Estudos Avançados em Direito Internacional THIAGO PALUMA WAGNER MENEZES FERNANDO RODRIGUES MARTINS (organizadores) Estudos Avançados em Direito Internacional Homenagem à Profa. Heloísa Assis de Paiva COORDENAÇÃO CIENTÍFICA Aguinaldo Alemar Alexandre Walmott Ernesto Gomes Esteves Neto Fernando Rodrigues Martins Jeancezar Ditzz de Souza Ribeiro Luiz César Macedo Márcia Leonora S. R. Orlandini Rickson Rios Silviana Henkes Thiago Paluma Wagner Menezes Belo Horizonte 2015 CONSELHO EDITORIAL Álvaro Ricardo de Souza Cruz André Cordeiro Leal André Lipp Pinto Basto Lupi Antônio Márcio da Cunha Guimarães Bernardo G. B. Nogueira Carlos Augusto Canedo G. da Silva Carlos Bruno Ferreira da Silva Carlos Henrique Soares Claudia Rosane Roesler Clèmerson Merlin Clève David França Ribeiro de Carvalho Dhenis Cruz Madeira Dircêo Torrecillas Ramos Emerson Garcia Felipe Chiarello de Souza Pinto Florisbal de Souza Del’Olmo Frederico Barbosa Gomes Gilberto Bercovici Gregório Assagra de Almeida Gustavo Corgosinho Jamile Bergamaschine Mata Diz Janaína Rigo Santin Jean Carlos Fernandes Jorge Bacelar Gouveia – Portugal Jorge M. Lasmar Jose Antonio Moreno Molina – Espanha José Luiz Quadros de Magalhães Kiwonghi Bizawu Leandro Eustáquio de Matos Monteiro Luciano Stoller de Faria Luiz Manoel Gomes Júnior Luiz Moreira Márcio Luís de Oliveira Maria de Fátima Freire Sá Mário Lúcio Quintão Soares Martonio Mont’Alverne Barreto Lima Nelson Rosenvald Renato Caram Roberto Correia da Silva Gomes Caldas Rodolfo Viana Pereira Rodrigo Almeida Magalhães Rogério Filippetto de Oliveira Rubens Beçak Vladmir Oliveira da Silveira Wagner Menezes William Eduardo Freire É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio eletrônico, inclusive por processos reprográficos, sem autorização expressa da editora. Impresso no Brasil | Printed in Brazil Arraes Editores Ltda., 2015. Coordenação Editorial: Fabiana Carvalho Produção Editorial e Capa: Danilo Jorge da Silva Revisão: Responsabilidade do Autor 341.026 E82 Estudos avançados em direito internacional [organização de] Thiago Paluma, Wagner Menezes, Fernando Rodrigues Martins. – Belo Horizonte: Arraes Editores, 2015. 401p. ISBN: 978-85-8238-131-1 1. Direito internacional. 2. Tratados internacionais. 3. Direitos humanos. I. Paluma, Thiago (org.). II. Menezes, Wagner (org.). III. Martins, Fernando Rodrigues (org.). IV. Título. CDD – 341.026 CDU – 341.1 Elaborada por: Fátima Falci CRB/6-700 Rua Oriente, 445 – Serra Belo Horizonte/MG - CEP 30220-270 Tel: (31) 3031-2330 Belo Horizonte 2015 www.arraeseditores.com.br [email protected] Homenagem à Profa. Heloisa Assis de Paiva A presente coletânea de artigos, produzidos e apresentados no II ENCONTRO BRASILEIRO DE GRUPOS DE PESQUISA EM DIREITO INTERNACIONAL, sediado na Faculdade de Direito Prof. Jacy de Assis da Universidade Federal de Uberlândia vem em boa hora, também para prestar um justo tributo à uma notável professora Heloisa Assis de Paiva, que tem toda uma vida dedicada ao cultivo e evolução do Direito Internacional Privado. A consagrada contribuição da Profa. Heloísa Assis de Paiva transcende as fronteiras de uma singela faculdade de Direito do interior de Minas Gerais, com consagrada tradição processualista, mas que por meio de sua iniciativa pessoal e de suas ações, por sua dedicação aos alunos, aos professores e ao curso de Direito, guiou e inspirou jovens e velhos juristas, estudantes e professores, agregando todos que se dispusessem estudar e debater os temas nos encontros semanais do Grupo de Estudos de Direito Internacional. Estudiosa do Direito Internacional, Heloisa Assis dedicou a sua vida a construção da carreira acadêmica e da disciplina de Direito Internacional Privado, sendo por todos estes anos, chefe do Departamento de Direito Civil, Diretora da FADIR e Coordenadora de Núcleo, oportunidades nas quais incentivou a produção científica, orientando alunos, coordenando projetos de Iniciação Científica e levando todos, professores, acadêmicos e alunos a apresentar e publicar artigos, livros e temas em Congressos e Encontros nacionais e internacionais de Direito Internacional. Sabemos que a professora homenageada, recebeu distinções variadas em nossa Universidade e em várias outras oportunidades, prestadas pelo indiscutível valor de sua contribuição e pelo reconhecimento de seu saber jurídico, arraigado pela qualidade de suas aulas nos cursos de graduação e pós graduação, que tem transcendido as fronteiras de nosso Estado, quando aqueles que consigo conviveram tem ocupado posições importantes no Brasil e no exterior, na defesa do Direito Internacional e Direitos Humanos. Por sua capacidade produtiva e vivacidade, certamente invadiu os nossos corações de internacionalistas, seja através das concorridas reuniões do grupo de estudos, nas quais V agregava dezenas de acadêmicos, seja pelo incentivo à produção científica e de artigos jurídicos, desenvolvimento de projetos de Iniciação Científica, pelo incentivo para a participação dos nossos alunos nos Congressos, Encontros e Seminários internacionais e até pelo incentivo à titulação em programas de mestrado e doutorado ofertados pelas mais renomadas instituições de ensino superior do Brasil e de distintos países. Professora querida de seus alunos, tem sido madrinha, professora homenageada de inúmeras turmas de formandos nos últimos 40 anos, sendo eloquente testemunho de sua dedicação ao ensino jurídico de qualidade, consagrando-a como estudiosa desta área tão importante e atual do Direito e nominando-a como jusinternacionalista. Ao longo das últimas décadas, sucessivas gerações de pesquisadores e acadêmicos, uma verdadeira legião de ex alunos e de eternos amigos, que se espalham pelo Brasil e por diversos países desenvolvendo suas atividades profissionais e acadêmicas com competência ímpar, enchendo de orgulho o seu coração jusinternacionalista. Dentre estes, muitos docentes talentosos e dedicados, discípulos inspirados em seu perfil de dedicação e respeito, que conheceu ainda estudantes nos grupos de estudos, nos Congressos de Direito Internacional e que tiveram a honra de sua convivência. A professora Heloísa Assis de Paiva está entre os jusinternacionalistas brasileiros mais inspiradores e dedicados, muitos destes presentes no memorável Encontro de Grupos de Estudos, que conduziram seus alunos com tanta coerência e obstinação, no propósito de apresentar-lhes o patrimônio do Direito Internacional. E, por ter iluminado a trajetória de muitas vidas e carreiras, todos aqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la, de conviver e participar de seu grupo de estudos e desfrutar de suas experiências profissionais e acadêmicas, contando com seu apoio e amizade, sentem-se imensamente gratificados. Portanto, a publicação desta obra, resultado da produção daqueles que representam a síntese se sua carreira dedicada ao ensino jurídico, representa a justa e oportuna homenagem como forma de reconhecimento e profundo afeto. Dezembro de 2014. MARCIA LEONORA SANTOS REGIS ORLANDINI VI Sumário* PREFÁCIO..................................................................................................................... XIII APRESENTAÇÃO........................................................................................................ XV Parte I DIREITOS HUMANOS..............................................................................................1 Capítulo 1 A QUESTÃO DA TITULARIDADE DE DIREITOS FUNDAMENTAIS POR PESSOA JURÍDICA NO ORDENAMENTO INTERNACIONAL: ANÁLISE DA CONVENÇÃO EUROPÉIA DE DIREITOS HUMANOS E DO PACTO DE SAN JOSÉ DA COSTA RICA Rafaela Câmara Silva.................................................................................................2 Capítulo 2 A CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS COMO INSTRUMENTO DA JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO Paulo Roberto Corrêa Leite Filho Daniel Barile da Silveira...........................................................................................20 Capítulo 3 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO EM DIREITOS HUMANOS POR MEIO DA PREPARAÇÃO PARA COMPETIÇÕES DE JULGAMENTOS SIMULADOS: RELATOS DE PARTICIPAÇÃO Heloisa Fernandes Câmara Bruna Singh Maivi Cristina Ramalho............................................................................................28 * Os Organizadores e a Arraes Editores não se responsabilizam pelo conteúdo e pela revisão dos artigos, bem como pela correção da nova ortografia. VII Capítulo 4 A PROTEÇÃO AO MÍNIMO EXISTENCIAL DOS POVOS INDÍGENAS. PONDERAÇÕES AO ACÓRDÃO Nº 0018341-89.2012.4.01.0000 DO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 1ª REGIÃO Marcos Edmar Ramos Alvares da Silva................................................................39 Capítulo 5 A PROTEÇÃO DOS DIREITOS CULTURAIS E O VALE-CULTURA Franklin José Silva Neto Yara Maria Pereira Gurgel.......................................................................................47 Capítulo 6 “ESTADO DA ARTE” DA JURISPRUDÊNCIA SOBRE DESAPARECIMENTO FORÇADO NO SISTEMA INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS Bárbara da Cunha Salomão de Abreu Heloisa Fernandes Câmara Juliana Barros da Silveira.........................................................................................55 Capítulo 7 DIREITOS HUMANOS: EXPERIÊNCIAS DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO A PARTIR DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS Isabela Gerbelli Garbin Ramanzini Marrielle Maia Alves Ferreira.................................................................................67 Capítulo 8 DIREITOS HUMANOS NA CHINA: A VIOLAÇÃO DA LIBERDADE DE CRENÇA Raíssa Ramiro Antunes Jeancezar Ditzz de Souza Ribeiro.............................................................................74 Capítulo 9 ESCRAVIDÃO CONTEMPORÂNEA URBANA NA INDÚSTRIA TÊXTIL DA MULTINACIONAL ZARA E A EXPLORAÇÃO DA MÃO DE OBRA BOLIVIANA Nathalia Moreira Soares............................................................................................85 Capítulo 10 FUNDAMENTOS DA CRIMINALIZAÇÃO DA PSICOFOBIA E DIREITOS DA DIGNIDADE HUMANA NO DIREITO BRASILEIRO Elvis Nunes Gomes Moacir Henrique Júnior Klenya Tavares Duarte Faria...................................................................................97 VIII Capítulo 11 A LIBERDADE DE EXPRESSÃO E SEU CONTEÚDO NA CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS Paulo Arthur Germano Rigamonte..........................................................................111 Capítulo 12 O DIREITO AO ESQUECIMENTO: UM ENFOQUE NO ÂMBITO DO DIREITO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS Danúbia Cantieri Silva..............................................................................................126 Capítulo 13 O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E O CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE NA JURISDIÇÃO BRASILEIRA Alice Rocha da Silva Rafael Freitas de Oliveira Filipe Torri da Rosa....................................................................................................135 Capítulo 14 OS DIREITOS HUMANOS SOB A PERSPECTIVA DE UM CONSTITUCIONALISMO PLURIDIMENSIONAL José Albenes Bezerra Júnior Clarindo Epaminondas de Sá Neto.........................................................................147 Capítulo 15 OS EFEITOS DA SENTENÇA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS NO BRASIL Débora dos Santos Viana...........................................................................................158 Capítulo 16 VIOLENCE AS AN EFFECT OF MISS RECOGNITION Brunela Vieira de Vincenzi Felipe Sartório de Melo..............................................................................................165 Parte II DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO..............................................................175 Capítulo 17 A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO NAS RELAÇÕES TRABALHISTAS ATUAIS À LUZ DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA Tereza Margarida Costa de Figueiredo Yara Maria Pereira Gurgel.......................................................................................176 IX Capítulo 18 A CNUDM E O POSSÍVEL CONFLITO DE JURISDIÇÃO ENTRE O TRIBUNAL INTERNACIONAL SOBRE O DIREITO DO MAR E A CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA Rodrigo Ribeiro Vitor..................................................................................................186 Capítulo 19 A INAPLICABILIDADE DO CONVÊNIO DE PREVIDÊNCIA SOCIAL ENTRE O BRASIL E CHILE PARA OS TRABALHADORES RURAIS Diego Elison do Nascimento Silva Marco Bruno de Miranda Clementino...................................................................196 Capítulo 20 A INTEGRAÇÃO REGIONAL ENTRE FRANÇA E BRASIL NA AMÉRICA DO SUL: UM CANAL ESTRATÉGICO DE COMUNICAÇÃO NORTE-SUL André de Paiva Toledo...............................................................................................207 Capítulo 21 A JURISPRUDÊNCIA COMO FONTE DO DIREITO INTERNACIONAL: O CASO DA IMUNIDADE DE JURISDIÇÃO DO ESTADO A PARTIR DA ATUAÇÃO DA CORTE INTERNACIONAL DE JUSTIÇA Ernesto Gomes Esteves Neto Jeancezar Ditzz de Souza Ribeiro.............................................................................223 Capítulo 22 A SUSTENTABILIDADE COMO GARANTIA AO FUTURO, UMA RESPONSABILIDADE DOS ESTADOS Mariana Swerts Cunha..............................................................................................230 Capítulo 23 O DIREITO INTERNACIONAL NA CONCEPÇÃO DE CARL SCHMITT E O DEBATE ENTRE OS CONCEITOS DE GUERRA ANGLO-SAXÃO E EUROPEU- CONTINENTAL Clarindo Epaminondas de Sá Neto José Albenes Bezerra Júnior.......................................................................................239 Capítulo 24 ANÁLISE CRÍTICA DA JURISPRUDÊNCIA RELATIVA À APLICAÇÃO DA CONVENÇÃO DE MONTREAL PARA A UNIFICAÇÃO DAS REGRAS RELATIVAS AO TRANSPORTE AÉREO INTERNACIONAL DE 1999 Jahyr-Philippe Bichara Sid Marques Fonseca Jr..............................................................................................254 X Capítulo 25 NANOREG: REGULAÇÃO INTERNACIONAL EM NANOTECNOLOGIA Aguinaldo Alemar Maíra Araújo Machado Borges Prata....................................................................264 Capítulo 26 O ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO E O CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE DOS TRATADOS DE DIREITOS HUMANOS Priscilla Amaral Thiago Chaves de Melo..............................................................................................274 Capítulo 27 PROTEÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL ATRAVÉS DA APLICAÇÃO DAS DIRETRIZES DA OCDE NO BRASIL Alyane Almeida de Araújo Jahyr-Philippe Bichara...............................................................................................285 Parte III DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO..............................................................296 Capítulo 28 A IMIGRACÃO ILEGAL DOS HAITIANOS NO BRASIL – QUESTÃO JURÍDICA OU SOCIAL? Edinamar Aparecida da Silva Costa.......................................................................297 Capítulo 29 RECONNAISSANCE DE JUGEMENT ÉTRANGÈRE AU BRÉSIL: UN INSTRUMENT DE COOPÉRATION JURIDIQUE INTERNATIONALE Nevitton Vieira Souza Yannick Kalombo wa Kalombo................................................................................306 Capítulo 30 AS CARTAS ROGATÓRIAS E O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: UMA ANÁLISE QUANTITATIVA DOS DEZ ANOS DE COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL A PARTIR DA EC Nº 45/2004 Inez Lopes Maira Beatris Bravo Ramos Lucas Augusto de Melo Santos.................................................................................319 XI Capítulo 31 AS SENTENÇAS ESTRANGEIRAS E O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA: UMA ANÁLISE QUANTITATIVA DOS DEZ ANOS DE COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL A PARTIR DA EC Nº 45/2004 Inez Lopes Lucas Augusto de Melo Santos Maira Beatris Bravo Ramos......................................................................................332 Capítulo 32 LA COMUNITARIZACIÓN DE LAS POLÍTICAS DE ASILO E INMIGRACIÓN Fabiana Augusta Ferreira Lima..............................................................................347 Capítulo 33 PRINCIPAIS E EMBATES NORMATIVOS ENTRE A CONVENÇÃO DE VIENA DE 1980 SOBRE CONTRATOS DE COMPRA E VENDA INTERNACIONAL DE MERCADORIAS E O CÓDIGO CIVIL BRASILEIRO Rebecca Paradellas Barrozo.......................................................................................363 Capítulo 34 SÉRIA E PREOCUPANTE DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE ADOÇÕES INTERNACIONAIS NO BRASIL: CONSEQUÊNCIA DA OBRIGATORIEDADE DO CUMPRIMENTO DO ESTÁGIO DE CONVIVÊNCIA? Leila Arruda Cavallieri.............................................................................................375 XII Prefácio Coube-me, com muita honra, escrever este rápido prefácio sobre a presente obra de Direito Internacional que agora se publica. Desde já, agradeço aos organizadores a oportunidade. Ressalto que se trata de uma alentada produção da academia jurídica brasileira, a abarcar quase todos os temas mais relevantes do Direito Internacional, num momento importante para este ramo do estudo. É de amplo conhecimento que a mudança de denominação de geopolítica para relações internacionais (esta última, a expressão mais usada) não ameniza as tensões modernas, no que pese todos os esforços da eufemística alteração. O mundo continua a enfrentar enormes desafios, os organizações internacionais deparam-se cotidianamente com sua própria desimportância e incapacidade de ação. O mais curioso é que estas incapacidade e imobilidade de agências como as Nações Unidas, a Agência Internacional de Energia Atômica etc. decorrem de seus próprios membros e, dentre estes, daqueles mais poderosos e principais. Se o noticiário mundial sobre a natureza e complexidade dos conflitos adquire relevância para a pesquisa, acaba-se esta relevância quando se trata de facilitar o trabalho do verdadeiro cientista. A publicação recente, na Alemanha, do livro de Udo Ulfkotte, Gekaufte Journalisten - Wie Politiker, Geheimdienste und Hochfinanz Deutschlands Massenmedien lenken (jornlaistas comprados – como políticos, serviço secreto e altas finanças manobram a mídia de massa da Alemanha) bem nos chama a atenção sobre as cautelas com as informações obtidas em meios de comunicação. Calha ao prefácio o exemplo do caso e da obra citada em razão de seu objeto: o livro do autor alemão denuncia como se construiu na Europa a necessidade de uma guerra contra a Rússia a partir da situação geopolítica com a Ucrânia. No que pesem as críticas sobre os enganos cometidos na obra de Udo Ulfkotte, jamais foi desapercebida dos intelectuais a complexidade desta questão, bem como de seus desdobramentos, da mesma forma que as dificuldades entre Ocidente (Estados Unidos e União Europeia) e Rússia. Este episódio representa apenas mais um na escorregadia seara do Direito Internacional. Os conflitos em quase todos os cantos do mundo, nas suas formas de violência explícita ou não, a envolver todas as formas de violações a direitos fundamentais, traduzem um constante desafio para os intelectuais que se dedicam à matéria que parece não ter fim. O mais desanimador no quadro é que não há que se falar numa progressividade da história. Em outras palavras: mesmo com os acontecimentos mais catastróficos e sangrentos XIII do mundo, o homem ainda parece destinado a repetir os erros do passado. Aqui, a imensa atualidade do pensamento de Max Horkheimer quando de sua digressão de que o holocausto, diferente do que o lugar comum dizia, foi, sim, produto da razão humana, a qual tanto ser utilizada para o bem como para o mal. Aos cientistas imbuídos do humanismo e tradição igualitária - que o são os autores aqui reunidos – ainda resta a árdua tarefa de lutar por este humanismo no panorama internacional. O que gostaria de destacar é que os artigos aqui apresentados enfrentam o tema da geopolítica mundial sobre seus diverso enfoques: direito humanos, migração e imigração de populações arrasadas por guerras ou desastres naturais ou econômicos, implicações judiciais sobre convenções e acordos internacionais, bem como sua efetivação nos sistemas pátrios, leis de asilo, direitos humanos em países como China etc. São ricas análises a oferecerem aos leitores o que há de mais atual no Direito Internacional e os pontos que traduzem suas principais tensões. A intensa troca de informações sociais a ocorrer de maneira planetária atualmente obriga a quase todos o olhar para fora de suas sociedades. Se a democracia e seus processos de consolidação ainda estão a caminho da realização no Brasil, não há como deixar de concluir-se por tal afirmação sem que se compare com o que se dá fora do Brasil. É neste ponto que o Direito Internacional reveste-se de ferramenta fundamental para aqueles a ocuparem-se qualquer outro ramo do Direito. Como poderia um constitucionalista brasileiro não estar atento ao que se desenrola nos processos de controle da constitucionalidade - com sua forte dosagem de economia e política em qualquer país do mundo – de outras sociedades? Como se poderia discorrer sobe democracia no Brasil sem a atenção ao que de desenrola em nossos países vizinhos? Assim, deve ser aplaudido o esforço de alguns dos trabalhos agora publicados sobre a proteção de povos indígenas, sobre a regulação das leis de trabalho e o perigo da exploração trabalhista daqueles que se deslocam de suas terras, caindo noutras paragens, em todo caso sempre à procura de sua dignidade mínima, almejada por todo ser humano. A coletânea de trabalhos resulta, como disse, do desenvolvimento de séria pesquisa em Direito Internacional. Envolve trabalhos apresentados em encontro nacional de grupos de pesquisas em Direito Internacional, o qual conta com a participação de docentes e discentes. O envolvimento da comunidade científica brasileira com a pluralidade de temas aqui apresentados revela, por outro lado, o contínuo processo de amadurecimento a enfrentar no momento a Ciência do Direito no Brasil. As pesquisas agora publicadas revelam mais um feliz aspecto deste caminhar difícil, vez que o Brasil planeja para um breve futuro alcançar níveis de produção científica comparável àqueles dos grandes centros do mundo. Em algumas áreas do conhecimento, tal já é realidade. A contribuição do conjunto desta obra dá passo significativo nesta direção e merece, assim, incentivos e reconhecimento do público. Minha firme recomendação é, pois, pela leitura atenta dos trabalhos que aqui se escreveram. Fortaleza, janeiro de 2015. PROF. DR. MARTONIO MONT’ALVERNE BARRETO LIMA XIV Apresentação A obra coletiva que tenho a honra e a alegria em apresentar é fruto dos artigos desenvolvidos para o II Encontro Brasileiro de Grupos de Pesquisa em Direito Internacional, coordenado pela Universidade Federal de Uberlândia, em 15 e 16 de dezembro de 2014. A pluralidade de vozes -- a representar as mais diversas geografias do país -- e a vitalidade dos temas, por si só, é capaz de revelar a extraordinária importância que os direitos humanos assumem na ordem internacional, bem como a elevada qualidade da pesquisa e investigação científica na matéria. É capaz, ainda, de invocar a feição multifacetada e interdisciplinar dos direitos humanos, a fomentar diálogos entre os mais distintos saberes e atores, na convergência do valor da primazia da dignidade humana. O elenco temático envolve debates de destacada atualidade e complexidade, a compreender desde a justiça de transição sob o enfoque do Direito Internacional dos Direitos Humanos; a temática do asilo e imigração; da proteção sócio-ambiental, sustentabilidade e responsabilidade do Estado; do controle de convencionalidade; da impacto da jurisprudência internacional protetiva de direitos; do alcance do constitucionalismo pluridimensional; da violência e escravidão contemporânea; dos direitos culturais; da proteção ao trabalho; da educação em direitos humanos; da liberdade de expressão; dos diálogos jurisdicionais; dos direitos dos povos indígenas; dentre outros instigantes temas. Estas inquietudes apontam à emergência de um novo paradigma jurídico, à uma forma renovada de compreender, perceber, estudar e pesquisar o Direito no século XXI. Daí o desafio compartilhado pelos co-autores desta obra de fomentar uma cultura jurídica inspirada na emergência de um novo paradigma jurídico caracterizado pela estatalidade aberta, pelo diálogo jurisdicional e pela prevalência da dignidade humana em um sistema multinível. A força inspiradora deste novo paradigma jurídico centra-se no potencial emancipatório e transformador dos direitos humanos, com realce aos processos de humanização do Direito Internacional e de internacionalização dos direitos humanos, a resignificar a experiência jurídica. Trata-se de uma obra que enriquece a doutrina e literatura jurídica, rompendo com o paradigma do passado e propagando uma cultura jurídica norteada pelos direitos humanos XV como a utopia realista de nosso tempo, que, no dizer de Habermas, impulsiona o processo de construção de uma sociedade mais justa. São Paulo, 10 de dezembro de 2014. FLÁVIA PIOVESAN Professora doutora em Direito Constitucional e Direitos Humanos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Professora de Direitos Humanos dos Programas de Pós Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e da Universidade Pablo de Olavide (Sevilha, Espanha); visiting fellow do Human Rights Program da Harvard Law School (1995 e 2000), visiting fellow do Centre for Brazilian Studies da University of Oxford (2005), visiting fellow do Max Planck Institute for Comparative Public Law and International Law (Heidelberg - 2007 e 2008); desde 2009 é Humboldt Foundation Georg Forster Research Fellow no Max Planck Institute (Heidelberg); membro do Conselho Nacional de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Foi membro da UN High Level Task Force on the implementation of the right to development e é membro do OAS Working Group para o monitoramento do Protocolo de San Salvador em matéria de direitos econômicos, sociais e culturais. Procuradora do Estado de São Paulo. XVI