CADEIA PRODUTIVA DO AUDIOVISUAL EM SERGIPE: MAPEAMENTO E DINÂMICA DOS CIRCUITOS CULTURAIS Raiane de Souza, SILVA1 1 Universidade Federal de Sergipe/Unidade Acadêmica de São Cristóvão *[email protected]; INTRODUÇÃO Trata-se de uma pesquisa com a intenção de desenvolver um estudo sobre a dinâmica e o mapeamento dos circuitos culturais de Sergipe, sendo estes, os setores da literatura, do teatro e do audiovisual. Esse estudo está sendo desenvolvido através da pesquisa realizada pelo Observatório de Economia e Comunicação (OBSCOM), da Universidade federal de Sergipe. Notou-se a necessidade real de um estudo de ordem setorial com dados da realidade local, onde se possa perceber a dinâmica do setor, suas reais necessidades e contribuir de forma concreta com o fomento de políticas públicas efetivas e especificas para o setor. O objetivo geral da pesquisa é problematizar e analisar o processo de cada uma das etapas de realização do cinema para depreender de forma clara e sistematizada o que está de fato impossibilitando a viabilidade da produção, exibição e distribuição no Estado de Sergipe. Se faz necessário ter elementos que permita entender o funcionamento do Cinema enquanto indústria cultural. Esses elementos são o plano de fundo e, é a eles que sempre deve-se retornar para discuti a situação local. Então primeiro, é importante tratar dos elementos que marcam a evolução do cinema de uma forma geral e entender esses elementos que atravessam todas as indústrias culturais. É preciso compreender o processo de como evolui essa indústria cultural do cinema, identificar que tipo de abordagem se faz sobre o cinema, de que forma ele vem sendo compreendido – como setor cultural, como indústria ou como mais um setor econômico. Todas essas questões podem ser compreendidas através da contribuição de alguns autores. A principal referência, no caso dessa pesquisa é a EPC. É a partir dessa perspectiva que pode-se entender a indústria do cinema. Assim sendo, faz-se importante resgatar aqui a discussão das taxonomias das industrias culturais, bem como seu conceito e funções com base no texto “Economia política da comunicação e da cultura: breve genealogia do campo e das taxonomias das indústrias culturais”, que vem classificar as indústrias culturais e estudar seus impactos e relações dentro da sociedade capitalista. O conceito de indústria cultural na abordagem da Economia Política da Comunicação e da Cultura (EPC), é um método desenvolvido para estudar a comunicação e a cultura a partir do marxismo. A EPC desenvolve a crítica acerca da produção cultural sob os moldes do capitalismo. Trazendo assim um outro olhar sobre a produção cultural, com o intuito de desvendar como estão sendo gerados os produtos culturais dentro do sistema econômico capitalista, quais suas reais intenções, quais as condições dos artistas dentro desse espaço, como vem se construindo o espaço cultural, qual o interesse do capitalismo dentro desse espaço e quais as condições financeiras de produção. Desse modo, o autor destaca sobre a indústria cultural. A indústria cultural é uma área de produção social no capitalismo avançado que deve cumprir uma dupla condição de funcionalidade, a serviço do capital individual monopolista em concorrência (função publicidade) e do capital em geral ou do Estado (função propaganda), servindo como elemento chave na construção da hegemonia. Para isso, deve responder também a uma terceira condição de funcionalidade (função programa), ligada a reprodução simbólica de um mundo da vida empobrecido em suas condições de autonomia (BOLAÑO, 2010, p.45) Inicialmente foi feita uma separação da indústria cultural em várias indústrias, que na ocasião. classificou-se como indústria de edição da cultura e indústria de onda. Mas, o modelo de classificação mais detalhada é do Espanhol Ramon Zallo, que percebeu a necessidade de classificar de modo mais ordenado e sistematizado o conjunto das indústrias culturais, tendo em vista que cada indústria tem um modo bem particular em termos de formas de trabalho e produto final. Dentro da taxonomia realizada por Zallo, o cinema, objeto desse estudo, foi classificado como sendo parte de duas indústrias: indústria de edição descontinua, no caso do cinema, produção e edição de vídeo. Edição continua no caso do audiovisual para rádio e tv. É necessário tratar também dos elementos que marcam a evolução do cinema de uma forma geral. É preciso entender o processo de como evolui essa indústria cultural, identificar que tipo de abordagem se faz sobre o cinema e de que forma ele vem sendo compreendido – como setor cultural, como indústria ou como mais um setor econômico. Estão claras as dificuldades do fazer cinema no Brasil. Diante do problema do monopólio da distribuição, da exibição e ainda a presente hegemonia hollywoodiana, os realizadores estão praticamente atados dentro desse cenário. O cinema logo após sua invenção, já foi apropriado com o caráter de indústria do entretenimento. Na Europa ocidental, inicialmente pelos franceses que dominaram o mercado mundial até o início da primeira guerra mundial. E segundo (MATTA 2008) explica, a dinâmica de transformação da companhia cinematográfica Pathé de truste horizontal em truste vertical é capital para a compreensão da conformação atual da indústria de cinema. Até meados da década de 1910, os filmes produzidos eram vendidos diretamente para exibidores. Na medida em que foram sendo formados trustes horizontais, dominando a produção, estes começaram a perceber que se alugassem os filmes, ao invés de vendê-los, aufeririam mais lucros. Dentro dessas novas possibilidades de auferirem mais lucro, as grandes companhias como a francesa criaram suas próprias distribuidoras e assim os produtores passaram a receber percentagem sobre a receita dos exibidores segundo explica e sendo assim, já é possível perceber na história do cinema, que foi na distribuição onde começou a se desenvolver e fortalecer a indústria Cinematográfica. Observa-se na história da indústria do cinema e do audiovisual que aconteceram reestruturações de suas cadeias produtivas ao longo do tempo. Para vencer as crises e desenvolver economicamente, a indústria cinematográfica se resinificou e readaptou às mudanças políticas e tecnológicas que atravessaram as indústrias culturais. Para isso, a indústria de Hollywood foi diretamente nos elos da cadeia produtiva e no modo de produção fílmica. MATERIAL E MÉTODOS A pesquisa, propõe-se a desenvolver uma metodologia adequada para mapear o setor de audiovisual do Estado de Sergipe. Porém, tendo em vista que esse estudo ainda não foi feito, é preciso compreender de que forma devemos realizá-lo, qual caminho devemos percorrer diante da realidade dos realizadores do Estado. Foi tomado como base metodológica, o Estudo da Cadeia Produtiva da Música em Sergipe realizado pelo OBSCOM e a Cartografia do Audiovisual Cearense. Foi realizado na pesquisa, um levantamento de dados secundários existentes sobre o audiovisual no Brasil e especificamente em Sergipe, também foi levantado a revisão de literatura, com intenção de discutir o audiovisual em termos da indústria do cinema no mundo, bem como, saber como se deu a evolução do cinema no mundo e suas principais transformações ao longo do tempo. Foi necessário também, investigar de que forma o cinema vem sem sendo abordado pelos 1 autores atualmente e, nesse caso especificamente, pelos autores da Economia Política da Comunicação (EPC), considerando que a presente pesquisa incorpora essa linha teórica. Os resultados dessa pesquisam se deram através de um levantamento de fontes e dados a respeito do audiovisual no Brasil, no nordeste e Sergipe, em termos de estudos setoriais e indústria cinematográfica. Esse levantamento foi importante para situar a pesquisa sobre o que já foi desenvolvido sobre o audiovisual como setor cultural. Foi feito um levantamento de dados secundários com o objetivo de apresentar as informações já existentes a partir do que foi encontrado. As fontes oficiais encontradas foram documentos do MINC (Ministério da Cultura), como o anuário de estatísticas culturais, o cultura em números. O documento objetiva captar o universo de informações a respeito do setor cultural brasileiro, utilizando bases de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de geografia e estatística), Inep/MEC, Ibope e sistema MinC. O presente resumo toma como referência esses documentos encontrados e pretende-se analisá-los. Buscou-se também o desenvolvimento de uma metodologia apropriada para o caso de Sergipe e para que isso fosse feito, foram procurados estudos de ordem setoriais e pesquisas antes realizadas. Neste sentindo, encontrou-se duas pesquisas que servirão como base para o desenvolvimento da metodologia para Sergipe, que são o estudo da Economia da música em Sergipe realizada pelo OBSCOM, que utiliza o modelo da Cadeia Produtiva, metodologia já antes adotadas pelo SEBRAE e o estudo de cadeia produtiva da música de PRESTES FILHO (2010). O segundo estudo considerado foi o da Cartografia do Audiovisual Cearense (2012), realizado pelo departamento de cinema e audiovisual da UFC em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado e o Ministério da Cultura, onde este desenvolveu metodologia própria para análise e coleta de dados. O que pretende a pesquisa da cadeia produtiva do audiovisual de Sergipe é ampliar o escopo dessas metodologias incorporando a EPC, pois é neste molde onde pode-se desenvolver uma análise crítica sobre os dados coletados e onde é permitido enxergar e questionar relações de poder e políticas públicas. Pretende-se também formular pensamento crítico e não apenas coletar os dados, mas analisá-los e transformá-los em conhecimento. Foi realizado um estudo minucioso para compreender melhor o método da cartografia do audiovisual cearense. A metodologia desenvolvida pela cartografia optou por construir o processo a partir dos realizadores. RESULTADOS E DISCUSSÃO Os indicadores do MINC, foram analisados com o objetivo de saber se há dados gerais agregados sobre Sergipe e de que forma esses são postos em documentos de cunho nacional. Foram coletados os dados do “Cultura em números 2009/2010”, indicador que reúne uma série de dados quantitativos a respeito do setor cultural Brasileiro. Sergipe aparece com 93% dos cinemas concentrados na capital de Aracaju. Além do elevado número de cinema concentrado na capital, nota-se que todas as salas se concentram em apenas 3 pontos de toda a cidade, que são os shoppings center e uma sala recentemente aberta no centro da cidade. O que dificulta bastante o acesso a população sergipana que mora mais afastado desses lugares e necessitam de transporte público para se locomover e assistir ao filme. Os dados 1 Estudante de comunicação social/audiovisual. Pesquisadora de iniciação científica do Observatório de Economia e Comunicação da Universidade Federal de Sergipe. Orientada pela ProfªDrª Verlane Aragão Santos. agregados do MINC contabilizam as salas por toda cidade, mesmo que elas residam no mesmo endereço. Em se tratando de Festivais e mostras de cinema, 9,7% dos municípios brasileiros declararam possuir festivais/mostra de cinema. Poucos estados apresentam mais de 10% de seus municípios com festival/mostra de cinema. No Porcentual de municípios que realizaram concursos de cinema por Unidade Federativa. O Estado de Sergipe aparece em 22º lugar, dentre os 27 Estados, com 1,33%. No porcentual de municípios com grupos artísticos cineclube por Unidade Federativa, a posição de Sergipe é o 17º lugar com um índice de 2,67%. Porcentual de municípios com escolas, oficinas ou cursos de cinema por Unidade Federativa, o estado de Sergipe 1,33% na 14º posição em relação ao restante dos municípios. Quase todas as regiões apresentaram redução no número bruto de municípios com equipamento. Apesar da redução, porcentualmente não ocorreram modificações díspares, com elevação porcentual nas Regiões Sudeste e Norte e retração nas Regiões Nordeste Sul. Quase todas as regiões apresentaram porcentuais negativos entre 2005/2006, exceto a Região Norte. No geral, os estados que apresentaram melhor dinâmica foram: Acre, Amapá e Sergipe. Já com relação a realização de mostras de Vídeo ou festivais, os dados IBGE elaborados pelo Minc, apresentam que o Estado de Sergipe é o único no qual não existe Mostra de Vídeo, o que não condiz com a nossa realidade pois, só em se tratando do Festiva Ibereoamericano de Cinema CURTA-SE, o mesmo já existe a mais de 10 anos e tem mais acontecendo. Esse tipo de dado, mostra ainda mais a necessidade de um Estudo com recorte local, onde possa-se identificar a realidade local e contribuir com as informações, além de promover o setor. CONCLUSÃO O presente trabalho apresentou ainda de maneira parcial os objetivos propostos no projeto de pesquisa. Nesse sentido continua a ter muito a se fazer ainda. Todas as fontes e dados analisados irão permitir a construção de uma metodologia própria para fase subsequente do estudo, que é a fase onde se vai definir uma metodologia e fazer de fato a pesquisa de mapeamento e estudo da dinâmica do setor audiovisual de Sergipe. Já foram identificadas quais as fontes que permitirão o primeiro levantamento e mapeamento do audiovisual em Sergipe. Essas fontes serão contatadas conforme fechamento da metodologia e a partir delas o trabalho irá para o plano mais concreto de dados sobre o cinema e audiovisual de Sergipe. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS BOLAÑO, César. Economia política da comunicação e da cultura: breve genealogia do campo e das taxonomias das indústrias culturais. IN: BOLAÑO, César; BRITTOS, Valério; GOLIN, Cida (orgs.). Economia da arte e da cultura. Itaú cultural: São Paulo, 2010. BIZERRIL, Luiz. Cartografia do Audiovisual Cearense. Dedo de Moça Editora e Comunicação, Fortaleza, 2012. 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