UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI RICARDO MASTROROCCO DA SILVA A IDENTIDADE LGBTT NO CINEMA A ANÁLISE DE CINCO CURTAS METRAGENS DE 2008 A 2011 SÃO PAULO 2013 1 RICARDO MASTROROCCO DA SILVA A IDENTIDADE LGBTT NO CINEMA A ANÁLISE DE CINCO CURTAS METRAGENS DE 2008 A 2011 Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora, como exigência para a obtenção do título de Mestre, do Programa de Mestrado em Comunicação, área de concentração de Comunicação Contemporânea, da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação da Prof ª. Dr. ª Maria Bernadette Cunha de Lyra SÃO PAULO 2013 2 RICARDO MASTROROCCO DA SILVA A IDENTIDADE LGBTT NO CINEMA A ANÁLISE DE CINCO CURTAS METRAGENS DE 2008 A 2011 Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora, como exigência para a obtenção do título de Mestre, do Programa de Mestrado em Comunicação, área de concentração de Comunicação Contemporânea, da Universidade Anhembi Morumbi, sob a orientação da Prof ª. Dr ª. Maria Bernadette Cunha de Lyra Aprovado em _____/____/ _____ ______________________________________________________ Prof ª. Dr ª. Maria Bernadette Cunha de Lyra ______________________________________________________ Prof. Dr.André de Piero Gatti _______________________________________________________ Prof. Dr. Gelson Santana 3 AGRADECIMENTOS Agradeço a todos os professores e mestres que estiveram no meu percurso acadêmico e artístico e, particularmente, a dois mestres que me acompanharam nos últimos dois anos Prof ª. Dr ª. Bernadette Lyra e o Prof. Dr. André Gatti. Quero agradecer de forma única, aos pais, Regina Rosaly e Milton que jamais deixaram de estender a mão para mim em todas as escolhas que fiz, sempre com o objetivo de achar ao meu “eu” como indivíduo e artista. Agradeço também, aos meus irmãos e minha irmã que estiveram ao meu lado deixando bem claro que jamais fui um estranho nessa sociedade em que eu vivo. Aos bravos diretores que mostraram nossa comunidade LGBTT na tela. Aos curadores dos festivais que fazem de suas vidas uma grande batalha para exibir os filmes com essa temática, com especial carinho a Felipe Matzembacher, Marcio Reolon e é claro que eu não posso esquecer-me de Suzy Capó. A todos os meus atores, atrizes (entre elas Nyrce Levin e Imara Reis) e a sempre Divina Núbia. A meus amigos Diego Alonso, Leandro Baldi e Daniel Simas. A Júlio Martí que foi meu parceiro em muitos debates acadêmicos. E por último ao meu amigo acadêmico Marcelo dos Anjos que esteve ali me apoiando e me fazendo seguir em frente. 4 RESUMO A Identidade LGBTT que se torna uma das camadas do cinema onde o realizador usa o aparato fílmico para mostrar a sua identidade sexual de diversas formas. A exibição da obra do realizador dentro do circuito dos festivais e como ele é feito nesse nicho e a análise de cinco curtas-metragens que foram produzidos e exibidos durante 2008-2011 mostrando que a obra fílmica delata e relata a essência do realizador e que ele e seus personagens não mais importam para aquele que o vê. Palavras-chaves: Cinema, LGBTT, Recifest, análise fílmica 5 ABSTRACT LGBTT´s Identity that becomes one of the layers of the film where the director uses the filmic equipment to show their sexual identity in some ways. The exhibition of the work of the director within the festival circuit and how it´s done in this niche and analysis of five short films that were produced and displayed during 2008-2011 showed that the filmic work betrays and reports the essence of the director and he/she and his/her characters no longer care for him who sees it. Key Words: Cinema, LGBTT, RECIFEST, Film analysis 6 LISTA DE FIGURAS DOS FILMES Figura 1 – “Depois do Almoço”...............................................................................................54 Figura 2 – “Depois do Almoço”...............................................................................................54 Figura 3 – “Depois do Almoço”...............................................................................................55 Figura 4 – “Eu não quero voltar sozinho”...............................................................................57 Figura 5 – “Eu não quero voltar sozinho”...............................................................................57 Figura 6 – “Eu não quero voltar sozinho”...............................................................................58 Figura 7 – “Felizes para Sempre”...........................................................................................60 Figura 8 – “Felizes para Sempre”...........................................................................................60 Figura 9 – “Felizes para Sempre”...........................................................................................61 Figura 10 – “Professor Godoy”...............................................................................................63 Figura 11 – “Professor Godoy”...............................................................................................64 Figura 12 – “Professor Godoy”...............................................................................................64 Figura 13 – “Os Sapatos de Aristeu”......................................................................................67 Figura 14 – “Os Sapatos de Aristeu”......................................................................................67 Figura 15 – “Os Sapatos de Aristeu”......................................................................................68 7 SUMÁRIO Introdução.............................................................................................................................09 1. A influência da Identidade Sexual...................................................................................18 2. Circulação dos filmes – os festivais LGBTT no Brasil e no Mundo...........................26 2.1. RECIFEST......................................................................................................................28 2.2. Calendário dos festivais LGBTT no Brasil em 2013........................................................31 3. Apresentação de cinco curtas LGBTT exibidos entre 2008 a 2011.............................33 3.1 Questões da Análise em imagem e som..........................................................................34 3.2 Análise do filme: “Felizes para sempre” dirigido por Ricky Mastro..................................38 3.3.Comparando e analisando os filmes: “Felizes para sempre” dirigido por Ricky Mastro, “Eu Não quero voltar sozinho” dirigido por Daniel Ribeiro, “Professor Godoy” dirigido por Gui Aschar, “Depois do Almoço” dirigido por Rodrigo Diaz Diaz, “Os Sapatos de Aristeu” dirigido por René Guerra.....................................................................................................................40 4.Conclusão...........................................................................................................................45 5. Bibliografia 5.1 Referências bibliográficas.................................................................................................47 5.2 Filmes...............................................................................................................................52 6.Anexos 6.1 Ficha técnica dos filmes...................................................................................................53 6.2 Artigos escritos para portal Mixbrasil.com.br e G.............................................................69 8 INTRODUÇÃO Para chegar ao cinema LGBTT, primeiramente podemos citar que o movimento LGBTT1 começou, na realidade, durante o final da década de 1960, início da década de 1970. Era um movimento bem característico, tinha sua base marcada pela política, de modo especial, o marxismo experimentado aqui no Brasil. Nos outros cantos do mundo, como na Alemanha, a homossexualidade só deixou de ser crime na década de 1950, até mesmo na Alemanha Oriental. No cinema existem inúmeros tipos de gêneros como: a comédia musical, o drama, a ficção e o suspense, etc. Estes exemplos dividem a produção de filmes existentes no mercado. Os gêneros cinematográficos servem de código de compreensão tanto para realizadores quanto para o público geral. O cinema se forma a partir de muitas formas de artes que antecedem ao seu nascimento, e ele se define tomando emprestado em sua forma e conteúdo de elementos da fotografia, artes plásticas, do teatro e da literatura. Ele se expressa nas múltiplas formas da atividade e dos sonhos humanos. O cinema atende a rigorosa disciplina do tempo da tela – entre 70 e 120 minutos que proporcionam cerca de cinco sessões diárias e das necessidades das narrativas que proporcionam que podem ser compreendidas pelas pessoas mais variadas. Nesse sentido o cinema criou seus próprios códigos, os gêneros. Não dá para definir gêneros estudando a realidade. Barthes afirma que só se pode definir “gênero” comparando uma obra a outra, nunca comparando a obra como a experiência vivida. (1984) Segundo Bernadette Lyra: “A noção de gênero, talvez, esteja desgastada pelo tempo e pelo uso. Mas, nem por isso, deixa de ser uma das mais importantes na teoria e na história do cinema. Retomá-la para investigar a emergência genérica no cinema brasileiro pode tornar-se um desafio intrigante. De modo mais comum, os estudos de gênero costumam ser delineados em contraposição aos estudos de autor. Essa oposição se dá, principalmente, em torno daquela necessidade de agrupamento, nascida na tradição semiológica: “A obra de um cineasta não é a única unidade textual sistemática maior do que um filme”. Há também o que se chama ‘gênero cinematográfico’: burlesco, filme noir, comédia musical etc.” (METZ, 1971, p. 93). O princípio de classificação estruturalista, que contrapõe as especificidades de grandes conjuntos, permite que esses conjuntos se desdobrem em diversos esquemas. Nesse sentido, Thomas Schatz propõe a 1 Tomo a opção de utilizar a sigla LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros). Como será explicada no decorrer dessa introdução, essa sigla tem sido utilizada em documentos, pelos movimentos e nos festivais de cinema em geral e serve para reforçar o caráter político do movimento. 9 seguinte equação: “A crítica de gênero tenta estabelecer um conjunto de formas cinemáticas, enquanto a crítica de autor celebra certos cineastas que trabalham, efetivamente, no quadro dessas formas gerais.” (1980, p. 8). De modo geral, ao privilegiar essa ideia de conjuntos classificatórios, muitas análises que se dedicam às questões do gênero cinematográfico resultam textuais e têm por motivo certas repetições e reiterações dos temas, tramas e narrativas para nomear os gêneros.” (2007, p. 142) Alguns espectadores são simplesmente apaixonados por algum tipo de gênero e com isso mobilizam a indústria que gasta milhões na produção para esse tipo de público. A comédia musical, por exemplo, já foi o grande produto da indústria americana em meados do século passado. Já aqui no Brasil, podemos citar o gênero da pornochanchada2. A comunidade LGBTT, desde a metade da última década do século XX, tem conseguido uma visibilidade cada vez maior dentro da sociedade brasileira. Agora nos primeiros dez anos do século XXI, o aumento da produção, que traz a identidade dessa comunidade, é extremamente expressivo, não somente pela quantidade, mas pela 2 A pornochanchada é um gênero do cinema brasileiro, comum na década de 1970. Surgiu em São Paulo, e contou com uma produção bem numerosa e comercial. A mais conhecida produção era a da chamada boca do lixo, região de prostituição existente na zona central da cidade de São Paulo. Dessa fonte despontaram vários diretores de talento (Cláudio Cunha; Alfredo Sternheim; Ody Fraga; Jean Garrett, Neville d'Almeida, Fauzi Mansur, entre outros) que souberam usar o que dava bilheteria na época (filmes eróticos softcore) para fazer filmes de grande valor estético e formal. Chamado assim por trazer alguns elementos dos filmes do gênero conhecido como chanchada e pela dose alta de erotismo que, em uma época de censura no Brasil, fazia com que fosse comparado ao gênero pornô, embora não houvesse, de fato, cenas de sexo explícito nos filmes. Mais tarde, houve produções no Rio de Janeiro, bem como, a criação de um sub-gênero pornochanchada carioca, que foi encontrar sua estrela em Alba Valeria durante a década de 1980. Pornochanchadas eram, em geral, em linha com as "comédias sexuais" produzidos em outros países, mas também contou com algumas peculiaridades brasileiras. As atrizes de destaque foram Helena Ramos, Matilde Mastrangi, Aldine Müller, Sandra Bréa, Nicole Puzzi, Monique Lafond, Nádia Lippi, Patrícia Scalvi, Rossana Ghessa, Zilda Mayo, Zaíra Bueno, Kate Lyra, Vanessa Alves, Meire Vieira, Adele Fátima, e Marta Anderson. Após o fim da era pornochanchada, eles se mudaram para telenovelas e / ou mais gêneros tradicionais de cinema. Atrizes como Vera Fischer e Sônia Braga também apareceram em pornochanchadas. Os atores mais populares eram David Cardoso (apresentada como o símbolo do machismo brasileiro, que também era diretor e proprietário da empresa Dacar produção) e Nuno Leal Maia. Produtores se tornaram cada vez mais dependentes de pornochanchadas para competir com filmes americanos e garantir retornos imediatos. Como o sucesso do gênero cresceu, o termo começou a ser indiscriminadamente aplicada a vários tipos de filmes que incidiu sobre as relações sexuais. Algumas adaptações Nélson Rodrigues estavam entre esses filmes. Na década de 1980, com a disponibilidade de pornografia incondicional através de fitas de vídeo clandestinas, o gênero sofreu um declínio considerável. Após o fim do regime militar, em 1985, medidas repressivas sobre cinema e televisão foram suspensas, marcando um fim virtual para pornochanchada. A Constituição Brasileira de 1988 e término governo subsequente Fernando Collor de Embrafilme, em 1990, marcou o fim da era de nudez e sexo como um meio de atrair o grande público para filmes brasileiros. Ele trouxe ao fim uma geração de diretores, escritores e atores associados desde os anos sessenta com o movimento do Cinema Novo, muitos dos quais estavam envolvidos em um momento ou outro com pornochanchadas. 10 qualidade e reconhecimento de longas e curtas-metragens que têm tomado bastante destaque tanto nos festivais nacionais quanto internacionais. O cinema LGBTT ganhou visibilidade com o aumento do número de festivais que acontecem em todo o território nacional. O Mixbrasil - pioneiro no segmento - já está com mais de vinte anos colocando a comunidade LGBTT nas telas. O Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual surgiu em 1993 através do convite realizado pelo New York Lesbian and Gay Experimental Film Festival que decidiu ampliar seus horizontes e convidar curadores estrangeiros para mostrar as diferentes formas de expressão da sexualidade em outros países. Esse festival, realizado em Nova Iorque, passou a se chamar "MIX New York". André Fisher foi o responsável pela seleção da programação brasileira desse festival, com o nome Brazilian Sexualities. A partir dessa participação brasileira no festival de Nova Iorque, o Departamento de Cinema do Museu da Imagem e do Som decidiu fazer um convite para sediar uma edição brasileira do festival, que ganhou o nome "I Festival Mix Brasil", sendo realizado a partir da seleção, realizada por André Fisher o festival estreou em 5 de outubro de 1993 e foi feito a partir, de 76 trabalhos exibidos no Festival de Nova Iorque, editados em 12 programas de curtas. Desde a primeira edição foram editadas versões para a apresentação do festival em várias capitais brasileiras. A exibição do primeiro Festival MiX Brasil no Rio de Janeiro, marcada para acontecer na Casa Laura Alvim foi cancelada a 4 dias do evento por Beatriz Nogueira que decidiu que o Rio de Janeiro não estava preparado para esse evento. A apresentação no Rio de Janeiro foi improvisada na Torre de Babel a convite de Ringo Cardia. . As edições do festival passaram a ser realizadas anualmente e são bem recebidas por vários segmentos da sociedade por encarar a diversidade sexual de forma aberta. Depois surgiram inúmeros festivais nacionais como o CLOSE, que acontece em Porto Alegre; o For Rainbow, no Ceará; o Rio Gay Festival, que acontece no Rio de Janeiro e o Sansex, que está em seu terceiro ano na baixada paulistana, entre outros. O aumento destes festivais possibilitou a fomentação de curtas-metragens LGBTT para serem exibidos em todo o território nacional, podendo se dar como exemplo a Mostra Itinerante do 4º Festival For Rainbow que levou filmes com essa temática há mais de 200 munícipios do Estado de Fortaleza. Os filmes foram Brincos de Estrela (Ficção, 19 min. 2008, Rio de Janeiro/RJ, Direção: Marcela Bertoletti); Depois de Tudo (Ficção, 12 min. 2008, Niterói/ RJ, Direção: Rafael Saar); E agora Luke (Animação, 04 min., 2010. Rio de Janeiro/RJ. Direção: Alan Nobrega); Ensaio de Cinema (Experimental, 15 min., 2009. Rio de Janeiro/RJ. Direção: Allan Ribeiro) Eu não quero voltar sozinho (Ficção, 17 min, 2010. São Paulo/SP. Direção: Daniel Ribeiro); Felizes para Sempre (Documentário 07 min., 2009. São Paulo/SP. Direção: Ricky Mastro); Glossário (Experimental, 02 min., 2008. Fortaleza/CE. Direção: Fabinho 11 Vieira); Homofobia, Lesbofobia e Transfobia (Documentário, 9 min., 2008. Brasília/DF. Direção: Felipe Fernandes); Sem Purpurina (Realidade LGBTT na Baixada Santista. Ficção, 17 min, 2010. São Paulo/SP. Direção: Daniel Ribeiro); On my Own (Experimental, 04 min., 2008, Fortaleza. Direção: Yuri Yamamoto). Temos uma média de mais de 200 festivais para esse tipo de mercado espalhados nos cinco continentes do globo3. Esses tipos de festivais são chamados festivais LGBTT e desde a criação do Mixbrasil que completou 20 anos tem trazido uma dezena de realizadores que fazem esse tipo de filme. É claro que a maioria dos cineastas não filma as suas histórias pensando apenas nesse público. Muitos bem sucedidos curtas-metragens como “Os Sapatos de Aristeu” dirigido por René Guerra, “Café com Leite” e “Eu Não quero voltar sozinho”, de Daniel Ribeiro, extravasaram o circuito LGBTT e seguiram a sua carreira pelo mundo. O próprio documentário “Felizes para sempre”, exibido anteriormente no Festival For Rainbown fez parte da coletânea “Fucking Different São Paulo” que teve a sua estréia no 60º Festival de Berlim e participou de inúmeros festivais pelo mundo, sendo eles LGBTT ou não. Note que o próprio realizador desse tipo de cinema, por muitas vezes, nega o título de cineasta deste gênero por medo de sofrer um preconceito, mas, o estudo desse projeto irá mostrar que, assumindo essa identidade, o cineasta e roteirista LGBTT poderá assumir nesse mercado em ascensão uma vantagem em relação àqueles que não possuem um nicho específico. Várias diferentes sessões foram criadas com levantamento de questões e temáticas importantes nessas comunidades como sexualidade na adolescência (Eu não quero voltar sozinho), travestismo (Os Sapatos de Aristeu), melhor idade (Felizes para sempre, O Professor Godoy) entre outros. A análise do aumento da produção de curtas-metragens independentes e universitários com a temática LGBTT durante a primeira década do século XXI nos revela a existência do gênero LGBTT no cinema brasileiro e como tem sido o avanço da produção cinematográfica nacional para que se consiga ultrapassar o mero discurso político e fazer de tais filmes obras cinematográficas em constante expansão. Há uma necessidade de se contar a História da chamada comunidade LGBTT na tela, mas, ao mesmo tempo, ultrapassar uma questão meramente política e conseguir realizar um filme que contenha um universo cinematográfico de qualidade. Esta dissertação 3 Para tal informação dispomos do site http;//www.queerfilmsfestivals.org 12 irá estudar a construção do filme LGBTT e o seu avanço ou transformações na intenção de fazer na sala de cinema além da arte, um ato e um discurso político. Se toda ação humana é em si política, sempre nos pareceu importante pensar o espaço das salas de cinemas diretamente ligadas com o conceito de "cinema político". Se (quase) todos os filmes lidam com a relação entre pessoas e supõem o contato dessas pessoas através de códigos de valores socialmente partilhados, é fácil entender de uma vez por todas que todo cinema é político, e os espaços que ele se utiliza - nesse caso, as salas de cinemas - são também espaços políticos. Se alguns são mais facilmente reconhecíveis e classificáveis como tal – filmes que lidam de forma direta com a "coisa pública" ou com instâncias de decisão e injustiça social –, isso não implicará jamais que sejam mais eficazes na sua permanência no mundo para fora da tela – no seu efeito, afinal, político (vale lembrar, "político" vem de polis, que significa cidade e, por extensão, a sociedade). Quando se pensa sobre visibilidade LGBTT não é só um cinema político que se anuncia, e sim toda uma política de cinema. As questões centrais que tomam esta dissertação são: podemos afirmar que existe realmente um gênero em que se possa classificar um determinado tipo de cinema como gênero LGBTT? O grande público irá aceitar esse tipo de filme e assisti-lo sem nenhum preconceito? Além disso: o cineasta e roteirista LGBTT poderão assumir nesse mercado em ascensão uma vantagem em relação àqueles que não possuem um nicho específico? A comunidade LGBTT, desde a metade da última década do século XX, tem conquistado cada vez mais visibilidade dentro de nossa sociedade. É importante notar que existe uma diferença entre GLS e LGBTT, e, por muitas vezes, o termo GLS é usado erroneamente. Há uma grande diferença entre as siglas GLS e LGBTT. A sociedade atual ainda confunde as duas. A sigla GLS é feita de modo comercial e se define como Gays, Lésbicas e Simpatizantes. Essa sigla foi criada em meados de 1994, quando o Festival Mixbrasil estava sendo lançado. O termo GLS surgiu no 2º ano do Festival Mix Brasil em 1994 (Mostra cinematográfica de curtas e longas metragens com o tema central da diversidade sexual) quando a equipe formada por André Fischer, Suzy Capó, Camila Rabello e André Gordon tentavam posicionar o público do evento. Começaram a procurar um nome tipo "gay friendly", e apareceu "simpatizante". Mas queriam que gays e lésbicas também fizessem parte da denominação. Durante mais de um mês falavam em gays, lésbicas e simpatizantes até que em uma reunião Camila apareceu com uma pasta escrito "GLS", contendo tudo o que se referia à discussão. Colocaram então a sigla no folheto de lançamento do 2º "Mix Brasil", com sua explicação e decidiram não registrar a marca para que fosse usada por todos. 13 Como podemos perceber essa sigla teve uma expansão explosiva e hoje em dia até no interior de Pernambuco existem bares que se denominam GLS. O termo LGBTT é formado pela comunidade de Lésbicas, Gays, Transexuais e Trânsgeneros e confere nos dados da cultura dessa comunidade. Então, quando falamos de cinema de gênero podemos apenas falar dessa sigla LGBTT e não da sigla GLS – um cuidado que deve ser sempre tomado. A ênfase no “hoje” é relativa às mudanças no uso de siglas e às questões políticas e mercadológicas a elas associadas. Um exemplo é o Primeiro Festival de São Francisco (1976/1977) – nomeado San Francisco International Lesbian and gay film festival – e, recentemente, sua página na Internet traz a sigla LGBT – uma tentativa de atualizar a nomeação da diversidade com a qual a comunidade homossexual se autonomeia. É interessante notar que alguns festivais privilegiam o termo lésbica no início da sigla e outros o gay. Gay/lésbica são termos que remetem ao contexto das lutas identitárias afirmativas durante a década de 1970. Gay também foi e é utilizado para pessoas que se identificam com o “estilo de vida gay”, em contraposição à vida straight (heterossexual). GLBT é uma sigla internacional vinculada aos movimentos homossexuais a partir dos anos 1990, mas nem sempre é adotada com todas as “letras”; no Brasil, a letra T é duplicada e remete a “travestis e transgêneros” – que engloba travestis e transexuais. Atualmente, as chamadas para festivais, sites de Internet e documentos utilizam mais a sigla LGBTT. Na década de 1990 (inicialmente no EUA e posteriormente nos demais Festivais e outros produtos culturais), o uso do Queer4 surgiu como uma proposta de ruptura com o discurso identitário que marcava o movimento gay Falando sobre cinema e a realização da obra em si: 4 Queer é um termo que proveio do inglês. Seu significado atual tem a ver com gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros entre outras designações. Seu significado inicial pode ser compreendido através da história da criação do termo, inicialmente uma gíria inglesa. Literalmente significa "estranho" ou "esquisito", mas a palavra foi usada em uma superposição de significado com a palavra queen, ou "rainha". Assim, seu significado completo seria de um homossexual masculino bastante afeminado, pois este seria uma rainha diferente. Outra derivação seria que queer derivou da palavra quare do Inglês Antigo, que significava "questionado ou desconhecido". Por muito tempo a palavra Queer foi considerada ofensiva aos homossexuais, que significa bicha (no Brasil) e paneleiro (em Portugal). Na verdade, a palavra Queer tem sido adotada pela comunidade LGBT no intuito de ser ressignificada. De um termo pejorativo, que colocava constantemente à margem os apontados por ela, a palavra Queer passou a denominar um grupo de pessoas dispostas a romper com a ordem heterossexual compulsória estabelecida na sociedade contemporânea, e mesmo com a ordem homossexual padronizante, que exclui as formas mais populares, caricativas e até artísticas de condutas sexuais. Assim, travestis, drag-queens, transsexuais e outras pessoas consideradas estranhas, e por isso, não aceitas socialmente, ao se denominarem queer ganham espaço social e individualidade, se distanciando cada vez mais de conceitos tais como desviantes ou aberrações 14 Tendo a câmera cinematográfica como elemento que separa o diretor e a cena poderíamos facilmente deduzir que o aparato mecânico, a câmera em si é de extrema importância dentro da sétima arte. Roland Barthes em seu livro “A câmera clara”, (1984) já fala que o sujeito quando vê a câmara se põe a pousar, mas, certamente, o realizador juntamente com o fotógrafo escolhe o plano que irá ser primeiramente decupado, depois filmado e montado. Alguns pontos são essenciais para pensar o início desse trabalho: O realizador que está dentro da cultura LGBTT percebe, de fato, o que é esta cultura, e que não se trata de meramente sexualidade? Coloca ou não a sua câmera de maneira diferente daquele realizador que não pertence a esse tipo de segmento-gênero? Diferente da sexualidade em si, que já ficou para o passado, não há uma necessidade de se contar a história da sexualidade LGBTT na tela. Os filmes que no decorrer desse trabalho serão apresentados e analisados (“Os Sapatos de Aristeu”, “Eu não quero voltar sozinho”, “Felizes Para Sempre”, “Depois do Almoço” e “Professor Godoy”) ultrapassam a questão puramente reveladora da definição da sexualidade. Aqui vale a pena uma definição do que se entende pelos termos sexualidade, gênero, diversidade. Autores de diversas áreas têm discutido tais problemáticas e proposto reflexões. Apoio-me, para entendimento desses termos, nos referenciais teóricos de Joan Scott e nas pesquisas que vêm sendo desenvolvidas nas áreas de gênero e sexualidade com diversos autores brasileiros (Guacira Louro Lopes, Thomaz Tadeu da Silva, Anderson Ferrari, entre outros). Através de processos culturais, definimos o que é – ou não – natural. Produzimos e transformamos a natureza e a biologia e, consequentemente, as tornamos históricas. Os corpos ganham sentido socialmente. A inscrição dos gêneros nos corpos – feminino ou masculino – é feita sempre no contexto de uma determinada cultura e com as marcas que essa cultura revela. As possibilidades da sexualidade – das formas de expressar os desejos e prazeres – também são sempre socialmente estabelecidas e codificadas. As identidades de gênero e sexuais são, portanto, compostas e definidas por relações sociais, elas são moldadas pelas redes de poder de uma sociedade. (LOURO, 2007, p. 11). A primeira dessas categorias – gênero – é problematizada a partir do referencial de Scott (2008), de que são nas relações sociais que os mesmos são construídos. Essas relações definem aquilo que a sociedade deseja enquanto papel social. Então aquilo que se espera do sexo masculino enquanto ação social é entendida como gênero masculino e o que se espera do sexo feminino é entendido como gênero feminino. Já a sexualidade está relacionada àquilo que desperta o prazer no sujeito, à maneira de vivenciar seus desejos e 15 prazeres corporais, seja com sujeitos do mesmo sexo, do sexo oposto, com ambos os sexos ou sozinho. Existem múltiplas e complexas redes de poder que, por meio de símbolos, discursos e instituições constroem hierarquias entre os gêneros. Historicamente a masculinidade é tida como sinônimo de força e inteligência, enquanto a feminilidade remete à fragilidade e submissão. Mais do que uma construção histórica, os gêneros precisam ser compreendidos como construção social e cultural constituinte da identidade dos sujeitos (SCOTT, 2008). Além de possuírem o sexo enquanto corpo anatômico, os sujeitos identificam-se como masculinos e femininos, e desse modo, estabelecem suas identidades de gênero. Esses também vivem seus desejos, vontades e prazeres corporais através da sexualidade. A sexualidade está relacionada àquilo que desperta prazer no sujeito, à maneira de vivenciar seus desejos e prazeres. Suas identidades sexuais constituem-se da maneira como praticam a sexualidade. Para Louro (2008): Não é possível fixar um momento – seja esse o nascimento, a adolescência, ou a maturidade – que possa ser tomado como aquele em que a identidade sexual e/ou a identidade de gênero seja “assentada” ou estabelecida. As identidades estão sempre se constituindo, elas são instáveis e, portanto, passíveis de transformação. (p. 27) A partir desses pressupostos, pensar a questão da diversidade torna-se um elemento fundamental para se pensar a relação entre cinema e visibilidade LGBTT. Este conceito define as diversas faces assumidas pela esfera sexual humana. Quando se leva em conta o grau de complexidade da interação social, das diferenças culturais, dos idiomas e hábitos distintos, entre outros elementos que conferem identidade às diferentes sociedades, é mais fácil compreender a diversidade sexual. Esta diversidade não se limita apenas ao exercício do sexo, mas igualmente a tudo que configura a sexualidade – as experiências de vida, os costumes assimilados ao longo da existência, as emoções, os apetites, o modo de agir e a forma como as pessoas se veem e são vistas pelos outros. Ela também engloba a multiplicidade de expressões, práxis, experiências, aspirações, identidades e atuações que divergem dos moldes convencionais, adotados pelos heterossexuais, completamente aceitos e assimilados pela sociedade. Os demais gêneros, considerados socialmente transviados – gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transgêneros, entre outros -, encontram geralmente sua forma de expressão na militância cultural e artística, em eventos como o Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual. Apresentam novas leituras e sentidos da diversidade e da visibilidade LGBTT. em um mundo atual onde tal definição já não é mais a problemática central. 16 Torna-se um desafio conseguir realizar um filme que contenha a linguagem cinematográfica em si que fale da cultura LGBTT, deixando a sexualidade em segundo plano da camada do personagem. Falar da sexualidade já não tem mais razão de ser. Pensando sobre sexualidade e gênero, um texto escrito por mim para abrir um parêntese aqui sobre sexualidade e gênero foi publicado no site Mixbrasil no dia 15 de novembro de 2011: “Na época da liquidez das relações, nada mais simples do que aplicar esse conceito na questão do gênero e da sexualidade – afinal em um mundo onde não existem distâncias tentar colocar em uma caixinha o masculino ou feminino não poderia estar fora de moda. Afinal, o que é o masculino ou feminino? O que hoje pode ser masculino, amanhã já virou feminino – e isso é bom demais! O mesmo se aplica para a sexualidade – hoje eu posso acordar me sentindo homem gostando de homem, amanhã acordar homem que gosta de mulher e por aí vai. (...)” (MASTRO, 2011) Assim sendo, este trabalho compõe-se de três grandes eixos fundamentais. Num primeiro capítulo, busco estabelecer a relação que se dá entre cinema, gênero e sexualidade e como tal interação estabelece uma influência e uma identidade cultural. Não trato aqui de identidades específicas de indivíduos, muito menos de identidades sexuais definidas, mas penso, sobretudo, na formação de uma identidade cultural, que possibilita uma condição de emergência para a construção e a visibilidade do movimento LGBTT. No segundo capítulo procuro analisar a importância das circulações dos filmes para o fomento e o aumento de uma visibilidade LGBTT. Olho, sobretudo, para os festivais ocorridos mundo afora e em diversas cidades do Brasil. Tais festivais são de extrema importância, pois dão vida e movimentam o cenário LGBTT, incentivando a produção e constituindo-se como um espaço possível de discussão, proposição de novas reflexões e aumento da visibilidade LGBTT. Tomo como referência o RECIFEST, apontando como tal evento é um espaço possível da construção da tríade de “como somos vistos, como queremos ser vistos e como devemos ser visto”. E no terceiro capítulo tento olhar para cinco experiências de curtas-metragens produzidos entre 2008 e 2011. Os curtas – já citados nesta introdução – são tomados e analisados sob a perspectiva de análise metodológica desenvolvida5 pela professora Bernadette Lyra. Neles procuro evidenciar como o aparato fílmico pode delatar e relatar a “identidade” sexual do realizador. 5 A metodologia foi desenvolvida por ocasião das aulas dadas na disciplina “Metodologia de Análises em Imagens e som” ministradas pela Profa. Dra. Maria Bernadette Lyra no 1º Semestre de 2011 na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo. 17 Capítulo 1 – A Influência da Identidade Sexual Este primeiro capítulo quer discutir identidade e sexualidade e como tais categorias articulam-se com a Cultura LGBTT e o Cinema. Vivemos em um mundo em que as imagens estão diretamente implicadas nas construções de identidades, isto porque elas estão por todos os lados, repetindo insistentemente mensagens que produzem subjetividades, constroem papéis e representações sociais, marcam diferenças, nos indicando modos de ser e estar no mundo. As imagens – e de modo especial, a imagem cinematográfica – vêm trabalhando sobremaneira a construção de novas culturas. No significativo texto “A Centralidade da cultura: notas sobre as revoluções de nosso tempo”, Stuart Hall (1997) – importante pensador no campo dos Estudos Culturais – afirma que estamos vivendo hoje uma verdadeira “revolução cultural”, porque cada vez mais se tornam fundamentais os movimentos relacionados à expressão ou à comunicação dos sentidos, a produção de significados. Há um verdadeiro boom de expansão quase ilimitada dos meios tecnológicos de produção, de circulação e de troca cultural em que estamos vivendo. O espaço destinado a significar as coisas não só ampliou-se consideravelmente como adquire gradativamente uma força expressiva. É na virada dos anos 2000 que, com o filósofo polonês Zygmunt Bauman, a discussão acerca dessa revolução cultural amplia-se com a criação e tomada do conceito de Modernidade Líquida (2001). É assim que ele se refere ao momento da História em que vivemos. Os tempos são “líquidos” porque tudo muda tão rapidamente. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Na modernidade líquida não há compromisso com a ideia de permanência e durabilidade. Entre a possibilidade do desprendimento fluido como modo de vida e a imposição do mesmo para a imensa maioria, há um vácuo entre a liberdade e a incerteza, a emancipação e o total desamparo social e individual. Bauman (2001) define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, um indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva do planejamento em longo prazo; e o divórcio e a iminente apartação total entre poder e política. Diante destas perspectivas apontadas, algumas questões se abrem: é possível pensar em identidade(s)? O que são identidades numa sociedade da liquidez? O que são 18 identidades sexuais? E se for possível falar de identidades sexuais, qual têm sido a influência do cinema e dos aparatos fílmicos nessa problemática? Muitas questões que abrem este capítulo. Questões estas que nos permitem olhar para a trajetória do cinema, de modo particular o cinema brasileiro, percebendo as continuidades, as rupturas, os variados processos que, ao longo do tempo, têm possibilitado relacionar a sétima arte com a formação de uma identidade cultural. O que vem a ser esta identidade? Se tomarmos o dicionário da língua portuguesa como fonte de pesquisa deste conceito temos que identidade é “1. o estado do que não muda, do que fica sempre igual; 2. consciência de persistência da própria personalidade; 3. o que faz que uma coisa seja a mesma (ou da mesma natureza) que outra; 4. o conjunto de características e circunstâncias que distinguem uma pessoa ou uma coisa e graças às quais é possível identificá-la; 5. igualdade entre as expressões que se verifica para todos os possíveis valores atribuídos às variáveis que ela contêm.” (HOUAISS, 2009, p. 1696). Indo numa linha contrária a essa hermenêutica, Tomaz Tadeu da Silva (2000) enfatiza que a identidade não é uma essência, não é um dado ou um fato – seja da natureza, seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade é uma construção, um processo de produção, uma relação, fragmentada, inconsistente, inacabada. A identidade está ligada a estruturas discursivas e narrativas. “O conceito de identidade é um complexo, muito pouco desenvolvido e muito pouco compreendido nas ciências sociais contemporâneas para definitivamente ser posto à prova.” (HALL, 2005, p. 8) Pensar a sociedade como lugar de construção das identidades é pensá-la também como lugar das diferenças. Identidade e diferença andam lado a lado, articulando-se na construção dos sujeitos. A partir dos argumentos de uma nova modernidade, podemos dizer que identidade é aquilo que se é, e a diferença é aquilo que não se é. (SILVA, 2009). A identidade não é fixa, ela é mutável, em constante transformação, influenciada pelos sistemas sociais e culturais à nossa volta. Somos constituídos por identidades contraditórias, que nos empurram em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações vão sendo continuamente descoladas (HALL, 2001). A identidade não deve ser algo dado pelo outro, pelo diferente, mas sim um conjunto de características que seja reconhecido pelos que o incorporam; algo que venha a ser assumido pelos que recebem esses rótulos (CODATO, 2003). As identidades confundem-se e fundem-se com as representações sociais. Se a identidade é construída por meio das práticas sociais de um indivíduo, deve ser algo inerente a ele, ou seja, aceita por aquele que segue tais práticas. Kathryn Woodward (2000) lembra que a complexidade da vida moderna 19 exige que assumamos diferentes identidades, e que estas diferentes identidades podem estar em conflito. Segundo ela, podemos viver em nossas vidas pessoais tensões entre nossas diferentes identidades quando aquilo que é exigido por uma identidade interfere com as exigências de uma das outras. Stuart Hall (2005) aponta que as identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno. Se até grande parte do século XX, o sujeito era tido como um sujeito unificado, a chegada ao século XXI aponta para uma crise de identidades, vista como parte de um processo de mudança, que desloca as estruturas e processos centrais das sociedades modernas, abalando os quadros de referência que davam aos sujeitos uma ancoragem estável no mundo social. É a vivência, como afirmou Bauman, no mundo da “liquidez”. Dessa forma, as identidades modernas estão sendo “descentradas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas. Com isso, há que se pensar uma nova problematização de identidade(s) em relação ao tempo-espaço em que vivemos, sobretudo nos aspectos mais subjetivos e relacionais dos sujeitos. Elementos como a sexualidade e a afetividade surgem como peças fundamentais na constituição dessas novas identidades. Deborah Britzman enfatiza: Gostaria de argumentar em favor de uma noção mais complexa e mais historicamente fundamentada de identidade, uma noção que veja a identidade como fluida, parcial, contraditória, não unitária, uma noção que veja a identidade como envolvendo elementos sociais. Pensar a identidade significa não apenas ver esses elementos como efeitos constitutivos das relações sociais e da história, mas também como capazes de articular o desejo e o prazer. Quando se trata de questões de desejo, de amor, de afetividade, a identidade é capaz de surpreender a si mesma: de criar formas de sociabilidade, de política e de identificação que desvinculam o eu dos discursos dominantes da biologia, da natureza e da normalidade. O desenvolvimento dessa capacidade de um esforço contínuo para desvincular o eu da normalidade, para que ele possa ser algo mais do que aquilo que a ordem das coisas prediz, constitui uma das ideias centrais dos Estudos Gays e dos Estudos Lésbicos, bem como da Teoria Queer. (BRITZMAN, 1996, p. 73) Aqui se entra numa discussão fundamental para se pensar a relação entre identidade e sexualidade. Se não existe mais solidez na construção de identidades, mas um processo de constante mudança e devir, a própria discussão da questão identitária sexual perde sua relevância no mundo em que estamos inseridos. Contudo, há que se problematizar uma das questões elementares para se discutir sexualidade, sexo e relações de gênero. Como tais marcas interagem e se desdobram dentro deste novo contexto. A primeira questão a ser levada em conta é a distinção entre estes termos – sexo/sexualidade/gênero – tendo em vista as perspectivas apontadas pelos Estudos 20 Culturais, os Estudos Feministas, os Estudos Gays e Lésbicos e, mais recentemente, os estudos da Teoria Queer 6. O que é sexo? O que é Sexualidade? O que é Gênero? Como tais categorias se colocam dentro da cultura heteronormativa7? Primeiro ponto importante: não há nada puramente “natural” e “dado”. Somos constituídos em processos no âmbito da cultura (LOPES, 2008, p. 18). A cultura é um dos elementos mais dinâmicos e mais imprevisíveis. E isso se reflete, sobretudo, quando pensamos em gênero e sexualidade. Segundo ponto importante: gênero é pensado a partir do referencial de Scott (2008) de que são nas relações sociais que os mesmos são construídos. Essas relações definem aquilo que a sociedade deseja enquanto papel social. Então aquilo que se espera do sexo masculino enquanto ação social é entendida como gênero masculino e aquilo que se espera do sexo feminino é entendido como gênero feminino. Terceiro ponto importante: Já a sexualidade pode ser entendida sobre vários aspectos. Num sentido mais amplo e abstrato está relacionada àquilo que desperta o prazer no sujeito, à maneira de vivenciar seus desejos e prazeres corporais, seja com sujeitos do mesmo sexo, do sexo oposto, com ambos os sexos ou sozinho. Numa outra perspectiva tomada pelo filósofo Michel Foucault em seus estudos que culminaram nas obras “História da Sexualidade I, II e III”, o termo é entendido como um dispositivo que penetra e controla o corpo individual e social, atuando como mecanismo de disciplina e poder. Nas culturas contemporâneas, existem múltiplas e complexas redes de poder que, por meio de símbolos, discursos e instituições constroem hierarquias entre os gêneros. Historicamente, a masculinidade é tida como sinônimo de força e inteligência, enquanto a feminilidade remete à fragilidade e submissão. Mais do que uma construção histórica, os gêneros precisam ser compreendidos como construção social e cultural constituinte da identidade dos sujeitos (SCOTT, 2008). Além de possuírem o sexo enquanto corpo anatômico, os sujeitos identificam-se como masculinos e femininos, e desse modo, estabelecem identidades de gênero. Estes também vivem seus desejos, vontades e prazeres corporais através da sexualidade. Suas identidades sexuais constituem-se da maneira como praticam a sexualidade: com sujeitos 6 A teoria queer, oficialmente queer theory (em inglês), é uma teoria sobre o gênero que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de uma construção social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, antes formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais. 7 Utilizo o termo “heteronormativo/heteronormatividade”para designer o sistema de pensamento predominante nas sociedades ocidentais modernas, que aponta o modo de ser heterosexual como único orientador sexual e norma de conduta possível. (PARKER, 2002). 21 do sexo oposto, sujeitos do mesmo sexo, de ambos os sexos, ou sem parceiros. Para Louro (2008): Não é possível fixar um momento – seja esse o nascimento, a adolescência, ou a maturidade – que possa ser tomado como aquele em que a identidade sexual e/ou a identidade de gênero seja “assentada” ou estabelecida. As identidades estão sempre se constituindo, elas são instáveis e, portanto, passíveis de transformação. (p. 27) Somando estes elementos da sexualidade à perspectiva de uma modernidade líquida, vemos que o ser humano é um sujeito em processo, livre para movimentar-se da mesma forma que os fluidos. Se há essa liberdade e a possibilidade de movimentar-se em meio a essa fluidez, não existe mais uma exigência rígida de “escolhas” (se é que em algum momento a sexualidade foi pensada como uma escolha). Não existe mais uma orientação sexual, uma identidade sexual hermeticamente constituída. O ser humano líquido (líquido sim, pois é um indivíduo que faz parte de um tempo líquido, que escorre e muda constantemente numa grande velocidade) transita e evita tudo o que é sólido e possa durar. Evita afirmar-se como uma identidade estanque, imóvel. É um ser humano imediatista, ávido por prazer e isso se acentua na dimensão da sexualidade: os indivíduos buscam um no outro o prazer imediato, que se configura como um laço frouxo e ligeiro. A sexualidade humana não deve ser entendida somente no sentido do ato sexual em si, mas como um conjunto complexo de atitudes, hábitos, impulsos e ações que visa o estabelecimento de relações com outras pessoas. O ato sexual faz parte da sexualidade, mas a sexualidade não é somente o ato sexual, o coito. Contudo, na modernidade líquida, a sexualidade quase sempre é entendida como ato sexual simplesmente. Assim, muitas vezes, o outro (a outra pessoa) é percebida como uma fonte de prazer, como um objeto capaz de proporcionar prazer imediato, algo capaz de satisfazer os desejos inflamados pelo discurso da cultura líquida consumista — discurso que é veiculado muito eficientemente pelas diversas mídias. Assim, fundou-se um mercado sexual, onde a ideia do descartável reina, onde o outro é um objeto que pode ser utilizado para obter prazer — e que posteriormente pode ser descartado sem maiores problemas. O discurso acerca das relações de gênero perde sua relevância no contexto de uma sociedade líquida. Afirmar a importância da discussão e da problematização em torno do gênero torna-se obsoleto, pois, se o ser humano é um “ser cambiante” pela liquidez e pela necessidade de saciar seus desejos, sejam eles quais forem. Não existe mais uma instância para se pensar relações e formações de identidades. Existem apenas seres desejantes em processos e buscas de realizações. Isto aponta para uma questão que se torna preocupante: Se estamos imersos numa cultura heteronormativa, que privilegia e assegura a heterossexualidade como padrão único hegemônico, as sexualidades que não se 22 enquadram nessa norma – tidas como “estranhas” – perdem ainda mais o seu lugar nessa fluidez que dissipa a discussão em torno dos gêneros. Como afirma Britzman: “o pressuposto universal – ao menos até que seja perturbado – é que “todo mundo” é, ou deveria ser, heterossexual e que a heterossexualidade é marcada através de rígidos binários de gênero. A transgressão de fronteiras generificadas resultará provavelmente no questionamento social da identidade do/a transgressor/a bem como na penalizante insistência de que formas de masculinidade e feminilidade devem ser estabelecidas como rigidamente opostas, como desvinculadas do processo de construção social. Mas como funciona a insistência na estabilidade do gênero e do sexo?” (1996, p. 76) O que quero ressaltar é que sob o ponto de vista da subjetividade, não cabe uma reflexão em torno da(s) sexualidade(s) e da questão de gênero, pois estas se tornam cada vez mais processos em mutabilidade e em construção contínua num dado espaço e tempo. Contudo, sob o ponto de vista político, é cada vez mais urgente e imprescindível a afirmação das relações de gênero e das múltiplas possibilidades de vivência da sexualidade. Nesta ótica, o cinema, assim como outros aparatos culturais, têm sido/é um espaço importante e significativo na construção e afirmação de uma política da diversidade e da visibilidade, especialmente das possíveis sexualidades – tidas como estranhas – que não se enquadram na lógica heteronormativa. Se “o cinema desempenha uma função cultural” como nos lembra Turner (1996, p. 69), é possível dizer que o cinema exerce uma importante e eficiente influência, no sentido de que sempre “dá visibilidade” aos diferentes modos de ser, de viver, de se comportar, mais do que isso, o cinema participa da produção de sujeitos e identidades, através dos discursos que põe em movimento na tela. Um filme, como artefato cultural, veicula e faz circular ideias, valores, estilos de vida e outros produtos a eles associados (LOURO, 2000). Bernadette Lyra (2001) aponta que “dentro de uma certa perspectiva teórica todo filme é um objeto de jogo e serve ao jogo do cinema com os telespectadores”. Por caminhos parecidos, Luis Fernando Saraiva (2011) nos propõe pensar o cinema em sua relação com o espectador, remetendo a um jogo de forças constituído por verdades que o interpelam, que produzem possibilidades para pensar o filme, para atribuir-lhes sentidos. Se por um lado há o olhar do cineasta e uma intenção naquilo que ele cria, esta criação só adquire sentido maior na relação com o olhar do espectador, que também cria e também atribui sentido àquilo vê. A forma como os filmes são processados pelo público é o que os torna ainda mais reais e o que os leva a ter um efeito ainda mais poderoso. Por isso que falar de um cinema que dá voz, vez e visibilidade à cultura LGBTT é falar de um espaço construído numa relação entre o cineasta que, por meio dos seus aparatos fílmicos, deseja revelar algo e o espectador que, por meio também dos seus 23 desejos, constrói subjetivamente a história que vê e tem a possibilidade de entrar em uma relação particular com a história e o sistema de imagem do filme. Vários pesquisadores têm realizados diversos estudos em relação à visibilidade LGBTT no cinema, e de modo particular, do cinema brasileiro. Um dos estudos mais aprofundados foi do historiador Alexandre Moreno no livro “A personagem homossexual no Cinema Brasileiro”, que faz uma análise de 125 filmes em que a temática da homossexualidade aparece. É feita uma análise minuciosa destas personagens. Essa análise foi construída com base em dois elementos importantes: a gestualidade e a narratividade. Contudo, a análise de Moreno ;é bastante pessimista e negativa. O que ele vê é sempre um tom pejorativo e caricatural nas personagens. Mesmo afirmando que não pretende fechar qualquer discurso sobre o que os filmes deveriam apresentar a respeito da homossexualidade (MORENO, 2001, p. 283), nota-se, em suas análises uma tendência totalmente negativa e pessimista das personagens: No caso relativo ao tratamento dado aos homossexuais, notadamente o gestual, os códigos utilizados pelos produtores têm mostrado uma tendência de trabalhar sobre um modelo que representaria toda personagem deste gênero. Neste modelo, além de um discurso altamente pejorativo, a tendência de convergir para o seu aspecto gestual, características dos gestos masculinos e femininos, facilmente extrapolados, exagerados, encaminhando o discurso não para uma proposta sobre a dubiedade da personagem, mas para um estereótipo: para o ridículo da possibilidade de um homem se comportar como mulher ou vice-versa. (MORENO, 2001, p. 284) Percebe-se uma visão absolutizada do autor. Será que a análise feita por ele é a mesma análise feita por todos os espectadores destes filmes? Se como já foi dito anteriormente que o olhar é sempre muito subjetivo, como pode-se chegar em conclusões tão consumadas e totalizadoras de uma realidade? Moreno, com o seu discurso, parece muitas vezes preconceituoso e retrógrado pois não se dá conta de como o cinema pode produzir sentidos diferentes e alternativos. Em momentos o que parece estereótipo e caricatura para alguns, pode não ser para outros. Além disso, novas discussões e possibilidades de leituras se incorporaram na trajetória das personagens homossexuais, que ampliaram a discussão para além da própria cultura LGBTT. Exemplo concreto disso são as novas experiências fílmicas surgidas a partir do século XXI, que apontam novos caminhos e novas discussões sobre a temática LGBTT. A pergunta que fica é se realmente nos novos tempos (usando o jargão dos tempos hipermodernos), onde a sexualidade é líquida, onde a rotulação homossexual, heterossexual e bissexual já é considerada ultrapassada, podemos realmente descrever a 24 personagem homossexual no cinema brasileiro? Há uma identidade construída e projetada? Talvez no cinema do século passado. Não no cinema atual onde a sexualidade faz parte apenas de uma das camadas que configuram o personagem. 25 Capítulo 2 – Circulação dos Filmes Festivais LGBTT no Brasil e no Mundo A comunidade LGBTT nas últimas décadas se viu retratada de inúmeras formas nos principais veículos de mídia como a televisão, o cinema ou como conteúdo das novas mídias - as principais redes sociais, o canal de vídeo “You Tube”8 entre outros. Levando em consideração o autor Marshall Mcluhan (1969) que afirma que “o meio é a mensagem”, temos a internet como um dos meios de maior penetração dentro da nossa sociedade. Este mais recente aparato de comunicação traz conteúdos e uma nova realidade que faz surgir nos realizadores uma nova atenção para este e outros tipos de mídias. Os chamados “memes”9 que, atualmente, são febre na rede mostram que a personagem homossexual, dentro das novas mídias, pode ter uma nova visibilidade tanto para o lado positivo quanto para o lado negativo do velho jargão: “de como somos vistos, como queremos ser vistos e como devemos ser vistos”. O curta-metragem de Daniel Ribeiro “Eu não quero voltar sozinho” foi uma febre nas redes sociais. O próprio diretor resolveu colocar o filme em ótima qualidade para o público ver. Entrevistando-o por telefone, Ribeiro diz: “Preferi colocar o filme no You Tube, pois estava cansado de ter quase que diariamente mandar e-mail para o site dizendo que o material ali era da minha propriedade intelectual.” O filme até então já teve, somente no canal oficial do diretor, mais de 2.000.000 de acessos10, virando um fenômeno dentro do circuito de exibição nacional. Um detalhe interessante dessa trajetória foi a censura feita no 8 YouTube é um site que permite que seus usuários carreguem e compartilhem vídeos em formato digital. Foi fundado em fevereiro de 2005 por três pioneiros do PayPal,2 um famoso site da internet ligado a gerenciamento de transferência de fundos. 9 Um meme, termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller O Gene Egoísta, é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética. Quando usado num contexto coloquial e não especializado, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra. Este uso aproxima o termo da analogia da "linguagem como vírus", afastando-o do propósito original de Dawkins, que procurava definir os memes como replicadores de comportamentos 10 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI 26 Acre, no ano de 2011, por ter sido suposto como o “kit gay” que seria distribuído nas escolas.11 Os festivais voltados para esse tipo de gênero ainda são escassos no Brasil, mas, já possuem uma grande trajetória mundo afora, como, por exemplo, nos Estados Unidos (existe pelo menos um por estado), a mostra “Panorama” no Festival de Berlim e o festival de Cannes que, neste ano de 2013, teve a terceira edição do “Queer Cannes.”12 Karla Bessa (2007) lembra que um dos pontos de partida dos circuitos de festivais LGBTT nos anos 1990 é o fato de serem primeiramente constitutivos e constituintes de práticas representacionais que visam tornar presente de modo positivo imagens (função de mímeses, muitas vezes espelhadas; noutras, autocrítica bem humorada) relativas ao universo “homo” e seus arredores. Um dos desafios iniciais dos festivais era criar um espaço de produção e exibição de filmes que estabelecessem um diálogo entre a pluralidade de sujeitos e subjetividades pertencentes à cena “homo”. Promover a ruptura com o padrão estético da sissy (gay afeminado) com cenas de erotismo entre mulheres – direcionadas para a libido masculina heterossexual, ou ainda personagens gays vinculadas à criminalidade, monstruosidade, fadadas a finais trágicos reservados aos que se permitiam participar das mais grotescas perversidades. (BESSA, 2007, p. 56) Pode-se observar que a partir dos anos de 1990 com a multiplicação dos diversos tipos e especialidades de festivais de cinema, incluindo os que contemplam as mudanças na tecnologia e formatação dos filmes (curtas, VHS, digital) emerge-se uma crescente de festivais gays e lésbicas no Brasil e no mundo. A produção de filmes com temática homossexual encontra vazão num mercado paralelo formado por mais de cem festivais de cinema LGBTT em todo o mundo, festivais que funcionam como importante reconhecimento de identidade para seu público específico, mas que também revelam para um público mais amplo outro cinema. (NAZÁRIO, 2007, p. 105) Percebe-se que a configuração dos festivais LGBTT de cinema, naquilo que eles geram em termos de produção e de consumo de bens culturais (materiais e imateriais) interage com a constituição da cena gay, ou seja, há uma relação entre os festivais LGBTT, o circuito cinematográfico por ele concebido e o modo como essa dinâmica compõe a produção de subjetividade e suas respectivas marcas de gênero no mundo contemporâneo. 11 A expressão “kit gay” refere-se ao material composto por cartilhas e vídeos que tratam de temas como prevenção da gravidez na adolescência, violência, diversidade sexual e preconceito. O material "Preconceito e discriminação no contexto escolar", que faz parte do programa "Prevenção também se ensina", e é entregue aos professores para que os temas sejam abordados em sala de aula. 12 Para maiores informações: http://www.queerpalm.fr 27 Pode-se afirmar que, graças a muitos desses festivais, filmes mais bem produzidos ganharam o circuito alternativo e vêm promovendo uma maior visibilidade da cultura LGBTT. Algumas cidades já apresentam uma demanda para a exibição de sua produção local, como é o caso, por exemplo, da cidade de Recife, em Pernambuco, onde tive a chance, juntamente com a proponente Claudia Rosangela de Assis Ferreira, de fazer um projeto que foi aprovado e deverá acontecer ainda neste ano. Aproveito este espaço para apresentar o projeto que foi desenvolvido no intuito de evidenciar como iniciativas como esta fomentam cada vez mais o mercado LGBTT. 2.1 RECIFEST RECIFEST é projeto aprovado pelo 5º Edital do Programa de Desenvolvimento da Produção Audiovisual de Pernambuco. JUSTIFICATIVA DO PROJETO: (assim como foi enviado à FUNARTE13) A diversidade sexual O Recife ainda não possui nenhum evento voltado para o público LGBTT. Durante muitos anos abrigou o Festival MixBrasil, mas este deixou de ser realizado no Estado já algum tempo. Em uma época onde a diversidade sexual é tão debatida e discutida, nada mais justo que uma cidade como Recife ter o seu próprio festival da diversidade sexual, dando a chance de visibilidade na tela para essa minoria. Além disso, o festival pretende fomentar a produção local de filmes que tenham esta temática para serem exibidos nos anos seguintes do festival. Isso também se dará na mostra competitiva local. Durante o festival, o público tanto da comunidade local LGBTT, quando o público de fora terão a oportunidade de ver o que está sendo produzido no estado de Pernambuco e no país como um todo. O festival começará com filmes convidados pela curadoria, mas nos anos seguintes a curadoria do festival será feita através de envio de DVDs e a escolha dos curtas tanto para a mostra paralela quanto para a mostra competitiva. O festival está baseado em festivais tanto nacionais como o Festival Mixbrasil, que é sediado em São Paulo e já está na sua 20º edição; o SANSEX, que teve a sua estreia ano 13 Funarte significa Fundação Nacional de Arte. 28 passado na cidade de Santos em São Paulo; e o CLOSE, que teve a sua 2º edição em Porto Alegre no ano passado. O curador do festival de Recife participou como realizador em quatro edições do Mixbrasil, em todas as edições do CLOSE e como oficineiro na primeira edição do SANSEX. Além disso, Ricky Mastro produziu mais de 8 curtas-metragens com a temática LGBTT tendo seus curtas distribuídos em mais de 200 festivais nacionais e internacionais participando de vários festivais temáticos como o Newfest (Nova York), Rozendag (Amsterdam), Berlim – além de rodar curtas-metragens internacionais como aconteceu durante o Festival de Cannes de 2011 (Koka) e 2010 (Being France). Além de ter sido o criador e curador da “Mesa Diversidade FAAP” de 2006-2011 na Fundação Armando Álvares Penteado – São Paulo durante a Semana de Comunicação. O festival terá uma cerimônia de abertura onde um longa-metragem será exibido e onde celebridades da comunidade LGBTT poderão fazer performances, além da cerimônia de encerramento que vai visar o fomento desse tipo de produção na cidade de Recife. Por não cobrar valor de ingressos dará maior oportunidade das pessoas em geral participarem do evento, fazendo com que este se torne um espaço onde a diversidade possa ir além da comunidade LGBTT. Além de agregar com as suas diferentes mostras todos os tipos de público seja ele o da terceira idade, o adulto e o jovem. O RECIFEST – Festival da Diversidade do Recife – pretende dar a oportunidade à comunidade LGBTT de se expressar e poder ter a oportunidade rara de se ver na tela, dando a importante chance de visibilidade a mesma. OBJETIVOS E METAS DO PROJETO: A) GERAL: Realizar RECIFEST - FESTIVAL DA DIVERSIDADE DO RECIFE, na cidade do Recife, durante cinco dias, além de mostra itinerante dos filmes vencedores por pelo menos cinco cidades do interior. B) ESPECÍFICO: 1. Realizar uma Mostra Competitiva Local – para aguçar a produção dentro do Estado – com 10 filmes curtas-metragens na mostra que foram produzidos a partir de 2009. 2. Realizar uma Mostra Competitiva Nacional – 10 filmes curtas-metragens que foram produzidos a partir de 2009 pelo território Brasileiro 3. Realizar a Mostra Visibilidade - filmes nacionais e internacionais – mostra de filmes que tratam como o tema principal a visibilidade nas telas – será de 10 filmes curtasmetragens 29 4. Realizar a oficina de Distribuição de filmes de Curtas Metragens no país e no exterior 5. Realização em audiovisual Promover e incentivar o debate sobre a diversidade sexual no Brasil através do Festival e da mostra itinerante - em parceria com outros festivais e com cineclubes do estado - com vídeos vencedores do RECIFEST - FESTIVAL DA DIVERSIDADE DO RECIFE ESTIMATIVA DE PÚBLICO ALVO: (camadas da população / quantidade / faixa etária) O Festival Recifest da Diversidade será realizado no Cinema da Fundação, com capacidade para 198 cadeiras, que são disponibilizados a preços populares para os espectadores, e no qual teremos duas sessões por dia. Acreditamos que é um público carente deste tipo de oferta cultura e que teremos sala cheia em todas as sessões, totalizando, portanto um público de 1.980 pessoas. Alem disso teremos a mostra itinerante em parceria com os cineclubes nas cidades do interior, considerando que cada sessão terá 40 pessoas totalizará mais 200 espectadores. O público total estimado, portanto é em 2.180 pessoas em todos os dias das mostras. Já nas oficinas estimamos 20 pessoas a cada oficina, totalizando 40 pessoas que receberão especialização ou formação. O público que terá acesso ao site do evento, entretanto, será bem mais numeroso, estimamos em 200 acessos/dia, pelo período de um mês (de realização do Festival) totalizando mais 600 pessoas. Potencializaremos também através das redes sociais como: twiter, facebook etc. Nosso público alvo são os jovens - a partir dos 16 anos - e adultos interessados em cinema e no tema diversidade sexual. Acreditamos que será composto por profissionais liberais, universitários e demais trabalhadores, de ambos os gêneros e de todas as classes sociais. Na escolha do local também consideramos o Cinema Fundação, pois o local dispõe de infraestrutura para cadeirantes, e algumas das sessões são legendadas facilitando também a acessibilidade para os deficientes auditivos. RESUMO CURATORIAL: Em seu primeiro ano RECIFEST - FESTIVAL DA DIVERSIDADE DO RECIFE, trará para o estado de Pernambuco, o melhor da produção LGBT dos últimos três anos no Brasil e pelo mundo. A mostra que terá como tema “VISILIDADE – O QUE MUDOU NA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉCULO XXI”, terá três mostras não competitivas: 30 a) Mostra Competitiva Local – para aguçar a produção dentro do Estado – com 10 filmes curtas-metragens na mostra que foram produzidos a partir de 2009; b) Mostra Competitiva Nacional – 10 filmes curtas-metragens que foram produzidos a partir de 2009 pelo território Brasileiro; c) Mostra Visibilidade – mostra de filmes que tratam como o tema principal a visibilidade nas telas – será de 10 filmes curtas-metragens Além disso, teremos um filme longa-metragem na abertura e outro no encerramento do evento. A ideia é também de podermos fazer uma parceria com um festival do gênero internacional e trazer uma mostra de filmes de curtas metragens, com uma curadoria feita por eles. O júri pode ser composto por essa pessoa (como o Queer Palms que acontece em Cannes, o Rozendag que acontece em Amsterdam) e mais dois jurados locais que tenham trabalhos dentro do audiovisual LGBT. Durante o RECIFEST - FESTIVAL DA DIVERSIDADE DO RECIFE, ainda teremos um dia dedicado a filmes trash, a melhor idade e as novas formas de sexualidade. Oficinas poderão ser dadas durante os cinco dias do evento e, conforme o orçamento, os diretores escolhidos poderão ser convidados para o evento com passagem e hospedagem (assim como acontece no Festival For Rainbow, Ceará e Close de Porto Alegre). Durante a pré-produção será desenvolvido um site ou blog - exclusivo do RECIFEST FESTIVAL DA DIVERSIDADE DO RECIFE - no qual será divulgado o evento e publicado um regulamento para os realizadores que quiserem inscrever seus filmes para as mostras competitivas. As mostras poderão ser compostas tanto por filmes inscritos como por produções convidadas pelos curadores, sempre primando por uma programação de alto nível artístico e técnico do evento. Será premiado com dinheiro um filme de cada uma das mostras de curta metragem, com valor de R$ 1.000,00 pagos às empresas produtoras dos filmes. 2.2 Calendário dos festivais LGBTT no Brasil em 2013: Importante notar que, com exceção do “Curta ao gênero,” todos os festivais são realizados no segundo semestre do ano e que por muitas vezes eles são feitos um seguido do outro a partir do mês de Outubro. Devido a esse conflito de agendas, o festival por muitas vezes não pode exigir o “ineditismo” da obra do realizador, fazendo com que a distribuição do curta-metragem seja prejudicada nesse próprio nicho que ela é realizada. 31 Outro ponto importante a ser considerado é que apesar dos filmes terem uma tela a ser exibida, essa é encontrada em apenas uma ou duas salas das cidades onde o evento se realiza. Curta ao gênero - Ceará – Fortaleza - Março Rio Festival Gay de Cinema – Rio de Janeiro – Rio de Janeiro - Julho CLOSE – Rio Grande do Sul - Porto Alegre - Outubro For Rainbow – Ceará – Fortaleza – Outubro Mostra das Possíveis Sexualidades – Bahia – Salvador - Outubro Sansex – São Paulo – Santos - Novembro Mixbrasil – São Paulo – São Paulo – Novembro 32 Capítulo 3. Apresentação de Cinco Curtas-Metragens LGBTT exibidos entre 2008 a 2011 Nesse capítulo será analisado cinco curtas-metragens produzidos entre os anos de 2008-2011 por cinco diretores que tiveram a chance de exibir o seu curta-metragem juntos em diversos festivais nacionais e internacionais. Os cinco curtas-metragens são: “Felizes para Sempre” dirigido e escrito por Ricky Mastro, “Não sei voltar sozinho” dirigido e escrito por Daniel Ribeiro, “Professor Godoy” dirigido e escrito por Gui Aschcar, “Depois do Almoço” dirigido e escrito por Rodrigo Diaz Diaz e “Sapatos de Aristeu” dirigido e escrito por René Guerra. Os filmes serão examinados mostrando a visibilidade das personagens apresentadas e como isso se reflete na identificação dos espectadores, independente de sua sexualidade. Apenas assim, como seres humanos, que amam, sofrem questionam e procuram o espaço de identidade dentro da sociedade ao longo dos tempos. Os cinco curtas metragens escolhidos abrangem personagens de diversos tipos da comunidade LGBTT, como as lésbicas do filme “Felizes para Sempre,” as personagens bissexuais do filme “Depois do Almoço”, a travesti do filme “Os Sapatos de Aristeu” e a personagem gay nos curtas “Eu não sei voltar sozinho” e “O Professor Godoy”. Nestes dois últimos filmes, o primeiro é o rito de passagem entre a infância e a adolescência e a descoberta de uma sexualidade (seja ela qual for) e no último o conflito de geração entre o professor Godoy que está na chamada “melhor idade” e seu aluno mais novo. Note que em todos os filmes a sexualidade das personagens escrita pelo próprio realizador sempre está em segundo plano. Não há um interesse explícito nessa revelação, apontando neste caso uma direção a esse tipo de cinema produzido na primeira década do século XXI. Estas histórias são apenas de seres humanos que emergem na superfície do filme que é mostrado na tela, percorrem uma pequena jornada que é vista pelo espectador comum, analisada e criticada pelo mesmo e pelos indivíduos que pertencem ou não a comunidade LGBTT. O diretor tem o seu olhar dirigido, pois ele que escolhe como a história é contada através dos diversos tipos de elementos fílmicos, como a elaboração da personagem, do roteiro, da escolha dos planos, juntamente com o fotógrafo, da trilha sonora e por aí vai. A concepção do olhar do cineasta nesse caso é de extrema importância, pois é dele que vem a obra. A sua sexualidade pode interferir nessa escolha através da sua interpretação e percepção do mundo. Essa concepção é mostrada diversas vezes no momento em que ela emerge na tela, como, por exemplo, em sua escolha de não debater em nenhum momento a sexualidade de 33 suas personagens. Eles simplesmente percorrem, em suas trajetórias, os mesmos caminhos como se estivessem encaixados dentro de um chamado padrão heteronormativo. Isto é mostrado em cada filme de maneira diversa, mas ao mesmo tempo muito similar. Num artigo que escrevi para o site Mixbrasil sobre o filme “Eu não sei voltar sozinho” publicado no dia 21/9/2011 enfatizei o seguinte: “Como quero ser visto” Começo meu blog aqui no Mixbrasil falando sobre a visibilidade da nossa comunidade LGBTT dentro e fora das telas. É um assunto denso e complicado, e eu como cineasta há mais de seis anos tento desvendar esse mistério. Por muitas vezes gostamos e damos risadas dos estereótipos que são criados nos veículos da televisão. Comentamos com amigos, damos gargalhadas e vira até jargão entre os nossos bate-papos. Um dia até cheguei a escutar: “será que os roteiristas da televisão usam as nossas frases nos programas?” Mas, será que é esse o caminho? Vários cineastas brasileiros estão revelando uma nova imagem de nossa comunidade, um novo sujeito e isso é ótimo! Afinal, a sexualidade é apenas uma característica do sujeito e nos tempos atuais onde tudo muda tão rápido e temos tantas informações, será que temos que nos catalogar? O importante é não ter medo de caminhar com seu companheiro ou com a sua companheira seja lá quem ele ou ela for. Um bom exemplo disso é o curta-metragem do diretor Daniel Ribeiro “Eu não sei voltar sozinho” onde a sexualidade sequer é debatida, é natural e orgânica. Para quem não viu vale a pena conferir!” 3.1 Questões da Análise em imagem e som14 O modelo metodológico prevê quatro dimensões. São elas: Dimensão 1: 1. Desconstrução do produto - no caso o filme - inclui a ficha de análise (as informações do filme); e análise das estruturas de imagem e som (montagem, luz, planos por exemplo) 2. Narrativa – a decomposição em partes narrativas da história. Neste caso, podemos analisar como a história foi dividida em atos, cenas, a marcação do clímax e do ponto de virada e, é claro, o trajeto das personagens; 14 A meteodologia foi desenvolvida por ocasião das aulas dadas na disciplina “Meteodologia de Análises em Imagens e som” ministradas pela Profa. Dra. Maria Bernadette Lyra no 1º Semestre de 2011 na Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo será aqui abordado de forma geral aplicativa. 34 3. Pontos de vista – a) Sentido visual/sonoro - Onde está a câmera em relação ao objeto filmado? Câmera subjetiva ou objetiva? Note que neste ponto podemos traçar um paralelo interessante usando a câmera como um separador entre o que manuseia a câmera e o objeto filmado. Podemos falar do sujeito que pratica o olhar, e, neste caso, se ele for proibido, a câmera irá permitir o mesmo a ir a lugares que talvez o fotógrafo não fosse se estivesse sem esse aparato mecânico. Ou talvez, ele/ela explora o objeto filmado de maneira que só ele/ela sabe e conhece. Aí surge o ponto que pode ser levantado que será que nesse caso a relação ao objeto filmado poder delatar a identidade sexual daquele que segura a câmera. A escolha da câmera subjetiva e objetiva é feita pelo diretor e pelo fotógrafo e pode dar a sensação ao espectador de estar vendo a história sob o ponto de vista do personagem ou exercendo o papel de uma quarta parede. - Que sons são ouvidos ao longo do filme e em que momentos? Nesse caso temos a divisão de sons de ambientes e trilha do filme. Os sons do ambiente podem ser construídos durante a filmagem e na pós-produção do filme servem como mais um elemento fílmico dando a sensação para a plateia de realmente estar vivendo a experiência cinematográfica. A revolução do som na história do Cinema é realmente inquestionável e cada história requer um tipo de construção sonora. Uma pode, por exemplo, usar simplesmente a camada estéreo nas telas do cinema (saindo o som das frentes da caixa na sala). Outras podem usar, por exemplo, a tecnologia 5.1 onde o som sai por toda a sala cinematográfica. A trilha sonora também pode fazer parte da história sendo ele ouvido pelos personagens que estão na trama ou apenas sendo mais um elemento fílmico. b) Sentido Narrativo: Onde a história é uma sucessão de acontecimentos e ações, onde o roteirista (e na maioria dos casos no cinema brasileiro, o roteirista é o diretor) escolhe como a história é contada, quem conta a história e como a sua identidade é colocada no desenrolar do enredo. A identidade do cineasta pode ser mostrada nas cenas principais do filme, e estas são de suma importância para a recepção do espectador pois nelas que o enredo se tornará mais claro. 35 Dimensão 2 A dimensão 2 se configura no contexto histórico em que o filme se realiza. Uma troca do cinema em geral. O cinema em geral tem a sua repetição e inovação. Neste momento, pode ser o espaço da história da narrativa como, por exemplo, o Cinema LGBTT aqui relatados e a sua exibição. O que é repetido no caso não é meramente a “identidade sexual” do realizador ou dos personagens no filme, mas sim a cultura LGBTT. Na dimensão 2 não devemos esquecer que os acontecimentos socioculturais atuam de forma ativa nos realizadores, nos personagens e nos espectadores da obra. O contexto que eles se desenvolvem para dentro e para fora da história é que produz sentidos. Dimensão 3 A dimensão 3 constitui-se entre o diálogo do filme com o cinema como instituição. O cruzamento perverso da arte do cinema como forma de estética com a forma própria de modelar o espaço, o tempo e o movimento através da linguagem e dos aparatos fílmicos. Por exemplo, isto é dado com o ritmo da cena, a sua decupagem e a montagem do filme em relação à indústria fílmica (movie industry) que, nos tempos atuais, está em constaste mudança, e com o futuro incerto, devido a dessacralização tanto dos meios de produção, como dos meios de comunicação e distribuição. A teoria dos gêneros que vem das características deles como, por exemplo, os gêneros Drama, Comédia Musical, Western da semiologia desloca o eixo histórico para o classificatório mais geral. Mas, o gênero fílmico poderá ser estudado na história, tendo como, por exemplo, o formalismo russo15 e outros planos da história do cinema, e também outras teorias mais abertas. A noção de gênero cinematográfico de modo clássico veem também da necessidade da repetição e inovação Podemos novamente citar, por exemplo, um dos gêneros mais consagrados dentro da história do cinema, que é a comédia musical. Nesse aspecto, a formação de um gênero próprio LGBTT iria dar visibilidade a comunidade LGBTT (no sentido cultural) e suas produções, uma fomentação financeira desse tipo levará também tanto o realizador como o espectador para a tela da maneira que eles querem ser vistos e não da maneira que eles tenham sidos estereotipados anteriormente. A formação 15 O formalismo russo foi um movimento cultural iniciado na Rússia, após o período de revolução em 1917, no qual, diante das expectativas com relação a nova conjuntura sócio-política, o cinema passa a ser um meio didático de propaganda. Tem como principais características: o rompimento com a transparência narrativa e com a continuidade o espaço-temporal; rompimento com a idéia de um único herói e a afirmação de um grupo e uma ação coletiva e o foco da narrativa centrado em questões que envolvem a sociedade. Tal movimento refletiu-se em outros países mundo afora e teve como ideal cinematográfico levar aos espectadores a ideia de revolução 36 do gênero LGBTT, e por muitas vezes a repetição de maneiras de se contar a história e o uso de determinados elementos fílmicos marcados por essa cultura e também levando em conta que esse cinema desenvolvido já na primeira década do século XXI possui a identidade sexual das personagens e do realizador não agindo como fator principal, mas como fator secundário traz a visibilidade da cultura LGBTT nas telas, fazendo com que a formalização desse gênero LGBTT se torne cada vez mais urgente na medida em que uma legislação vigente reconheça e proteja essa comunidade. Nesse ponto já caminhamos para a relação do autor com a obra e seu repertório. Um realizador que se identifique com esse tipo de produção vai assistir e ter como referência uma série de obras e autores que certamente irá influenciar ele nas suas escolhas fílmicas. Por exemplo, não posso deixar de citar uma série de realizadores atuais de longas e curtas-metragens como: Pedro Almodóvar (“A pele que habito”, 2011 e “Amantes Passageiros”, 2013), Xavier Dolan (“Amores Imaginários”, 2010 e “Lawrence Anyways” 2012), Gus Van Sant (“Milk”, 2008 e “Garotos de Programa”, 1991), Djalma Limongi Batista (“Asa Branca: Um sonho Brasileiro”, 1980 e “Bocage, O Triunfo do Amor”, 1998), Esmir Filho (“Os famosos e os duendes da morte”, 2009 e o curta-metragem, “Saliva” 2007), Daniel Ribeiro (Os curtas metragens, “Eu não quero voltar sozinho”, 2010 e “Café com Leite”, 2007), Marcio Reolon e Filipe Matzembacher (o curta-metragem: “Diálogo de um ballet”, 2011), Marco Berger (“Absent”, 2011 e “Plano B”, 2009), e os clássicos Pier Paolo Pasolini “120 dias de Sodoma”, 1975 e “Noites de Arabia”, 1974), Reiner Werner Fassbinder (“Querelle”, 1982 e “A lei do mais forte é a liberdade”, 1975) entre muitos outros. Dimensão 4 Nesta dimensão a análise do filme toma o ponto de vista do autor da própria análise. Nesse caso se deve contextualizar a análise em uma vertente teórica, em suma em teorias cinematográficas que possam clarificar a análise fílmica e a conclusão a que o autor queira chegar. É nesse sentido que estou assumindo a primeira pessoa nos itens analisados a seguir. 37 3.2. Análise do filme “Felizes para sempre” dirigido por Ricky Mastro O documentário “Felizes para Sempre” faz parte da coletânea “Fucking Different São Paulo.” A coletânea é uma ideia de Kristian Petersen, onde gays falam sobre lésbicas e lésbicas falam sobre gays. Um edital foi feito e divulgado no portal Mixbrasil (www.mixbrasil.com.br). ` Eu me deparei como realizador e me inscrevi para fazer o processo do filme. Sugeri como tema a escolha da estabilidade na relação entre duas mulheres, porque isso me fazia sentir-me mais integrado dentro de uma sociedade heterossexual patriarcal. Fui selecionado e assim, começou o processo da criação do curta-metragem: “Felizes para sempre” Vários workshops foram dados durante a primeira semana de novembro de 2008. Eu, Rene Guerra, Herman Barck, Rodrigo Diaz Diaz, Joana Galvão, Max Julien, Luciana Lemos, Silvia Lourenço, Monica Palazzo e Gustavo Vianagre fizemos workshops sobre como construirmos propostas de filmes com essa temática. Cada um seu próprio modo e preferência de fazer cinema. A princípio, fiquei com a inocente ideia de achar realmente um amor que fosse lésbico e eterno. Através do site www.lesbicasfieis.com.br, publiquei em redes sociais notas para aquelas mulheres que tivessem um relacionamento duradouro e quisessem relatar a sua história. Entrevistei junto com dois produtores, Lilian Baldo e Rodrigo Dorado, centenas de casais via internet, chamei-as em casa e percebi que não era essa realmente a história que eu queria contar – o que realmente eu queria falar era sobre amor. Não conseguia achar a história ou os personagens. Todas as mulheres que fizerem relatos, ora era sobre a militância lésbica no Brasil ou sobre uma reprodução do modelo familiar patriarcal onde o relacionamento era realmente estável, como se fosse um provedor para um consumidor. Não queria isso. Estava quase desistindo do projeto quando encontrei o casal Lú Lacerda e Ligia, que depois de dois encontros toparam falar sobre o seu relacionamento de 30 anos juntas. Eu como documentarista, não utilizo o artifício da câmera para préentrevistas. Na hora que a luz vermelha da câmera digital é acessa, o entrevistado se transforma em uma persona. Então, sentei com elas e tive um bate-papo como se elas tivessem contando a sua história. No segundo dia, antes de me encontrar com as senhoras, eu decupei um roteiro com a minha assistente de produção e meu fotógrafo – para assim, fazermos um filme que falasse da história de amor entre Lú e Lígia Lacerda. Já tinha percebido que elas falavam melhor separadamente, logo foi o que eu fiz. Criei dinâmicas, onde ora Lú estava falando, ora Lú estava cozinhando. 38 Lígia nos convidou para fazer o documentário em um sábado e sabia que tinha apenas essa data. Fiz uma equipe enxuta (diretor, fotógrafo, assistente e som junto) com Lú e Lígia. Tudo como uma grande família. Tomamos café da manhã, almoçamos e passamos a tarde juntos naquele apartamento tipicamente paulistano de classe média na Rua Frei Caneca. Ao anoitecer, fechamos os relatos. Tínhamos o documentário. Quando cheguei na ilha de edição o impasse maior foi com a trilha sonora. Pedi para Ricardo Severo fazer a trilha original do filme, e coloquei-a no filme todo. Fiz várias sessões para os alunos de cinema da Fundação Armando Álvares Penteado e todos eles achavam que a trilha estava demais, a trilha aliada ao discurso de Lú e Lígia tornava o mini-doc meloso demais. Assisti e re-assisti o filme várias vezes, enxugando a trilha, colocando o som ambiente da cidade, dos pássaros e no fim a trilha é vista apenas nos momentos mais marcante da história. O curta-metragem, “Felizes para sempre” mostra a realidade de muitos integrantes da comunidade LGBT brasileira que preferem se enquadrar no modelo heterossexual patriarcal, a tão sonhada célula familiar. Mostra como queremos, enquanto comunidade que somos, sermos vistos nas telas: como indivíduos que exercem o papel do masculino e do feminino na relação. Tive grandes problemas com as duas protagonistas da história que acharam que o filme era melancólico demais. Mas, é a realidade, é o sonho que é vendido para nós quando ainda somos crianças. A sexualidade e o gênero ainda estão confusos em nossas cabeças, vide discurso da Lígia quando ela fala que a Lú é a única mulher que ela se sentiu atraída. Preconceito? Ou simplesmente um estado de ser? Nos tempos da modernidade e ambivalência, posso ser um ser masculino, como um ser feminino. Ou melhor, no espaço fílmico, eu posso ser um documentário ou uma ficção de um jovem cineasta romântico? Segue a crítica do filme em site voltado para mulheres (www.dykerama.com.br): O documentário “Felizes para sempre”, de Ricky Mastro, é um dos destaques do 17º Festival Mix Brasil, que acontece de 12 a 27 de novembro em São Paulo. “Felizes para sempre” faz parte do projeto Fucking Different São Paulo. O documentário e outros onze vão compor uma coletânea que se transformará em um longa-metragem que vai integrar a programação do festival e depois viajará o mundo. Segundo o diretor, o objetivo inicial do projeto era falar sobre o estereótipo dos gays em relação às lésbicas. “Eu já conhecia o modelo gay, mas queria entender como isso funciona entre as lésbicas”, diz Mastro. De novembro do ano passado a junho deste ano, o cineasta recebeu mais de 100 e-mails de casais de mulheres querendo participar do documentário. 39 “Todos os casais reproduziam de uma maneira ou de outra o padrão heterossexual. Comprovou-se, por exemplo, que algumas lésbicas são mais fiéis e, por outro lado, umas se aproximam do modelo de relacionamento do gay masculino, o que me assustou”, conta o diretor. Mastro diz que também ficou surpreso com a resposta de classes mais humildes. Inicialmente, o documentário era para ser chamado “Lésbicas Fiéis”, mas a experiência do dia a dia fez Mastro mudar o título do filme. “Como eu queria ter um foco na terceira lésbica, as lésbicas que vivenciavam essa fase da vida, por incrível que pareça, não se consideravam lésbicas. Não sei se há uma lacuna de geração entre as novas lésbicas ou se as lésbicas mais velhas viveram um ambiente tão repressor, pseudo liberal, que não assumem sua orientação sexual”, observa o cineasta. Sem conseguir selecionar ninguém a partir das entrevistas, Mastro acabou conhecendo mais tarde Lu, 62, e Ligia, 51, que vivem juntas há 30 anos e é o único casal retratado no filme. “O engraçado é que Ligia precisou da autorização da irmã para participar do projeto. O documentário serviu para que Lu fizesse uma espécie de homenagem à companheira”, conta o diretor. 3.3. Comparando e Analisando os filmes “Felizes para Sempre” dirigido por Ricky Mastro, “Eu não quero voltar sozinho” dirigido por Daniel Ribeiro, “Professor Godoy” dirigido por Gui Aschar, “Depois do Almoço” dirigido por Rodrigo Diaz Diaz e “ Os Sapatos de Aristeu” dirigido por René Guerra Para a comparação e análise dos filmes podemos começar com os próprios títulos das obras que de maneira alguma delata ou relata qualquer tipo de obra que não se encaixe na heteronormatividade. Todos eles possuem títulos curtos e bem expressivos que não falam em nada da cultura LGBTT, da identidade sexual ou até mesmo de gêneros. Eles até levam um certo tipo de mensagem do realizador para o público como o filme de Daniel Ribeiro “Eu não quero voltar sozinho” e “Felizes para sempre”. Já nas sinopses dos filmes podemos analisar: A sinopse do filme: “Felizes para sempre” é: A verdadeira história de amor entre Lú e Ligia Lacerda. A sinopse do filme “Eu não quero voltar sozinho” é: “Leonardo, um adolescente deficiente visual que muda de vida totalmente com a chegada de Gabriel, um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo que tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana, Leonardo vive a inocência da descoberta do amor entre dois adolescentes gays.” Já na comparação dessas duas sinopses uma que fala sobre a descoberta do amor e a outra que fala sobre o amor na melhor idade já podemos fazer um paralelo e afirmar que ambos realizadores optam em colocar o amor em primeiro plano. Os dois filmes, um sendo documentário e outro uma ficção poderiam, pela sua estrutura - o primeiro mulheres, senhoras, a relação entre as duas e o segundo jovens, um deles sendo deficiente visual -, terem temáticas totalmente diferentes, mas note que, para 40 esses dois realizadores, o “amor” é muito importante sendo tema principal na história e não a identidade sexual dos personagens e nem deles. Já na sinopse do filme “Professor Godoy” conta: “o filme conta a história de um severo professor de matemática que se vê em uma situação difícil quando percebe que um de seus alunos começa um instigante jogo de sedução.” Um paralelo entre os dois últimos e este pode ser feito de maneira simples, apenas pela leitura – o “Amor” mais uma vez como base na história -, já tendo um outro elemento que faz a história um pouco diferente: a sedução, que é visivelmente vista no filme “Depois do Almoço” quando Naná seduz a sua amiga Andréa. Note que mais uma vez temos a história de um senhor (chamado dentro da cultura LGBTT de urso16) com seu aluno. Aqui neste caso há também uma relação de poder entre professor e aluno, dada de maneira simples e não apelativa, em comparação a relação das duas mulheres casadas que tem uma relação sexual durante uma tarde enquanto os seus maridos assistem um jogo de futebol. Mais uma vez temos nesses dois filmes temas polêmicos, mas a sexualidade do personagem jamais é discutida e nem debatida na tela. A sinopse do filme “Depois do almoço” é: “Seria um típico almoço de domingo entre amigos: maridos entretidos com o futebol, pequenas discussões com os filhos, esposas levemente alteradas. Até que alguns segredinhos são revelados, entre eles um sonho erótico capaz de mudar o rumo dessa prosa.”. Outro aspecto importante de se levantar é de como é escolhida de forma bem certeira nas palavras na própria sinopse dos filmes evitando até os termos LGBTT, aí com exceção do filme de Daniel Ribeiro. A pergunta que se levanta é se realmente essa ausência da sigla ou de qualquer identificação da identidade sexual dos personagens é feita de forma proposital para não “espantar” o público em geral, ou ela é feita porque realmente a sexualidade em si não faz parte relevante da história. A sinopse do filme “Os sapatos de Aristeu” pode parecer que não se encaixa nos demais quatro filmes citados: “O corpo de uma travesti morta é preparado por outras travestis para o velório. A família, após receber o corpo, decide enterrá-lo como homem. Uma procissão de travestis então se encaminha para o velório para dizer adeus. Os sapatos são calçados. A morte é apenas uma janela.” Temos nesse caso a repetição da palavra “travesti” que na própria sigla LGBTT ficaria de forma quase “líquida” entre os dois últimos TT (transexuais e transgêneros17), pois a discussão do que se é “travesti” ainda é polêmica 16 Urso ou bear é assim chamado o indivíduo de uma subcultura da comunidade gay no qual os homens são pesados, corpulentos, peludos e/ou barbudos. 17 Transgêneros refere-se à condição cuja expressão de gênero não corresponde ao papel social atribuído ao gênero designado no nascimento. Mais recentemente o termo também tem sido utilizado para definir pessoas que estão constantemente em trânsito entre um gênero e outro. O prefixo trans significa "além de", "através de". A letra "T" da sigla LGBT era originalmente utilizada para identificar os travestis (incluindo crossdressers) e/ou transexuais, posteriormente passou a ser utilizada para identificar uma categoria supostamente mais 41 dentro e fora da comunidade LGBTT, mas note que o que se tira da sinopse é o embate do que seria a morte, como ela é dada na família do ente que se parte e dentro da comunidade. O filme poderia parecer que não pertence a esse grupo, o próprio realizador René Guerra fez questão de afirmar isso durante toda a pré-produção do filme onde fiz parte da produção de elenco do mesmo, mas note que ele não se deixa escapar pelo momento histórico que ele é feito, de como o filme traz certo estilo que é típico do cinema LGBTT produzido a partir do século XXI. Em uma crítica a esse filme, o autor Luís Gustavo de B. Melo afirma: “Por vezes o cinema erra a mão ao enfocar minorias marginalizadas. Não é o caso desta produção independente, cujo insight se deu a partir de um sonho. Os Sapatos de Aristeu não é apenas um filme sobre homossexuais e preconceito familiar, é antes uma história sobre cumplicidade, perda e redenção. No curta-metragem do diretor e roteirista alagoano Luiz René Guerra, o homossexualismo e o seu eterno conflito com os valores impostos pela sociedade, são tratados com sensibilidade, inteligência e certa dose de ironia. Além da atmosfera lúgubre – acentuada pela fotografia em preto-e-branco –, o que chama a atenção nos quinze minutos do curta é o silêncio. Quase não há diálogos e parte da construção narrativa se dá a partir dos enquadramentos e da engenhosa sequência de planos, closes e cortes rápidos, que ajudam a compor traços de personalidade das personagens, revelando aos poucos, os valores e a realidade daquelas pessoas. Nos primeiros segundos do filme, podemos ouvir uma música vinda de um toca-fitas que é abruptamente desligado. Estamos no que parece ser uma casa de shows, onde encontramos o travesti Aristeu, morto, e sendo maquiado por suas colegas no assoalho do palco do estabelecimento. Este é o único momento em que ouvimos música durante todo o filme. Talvez para imprimir um aspecto mais naturalista, Guerra tenha preferido não utilizar trilha sonora. Após “montar” a travesti, o corpo é levado até a casa da família para ser velado e, a partir do momento em que vemos a irmã do morto (Denise Weinberg) à sua espera na porta de casa, percebemos o clima de desestruturação familiar que existia na vida do homossexual. “Minha mãe não pode sofrer mais, eles (os outros travestis) não podem aparecer por aqui. Diga para as pessoas daquele lugar que quem vai ser enterrado é o Aristeu”, disse a irmã para o amigo de Aristeu que o havia trazido. O filme de René Guerra é conduzido em ritmo fragmentado. Os quadros e movimentos da narrativa vão se sucedendo em cortes e contrapontos, com impressionante fluidez. A sequencia final desvela o quão frágeis e diluídos são os valores que herdamos no que tange ao preconceito e a intransigência. Quando os travestis chegam até a casa onde o corpo está sendo velado, a irmã do morto recusa-se a atender a campainha e após uma última explosão de revolta contra o irmão homossexual – que, em suas palavras, as abandonou “para virar isso” – , ouve a mãe lhe revelar que Aristeu foi embora porque ela havia pedido para ele ser quem é longe dela. Quando finalmente abrangente de pessoas - os transgêneros. Contudo, muitas pessoas transgêneras não se consideram como parte deste movimento, por entender que as questões relacionadas com gênero e identidade fazem parte de um outro espectro não abrangido por grupos que primariamente focam suas ações em questões relativas à orientação sexual. 42 resolveram abre a porta para os visitantes, estes calçaram sapatos femininos no falecido. O simbolismo desta cena sintetiza todo o conceito do filme. Por um instante, o abismo que separava aquelas duas realidades tão distintas, deixara de existir. É importante salientar que, ao longo do filme, não há qualquer tipo de julgamento. René Guerra foi muito feliz em sua decisão de contar a história utilizando uma abordagem subjetiva que, acima de tudo, prima pelo bom senso e pela sutileza.” (Disponível em httpp://www. http://cargocollective.com/pretaportefilmes/Os-Sapatos-de-Aristeu acesso em 10 de abril de 2012) Fazendo uma comparação das cinco obras pela Dimensão 1, tendo a trilha sonora como elemento que faz parte da história do filme dentro da vida dos personagens e ouvida apenas pela audiência, os cinco realizadores também optam pela quase ausência da mesma. Note que mais uma vez, o realizador René Guerra (Os Sapatos de Aristeu) diz que foge do antigo cinema LGBTT, mas ele é o que usa mais a trilha sonora como elemento em seu filme. A personagem Phaedra de Córdoba canta uma música na casa da mãe de Aristeu em um momento de clímax do filme, assim como a personagem Lú se declara para Lígia no filme “Felizes para Sempre”. Diaz Diaz também usa da trilha sonora nos trechos inicias e finais do filme, assim como Ribeiro faz. Mas, note que vale repetir que a trilha sonora é usada de maneira bem pouca nos curtas-metragens. Será que esse elemento que o não uso da trilha sonora que marca a experiência cinematográfica tão intensa nesse caso a experiência do “audiovisual” não é elemento que já caracteriza e delata ao espectador que isso é um cinema LGBTT produzido no final da primeira década do século XXI por jovens cineastas brasileiros que no começo de sua carreira tiveram pouco contato entre eles próprios e que na sua maioria só se conheceram, os cincos como grupo, depois da realização de suas obras. Outro aspecto fílmico a se considerar são as cores dos filmes que vão do branco e preto de Guerra, ao colorido ao extremo de Diaz Diaz, passando aos tons pastéis nos três filmes restantes. A aproximação de cores feita na hora de se fotografar o filme, uma escolha do diretor e fotógrafo passando pela pós-produção o colorista do filme, juntamente com o diretor, fotógrafo e montador pode ser vistas nos filmes de Ribeiro, Ashcar e o meu. Note que com exceção do meu também temos os filmes sendo pelo menos exibidos na bitola de 35 mm mostrando que os filmes foram realizados com um orçamento pelo menos considerável. Esse aspecto econômico demonstra que esse tipo de filme tem sim uma fomentação e um público que já o espera. Importante lembrar também que tanto o meu filme como o do Diaz Diaz fizeram parte da coletânea Fucking Different São Paulo onde realizadores gays (G) falavam sobre lésbicas (L) e lésbicas falavam sobre o universo gay. Aí não há nem questionamento da temática, da identidade já assumida do realizador (que pelo menos permeia a característica da cultura LGBTT) e de como os filmes são parecidos até na 43 coloração dos cabelos dos personagens, as duas protagonistas dos filmes duas lésbicas apresentam cabelos ruivos, coincidências ou não aí vem um elemento formal do filme (a direção de arte) juntamente com uma questão histórica, os dois filmes são retratos na época em que foram filmados (final da primeira década do século XXI). As coincidências nos cinco filmes faz uma ciranda eles. Conforme mais e mais conhecemos os diretores e as obras analisadas (veja claramente que eu escolhi cinco homens e não mulheres que estão na mesma faixa etária, fazem parte do mesmo nível sócio, cultural e econômico e por muitas vezes são ativistas nesse caso eu, Diaz Diaz e Ribeiro). Dois de nós fizemos a mesma faculdade de Cinema, neste caso a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP-São Paulo) e possuem o teatro como primeiro formação: Guerra e eu. Voltando as escolhas formais dos filmes, há um predomínio de primeiro planos, um mostrar que não é mostrado (Diaz Diaz devido a sua temática chega a ser o mais ousado nas imagens e na fala), Mas Guerra, Aschar e Ribeiro todos eles são bem cuidadosos na escolha de como a imagem é mostrada na tela ao espectador de forma que o receptor não veja realmente a intimidade dos personagens. No meu filme, temos uma decupagem e montagem que beira a ficção, apesar do filme ser documental, mas note que a pergunta que fica e permanece é: o quanto realmente esses cinco realizadores são ousados em sua maneira de contar a história de uma maneira que se quebre a heteronormatividade?. Vale ressaltar, mais uma vez, que eu jamais aqui analiso a estética e o valor da fotografia (sendo feita de forma magistral no filme “Os sapatos de Aristeu”), mas repito que esse artefato de não ousar na imagem, faz com que, ao mesmo tempo, o crítico mais desavisado diga que não existe o gênero LGBTT. Mas, se for feita uma análise mais profunda, pode-se dizer que sim, existe esse tipo de gênero! Ele é reconhecido na tela por ter em sua história pelo menos uma ou duas personagens que pertençam à cultura LGBTT e que elas talvez não sejam mostradas de maneira chocante, pois isso já foi mostrado anteriormente e esse choque já não seja mais necessário, pois, mais uma vez repito, que o personagem fugir do padrão heteronormativo não mais interessa no desenrolar do enredo. Apesar dos espectadores buscarem essa visibilidade, o autor quer mostrar uma comunidade LGBTT que foge de qualquer estereótipo que foi construído anteriormente, seja ele na vida real ou nas próprias telas de cinema. 44 4.CONCLUSÃO: “O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho”. Essa pequena, porém significativa definição dada pelo cineasta Orson Welles serve de ponto de partida para iniciar as reflexões finais desta dissertação. Cinema. Identidades. Identidades LGBTT. Três conceitos que nortearam este trabalho e serviram de pontos de partida para a análise de cinco curtas-metragens produzidos entre 2008 a 2001. Conceitos que são pontos fundamentais para se pensar outra questão importante aqui discutida: a visibilidade, entendida etimologicamente como qualidade ou caráter do que é visível, do que é percebido pelo olhar, condição ou qualidade do que se apresenta tal como é, sem tentativa de ocultação, disfarce ou engodo; transparência; e sob o ponto de vista político, o movimento que nasce de grupos entendidos enquanto minorias que buscam se afirmar numa sociedade. (como são vistos, como querem ser vistos, como devem ser vistos). Ao afirmar que toda ação social e que todas as práticas sociais comunicam um significado, ou seja, são práticas de significação, Stuart Hall e os demais pensadores da área dos Estudos Culturais inovaram várias perspectivas e dimensões. O cinema, como um espaço que ocupa um espaço de construção de subjetividades e novas identidades, também produz sentidos que refletem novas maneiras de pensar e viver dimensões do humano, dentre elas, a sexualidade. O cinema é um “veículo” de exposição de modos de vida, ocupando lugar decisivo no processo de construção de identidades. Ao longo deste trabalho percebe-se que “o cinema desempenha uma função cultural”, exerce uma importante e eficiente influência, no sentido de que sempre “dá visibilidade” aos diferentes modos de ser, de viver, de se comportar, mais do que isso, o cinema participa da produção de sujeitos e identidades, através dos discursos que põe em movimento na tela. Um filme, como artefato cultural, veicula e faz circular ideias, valores, estilos de vida e outros produtos a eles associados. Por isso que falar de um cinema que dá voz, vez e visibilidade à cultura LGBTT é falar de um espaço construído numa relação entre o cineasta que, por meio dos seus aparatos fílmicos, deseja revelar algo e o espectador que, por meio também dos seus desejos, constrói subjetivamente a história que vê e tem a possibilidade de entrar em uma relação particular com a história e o sistema de imagem do filme. 45 Os processos de identificação e, portanto, as construções de identidades, estão intimamente interligados às sexualidades e as relações de gênero. O cinema, cada um com seu estilo e sua marca, propõe uma imagem necessária do mundo, da realidade, do que está aí. Não se trata de fazer oposição a um estado de coisas midiático, ser negativo ou simplesmente antagônico. Esse cinema quer perguntar que novas relações estão se criando nessa fluidez crescente, nessa dissolução de fronteiras e na criação de outras, mais sutis, porém não menos brutais; esse cinema quer mostrar e dizer esse mundo. Vimos, na experiência com cada filme analisado que não se pode mais pensar em uma identidade fixa, homogeneizada, quando se trata da cultura LGBTT. Cada autor privilegia espaços, temas, subjetividades que dizem de si e das várias realidades que configuram o universo LGBTT. Contudo, um gênero cinematográfico se constitui, dentro dos pressupostos daquilo que se configura enquanto gênero. Isto abre um leque de possibilidades de estudo, movimentos e fomento para esse tipo de segmento.Concluindo, este trabalho pretendeu elucidar algumas questões referentes a uma temática complexa que se refere à relação entre o texto cinematográfico e a experiência do realizador-cineasta, considerando o campo dos estudos culturais, ou seja, caracterizando o cinema como um artefato da cultura, produzido por e produto de práticas sociais; portanto, atravessado por múltiplos sentidos (que a semiótica insiste em traduzir por significados). Logo, podemos dizer que os sujeitos ali envolvidos (cineasta, produtor, espectador) constroem suas relações e não são somente interpelados por uma “ideologia dominante”, mas também resistema ela e se mobilizam produzindo novos sentidos e possibilitando novas visibilidades. 46 5.BIBLIOGRAFIA: 5.1 Referências bibliográficas: ADORNO, T.W. A Indústria Cultural. In: COHN, Gabriel (org.) São Paulo: Ática, 1986. AGUIAR, Renato (tradução e resenha). Butler e a Desconstrução do Gênero. In: Estudos Feministas, Florianópolis, 13(1): 179-199, janeiro-abril/2005. ALENCAR, Mauro. A Hollywood Brasileira. Panorama da telenovela no Brasil. Rio de Janeiro: SENAC Rio Editora, 2002. AUGUSTO, Sérgio. Este mundo é um pandeiro: a chanchada de Getúlio a Sérgio Augusto. São Paulo: Cinemateca Brasileira/Cia. das Letras, 1989 AZEVEDO, Alinor . Depoimento ao Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro: MIS, 1969. BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso: trad. De Hortênsia dos Santos, 16 ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2001. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999. __________. Modernidade e Ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1999. BAZIN, André. O Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1991. BESSA, Karla. Os festivais GLBT de cinema e as mudanças estético-políticas na constituição da subjetividade. Cad. Pagu, Campinas, n.28, p.257-283, 2007. Disponível em: HTTP://www.scielo.br/scielo.php Acesso em 10 de maio de 2012 47 BRITZMAN, Deborah. "O que é esta coisa chamada amor? Identidade homossexual, educação e currículo". Educação & Realidade, v. 21, nº 1. Porto Alegre, janeiro-junho de 1996, p. 71-96. BUSCOMBE, Edward. A idéia de gênero no cinema americano. In: RAMOS, Fernão Pessoa (Org.). Teoria contemporânea do cinema. São Paulo: Senac, 2005. p. 303-318. v. 2. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede (a era da informação: economia, sociedade e Cultura). São Paulo: Paz e Terra, 1999. _________. O poder da identidade. A era da informação: Economia, Sociedade e Cultura; v. 2. Tradução de Klauss Brandini Gerhardt. 6. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008. 489 p. Título original: The power of identity. CODATO, Henrique. A identidade do homossexual no cinema contemporâneo: Um estudo de Caso de Recepção no Grupo Estruturação 2003. Disponível em:<http://www.rodrigobarba.com/pos/teses/2003_Henrique_Codato.pdf>. Acesso em: 23 mar.2012. CATANI, Afrânio Mendes; SOUZA, José Inácio de Melo. A chanchada no cinema brasileiro. São Paulo: Brasiliense, 1983. (Col. Tudo é História, n. 76). COSTA, Flávia Cesarino. O primeiro cinema. São Paulo: Scritta, 1995. FERREIRA, Suzana Cristina de Souza. Cinema carioca: anos 30 e 40. São Paulo: Annablume, 2003. FINGUERUT, Silva. Cinema brasileiro: 90 anos. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho,1986. GOMES, Paulo Emílio Salles. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980. (Col. Cinema, n. 8). GRILO, João Mário. A ordem no cinema. Lisboa: Relógio-d’Água, 1997. GUMBRECHT, Hans Ulrich. Production of presence. Stanford: Stanford University Press, 2004. 48 HALL, Stuart. A Centralidade da cultura: notas sobre as revoluções do nosso tempo. Educação e Realidade. Porto Alegre: UFRGS/FACED, v. 22, n.2, jul./dez. 1997, p. 15-46. ________. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2005. LEKITSH, Stevan. Cine arco-íris: 100 anos de cinma LGBT nas telas brasileiras. São Paulo: GLS. 2011. Lyra, Bernadette – Emergência de gênero no cinema brasileiro: do primeiro ao Cinema a chanchada e Pornochanchada in: Conexão –Comunicação e Cultura, USC, Caxias do Sul, V. 6, n.11, Jan. – Jun. 207, p. 141 – 159 LYRA, Bernadette. Reflexos do Jogo. Nós que aqui estamos por vós esperamos. In: X ENCONTRO ANUAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PROGRAMAS DE PÓSGRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO, 2001, Brasília DF. PROGRAMA DO X COMPÓS, 2001. v. 01. p. 08. LOURO, Guacira Lopes. Gênero e Sexualidade: pedagogias contemporâneas. Proposições, v. 19, n. 2 (56) , maio/ago. 2008, p. 17-23. _________. O Corpo Educado: Pedagogias da Sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. MCLUHAN, Marshall. Os meios de Comunicação como extensão do homem (understanding media). São Paulo: Cultrix, 1969. MARTÍN- BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2003. MASTRO, Ricky. Não quero voltar sozinho. Disponivel em: http://mixbrasil.uol.com.br/blogs/ricky/2011/11/21/nos-campos-de-concentracao.html _______. Como quero ser visto. Disponível em: http://mixbrasil.uol.com.br/blogs/ricky/2011/09/21/como-quero-ser-visto.html _______. Sexualidade e gênero nos tempos atuais. Disponível em: http://mixbrasil.uol.com.br/blogs/ricky/2011/11/15/sexualidade-e-genero-nos-dias-atuais.html 49 MELO, Luís Gustavo de B. Os Sapatos de Aristeu. Disponível em <http://cargocollective.com/pretaportefilmes/Os-Sapatos-de-Aristeu/>. Acesso em: 10 abr. 2012 MORENO. Antonio. A personagem homossexual no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Funarte: Niterói, 2002. NAZÁRIO, Luiz. O Outro Cinema. Revista de Estudos de Literatura – Aletria, v. 16, jul-dez, 2007. Disponível em HTTP://www.letras.ufmg.br Acesso em 11 de novembro de 2012. PARKER, Richard. Abaixo do Equador. Culturas do Desejo, Homossexualidade masculina e comunidade gay no Brasil. Rio de Janeiro, Record, 2002. SANTANA, Gelson. A pornochanchada como gênero. In: CATANI, Afrânio Mendes; GARCIA, Wilton; FABRIS, Mariarosa. Estudos de Cinema SOCINE – Ano VI. São Paulo: Nojosa, 2005. p. 325-331. SCOTT, Joan Wallach. Gênero e história: México: FCE: Universidade Autónoma de la Ciudad de México, 2008. SCHATZ, Thomas. Hollywood genres: formulas, filmmaking and the studio system. Filadelfia: Temple University Press, 1980. SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e Diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis, Vozes, 2000. SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. São Paulo: Annablume, 1996. 50 STERNHEIM, Alfredo. Cinema da Boca: dicionário de diretores. São Paulo: Cultura; Fundação Padre Anchieta; Imprensa Oficial, 2005. THOMPSON, John B., A Mídia e a Modernidade. Uma teoria social da mídia, Petrópolis, Vozes, 1998. TOULET, Emmanuelle. O cinema: invenção do século. São Paulo: Objetiva, 1998. TURNER, Graeme. Cinema como prática social. Trad. De Mauro Silva. São Paulo: Summus, 1997. VIANY, Alex. Introdução ao cinema brasileiro. Rio de Janeiro: Alhambra; Embrafilme, 1987. 51 5.2 Filmes: ASHCAR, Gui. Professor Godoy. [Filme=Vídeo]. Direção de Gui Ashcar. Produzido pela Academia Brasileira de Cinema (AIC), 2009, 35 mm, 14 min. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=9pmegbwfVHc Acesso em: 13/06/2012 DIAZ, Rodrigo Diaz, PRIPAS, Paula. Depois do Almoço. [Fime-Vídeo] Direção de Rodrigo Diaz Diaz, Produção de Paula Pripas. São Paulo, Filmes de Abril, 2009, 35 mm, 13 min. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=YlYzW0dICcs Acesso em 13/06/2012. GUERRA, René; TONACCI, Daniel; CAVALCANTI, Renata. Os Sapatos de Aristeu. [FilmeVídeo]. Direção de René Guerra, Produção de Daniel Tonacci e Renata Cavalcanti. São Paulo, Preta Portê, 2008, 35 mm, 17 min. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=rRwODLZJsxE Acesso em 13/06/2012. MASTRO, Ricky. Felizes para Sempre. [Filme-Vídeo]. Produzido e dirigido por Ricky Mastro. São Paulo, Festival Filmes, 2009, 35 mm, 7 min 48 s. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=-IWH1cV8tnE Acesso em 20/12/2012. RIBEIRO, Daniel; ALMEIDA, Diana. Eu não quero voltar sozinho. [Filme-Vídeo]. Produção de Diana Almeida, Direção de Daniel Ribeiro. São Paulo, Lacuna Filmes, 2010, 35 mm, 17 min. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=1Wav5KjBHbI& Acesso em 13/06/2013. 52 6. ANEXOS 6.1 Ficha técnica dos filmes: Depois do almoço Ano: 2009 Cidade: São Paulo País: Brasil Gênero: Ficção Cor: Colorido Elenco Lulu Pavarin e Gilda Nomace Direção Rodrigo Diaz Diaz Roteiro Elzemann Neves Direção de arte Renata Rugai Direção de fotografia Carlos Firmino Produção de set Tiago Mal Som direto Diego da Costa Produção Paula Pripas e Rodrigo Diaz Diaz Produção Executiva Paula Pripas Trilha Sonora Vinicius Calvitti 53 FIGURAS: Figura 1 Figura 2 54 Figura 3 55 Eu não quero voltar sozinho Duração: 17’ Ano de produção: 2010 País de Origem: Brasil Formato: 35mm Janela: 1.85 Áudio: Dolby Digital Elenco: Guilherme Lobo, Tess Amorim, Fabio Audi Roteiro e Direção: Daniel Ribeiro Produção Executiva : Diana Almeida Fotografia: Pierre de Kerchove Direção de Arte: Olivia Helena Sanches Montagem: Cristian Chinen Edição de Som: Daniel Turini e Simone Alves Trilha Sonora: Tatá Aeroplano e Juliano Polimeno Produção de Elenco: Alice Wolfenson e Danilo Gambini 56 Figura 4 Figura 5 57 Figura 6 58 Felizes para sempre Duração: 7' Ano: 2009 Cidade: São Paulo País: Brasil Gênero: Documentário Cor: Colorido Por ordem de entrada de cena: Maria Ligia Pereira Lucia Lacerda Consultor de roteiro Marco Dutra, Daniela Capelato, Paulo Neto Pesquisa Lilian Bado, Rodrigo Dorado, Ricky Mastro Direção Ricky Mastro Fotografia e câmera Felipe Chiaramonte Direção de Produção Lilian Bado e Rodrigo Dorado Som direto Thiago Winterstein Montagem Léo Zaia Assistente de direção Lilian Bado Produção Ricky Mastro Música Original – Ricardo Severo – Several Sounds Stills Felipe Chiaramonte Finalização de imagem Fábio Pousa Mixagem Rafael Lupo Trailer e legendas Daniel Weber Produtores Associados Suzy Capó, Festival Mixbrasil Apoio FAAP, Faculdade de Comunicação e Marketing Poster e arte gráfica Alexandre Araújo Site Produtora Orange! WPI 59 Figura 7 Figura 8 60 Figura 9 61 Professor Godoy Ano: 2009 Título Original: Professor Godoy Título em Inglês: Mr. Godoy Gênero: Ficção Duração: 13 min Ano de Producão: 2009 Cidade de Producão: São Paulo Estado de Produção: SP País de Produção: Brasil Bitola: Super 16mm (captação) / finalizado em HD Diretor: Gui Ashcar 1o Assistente de Direção: Claudia Pinheiro 2a Assistente de Direção: Rebeca Figueiredo Produtor: Felipe Duarte Produtor Executivo: Felipe Duarte Diretor de Produção: Felipe Duarte Platô: Felipe Duarte Assistentes de Produção: Marina Kagan Argumento/Roteiro: Gui Ashcar Fotografia: Carlos Firmino 1º Assistente de Fotografia: Chanel 2º Assistente de Fotografia: Rafael Farinas Técnico de Som: Tiago Bittencourt Microfonista: Celso Albuquerque Elétrica: Flávio Nascimento Assistente de Elétrica: Betina Guimarães Maquinária: Gugu Direção de Arte: Thais Albuquerque Figurino: Thais Albuquerque Assistente de Arte e Objetos: Luanda Moraes Assistente de Arte e Figurino: Arieli Marcondes Continuidade: Luanda Moraes Produção de Arte: Tato DiLascio Maquiadora: Mary Paiva 62 Montagem/Edição: Gui Ashcar Fotógrafo Still: Rebeca Figueiredo Edição de Som: Fernando Henna Elenco: Professor Godoy– Roney Fachinni Felipe – Kauê Telolli Música Original: Gui Ashcar Laboratório: Megacolor Película: Kodak Vision 3 – 500D 1719 Câmera: Arri SRIII Figura 10 63 Figura 11 Figura 12 64 Os Sapatos de Aristeu Título em inglês: The Shoes of Aristeu Duração: 17' Ano: 2008 Cidade: São Paulo País: Brasil Gênero: Ficção Subgênero: Drama Cor: PB Direção: René Guerra Roteiro: René Guerra Direção de Atores: René Guerra Assistente de Direção: Juliana Vicente e Camila Gutierrez Continuísta: Daniel Grinspum e Ana Luíza Beéco Elenco: Berta Zemel (Clélia) Denise Weimberg (Clarice) Phedra D. Córdoba (Ângela) Renato Turnes (Raul) Gretta Star (Aristeu). Empresa Produtora: FAAP Empresa(s) Co-produtora(s): Legato Audiovisual, Preta Portê Filmes Produção: Daniel Tonacci e Renata Cavalcanti Produção Executiva: Daniel Tonacci e Renata Cavalcanti Direção de Produção: Daniel Tonacci e Renata Cavalcanti Assistente de Produção: Sergio Kera e Vinicius Calderone Direção de Fotografia: Juliana Vasconcelos Operador de Câmera: Juliana Vasconcelos Assistente de Câmera: Rafael Martinelli e Pedro Mendes Eletricista: Lucas Rached e Rodrigo Pastoriza Maquinista: Claudio Castro e Pedro José Maffei Fotografia de Cena: Verena Smit Montagem/Edição: Vinicius Calderoni Estúdio Montagem/Edição: Extremart Direção de Arte: Maíra Mesquita Cenografia: Maíra Mesquita Figurino: Luty Vasconcelos Produção de Arte: Camila Carvalho Maquiagem: Joaquim de Carvalho 65 Cabeleireiro: Joaquim de Carvalho Técnico de Som Direto: Marcela Katzin, Vitor Motter e Marcelo Alonso Microfonista: Gustavo “Suza” Suzuki e Marcelo Alonso Edição Som: Vitor Motter Mixagem: Pedro Sérgio Noizyman Estúdio Som: J L S Trilha Original: Sim Autor da Trilha: Vinicius Calderoni Dados Técnicos Suporte de Captação: 35mm Suporte de Projeção: 35mm Janela de projeção de película: 1:1.85 Produto Final do Telecine: 35mm Disponível nos Suportes: .MOV H264, Betacam Analógica, MiniDV Som: Dolby SR Idioma: Português Legendas: Inglês, Espanhol, Francês 66 Figura 13 Figura 14 67 Figura 15 68 6.2. Artigos escritos para o portal Mixbrasil e G 69