Pouco importante ou menos”([2,5]), “Importante”([6,6]) e “Muito Importante” ([7,8]). 3.3.3 Variações das funções do director de turma segundo as características dos respondentes Apresentamos os valores do teste 2 das tabelas de contigência de cada uma das funções sociológicas do director de turma segundo as características dos respondentes. Idade Género Ciclo NIF REP/REP FUNÇÃO DE PROMOÇÃO Graus de liberdade 6 2 2 6 2 2 observado 21,51 1,79 8,75 2,4 4,76 Probabilidade observada 0,001 0,41 0,01 0,88 0,09 Graus de liberdade 6 2 2 6 2 2 observado 39,08 8,96 27,02 7,27 9,70 0,000001 0,01 0,000001 0,3 0,01 FUNÇÃO DE COOPERAÇÃO Probabilidade observada FUNÇÃO DE COMPLEMENTARIDADE Graus de liberdade 6 2 2 2 observado 30,22 0,46 0,00004 0,80 Probabilidade observada 6 2 24,58 6,88 0,08 0,000005 0,33 0.96 FUNÇÃO DE DESCOBERTA Graus de liberdade 6 2 2 2 observado 44,51 2,6 35,46 Probabilidade observada 0,0000001 0,26 0,00000002 6 2 5,61 0,95 0,47 0,62 Pela análise do quadro conclui-se haver variação estatisticamente significativa da importância atribuída às diversas funções do director de turma, segundo a idade e a O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 98 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ etapa do percurso escolar dos respondentes. A importância atribuída pelos inquiridos à função de cooperação varia ainda com o género e a etapa do percurso escolar dos mesmos. Registe-se ainda que o nível de instrução familiar parece não influenciar o sentir dos alunos, no que respeita às diversas funções. As variações encontradas serão apresentadas, por função, de forma pormenorizada, de seguida. 3.3.3.1 Variações da função de promoção A função de promoção diz respeito à relação que o professor estabelece com os alunos. Vivemos numa sociedade altamente complexa e em rápida mudança. Enfrentamos um número e uma variedade e crescentes de problemas que exigem soluções criativas e de longo alcance. Para ir ao encontro deste desafio, as nossas crianças devem possuir uma educação que os prepare para resolver problemas e tomar decisões. Assim, uma das responsabilidades dos professores, em geral, e do director de turma, em particular, enquanto facilitadores da aprendizagem é criar um ambiente que promova o pensamento crítico e a resolução de problemas. Como já vimos a importância atribuída à função de promoção apenas varia de forma estatisticamente significativa segundo a idade e a etapa do percurso escolar dos respondentes. 3.3.3.1.1 Função de promoção segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] Agr F. Promoção TOTAL Pouco importante ou menos [2,5] 8 09% 15 08% 22 13% 10 23% 55 11% Importante [6,7] 46 50% 118 64% 106 61% 30 68% 300 61% Muito Importante [8,8] 38 41% 51 28% 47 27% 4 09% 140 28% 92 100% 184 100% 175 100% 44 100% 495 100% TOTAL Graus de liberdade = 6; 2 observado = 21,51; Probabilidade observada = 0,001 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 99 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ No que concerne à variação da função de promoção segundo a idade dos correspondentes, verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui tendencialmente a muita importância atribuída à função de promoção. No outro extremo, a tendência é de os alunos mais velhos atribuírem menos importância a esta função. 3.3.3.1.2 Função de promoção segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL .Agr F. Promoção Pouco importante ou menos [2,5] 17 08% 38 14% 55 11% Importante [6,7] 124 58% 176 63% 300 60% Muito Importante [8,8] 74 34% 67 24% 141 28% TOTAL 215 100% 281 100% 496 100% Graus de liberdade = 2; 2 observado = 8,75 ; Probabilidade observada = 0,01 São os alunos do 2ºCiclo os que atribuem maior importância à função de promoção. Este resultado era esperado, dadas as conclusões tiradas no estudo da variação desta função segundo a idade dos respondentes. 3.3.3.2 Variações da função de cooperação A função de cooperação faz referência à relação que o professor estabelece com os seus colegas professores. A partilha representa um papel de maior importância no funcionamento da escola onde os professores sejam verdadeiramente colegas. A partilha de ideias, de pensamentos, de métodos e estratégias de ensino pode tornar-se o impulso para um esforço concertado para melhorar o ambiente de aprendizagem dos alunos. A importância atribuída pelos respondentes à função de cooperação do director de turma, apenas não varia de forma estatisticamente significativa com o nível de instrução familiar. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 100 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.3.2.1 Função de cooperação segundo a idade Idade [9,10] Pouco importante ou menos [3,5] 5 05% 14 08% 23 13% 12 27% 54 11% Importante [6,7] 52 57% 127 69% 127 73% 29 66% 335 68% Muito Importante [8,8] 35 38% 43 23% 25 14% 3 07% 106 21% TOTAL 92 100% 184 100% 175 100% 44 100% 495 100% [11,12] [13,14] [15,17] TOTAL .Agr f. Cooperação Graus de liberdade = 6 2 observado = 39,08 Probabilidade observada =0,000001 Tal como aconteceu no estudo da função de promoção, verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui tendencialmente a muita importância atribuída à função de cooperação. No outro extremo, a tendência é de os alunos mais velhos atribuírem menos importância a esta função. 3.3.3.2.2 Função de cooperação segundo o género Género Masculino Feminino Agr f. Cooperação TOTAL Pouco importante ou menos [3,5] 30 12% 24 10% 54 11% Importante [6,7] 182 72% 152 63% 334 67% Muito Importante [8,8] 41 16% 66 27% 107 22% TOTAL 253 100% 242 100% 495 100% Graus de liberdade = 22 observado = 8,96; Probabilidade observada =0,01 São as raparigas que mais assumem atribuir muita importância à função de cooperação. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 101 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.3.2.3 Função de cooperação segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo Pouco importante ou menos [3,5] 12 06% 42 15% 54 11% Importante [6,7] 136 63% 199 71% 335 68% Muito Importante [8,8] 67 31% 40 14% 107 22% TOTAL 215 100% 281 100% 496 100% ...Agr f. Cooperação TOTAL Graus de liberdade = 2; 2 observado = 27,02; Probabilidade observada = 0,000001 Por ciclo de ensino constata-se que são os alunos do 2ºCiclo que parecem dar maior importância à função de cooperação. Refira-se que estes resultados estão em concordância com os obtidos aquando do estudo da mesma função segundo a idade dos inquiridos. 3.3.3.3.4 Função de cooperação segundo o histórico escolar Histórico escolar Já repetiu Nunca repetiu TOTAL Pouco importante ou menos [3,5] 19 20% 35 09% 54 11% Importante [6,7] 62 64% 267 68% 329 67% Muito Importante [8,8] 16 16% 90 23% 106 22% TOTAL 97 100% 392 100% 489 100% ...Agr f. Cooperação Graus de liberdade = 2 2 observado = 9,70 Probabilidade observada = 0,01 São os alunos sem repetências no currículo que assumem dar mais a importância à função de cooperação. 102 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.3.3 Variações da função de complementaridade A função de complementaridade reporta-se à relação que o professor estabelece com os pais dos alunos. Como já foi referido, quando a escola e a família trabalham como aliados, os alunos terão melhores oportunidades de desenvolver o seu potencial. A chave para uma boa relação entre a escola e a família parece estar na qualidade de comunicação estabelecida tendo o director de turma um papel importante como elo de ligação entre estes dois importantes contextos educacionais da criança. A importância atribuída pelos inquiridos à função de complementaridade varia de forma estatisticamente significativa com a idade e o ciclo de ensino dos mesmos. 3.3.3.3.1 Função de complementaridade segundo a idade Idade [9,10] ..Agr F. Complementaridade [11,12] [13,14] [15,17] TOTAL Pouco importante ou menos [2,5] 19 20% 35 09% 54 11% 14 32% 102 21% Importante [6,7] 62 64% 267 68% 329 67% 30 68% 318 64% Muito Importante [8,8] 16 16% 90 23% 106 22% 0 00% 76 15% TOTAL 97 100% 392 100% 489 100% 44 100% 496 100% Graus de liberdade = 6; 2 observado = 30,22; Probabilidade observada = 0,00004 Contrariamente ao que era espectável, tendo em conta que são os alunos mais novos que mais assumem a muita importância atribuída às funções de promoção e de cooperação do director de turma, neste caso verifica-se que são os respondentes das faixas etárias intermédias complementaridade. os que mais importância dão à função de O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 103 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3.3.3.3.2 Função de complementaridade segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL ...Agr F. Complementaridade Pouco importante ou menos [2,5] 30 14% 72 26% 102 21% Importante [6,7] 135 63% 183 65% 318 64% Muito Importante [8,8] 51 24% 26 09% 77 15% TOTAL 216 100% 281 100% 497 100% Graus de liberdade = 2; 2 observado = 24,58; Probabilidade observada = 0,000005 Segundo o ciclo de ensino, são aos alunos do 2º Ciclo da nossa amostra que atribuem mais importância à função de complementaridade entre o director de turma e os pais. 3.3.3.4 Variações da função de descoberta A função de descoberta faz alusão à relação que o professor estabelece com os outros profissionais da educação. A importância atribuída pelos inquiridos à função de descoberta varia de forma estatisticamente significativa com a idade e o ciclo de ensino dos mesmos. 3.3.3.4.1 Função de descoberta segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] TOTAL ...Agr F. Descoberta Pouco importante ou menos [2,5] 26 28% 104 57% 101 58% 30 68% 261 53% Importante [6,6] 32 34% 44 24% 54 31% 12 27% 142 29% Muito Importante [7,8] 35 38% 36 20% 20 11% 2 05% 93 19% TOTAL 93 100% 184 100% 175 100% 44 100% 496 100% Graus de liberdade = 6; 2 observado = 44,51; Probabilidade observada = 0,0000001 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 104 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Em concordância com os resultados obtidos aquando do estudo das funções de promoção e cooperação, verifica-se que à medida que aumenta a idade dos correspondentes diminui a muita importância atribuída à função de descoberta. No outro extremo, a tendência é de os alunos mais velhos atribuírem menos importância a esta função. 3.3.3.4.2 Função de descoberta segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL ...Agr F. Descoberta Pouco importante ou menos [2,5] 86 40% 175 62% 261 53% Importante [6,6] 66 31% 76 27% 142 29% Muito Importante [7,8] 64 30% 30 11% 94 19% TOTAL 216 100% 281 100% 497 100% Graus de liberdade = 22 observado = 35,46 ; Probabilidade observada = 0,00000002 Em consonância com os resultados obtidos no estudo das funções anteriores e com a variação da função de descoberta segundo a idade dos correspondentes, verifica-se que são os alunos do 2ºCiclo os que mais assumem a muita importância atribuída a esta função. 4 Relações estabelecidas entre o director de turma e diferentes actores educativos No enquadramento teórico das funções atribuídas ao director de turma verificámos que as mesmas implicam diversos tipos de interacções entre o director de turma e diferentes actores educativos. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 105 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.1 Relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos Procurando aferir que imagens têm os alunos sobre a qualidade do relacionamento entre o director de turma e diferentes actores envolvidos no processo educativos dos alunos, pedimos aos nossos respondentes que classificassem como insatisfatório, pouco satisfatório, satisfatório ou muito satisfatório o relacionamento que o director de turma mantém com a turma, com os outros professores, com os pais/encarregados de educação, com os auxiliares de acção educativa e com eles próprios. 4.1.1 Relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos – indicadores parcelares Os resultados que obtivemos estão expressos no quadro seguinte. Pouco Insatisfatório Relacionamento do director de turma com a turma Relacionamento do director de turma com os outros professores 4 0,8% 3 0,6% satisfatório 23 4,6% 5 1,0% Muito Satisfatório satisfatório 173 34,8% 297 59,8% 160 32,3% 327 66,1% 317 64,0% da turma Relacionamento do director de turma com os Encarregados de 6 1,2% 14 2,8% 158 31,9% 3 0,6% 11 2,2% 247 50,0% 11 2,2% 17 3,4% Educação Relacionamento do director de turma com os auxiliares de acção 233 47,2% educativa Relacionamento do director de turma com os alunos 184 37,0% 285 57,3% A análise das respostas obtidas permite-nos concluir que em todos os casos, a soma das hipóteses de “satisfatório” e “muito satisfatório” ultrapassa os 90%. Registese ainda que a maior satisfação reporta-se ao relacionamento do director de turma com os outros professores da turma e com os encarregados de educação. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 106 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ A opinião mais desfavorável refere-se ao relacionamento entre o director de turma e os auxiliares da acção educativa. Esta posição poderá estar relacionada com os resultados obtidos aquando do estudo das funções do professor, em que se verificou que a função de descoberta foi a menos valorizada pelos alunos. 4.1.2 Relacionamento entre o director de turma e diferentes interlocutores educativos – indicador agregado QUESTÃO: ...Agr Relações INTERVALOS FREQUÊNCIAS 7-Pouco satisfatório 3 0,6% 11 6 1,2% 12 2 0,4% 13 10 2,0% 14 15 3,1% 15 57 11,6% 16 36 7,3% 17 68 13,8% 18 70 14,3% 19 91 18,5% 20- Muito satisfatório 133 27,1% Totais 491 100,0% Criado o indicador agregado, e sendo 14 o ponto médio dos valores possíveis, denominámos o menor valor obtido – 7- de “Pouco satisfatório” e o maior valor encontrado – 20- de “muito satisfatório”. Para realizarmos o tratamento estatístico dos resultados segundo as características dos respondentes agrupámos as respostas em três intervalos: [7,14], [15,18] e [19,20]. Ficámos assim com três tipos de respostas que designámos por “pouco ou razoavelmente satisfatório”, “satisfatório” e “Muito satisfatório”. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 107 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.1.3 Variações do relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos segundo as características dos respondentes Os valores do teste 2 das tabelas de contigência das variações do relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos, segundo as características dos respondentes, estão expressas no quadro seguinte: Idade Género Ciclo NIF Histórico escolar Graus de liberdade 6 2 observado 58,49 Probabilidade observada 0,0000000001 2 2 6 2 10,09 45,90 1,23 16,43 0,01 0,0000000001 0,98 0,0003 Verifica-se que a imagem que os alunos têm acerca do relacionamento entre o director de turma e os diferentes actores educativos, apenas não varia de forma estatisticamente significativa com o nível de instrução familiar dos respondentes. As variações encontradas por idade, por género, por ciclo de ensino frequentado e pelo histórico escolar dos nossos inquiridos serão analisadas de seguida. 4.1.3.1 Segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] .Agr Relações TOTAL Pouco ou razoavelmente satisfatório [7,14] 3 03% Satisfatório [15,18] 28 31% Muito satisfatório [19,20] TOTAL 9 05% 12 07% 12 27% 36 07% 79 43% 97 56% 26 59% 230 47% 59 66% 94 52% 65 37% 6 14% 224 46% 90 100% 182 100% 174 100% 44 100% 490 100% Graus de liberdade = 62 observado = 58,49; Probabilidade observada = 0,0000000001 Segundo a idade dos respondentes, verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui a muita satisfação atribuída ao relacionamento entre o director de turma e O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 108 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ outros interlocutores educativos. No outro extremo, a tendência é serem os alunos mais velhos a verem como pouco ou razoavelmente satisfatório este relacionamento. 4.1.3.2 Segundo o género Género Masculino Feminino TOTAL Pouco ou razoavelmente satisfatório [7,14] 27 11% 8 03% 35 07% Satisfatório [15,18] 116 46% 115 48% 231 47% Muito satisfatório [19,20] 109 43% 115 48% 224 46% TOTAL 252 100% 238 100% 490 100% Agr Relações Graus de liberdade = 22 observado = 10,09; Probabilidade observada = 0,01 São as raparigas que têm uma opinião mais favorável sobre o relacionamento entre o director de turma e outros actores educativos. 4.1.3.3 Segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL ..Agr Relações Pouco ou razoavelmente satisfatório [7,14] 6 03% 30 11% 36 07% Satisfatório [15,18] 74 35% 157 56% 231 47% Muito satisfatório [19,20] 133 62% 91 33% 224 46% TOTAL 213 100% 278 100% 491 100% Graus de liberdade = 22 observado = 45,90; Probabilidade observada = 0,0000000001 Segundo o ciclo que os alunos frequentam, a opinião mais favorável pertence aos alunos do 2ºciclo. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 109 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.1.3.4 Segundo o histórico escolar Histórico Escolar Já repetiu Nunca repetiu TOTAL Agr Relações Pouco ou razoavelmente satisfatório [7,14] 16 16% 20 05% 36 07% Satisfatório [15,18] 47 48% 180 47% 227 47% Muito satisfatório [19,20] 34 35% 187 48% 221 46% TOTAL 97 100% 387 100% 484 100% Graus de liberdade = 22 observado = 16,43; Probabilidade observada = 0,0003 São os alunos sem repetências no currículo que assumem mais o “muito satisfatório” para classificar o relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos, como era esperável. 4.2 Relações entre o director de turma e os alunos “Assumindo que o clima das organizações se mede preferencialmente através das relações que se estabelecem e das condições de trabalho sofridas” (Teixeira, 2008, p.89), Teixeira, num estudo sobre o clima de escolas, utilizou uma questão sobre as relações entre o director de turma e os alunos que reproduzimos no nosso questionário. Torna-se assim importante, do nosso ponto de vista, comparar os nossos resultados com os que a autora obteve com uma amostra de 1867 alunos43. Nos resultados obtidos, encontram-se semelhanças na orientação das respostas dadas pelos alunos, em termos de percentagens relativas a cada item, como se pode constatar no quadro que se segue. 43 A distribuição da amostra por ciclos é de cerca de 38% para o 2ºciclo, cerca de 22% para o 3ºciclo e 40% para o secundário (Teixeira, 2008, p.88). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 110 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.2.1 Relações entre o director de turma e os alunos: indicadores parcelares Discordo Nós Concordo pouco Teixeira Nós Concordo Teixeira Nós 18% 91,5% Teixeira INTERESSE PELO TRABALHO DOS ALUNOS O director de turma interessase por saber se temos 2,0% 14% 6,4% 64,9% 50% 22,0% 26% 13,1% 44,8% 50% 23,0% 32% 32,3% 3,3% 7% 10,6% 72,0% 73% 18,1% 7,9% 15% 25,8% 68% dificuldades O director de turma acaba por só registar as faltas 23% INTERVENÇÃO O director de turma evita meter-se em problemas entre 18% nós e os professores O director de turma ajuda a resolver problemas da turma 26% 86,2% 67% com os professores APOIO O director de turma só sabe ralhar e ameaçar com 16% 9,9% 11% 66,3% 60% castigos O director de turma ajuda, mesmo quando fizemos 25% asneira As opiniões dos respondentes são globalmente favoráveis no que respeita às relações entre director de turma e aluno. Uma expressiva maioria assume que o director de turma se interessa pelas suas dificuldades, que ajuda a resolver os problemas da turma com os professores e que ajuda os alunos mesmo quando estes fazem “asneiras”. No outro extremo, as opiniões propostas pela negativa, obtêm um baixo nível de concordância, excepto no item “o director de turma evita meter-se em problemas entre nós e os professores”, em que a soma do ”concordo pouco” e concordo” atinge no nosso estudo 55,3% e no de Teixeira 50%. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 111 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.2.2 Relações entre o director de turma e alunos - indicadores agregados Criámos os indicadores agregados seguindo Teixeira (2008), invertendo as respostas aos indicadores apresentados no sentido contrário ao que correspondia à apreciação da dimensão considerada. Construídos os indicadores agregados, e sendo 4 o ponto médio dos valores obtidos, denominámos o menor valor obtido – 2- de “Discordo” e o maior valor encontrado – 6- de “concordo muito”. Obtivemos os seguintes resultados: Interesse: indicador agregado QUESTÃO: INTERVALOS ...Agr Interesse Percentagem FREQUÊNCIAS 2- Discordo 2 0,4% 3 11 2,2% 4 71 14,3% 5 108 21,8% 304 61,3% 496 100,0% 6- Concordo Muito Totais Verificámos uma clara assunção em relação ao interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos, sendo que uma larga maioria (83,1%) o assumiu nos dois escalões mais fortes. Intervenção: indicador agregado QUESTÃO INTERVALOS ...Agr Intervenção Percentagem FREQUÊNCIAS 2- Discordo 11 2,2% 3 19 3,9% 4 151 30,8% 5 113 23,0% 197 40,1% 491 100,0% 6- Concordo Muito Totais O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 112 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Verificámos também que os alunos assumiram muito a intervenção - 63,1% dos alunos situou-a acima do ponto médio. Apoio: indicador agregado QUESTÃO INTERVALOS ...Agr Apoio Percentagem FREQUÊNCIAS 2- Discordo 17 3,5% 3 17 3,5% 4 75 15,2% 5 123 25,0% 260 52,8% 492 100,0% 6- Concordo Muito Totais Também neste caso os alunos assumem maioritariamente (77,8%) que “concordam” ou “concordam muito” que o seu director de turma lhes dá apoio. A comparação entre estes quadros leva-nos à conclusão que o interesse do director de turma pelo trabalho do aluno se sobrepõe ao apoio e à intervenção. Para o efeito do estudo das possíveis variações de opinião segundo as variáveis do perfil dos respondentes, criámos os seguintes intervalos: [2,4], [5,5] e [6,6]. Ficámos assim com três tipos de respostas que designámos por “concordo pouco ou menos”, “concordo” e “concordo muito”. 4.2.3 Variações das relações entre o director de turma e os alunos, segundo as características dos respondentes Apresentamos os valores do teste 2 das tabelas de contigência das variações do interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos, segundo as características dos respondentes. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 113 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Idade Género Ciclo NIF REP/REP 2 6 2 INTERESSE Graus de liberdade 6 2 2 observado 16,06 3, 54 1,97 5,18 10,20 Probabilidade observada 0,001 0,17 0,36 0,52 0,01 2 6 2 12,18 9,64 26,28 0,02 0,14 0,000001 2 6 2 APOIO Graus de liberdade 6 2 observado 32,25 Probabilidade observada 2 2,28 0,000 001 0,32 Graus de liberdade 6 2 2 observado 20,08 2,45 14,67 5,29 14,07 Probabilidade observada 0,003 0,29 0,001 0,51 0,0009 INTERVENÇÃO Pela análise do quadro conclui-se haver variação estatisticamente significativa da importância atribuída às diversas dimensões do relacionamento entre director de turma e alunos, segundo a idade e a etapa do percurso escolar dos respondentes. A importância atribuída pelos inquiridos às dimensões de apoio e intervenção do director de turma varia ainda com o ciclo de ensino dos mesmos. Registe-se ainda que o género e o nível de instrução familiar parecem não influenciar o sentir dos alunos, no que respeita às diversas valências de actuação do director de turma estudadas. 4.2.3.1 Variações do interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos Explicita-se, de seguida, o sentido das variações encontradas no que concerne ao interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 114 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.2.3.1.1 Segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] ...Agr Interesse TOTAL concordo pouco ou menos [2,4] 17 18% 25 14% concordo [5,5] 17 18% 39 21% concordo muito [6,6] 59 63% TOTAL 93 100% 26 15% 16 36% 84 17% 45 26% 7 16% 108 22% 120 65% 103 59% 21 48% 303 61% 184 100% 174 100% 44 100% 495 100% Graus de liberdade = 62 observado = 16,06, Probabilidade observada = 0,001 Verifica-se que são os alunos de 11-12 anos que assumem uma opinião mais favorável no que concerne ao interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos e esta decresce à medida que aumenta a idade considerada, exceptuando-se a opinião dos alunos mais novos (9/10 anos). Refira-se que no estudo das variações, segundo a idade dos respondentes, da imagem do “director de turma: instrutor ou educador” registaram-se opiniões que vão de encontro às tendências agora registadas. 4.2.3.1.2 Segundo o histórico escolar Histórico Escolar Já repetiu Nunca repetiu .Agr Interesse TOTAL concordo pouco ou menos [2,4] 26 27% 57 15% 83 17% concordo [5,5] 23 24% 85 22% 108 22% concordo muito [6,6] 47 49% 251 64% 298 61% TOTAL 96 100% 393 100% 489 100% Graus de liberdade = 22 observado = 10,20, Probabilidade observada = 0,01 Por histórico escolar, são os alunos que nunca repetiram os maioritariamente assumem que o director de turma se interessa pelo seu trabalho. que O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 115 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.2.3.2 Variações do apoio dado pelo director de turma aos alunos, segundo as características dos respondentes As opiniões formuladas pelos nossos respondentes no que respeita ao apoio dado pelo director de turma, variam segundo a idade e a etapa do percurso escolar dos mesmos, vejamos de que forma. 4.2.3.2.1 Segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] ...Agr Apoio TOTAL concordo pouco ou menos [2,4] 8 09% 31 17% 52 30% 18 41% 109 22% concordo [5,5] 17 19% 44 24% 50 29% 12 27% 123 25% concordo muito [6,6] 65 72% 108 59% 72 41% 14 32% 259 53% TOTAL 90 100% 183 100% 174 100% 44 100% 491 100% Graus de liberdade = 62 observado = 32,25; Probabilidade observada = 0,000001 Verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui tendencialmente a muita concordância, dos inquiridos, atribuída ao interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos. No caso dos alunos mais velhos é maior a percentagem dos que concordam pouco do que a dos concordam muito. 4.2.3.2.2 Segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo Agr Apoio TOTAL concordo pouco ou menos [2,4] 34 16% 75 27% 109 22% concordo [5,5] 48 23% 75 27% 123 25% concordo muito [6,6] 130 61% 130 46% 260 53% TOTAL 212 100% 280 100% 492 100% Graus de liberdade = 22 observado = 12,18; Probabilidade observada = 0,02 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 116 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Por ciclo de ensino, são os alunos do 2ºciclo que mais assumem a muita concordância do interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos, 4.2.3.3.3 Segundo o histórico escolar Histórico Escolar Já repetiu Nunca repetiu Agr Apoio TOTAL Concordo pouco ou menos [2,4] 40 42% 68 17% 108 22% Concordo [5,5] 21 22% 98 25% 119 25% Concordo muito [6,6] 35 36% 223 57% 258 53% TOTAL 96 100% 389 100% 485 100% Graus de liberdade = 22 observado = 26,28; Probabilidade observada = 0,000001 São os alunos que nunca repetiram os que têm uma opinião mais favorável sobre o apoio dado pelo director de turma. 4.2.3.3 Variações da intervenção do director de turma junto dos alunos, segundo as características dos respondentes 4.2.3.3.1 Segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] Agr Intervenção concordo pouco ou menos [2,4] TOTAL 32 34% 66 37% 58 33% 24 56% 180 37% concordo [5,5] 12 13% 40 22% 51 29% 10 23% 113 23% concordo muito [6,6] 49 53% 74 41% 65 37% 9 21% 197 40% 93 100% 180 100% 174 100% 43 100% 490 100% TOTAL Graus de liberdade = 62 observado = 20,08; Probabilidade observada = 0,003 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 117 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui a valorização atribuída pelos respondentes à intervenção do director de turma junto dos alunos. No outro extremo, a tendência é a de os alunos mais velhos atribuírem menos importância a este aspecto da relação existente entre director de turma e os alunos, sendo de novo, essa opinião maioritária entre os alunos dos 15-17 anos. 4.2.3.3.2 Segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino 2ºCiclo 3ºCiclo Agr Intervenção TOTAL concordo pouco ou menos [2,4] 92 43% 89 32% 181 37% concordo [5,5] 32 15% 81 29% 113 23% concordo muito [6,6] 88 42% 109 39% 197 40% TOTAL 212 100% 279 100% 491 100% Graus de liberdade = 22 observado = 14,67; Probabilidade observada = 0,001 Por Ciclo de ensino, constata-se uma vez mais que são os alunos do 2ºCiclo que parecem dar maior importância à intervenção do director de turma junto dos alunos. Refira-se que estes resultados eram expectáveis face aos obtidos aquando do estudo da variação deste aspecto, segundo a idade dos inquiridos. 4.2.3.3.3 Segundo o histórico escolar Histórico Escolar Já repetiu Nunca repetiu TOTAL Agr Intervenção Concordo pouco ou menos [2,4] 50 53% 130 33% 180 37% Concordo [5,5] 21 22% 89 23% 110 23% Concordo muito [6,6] 24 25% 170 44% 194 40% TOTAL 95 100% 389 100% 484 100% Graus de liberdade = 22 observado = 14,07; Probabilidade observada = 0,0009 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 118 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ A maioria de os alunos que apresentam repetências no currículo são os que assumem menos valorizar a intervenção do director de turma junto dos alunos. 4.3 Relações entre o director de turma e pais ou encarregados de educação Entendendo a direcção de turma como uma ponte privilegiada entre a escola e a família, procurámos estudar com alguma profundidade as imagens que os alunos dos 2º e 3º ciclos do ensino básico têm sobre as relações que se estabelecem entre o seu director de turma e os seus pais e /ou encarregados de educação. Começámos interrogar os alunos acerca da frequência com que os pais vão à escola falar com o director de turma. Os resultados obtidos constam do quadro seguinte. 4.3.1 Frequência com que os pais vão à escola para falar com o director de turma O teu encarregado de educação desloca-se à escola para falar com o teu director de turma FREQUÊNCIAS Muitas vezes 30 6,0% Algumas vezes 212 42,7% Poucas vezes 166 33,5% Raramente ou nunca 88 17,7% Totais 496 100,0% A leitura do quadro permite-nos concluir que a maioria (relativa) dos nossos respondentes considera que o seu encarregado de educação vai algumas vezes à escola. No entanto, a soma das respostas “poucas vezes” e “raramente ou nunca” perfaz a maioria das respostas (51,2%), o que a ser verdade (e não uma imagem pouco optimista dos nossos respondentes) nos leva a afirmar em plena concordância com Guedes que “o “contacto pessoal”, como fonte informativa, está desaproveitada ou completamente “cega”” (Guedes, 2003, p. 111). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 119 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.2 Variações da frequência com que os pais vão à escola para falar com o director de turma, segundo as características dos respondentes Efectuámos cruzamentos desta questão pelas características dos respondentes a fim de aferir se existiam variações estatisticamente significativas entre a idade, o género, o ciclo, o nível de instrução familiar e o histórico escolar dos respondentes. Encontrámos apenas variações por idade e por nível de instrução familiar, como se pode concluir pela leitura do quadro seguinte: Idade Graus de liberdade Género Ciclo NIF Histórico escolar 9 3 3 9 3 2 observado 22,56 3,51 5,58 17,09 5,58 Probabilidade observada 0,01 0,32 0,28 0,05 0,13 4.2.3.1 Segundo a idade 1.Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] O teu Encarregado de Educação desloca-se TOTAL à escola para falar com o director de turma Muitas vezes [1,1] Algumas vezes [2,2] Poucas vezes [3,3] Raramente ou nunca [4,4] TOTAL 4 7 13 04% 04% 07% 37 80 40% 43% 24 73 6 30 14% 06% 76 19 212 43% 44% 43% 56 1 166 34% 26% 40% 32% 30% 28 24 30 5 87 30% 13% 17% 12% 18% 93 184 175 43 100% 100% 100% 100% 495 100% Graus de liberdade = 92 observado = 22,56; Probabilidade observada = 0,01 Por idade, são os alunos mais velhos que tendencialmente mais assumem que o seu encarregado de educação se desloca muitas vezes à escola para falar com o director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 120 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Tendo em conta que “o avanço na idade e no nível de escolaridade dos alunos é um factor de afastamento entre a família e a escola identificado na literatura” (Zenhas, 2006, p.170), os dados que obtivemos não correspondem ao que por nós era esperado à partida. Sentimos que seria importante completar este estudo com entrevistas aos alunos inquiridos para percebermos se os resultados que obtivemos são uma imagem da realidade ou se, pelo contrário, transmitem que os alunos mais novos consideram poucas as muitas vezes que os seus pais vão à escola e que os mais velhos acham que os seus pais deveriam ir menos vezes à escola, para não terem aborrecimentos, mas isso ultrapassava os limites do nosso estudo. 4.2.3.2 Segundo o nível de instrução familiar O teu encarregado de educação 6ºano ou desloca-se à escola para falar menos com o teu director de turma Muitas vezes 4 9ºano 12ºano 10 13 Curso médio TOTAL ou superior 3 30 [1,1] 04% 07% 10% 03% 06% Algumas vezes 50 67 51 37 205 [2,2] 44% 49% 40% 35% 42% Poucas vezes 40 44 38 41 163 [3,3] 35% 32% 30% 38% 34% Raramente ou nunca 20 16 25 26 87 [4,4] 18% 12% 20% 24% 18% TOTAL 114 137 127 107 485 100% 100% 100% 100% 100% Graus de liberdade = 92 observado = 17,09; Probabilidade observada = 0,05 Por nível de instrução familiar verifica-se que são os alunos cujos pais possuem níveis de instrução familiar intermédios os que mais assumem que os seus pais vão mais vezes à escola. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 121 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.3 Conteúdo e sentido da interacção estabelecida entre director de turma e pais/encarregados de educação Através de uma pergunta aberta, e inspirando-nos em Teixeira (1995), quisemos saber o que é que os nossos alunos pensam acerca do que leva os respectivos encarregados de educação a contactarem o seu director de turma, em termos de conteúdo - assuntos ligados à instrução ou à educação - e sentido da comunicação – se pretendem receber ou dar informações. Assim, pedirmos aos nossos respondentes que explicitassem dois motivos que, na opinião dos mesmos, levassem o respectivo encarregado de educação a ir falar com o seu director de turma. Analisámos apenas o primeiro, para o qual obtivemos 484 respostas, que categorizamos em aspectos ligados instrução e aspectos relacionados com a educação dos alunos. Integrámos nos assuntos de natureza instrucional os motivos “receber as notas no final do período”, “obter informações sobre o meu aproveitamento”, “para se inteirar das minhas dificuldades nas disciplinas”, entre outros. Nos assuntos de índole educacional” as respostas do tipo: “receber informações sobre o meu comportamento”, “informar-se acerca das minhas faltas, “para resolver problemas da turma”, entre outras. Os resultados estão expressos no quadro seguinte: Objectivo da comunicação Nº absoluto de respondentes Percentagem Assuntos de natureza instrucional 213 44,0 % Assuntos de índole educacional 238 49,2 % 33 6,8 % Outros A forma como se distribuem as respostas parece indiciar que os alunos pensam que os respectivos pais/encarregados de educação procuram o seu director de turma mais por assuntos de índole educacional. Refira-se que Teixeira (1995) verificou também que no relacionamento entre pais e professores, 67% dos professores inquiridos mencionavam os problemas educacionais (informar os pais sobre o comportamento dos alunos e conhecer melhor a personalidade dos alunos) como prioritários, enquanto 33% se preocupavam, em primeiro lugar, com aspectos instrucionais (informar os pais sobre o aproveitamento O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 122 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ escolar dos alunos/pedir a sua intervenção para obter um melhor aproveitamento escolar dos alunos). Quanto ao sentido da interacção entre encarregados de educação e director de turma, verifica-se que a grande maioria dos inquiridos (87,4%) assume que o seu encarregado de educação ao contactar o seu director de turma procura prioritariamente receber informações (“sobre o meu comportamento e o meu aproveitamento”, “sobre apoios educativos”, “sobre faltas”, “sobre problemas da turma, etc); apenas 12,6% mencionam que o primeiro objectivo é transmitir informações (“informar que sofro de diabetes”, “informar sobre a minha dislexia”, “para explicar os meus atrasos às aulas”, etc), como se pode verificar no quadro seguinte: Sentido da comunicação Nº absoluto de respondentes Percentagem Pais procuram dar informação 61 12,6 % Pais procuram receber informação 423 87,4 % Estes resultados parecem contrariar os desejos dos professores da amostra de Teixeira (1995) que, no que se reporta ao sentido da interacção entre pais e professores, a maioria dos professores (84,2%) assumiu procurar, em primeiro lugar, que os pais lhes forneçam informações ou lhes prestem apoio. 4.3.4 Relações entre director de turma e pais/encarregados de educação No estudo das relações entre o director de turma e encarregados de educação quisemos saber o que os alunos sentem relativamente à convergência entre pais e director de turma, aos efeitos da comunicação entre pais e director de turma e recolher as suas opiniões sobre o que os pais esperam do director de turma A convergência de opiniões entre pais e directores de turma foi feita através de uma questão adaptada da autoria de Alves-Pinto (2008). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 123 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.3.1 Relações entre o director de turma e pais/encarregados de educação: indicadores parcelares Discordo Concordo Concordo Totais pouco CONVERGÊNCIA DE OPINIÕES ENTRE PAIS E DIRECTOR DE TURMA Os teus pais apoiam o que o director de turma faz para manter a disciplina Os teus pais discordam do que o director de turma exige em termos de disciplina 14 2,8% 73 14,7% 408 82,4% 495 100,0% 300 61,1% 119 24,2% 72 14,7% 491 100,0% 86 17,4% 152 30,7% 257 51,9% 495 100,0% 166 33,8% 164 33,4% 161 32,8% 491 100,0% 66 13,3% 80 16,2% 349 70,5% 495 100,0% 69 14,0% 88 17,8% 336 68,2% 493 100,0% EFEITOS DA COMUNICAÇÃO PAIS/DIRECTOR DE TURMA Depois de terem tido uma reunião com o teu director de turma os teus pais são mais compreensivos contigo Depois de terem tido uma reunião com o teu o director de turma os teus pais são mais severos contigo O QUE OS PAIS ESPERAM DO DIRECTOR DE TURMA Os teus pais esperam que o teu o director de turma se preocupe com a tua aprendizagem (INSTRUÇÃO) Os teus pais esperam que o teu o director de turma se preocupe que te tornes uma boa pessoa (EDUCAÇÃO) Pela leitura do quadro, constata-se que os inquiridos têm uma opinião claramente favorável no que respeita à “convergência de opiniões entre pais e director de turma”. A grande maioria dos respondentes (82,4%) considera que os respectivos pais concordam com o que o director de turma faz para manter a disciplina. Comparando os nossos resultados com os obtidos por Alves-Pinto (2008) sobre ”convergência entre pais e professores”, verifica-se que os mesmos apontam no mesmo sentido: “a tendência maioritária das respostas é de concordância com a frase que corresponde a convergência entre pais e professores e de discordância na que aponta para a divergência” (Alves-Pinto, 2008, p.54). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 124 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ No que respeita aos “efeitos da comunicação pais/director de turma”, ficamos a saber que a maioria dos alunos (51,9%) assume a maior compreensão dos pais depois de estes terem tido uma reunião com o seu director de turma. No entanto, pelo modo como se distribuem as respostas no tocante ao segundo indicador, fica-nos a dúvida sobre a atitude dos pais depois de terem falado com o director de turma, em termos de severidade. No que concerne ao item “ o que os pais esperam do director de turma”, a forma como se distribuem as respostas nos dois indicadores parece indiciar que os nossos respondentes pensam que os respectivos pais/encarregados de educação esperam que o director de turma se preocupe com a instrução e com a educação dos mesmos, embora haja uma ligeira preponderância na preocupação com a instrução 4.3.3.2 Relações entre o director de turma e pais/encarregados de educação - indicadores agregados Construídos os indicadores agregados, cujos resultados se discriminam de seguida, obtivemos 4 como o ponto médio dos valores obtidos. Denominámos o menor valor obtido - 2- de “Discordo” e o maior valor encontrado – 6- de “concordo”. Convergência: indicador agregado Com os indicadores” Os teus pais apoiam o que o director de turma faz para manter a disciplina” e “ Os teus pais discordam do que o director de turma exige em termos de disciplina” construímos um indicador de convergência entre pais e director de turma, invertendo os resultados relativos ao segundo indicador. QUESTÃO ...Agr Convergência Pais / director de turma INTERVALOS 2- Discordo FREQUÊNCIAS 6 1,2% 3 13 2,7% 4 98 20,0% 5 104 21,2% 269 54,9% 490 100,0% 6- Concordo Totais O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 125 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Verificámos uma clara assunção em relação à convergência de opiniões entre pais e director de turma”, sendo que uma larga maioria (76,1%) a assumiu nos dois escalões mais fortes. Efeitos de comunicação: indicador agregado Com os indicadores “depois de terem tido uma reunião com o teu director de turma os teus pais são mais compreensivos contigo” e ” depois de terem tido uma reunião com o teu o director de turma os teus pais são mais severos contigo” construímos um indicador agregado. Atendendo à resposta que se revelou maioritária optámos por denominar o indicador agregado como efeitos de comunicação/compreensão. Também aqui invertemos os resultados relativos ao segundo indicador parcelar. QUESTÃO: ...Agr Efeitos Comunicação/compreensão INTERVALOS 2- Discordo FREQUÊNCIAS 35 7,1% 3 56 11,4% 4 190 38,7% 5 120 24,4% 90 18,3% 491 100,0% 6- Concordo Totais O quadro anterior permite-nos concluir que os nossos inquiridos assumem mais que os respectivos encarregados de educação ficam mais compreensivos do que severos após reunirem com o seu director de turma. Expectativas dos pais: indicador agregado Com os indicadores “os teus pais esperam que o teu o director de turma se preocupe com a tua aprendizagem (INSTRUÇÃO) ” e “os teus pais esperam que o teu o director de turma se preocupe que te tornes uma boa pessoa (EDUCAÇÃO) criámos um indicador de expectativas dos pais face ao trabalho do director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 126 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ QUESTÃO: ...Agr Expectativas dos pais INTERVALOS FREQUÊNCIAS 2- Discordo 41 8,33% 3- 23 4,67% 4- 60 12,20% 5- 84 17,07% 284 57,72% 492 100,00% 6- Concordo Totais Verificámos que os alunos sentem que os pais têm boas expectativas relativamente ao trabalho do director de turma - acima do ponto médio, cerca de 75% dos alunos pensam que os seus pais esperam que o director de turma os instrua e os eduque. 4.3.3.3 Variações das relações entre o director de turma e os pais, segundo as características dos respondentes Idade Género Ciclo NIF Histórico escolar CONVERGÊNCIA Graus de liberdade 6 2 2 6 2 2 observado 23,98 14,86 3,42 13,63 13,87 Probabilidade observada 0,0005 0,001 0,18 0,03 0,001 2 6 2 EFEITOS DE COMUNICAÇÃO/COMPREENSÃO Graus de liberdade 6 2 2 observado 7,07 12,62 0,88 4,32 2,08 Probabilidade observada 0,31 0,002 0,64 0,63 0,35 6 2 2 6 2 2 observado 13,33 0,65 2,05 14,07 8,06 Probabilidade observada 0,04 0,72 0,36 0,03 0,02 EXPECTATIVAS DOS PAIS Graus de liberdade Calculadas as tabelas de contigência e aplicado o teste de 2 podemos concluir que a representação que os alunos da nossa amostra têm da relação que seus pais mantêm com o seu director de turma apenas não varia de forma estatisticamente significativa com o seu ciclo de ensino. A importância atribuída pelos inquiridos à O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 127 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ dimensão “efeitos de comunicação/compreensão” varia apenas com o género dos mesmos. Conclui-se ainda que as “expectativas dos pais” variam segundo a idade, o nível de instrução parental e o histórico escolar dos respondentes. 4.3.3.3.1 Variações da convergência entre director de turma e pais/encarregados de educação Explicita-se, de seguida, o sentido das variações encontradas no que concerne à convergência de opiniões entre pais e director de turma. 4.3.3.3.1.1 Segundo a idade Idade ...Agr Convergência Pais / DT [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] 18 41 38 20 20% 23% 22% 47% 10 42 43 9 11% 23% 25% 21% 64 98 92 14 70% 54% 53% 33% 92 181 173 43 100% 100% 100% 100% Graus de liberdade = 62 observado = 23,98; Probabilidade observada = 0,0005 Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL TOTAL 117 24% 104 21% 268 55% 489 100% Por idade, verifica-se que à medida que aumenta a idade do aluno diminui a concordância entre pais e director de turma. Saliente-se que Alves-Pinto (2008) ao estudar a convergência entre actores educativos e o nível de instrução parental concluiu que a intensidade desta relação “vai diminuindo à medida que se caminha dos (alunos) mais novos para os mais velhos. Aliás entre os alunos do secundário deixa de haver relação estatisticamente significativa. E essa relação é bastante mais forte na subamostra do 2ºCiclo do que na subamostra do 3ºCiclo”(p.55). O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 128 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.3.3.1.2 Segundo o género Género Masculino Feminino Agr Convergência pais / director turma Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL TOTAL 78 39 117 31% 16% 24% 48 56 104 19% 23% 21% 124 144 268 50% 60% 55% 250 239 489 100% 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado = 14,86; Probabilidade observada = 0,001 São as raparigas quem mais assumem a convergência entre pais e director de turma. 4.3.3.3.1.3 Segundo o nível de instrução familiar NIF 6ºano ou menos 9ºano 12ºano Curso médio ou superior Agr Convergência pais / dt Concordo pouco ou menos [2,4] TOTAL 29 26% 34 25% Concordo [5,5] 24 Concordo muito [6,6] 60 TOTAL 113 134 100% 100% 21% 53% 29 22% 71 53% 31 20 114 25% 19% 24% 37 14 104 29% 13% 22% 58 72 261 46% 68% 54% 126 106 479 100% 100% 100% Graus de liberdade = 62 observado = 13,63; Probabilidade observada = 0,03 Por nível de instrução familiar verifica-se que a maior convergência entre os pais e o director de turma ocorre relativamente aos pais com maior nível de instrução familiar. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 129 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.3.3.1.4 Segundo o histórico escolar Histórico escolar Já repetiu Nunca repetiu TOTAL .Agr Convergência Pais / DT Concordo pouco ou menos [2,4] 36 79 38% 20% 20 84 21% 22% 22% 39 225 264 41% 58% 55% 95 388 100% 100% Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL 115 24% 104 483 100% Graus de liberdade = 22 observado = 13,87; Probabilidade observada = 0,001 São os alunos que não apresentam retenções no currículo os que assumem mais a convergência entre pais e director de turma. 4.3.3.3.2 Variações dos efeitos da comunicação/compreensão entre director de turma e pais/encarregados de educação Explicita-se, de seguida, a variação encontrada, por género dos respondentes, no que diz respeito aos efeitos da comunicação/compreensão entre pais e director de turma. Género Masculino Feminino Agr Efeitos da Comunicação/compreensão Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL TOTAL 152 128 280 61% 54% 57% 68 52 120 27% 22% 24% 31 59 90 12% 25% 18% 251 239 490 100% 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado = 12,62; Probabilidade observada = 0,002 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 130 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Ainda que maioritariamente as respostas de ambos os géneros seja concordar pouco ou menos com a compreensão dos pais após estes terem reunido com o respectivo director de turma, são as raparigas quem mais a assume. 4.3.3.3.3 Variações das expectativas dos pais acerca do director de turma, segundo as características dos respondentes Explicita-se, de seguida, o sentido das variações encontradas no que respeita às expectativas dos pais acerca do director de turma 4.3.3.3.3.1 Segundo a idade Idade [9,10] [11,12] [13,14] [15,17] ...Agr Expectativas dos pais Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL TOTAL 32 36 39 16 123 34% 20% 23% 37% 25% 11 39 28 6 84 12% 21% 16% 14% 17% 50 107 106 21 284 54% 59% 61% 49% 58% 93 182 173 43 491 100% 100% 100% 100% 100% Graus de liberdade = 62 observado = 13,33; Probabilidade observada = 0,04 São os alunos das faixas etárias intermédias ao que mais assumem as expectativas dos pais face ao trabalho do director de turma. 4.3.3.3.3.2 Segundo o nível de instrução familiar Por nível de instrução familiar verifica-se que são os alunos cujos pais têm menor habilitações os que mais sentem as expectativas dos pais face ao trabalho do director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 131 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ NIF Agr Expectativas dos pais Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL 6ºano ou menos 9ºano 12ºano Curso médio ou superior [1,2] [3,3] [4,4] [5,6] 21 33 29 38 121 19% 24% 36% 25% 19 29 10 83 09% 17% 58 277 17% 21% 73 73 23% 25 20% 73 65% 54% 113 135 127 100% 100% 100% 57% 55% 106 100% TOTAL 58% 481 100% Graus de liberdade = 62 observado = 14,07; Probabilidade observada = 0,03 4.3.3.3.3.3 Segundo o histórico escolar Histórico escolar Agr Expectativas dos pais Concordo pouco ou menos [2,4] Concordo [5,5] Concordo muito [6,6] TOTAL Já repetiu Nunca repetiu TOTAL 32 90 122 34% 23% 25% 20 64 84 21% 16% 17% 42 237 279 45% 61% 58% 94 391 485 100% 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado = 8,06; Probabilidade observada = 0,02 Como era esperável são os alunos que não apresentam retenções no currículo os que mais assumem as expectativas dos pais relativamente ao trabalho desenvolvido pelo director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 132 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 4.3.5 O poder da criança enquanto mensageira entre a escola (director de turma) e a família Como já referimos, inspirados em Philippe Perrenoud (2001), procurámos conhecer o poder da criança como mensageira. Assim, pedimos aos nossos respondentes que confrontados com a entrega de uma mensagem escrita para o seu encarregado de educação, acerca de uma situação pouco agradável para si, nos dissessem o que fariam, optando por uma de cinco alternativas: não entregas a mensagem, “atrasas-te” a entregar a mensagem, tentas que o teu director de turma descreva a situação de uma “forma leve”, entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira e entregas no próprio dia. Os resultados obtidos são apresentados no quadro seguinte. O que fazes quando és encarregue de entregar uma mensagem escrita ao teu encarregado de educação, de uma situação pouco agradável para ti? FREQUÊNCIAS Não entregas a mensagem 7 1,4% “Atrasas-te” a entregar a mensagem 87 17,6% Tentas que o teu director de turma descreva a situação de uma "forma leve" 28 5,7% Entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira 102 20,6% Entregas no próprio dia 270 54,7% 494 100,0% Totais Conclui-se que a grande maioria dos alunos que inquirimos (54,7%), afirma que entregava a mensagem no próprio dia. No entanto, vale a pena salientar que um número considerável de alunos admite alterar a mensagem (não a entregando ou atrasando-se a entregá-la) ou tenta participar na sua redacção ou tenta influenciar a sua interpretação, comentando-a à sua maneira. Estas atitudes mostram que estes mensageiros não são destituídos de poder, dado que podem controlar “o fluxo, a descodificação e o volume da informação, expedida do “planeta casa” para o “planeta escola” e vice-versa” (L. Guedes, 2003, P.110): Para estudarmos as variações do poder da criança enquanto mensageira, segundo as características dos respondentes, apresentadas no quadro que se segue, considerámos, separadamente, por um lado em conjunto as respostas de “não 133 O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ entregas a mensagem” e “atrasas-te a entregar a mensagem, por outro “entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira” e finalmente a resposta ”entregas no próprio dia”. 4.3.5.1 Variações do poder da criança enquanto mensageira, segundo as características dos respondentes Os valores do teste 2 das tabelas de contigência das variações do do poder da criança enquanto mensageira, segundo as características dos respondentes, estão expressas no quadro seguinte: Idade Graus de liberdade Género 6 2 Ciclo NIF REP/REP 2 6 2 2 observado 20,26 6,84 12,49 11,21 8,82 Probabilidade observada 0,0025 0,03 0,002 0,08 0,01 Verifica-se que a imagem que os alunos têm acerca do seu poder enquanto mensageiros, apenas não varia de forma estatisticamente significativa com o nível de instrução familiar dos respondentes. As variações encontradas por idade, por género, por ciclo de ensino frequentado e pelo histórico escolar dos nossos inquiridos serão analisadas de seguida. 4.3.5.1.1 Segundo a idade Idade [9,10] Não entregas ou "atrasas-te " a entregar a mensagem Entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira Entregas no próprio dia TOTAL [11,12] [13,14] [15,17] 12 34 35 13 94 14% 20% 21% 30% 20% 7 41 43 11 102 08% 66 24% 95 26% 88 25% 20 22% 269 78% 56% 53% 45% 58% 85 170 166 44 465 100% 100% 100% 100% 100% Graus de liberdade = 62 observado = 20,26; Probabilidade observada = 0,0025 TOTAL O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 134 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Segundo a idade dos respondentes, verifica-se que à medida que aumenta a idade diminui o assumir das crianças de entregarem a mensagem no próprio dia. No outro extremo, são os alunos mais velhos quem mais assume manipular a entrega das mensagens. 4.3.5.1.2 Segundo o género Género Masculino Não entregas ou "atrasas-te " a entregar a mensagem Entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira Feminino TOTAL 59 35 94 25% 15% 20% 49 52 101 21% 23% 128 142 54% 62% TOTAL 236 229 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado = 6,84; Probabilidade observada = 0,03 Entregas no próprio dia 22% 270 58% 465 100% São as raparigas que mais assumem que entregam as mensagens no próprio dia e os rapazes que, relativamente, mais assumem não entregar ou atrasar-se a entregar a mensagem. 4.3.5.1.3 Segundo o ciclo de ensino Ciclo de ensino Não entregas ou "atrasas-te " a entregar a mensagem Entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira 2ºCiclo 3ºCiclo TOTAL 33 61 94 16% 23% 20% 33 69 102 16% 26% Entregas no próprio dia 135 135 67% 51% TOTAL 201 265 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado = 12,49; Probabilidade observada = 0,002 22% 270 58% 466 100% O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 135 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ São os alunos do 2ºCiclo que parecem ser mensageiros mais honestos. Refirase que estes resultados estão em concordância com os obtidos quando estudámos a mesma problemática segundo a idade dos inquiridos. 4.3.5.1.4 Segundo o histórico escolar Histórico escolar Não entregas ou "atrasas-te " a entregar a mensagem Entregas a mensagem, mas contas a história à tua maneira Já repetiu Nunca repetiu TOTAL 28 65 93 29% 18% 20% 24 77 101 25% 21% Entregas no próprio dia 43 222 45% 61% TOTAL 95 364 100% 100% Graus de liberdade = 22 observado =8,82; Probabilidade observada = 0,01 22% 265 58% 459 100% São os alunos com repetências no currículo os que mais assumem controlar e regular as mensagens escritas acerca de situações pouco agradável para si enviadas para o seus pais/encarregado de educação 5 O Director de turma enquanto líder No caso do director de turma o seu “poder pessoal”, a natureza das interacções a construir e a dimensão relacional associada aos vários destinatários da sua actuação determinam o tipo de liderança dele esperada ou por ele assumida. 5.1 O Director de turma enquanto líder: indicadores parcelares Inspirando-nos nos tipos de liderança de White e Lippitt: Autocrática, Democrática e Permissiva, pedimos aos alunos que, face a um problema existente na turma, pensassem na forma do director de turma o resolver, optando por uma de três alternativas: “decide sozinho o que fazer” (liderança autocrática); “Ouve a turma e negoceia a solução” (liderança democrática) e “Faz o que a turma quer para não ter problemas (liderança permissiva). Os resultados constam do quadro seguinte: O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 136 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Quando há um problema na tua turma que tem que ser resolvido, o teu director de turma… Decide sozinho o que fazer 50 10,1% Ouve a turma e negoceia a solução 421 84,9% Faz o que a turma quer para não ter problemas 25 5,0% Totais 496 100,0% Conclui-se que a grande maioria dos alunos que inquirimos (84,9%), considera que o seu director de turma é democrático na resolução dos problemas da turma, ou seja, que ouve os alunos e negoceia soluções. 5.2 Variações dos tipos de liderança do director de turma segundo as características dos respondentes Para estudarmos as variações dos tipos de liderança do director de turma segundo as características dos respondentes, apresentadas no quadro que se segue, considerámos por um lado a resposta ”decide sozinho o que fazer” e por outro lado a resposta “ouve a turma e negoceia a solução”. Idade Género Graus de liberdade 3 2 observado 4,83 Probabilidade observada 0,18 1 Ciclo de ensino NIF Histórico escolar 1 3 1 4,75 0,01 0,33 7,27 0,03 0,94 0,96 0,01 Verifica-se que a opinião dos alunos sobre o tipo de liderança exercida pelo seu director de turma não varia nem com a idade nem com o nível de ensino nem com o nível de instrução familiar dos respondentes. Regista-se o facto de as opiniões formuladas variarem significativamente segundo o género e o histórico escolar dos inquiridos. Para analisarmos as tendências registadas iremos apresentar as respectivas tabelas de contigência. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 137 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 5.2.1 Segundo o género Género Quando há um problema na tua turma que Masculino Feminino TOTAL tem que ser resolvido, o teu director de turma Decide sozinho o que fazer 33 17 14% 07% Ouve a turma e negoceia a solução 204 216 86% 93% TOTAL 237 233 100% 100% Graus de liberdade = 12 observado = 4,75; Probabilidade observada = 0,03 50 11% 420 89% 470 100% São as raparigas quem mais assume o director de turma como democrático na resolução de problemas da turma. 5.2.2 Segundo o histórico escolar Histórico escolar Quando há um problema na tua turma que tem Já repetiu Nunca repetiu TOTAL que ser resolvido, o teu director de turma Decide sozinho o que fazer 16 32 19% 08% Ouve a turma e negoceia a solução 68 348 81% 92% TOTAL 84 380 100% 100% Graus de liberdade = 12 observado = 7,27; Probabilidade observada = 0,01 48 10% 416 90% 464 100% São os alunos sem repetências quem mais assume que o director de turma os ouve e negoceia com eles as soluções dos problemas da turma. 5.3 As qualidades mais apreciadas e as características menos desejadas do director de turma Através de duas perguntas abertas quisemos compreender o que é, para os alunos, um bom director de turma. Assim, pedimos aos nossos respondentes que nos indicassem duas características/qualidades que um bom director de turma deve possuir e duas características/defeitos que um director de turma não deve ter. Analisámos O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 138 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ apenas a primeira resposta dada nas duas perguntas, que categorizamos em aspectos ligados à vertente humana e aspectos relacionados com a vertente pedagógica do director de turma. 5.3.1 Características/qualidades que um bom director de turma deve possuir Obtivemos cerca de 464 respostas para a pergunta sobre características/ qualidades que um bom director de turma deve possuir. Integrámos nos aspectos ligados à vertente humana do director de turma aspectos como “Compreensão”- 121 alunos mencionaram esta qualidade -, “Simpatia”referida por 46 respondentes -, “Ser amigo dos alunos” – 32 inquiridos referiram esta característica -, e outras mais residuais: “paciência”, “ser atencioso”, “ser brincalhão”, “honesto”, “solidário”, “alguém que se relaciona bem com os alunos”, entre outras. Nas características/qualidades relacionadas com a vertente pedagógica integrámos as respostas do tipo: “Justo”, “responsável”, “organizado”, “alguém que ajuda os alunos (a aprender, a ter boas notas,..)”, “alguém que ensina bem”, “alguém que sabe cativar os alunos”, entre outras. Os resultados estão expressos no quadro seguinte: Características/ qualidades que um bom Nº absoluto de respondentes Percentagem director de turma deve possuir Humanas 311 67% Pedagógicas 153 33% Conclui-se que a maioria dos nossos respondentes valoriza mais as características/qualidades humanas do que as pedagógicas do director de turma. É interessante referir um estudo realizado por Borges (2008, pp.179-181) em que a autora, através de três perguntas abertas, procurava compreender o que era para os alunos ser bom professor. A maioria das respostas que encontrou sobre as qualidades mais apreciadas pelos alunos de um professor ou professores de quem gostaram muito dizem respeito a aspectos relacionais pessoais, confrontados com aspectos do exercício profissional. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 139 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 5.3.2 Características/defeitos que um director de turma não deve possuir Obtivemos cerca de 439 respostas para a pergunta sobre características/ defeitos que um director de turma não deve possuir. Integrámos nas características/defeitos ligados à vertente humana do director de turma aspectos como “ser mau/violento/bater nos alunos/agressivo”, ”não ser compreensivo”, “antipático”, ”severo”, “mal-humorado”, “arrogante”, “resmungão”, “chato”, “impaciente”, “egoísta”, entre outros. Nas características/defeitos relacionadas com a vertente pedagógica de integrámos as respostas do tipo: “Injusto”, “não se preocupa com os problemas da turma”, “não ensinar bem”, ”ser desorganizado”, “manda muitos recados para casa”, “não faz visitas de estudo”, entre outras. Os resultados estão expressos no quadro seguinte: Características/ defeitos que um director de Nº absoluto de respondentes Percentagem turma não deve possuir Humanas 274 62,4 % Pedagógicas 165 37,6% No que concerne a características/defeitos que um director de turma não deve possuir, conclui-se que a maioria dos nossos respondentes refere mais as humanas do que as pedagógicas. No estudo realizado por Borges (2008, pp. 181-183), já mencionado, e no que respeita às características menos apreciadas nos professores de que menos gostaram, a maioria dos inquiridos indicaram aspectos comparativamente a aspectos relacionais pessoais. do exercício profissional, O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 140 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Conclusão Optámos por organizar as conclusões referentes à apresentação do inquérito realizado em três aspectos: funções desempenhadas pelo director de turma; relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos e o director de turma como líder. Funções desempenhadas pelo director de turma A grande maioria dos alunos assume globalmente como muito ou muitíssimo importantes as funções do director de turma. No que reporta á imagem do director de turma enquanto instrutor ou educador, verifica-se que a maioria dos respondentes vê o seu director de turma como um professor mais preocupado com os aspectos instrucionais do que com os aspectos educacionais. A maioria dos respondentes considera importante ou muito importante as funções de promoção, de cooperação, de complementaridade e de descoberta do director de turma. Refira-se, no entanto, que a função de descoberta foi a menos valorizada. Do estudo que realizamos à procura de possíveis variações de opinião segundo as variáveis do perfil dos respondentes, podemos retirar as seguintes conclusões: 1ª – Verifica-se que à medida que aumenta a idade dos alunos diminui a muita importância atribuída globalmente a todas e a cada uma das funções do director de turma, em particular. Exceptua-se o caso da função de complementaridade: são os respondentes das faixas etárias intermédias os que maior importância dão a esta função. Verifica-se também que são os alunos de 11-12 anos que mais assumem a imagem do director de turma enquanto instrutor. Esta imagem vai diminuindo tendencialmente à medida que aumenta a idade considerada. 2ª – Segundo o género dos respondentes, na única situação em que se regista variação significativa, aquando no estudo da função de cooperação, são as raparigas que expressam uma opinião mais favorável. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 141 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 3ª - Por etapa do percurso escolar, são os alunos do 2º ciclo os que, em maior percentagem manifestam as opiniões mais favoráveis – o que é expectável, tendo em conta que a importância atribuída pelos alunos ao professor do 1ºciclo passa para o director de turma no 2ºciclo, quando o aluno tem muitos mais professores. Das questões colocadas, apenas não se registou variação significativa por ciclo frequentado na que se reporta à imagem que os respondentes têm do seu director de turma como instrutor ou como educador. 4ª Segundo o histórico escolar dos respondentes, nas duas situações em que se registaram variações significativas – estudo da importância global atribuído às funções do director de turma e estudo da função de cooperação -, as opiniões mais favoráveis correspondem a alunos que nunca reprovaram. 5ª Por nível de instrução familiar (NIF) não foi encontrada nenhuma relação estatisticamente significativa nas questões estudadas. Estes resultados vão no mesmo sentido dos obtidos por Alves-Pinto sobre a socialização escolar referenciados no capítulo I. Relacionamento entre o director de turma e diferentes actores educativos As respostas que obtivemos apontam no sentido de que os alunos do 2.º e 3.º Ciclos do Ensino Básico têm uma boa imagem sobre a qualidade do relacionamento que o director de turma mantém com a turma, com os outros professores da turma, com os respectivos pais/encarregados de educação, com os auxiliares de acção educativa e com eles próprios. Registe-se, no entanto, que a maior satisfação se reporta ao relacionamento do director de turma com os outros professores da turma enquanto a opinião mais desfavorável se refere ao relacionamento entre o director de turma e os auxiliares da acção educativa. No que respeita às relações entre o director de turma e os alunos, é expressiva a maioria dos inquiridos que assume que o director de turma se interessa pelas suas dificuldades, que ajuda a resolver os problemas da turma com os professores e que os ajuda mesmo quando fazem “asneiras”. No que concerne às relações estabelecidas entre o director de turma e os pais/encarregados de educação, podemos concluir que: O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 142 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ 1.º a maioria dos nossos respondentes sente que o seu encarregado de educação vai “poucas vezes” à escola; 2.º os alunos que constituem a nossa amostra pensam que os seus pais/encarregados de educação procuram o seu director de turma para tratarem de assuntos ligados à sua educação e à sua instrução, embora privilegiem os problemas educacionais. A grande maioria assume ainda que, nesse contacto, o seu encarregado de educação procura prioritariamente receber informações; 3.º é expressiva a maioria dos inquiridos que assume a convergência de opiniões entre pais e director de turma e a maior compreensão dos pais depois de estes terem tido uma reunião com o seu director de turma. Verificamos ainda que os alunos sentem que os pais têm boas expectativas relativamente ao trabalho do director de turma; 4.º registamos que a maioria dos alunos que inquirimos assume que quando é encarregue, pelo seu director de turma, de entregar uma mensagem escrita ao seu encarregado de educação, acerca de uma situação pouco agradável para si, a entrega no próprio dia. No entanto, vale a pena salientar que um número considerável de alunos admite alterar a mensagem ou que tenta participar na sua redacção ou interpretação. Do estudo que realizamos à procura de possíveis variações de opinião segundo as variáveis do perfil dos respondentes, podemos retirar as seguintes conclusões: 1ª Das questões colocadas, apenas não se registou variação significativa por idade na que se reporta à imagem que os respondentes têm dos efeitos da comunicação entre pais e director de turma. Na generalidade, são os alunos mais novos que em maior percentagem manifestam as opiniões mais favoráveis – o que é expectável, tendo em conta ao regime de monodocência do 1.ºciclo, se sucede a pluridocência nos ciclos seguintes. As excepções encontradas reportam-se ao interesse do director de turma pelo trabalho dos alunos - são os alunos de 11-12 anos que assumem uma opinião mais favorável, embora este seja seguida pela opinião dos alunos mais novos (9-10 anos) - e às expectativas dos pais relativamente ao trabalho desenvolvido pelo director de turma são os alunos das faixas etárias intermédias que assumem uma opinião mais favorável. São ainda os alunos mais velhos que tendencialmente mais assumem que o seu encarregado de educação se desloca muitas vezes à escola para falar com o director O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 143 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ de turma. Esta tendência, na nossa opinião, pode ser interpretada como um desejo dos alunos: os alunos mais novos desejam que os seus pais vão à escola mais vezes enquanto que os mais velhos, para não terem aborrecimentos, desejam o contrário. 2ª – Segundo o género dos respondentes, nas três situações em que se regista variação significativa - no estudo do relacionamento entre o director de turma e outros actores educativos, na convergência de opiniões entre pais e director de turma e no poder da criança enquanto mensageira -, são as raparigas que expressam uma opinião mais favorável. 3ª - Por etapa do percurso escolar, são os alunos do 2ºCiclo os que, em maior percentagem manifestam as opiniões mais favoráveis – o que era esperado à partida, tendo em conta que a importância atribuída pelos alunos ao professor do 1ºCiclo é deslocada para o director de turma no 2ªCiclo, quando o aluno tem muitos mais professores. Das questões colocadas, registou-se variação significativa por ciclo frequentado no que se reporta às imagens que os inquiridos têm sobre a forma como o director de turma se relaciona com outros actores educativos, no apoio dado pelo director de turma aos alunos, na intervenção do director de turma e no poder da criança enquanto mensageira. 4ª Apenas não se verificaram variações significativas na opinião dos inquiridos segundo o histórico escolar, sobre a frequência com que os pais vão à escola e sobre os efeitos da comunicação entre pais e director de turma. Nas situações em que se registaram variações significativas as opiniões mais favoráveis correspondem a alunos que nunca reprovaram. 5ª Registou-se variação significativa por nível de instrução familiar (NIF) apenas relativamente às questões colocadas que se referem à frequência com que os pais vão à escola - são os alunos cujos pais têm o 9º ou o 12º ano os que consideram que os seus pais vão mais vezes à escola - , à convergência entre pais e director de turma - a maior convergência entre os pais e o director de turma aumenta tendencialmente à medida que aumenta o nível de instrução familiar - e às expectativas dos pais face ao trabalho do director de turma – são os alunos cujos pais têm o 6ºano ou menos os que mais sentem as expectativas dos pais face ao trabalho do director de turma. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 144 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ O director de turma como líder A grande maioria dos alunos assume o director de turma como um líder democrático, que os ouve e negoceia soluções com a turma. Do estudo que realizamos à procura de possíveis variações de opinião segundo as variáveis do perfil dos respondentes, podemos retirar as seguintes conclusões: 1ª – A opinião dos alunos sobre o tipo de liderança exercida pelo seu director de turma não varia nem com a idade nem com o nível de ensino nem com o nível de instrução familiar dos respondentes. 2ª – Segundo o género dos respondentes, são as raparigas quem mais assume o director de turma como líder democrático. 3ª Segundo o histórico escolar dos respondentes, as opiniões mais favoráveis correspondem a alunos que nunca reprovaram. São eles quem mais assume que o director de turma os ouve e com eles negoceia as soluções para os problemas da turma. Analisando o que nos dizem os nossos respondentes sobre as características/qualidades que deve possuir um bom director de turma e sobre as características /defeitos que um director de turma não deve possuir, parece-nos possível concluir que, na perspectiva dos nossos inquiridos, um bom director de turma, é uma pessoa compreensiva, simpática, amiga e que se relaciona bem com os seus alunos. No que respeita aos aspectos pedagógicos, um bom director de turma é alguém justo, responsável, que ajuda os alunos e os sabe cativar. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 145 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Conclusão O estudo que realizámos procurou responder à seguinte questão: “Que representações é que os alunos do 2.º e 3.º ciclos do ensino básico têm do seu director de turma e das funções que ele desempenha?”. Para tal começámos por realizar uma revisão bibliográfica que nos pudesse servir de fundamento ao trabalho de campo realizado através de um inquérito por questionário dirigido à totalidade dos alunos que frequentavam os 2º e 3ºciclos nas escolas do Concelho de Condeixa-a-Nova no ano lectivo de 2008/9. Para a fundamentação teórica fomos procurar ver se a socialização escolar se relaciona, de alguma forma, com as representações que os alunos, ao longo do seu percurso escolar, vão construindo. Dos estudos que pudemos analisar sobre este tema emerge a importância da socialização escolar no que respeita à imagem que os jovens têm de si mesmos e às representações que revelam relativamente à escola. Constatámos que apesar de, por um lado, a importância da interacção desenvolvida entre a escola e a família ser reconhecida legalmente e, por outro lado, a escola e a família desejarem o sucesso educativo das crianças e dos jovens, estas instituições nem sempre andam de mãos dadas. No entanto, apesar dos obstáculos que possam existir, a investigação tem vindo a concluir que uma boa colaboração entre a escola e a família tem efeitos positivos para os alunos, para os pais e para os professores. Constatámos ainda que o aluno, voluntária ou involuntariamente, é um sujeito activo na relação entre a escola e a família, podendo contribuir para a facilitar ou dificultar. Analisámos, de seguida, as competências legais atribuídas aos professores e aos directores de turma, bem como as funções do director de turma numa perspectiva sociológica. Registámos que hoje, se espera que um professor instrua e eduque cada uma das crianças ou jovens, a seu cuidado, tendo em conta a especificidade de cada uma. Ora, cada professor, de onde se destacam os directores de turma, tem a seu cargo, geralmente, várias turmas. Cada turma tem características próprias, concluindose que o projecto curricular de turma é um instrumento indispensável neste processo, por definir as acções específicas de uma determinada turma em cada ano lectivo. O O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 146 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ director de turma, a quem estão incumbidas múltiplas funções, pode ser aqui um interlocutor nuclear, ao estabelecer a ponte entre todos os intervenientes do processo de ensino – aprendizagem. Considerando o director de turma um líder pedagógico intermédio, focámos a importância das lideranças educativas e procurámos traçar um perfil de competências básicas desejável para o director de turma. Assim, espera-se que o director de turma seja alguém com capacidade de liderança, colaborante, solidário, moderador de conflitos, aberto ao diálogo e à partilha do seu poder com os outros actores que intervêm no processo de ensino – aprendizagem. A sua autoridade é construída, é conquistada, pois emerge da sua postura, como pessoa e como profissional. Outro aspecto verificado está relacionado com a não exigência de formação específica de professores para o desempenho do cargo da direcção de turma que, na nossa perspectiva, precisa de ser repensada. No que concerne ao trabalho de terreno, que constitui o terceiro capítulo desta dissertação, como já referimos, tivemos como base um questionário em que procurávamos conhecer as representações que os alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico relativamente: - à imagem que têm do seu director de turma, enquanto instrutor e educador; às funções desempenhadas pelos directores de turma; às relações que se estabelecem entre o director de turma e diferentes interlocutores educativos; à consideração do seu director de turma como líder. Registámos que os nossos dos respondentes tendem a valorizar as funções instrucionais do director de turma, o que curiosamente vai de encontro ao estipulado no Novo Estatuto da Carreira Docente (decreto -Lei nº 75/2008, de 22 de Abril). Verificámos que a grande maioria dos alunos que inquirimos assume globalmente como muito ou muitíssimo importantes as funções do director de turma. O estudo das funções do director de turma enquanto “um ser de relação numa profissão de relação” 44 44 revelou que a maioria dos respondentes considera importante ou mais as funções de Teixeira, 1995, p.160. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 147 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ promoção, de cooperação, de complementaridade e de descoberta do director de turma. Registámos que, globalmente, os nossos respondentes têm representações tendencialmente bastante positivas das relações que o director de turma estabelece com os outros professores da turma, com os pais/encarregados de educação, com a turma, com eles próprios e com os auxiliares de acção educativa. No que respeita às relações entre o director de turma e os alunos, a maioria dos inquiridos assumiu que o director de turma se interessa pelas suas dificuldades, que ajuda a resolver os problemas da turma com os professores e que ajuda mesmo quando os alunos fazem “asneiras”. No que concerne às relações estabelecidas entre o director de turma e os pais/encarregados de educação, a maioria dos alunos que constituem a nossa amostra admitiu a convergência de opiniões entre pais e director de turma e a maior compreensão dos pais depois de estes terem tido uma reunião com o seu director de turma Verificámos, ainda, que os nossos respondentes consideram que os seus pais têm boas expectativas sobre o trabalho desenvolvido pelo director de turma. Por outro lado, pudemos verificar que a maioria dos nossos respondentes sente que o seu encarregado de educação vai poucas vezes à escola. Constatámos ainda que pensam que os seus pais/encarregados de educação quando procuram o respectivo director de turma o fazem prioritariamente para receber informações acerca de assuntos ligados à educação e à instrução dos seus filhos, privilegiando, embora, os problemas educacionais. No respeitante à comunicação escrita entre a escola (director de turma) e a família, registámos que a maioria dos alunos que inquirimos assume ser um fidedigno mensageiro. No entanto, verificámos a existência de um número considerável de alunos que admitiu controlar a comunicação em seu proveito. No que concerne ao director de turma enquanto líder a grande maioria dos alunos que inquirimos considerou que o seu director de turma exerce uma liderança democrática, pois ouve os alunos e negoceia soluções para os problemas que vão surgindo com a turma. Para os nossos respondentes, um bom director de turma é uma pessoa compreensiva, simpática, amiga, que se relaciona bem com os seus alunos. Estas qualidades humanas são, ainda, complementadas com qualidades pedagógicas. O director de turma aos olhos dos alunos do 2.º e 3.ºciclos do ensino básico 148 Maria Celeste Cardoso de Oliveira ________________________________________________________________________________ Assim, um bom director de turma, é ainda alguém justo, responsável, que ajuda os alunos e os sabe cativar. Verificámos, contudo, que a maioria dos nossos respondentes valoriza mais as características/qualidades humanas do que as pedagógicas no director de turma. As respostas que obtivemos vão no sentido que esperávamos por relação à população – alvo. Apesar das limitações já evidenciadas - e que se prendem com o tipo de amostra que escolhemos e com o facto de as conclusões que se tiram de qualquer estudo realizado sobre amostras terem sempre um carácter probabilístico -, esperamos que este trabalho possa contribuir para a reflexão sobre a multiplicidade de tarefas atribuídas ao director de turma nas escolas básicas do 2º e 3ºciclos e da sua importância na construção do projecto de vida de todas e de cada uma das crianças ou jovens que as frequentam. Para terminarmos, avançamos algumas questões que na nossa opinião merecem ser alvo de estudos futuros: - Haverá convergência nas representações que alunos, pais/encarregados de educação e professores têm acerca do director de turma? E sobre as funções que ele desempenha? - Estão os directores de turma preparados para fazer dos conselhos de turma, a que presidem, estruturas fundamentais da escola comunidade - educativa? 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