PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS
Programa de Pós-Graduação “Stricto Sensu” em Ensino de Ciências e Matemática
Rafael Boussada Assis
MANUAL COM ORIENTAÇÕES E PROPOSTAS PARA A UTILIZAÇÃO DA
SEQUÊNCIA DIDÁTICA SOBRE CONSUMISMO UTILIZANDO O FILME WALL-E
COMO RECURSO MIDIÁTICO PRINCIPAL
Produto da dissertação apresentado ao Programa
de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e
Matemática da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais, como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Ensino de
Ciências e Matemática.
Orientador: Wolney Lobato.
Belo Horizonte
2014
SUMÁRIO
1. APRESENTAÇÃO ......................................................................................... 3
2. PLANEJAMENTO E METODOLOGIA .......................................................... 4
2.1. Criação e aplicação da sequência didática ............................................. 4
2.2. Aspectos inerentes ao planejamento para a exibição dos filmes ......... 5
3. SEQUÊNCIA DIDÁTICA SOBRE CONSUMISMO UTILIZANDO O FILME
WALL-E ............................................................................................................. 8
4. SUGESTÕES DE OUTRAS ANIMAÇÔES QUE PODEM SER UTILIZADAS
EM SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS. ...................................................................... 10
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................... 12
6. BIBLIOGRAFIA E REFERENCIAIS ............................................................ 13
ANEXO ............................................................................................................ 15
3
1. APRESENTAÇÃO
Prezado(a) professor(a),
Como muita satisfação apresenta-se esse manual oriundo da dissertação de
mestrado intitulada “Criação, aplicação e avaliação de uma sequência didática
sobre consumismo utilizando o filme Wall – e como recurso midiático principal”,
a qual foi desenvolvida com uma turma do nono ano do ensino fundamental.
Dentre os variados recursos didáticos, os filmes podem ser utilizados no ensino
de ciências pois, muitos desses, abordam temas inerentes ao currículo escolar.
Utilizando - se a animação Wall-e, produzida pela Disney e Pixar Animation, foi
desenvolvida
uma
sequência
didática
de
modo
que
temas
educacionais
aparentemente inexistentes em um “simples filme” pudessem ser trabalhados com os
alunos.
Esse filme aborda de forma crítica a situação do planeta Terra em eras futuras.
Nesse contexto o mesmo encontra-se inabitável, motivo que provocou o
deslocamento da população para uma nave espacial criada e mantida pela empresa
BnL. Essa empresa, a qual monopoliza todos os setores e atividades, se esforça por
manter as pessoas ocupadas e manipuladas impedindo que as mesmas questionem
a sua própria vida e o que se passa ao redor delas.
Apesar de ser uma animação com fins de diversão há um belíssimo discurso
apresentado no filme, o qual foi relacionado a temas transversais como consumismo
e produção de lixo.
As questões ambientais são temas inerentes à formação do cidadão exigindo
assim, constantes reflexões e atitudes positivas dos docentes em seu planejamento.
Neste manual se faz referência ao longo do texto aos apêndices, os quais
poderão ser consultados na dissertação.
Ao final apresenta-se um portfólio com textos utilizados nesse trabalho.
Esse manual objetiva descrever como foi desenvolvido o trabalho,
apresentando as etapas e os detalhes envolvidos no planejamento do uso do filmes
em sala de aula. Essa proposta objetiva também ser um guia que possa ser utilizado
na integra ou adaptado à sua realidade escolar.
4
2. PLANEJAMENTO E METODOLOGIA
2.1. CRIAÇÃO E APLICAÇÃO DA SEQUÊNCIA DIDÁTICA
Uma sequência didática é “um conjunto de atividades ordenadas, estruturadas
e articuladas para a realização de certos objetivos educacionais, que tem um princípio
e um fim conhecidos tanto pelos professores como pelos alunos.” (ZABALA, 1998,
p.18).
Na unidade didática, ou sequência de atividades, podemos incluir as três
etapas de toda intervenção reflexiva: planejamento, aplicação e avaliação. Para
Zabala (1998) há dois grandes referenciais:
a) O primeiro está ligado ao sentido e ao papel da educação: Para que educar? Para
que ensinar? Essas questões abarcam os objetivos que justificam a intervenção
pedagógica.
b) concepção que se tem sobre os processos de ensino aprendizagem. Esses dois
aspectos estão inter-relacionados pois não é possível responder à pergunta de “como
ensinar?” se não se sabe como a aprendizagem se produz.
O ponto de partida está a definição de objetivos. Fica impossível avaliar se não
se sabe o sentido do que se ensina. Os objetivos educacionais devem estar
intimamente relacionados com a finalidade do ensino; ele é parte inerente de um
correto planejamento. “Um modo de determinar os objetivos ou finalidades da
educação consiste em fazê-lo em relação às capacidades que se pretende
desenvolver nos alunos.” (ZABALA, 1998, p.27).
O conteúdo compreendido em uma metodologia não pode conter apenas as
teorias (aspecto cognitivo). O que contribui para o desenvolvimento do educando deve
ser considerado mais amplo e conter os aspectos conceituais, procedimentais e
atitudinais. Esses três componentes dos conteúdos assim apresentados nessa ordem
são descritos por Zabala ao afirmar que “esta classificação corresponde
respectivamente às perguntas ‘o que se deve saber?’, ‘o que se deve fazer saber?’ e
‘como se deve ser?’, com o fim de alcançar as capacidades propostas nas finalidades
educacionais.” (ZABALA, 1998, p.31).
Indubitavelmente esses aspectos do conteúdo estão intimamente interrelacionados e devem propor que as atividades de ensino sejam as que permitam a
máxima comunhão entre os mesmos.
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Nos objetivos devem estar presentes a consciência de que aprendizagem
depende das características peculiares de cada educando e das vivências do mesmo.
Cada educando deve se deparar com desafios propostos de forma cadenciada pelo
docente. “Portanto, a situação de ensino aprendizagem também pode ser considerada
como um processo dirigido a superar desafios, desafios que possam ser enfrentados
e que façam avançar um pouco mais do ponto de partida”. (ZABALA, 1998, p.38).
Entende-se então a partir dos conceitos expostos que a aprendizagem deve sempre
ocorrer de forma coerente respeitando a individualidade e capacidade dos discentes.
2.2. ASPECTOS INERENTES AO PLANEJAMENTO PARA A EXIBIÇÃO DOS
FILMES
Ao se trabalhar com filmes em sala de aula deve-se atentar para algumas
questões inerentes ao planejamento:
a) Luminosidade:
É preciso verificar dias antes da aplicação do trabalho as condições da sala
onde será projetado o filme. Salas muitos claras podem dificultar a visualização das
cenas gerando perda dos detalhes do filme. Recomenda-se colocar, caso não tenha
cortinas nas janelas, cartazes ou outro material que possa minimizar ou anular a
iluminação externa.
b) Som:
Ruídos ao redor da sala podem desviar a atenção dos alunos e também
dificultar a percepção do discurso apresentado pelo filme. Recomenda-se identificar a
fonte do ruído, de preferência antes do início do filme e, se possível, solicitar que a
fonte geradora (reformas, grupos de alunos de outras turmas sem aulas etc) possam
interromper suas atividades durante a exibição do filme. Sobre a sonoridade do filme,
deve-se observar o tamanho da sala de projeção e a potência do aparelho que emitirá
o som. Da mesma forma que as imagens traduzem o discurso do filme, som é de
fundamental importância para a apreensão do real significado daquilo que se
apresenta em um filme. Uma sala muito grande com volume do som deficiente pode
inviabilizar a aplicação da sequência didática. O uso de alto-falantes deve ser feito
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com cuidado pois, podem gerar som muito alto e devem ser previamente testados
para que a execução da aula não seja prejudicada com ajustes no equipamento.
c) Projetor/Televisão:
É fundamental testar o projetor antes do início do trabalho. É preciso que se
encontre a melhor posição do projetor, a qual produzirá uma imagem adequada. Uma
adequação na sala de aula pode ser necessária, como por exemplo, a mudanças das
carteiras de posição para a projeção em determinado ponto (caso a escola não tenha
uma tela para projeção). Sendo utilizada uma televisão, a mesma deve ter tamanho
suficiente para que os alunos possam assistir ao filme. Aparelhos de televisão
pequenos além de comprometer a imagem, podem dificultar a leitura de legendas. Ao
usar aparelhos de DVD ou Bluray é conveniente testá-los previamente pois os
mesmos podem estar danificados. Conhecer os locais onde estão guardados os
controles remotos, extensões elétricas dentre outros, podem facilitar o trabalho em
caso de algum imprevisto.
d) Disponibilidade:
Caso o filme seja alugado deve-se atentar para o fato de não existir na locadora
em questão ou que o mesmo possa estar fora de catálogo. Caso seja utilizado um
arquivo retirado da internet deve-se assisti-lo completamente para atestar sua
qualidade na íntegra.
e) Conteúdos dos filmes
Cabe ao docente a análise criteriosa do conteúdo dos filmes. Assim como é
importante traçar objetivos claros, o filme que será utilizado devem ser coerente com
a finalidade proposta. Produções cinematográficas com imagens muito violentas,
palavras de baixo calão ou mesmo cenas de sexo explícitas, podem ser inadequados
a certas faixas etárias. Por isso, assistir ao filme integralmente é de fundamental
importância no planejamento. Caso o filme escolhido para o trabalho contenha cenas
inadequadas, pode-se lançar mão de programas de edição, facilmente encontrados
na internet que permitem retirar cenas para certos fins.
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O trabalho com filmes é dinâmico podendo ser planejado para uma única
disciplina, de forma interdisciplinar ou mesmo abordando temas transversais citados
nos parâmetros curriculares nacionais. Sobre o trabalho com filmes Napolitano (2004
p.18) afirma que:
O trabalho sistemático e articulado com filmes em sala de aula (e
projetos escolares relacionados) ajuda a desenvolver competências e
habilidades diversas, tais como leitura e elaboração de textos;
aprimoram a capacidade narrativa e descritiva; decodificam signos e
códigos não-verbais; aperfeiçoam a criatividade artística e intelectual;
desenvolvem a capacidade de crítica sociocultural e políticoideológica, sobretudo em torno dos tópicos mídia e indústria cultural.
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3. SEQUÊNCIA DIDÁTICA SOBRE CONSUMISMO UTILIZANDO O FILME WALLE
O uso de filmes no âmbito escolar deve ser feito de forma criteriosa e planejada.
A aplicação de filmes não deve ser utilizada de forma a ser apenas um instrumento
de preenchimento de um horário vago ou por diversão, mas como instrumento de
reflexão e aprendizagem. Modro aponta que:
Apenas passar um filme, sem discuti-lo, sem propor tarefas em relação
com o mesmo, sem questioná-lo, sem buscar novas referências, sem
estabelecer relações com conteúdos estudados em sala de aula é cair
no vazio. Desnecessário dizer que não acrescenta em nada o trabalho
desenvolvido. (MODRO, 2005, p.12)
O trabalho em questão foi desenvolvidos de acordo com as etapas:
a) Apresentação do trabalho aos alunos.
b) Estudo de uma notícia de jornal (portfólio - texto 1) para introduzir criticamente o
tema
Foi escolhida uma notícia de jornal que trata de um tipo de celular formado por
módulos que poderia ter suas partes substituídas, como por exemplo, trocar apenas
câmera. Isso de fato diminuiria o consumismo e a troca incessante desses aparelhos.
c) Estudos dos bens de consumo compreendendo as seguintes etapas: extração de
matérias-primas, produção industrial, comercialização, consumo e descarte
Em cada uma dessas etapas foram utilizados como principal fundamentação o
livro e documentário chamado “A História das Coisas” De Annie Leonard. O
documentário e o livro encontram-se disponíveis na internet, respectivamente no
Youtube e Google Books. Esses materiais tratam de forma critica o consumismo como
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origem de diversos problemas e discutem temas como obsolescência programada e
perceptiva, custos externalizados entre outros.
Desse documentário foram retiradas imagens para montar uma projeção em
Power Point (apêndice C), a qual ainda constava outros materiais, principalmente
notícias (portfólio) atuais relativas a esses temas e vídeos de alguns temas abordados.
d) Exibição dialogada do filme Wall-e
No planejamento foi prevista a exibição do filme com intervalos para discussão.
A proposta previa rever trechos do filme e analisar como mais detalhes as
imagens e o discurso apresentado. Cabe ao professor optar ou não por esse método
e eleger o número de interrupções necessários ao cumprimento dos objetivos.
Ao final foram projetadas algumas imagens (apêndice C - imagens 44 a 56)
retiradas do filme com o intuito de discutir com os alunos aspectos inerentes às
consequências do consumismo e o incorreto uso dos recursos naturais. As imagens
eram sempre associadas à uma pergunta e os alunos eram estimulados a debater
sobre os temas abordados.
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4. SUGESTÕES DE OUTRAS ANIMAÇÔES QUE PODEM SER UTILIZADAS EM
SEQUÊNCIAS DIDÁTICAS.
a) Os Sem-Florestas
Figura 1 : Arte da capa do filme “Os Sem-Floresta”
Fonte: OVER, 2013
Essa animação aborda a invasão humana em habitats naturais e seus impactos
na oferta de alimentos para os animais. Nesse contexto temas como desmatamento,
destruição de habitats e suas consequências, respeito ao meio ambiente dentre outros
poderão ser abordados.
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b) O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida
Figura 2: Arte da capa do filme “O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida”
Fonte: THE LORAX, 2013
Nessa animação, o garoto Ted busca uma semente de árvore para uma garota.
Porém, encontra dificuldades pois eles vivem em um mundo feito por plásticos e
metais. Quando consegue encontrá-la, se depara com um mundo onde as árvores
são cortadas para que se faça um tecido com sua copa. Assim, temas como uso
abusivo dos recursos naturais, desmatamento, consumismo entre outros podem ser
abordados.
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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta inicial desse trabalho tinha por objetivo utilizar todo o potencial
contido no filme Wall - e, o qual descreve um planeta Terra futurístico totalmente
destruído pela consumismo e suas consequências funestas. Nesse filme percebe-se
que o forte discurso das empresas, aliado ao encantamento e inteligência do
marketing, são armas muitas vezes infalíveis para que os fins máximos do capitalismo
sejam perpetuados. Um fato curioso e que deve ser questionado é a aparente
incoerência na aceitação por parte das empresas que desenvolveram o filme pois, o
mesmo discute e explicita a forma equivocada de atuar dessas e de muitas outras
empresas.
Para que fosse possível a discussão do tema consumismo no âmbito escolar
utilizando-se o filme como recurso didático, foi desenvolvido nesse trabalho uma
sequência de cinco aulas de 50 minutos. Ao final este trabalho foi revertido em um
material que possa ser agregado às aulas dos professores que se interessam em
trabalhar o tema. É fato que a escola deve ser o ambiente propício para que se formem
cidadãos e que o completo significado desse termo possa nortear o planejamento
docente. Assim cabe ao docente utilizar os recursos disponíveis para tal ação
pedagógica e, neste trabalho, apresenta-se o uso do cinema como um importante
recurso didático. Não é possível esperar que nossa sociedade mude apenas por
ações advindas do governo e dos donos do capital. O docente deve criar meios para
que seus aprendizes possam interiorizar o papel do exercício da cidadania e com isso
desenvolver aspectos críticos sobre os problemas sociais, dentre eles o tema
consumismo. Cabe também discutir com os alunos que nossas escolhas tem o poder
de mudar o meio em que vivemos.
Os produtos que atualmente nos são apresentados poderiam ter uma maior
vida útil ou serem reaproveitados caso nossas ações buscassem esses objetivos.
Acredita-se que a sociedade é uma extensão do indivíduo e que essa só mudará a
partir da mudança particular de cada um.
Finalmente, espera-se que esse trabalho seja um instrumento para que os
professores possam questionar e agregar à sua prática uma nova proposta educativa,
sintetizada nessa sequência didática, no sentido de que a formação do cidadão para
o consumo consciente possa ser realidade na salas de aula de nosso país.
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6. BIBLIOGRAFIA E REFERENCIAIS
AS ARTIMANHAS dos Supermercados. Gastronomia descomplicada, 22 fev. 2011.
Disponível em:
< http://gastronomiadescomplicada.blogspot.com.br/2011/02/as-artimanhas-dossupermercados.html> Acesso em: 16 jun. 2013.
EUA: orgão diz que Coca e Pepsi têm potencial cancerígeno. Veja, 07 mar. 2012.
Disponível em:
< http://veja.abril.com.br/noticia/saude/instituto-americano-afirma-que-coca-cola-epepsi-causam-cancer> Acesso em: 16 jun. 2013.
FÁVERO, Bruno. Celular de “Lego” levanta discussão sobre consumismo. Folha de
São
Paulo,
São
Paulo,
30
set.
2013.
Disponível
em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/131512-celular-de-lego-levanta-discussaosobre-consumismo.shtml> Acesso em: 01 out. 2013.
HASHIZUME, Maurício e PYL, Bruna. Roupas da Zara são fabricadas com mão de
obra escrava. Repórter Brasil.16 de agosto 2011. Disponível em:
<http://reporterbrasil.org.br/2011/08/roupas-da-zara-sao-fabricadas-com-mao-deobra-escrava/> Acesso em: 01 out. 2013.
KUGLER, Henrique. Passado e tragédia. Ciência Hoje. 18 de junho 2013. Disponível
em:
< http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/rastros-do-mercurio/passado-e-tragedia>
Acesso em: 03 out. 2013.
LEONARD, Annie. A História das Coisas: da natureza ao lixo, o que acontece com
tudo que consumimos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
_______________ A História das Coisas. Youtube, 15 de junho de 2012. Disponível
em: <https://www.youtube.com/watch?v=zriUGfQ2V5w> Acesso em: 04 de setembro
de 2013.
MODRO, Nielson Robeiro. Cineducação: usando o cinema em sala de aula. Joinville,
SC: Casamarca Design Editorial, 2005.
______________________. Cineducação: usando o cinema em sala de aula.
Joinville, SC: UNIVILLE, 2006.
NAPOLITANO, Marcos. Como Usar o Cinema na Sala de Aula. 2º edição. São
Paulo: Contexto, 2004.
NUZZI, Vitor. Um rastro de chumbo na vida da gente de Santo Amaro. Ciência Hoje.
15 de setembro 2013. Disponível em:
< http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/87/impurezas-da-historia-8813.html >
Acesso em: 03 out. 2013.
14
OVER the hedge. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/Over_the_Hedge>. Acesso em: 03 fev. 2013.
THE LORAX (filme). In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Disponível em:
<http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Lorax_(filme)>. Acesso em: 03 fev. 2013.
WALL-E. Direção Andrew Stanton. Produção Pixar Animation Studios. Intérpretes:
Bem Burtt; Elissa Knight; Jeff Garlin; Fred Willard; John Ratzenberger; Kathy Najimy;
Sigourney Weaver; MaclnTalk. Estados Unidos, 2008. 1 DVD (98 min.), son, color.
ZABALA, Antoni. A Prática Educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998.
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ANEXO
PORTFÓLIO DE TEXTOS
TEXTO 1
Celular 'de Lego' levanta discussão sobre consumismo
Para reduzir desperdício, Phonebloks poderia ser atualizado como um PC
Projeto do holandês Dave Hakkens propõe um celular "que dure."
Por: Bruno Fávero
O conceito de um smartphone modular, chamado Phonebloks, aqueceu
os debates sobre o desperdício ligado à indústria de eletrônicos.
Elaborado pelo holandês Dave Hakkens, ele prevê um telefone cujos
componentes (câmera, processador, bateria etc.) sejam módulos
independentes e removíveis, ligados a uma placa central.
Desse modo, o celular seria personalizável e teria vida útil prolongada em vez de comprar um novo aparelho quando ele ficasse obsoleto ou
quebrasse, usuários poderiam trocar partes específicas do antigo.
As reações à campanha do Phonebloks na internet variaram de defesas
entusiasmadas a questionamentos sobre sua viabilidade técnica.
Enquanto alguns veículos e usuários celebraram a ideia como o futuro da
telefonia, o site "FastCo" publicou uma crítica ("Por que o conceito de Lego não
funciona em smartphones") dizendo que componentes separados, na verdade,
aumentariam a quantidade de recursos e energia gastos pelo telefone.
Nos últimos anos, a indústria tem adotado um padrão chamado de
"system-on-a-chip", tecnologia que junta vários componentes em uma única
placa para economizar energia e materiais.
De certa maneira, é o oposto do que Hakkens propõe.
Kyle Wiens, cofundador do iFixit, comunidade on-line que ajuda usuários
a consertarem seus eletrônicos, concorda que a ideia como concebida por
Hakkens pode ser impossível, mas diz que o conceito de celular modular já
poderia ser aplicado parcialmente, aumentando a vida útil dos aparelhos.
"Não tem motivo para a bateria de um celular não ser removível ou para
não haver possibilidade de expandir sua capacidade de armazenamento, por
exemplo. [...] É uma questão de obsolescência programada", disse Wiens à
Folha por telefone.
Todo ano, o iFixit divulga uma avaliação que dá notas de 0 a 10 aos
celulares, de acordo com a facilidade com que podem ser reparados.
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A de 2013, publicada na semana passada, é liderada pelo Droid Bionic e
pelo Atrix 4G, ambos da Motorola, que ganharam nota 9. "Mas ainda não há
nada como um Phonebloks", diz Wiens. Vários modelos populares vão mal. Os
novos iPhones, por exemplo, ficaram com 6.
Os telefones modulares são apenas uma ideia - Hakkens não sabe como
funcionariam -, mas chamaram atenção.
O vídeo de divulgação foi replicado por sites como CNN e "Forbes" e
passou de 14 milhões de visualizações. Em entrevista, Hakkens disse que já
recebeu contato de fabricantes interessadas no projeto.
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TEXTO 2
Passado e tragédia
Japão e Iraque registram os dois mais notórios acidentes históricos envolvendo contaminação
por mercúrio.
Por: Henrique Kugler
Mapa dos principais acidentes envolvendo contaminação por mercúrio. Japão, Iraque, Paquistão, Camboja, Gana
e Guatemala são alguns dos locais que vivenciaram tragédias silenciosas. (imagem: Henrique Kugler)
Foi em Minamata, Japão, no distante ano de 1956. Uma doença misteriosa
intrigava os médicos. Convulsões severas, surtos de psicose, febre às alturas. Quatro
pacientes morreram.
Que mal os teria acometido? Perplexa, a equipe do hospital não imaginava que
aqueles enfermos seriam os primeiros registros do que entrou para a história como
‘doença de Minamata’. Anos se passaram até que se esclarecesse o enigma.
Diagnóstico: contaminação por mercúrio.
Tudo começou quando, a partir da década de 1930, uma fábrica de produtos
químicos – a Chisso Corporation – resolveu despejar rotineiramente seus rejeitos
industriais nas águas que banhavam o município de Minamata. E o fez por duas
décadas sem culpa ou pudor. Até que, em meados dos anos 1950, os habitantes
daquela pequena cidade costeira do sul do Japão começaram a perceber que algo
não ia bem.
A vida marinha estava contaminada. Pelos céus, aves se comportavam
estranhamente; e, pelas ruas, gatos e cães nasciam com deformações bizarras. Pois
o mercúrio em excesso já era parte da cadeia alimentar. E estava traçado o destino
de Minamata: a contaminação do ser humano seria apenas questão de tempo.
18
Contaminação por mercúrio: vítima de Minamata. (foto: W. Eugene Smith/Aileen Archive)
Não deu outra. Estima-se que pelo menos 50 mil pessoas tenham sofrido as
consequências da intoxicação por mercúrio naquela cidade.
“A causa da tragédia foi o consumo de peixes contaminados”, escreve o biólogo
Wanderley Bastos, da Universidade Federal de Rondônia (Unir). “A população passou
a apresentar sintomas como perda de visão e sérios comprometimentos na
coordenação motora e muscular; além disso, estavam nascendo crianças com danos
neurológicos irreversíveis”, contextualiza Bastos. São os elementos clássicos do
quadro sinistro da toxicologia mercurial.
Segundo estudiosos, naqueles 20 anos foram lançadas à baía de Minamata
algo em torno de 200 a 600 toneladas de mercúrio. Bateram a casa dos milhões de
dólares os prejuízos aos cofres públicos japoneses.
O mercúrio era usado pela Chisso Corporation na produção de PVC (policloreto
de polivinila), o famigerado plástico que atualmente engrossa o rol
da vilania ambiental. Hoje, no entanto, a empresa fabrica insumos para telas de LCD
(cristal líquido). A companhia até agora se vê enredada em batalhas judiciais
indenizatórias – pois a contaminação por mercúrio ainda é um fardo na vida e na
memória de Minamata.
Registros
Apreciadores da boa fotografia se interessarão pelo que foi, provavelmente, o
melhor registro imagético do acidente de Minamata: as fotografias de Eugene Smith,
fotojornalista estadunidense que registrou através de suas lentes cenas que mesclam
rara maestria técnica e apurado senso de horror.
Iraque: o pão e o pecado
Não bastassem malfadados conflitos políticos e religiosos, o Iraque da década
de 1970 também foi palco de um acidente de proporções drásticas envolvendo
contaminação por mercúrio.
A tragédia iraquiana foi sui generis. E a causa surpreendeu a todos, pois foi o
insuspeito pão nosso de cada dia o agente responsável pelo acidente. Explica-se: o
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pão é feito de trigo. E, na safra anterior, às sementes do cereal haviam sido aplicadas
doses de um fungicida à base de mercúrio.
A novela é mais ou menos assim: aquelas sementes de trigo haviam sido
importadas do México. Mas, após longa viagem por mar, a umidade as poderia tornar
imprestáveis. Eis que, para remediar o provável aparecimento de fungos indesejados,
aplicou-se o tal fungicida.
No Iraque, sementes de trigo protagonizaram um dos mais graves acidentes históricos de contaminação por
mercúrio. (foto: Wikimedia Commons)
Na época, insumos agrícolas à base de mercúrio tinham preços competitivos.
Detalhe: já haviam sido banidos na Escandinávia e em alguns estados norteamericanos, por suspeitas de que poderiam gerar quadros toxicológicos temerários
(agroquímicos; negligências; toxicologia mal resolvida. No tempo e no espaço, a
história não hesita em se repetir).
Pelo menos 40 mil iraquianos se fizeram vítimas – e esses números são
descaradamente subestimados, pois consideram apenas os casos mais óbvios de
intoxicação. Na verdade, há quem estipule o número de contaminados em mais de
100 mil.
Atlas tóxico
Os rastros do mercúrio estão em diversos países. Japão, Iraque, Paquistão,
Camboja, Gana, Guatemala são alguns dos locais que vivenciaram tragédias
silenciosas – e, se os pessimistas estiverem certos, o Brasil acena como bom
candidato à famigerada lista.
Este ano, o Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (Pnuma)
publicou um belo de um relatório: o Mercury: time to act (sem tradução para o
português). É um compilado de fôlego sobre as principais questões que envolvem os
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usos e preocupações concernentes a esse perigoso elemento químico neste início de
século.
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TEXTO 3
Um rastro de chumbo na vida da gente de Santo Amaro
Fábrica que se instalou nos anos 1960 na cidade baiana fechou e deixou um rastro de
contaminação
Por: Vitor Nuzzi
Também conhecida por Santo Amaro da Purificação, por causa do nome da igreja matriz, a cidade baiana
continua sofrendo com a poluição da fábrica fechada em 1993.
A instalação de uma fábrica na pacata Santo Amaro, a 70 quilômetros de
Salvador, foi um alento. Em 1960, a cultura da cana-de-açúcar há muito deixara de
impulsionar a economia da região. E ser funcionário da Cobrac, a Companhia
Brasileira de Chumbo, também dava status. “Todo mundo achava que ia se dar bem”,
diz Luciano dos Santos, ex-funcionário. “Em termos financeiros, era o melhor lugar”,
conta Nicolau Sousa Passos Filho, que ficou durante seis anos. “Quem trabalhava lá
tinha crédito em qualquer lugar”, acrescenta Raimundo Santana Alves. Todos fazem
parte da longa lista dos que hoje se queixam de um sem-número de problemas de
saúde decorrentes da exposição a metais pesados, como chumbo e cádmio. Muitos
estão em casa, sem condições de sair. Outros tantos já morreram.
Em dezembro de 1993, a empresa, já com o nome de Plumbum, fechou as
portas sem avisar. Um dia, chamaram os funcionários e disseram que era para
esvaziar os armários – rapidamente. “Nem gerente sabia”, conta Antônio
Severino Oliveira, que saiu dois meses antes. “Largaram ferramentas, tudo”, lembra
Antônio de Sousa Porto. Mas ficaram também resíduos que, ao longo do tempo,
contaminaram funcionários e moradores. Santo Amaro tornou-se, talvez, o mais
emblemático caso mundial de contaminação por chumbo.
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Tornada cidade em 1837, Santo Amaro é um dos municípios que compõem o
Recôncavo Baiano, no entorno da Baía de Todos os Santos. Desde 2000, tem se
mantido com população em torno de 58 mil habitantes. No trânsito tranquilo, destacase a presença das mototáxis. Segundo o IBGE, em 2012 havia mais motocicletas
(2.962) do que automóveis (2.788). No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano
(IDH), situa-se em 44º lugar entre os 417 municípios da Bahia.
A antiga fábrica fica a aproximadamente dois quilômetros da Igreja da
Purificação, a matriz, que dá o nome pelo qual a cidade é mais conhecida. Localizada
na Avenida Rui Barbosa, na saída da cidade, à beira do Rio Subaé – que corta toda
Santo Amaro –, agora é um monte de escombros. No que já foi o portão de entrada,
uma placa, atrás da grade enferrujada, avisa: “Propriedade particular – Proibido (sic)
a entrada – Área com resíduo de chumbo”.
Há quase 40 anos estudando o local, o professor Fernando Martins Carvalho,
da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), vê uma situação
grave de negligência. “Era a grande empresa do local. Se fosse uma empresa
brasileira na França que poluísse lá, o que a França iria fazer?”, diz, referindo-se ao
fato de, na origem, a Cobrac pertencer ao grupo francês Penarroya Oxide, hoje Penox
Group, um dos líderes mundiais na produção de óxido de chumbo, com atividades na
Alemanha, Espanha e México.
Em 1989, a fábrica de Santo Amaro foi vendida e incorporada à Plumbum
Mineração e Metalurgia, ligada a um grupo brasileiro. Depois de fechada, ali funcionou
durante algum tempo uma fábrica de guardanapos. Em 2000, a escória abandonada
no local foi encapsulada.
Evidências de contaminação vêm ainda da década de 1970. Em ação de 2003,
o Ministério Público Federal afirma que todos os argumentos exibidos pela empresa
“não se revelam capazes de sequer pôr em dúvida” que Santo Amaro “foi – e continua
sendo – vítima de uma poluição grave, prolongada e apenas parcialmente reversível”.
Também em 2003 o Ministério da Saúde fez um estudo pormenorizado.
Embora relutante quanto à relação causal entre exposição a metais e doenças,
destaca o fato de que os trabalhadores nunca tiveram atenção à saúde específica e
diferenciada, compatível com o grau de risco de adoecimento que sofreram durante o
período em que estiveram expostos. “Vários desses trabalhadores já têm o
diagnóstico estabelecido de saturnismo”, diz o ministério, referindo-se à doença
decorrente da intoxicação por chumbo.
“Desde o começo era muito claro que tínhamos um grande problema
ocupacional e ambiental, negligenciado pelos órgãos públicos e pela empresa”, critica
Fernando Carvalho. “Durante 32 anos a empresa produziu 500 mil toneladas de
escória (resíduo). A prefeitura usava essa escória para fazer pavimentação das ruas.
Desde os anos 1980, dizíamos que isso era prejudicial à saúde, que a escória era
tóxica. O Estado comia a farofa, para usar uma expressão baiana.” Segundo Carvalho,
o chumbo tem vários efeitos nocivos, como anemia, paralisia, doenças arteriais, além
de ser um provável cancerígeno. “Todos os ex-funcionários devem ser monitorados.”
Sem controle
“O que falta é ser feito um acompanhamento sistemático de pessoas que
moram perto”, acrescenta a jornalista Maiza Ferreira de Andrade, mestre em Saúde,
Ambiente e Trabalho pela Faculdade de Medicina da UFBA. “A empresa operou 20
anos praticamente sem nenhum controle.” O caso de Santo Amaro foi muito estudado.
Acompanhamento feito pela pesquisadora no período 1975-2010 coletou cinco teses,
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15 dissertações e seis monografias. Da mesma forma, não faltaram estudos de órgãos
públicos e ações judiciais. Faltaram mesmo soluções.
No bairro do Derba, na entrada da cidade, vive Luiz Alves da Silva, o Lula, 62
anos, 12 passados na fábrica. Com aparência frágil, ele relata o que vem sentindo há
tempos: “Tontice, pressão alta, e agora me apareceu uma dor nas pernas que não
consigo andar pra longe. Eles só mandam fazer exame. Agora, o cardiologista
mandou fazer exame de pulmão. Aqui não faz, só em Salvador. Mas não tenho
condições de viajar”. Também tem restrições alimentares. “Não posso mais comer
farinha.” E sente falta de ar e dor ao mastigar. Alagoano que chegou a Santo Amaro
no início dos anos 1980 para trabalhar, Lula não tem mais forças nos braços que
puxavam pesados lingotes – agora, não consegue segurar a neta de 10 anos. A única
renda vem da mulher, Rita, que trabalha de doméstica “quando dá”. “Tenho de ficar
olhando ele.”
Há frequentes relatos de acordos fechados na Justiça do Trabalho com valores
reduzidos. Criada há dez anos, a Avicca, associação que reúne as vítimas da
contaminação, tenta reabrir alguns. Somente em 2006 e 2007, segundo o Tribunal
Regional do Trabalho (TRT) da Bahia, a Vara de Santo Amaro recebeu 777 ações da
Justiça
Comum, referentes a doenças ocupacionais. Foi feita parceria com o Centro de
Estudos da Saúde do Trabalhador (Cesat) para produção de laudos. Em 2008, em
três dias de mutirão, a Vara promoveu 49 conciliações, somando R$ 108 mil – pouco
mais de R$ 2 mil por caso.
Dona Maria de Lourdes Pereira Barbosa, 71 anos, que há três perdeu o marido,
José Cassimiro Barbosa, acabou aceitando um acordo de R$ 70 mil. “Eles
(advogados) ficaram lá dentro me opressando”, conta. “O homem morreu muito
acabado. As unhas dele eram uma massa, os pés também... Andava dez minutos,
parava meia hora.” Ela perdeu também o filho mais velho, outro ex-funcionário, aos
39 anos, com quatro filhos. Ela mesmo diz sentir fraqueza. “Até para falar estou com
deficiência.” Recebe uma pensão de R$ 1.200. “Como é
que vou trabalhar agora, se nem peso aguento carregar? Antes vendia marisco pelas
feiras”, diz Maria de Lourdes, dez filhos, 46 netos e 25 bisnetos – metade mora em
Santo Amaro, metade em Salvador.
Júlia da Anunciação de Oliveira relata uma situação comum às viúvas de
trabalhadores. Ela lavava a roupa que o marido, Damião, trazia da fábrica, expondose à contaminação. “Além da cabeça, o corpo dói. Tenho dor nas mãos, no pescoço,
problemas cardíacos.”
Depois de três anos trabalhando na fábrica, Gérson “saiu já doente”, conta
Gilda Paixão Soledade Baraúna, 70 anos. Sofreu um acidente vascular cerebral e
morreu há seis anos. “Meu marido sofreu muito e se acabou, ficou apodrecendo em
cima da cama. Ficou quatro anos em cima da cama, como tantos outros, sem direito
a nada.” Ela também relata sentir dores constantes, hipertensão e fraqueza. “Não
consigo abrir uma garrafa.”
Boca do forno
José Roque das Mercês, 67 anos, morou na mesma Avenida Rui Barbosa, a
300 metros da fábrica, onde entrou em 1968. “Trabalhava na boca do forno.”
Aposentado por invalidez, tem osteoporose, artrose, tontura, problemas de audição,
dores no corpo. “Morriam muitos animais (no entorno da fábrica), mas ninguém sabia
a causa.”
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Quem também trabalhava na carga do forno, “um lugar perigoso”, era Carlos
Alberto Pereira Paranaguá, 58 anos, servente que ficou na fábrica entre 1988 e 1989
e se queixa de problemas na visão e nos joelhos. Foi afastado pelo INSS. Seu colega
Antônio Severino Oliveira, 54 anos, entrou lá em 1980 e saiu em 1993, dois meses
antes do fechamento. Tem pressão alta e reclama de dores que não cessam. “Sempre
tive problema de dor. Um dia, o médico chegou e me deu (receitou) 184 injeções. Até
hoje não sei para que era”, conta Antônio, que tenta reabrir seu processo. “Não recebi
nem um real, não trabalhei mais em lugar nenhum, nem me aposentei.”
Com 66 completados neste 25 de setembro, o ex-funcionário Antônio Roque
de Sousa Serra conta que “o rim parou” há alguns anos e o levou à hemodiálise.
Aposentado, recebe o equivalente a um salário mínimo. “Minha esposa é que me
segura.” De 1969 a 1975 na Cobrac, José Alves Ferreira sofreu AVC e tem dificuldade
de falar. Trabalhava na metalurgia, carregando carga do forno. Aposentou-se por
invalidez e ganha um salário mínimo. “Ruim, ruim”, limita-se a dizer, fazendo um gesto
com a mão. Vive com a mulher, Leonice. “Eu, ele e Jesus”, diz ela.
Professora titular do Instituto de Química da UFBA, Tania Tavares, ao lado de
Fernando Carvalho, também acompanha os problemas de Santo Amaro há algumas
décadas. Com dificuldades, conta: “Eu nem podia entrar na fábrica. A indústria não
deixava”. Ela lembra que a instalação se deu em uma época que não havia nenhuma
preocupação com danos ambientais. Hoje, a contaminação maior está no solo. “A
empresa deixou lá algumas toneladas de resíduo sólido.”
Nos anos 1970, com as primeiras pesquisas sobre efeitos do chumbo em
pescadores e trabalhadores, a empresa teve negada licença para ampliar a produção.
Estudos feitos a partir da década de 1980 mostraram contaminação
em crianças, com altas concentrações de chumbo e cádmio no sangue.
No rosário de ações relativas ao caso, em fevereiro deste ano a Justiça Federal,
a pedido do Ministério Público, determinou que a cidade de Santo Amaro recebesse
um centro de referência para tratamento de vítimas de contaminação por metais
pesados. A implementação, em um prazo de seis meses, ficaria a cargo da União e
da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que recorreu. O Ministério da Saúde
informa considerar “mais eficiente e mais conveniente” usar a rede já existente. Diz
estar prestando desde 2003 assessoria técnica para atendimento à população
exposta a metais pesados, com repasse de R$ 30,5 milhões ao município e ao estado.
Protocolo
O ministério destaca um protocolo firmado em parceria com os três níveis do
Executivo que estabelece procedimentos para acompanhamento da saúde da
população, baseado em princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS). “É
um assunto que incomoda, é como se fosse um calo. O desafio é tornar esse protocolo
uma prática dos profissionais de saúde do município, com toda a supervisão das
autoridades do estado e federais”, diz Maiza Andrade.
Desarquivado há dois anos e meio, um projeto de lei estadual de 2007 (nº
16.622) tramita na Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa
baiana. A proposta é de criação de um fundo de assistência às vítimas da
contaminação. O relator, deputado Zé Raimundo (PT), deu parecer contrário. “É uma
lei que cria fundos, mexe em orçamento. É uma matéria que só pode ser normatizada
pelo Executivo”, argumenta o parlamentar. “Mas todos nós concordamos com a
iniciativa, que é louvável, porque visa restaurar um direito.”
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Adailson Pereira Moura é o presidente da Avicca e articulador de movimentos
sociais na região. Morava a 50 metros da fábrica, mas diz que relutou até onde pôde
para trabalhar lá, só aceitando por estar desempregado.
“Sabia que estava assinando a minha sentença”, afirma. Ficou apenas alguns meses
na Plumbum, de maio a dezembro de 1993, quando a unidade fechou. Ele lembra
data e hora: 14h30 de 27 de dezembro. “Reuniram todo mundo da produção e
disseram: vocês podem descer e pegar tudo que está no armário, porque a empresa
está fechada. Tinha mais de 100 homens da segurança.”
Pelé, como é chamado na cidade, gosta de pintura. A parte de cima da sua
casa, que por um tempo abrigou reuniões da associação, tem vários quadros, a
maioria abstratos. É a terapia do mecânico de manutenção, que conta ter pouca força
na mão esquerda e dores crônicas nos joelhos. À noite, diz se mexer como se
tomassechoques. “A empresa formou um centro médico para que a saúde pública não
soubesse o que acontecia lá dentro. Esses empresários nunca sofreram nenhuma
penalização do governo, que foi conivente.” Exibe algumas centenas de atestados de
óbito de ex-trabalhadores: grande parte traz como causa da morte insuficiência
respiratória ou cardiorrespiratória e AVC. No total, quase mil morreram, segundo ele.
“Existem coisas na Justiça que a gente não entende.”
Coordenador de Meio Ambiente da Secretaria Municipal, Augusto César Lago
Machado também é ex-funcionário da Cobrac/Plumbum – de 1971 a 1990.
Aposentado por tempo de serviço, conta que está perdendo os movimentos da face.
Para ele, falta comprometimento e vontade política. “Parece que há uma
orquestração. Laudos médicos reconhecem (os problemas), mas as instituições não.”
Ele chama o caso de genocídio. “Por que nunca acionaram o grupo Penarroya?”, diz,
referindo-se ao grupo francês que instalou a fábrica.
Samba e candomblé
Santo Amaro também é terra do samba de roda, característica do Recôncavo.
É terra de Assis Valente, Mano Décio da Viola e Tia Ciata. E tem o chamado Bembé
do Mercado, uma manifestação de candomblé em praça pública com origem no século
19, para celebrar a abolição da escravatura – decreto do governo estadual, de
setembro do ano passado, tornou a cerimônia Patrimônio Imaterial da Bahia.
Ao lado da secretaria fica o Teatro Dona Canô, onde em maio se realizou um
simpósio para discutir possíveis soluções para Santo Amaro. O nome homenageia a
mãe de Caetano Veloso e Maria Bethânia, entre outros filhos, que morreu em
dezembro de 2012, aos 105 anos. No início dos anos 1980, Caetano compôs Purificar
o Subaé, em que fala da poluição na cidade.
“Eu ouvia falar que a ‘fábrica de chumbo’, que ficava lá para os lados da estrada
velha, acima do (Rio) Sergi - Mirim, matava a vegetação em volta. Mas naquela altura
fiquei sabendo, por Violeta Arraes Gervaiseau, que osdanos eram muito mais sérios
e abrangentes”, conta Caetano, referindo-se à socióloga irmã de Miguel Arraes, a
“Rosa de Paris”, que apoiava exilados brasileiros durante a ditadura. Violeta morreu
em 2008.
“O samba é um protesto e uma oração”, define Caetano. “Fala dos rios que
cortam a cidade e das invocações de Nossa Senhora que denominam as paróquias –
Purificação, Amparo e Rosário – e brada ‘mandar os malditos embora’. É chocante
que os donos de empresas e os políticos que lhes concedem licenças sejam tão
desumanos quando se trata de ganhar dinheiro. Mas é assim. Minha cidade natal é
um dos pontos mais contaminados do
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globo terrestre. Precisamos lutar permanentemente contra isso e contra o que produz
esse tipo de situação. Como?”
A poucos metros da secretaria e do teatro, um senhor pesca no Rio Subaé.
Tilápia, robalo... “Para comer e para vender”, conta. Perguntam se ele não tem receio
da contaminação, e a resposta mistura desdém e realismo: “Se pensar em
contaminação, a gente não veve. Hoje em dia tá tudo contaminado”.
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TEXTO 4
As Artimanhas dos Supermercados
A partir de março, nós brasileiros precisaremos ficar atentos, pois a inflação
dos alimentos deve voltar a acelerar. A saída é economizar e não cair nas armadilhas
dos supermercados.
O avanço dos preços dos alimentos no país, que fez os consumidores mudarem
de hábitos para driblar o aumento das despesas, desacelerou neste início de ano. As
taxas de variação de despesas relativas à alimentação continuam a subir, mas em
ritmo menor do que o observado no final de 2010.
O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) mostrou que em janeiro a alta
de preços de alimentos e bebidas no país foi de 1,16%, representando uma redução
em relação a dezembro do ano passado. No entanto, essa desaceleração não deve
se manter. Para especialistas, as altas temperaturas e a valorização das cotações de
commodities devem levar os preços, a partir de março, a níveis tão incômodos como
os observados anteriormente.
Na contramão dessa desaceleração, estão as variações de preços de legumes
e verduras. Conforme informações do CEAGESP, em janeiro foram registrados
aumentos significativos devido às chuvas e altas temperaturas em todas as regiões
produtoras da região Sudeste.
Para os consumidores, existem algumas dicas parar fugir dessa alta de preços
e fazer o consumidor economizar algum dinheiro.
1 - Ir ao supermercado sem fome é a lei número 1 do consumidor prevenido. Mas você
sabia que gasta menos quando faz compras sozinho? Esse cuidado pode reduzir em
até 30% sua conta do supermercado.
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2 - A variação de preços entre o mesmo produto pode chegar a 151%, comparando a
marca líder e as marcas próprias dos supermercados. Ou seja, comprar as marcas
que levam o nome do supermercado pode ser econômico. Em análises, foi observado,
por exemplo, que sacos de lixo da marca CARREFOUR, fabricada pela EMBALIXO,
custava R$ 3,29, enquanto a mesma mercadoria, com o selo do fabricante custava
R$ 8,29. Exatamente o mesmo produto, produzido e embalado pela mesma empresa,
chega a apresentar uma diferença muito significativa. Segundo a EMBRAPO
(Associação Brasileira de Marcas Próprias), os genéricos são, em média, 15% mais
baratos do que seus similares.
3 - Essa dica todo mundo já conhece, mas insiste em não fazer. Ir com os filhos ao
supermercado pode ser um programa agradável. Mas acreditem, se o objetivo for
economizar, é melhor deixar as crianças em casa. Os filhos enchem o carrinho de
guloseimas e outros produtos supérfluos, geralmente muito caros. Afinal, poucas
pessoas sabem dizer não a uma criança pidona, ainda mais quando estão em público
e o medo de possíveis manhas está sempre presente.
4 - O principal objetivo de um mercado é ser um ambiente de onde os consumidores
não queiram sair. Por isso, as cores e a temperatura são agradáveis. A disposição
dos corredores faz com que você ande mais e bata o olho em outros produtos. Vale
reparar também como as lojas nunca contam com janelas ou relógios, afinal elas nos
fazem desviar a atenção das gôndolas. Neste caso, seja objetivo e leve uma listinha
para não se perder neste fantástico mundo.
5 - Tome cuidado com o trânsito de carrinhos. Não é à toa que os corredores são tão
estreitos. Dois carrinhos, por exemplo, já são suficientes para congestionar o espaço
e, consequentemente, desviar sua atenção para outros produtos enquanto você
aguarda a liberação do trânsito.
6 - Nem sempre os produtos em promoção são os mais baratos. Acostumem-se a
olhar a prateleira inteirinha antes de escolher o que vai levar. Na altura dos olhos estão
os mais caros. Ao alcance das mãos, aqueles que podem ser levados por impulso.
Embaixo, os que mais chamam a atenção da criançada, principalmente nas seções
de doces e brinquedos.
7 - É perto da entrada principal que ficam dispostos os produtos mais tentadores
(como eletroeletrônicos) e as ofertas sazonais (por exemplo, ovos de Páscoa e
presentes para o Dia das Crianças). Tudo tem apelo visual. Como o carrinho está
vazio, você fica ainda mais propenso a comprar.
8 - As gôndolas que ficam perto dos caixas estão repletas de produtos pequenos,
capazes de caber mesmo num carrinho lotado. Apesar de serem miúdos, os preços
podem ser bem salgados.
9 - Ao encontrar uma promoção do tipo ''pague 1, leve 2'', confira o preço individual.
Nem sempre a promoção vale a pena. Outra possibilidade é em vez de levar uma
embalagem a cada semana, você optar por uma maior e pagar menos por cada
unidade do produto.
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10 - O leite não está mais onde ficava? Tranquilo, você não sofre de problema de
memória... Alterar repentinamente a disposição dos produtos é outra artimanha dos
mercados. Assim, você é obrigado a andar mais dentro da loja. A mesma estratégia
faz com que os produtos básicos, como carnes e verduras, fiquem bem ao fundo do
estabelecimento.
11 - Uma dica muito importante para economizar com frutas, verduras e legumes é
saber as épocas de safra de cada uma. Durante esses períodos os preços são sempre
mais baixos e a qualidade do alimento é muito melhor.
12 - Concluindo, antes de sair de casa, faça uma lista dos produtos que estão em falta.
E não pare nas seções que não têm itens presentes na sua lista.
Boas compras a todos...
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TEXTO 5
Roupas da Zara são fabricadas com mão de obra escrava
Em recente operação que fiscalizou oficinas subcontratadas de fabricante de roupas da Zara,
15 pessoas, incluindo uma adolescente de 14 anos, foram libertadas de trabalho escravo
contemporâneo em plena capital paulista
Por Bianca Pyl e Maurício Hashizume
Nem uma, nem duas. Por três vezes, equipes de fiscalização trabalhista
flagraram trabalhadores estrangeiros submetidos a condições análogas à escravidão
produzindo peças de roupa da badalada marca internacional Zara, do grupo espanhol
Inditex.
Na mais recente operação que vasculhou subcontratadas de uma das
principais "fornecedoras" da rede, 15 pessoas, incluindo uma adolescente de apenas
14 anos, foram libertadas de escravidão contemporânea de duas oficinas – uma
localizada no Centro da capital paulista e outra na Zona Norte.
Para sair da oficina que também era moradia, era preciso pedir autorização (Foto: Fernanda Forato)
A investigação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São
Paulo (SRTE/SP) – que culminou na inspeção realizada no final de junho – se iniciou
a partir de uma outra fiscalização realizada em Americana (SP), no interior, ainda em
maio. Na ocasião, 52 trabalhadores foram encontrados em condições degradantes;
parte do grupo costurava calças da Zara.
"Por se tratar de uma grande marca, que está no mundo todo, a ação se torna
exemplar e educativa para todo o setor", coloca Giuliana Cassiano Orlandi, auditora
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fiscal que participou de todas as etapas da fiscalização. Foi a maior operação do
Programa de Erradicação do Trabalho Escravo Urbano da SRTE/SP, desde que
começou os trabalhos de rastreamento de cadeias produtivas a partir da criação do
Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e
Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções.
A ação, complementa Giuliana, serve também para mostrar a proximidade da
escravidão com pessoas comuns, por meio dos hábitos de consumo. "Mesmo um
produto de qualidade, comprado no shopping center, pode ter sido feito por
trabalhadores vítimas de trabalho escravo".
O quadro encontrado pelos agentes do poder público, e acompanhado pela
Repórter Brasil, incluía contratações completamente ilegais, trabalho infantil,
condições degradantes, jornadas exaustivas de até 16h diárias e cerceamento de
liberdade (seja pela cobrança e desconto irregular de dívidas dos salários, o truck
system, seja pela proibição de deixar o local de trabalho sem prévia autorização).
Apesar do clima de medo, um dos trabalhadores explorados confirmou que só
conseguia sair da casa com a autorização do dono da oficina, concedida apenas em
casos urgentes, como quando teve de levar seu filho às pressas ao médico.
Quem vê as blusas de tecidos finos e as calças da estação nas vitrines das
lojas da Zara não imagina que algumas delas foram feitas em ambientes apertados,
sem ventilação, sujos, com crianças circulando entre as máquinas de costura e a
fiação elétrica toda exposta. Principalmente porque as peças custam caro. Por fora,
as oficinas parecem residências, mas todas têm em comum as poucas janelas, quase
sempre fechadas. Tecidos escuros pendurados impedem a visão do que acontece do
lado de dentro das células de produção têxtil ocultas e improvisadas.
As vítimas libertadas pela fiscalização foram aliciadas na Bolívia e no Peru, país
de origem de apenas uma das costureiras encontradas. Em busca de melhores
condições de vida, deixam os seus países em busca do "sonho brasileiro". Quando
chegam aqui, geralmente têm que trabalhar inicialmente por meses, em longas
jornadas, apenas para quitar os valores referentes ao custo de transporte para o
Brasil. Durante a operação, auditores fiscais apreenderam dois cadernos com
anotações de dívidas referentes à "passagem" e a "documentos", além de "vales" que
faziam com que o empregado aumentasse ainda mais a sua dívida. Os cadernos
mostram alguns dos salários recebidos pelos empregados: de R$ 274 a R$ 460, bem
menos que o salário mínimo vigente no país, que é de R$ 545.
As oficinas de costura inspecionadas não respeitavam nenhuma norma
referente à Saúde e Segurança do Trabalho. Além da sujeira, os trabalhadores
conviviam com o perigo iminente de incêndio, que poderia tomar grandes proporções
devido à grande quantidade de tecidos espalhados pelo chão e à ausência de janelas,
além da falta de extintores. Após um dia extenuante de trabalho, os costureiros e seus
filhos eram obrigados a tomar banho frio. Os chuveiros permaneciam desligados para
evitar a sobrecarga nas instalações elétricas, feitas sem nenhum cuidado.
As cadeiras nas quais os trabalhadores passavam sentados por mais de 12
horas diárias eram completamente improvisadas. Alguns colocavam espumas para
torná-las mais confortáveis. As máquinas de costura não possuíam aterramento e
tinham a correia toda exposta. O descuido com o equipamento fundamental de
qualquer confecção ameaçava especialmente as crianças, que circulavam pelo
ambiente e poderiam ser gravemente feridas (dedos das mãos decepados ou até
escalpelamento).
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Roupa com etiqueta da marca, falta de espaço, riscos e banho frio (Fotos: FF, BP e SRTE/SP)
Para Giuliana, a superexploração dos empregados, que têm seus direitos
laborais e previdenciários negados, é motivada essencialmente pelo aumento das
margens de lucro. "Com isso, há uma redução do preço dos produtos, caracterizando
o dumping social, uma vantagem econômica indevida no contexto da competição no
mercado, uma concorrência desleal".
O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) lavrou 48 autos de infração contra
a Zara devido as irregularidades nas duas oficinas. Um dos autos se refere à
discriminação étnica de indígenas quéchua e aimará. De acordo com a análise feita
pelos auditores, restou claro que o tratamento dispensado aos indígenas era bem pior
que ao dirigido aos não-indígenas.
"Observa-se com nitidez a atitude empresarial de discriminação. Todos os
trabalhadores brasileiros encontrados trabalhando em qualquer um dos pontos da
cadeia produtiva estavam devidamente registrados em CTPS [Carteira de Trabalho e
Previdência Social], com jornadas de trabalho condizentes com a lei, e garantidos em
seus direitos trabalhistas e previdenciários", destaca o relatório da fiscalização. "Por
outro lado, os trabalhadores imigrantes indígenas encontram-se em situação de
trabalho deplorável e indigno, em absoluta informalidade, jornadas extenuantes e
meio ambiente de trabalho degradante".
Dignidade é subtraída por dívidas, degradância, longas jornadas e baixa remuneração (Foto: BP)
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A equipe de fiscalização foi composta por dois agentes da Polícia Federal (PF),
integrantes do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas – da Secretaria da
Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, auditores da SRTE/SP e
dirigente do Sindicato das Costureiras de São Paulo e Osasco.
Blusas e vestidos
A primeira oficina vistoriada mantinha seis pessoas, incluindo uma adolescente
de 14 anos, em condições de trabalho escravo. No momento da fiscalização, os
empregados finalizavam blusas da Coleção Primavera-Verão da Zara, na cor azul e
laranja. Para cada peça feita, o dono da oficina recebia R$ 7. Os costureiros
declararam que recebiam, em média, R$ 2 por peça costurada. No dia seguinte à
ação, 27 de junho, a reportagem foi até uma loja da Zara na
Zona Oeste de São Paulo (SP), e encontrou uma blusa semelhante, fabricada
originalmente na Espanha, sendo vendida por R$ 139.
A oficina funcionava em um cômodo de uma casa pequena – na parte de cima
de um sobrado. Seis máquinas de costura ocupavam uma pequena sala. Dois quartos
abrigavam todos os trabalhadores, inclusive casais com filhos. O espaço era dividido
por guarda-roupas e panos. No banheiro, não havia água banho quente, pois o
chuveiro estava desligado para reduzir o consumo de energia elétrica, que era
totalmente destinada à produção.
A adolescente de 14 anos tomava conta das duas crianças enquanto as mães
trabalhavam. Ela ajudava também na limpeza da casa e no preparo das refeições. No
Brasil desde 2010, não está estudando. Seu irmão juntou dinheiro e foi buscá-la na
capital boliviana de La Paz.
A fiscalização lacrou a produção e apreendeu parte das peças, incluindo a peça
piloto da marca Zara. As máquinas de costura também foram interditadas por não
oferecerem segurança aos trabalhadores.
Da outra oficina localizada em movimentada avenida do Centro, foram
resgatadas nove pessoas que produziam uma blusa feminina e vestidos para a
mesma coleção Primavera-Verão da Zara.
A intermediária AHA (que também utilizava a razão social SIG Indústria e
Comércio de Roupas Ltda.) pagava cerca de R$ 7 por cada peça para a dona da
oficina, que repassava R$ 2 aos trabalhadores. Peça semelhante a que estava sendo
confeccionada foi encontrada em loja da marca com o preço de venda de R$ 139.
Uma jovem de 20 anos, vinda do Peru, disse à reportagem que chegou a
costurar 50 vestidos em um único dia. Em condições normais, estimou Maria Susicléia
Assis, do Sindicato das Costureiras de São Paulo e Osasco, seria preciso um tempo
muito maior para que a mesma quantidade da difícil peça de vestuário fosse toda
costurada.
Há 19 anos no Brasil, a boliviana que era dona da oficina teve todos os seus
oito filhos (entre 5 meses e 15 anos) nasceram aqui. Ela sonha em dar um futuro
melhor aos rebentos, para que não tenham que trabalhar "nas máquinas, com
costura". "Todo mundo na minha terra que vinha para o Brasil dizia que aqui era bom.
E eu vim", contou a senhora.
Parte da produção foi apreendida, assim como as peças pilotos, que
carregavam instruções da Zara de como confeccionar a peça de acordo com o padrão
definido pela varejista multinacional. "Isso demonstra a subordinação das oficinas e
da AHA em relação à Zara", realça Giuliana. A oficina e um dos quartos, onde dormiam
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dois trabalhadores e duas crianças, foram interditados. A fiação elétrica estava
totalmente exposta e havia possibilidade de curto-circuito.
Os trabalhadores declararam trabalhar das 7h30 às 20h, com uma hora de
almoço, de segunda à sexta-feira. Aos sábados, o trabalho seguia até às 13h. Um
trabalhador relatou que a jornada chegava a se estender até às 22h.
O local funcionava em um sobrado de dois andares, com muitos cômodos. O
maior deles, onde os trabalhadores passavam a maior parte do dia, acomodava as
máquinas. Os cinco banheiros estavam muito sujos. Somente três possuíam
chuveiros, mas todos também estavam desligados.
Prédio onde ficava oficina, condições degradantes, precariedade e etiquetas (Fotos: SRTE/SP, FF e BP)
Um dos trabalhadores, irmão da dona da oficina, está no Brasil há sete anos e
já possui os documentos e até CTPS. "Eu trabalho na costura desde que cheguei.
Mas eu queria mesmo era trabalhar com música. Eu consegui comprar algum
equipamento já".
Outro jovem, de 21 anos, disse que não gosta muito do trabalho porque é
"cansativo". Ele recebe, em média, R$ 500 por mês. "Eu vou voltar para a Bolívia.
Queria estudar Turismo e trabalhar com isso. A costura é só para sobreviver",
projetou.
A Zara foi avisada do flagrante no momento da ação pelos auditores fiscais e
convidada a ir até a oficina de costura, mas não compareceu.
No dia seguinte, compareceram à sede da SRTE/SP dois diretores, que não
quiseram participar da reunião de exposição dos fatos. Até o advogado da empresa
foi embora sem ver as fotos da situação encontrada. Somente duas advogadas da
AHA (que no início da reunião se apresentaram como enviadas dos donos das oficinas
e até dos trabalhadores) participaram da reunião com os auditores. A empresa não
providenciou sequer alimentação às vítimas, que ficou a cargo do sindicato da
categoria.
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Fluxograma
A intermediária na contratação das duas oficinas em que houve libertações é a
AHA Indústria e Comércio de Roupas Ltda. No período de abril a junho deste ano, a
produção de peças para a Zara chegou a 91% do total. A
SRTE/SP descobriu que há 33 oficinas sem constituição formal, com empregados sem
registros e sem recolhimento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS)
contratadas pela AHA para a executar a atividade de costura.
Por meio de análises de documentos da empresa AHA, incluindo contábeis, a
fiscalização verificou que, neste mesmo período, mais de 46 mil peças foram
produzidas para a Zara sem nenhuma formalização.
Durante o período auditado pela fiscalização (julho de 2010 a maio deste ano),
a AHA foi a fabricante da Zara que mais cresceu em faturamento e número de peças
de roupas faturadas para a marca, a ponto, na descrição da SRTE/SP, de se tornar a
maior fornecedora da Zara na área de tecidos planos. Entretanto, chamou a atenção
dos agentes que, nesse mesmo período, a empresa diminuiu o número de
empregados formalizados. Os contratados diretamente da
AHA passaram de 100 funcionários para apenas 20 (gráfico abaixo). A redução de
trabalhadores na função de costureiros foi ainda mais drástica: dos anteriores 30 para
cinco funcionários exercendo a função.
"O nível de dependência econômica deste fornecedor para com a Zara ficou
claro para a fiscalização. A empresa funciona, na prática, como extensão de logística
de sua cliente preponderante, Zara Brasil Ltda.", sustentam os auditores fiscais do
trabalho que estiveram à frente da investigação.
Foi apurado que até a escolha dos tecidos era feita pelo Departamento de
Produtos da Zara. Mas o fabricante terceirizado encaminhava peças piloto por conta
própria para a matriz da Zara (Inditex) na Espanha, após a aprovação de um piloto
pela gerente da Zara Brasil. Somente após a anuência final da Europa, o pedido oficial
era emitido para o recebimento das etiquetas. Na opinião de Luís Alexandre Faria,
auditor fiscal que comandou as investigações, a empresa faz de tudo, porém, para
não "aparecer" no processo.
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Para a fiscalização trabalhista, não pairam dúvidas acerca do gerenciamento
da produção por parte da Zara. Entre os atos típicos de poder diretivo, os agentes
ressaltaram "ordens verbais, fiscalização, controle, e-mails solicitando correção e
adequação das peças, controle de qualidade, reuniões de desenvolvimento, cobrança
de prazos de entrega etc."
Os 48 autos de infração foram lavrados em nome da Zara. "A empresa tem
responsabilidade por quem trabalha para ela. Esses trabalhadores estavam
produzindo peças da Zara, e seguindo determinações da empresa", coloca Giuliana.
É a chamada responsabilização estrutural, completa Luís. "Essa é a atividade fim da
empresa, a razão de sua existência.
Portanto, é dever dela saber como suas peças estão sendo produzidas".
A confecção de uma calça gerava ao dono da oficina terceirizada R$ 6, em
média. Este valor era dividido em três partes: R$ 2 para os trabalhadores; R$ 2 para
as despesas com alimentação, moradia e outros custos; e R$ 2 para o dono da oficina.
Após a produção na oficina, a intermediária (AHA) recolhia a produção e encaminhava
as peças à lavanderia, também terceirizada. Depois, o produto ainda era acabado e
embalado para ser entregue à Zara.
Após os flagrantes, os trabalhadores compareceram à SRTE/SP, onde foram
colhidos depoimentos e emitidas as carteiras e as guias de Seguro Desemprego para
Trabalhador Resgatado. Parte das vítimas já havia dado entrada na documentação
obter o visto de permanência no Brasil.
As verbas rescisórias, que acabaram sendo pagas pela intermediária AHA,
totalizaram mais de R$ 140 mil. As contribuições previdenciárias sonegadas e pagas
a posteriori somaram cerca de R$ 7,2 mil. Já as contribuições sociais e ao FGTS
sonegadas chegaram à R$ 16,3 mil.
A Repórter Brasil entrou em contato com a AHA, que preferiu não responder
especificamente ao conjunto de perguntas enviadas. A advogada da fornecedora da
Zara enviou apenas uma nota escrita em que declarou que a empresa "jamais teve
conhecimento da utilização, pelas oficinas contratadas, de mão de obra escrava;
jamais teve qualquer participação na contratação dos funcionários de referidas
oficinas; e, assim que tomou conhecimento de irregularidades constatadas pelo
Ministério do Trabalho e Emprego, imediatamente adotou todas as providências
necessárias à regularização".
A intermediária alega ainda em seu comunicado que "prestou serviços não só
à Zara, como a outras empresas" e "que repudia toda e qualquer utilização, por quem
quer que seja", de trabalho análogo à escravidão.
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Calças
O primeiro flagrante de oficina em condições degradantes com pessoas
costurando peças para a Zara se deu em Americana (SP), interior de São Paulo, no
final de maio. Motivada pela denúncia de um trabalhador, a ação foi realizada pela
Gerência Regional do Trabalho e Emprego (GRTE) de Campinas (SP), pela
Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região (PRT-15) e pela Polícia Federal
(PF). A Vigilância Sanitária de Americana foi chamada a atuar e interditou os
alojamentos. Os empregados não foram retirados por causa da inexistência de abrigos
para este fim no município.
Primeiro flagrante de trabalho escravo na cadeia produtiva da Zara foi em Americana (Fotos: BP)
Foram encontrados 52 trabalhadores, sendo cinco deles brasileiros. O restante
do grupo era formado por bolivianos. Na oficina de Narciso Atahuichy Choque, os
empregados eram submetidos à jornada exaustiva e expostos a riscos. Além disso,
muitos trabalhadores foram aliciados na Bolívia e chegaram ao Brasil devendo o valor
da passagem.
O alojamento e o local de trabalho estavam em condições degradantes e
insalubres. Havia risco de incêndio devido à sobrecarga nas precárias instalações
elétricas. Poderia haver explosão, por causa dos botijões de gás de cozinha
encontrados irregularmente nos quartos.
A oficina funcionava em um imenso galpão de dois andares. No andar superior,
ficavam os alojamentos e a cozinha. No inferior, as máquinas. A fiação elétrica estava
exposta e o local era muito sujo. Havia um bebedouro, porém somente um copo
plástico para todos dividirem. Os pequenos quartos abrigavam famílias inteiras e
grupos de até cinco trabalhadores. Alguns cômodos tinham alimentos espalhados,
armazenados de forma inadequada.
Um grupo de trabalhadores costurava uma calça jeans da Coleção PrimaveraVerão da Zara. Cada trabalhador fazia uma parte da peça e o valor de, em média, R$
1,80, era dividido pelo grupo todo, composto por sete pessoas. O dono da oficina
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afirmou que trabalha há cinco anos com a intermediária Rhodes e que
aproximadamente 70% da sua produção é destinada à empresa. A oficina é
especializada em calças e bermudas. Uma funcionária da Rhodes costuma visitar e
verificar as condições e o ritmo de produção da oficina.
Após a fiscalização, a Rhodes pagou as verbas rescisórias de cada trabalhador.
A fiscalização foi à nova oficina de Narciso, em 26 de junho, e constatou melhorias.
Entre elas, o registro de todos os funcionários, regularização migratória, submissão
de costureiros a exames médicos.
De acordo com auditores fiscais da GRTE de Campinas (SP), houve
adequação da instalação elétrica e melhora do espaçamento entre as máquinas. Os
trabalhadores agora utilizam cadeiras com melhores condições ergonômicas e de
conforto. A iluminação também foi melhorada e os equipamentos de incêndio estão
todos válidos e sinalizados. As saídas de emergência foram demarcadas. "Com a
mudança da oficina e a suspensão da interdição, grande parte dos trabalhadores
voltaram a trabalhar de forma regular nas novas instalações da mesma oficina",
discorre a auditora Márcia Marques. Foram lavrados 30 autos de infração contra a
intermediária Rhodes pelas irregularidades encontradas. Nove autos se referem às
questões trabalhistas e as demais infrações estão relacionadas à saúde e segurança
do trabalho. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a Rhodes pelos
telefones da empresa.
Mistura entre espaço familiar e de trabalho, instruções e peça piloto (Fotos: SRTE/SP, FF e BP)
Made in Brazil
Em resposta a questões sobre os ocorridos enviadas pela Repórter Brasil, a
Inditex – que é dona da Zara e de outras marcas de roupa com milhares de lojas
espalhadas mundo afora – classificou o caso envolvendo a AHA e as oficinas
subcontratadas como "terceirização não autorizada" que "violou seriamente" o Código
de Conduta para Fabricantes.
Seungod a Inditex, o Código de Conduta determina que qualquer
subcontratação deve ser autorizada por escrito pela Inditex. A assinatura do Código
do Conduta é obrigatória para todos os fornecedores da companhia e foi assumido
pelo fornecedor em questão (AHA/SIG).
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A empresa disse ter agido para que o fornecedor responsável pela
"terceirização não autorizada" pudesse "solucionar" a situação imediatamente,
assumindo as compensações econômicas dos trabalhadores e comprometendo-se a
corrigir as condições de trabalho da oficina flagrada com escravidão.
Haverá, segundo a Inditex, um reforço an revisão do sistema de produção da
AHA, assim como das outras empresas no Brasil, para garantir que não exista outro
caso como este. "Estamos trabalhando junto com o TEM para a erradicação total
destas práticas que violam não só nosso rígido Código de Conduta, como também a
legislação trabalhista brasileira e internacional".
Em 2010, a Inditex produziu mais de 7 milhões de unidades de peças no Brasil,
desenvolvidas, segundo a empresa, por cerca de 50 fornecedores que somam "mais
de 7 mil trabalhadores". O total de peças que estava sendo produzido irregularmente
(algumas centenas de peças), adicionou a Inditex, representa "uma porcentagem
inferior a 0,03%" da produção do grupo, que é um dos maiores do mundo no
segmento, no país.
A maior parte dos produtos do grupo que comanda a Zara é feita na Europa.
Metade é confeccionada em países como Espanha (onde a empresa mantém fábricas
próprias) ou Portugal. Outros 14% são fabricados em outras nações europeias como
Turquia e Itália. A produção no Brasil corresponde a algo inferior a 1% do total. Em
2010, 30 lojas da Zara já estavam em funcionamento no país. São cerca de 2 mil
profissionais contratados diretamente.
"No que se refere à presença comercial, o Brasil é o terceiro mercado mais
importante da Inditex no continente americano, ficando atrás somente dos Estados
Unidos e do México", colocou a empresa, que manifestou intenção de não abandonar
a produção no país. "A Inditex prevê seguir crescendo no Brasil com a abertura de
novas lojas a curto, médio e longo prazo".
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TEXTO 6
EUA: orgão diz que Coca e Pepsi têm potencial cancerígeno
Testes feitos a pedido de instituto de defesa do consumidor mostraram que refrigerantes das
duas marcas possuem níveis de 4-MEI acima do recomendado.
Refrigerante em lata: análises químicas encontram altos níveis de uma substância potencialmente cancerígena
em amostras de Coca-Cola e Pepsi, nos Estados Unidos (Thinkstock)
Um grupo americano de defesa do consumidor afirmou que os refrigerantes
normais e diet da Coca-Cola e Pepsi contêm uma substância que pode causar câncer
em quantidade acima do normal. Em um comunicado público, o Center for Science in
the Public Interest (CSPI – Centro para a Ciência a Favor do Interesse Público, em
tradução livre) afirmou que análises químicas detectaram a presença de altos níveis
de 4-metilimidazol (4-MEI), um produto usado para dar a cor 'caramelo' aos
refrigerantes.
O CSPI coletou amostras de Coca-Cola, Pepsi, e outras marcas populares nos
Estados Unidos em lojas na capital do país, Washington, e arredores. Foram
encontradas de 145 a 153 microgramas (1 micrograma é a milionésima parte do
grama) de 4-MEI em duas latas de 350 mililitros de Pepsi; 142 e 146 microgramas em
duas latas de Coca-Cola; e 103 e 113 em duas latas de Diet Coke.
Segundo a lei do estado da Califórnia, produtos que contenham quantias de 4MI acima de 29 microgramas precisam ser identificados com um rótulo avisando que
podem aumentar o risco de câncer.
"Quando a maioria das pessoas lê 'corante caramelo' nos rótulos dos alimentos,
acha que se trata de um ingrediente similar ao obtido ao derreter açúcar em uma
panela", afirmou Michael Jacobson, diretor executivo da CSPI. "Mas a realidade é bem
diferente. Corantes feitos com amônia ou pelo processo de sulfito de amônia contêm
substâncias que podem causar câncer e não fazem parte da cadeia alimentar. Sob
nenhuma circunstância poderiam ter um nome inocente como 'corante caramelo'." Em
uma petição enviada à FDA (agência americana que controla os remédios e
alimentos), a CSPI requereu a mudança do nome do ingrediente para "corante
caramelo quimicamente modificado" ou "corante caramelo por processo de sulfito de
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amônia." Também pediu que nenhum produto seja chamado de "natural" se contiver
qualquer tipo de corante caramelo. Jacobson vai além e defende o fim do uso do
corante, já que outros produtos obtém a mesma cor marrom sem usar o 4-MEI,
inclusive refrigerantes. "A Coca-Cola e a Pepsi, com a anuência da FDA, estão
expondo desnecessariamente milhões de americanos a uma substância que causa
câncer."
Segundo a CSPI, as pessoas em maior risco são homens na casa dos 20 anos,
por consumirem grandes quantias de bebidas com corante caramelo e porque jovens
são mais suscetíveis a produtos carcinogênicos que as pessoas mais velhas.
Reação — A American Beverage Association, que representa a indústria de
bebidas americana, publicou em sua página na internet um comunicado afirmando
que "a ciência simplesmente não mostra que o 4-MEI em bebidas ou alimentos
representa uma ameaça à saúde humana."
A FDA, por meio de seu porta-voz, Douglas Karas, afirmou que a agência está
analisando os pedidos da CSPI, mas que "é importante entender que uma pessoa
precisaria consumir milhares de latas de refrigerante diariamente para atingir o
número de doses equivalentes às administradas em estudos que mostraram relação
com o câncer em ratos de laboratório."
Por via das dúvidas, a Pepsi disse à CSPI que vai alterar a quantidade de
corante caramelo nos refrigerantes vendidos na Califórnia e que pretende estender a
medida para o resto dos EUA. Em entrevista a um blog da Rádio Pública Nacional, a
porta-voz da Coca-Cola disse que as mudanças para se adequar à lei da Califórnia já
foram iniciadas, mas que os produtos da empresa sempre foram seguros.
Opinião do especialista
Auro del Giglio
Professor titular de oncologia e hematologia da Faculdade da Fundação ABC
Existem várias substâncias capazes de causar câncer, o que não significa
necessariamente que vão de fato provocar a doença. Até falar no celular, segundo
uma agência de saúde da ONU, pode causar câncer. Mas as chances são
extremamente pequenas. É o caso dessa substância. Precisaria ingerir muito
refrigerante para que o 4-MEI causasse câncer. O que não significa que beber
refrigerante demasiadamente é seguro, pois ele causa uma série de outros problemas,
como obesidade. Ninguém deve ficar preocupado e nem é necessário parar de beber
refrigerante. Mas é recomendável não consumir em excesso.
Saiba mais
4-METILIMIDAZOL
Também conhecido como 4-MEI ou apenas 4-MI, é um subproduto de uma reação
química conhecida como processo amônia e serve para dar a cor marrom aos
refrigerantes sabor cola. Não possui valor nutritivo, apenas função estética. Pesquisas
demonstraram, em modelos animais, que a substância pode causar câncer.
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