A RELAÇÃO DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO COM AS COMUNIDADES RESIDENTES EM SEU TERRITÓRIO. Aisha Alana Persaud LEITCH1, (BolsistaCTUR), Luana de Jesus da Silva LIMA 2 (BolsistaCTUR), Diogo de Souza PINTO3 (OrientadorCTUR/UFRRJ), Esther Mariana Flaeschen de Almeida NUNES4 (BolsistaUFRRJ) Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Seropédica/RJ INTRODUÇÃO A relação que o ser humano tem com a natureza é questão discutida por cientistas constantemente. Por anos esse foi considerado como dominante da natureza, porém essa concepção mudou, quando o ser humano percebeu que a fonte das diversas matérias primas que utilizamos hoje está se tornando instável, e que as ações antrópicas têm gerado grandes impactos em várias partes do globo terrestre. Trazendo assim, a necessidade de uma nova relação: o ser humano como parte da natureza. Desde então, essas discussões são trazidas pela educação ambiental e por politicas públicas ligadas ao setor socioambiental. Nesse contexto, no dia 18 de julho de 2000, o presidente vigente a época sancionou a lei que protege áreas conceito de Unidade de Conservação da Natureza (UC) concede a determinadas partes do território qualidades que restringem seu uso através de leis. No Brasil, essas porções são protegidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), instituído pela Lei Federal n° 9985, de 18/07/2000 “O espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo poder público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.” O SNUC assume diferentes formas de Unidades de Conservação, agrupadas em dois tipos: de proteção integral, com o objetivo de preservar a natureza uso indireto no seu instinto selvagem, adotando o homem como visitante. O outro tipo é utilizar-se do espaço de forma sustentável, intercalando a conservação da natureza com o uso de seus recursos naturais, nesse caso o homem se enquadra como parte da natureza, realizando atividades como extrativismo vegetal, criação de pequenos animais, agricultura de subsistência e manejo florestal. Quando se cria uma Unidade de Conservação da Natureza (UC) é imposto as comunidades locais, uma determinada representação territorial que pode entrar em contradição com a cultura preestabelecida na região. Pois o conceito de natureza varia de acordo com a construção social de cada lugar (GUERRA, 2005). Como existem diferentes classificações para cada unidade, populações que estabeleceram suas raízes e definiram suas histórias poderão ser remanejadas para outras localidades dependendo do tipo de Unidade de Conservação instituída. Nesse caso a problemática relaciona-se com a perda de identidade, da terra em especial na qual a comunidade se fixava, a falta de apoio do poder público em admitir a pluralidade e o reconhecimento das mesmas. 1 Estudante Técnico/Médio em Meio Ambiente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 2 Estudante Técnico/Médio em Meio Ambiente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 3 Professor do Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro 4 Estudante de Engenharia Agronoma da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro O presente trabalho se objetiva com conhecimentos teóricos e práticos, correlacionar homem-natureza como um conjunto único e sustentável onde é compreendida na visão de técnicos na área ambiental e ecológica as divergências vivenciadas em áreas antes ocupadas por comunidades típicas e hoje impostas como em Unidades de Conservação. MATERIAL E MÉTODOS Para compreensão desta relação que baseia nossas discussões apresentamos neste trabalho a metodologia do estudo de caso (LÜDKE, 1986). Tal análise tem como ferramenta de pesquisa a observação às falas e depoimentos dos envolvidos no processo, desde a comunidade até o órgão gestor dessas unidades. Assim temos como pesquisa de campo a análise de duas experiências: a comunidade do Quilombo da Fazenda, em Ubatuba-SP, que reside no Parque Estadual da Serra do Mar, núcleo Picinguaba, e a comunidade de agricultores que reside no território da Área de Preservação Ambiental APA Macaé de Cima, em Nova Friburgo-RJ. Tais pesquisas foram desenvolvidas em eventos distintos de visita pedagógica com alunos do Colégio Técnico da Universidade Rural, onde em contato com as comunidades foram reveladas as tensões e conflitos sobre as políticas ambientais e o uso cultural dessas áreas por tais comunidades. Também buscamos investigar quais alternativas sem que contribuem para mitigar estes conflitos e integrar a comunidade nas atividades realizadas nesta área através dos Planos de Manejo. Os dados dialogam com uma perspectiva de discutir como as políticas públicas impactam as comunidades e seus modos de vida e quais alternativas de gestão pública condizem com a permanência dessas comunidades tradicionais no território, a fim de se conservar além dos recursos naturais a cultura desses povos e sua territorialidade. RESULTADOS E DISCUSSÃO A comunidade do Quilombo da Fazenda Picinguaba abriga cerca de 150 pessoas e 51 famílias, em um território que compreende 100 hectares dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. A criação da UC aconteceu no final dos anos de 1970, impactando fortemente as atividades extrativistas, fonte de alimentação da comunidade. Embora nesta época a comunidade já se encontrava em grande contato com a cidade devido a construção da estrada de santos, ainda assim, a grande maioria das famílias tinham como prática a agricultura dentro da floresta, com o cortes de árvores, assim como a caça e a pesca. Tais atividades foram proibidas com a criação do Parque, o que gerou um grande conflito entre os interesses do setor público com as das culturas locais. Segundo os moradores itegoria de Parque inclui o turismo ecológico ou ambiental. Desta forma que nos anos desto levou muitas famílias a buscarem uma vida fora do território de origem. De acordo com relatos da gestão do Parque foi necessário um grande trabalho primeiramente de conscientização da comunidade, sobre a importância da transformação desta área numa UC, garantindo assim os recursos naturais e sua conservação. O segundo passo foi pensar junto à comunidade alternativas de fonte de renda, visto que a ca 1980 a Casa de Farinha da comunidade foi restaurada, como uma forma de utilizar este espaço como roteiro das visitas, no qual, inclui também os recursos como cachoeiras e trilhas. Outro órgão muito importante neste sentido foi o IPEMA – Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica, com o projeto Juçara, que inclui além do Quilombo da Fazenda o utras comunidades que abrigam o território. Tal projeto financiado pela Petrobras, teve como objetivo a implantação de Sistemas Agroflorestais, que integra práticas de agricultura em área de Mata Atlântica, onde o desmatamento não acontece, ou é controlado. Sendo a Juçara uma espécie próxima ao açaí, esta também garante um lucro com a venda da polpa de seus frutos. Antigamente tal espécie, muito ocorrente na área, era utilizada para retirar o palmito, que ao mesmo tempo que leva o desaparecimento da espécie. Desta forma, atualmente a comunidade se relaciona com o uso desta área como uma unidade pedagógica, recebendo visitas de escolas e universidades. Por um outro lado ainda existe uma tensão entre os interesses do parque com os da comunidade, apresentando uma relação dicotômica pois os mesmos são contratados e trabalham no parque. No caso do território da APA Macaé de Cima, o impacto se refere a economia das comunidades agricultoras, visto que o histórico desta área sempre esteve em contato com o fornecimento de hortículas que abastecem a região e o grande centro do Rio. Neste caso, são pequenos agricultores, mas suas práticas incluía o sistema de Coivara, que trata-se do uso de queimadas de áreas para o plantio. Neste caso mesmo abordando-se de uma prática de fogo controlado, esta se tornou ilegal, o que levou muitos agricultores a terem sérios problemas com a gestão da APA. Nos depoimentos dos agricultores relatam que foi um período muito difícil, porque as multas começaram a chegar a comunidade não estava preparada para iniciar outro tipo de prática para se plantar. Por se tratar de uma extensa área com cerca de 35mil hectares(INEA, APA Macaé de Cima), que envolve principalmente a proteção das bacias dos mananciais existentes, o uso de agrotóxicos é um fator merecedor atenção, por se tratar de um tipo de agricultura convencional o uso desses insumos é uma prática constante. A criação desta Unidade é muito recente, datada de setembro de 2001. Pudemos participar de uma reunião do Comitê Gestor da APA, onde compreendemos a importância da gestão participativa para as atividades desta área, bem como as estratégias de formação em agroecologia e sistemas agroflorestais, que se apresentam como alternativas para mitigar esta relação. A Associação de Agricultores, junto com a APA vem buscando alternativas de gerir a conservação desta área de uma maneira cooperativa, embora ainda existam grandes conflitos na compreensão da importância da conservação de das práticas agrícolas que deterioram os recursos naturais. O que podemos observar nesta sentido é que a gestão do Parque está amparada por uma política democrática no uso da APA, porém ainda é necessário a compreensão da importância da conservação por uma parcela da comunidade, bem como o papel fundamental da mesma na manutenção da área. CONCLUSÃO A visão de conservação da natureza, cria uma dicotomia entre a concepção das comunidades tradicionais e a gestão do parque. Somos levados a acreditar que não temos a intenção de defender a questão antropocêntrica ou a biocentrica, mas sim mostrar que esses dois mundos podem viver em harmonia garantido a conservação do meio ambiente, sem afetar a sobrevivência das comunidades e a perda de identidade cultural das mesmas. Outro exemplo são os sistema agroflorestais, que é um modelo de agricultura sustentável, na qual demonstra uma forma para que possa haver ambigüidade na cooperação tanto do homem quanto da natureza, concluindo assim, o homem como elemento essencial na natureza. Como visto, políticas que visam uma harmonia das necessidades humanas e capacidades das áreas preservadas, são existentes porém poucas. Uma boa forma de manter a interação das comunidades com o parque, são os Comitês de Gestores das Unidades de Conservação que denota na avaliação em conjuntura das problemáticas acerca do parque com as comunidades. REFERÊNCIA HEES, D.R, “As reservas extrativistas: por uma nova relação homemnatureza.” in Olindina V. Mesquita & Solange T. Silva (orgs.), Geografia e questão ambiental. Rio de Janeiro, IBGE, 1993, p. 158. INEA, 2015. Referência Espacial (http://www.inea.rj.gov.br/Portal/Agendas/BIODIVERSIDADEEAREASPROTEGIDAS/Uni dadesdeConsev acao/INEA_008619). Acesso: 23/09/ OLIVEIRA, R.R de; FERREIRA, A; MATTOS, R. C de; MONTEZUMA, R; RUA, J. Múltiplas abordagens da problemática ambiental. In: Educação ambiental: formação de valores éticoambientais para o exercício da cidadania SCHENINI, P. C;COSTA, A. M; CASARIN, V. W. Unidades de conservação: aspectos históricos e sua evolução. In: Anais do Congresso Brasileiro de Cadastro Técnico Multifinalitário, 2004. N o Município de Resende + Visconde de Mauá – Rio de Janeiro / NIMA – Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente, PETROBRAS, Prefeitura Municipal de Resende. – Rio de Janeiro : PUCRio, 2010 . p.119132. 2015.