Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas
(Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana
LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora
ISBN: 978-972-99292-4-3
SLT 54 – A literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII e o seu ensino: novas perspectivas.
JORNADA DE ROMA: NARRATIVAS DE VIAGEM NA ÉPOCA
BARROCA
Sara AUGUSTO1
RESUMO
Desde finais do século XV que se desenvolveu uma literatura de viagens, de carácter
informativo, onde cabiam descrições, roteiros e diários de bordo relativos à navegação
pela costa africana, ao descobrimento do Brasil e de outras paragens longínquas a
oriente. Com base nestas viagens ultramarinas, produziram-se relações de itinerários
que atingiram proporções mais amplas, assumindo efeitos de ordem estética, impondose ainda como tema em textos literários, desde o teatro à épica, da crónica à narrativa de
viagens, contando sucessos e naufrágios.
Mas este contexto já conhecido merece uma ampliação significativa. As viagens na
Península Ibérica, sobretudo as de peregrinação a Santiago de Compostela e a
Guadalupe, e no sul da Europa, tendo como principal destino Roma, centro religioso e
político, enquadram-se numa produção narrativa que remonta à Idade Média e que se
prolongou e intensificou nos séculos XVI e XVII. As preocupações políticas,
relacionadas com o domínio filipino e a Restauração, implicando uma necessária
sucessão de embaixadas extraordinárias ao Papa, as questões religiosas, os movimentos
literários e artísticos, exigiram e motivaram múltiplas viagens e suas respectivas
narrativas. Trata-se da jornada de embaixadores, religiosos, estudantes, artistas e
comerciantes, constituindo relatos variados, de perspectivas distintas, mas que
ultrapassam largamente a anotação do diário de bordo ou do apontamento do percurso
terrestre. Nesta transformação, as narrativas alongam-se nas descrições dos caminhos,
dos factos inesperados ou extraordinários, dos viajantes e companheiros de viagem, dos
navios e das caleches, dos lugares de passagem, das pousadas e estalagens, dos palácios
e das igrejas, das entradas e respectivas recepções, dos jantares e dos serões.
A inclusão desta literatura de viagens num corpus literário a ser ensinado e aprendido
nunca chegou a ser feita de forma autónoma, sobretudo quanto à literatura de viagens
ultramarina. Quanto às narrativas de viagem pelo espaço europeu, alguma investigação
tem privilegiado o olhar dos estrangeiros sobre o nosso país, sobretudo numa
perspectiva comparativa. Mas, no que diz respeito a este vasto conjunto de narrativas de
portugueses que viajaram para Roma, os problemas avolumam-se. Trata-se de
manuscritos de leitura difícil, e é necessário estudá-los, ou seja, proceder a um trabalho
demorado de leitura, edição e estudo individual e comparativo. Feito esse trabalho,
poderia concluir-se da sua validade e utilidade enquanto manifestação de uma
mundividência e de um discurso barrocos: pela construção narrativa, pelos efeitos
1
Sara AUGUSTO, investigadora doutorada, Universidade de Coimbra, Faculdade de Letras, Centro de
Literatura Portuguesa. Largo da Porta Férrea, 3004-530 Coimbra, Portugal. [email protected].
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retóricos, pela presença insistente de um prisma visual, de requinte e ostentação, pelo
apontamento do exótico e do novo, podendo assim constituir-se como mais uma chave
de leitura no âmbito da literatura barroca.
PALAVRAS-CHAVE
Literatura de viagens; narrativa; descrição; Roma; Literatura Barroca.
Panorama da Literatura Portuguesa de Viagens
Na página web do Instituto Camões, no Centro Virtual Camões, na secção da
Literatura Portuguesa – Literatura de viagens2, com texto de Maria Alzira Seixo,
encontramos uma abordagem do tema com um desenvolvimento que corresponde aos
conteúdos dispersos por manuais, histórias e programas de literatura portuguesa.
Mostra-se como a literatura portuguesa de viagens radicou na epopeia dos
Descobrimentos, desenvolvendo-se a partir dos finais do século XV, a partir de toda
uma produção de carácter essencialmente informativo, onde cabiam descrições, roteiros
e diários de bordo relativos à navegação pela costa africana, ao descobrimento do Brasil
e de outras paragens longínquas a oriente. Trata-se de textos utilizados tanto na sua
vertente histórica, abundante fonte de factos e datas, como também rentabilizados na
sua dimensão literária, enquanto registo de comentário descritivo, de impressões do
novíssimo binómio homem/natureza, e da revelação de uma voz, de um sujeito que
estabelece relações com esse novo mundo descoberto.
Neste contexto, são apontados alguns dos textos mais importantes da literatura de
expansão ultramarina, títulos que vão do Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco
Pereira, ao Roteiro do Mar Roxo de D. João de Castro, ao Roteiro da Primeira Viagem
de Vasco da Gama, atribuído a Álvaro Velho, até à Carta de Pero Vaz de Caminha a
ElRei D. Manuel, elenco que não esgota de forma alguma o vasto conjunto desta
produção de escrita de viagem, de carácter informativo e descritivo. Como resultado da
viagem ultramarina, produziram-se relações e itinerários, que atingiram proporções
mais amplas, assumindo efeitos de ordem estética. Textos como a Verdadeira
2
Em 3-10-09: http://cvc.instituto-camoes.pt/conhecer/bases-tematicas/literatura-portuguesa.html.
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Informação do Preste João das Índias, datada de 1540, do Padre Francisco Álvares, o
Tratado das Coisas da China, de 1570, do Frei Gaspar da Cruz, o Itinerário da Terra
Santa, de 1593, de Frei Pantaleão de Aveiro; a Etiópia Oriental, de 1609, de Frei João
dos Santos, ou ainda o Itinerário da Índia por Terra, de 1611, de Frei Gaspar de São
Bernardino, são alguns dos títulos apontados como exemplos de uma produção de
escrita de viagem mais desenvolvida, alcançando efeitos distintos, nos seus
comentários, espaços e objectivos.
Não poderia deixar de referir-se ainda como a viagem se impôs como tema em
textos literários “canónicos” e históricos, desde o teatro à épica, da crónica à narrativa
de viagens. Passando pelos autos de Gil Vicente, sendo citado o Auto da Índia, por
Camões e Os Lusíadas, menciona-se também Gomes Eanes de Zurara, com a Crónica
da Guiné, e João de Barros com a Ásia. Acresce ainda a referência a um dos textos
marcantes, a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, escrita antes de 1580 e publicada
em 1614.
Nesta sequência, Maria Alzira Seixo refere ainda um género específico, que
proliferou na segunda metade do século XVI, constituído pelos relatos de naufrágios,
publicados em folhetos avulsos, reunidos no século XVIII por Bernardes Gomes de
Brito, na História Trágico-Marítima, em dois volumes (1735-1736). Narrativas de naus
que naufragam, os textos apresentam uma descrição pormenorizada das reacções
humanas desencadeadas pelo perigo e pela iminência da morte. Para além do Naufrágio
do Sepúlveda, assim sendo conhecido o relato mais antigo que se conhece, de 1554, o
do Galeão Grande São João, de autor anónimo, os outros relatos também merecem uma
atenção particular, sobretudo pela “pela raríssima capacidade de escrita do patético, pela
descrição paralela do movimento físico e psicológico”.
Acrescentamos nós que não é difícil enunciar os motivos que justificariam uma
leitura assídua destas narrativas de desastre marítimo entre o século XVII e o século
XVIII: o domínio do patético, a narrativa de aventuras por mares inóspitos, a
espectacularidade do desastre marítimo, a descrição da acção física e psicológica e a
visualização das reacções de sofrimento e de heroísmo, seriam aspectos capazes de
garantir a atenção do leitor, mas também capazes de influir nas narrativas de outras
viagens, como são as jornadas de Roma que agora nos ocupam.
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Este contexto da literatura portuguesa de viagens, tão bem resumido por Maria
Alzira Seixo, merece, no entanto, uma ampliação significativa, não podendo limitar-se à
literatura de expansão. Tendo em conta a abundante produção de escrita de viagens pela
Península Ibérica e pela Europa, entre peregrinações, deslocações políticas e outras
viagens por motivos de ordem pessoal, as notícias de viagem e os respectivos relatos
constituem uma percentagem significativa do universo da literatura de viagens, cuja
leitura e estudo não podem ser negligenciados, com contornos e objectivos distintos dos
que serviam a expansão ultramarina, universo esse que remonta à Idade Média e se
prolongou e intensificou nos séculos XVI, XVII e XVIII.
Já tivemos ocasião de abordar as narrativas de peregrinação (AUGUSTO, 1999).
Constituindo uma dos mais ancestrais hábitos do homem religioso, a jornada a lugares
de culto adquiriu uma dimensão extraordinária na Idade Média, dividindo-se entre as
rotas da Terra Santa, Roma e Santiago de Compostela. Para estes destinos peregrinaram
também os portugueses, sendo significativas sobretudo as anotações sobre as viagens a
Roma. Como centro político e religioso da Europa, esta cidade tornou-se destino
privilegiado, alcançando considerável intensidade com o Jubileu do ano 1300,
proclamado pelo Papa Bonifácio VIII.
Contudo, é na época barroca que a jornada de Roma adquire especial importância.
As preocupações políticas, relacionadas com o domínio filipino e a Restauração,
implicando uma necessária sucessão de embaixadas extraordinárias ao Papa, as questões
religiosas, os movimentos literários e artísticos, exigiram e motivaram múltiplas viagens
e suas respectivas narrativas. Trata-se da jornada de embaixadores, religiosos,
estudantes, artistas e comerciantes, constituindo relatos variados, de perspectivas
distintas, mas que ultrapassam largamente a anotação do diário de bordo ou do
apontamento do percurso terrestre. Nesta transformação, as narrativas alongam-se nas
descrições dos caminhos, dos factos inesperados ou extraordinários, dos viajantes e
companheiros de viagem, das naus e das caleches, dos lugares de passagem, das
pousadas e estalagens, dos palácios e das igrejas, das entradas públicas e respectivas
recepções.
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Desta forma, as narrativas, relações, relatos e descrições da viagem a Roma, são
de fundamental importância para a literatura portuguesa, permitindo o desenho do
contexto envolvente da viagem, oferecendo visões amplas da sua época. Este facto
torna-se ainda mais importante no período barroco, quando são mais abundantes estas
narrativas, uma vez que o discurso barroco privilegia aspectos diversos e distintos,
optando por um discurso mais atento à descrição de personagens e ambientes, focando a
atenção nos perigos da viagem, nos pormenores insólitos, na ostentação de poder e
riqueza, e na curiosidade artística.
Narrativas de viagem a Roma
Levados sobretudo por motivos políticos e religiosos, desde os tempos medievais
que a documentação nos indica que seria abundante o número de viajantes para Roma
(MARTINS, 1957, p. 127), mas só se encontram narrativas de viagem a partir do século
XV e inícios do século XVI.
Trata-se de um número muito reduzido, que inclui as seguintes narrativas: o diário
da jornada do 4º Conde Ourém, D. Afonso, nomeado por D. Duarte, seu tio, a 12 de
Setembro de 1435, para ir ao Concílio de Basileia, convocado por Martinho V e
encetado por Eugénio IV, escrito entre 1436 e 1437 (DIAS, 2003); a jornada escrita pelo
criado do duque de Bragança, D. Jaime I, em 1510, que esteve em Roma “sete anos e
onze dias, trabalhando neste tempo de ver e de saber as cousas notavees que se em
Roma e naquelas partes passaram pera delas saber dar conta a Vossa Ilustríssima
Senhoria” (BONI, 2003, p. 50); a narrativa da viagem de Frei Filipe, Frei Clemente e
Fernão da Maia, de 1558, que saem de Coimbra a 16 de Setembro e chegam a Roma a
16 de Dezembro, delegados do Mosteiro de Santa Cruz para resolverem vários negócios
do mosteiro e da congregação (COELHO; SANTOS, 1990); e de 1559, o relato
resumido da embaixada de Lourenço Pires de Távora em Roma, enviado pela regente D.
Catarina, depois da morte de D. João III, onde permaneceu largos anos desenvolvendo
frutuoso trabalho ao serviço da monarquia portuguesa.
Dos finais do século XVI ao século XVIII, a quantidade de relatos de viagem
aumentou significativamente, facto que pode ser explicado por dois motivos
relacionados entre si: em primeiro lugar, a multiplicação das deslocações a Roma,
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acrescentadas sobretudo por motivos políticos; e em segundo lugar, a importância cada
vez maior do registo escrito, fosse ele de carácter oficial, político ou religioso, fosse de
carácter particular. Os motivos políticos da viagem justificam por si mesmos a produção
de um relato dos factos acontecidos, devendo testemunhar o efeito persuasor das
missões e das embaixada junto da Santa Sé, com o seu discurso visual de ostentação de
poder e riqueza, tal como também acontece com as relações de viagens com carácter
religioso oficial, registando os acontecimentos havidos nos Capítulos das ordens
religiosas. Mas há um motivo que transversalmente se sobrepõe a todos esses,
mostrando-nos o relato de viagem como fruto do espírito de homens cultos e
cosmopolitas.
Um dos melhores exemplos encontra-se na Viagem de Itália e Espanha, escrita
pelo Irmão José Caetano do Avelar que foi companheiro de jornada do Padre D. Manuel
Caetano de Sousa, clérigo regular, insigne orador e um dos fundadores da Academia
Real de História, quando este foi eleito representante da sua comunidade religiosa, a
casa de Lisboa dos Clérigos Regulares Teatinos, ao Capítulo Geral da Ordem dos
Clérigos Regulares em Roma. O longo relato da viagem, iniciado a Setembro de 1709,
começa com seguinte declaração: “Sendo costume dos homens mais advertidos e
coriosos, que por qualquer causa fazem viagem, o escrever as memorias dellas, me
pareceo bem seguir o seu exemplo e dar principio a minha jornada de Lisboa a Italia,
apontando os successos dellas”. Se lhe juntarmos as razões do Padre João Baptista de
Castro que, em 1735, escreveu a sua Jornada de Lisboa para Roma, que colocam a
principal motivação no desejo de ver novas terras e experimentar novos “trances” da
ventura, aliada às necessidades que na altura passava, imprimindo a toda a narrativa
curiosidade e inquietação, percebemos por que razão são tão poucos os textos de que
dispomos. A disposição para a escrita de viagem, para além da obrigação oficial,
implica uma disposição mental que pouco viajantes revelaram da forma mais completa,
ou seja, passando ao registo dos seus passos e das suas impressões.
A primeira motivação da viagem romana é religiosa, como sempre o foi desde os
seus primeiros tempos. E mesmo que o motivo fosse diferente, depressa ganhava foros
de peregrinação. Roma, a Urbs, representando a unidade e a ortodoxia da Igreja,
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chamava ao encontro com os lugares, corpos e textos sagrados, conduzindo à viagem de
peregrinação stricto sensu; mas havia também motivos religiosos oficiais, por
imposição dos deveres de obediência ao Papa, e pela realização de capítulos das ordens
religiosas.
As viagens do Padre Francisco de Mendoça, do Padre D. Manuel Caetano de
Sousa, acima referido, e de Frei Joaquim de S. José, eleitos como representantes das
suas ordens nos Capítulos Gerais em Roma, são exemplos perfeitos desta produção
narrativa. Em 1625, o Padre Francisco de Mendoça, reitor do Colégio da Companhia de
Jesus em Évora, tendo sido eleito Procurador-Geral da Província de Portugal, foi a
Roma, iniciando a sua viagem a 29 de Junho. Desta viagem deixou o seu diário, que
manteve até meados de Maio, escrito em latim, que deverá corresponder à Viagem
Latina que no manuscrito lhe é atribuída. No regresso de Roma, acompanhado do Padre
Francisco Freire, atravessou os Alpes e entrando em Lyon foi recolhido no Colégio da
Santíssima Trindade da Companhia, onde adoeceu gravemente, falecendo a 3 de Junho
de 1626.
Quanto ao Padre D. Manuel Caetano de Sousa, a narrativa da sua viagem por
Itália, constitui uma das obras mais importantes do nosso corpus textual. Acompanhado
por José Caetano do Avelar, a viagem de D. Manuel teve início em Outubro de 1709,
tendo embarcado no dia 16, chegando a Roma em Janeiro do ano seguinte. De Roma
viajou para outros destinos, desde Nápoles, Florença, Bolonha, Módena, Veneza, Pádua,
Verona, Mântua, Milão, Turim e Génova. O registo acaba a 9 de Março de 1713, já em
Espanha, fazendo a viagem de regresso.
O Padre Doutor Frei Joaquim de S. José, Provincial da Ordem Terceira, deslocouse ao Capítulo Geral da Ordem Terceira, em 1750. O diário da sua viagem estabelece o
percurso seguido desde o embarque no dia 12 de Fevereiro de 1750, com a chegada a
Roma a 1 de Maio, regressando para Portugal no dia 19 de Junho.
Nestas narrativas, para além da relação dos acontecimentos religiosos, dá-se ainda
conta de outras experiências de viagem, descrevendo o percurso e as peripécias, as
gentes e as cidades, de acordo com a mundividência e os interesses do narrador. Todas
as descrições incluem uma descrição de Roma, mais ou menos longa, e da corte do
Papa, de acordo com o tempo passado na cidade e a disponibilidade do viajante,
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coligindo apontamentos que poderiam tornar-se importantes para conhecimento de
quem ficava no reino.
O fluxo de viajantes era constante, sobretudo religiosos. A consulta do Livro de
Registo no Archivio Storico do Instituto Português de Santo António, ponto de
passagem obrigatório em Roma, dá-nos preciosas informações, mesmo sendo um
documento posterior aos meados do século XVIII. Trata-se de um manuscrito onde se
encontram apontadas todas as entradas e saídas do hospício a partir de 1786, por ordem
de D. Gregório Pedro Pereira, e que nos permite perceber certas características que se
manteriam certamente sem grandes mudanças: a deslocação assídua entre Lisboa e
Roma, sendo que a percentagem mais significativa era de estudantes que vinham
receber ordens, além de numerosos frades e sacerdotes.
Entre eles poderia estar o Padre João Baptista de Castro, autor da já referida
Jornada de Lisboa para Roma, que depois aparece subdividido em mais duas secções, a
Breve Notícia e Descrição de Roma e uma última parte, a Jornada de Roma para
Lisboa. Trata-se de um dos textos mais interessantes do nosso estudo pelo modo como
escapa a uma escrita formal e institucionalizada, apresentando marcas visíveis da
individualidade do sujeito narrador, que perpassam toda a narrativa. Em primeiro lugar
os motivos que levam o Padre João Baptista a Roma não são absolutamente claros.
Convidado por Lourenço Morganti, tradutor, editor e bibliotecário do cardeal patriarca
D. Tomás (DOMINGOS, 2000, p. 55), para cuidar da correspondência dos seus
negócios em Roma, recusou uma primeira vez por causa dos estudos no Colégio de S.
Antão e vários outros obstáculos, “não obstante os desejos que todos tem de ver terras,
os quaes me fazião dar assento, ao tal convite” (fl. 2). Anos depois, já ordenado
sacerdote, vendo-se “fortemente aflito e pouco favorecido da fortuna, tornando-se a
reviver em Morganti o mesmo projecto” (fl. 2v), resolveu-se a partir para Roma, “para
ir experimentar este trance da ventura” (fl.2v). Desta forma, a viagem do Padre João
Baptista resultou da sua curiosidade que, aliada a circunstâncias menos afortunadas, não
explicitadas, o levaram a essa grande aventura que seria nesta altura a viagem e a
vivência romana. Por estes motivos, torna-se caso único no corpus textual disponível, a
que se acrescentam outras características também visíveis na sua obra literária: a
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atenção ao pormenor, o fino humor da sua narrativa, a captação das possibilidades
narrativas da realidade presenciada e vivida.
Na narrativa que resultou desta sua viagem e estadia de um ano na cidade dos
Papas, João Baptista de Castro afirmou desde logo que era seu “intento narrar a verdade
sinceramente”. Pelas características do manuscrito, limpo e sem rasuras, torna-se
evidente que a narrativa foi composta num momento posterior à viagem, com base em
notas de que sobraram alguns vestígios. Só na parte final da narrativa é que ficamos a
saber que a escrita das suas aventuras e a descrição de Roma resultaram da solicitação
de outra pessoa de que não se chega ainda a saber a identificação: “Esta he emfim a
mais breve e rezumida informação que da minha jornada posso dar a Vossa merce, a
qual desejara que não saisse da respeitosa clauzura das suas maons, temeroso não de
faltar à verdade no que relato, pois tudo que recito vi e examinei, mas sim pela
humildade do estillo, que entendo lhe não falta” (fl. 68).
Embarcou no dia 10 de Julho de 1735 e foram seus companheiros o “Irmão
Alexandre, organista, e hum estudante chamado José Lourenço, que hia para Roma com
tenção de se ordenar sacerdote; porque em Lisboa havia proibição para isso, por causa
do rompimento que tivemos com Castela” (fl. 4), referências que correspondem ao tipo
de anotações do já referido Livro de Registo de Santo António dos Portugueses. Com
apontamentos deste tipo, o relato do Padre João Baptista de Castro oferece uma
narrativa pitoresca e viva, oferecendo conselhos a partir da sua própria experiência e
descrevendo a cidade num percurso desenhado pelos seus próprios olhos, onde é
possível encontrar marcas da composição barroca.
A segunda parte da sua narrativa é constituída pela já referida Breve Notícia e
Descrição de Roma, versão mais curta de um outro grupo de texto, menos abundante,
sucedâneo dos grandes e antigos Guias romanos, que desde toda a Idade Média
orientavam os peregrinos na sua visita a Roma. A descrição da cidade dos Papas ocupa
sempre, com maior ou menor ênfase, uma parte significativa das narrativas de viagem.
A abundância dos edifícios sagrados, os vestígios da Roma antiga, os inúmeros
conventos e mosteiros, a arquitectura, a escultura e a pintura, dispersos pelos bairros e
zonas da cidade, por pontes e ruas, alimentou o deslumbramento dos viajantes, patente
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de forma bem visível não só nos relatos de viagem, mas também nos textos que
constituem um género mais específico, dedicado especificamente à descrição de Roma.
Embora pouco abundantes, encontramos nas nossas bibliotecas alguns exemplares
desta literatura informativa, motivada pela presença em Roma e pela impressão causada
no viajante, mas também pela necessidade de dar a conhecer um espaço
simultaneamente sagrado e profano. Estas relações e descrições de Roma e da corte dos
Papas apresentam uma estrutura similar, com uma ordenação dos capítulos que pretende
transmitir conhecimentos necessários a quem pretendesse visitar a cidade, ou pelo
contrário dá-la a conhecer a quem nunca teria oportunidade de percorrer os seus
meandros. Assim, se descreve a estrutura externa da cidade, explorando a sua geografia,
ruas, pontes, hospedarias e cais junto ao rio, a sua organização política e económica, os
seus edifícios religiosos, igrejas, mosteiros e conventos, passando-se à descrição da
Corte do Papa, da sua organização, dos tribunais e congregações, dos costumes e
funções que nela tinham lugar.
Faria também parte desta descrição uma apresentação sumária da história da
cidade, como acontece com a Relação da Corte de Roma e suas grandezas, manuscrito
datado de 1638, possivelmente redigido por um jesuíta do Colégio de Évora que,
seguramente no curso de 1633, durante o pontificado de Urbano VIII, terá estado em
Roma, conforme os dados recolhidos no correr da relação.
Acrescenta-se a esta lista reduzida o manuscrito da Relação da Corte de Roma e
mais dominios do Papa, de D. Luis Caetano de Lima, datado de 1722, e ainda uma
outra longa relação de Roma, que resulta da fusão entre tradução e texto original, datada
de Fronteira, 1789, e intitulada Maravilhas e Antiguidades da Cidade de Roma atribuída
a Pedro Freire de Oliveira. Está organizada em quatro capítulos, que descrevem as
igrejas da cidade, sendo que as sete igrejas consideradas as principais ocupam um
capítulo, as festas e as indulgências, as antiguidades de Roma. Estas antiguidades estão
descritas no terceiro capítulo, que constitui uma “Guia Romana para os Estrangeiros que
querem ver as Antiguidades de Roma, huma por huma distintamente, reduzida a huma
ordem bellissima”. O capítulo está dividido em jornadas, indicando os locais que se
poderiam visitar num dia, estabelecendo como principal objectivo conseguir que o leitor
fizesse a sua visita da forma mais agradável, útil e completa. No início da primeira
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jornada, o autor explica que “para ver as Antiguidades e Maravilhas de Roma, he
necessario começar por ordem, e não fazer, como muitos, que olhando para huma e
outra parte, sahem sem ver a metade” (fl. 79).
Para além dos motivos religiosos e da curiosidade que a todos atinge, as viagens a
Roma na época barroca são também justificadas por factores jurídico-políticos. Podem
efectivamente não representar a fatia mais significativa dos viajantes, os diplomatas e a
sua comitiva, mas as relações dos enviados e das embaixadas portuguesas junto da
Santa Sé, instituição reconhecedora dos reis, das independências e do poder dos
Estados, foram aquelas que, por motivos de registo oficial, chegaram até nós em maior
número. Ainda assim, tendo em conta a documentação que nos dá notícia da assídua
deslocação de enviados e embaixadores a Roma3, as narrativas da viagem e dos
sucessos das embaixadas ficaram abaixo das nossas expectativas. Apenas se encontram
dois relatos impressos, relativos à embaixada de D. Francisco de Sousa e à primeira
missão diplomática de André de Mello e Castro. O primeiro, impresso em Lisboa, em
1670, a Relaçam da embaixada extraordinaria de obediencia, enviada do serenissimo
Princepe Dom Pedro … dada pelo Ilustrissimo e Excelentissimo Senhor Dom Francisco
de Sousa Conde do Prado, Marquez das Minas … Embaixador Extraordinario de
Obediencia à Santidade do Papa Clemente X, relata sumariamente a viagem pelo
Mediterrâneo até Liorne, dando relevo à viagem por terra até Roma, acompanhado por
ilustre comitiva, que passo a passo se tornava maior e mais ilustre. Entrou em Roma a
19 de Outubro de 1669, acompanhado de 120 carroças, que transportavam cardeais,
embaixadores, príncipes e ministros, e recebido com toda a sumptuosidade pelo Papa
Clemente IX, que haveria de falecer em Dezembro deste mesmo ano.
O segundo relato, impresso em português e francês, em Paris, em 1709, Relação da
viagem do monsenhor André de Mello de Castro à Corte de Roma, por enviado extraordinario
do rei de Portugal Dom Joan o quinto à Santidade Clemente X, diz respeito à missão
diplomática do Conde das Galveias, primeiro Enviado Extraordinário de D. João V à Cúria
3
Segundo documentação consultada no Archivio Secreto Vaticano, Arch Nunz Lisbona I, 43 e 45; Congr
Concilio Relat Dioec 879; no Archivio Storico dell’Istituto Portoghese de Santo Antonio e no Arquivo da
Embaixada de Portugal junto da Santa Sé; e em Jaime Constantino de Freitas Moniz, Corpo Diplomatico
Portuguez contendo os Actos e Relações Politicas e Diplomaticas de Portugal com as diversas potencias
do Mundo desde o seculo XVI até os nossos dias, Lisboa, Typ. Academia Real das Sciencias, 1902.
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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas
(Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana
LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora
ISBN: 978-972-99292-4-3
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Romana, tendo permanecido em Roma 1708 a 1711, tendo sido substituído em 1712
pelo Marquês de Fontes, D. Rodrigo de Anes Sá e Meneses, como Embaixador
Extraordinário.
Quanto aos manuscritos, fora o Diário da Embaixada de D. Luís de Sousa, Bispo
de Lamego, em 1675, publicado recentemente (VALE, 2006), todos os outros
constituem peças incompletas ou que proporcionam apenas anotações de viagem com
vista a uma posterior reescrita e possível impressão tipográfica. Apesar de tudo,
constituem o número mais significativo de narrativas de viagem a Roma, datadas
sobretudo de 1640 em diante.
Este facto relaciona-se com a actividade diplomática levada a cabo a partir da
Restauração, com o início do reinado de D. João IV, de forma a ser reconhecida a
independência do reino por parte da Santa Sé e a legitimidade do rei de Portugal, mas
também como resposta à necessidade de prover a Igreja portuguesa das dignidades
necessárias, desde a consagração de bispos até outros benefícios. Tendo em conta o
poder de Espanha em Roma, esta questão só ficou solucionada depois que em Madrid
foi assinado o Tratado de paz com Castela, a 13 de Fevereiro de 1668, que deu por
terminada a Guerra da Restauração (PAIVA, 2000). Até 1670, a resolução dos dois
problemas apresentados justificou o envio constante de representantes do rei à Santa Sé,
intensificando-se a actividade diplomática nos reinados seguintes.
A primeira embaixada foi enviada em Abril de 1641, liderada por D. Miguel de
Portugal, bispo de Lamego. Apesar do empenho, foi mais forte a oposição espanhola, e
D. Miguel regressou em Dezembro de 1642, sem conseguir ser recebido como
embaixador de Portugal pelo Papa Urbano VIII. Entre enviados do Rei e do Clero, não
foram melhores os resultados nos anos posteriores. A embaixada de D. Francisco
Manuel de Melo, em Dezembro de 1663, foi atingida pela mesma conjuntura de
incerteza e de oposição espanhola.
A partir de 1668, os canais diplomáticos entre Portugal e a Santa Sé funcionaram
de forma mais consistente, aceitando-se embaixadores de Portugal em Roma e
nomeando-se Francisco Ravizza, bispo de Sidónia, como núncio em 1670. Até 1759,
data da expulsão da Companhia de Jesus, instigada por aquele que em 1769 haveria de
ser o Marquês de Pombal, sucederam-se diversas embaixadas, com objectivos distintos
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e variados, mas cumprindo duas linhas estratégicas que se haveriam de acentuar nos
reinados de D. Pedro II e de D. João V: por um lado, a reconquista e a requalificação da
imagem positiva do reino e do poder do rei; por outro lado, a afirmação da soberania
portuguesa face ao poder pontifício.
Esta sucessão das embaixadas, que arrastavam numerosas comitivas, explica a
coexistência de relatos oficiais, sobretudo os dois impressos já referidos, testemunhos
do sucesso diplomático e panegíricos da figura do embaixador enquanto reflexo do
poder e da magnificência do rei, com narrativas que claramente extrapolam os limites
oficiais e se detêm nas particularidades aventurosas da viagem, na descrição minuciosa
dos acontecimentos, das lugares, das igrejas e palácios, dando largas à curiosidade e ao
deslumbramento pela novidade, pelo fausto e pelo bizarro.
Se o discurso formal do Diário da Jornada do bispo de Lamego, D. Luís de
Sousa, nos revela um manuscrito, guardado na Biblioteca Nacional, praticamente pronto
para ser publicado, o mesmo não acontece com a narrativa da atribulada viagem do
Embaixador Extraordinário D. Rodrigo de Anes de Sá e Meneses, Marquês de Fontes,
que saiu de Lisboa em Janeiro de 1712 (AUGUSTO, 2009). A viagem, perigosa e
demorada, por entre ataques de corsários, violentas tempestades e iminentes naufrágios,
justificou a narrativa do secretário do embaixador, o Padre Lázaro Leitão, que escreveu
o Diário da Jornada de Roma, e que celebra os tormentos passados na travessia, mas
também a coragem e a generosidade de Embaixador. Estes mesmos acontecimentos, que
tiveram lugar na viagem de Lisboa para Génova, foram também motivo para longos
versos e cantos do poema heróico de Vieira Lusitano, O insigne Pintor e leal esposo
Vieira Lusitano, publicado em Lisboa em 1780, manifestando assim duas visões
distintas, tanto ao nível ideológico como formal: de um lado a exaltação do embaixador,
do outro o sofrimento do jovem pintor, protegido pelo Marquês de Fontes, contadas em
prosa e em verso.
Outro aspecto merece ser realçado: tomando estas viagens diplomáticas num
sentido mais lato, descortina-se o modo como ao fundo político e histórico se passa a
associar um importante mecenato artístico e cultural, congregando vontades e motivos
individuais, de carácter académico, artístico e religioso. É esta convergência de versões,
de saberes, de interesses, de visões distintas, que torna o universo das narrativas de
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viagem de duplicado interesse, sobretudo quando subordinadas ao discurso e à
mundividência barroca, tendendo a sobrevalorizar a minúcia, o espectáculo, o teatro
visual, a ostentação, o inesperado e o insólito. A mesma viagem parece conduzir a
experiências distintas, relatos diferentes, enquadrados na mesma diversa mundividência
barroca.
O discurso barroco nas jornadas de Roma
A leitura das narrativas de viagem produzidas na época barroca representa um
duplo enriquecimento para os estudos literários. Por um lado, e como já defendemos,
acrescentam uma faceta ignorada da literatura de viagens; por outro lado, apresentam
uma vertente até agora não estudada da literatura barroca portuguesa. Como literatura
de viagens da época barroca, trata-se de narrativas que oferecem um discurso integrado
na mundividência do homem barroco e viajante. Por entre as diversas narrativas,
algumas rigidamente estruturadas sob a forma de diário e com um registo escrito linear,
contrastando com outras que desenvolvem um discurso revelador da relação do sujeito
narrador com a viagem nos seus diversos aspectos, encontramos excertos que se
constituem como manifesto das características deste género.
O relato da jornada do Marquês de Fontes, embaixador extraordinário enviado por
D. João V à Santa Sé, dando conta das tormentas da viagem, apresenta evidentes
semelhanças com os relatos de naufrágios, realçando epicamente a coragem de D.
Rodrigo Anes de Sá e Meneses. No dia 14 de Março, a nau Santa Rosa amanheceu a dez
léguas do cabo de S. Sebastião, com vento norte rijo e mares grossos; a fúria do
temporal prolongou-se pelo dia adiante, pela noite, e no dia 15 tornou-se ainda mais
forte4:
4
Transcrição: Desdobrámos as abreviaturas e actualizámos a utilização de maiúsculas e minúsculas.
Modificámos alguma pontuação, sobretudo as vírgulas e os dois pontos. Indicamos as lacunas que não foi
possível preencher e o texto indecifrável com ponteado. Eliminámos os rasurados. As notas à margem e
os entrelinhados foram incluídos no texto devidamente assinalados. Os erros manifestos - falta de letras,
faltas de concordância e palavras repetidas - foram corrigidos e devidamente assinalados com parênteses
rectos. Actualizou-se o emprego do y, de i/j, de u/v, do c/ç; uniformizou-se a utilização do s/z (fes/fez) e
do s/c/ç (sinco/cinco). Regularizou-se a grafia da 3ª pessoa plural dos verbos (forão/foram).
Simplificaram-se as consoantes duplas. Separaram-se as palavras indevidamente unidas e os pronomes
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Mudou-se o vento a oesnorueste com desmarcada furia, e reconhecendo o capitão se não
podia orsar, sem evidente perigo da nao e receo de descalhar-se em Cabo Corso, se
resolveo a arribar a Serdenha fazendo a proa a sulsudoeste. Pelo meo dia se tomou o sol
na altura de vinte e hum grao e 25 minutos, altura da boca de Bonifacio, estreito
perigosissimo, pelo que fez toda a força por se afastar dele, mas batendo as ondas com
desesperada furia no costado da nao e metendo por isso muita agoa dentro, pôs o perigo a
todos em notavel consternação e desconfiados os marinheiros recorreram a Deus, fazendo
promessas de irem descalços ao Senhor do Castelo de Genova. E entrando o Capitão na
camera de Sua Excelencia, pediu recorressemos a Nosso Senhor com algũas devoções e
promessas, e despois de nos confessarmos todos, o Padre Paiva, pondo em publico hũa
toalha com o sangue de S. Francisco Xavier, acodindo à camera de Sua Excelencia toda a
sua familia e passageiros, se lhe rezou e prometemos todos irmos descalços a Nossa
Senhora de Buen Aire de Serdenha. Rezou-se o terço e a ladainha, e a este tempo os
marinheiros descobriram terra pela parte de Levante, o que nos animou muito por
conhecermos estarmos livres da Boca de Bonifacio e Cabo de Casea, de que mais nos
receavamos. De noute continuou a tromenta, com tão grandes balanços, que nem deitados
no cham e pegados a cordas nos sostinhamos. Nesta noute nem Sua Excelencia se despio
e o Auditor, cahindo de hum a outro bordo, se ferio na testa, o mesmo sucedeo a hum
pasageiro. E nesta noute nem Sua Excelencia se despio, antes reconhecendo que o Capitão
da nao de cansaço se deitou por não se poder ter em pé, vigiou Sua Excelencia toda a
noute, indo por vezes recomendar vigilancias ao Piloto e oficiais. Toda a noute se passou
em hum continuo susto, esperando em cada onda a morte e a sepultura.
4ª feira [16]. Amanheceo o dia continuando-se a mesma tempestade. (…) Montando a
Ilha de S. Pedro às 11 oras e passando pela hũa ora da tarde por entre os rochedos
chamados Vaca e Touro, durando ainda a tromenta, que aqui nos rasgou o velacho,
entramos o golfo de Palma aonde, abrigados dos ventos contrarios, lançamos anchora
pelas 4 oras e mea. Fomos logo à camera de Sua Excelencia e de juelhos se rezou o Te
Deum Laudamus e a Salva Rainha, e nos demos os parabens huns aos outros de nos
vermos livres de tão grandes perigos. Entrada a noute nos refizemos de forças por haver
dous dias se não comia cousa que fosse a lume. Passou-se a noute, ainda que com grande
mesoclíticos por hífen. Acentuaram-se as palavras homógrafas e as palavras monossilábicas.
Desdobraram-se as abreviaturas nasais.
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mareta, já sem susto algum e com a alegria igual aos trabalhos e sustos que tinhamos
padecido. (ff. 19-19v)
Na chegada a Génova, a nau Santa Rosa foi alegremente festejada e o Marquês de
Fontes foi recebido com as honras devidas ao Embaixador do rei de Portugal. No jantar
na casa do Duque de Uzeda, na noite de 3 de Abril, a atenção do narrador fixou-se na
enumeração dos convidados, mas sobretudo do fausto da mesa.
Foi coberta a mesa duas vezes com pratos de cozinha. A primeira foi servida no meo hum
grande prato de sopa acompanhado de quatro de cozinha inteira, ao redor dos quais
estavam 8 de mea cozinha, todos com diferentes e dilicadas iguarias e, para que não
aparecesse a toalha, estavam em tres postes quatro framengos com manjar branco e jeleas.
Na segunda coberta, em lugar do grande prato de sopa, estava outro da mesma grandeza
de assado de vitela e varias aves, rodeado na forma do primeiro cuberto de diferentes
carnes, sendo de mais quatro pratos em forma de barcos com estravagantes saladas. Para a
terceira cuberta se mudaram os pratos, toalhas e guardanapos. Vieram doces em varias
bandejas de madeira douradas. A do meo tinha 5 palmos de comprido e dous de largo em
figura extravagante entrando nos concavos dela doze da mesma materia. Parte destas
estavam cheas de doces secos em piramede. Parte tinham doces de calda, e outras com
varias e singulares frutas em piramede. Tirada esta cuberta se seguiram quantidade de
bebidas exquisitas e vinhos odoriferos. Acabado o banquete, depois de larga conversação,
se despedio Sua Excelencia, vindo no mesmo coche do Duque, chegando a casa com mea
ora de noute. (fl. 123)
Este fausto e esta ostentação tornaram-se características das embaixadas,
simbolizando o poder do rei português, e as entradas públicas constituíram o momento
mais alto dessa afirmação diante do Papa, do Sacro Colégio e de todos os Embaixadores
junto da Santa Sé. A Relação da Embaixada de D. Francisco de Sousa, enviado por D.
Pedro a Clemente X relata a entrada, que teve lugar no dia 18 de Maio de 1670. Trata-se
de uma longa descrição que retoma o fausto da embaixada de Tristão da Cunha, enviada
por D. Manuel em 1514, e que depois seria repetida na descrição das embaixadas
posteriores.
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Apareceo enfim o dia decimo octavo de Maio serenissimo para Portugal tambem no Ceo,
que se dignou de enriquece-lo de toda a tranquilidade de ventos e da mais pura luz do sol.
(…) Vinham logo juntos os gentishomes portugueses eclesiasticos e seculares habitantes
em Roma, e depois os gentishomes dos senhores Cardeaes, Embaixadores, Principes,
Duques e Ministros, em tanta quantidade, em tão belos cavalos e em trajes tão soberbos,
que jamais se vio em cavalgada nenhũa hum tão soberbo e grande cortejo. (…) Vestia Sua
Excelencia hum habito modesto, mas rico de cor almiscre, todo botoado de botões
compostos cada hum de hum soberbo diamante, tão claro e tão grosso que parecia o preço
de hũa Provincia; o chapeo guarnecido de levantadas e bem compostas plumas brancas
tinha por cordão hũa volta de ouro todo entresachado de grossos diamantes e
preciosissimos, todos iguaes na grandeza e no valor. Oprimia o colo a hum potente
cavalo, que reconhecia o peso precioso, e por semelhar-se aos cavalos do Sol levava por
testeira hũa joia ovada de diamantes de inestimavel valor, e na crina de hũa e da outra
parte quatro grandes laços de diamantes soberbissimos. A sela do cavalo, pela riqueza
vistosa e pelos recames de ouro e de prata de inteiro relevo, com o mais belo trabalho que
jamais pudesse inventar a agulha mais industriosa, mandava abaixo algũas correas todas
recamadas do mesmo modo, estructura à maravilha sumptuosa e somente igual a si
mesma. (ff. 14-19)
Para além destes aspectos formais da ostentação, as narrativas mais interessantes
são as que incidem na anotação particular e nas vivências pessoais, dando lugar a
apreciações e conselhos. A Jornada de Lisboa para Roma, de João Baptista de Castro, é
um dos melhores exemplos, destacando-se o episódio das ginjas, na primeira parte da
narrativa, e os conselhos que deixa aos hipotéticos visitantes, na última parte do texto.
Com vagar se embarca, diz um proverbio portuguez, quem tem que fazer em terra. Mas
eu que não tinha outra coiza em que cuidar mais que a minha partida, depressa me
embarquei no caes da pedra, dispensando pelo obsequio que alguns amigos me queriam
fazer de me acompanhar até bordo. (…)
Entrei na camera do capitam onde achei dois cestos de ginjas garrafaes. Eu como não
tinha almoçado, meti-me nelas e, com o frio que fazia e balanços da náo, enjoei de sorte,
que expulsei do estomago tudo com bastante aflição. Aqui tive hum grande susto,
imaginando que teria rebentado algua vea com a força e violencia do expulsar, porque
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via tudo vermelho quanto lançava, e depois me capacitei que eram as ginjas que tinha
comido.
Seriam onze horas da manhãa quando a náo levantou ancora e desamarrou para o
botafora. Senti meu sobresalto e, naturalmente saudoso da auzencia do amado Tejo, me
vieram algũas lagrimas aos olhos. Valha-me Deos (dizia eu só comigo) que por minha
vontade queira experimentar e sentir estas saudades da minha Patria, de meus pays, de
meus irmaons, de meus amigos e de tudo mais que mas podem causar. Que eficaz he a
força da Providencia! Execute-se em mim a sua determinação. A Deos Lisboa. A Deos
Tejo. Boa viagem nos dé Deos e nos acompanhe Maria Santissima, seu Santo Esposo
José, Santo Antonio o nosso Anjo da Guarda, e todos os mais nossos advogados e
protectores. Amen. (ff. 4v-5v)
Depois de chegar a Roma, cuide muito em se tratar com aceio e gravidade lhana, mas
não se sevandije. Vizite muito os nacionaes, trate-os com respeito e diga bem de todos.
Existem lá muitos homens de nação que fugiram de cá e se tratam de cavaleiros. Não
faça cazo disso, honre-os como vir fazer. Corteje as senhoras porem com grande tento na
sua comunicação. Elas não tem formosura mas participam de hũa graça e afabilidade
natural que alimpam as algibeiras insensivelmente no jogo, no passeio, nas vinhates e nas
operas. Grande prudencia remedea e atalha grandes perigos.
Seja mui pontual em ir vizitar os ministros portuguezes e não se mostre fofo nem
humilde; as acçoens de cada qual he a maior recomendação de cada hum. He precizo ter
reconhecimento com os creados das pessoas grandes, como cardeaes etc. E nas festas do
anno se lhe costuma dar doze vinteis ou tostoens, ou os que cada hum quer, porque desta
sorte facilitam a entrada dos amos. O mesmo fará quando for ver algum palacio ou
jardim. (fl. 71v)
Se muitos viajavam para Roma, é, no entanto, pelo exercício da escrita que se
distingue a qualidade dos viajantes, resultando numa curiosa “consciência de viagem”.
Um espírito mais atento, curioso e versátil, para além de “ver algum palacio ou jardim”,
não deixará de descrever com minúcia tudo o que viu. Desta forma, as narrativas
tornam-se mais ricas com as múltiplas descrições do espaço, dos monumentos e das
obras de arte, capazes de “fazer ver” pela ecfrasis pormenorizada, onde se cruzam
mitologias, emblemas, alegorias e heróis.
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Esta “compulsão” erudita é tão forte, que nem o Padre Lázaro Leitão, secretário do
Marquês de Fontes, apesar da viagem atribulada pelo Mediterrâneo, deixa de descrever
os principais monumentos de Génova, compilando as mais diversas informações. A
descrição mais emblemática é a da Catedral da cidade, visitada pelo Embaixador a 5 de
Abril de 1712:
(…) he templo grande de tres naves, antiga obra gotica com outo columnas em cada nave,
tres portas no frontispicio e quatro nos lados. No meo da nave do Evangelio está hũa
capela grande de marmore, em que se veneram as cinzas e ossos de S. João Baptista com
notavel veneração, pois em o meo da Capela se levanta hum altar de marmore, dos lados
do qual sobem 4 columnas de porfido da altura de 14 palmos; estas sostetam hum tumulo
para o qual se sobe por hũa escada, em que está hum caixão com as cinzas e ossos; e hũa
ambula grande de cristal e prata dourada em que está hum grande osso da mão do mesmo
Santo. O altar se alumia com 25 alampadas de prata; à roda dele estão em huns nichos
sete estatuas de marmore, obras antiga e prefeita; a capela se feicha com hũas grades de
marmore branco muito bem lavradas, e nela não podem entrar molheres, e se tem estas
reliquias pelas de maior estimação. Em o cruzeiro no topo ha duas grandes capelas de
marmores <em cima das quais estão dous grandes orgãos>. Em o altar coletral da parte do
Evangelio está o Santissimo. A capela mor he obra prefeitissima: sobe-se do pavimento
do cruzeiro tres degraos para o presbiterio de 50 palmos em quadro; da parte do
Evangelhio, em o principio do presbiterio está a cadeira do Doge da Republica em tres
degraos altos, encosto e genuflectorio, dossel de damasco e da mesma parte em distancia
de 12 palmos, está outra cadeira <do Arcebispo Cardeal>, de tres degraos menos altos,
com dossel da mesma altura e forma da do Doge e só nas cadeiras ha a diferença de que a
do Doge he portatil e não está no dito lugar senão quando vem o Doge; a do Arcebispo he
fixa de pao lavrado. (…) As paredes todas são de marmores adornadas de belissimas
estatuas de santos. O tecto he pintado e dourado, tudo obra prefeitissima. A invocação da
Igreja he de S. Lourenço. (fls. 123v-124)
Menos informadas, mas não menos curiosas são as descrições que constam da
longa Viagem de Itália de D. Manuel Caetano de Sousa. A 10 de Fevereiro de 1710,
visitou com a sua comitiva o palácio Borghese , assim descrito pelo Irmão José Caetano
do Avelar:
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Em 10 fomos com o Padre Geral, e com o Padre Vise Preposito ver o palacio do Principe
Burguesio, mas não vimos mais que os quartos baixos, nos quaes he singular hũa
larguisma [sic] carreira de portas enfiadas, que se terminam em hũa janella que tem
defronte de si hũa fonte mui agradavel, e tem ali hũa airosissima caza de prazer, cujos
portaes são de marmore amarello bem bronidos e moldados, como tambem o são os das
mais cazas. Por ellas ha varias fontes de resisto [sic]; a mais notavel lhe serve de tanque
hũa urna de porfido, que foi sepultura de Scipião Africano. Há neste palacio admiraveis
pinturas originaes dos mais famosos Pintores. Há hũa caza de espelhos com o pavimento
de marmores brunidos que podiam servir de preciosissimo tecto. Na caza da audiencia do
Principe está hum ducel, debaixo do qual está o retrato do Papa e do Duque de Anju;
defronte do ducel está hũa grande fonte de prata. A camara do Principe he chea de
pinturas nuas, que não vimos, inda que estavam sem as cortinas que costumam ter. Igual
ao quarto do Principe, que fica da parte da rua, he o da Princeza, que fica da parte do
jardim. Neste há muitas fontes, e no pavimento muitos burladores de agua mui galantes.
(fl. 22-22v)
Conclusão
A inclusão da literatura de viagens, tal como é ordinariamente apresentada,
dizendo apenas respeito à viagem de expansão ultramarina, num corpus literário a ser
ensinado, lido e aprendido, nunca chegou a ser feita de forma autónoma. Quanto às
narrativas de viagem pelo espaço europeu, alguma investigação tem privilegiado o olhar
dos estrangeiros sobre o nosso país, sobretudo numa perspectiva comparativa. Mas
existe todo este vasto corpo de textos de viagens a Roma, que fomos referindo, que
ainda não ganhou lugar. Sabemos que as deslocações a Roma eram constantes e que
havia um fluxo assíduo de viajantes entre Lisboa e Roma, entre estudantes, a maior
parte vindo receber ordens em Roma, frades e sacerdotes, soldados, peregrinos, curiosos
e viajantes com negócios particulares. Vinham de Portugal, mas também do Brasil, de
África e do Oriente, fazendo ponte em Lisboa. Viajam solitários, mas preferencialmente
em pequenos grupos que se iam constituindo por afinidades descobertas ao longo dos
caminhos marítimos e terrestres. E como vimos, para além destes havia muitos mais que
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viajam
oficialmente,
com
incumbência
religiosas,
políticas
e
diplomáticas,
acompanhados de numerosas comitivas, recebidos com fausto nos portos e nas cidades
principais por que passavam. E alguns, muito poucos, num exercício de escrita que
reflecte uma “consciência de viagem”, produziram as suas narrativas.
A consideração destas narrativas de viagem levanta alguns problemas. Em
primeiro lugar, trata-se de manuscritos em alguns casos de leitura extremamente difícil,
facto que pode parcialmente explicar por que se têm mantido desconhecidos nos
arquivos e bibliotecas. Em segundo lugar, depois de identificados e lidos, é necessário
estudá-los, ou seja, proceder a um trabalho demorado de leitura, edição e estudo
individual e comparativo. Feito esse trabalho, poderia concluir-se da sua validade e
utilidade enquanto manifestação de uma mundividência e de um discurso barrocos: pela
construção narrativa, pelos efeitos retóricos, pela presença insistente de um prisma
visual, de requinte e ostentação, pelo apontamento do exótico e do novo, podendo assim
constituir-se como mais uma chave de leitura no âmbito da literatura barroca.
Contudo, nunca até agora estas viagens romanas, bem distintas nos seus objectivos
e efeitos, tiveram a mesma projecção da literatura ultramarina, incluindo também as
narrativas que fazem parte da história trágico-marítima. Já é tempo de conhecê-las,
integrá-las e dar-lhes o valor que representam, sobretudo na época barroca, quer pelo
valor histórico, quer pelo valor cultural e artístico, quer pelo discurso literário.
REFERÊNCIAS
Fontes manuscritas:
Diário da jornada de Roma, que fiz Sendo Secretario da Embaixada Excelentíssima do Senhor
Marquês de Fontes. Ano de 1712 (ms. UCBG).
Diário da Jornada que fez o Excelentíssimo Sr. Bispo de Lamego D. Luís de Sousa, embaixador
extraordinário do Príncipe D. Pedro, à Santidade do Papa Clemente X, na era de 1675 anos
(ms. BNP).
Diário da viagem que fez no ano de 1625 a Roma, o Padre Francisco de Mendoça, Reitor do
colégio da Companhia de Évora, sendo eleito procurador geral d'esta província (ms. BPE).
Diário do Reverendíssimo P. M. Doutor Fr. Joaquim de S. José na jornada que fez ao Capítulo
Geral de Roma de 1750 (ms. BPE).
Jornada de Lisboa para Roma, a qual fez no ano de 1735 o Padre João Baptista de Castro (ms.
BPE).
Livro de Registo (ms. Archivio Storico do Instituto Português de Santo António, Roma).
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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas
(Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana
LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora
ISBN: 978-972-99292-4-3
SLT 54 – A literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII e o seu ensino: novas perspectivas.
Maravilhas e Antiguidades da Cidade de Roma (…). Expostas em Português, por C. A. D. O. L.,
Fronteira, 1789 (ms. BNP).
Relação da Corte de Roma, e mais dominios do Papa, no presente anno de 1722. (…) Por D.
Luis Caetano de Lima C. R. (ms. UCBG).
Rellação da Corte de Roma e suas grandezas, 1638 (ms. BPE).
Viagem de Italia e Espanha, feita pello P. D. Manoel Caetano de Sousa Clerigo Regular e
recopillada pello Irmão Jose Caetano do Avelar que foi companheiro nella (ms. BNP).
Fontes impressas:
O Insigne Pintor e Leal Esposo Vieira Lusitano, Historia Verdadeira que elle escreve em
Cantos Liricos. Lisboa: Francisco Luiz Ameno, 1780.
Relaçam da embaixada extraordinaria de obediencia, enviada do serenissimo Princepe Dom
Pedro … dada pelo Ilustrissimo, e Excelentissimo Senhor Dom Francisco de Sousa Conde do
Prado, Marquez das Minas … Embaixador Extraordinario de Obediencia à Santidade do Papa
Clemente X. Lisboa, Of. Antonio Craesbeeck de Mello, 1670.
Relation du voyage de monseigneur André de Mello de Castro a la Cour de Rome, en qualité de
envoyé extraordinaire du roi de Portugal Dom Jean v, auprès de Sa sainteté Clemente X.
Relação da viagem do monsenhor André de Mello de Castro à Corte de Roma, enviado
extraordinario do rei de Portugal Dom João V à Santidade Clemente X. A Paris, chez Anisson,
Rue S. Jaques, 1709
Referências bibliográficas:
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Culturais da Literatura de Viagens. Estudos e Bibliografias, Lisboa, Clepul/Cosmos, pp. 85125.
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