Os animais na boca do povo – estudo dos provérbios na Idade Média Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ) Introdução A tradição fabulística de Esopo, Fedro e Aviano legou à humanidade o uso de animais como imagens refletidas, metáforas do próprio homem, com seus sentimentos nobres e vis. Joyce E. Salisbury em The beast within.Animals in the Middle Ages salienta o papel dos animais para o próprio autoconhecimento do homem, pois quando “... as pessoas podem ver um animal agindo como um homem, a metáfora pode ser eficaz nos dois sentidos, revelando o animal dentro de cada ser humano.” (1994, p. 105). Intelectuais medievais como Babrius, Marie de France, Odo de Cheridon, homens e mulheres da Igreja, divulgavam estórias sobre animais que supostamente instavam as pessoas a uma conduta moral superior (1994, p. 105). Várias foram as funções dos animais presentes nos textos medievais. Essencialmente, as principais referiam-se a eles como símbolos do trabalho, de comida e de paródia ao comportamento humano. Dentre eles, temos o lobo, a raposa, o leão, o cão, o cordeiro, a serpente, o boi, o sapo, o burro, o macaco, o gato, a cegonha, o esquilo e o veado. Dos animais imaginários, abundantes também na literatura da época, temos o unicórnio, o dragão e seres ambíguos (metade ser humano, metade animal), como o centauro e a sereia. Os animais, portanto, veiculavam mensagens que serviam para a reflexão do ouvinte/leitor (se adotarmos a dualidade produção escrita, destinada a um público litteratus X oralidade, presente, por exemplo, na homilias e sermões), mensagens essas que estavam imbuídas de uma sabedoria experiencial aliada à sabedoria primeira oriunda do conhecimento e aplicação diária da palavra de Deus. Exemplos de parêmias com utilização de animais Provérbio: Dum lupus instruitur in numen credere magnum, Semper dirigitur oculi respectus ad agnum. (manuscrito B) Tradução: Enquanto o lobo se instrui em crer em um grande poder, A atenção do seu olho sempre se dirige para o cordeiro. A partir do século XII, “os animais tornam-se importantes como metáforas, como guias para as verdades metafísicas, como exemplares humanos”. Deste modo, Joyce Salisbury (1999, p. 103) trata a questão da utilização de animais para representar características humanas. Neste dístico composto por versos collaterales aparecem dois dos mais importantes animais presentes na simbologia medieval. Por um lado, o cordeiro, dentro do ideário cristão, remete-nos à figura do agnus Dei, o cordeiro de Deus, Jesus Cristo. Joyce Salisbury assim sintetiza a opinião corrente medieval a esse respeito: 2 Cristo foi tanto o cordeiro de Deus quanto o bom pastor juntando os bons ao rebanho. O cordeiro permaneceu como símbolo para o melhor no auto-sacrifício conforme a tradição cristã. S. Francisco (sempre simpático a todos os animais) gostava particularmente dos cordeiros, porque, como escreveu seu biógrafo S. Boaventura, os cordeiros “apresentam um reflexo natural da misericordiosa bondade de Cristo e o representam no simbolismo das Escrituras”. (SALISBURY, 1994, p. 132) Entretanto, uma outra consideração sobre o animal, a partir de um ponto de vista mais ligado à natureza, apresenta-nos o cordeiro como vítima natural de seus predadores, mormente o lobo. Segundo esta perspectiva, as ovelhas e “os cordeiros eram considerados estúpidos e covardes, quase que merecendo aquilo que recebiam” (SALISBURY, 1994, p. 132). Por isso, lemos no manuscrito Ba 53: “Si lupus est agnum, non est mirabile magnum.” (Não nos causa grande admiração, se o lobo come o cordeiro). O papel do lobo dentro da imagística medieval prende-se ao caráter negativo a ele atribuído. Desde a fábula 1 do livro I de Fedro, cujo título seria Lupus et agnus, já se tomaria conhecimento sobre seu papel de dominador inescrupuloso dos oprimidos. Ele traria injustiça à ordem social em virtude de sua excessiva ganância, que o fez perder sua nobreza. Interessante notarmos, como afirma Salisbury, que o lobo não era criticado por ser predador, já que, “enfim, a guerra – ocupação predatória – era privilégio da classe nobre; era a razão para a sua existência. Aquela classe favorecia seus animais de caça acima de todos os outros ...” (1994, p. 130). Todavia, a insaciá3 vel voracidade retiraria prestígio do animal. A pesquisadora americana assim cita a fábula medieval do pregador e do lobo, que bem explicita o caráter de insaciabilidade do canis lupus: Nesta fábula, um pregador tenciona ensinar ao lobo o alfabeto (talvez para melhorar seu caráter). O lobo concentra muito tempo seus esforços para alcançar a letra C, mas quando ele é perguntado sobre o que deveria pronunciar, ele responde “cordeiro”, revelando que sua mente não tinha se libertado do seu estômago. (1994, p. 130-131) Este texto, portanto, segundo a autora, mostraria a ameaça à hierarquia medieval, a qual (....) punha a nobreza no topo, e essa ameaça era o que os fabulistas criticavam em suas representações dos homens agindo como lobos. Eles não advogavam violar uma ordem social na qual regiam os predadores nobres, porém tentavam insistir na moderação, a qual, após tudo isso, seria o único jeito de preservar uma tal ordem social. (SALISBURY, 1994, p. 131) A denúncia, por fim, associaria então os cordeiros aos menos favorecidos e os lobos aos mais abastados, como se depreende do final da seguinte fábula de Marie de France (Apud Salisbury, 1994, p. 132): O lobo então apanhou o tão pequeno cordeiro, Estraçalhou o pescoço, tudo extinguiu. ........................................................................ Eles [as pessoas ricas] retiram daqueles [dos pobres] carne e Pele, Como o lobo fez com o cordeiro. 4 Provérbio: Cattus sepe satur cum capto mure iocatur (manuscrito Ba 37). Tradução: Freqüentemente o saciado gato brinca com o aprisionado rato. Preliminarmente, os gatos desempenham um papel de importância na história humana. Adorados e divinizados no Egito, simbolizados como animais demoníacos ou portadores de má-sorte (até hoje em dia, deparar-se com gato preto numa sexta-feira, dia 13 de qualquer mês é considerado sinônimo de azar), os felinos domésticos aparecem com freqüência nos libri proverbiorum e bestiários medievais. Rápidos, ágeis, perseguidores incansáveis de ratos, há menção aos gatos e suas qualidades até no Direito galês do século X: “Suas qualidades são ver, ouvir, matar ratos, possuir as patas sadias, nutrir e não devorar seus gatinhos.” (SALISBURY, 1994, p. 14). Como controlador dos roedores, o gato possuía (até hoje em dia) uma função dentro da sociedade humana. Em uma página do manuscrito do Livro de Kells, de origem céltica e datação incerta, há uma figura, cuja simbologia nos é similar à do provérbio 37 do manuscrito de Basel. Salisbury assim a descreve: A figura mostra dois gatos que apanharam dois ratos pelo rabo os quais parecem estar mordiscando um objeto circular marcado com a forma de uma cruz, provavelmente uma hóstia de comunhão. (...) Os gatos neste caso representam os aprimorados guardiães, desempenhando o papel deles esperado de manter a população de ratos sob controle. (SALISBURY, 1994, p. 65) 5 Os gatos, defensores da sagrada tradição da eucaristia, aproximam-se, portanto, dos eclesiásticos, que, através de seu comportamento, devem manter a ordem social de acordo com a palavra de Deus. Odo de Cheridon (nascido em 1185), ao utilizar suas fábulas para oferecer mensagens de comportamento humano para preservar a ordem social medieval, lançava freqüentemente mão da figura de gatos tonsurados e paramentados como um monge para perseguir um rato (SALISBURY, 1994, p. 124-5) . A mentalidade medieval associava os ratos, em geral, a estragos e danos, muitas vezes permanentes. Em Os defeitos das mulheres, poema datado do final do século XIII e início do seguinte publicado na França, temos a mulher comparada a um rato para “destruir” (SALISBURY, 1994, p. 157-8), donde inferimos a conotação negativa dada a ambos. Assim, Cattus sepe satur cum capto mure iocatur transmite a singela mensagem do gato, saciado, que se diverte com o rato capturado, mas, em suas entrelinhas, vemos, nas metáforas do gato e do rato as figuras da vigilância da Igreja e dos males causados por este último, o qual tenta destruir aos poucos a inabalável ordem do mundo medieval. Os custodes desta ordem, enfim, aprazem-se com o rato capturado, pois é sempre certa a vitória da palavra de Deus. Provérbio: Curia Romana non querit ovem sine lana. (manuscrito Ba 45). Tradução: A Cúria Romana não quer ovelhas sem lã. 6 Como um dos animais de maior valia e serventia para o homem, a ovelha sempre contribuiu significativamente para a economia medieval. Os primeiros dados concernentes à sua criação vêm-nos dos francos e aproximadamente na metade do século VIII ou IX, sua carne e lã já eram bem aproveitadas. Estudos mostram, como menciona Salisbury (1994, p. 25), que “desde o período pré-histórico de sua domesticação, as ovelhas parecem ter sido valoradas pela sua lã e foram seletivamente criadas para isso.”. Cabia às mulheres das vilas medievais o trabalho de desfiar e cardar a lã, bem como o de lavar e tosquiar os animais. Havia basicamente quatro tipos de coloração de lã: branca, preta, cinza e marrom, que denotavam sua origem selvagem. Com tamanha variedade de cores e sendo um animal resistente e de fácil reprodução, o comércio de lã começou a prosperar no Ocidente, especialmente a partir do século XII na Inglaterra, de tal forma que os lucros a serem feitos com o comércio da lã dominaram as consciências dos seus criadores. Como alimento, a carne de ovelha disseminou-se no norte da Europa e na Itália entre os séculos V e VII. Provavelmente em virtude de sua docilidade e passividade diante do ser humano como também de seus predadores naturais, principalmente do lobo, as ovelhas sempre requereram proteção especial por parte dos criadores. Dentro da imaginação popular medieval, eram consideradas, não obstante, animais estúpidos e covardes, que sofriam inapelavelmente as injustiças cometidas por animais mais fortes. 7 Dentre as Fábulas de Fedro encontra-se uma que tem como personagens a vaca, a cabra, a ovelha e o leão, que após apanharem juntas um grande veado vêem o último reivindicar e se apossar de todo o animal morto, pois como afirma o fabulista Nunquam est fidelis cum potente societas (“A sociedade com o poderoso nunca é fiel”). O provérbio 45 do manuscrito de Basel insere-se dentro do contexto acima citado. Em verso leonino, com a monotongação de ae para e em querit, ele aconselha o público leitor e ouvinte a estar convenientemente preparado, caso deseje algum tipo de favor da Cúria Romana. Obviamente lemos aqui uma crítica acerba contra o estado de venalidade da administração do papado, pois a imagem da “ovelha sem lã” indica claramente a imperiosa necessidade de se pagar para poder receber algum tipo de benefício de ordem espiritual. A ovelha, pois, é associada ao cordeiro, sendo um dos animais que mais proximamente representariam a própria imagem de Cristo como “bom pastor”, que conhece e cuida de seu rebanho. Na realidade do século XV, porém, aquela assume um valor material de troca, na qual sua lana seria a condição sine qua non para provavelmente obter uma graça espiritual. Provérbio: In quo nascetur asinus corio, morietur. (manuscrito B 13). Tradução: No couro em que nascer, o asno há de morrer. A caracterização do asno dentro da tradição paremiológica medieval em latim faz-se notar desde a época greco-romana. Os fa8 bulários de Esopo e de Fedro e os fabulistas medievais sempre utilizavam este animal em seus textos. Como animal de carga, a sua função seria exclusivamente a de ajudar seu senhor no transporte de mercadorias, bem como, muitas vezes, levá-lo sobre seu lombo. Mais tarde, paralelamente à sua atividade de trabalho, o asno possuiria também papel importante dentro da própria história do Cristianismo, à medida que Cristo teria entrado em Jerusalém montado sobre um tal animal, no domingo de Ramos. A sua pusilanimidade em não sair de seu estado de subserviência ao seu dono, contudo, foi associada metaforicamente a uma total falta de iniciativa, que expressaria então a imagem que até hoje temos deste animal como dócil, porém estúpido. Enquadrando-se dentro do fechado modelo social da Idade Média, tal concepção seria muito bem evidenciada nos proverbia daquela época como sinônimo da estultice humana em aspirar por ascensão social fora dos padrões de sua classe de origem. Em alusão a tal tema, Salisbury (1994, p. 131) cita alguns animais como não dignos de muita admiração nos textos de então, observando que, “muitos como o asno são estúpidos, especialmente quando aspiram por um status maior do que o do seu nascimento”. E acrescenta: “Muitas das fábulas sobre pessoas que circulavam com as coleções de fábulas sobre animais lidam com classes inferiores e refletem a imagem de animais impotentes.” Em nossa parêmia em verso leonino, percebe-se claramente a mensagem de manutenção da ordem social vigente. O ciclo da vida, nascimento e morte já estaria prepa9 rado para o asno, que deveria simplesmente segui-lo, já que sua roupagem estaria adequada às suas funções de servir ao seu senhor. No tocante ao campo fabulístico, Marie de France (Apud Salisbury, 1994, p. 119) sintetiza muito bem esse discurso conservador, ao lançar mão da fábula do asno que deseja brincar com seu dono como se fosse um cão fraldeiro, para demonstrar que nem todos têm a mesma aptidão dada pela natureza e conseqüentemente a observância de seus próprios limites sociais deve ser mantida: Aqueles que aspiram engrandecer a si mesmos E que desejam um lugar mais elevado – Um que não é apropriado às suas cinturas E na maioria dos casos, não ao seu nascimento. O mesmo resultado sucederá A muitos, como ao asno espancado. Como elementos delineadores e condutores de um discurso social de manutenção de valores hierárquicos e perenes, os provérbios ligados ao mundo animal contribuíram, portanto, não apenas para divertir o público ouvinte e leitor, mas principalmente para ajudar o ser humano, segundo a visão de grande parte da intelectualidade oriunda do clero, a trilhar os caminhos deste mundo conforme os seus preceitos. 10 Referências Bibliográficas BEUTIN, Wolfgang et alii. História da literatura alemã. Lisboa: Cosmos, Apáginastantas, 1993. v. 1. BISCHOFF, B. et alii. Carmina Burana. München: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1979. BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro Alfredo. A fraseologia medieval latina como reflexo de uma sociedade. 1998. 207 f. Tese (Doutoramento) – Faculdade de Letras da UFRJ. Rio de Janeiro. COMMELIN, P. Nova mythologia grega e romana. Rio de Janeiro; Paris: H. Garnier, 1906. CURTIUS, Ernst Robert. Literatura européia e idade média latina. Tradução de Teodoro Cabral. 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