CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES
Niterói RJ: ANINTER-SH/ PPGSD-UFF, 03 a 06 de Setembro de 2012, ISSN 2316-266X
O PATRIMÔNIO CULTURAL DA ILHA DA RITA (SANTA
CATARINA): ESTUDOS PRÉVIOS PARA SUA REVITALIZAÇÃO E
PRESERVAÇÃO
Dione da Rocha Bandeira
Arqueóloga e Professora do Mestrado em Patrimônio Cultural da UNIVILLE,
[email protected]
Fernanda Mara Borba
Historiadora e Aluna do Mestrado em Patrimônio Cultural da UNIVILLE,
[email protected]
Roberta Cristina Silva
Arquiteta e Professora da SOCIESC
[email protected]
RESUMO: Este trabalho pretende apresentar os resultados preliminares de dois projetos
financiados pela CAPES, CNPq e FAP/UNIVILLE desenvolvidos pela Universidade da
Região de Joinville sobre o patrimônio cultural da Ilha da Rita (São Francisco do Sul, Santa
Catarina). As pesquisas têm por objetivo geral reunir informações e gerar conhecimento sobre
o patrimônio cultural, arqueológico e ambiental da Ilha da Rita produzindo uma proposta de
revitalização da mesma. Os projetos têm objetivos e metodologias interdisciplinares,
contemplando análises ambiental, arqueológica, histórico-social e arquitetônica. A prática
interdisciplinar, para além da reciprocidade teórica, metodológica e/ou tecnológica, permite a
criação de novos conceitos, teorias, modelos, metodologias e tecnologias de pesquisa.
PALAVRAS-CHAVES: Interdisciplinaridade, Ilha da Rita (SC, Brasil), Patrimônio Cultural.
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ABSTRACT: This work intends to present the preliminary results of two projects funded by
CAPES, CNPq and FAP/UNIVILLE developed by the University of the Region of Joinville
on the cultural heritage of the island of Rita (São Francisco do Sul, Santa Catarina). The
surveys are designed to gather general information and generate knowledge about the cultural
heritage, archaeological and environmental Island Rita producing a proposal to revitalize it.
The projects
have
goals
and interdisciplinary methodologies,
analyzes
covering
environmental, archaeological, historical, social and architectural. The interdisciplinary
practice, beyond reciprocity theoretical, methodological and/or technology, allows the
creation of new concepts, theories, models, methodologies and technologies for research.
KEYWORDS: Interdisciplinarity, Rita Island (SC, Brazil), Cultural Heritage.
O artigo apresenta os resultados preliminares de projetos desenvolvidos sob a
coordenação da Profa. Dra. Sandra Pascoal de Leite Camargo Guedes financiados com
recursos do CNPq, CAPES e FAP/UNIVILLE e vinculados ao Grupo de Pesquisa “Estudos
Interdisciplinares do Patrimônio Cultural” e ao Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade
da UNIVILLE. Estes projetos têm como objetivo geral reunir informações e gerar
conhecimento sobre o patrimônio cultural, arqueológico e ambiental da Ilha da Rita (São
Francisco do Sul, Santa Catarina) para subsidiar uma proposta de revitalização da mesma.
A Ilha da Rita está situada no litoral norte de Santa Catarina, na Baía Babitonga, onde
existem outras 24 ilhas. No entorno desta baía localizam-se os municípios Balneário Barra do
Sul, Araquari, Joinville, Garuva, Itapoá e São Francisco do Sul, cujo território abrange a
maior ilha desta Baía (sede do município) e a porção continental denominado Distrito do Saí.
O Distrito do Saí, por sua vez, é composto pelas localidades de Vila da Glória, Praia
Alvarenga, Praia Bonita, Estaleiro, Frias, Ramos, Torno dos Pintos, Caeté, Lamin e Saí
Mirim. A Ilha da Rita, que pertence ao Município de São Francisco do Sul, está a 200 metros
da localidade de Estaleiro (Figura 1).
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Figura 1. Localização da Ilha da Rita. Baía Babitonga. Santa Catarina. Brasil. Fonte: André Lima, 2012.
Esta Ilha teve um importante papel na história do Brasil na primeira metade do século
XX, quando foi utilizada pela Marinha como base de abastecimento de água potável, carvão e
óleo combustível a navios. Devido à ausência de água potável na ilha, foi adquirida uma
fazenda agrícola no Distrito do Saí, na localidade de Frias, onde havia uma nascente cuja água
era conduzida até a base. Na ilha construiu-se dois tanques de óleo combustível e diesel, uma
residência para os navais que deveriam administrar a Ilha e outra com dois andares estilo
“chalé moderno” para o oficial. Também foram construídos um trapiche de concreto em T,
orientado na direção das marés e um portão de ferro trabalhado e fechadura de bronze na
entrada da Ilha, como um portal. Duas guaritas para sentinelas ladeavam a entrada e,
suavizando a visão dos tanques, foram plantadas árvores entremeadas por jardim. Ligando a
parte baixa e a alta, foi construída uma escada de concreto e, na frente da casa e dos tanques,
“pavimentou-se um caminho, onde bancos e mesas foram instalados ao longo do mesmo.
Também um caramanchão de madeira, um chafariz e um lago foram feitos, tornando um local
de paisagem quase paradisíaca” (S. THIAGO e COELHO, 2011, p. 53-54). A base foi
inaugurada em 1940 com a presença do Presidente da República Getúlio Vargas e atingiu seu
auge de utilização durante a Segunda Guerra Mundial até a década de 1960, como ponto
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militar de importância estratégica (Figura 2).
Figura 2. Imagem aérea da Ilha da Rita. Fonte: Acervo da UNIVILLE, s.d.
Em 1968, a Marinha devolveu a Ilha da Rita ao Município que continuou utilizando-a
como posto de abastecimento de navios, sob responsabilidade do Porto de São Francisco do
Sul. Com a modernização do porto, esta função também acabou caindo em desuso e outras
foram pensadas, mas dada a impossibilidade de efetivação, a ilha foi abandonada (THIAGO e
COELHO, 2001; BOHN, 2010). Após algumas negociações, em 1999 o espaço foi cedido à
Universidade da Região de Joinville (Univille), que desde então, desenvolve diversos estudos.
Entendendo que a Ilha da Rita constitui-se em importante patrimônio cultural e
ambiental de Santa Catarina uma vez que combina aspectos históricos, arquitetônicos,
arqueológicos
e
naturais,
reconheceu-se
a
necessidade
de
aprofundar
estudos
interdisciplinares acerca dela a fim de que se pudesse, num futuro próximo, proporcionar a
sua revitalização e reutilização para fins científicos, culturais, turísticos e educacionais. Os
estudos buscam, portanto, conhecer mais profundamente a história da Ilha da Rita numa
perspectiva interdisciplinar, propondo uma nova apropriação e usos da mesma através de sua
relação com a comunidade, de modo que ela volte a fazer parte do contexto cultural de São
Francisco do Sul e da região nordeste do Estado de Santa Catarina.
A interdisciplinaridade possibilita que a pesquisa seja desenvolvida a partir da
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combinação de disciplinas que se complementem, buscando a reciprocidade teórica,
metodológica e tecnológica. Além da possibilidade de fornecer respostas aos problemas de
pesquisa e questões de forma abrangente, promove a criação de novos conceitos, teorias,
modelos, metodologias e tecnologias mais complexas. Suplantando a fragmentação do
conhecimento, bem como favorecendo uma reflexão mais aprofundada e crítica sobre este
conhecimento, a interdisciplinaridade é a utilização de alternativas que se complementam e
não uma escolha entre vários modos de produção de conhecimento (PHILIPPI e SILVA
NETO, 2011, p. 179). A prática interdisciplinar implica na intercomunicação entre as
disciplinas, causando modificações através do diálogo entre tais, tendo em vista que a simples
troca de informações disciplinares não constitui método interdisciplinar (JAPIASSÚ, 1976).
A interação entre as áreas do conhecimento é necessária a partir do momento em que se
conclui que não existe uma fonte de conhecimento completa e autossuficiente, uma
compreensão mais ampla do objeto de pesquisa. A interdisciplinaridade é:
o diálogo com outras formas de conhecimento, deixando-se interpenetrar por elas.
Aceita o conhecimento do senso comum válido, pois é através do cotidiano que
damos sentido às nossas vidas. Ampliado através do diálogo com o conhecimento
científico, tende a uma dimensão utópica e libertadora, pois permite enriquecer
nossa relação com o outro e com o mundo (FAZENDA, 1999, p. 17).
A prática da pesquisa interdisciplinar requer especialistas capazes de estabelecerem o
diálogo com as outras áreas do conhecimento e com o senso comum, buscando com o
aprofundamento da pesquisa compreender os aspectos particulares relativos à sua área, bem
como da complexidade na qual o objeto de pesquisa está inserido. Para Demo (1998), a
melhor forma para se trabalhar a pesquisa de forma interdisciplinar é através de grupos de
pesquisa que possibilitam a cooperação e o diálogo entre os especialistas e que teorias e
métodos sejam acessíveis a todos para a compreensão ampla. Acredita-se que a abordagem
interdisciplinar seja a melhor alternativa no estudo do patrimônio cultural, suas dimensões
histórica e social, a relação dos indivíduos com os seus bens, suas representações,
apropriações e ressignificações. A compreensão do patrimônio cultural da Ilha da Rita de
forma ampla tem sucesso na combinação do conhecimento de disciplinas tais como História,
Sociologia, Psicologia Social, Arqueologia, Biologia e Geografia.
Dentre as pesquisas que estão sendo desenvolvidas nos projetos, uma delas é a
identificação e a análise das representações sociais da população de São Francisco do Sul
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sobre a Ilha da Rita1. O estudo das representações sociais possibilita a compreensão dos
significados que o patrimônio cultural tem para com os indivíduos, como são construídos
socialmente e quais os fatores influenciadores nos processos de reconhecimento e preservação
do patrimônio cultural. Os resultados obtidos podem ser úteis enquanto subsídios para a
construção de projetos de intervenção cultural no espaço, desenvolvidos em consonância com
os interesses da população local e com a sustentabilidade deste patrimônio, não apenas a sua
restauração e preservação. Acredita-se que o estudo das representações sociais favoreça o
desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao patrimônio cultural de forma eficiente,
analisando a função social e a demanda da população que irá usufruir do patrimônio.
As representações sociais são categorias de pensamento que expressam a realidade,
buscam explicações e justificativas, retratam e refratam a realidade, segundo determinado
segmento da sociedade (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2009). De acordo Moscovici
(2009), todas as interações humanas pressupõem representações e é esta interação que as
caracteriza. Essa teoria tem sido usada nos estudos que buscam a compreensão da relação das
construções simbólicas com a realidade social e iniciou a partir de pesquisas da Psicologia
Social na década de 1960. Desde então, ela tem alcançado grande relevância dentro dessa
perspectiva, mas também tem crescido consideravelmente com novas perspectivas teóricas e
metodológicas que enriqueceram o estudo dos processos de construção social da realidade.
Desenvolvidas de forma dinâmica através da comunicação e a partir da combinação dos
conhecimentos científicos socializados com o senso comum, parte-se do conhecido, do
comum para ordenar, explicar e atuar sobre o novo, inserindo-o na realidade já representada.
Por serem construídas dentro dos grupos de pertencimento, essas representações tornam-se a
visão partilhada da realidade, fornecendo uma identidade social em relação ao meio e aos
objetos, sendo impossível ficar alheio ao condicionamento dos grupos (MOSCOVICI, 2009).
As possibilidades de uma abordagem interdisciplinar do patrimônio cultural possibilitam a
compreensão ampla dos múltiplos processos que ocorrem na contemporaneidade. Os
processos de identificação, ressignificação, apropriação, valorização, defesa e difusão do
patrimônio estão intimamente ligados com os processos do conhecimento social da realidade.
E diante disto a importância do estudo das representações sociais se dá pois
a noção de representação social é uma noção concebida para explicar o que une as
pessoas a um grupo ou a uma sociedade, e os faz agir em conjunto. Com o objetivo
1
Esta pesquisa está vinculada à dissertação de mestrado de Cibele Piva Ferrari com orientação da Profa. Dra.
Sandra P. L. de Camargo Guedes (UNIVILLE). Os estudos e os principais resultados poderão ser vistos no
artigo a ser apresentado também nesse evento.
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de permanecerem unidas, as pessoas criam instituições e seguem um conjunto de
regras, que demandam um sistema de crenças e de representações compartilhadas
próprias de suas culturas (ALMEIDA, SANTOS e TRINDADE, 2011, p. 117).
A análise das representações sociais de um grupo e dos fatores que influenciam a
elaboração destas se dá no sentido perceber os aspectos de convergência de um grupo em
torno de um patrimônio, possibilitando que sejam desenvolvidas políticas patrimoniais que
irão contemplar esses aspectos e favorecer os processos de identificação e apropriação do
grupo com seu patrimônio cultural. As iniciativas que poderão ser desenvolvidas na Ilha da
Rita podem ter como subsídio a compreensão do que ela significa para a população de São
Francisco do Sul, quais os principais fatores que influenciam nas representações sobre a
mesma, qual a compreensão que essa população faz do patrimônio cultural e o que influencia
as expectativas de sua revitalização e reutilização.
Por outro lado a ilha apresenta um conjunto de sítios arqueológicos. Seguindo o que
preconiza a Carta Patrimonial de Laussane (1990), o patrimônio arqueológico
compreende a porção do patrimônio material para qual os métodos da arqueologia
fornecem os conhecimentos primários. Engloba todos os vestígios da existência
humana e interessa todos os lugares onde há indícios de atividades humanas não
importando quais sejam elas, estruturas e vestígios abandonados de todo tipo, na
superfície, no subsolo ou sob as águas, assim como o material a eles associados
(WEB, 1990).
No contexto histórico em que, além desses vestígios, estão presentes edificações ou
ruínas que devem ser conservadas e restauradas, a pesquisa arqueológica é considerada
fundamental. Conforme a Carta de Veneza (1964), que é ainda uma importante referência no
mundo todo quanto à Conservação e Restauração de Monumentos e Sítios, toda a
“restauração será sempre precedida e acompanhada de um estudo arqueológico e histórico do
monumento” (WEB, 1964). Na restauração quando o sítio ou monumento arquitetônico é
visto como bem arqueológico está prevalecendo à instância histórica na qual são percebidos
como documentos e não só a instância estética é considerada. A relação entre Arqueologia e
restauração é, muitas vezes, envolta num clima conflituoso justamente pelos diferentes
entendimentos sobre o assunto, denominado por Mori de “a questão dialética do restauro”
(MORI, 2007, p. 123). No Brasil, os avanços são lentos neste campo e o diálogo entre
arquitetos e arqueólogos ainda são pouco frequentes. No entanto, a publicação do Manual de
Arqueologia Histórica em Projetos de Restauro pelo IPHAN em 2002, em função do Projeto
Monumenta, indica o uso do conceito “sítio arqueológico” no restauro de alguns bens com a
participação de arqueólogos. Estas questões relativas ao restauro e a pesquisa arqueológica
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são importantes considerando que as edificações da Ilha deverão ser restauradas e
intervenções arqueológicas farão parte deste processo.
Além do conjunto de bens arquitetônicos, a Ilha apresenta, na sua face norte, um
sambaqui cujo nome é o mesmo da Ilha. Este faz parte de um conjunto de 150 sítios
arqueológicos da Baía Babitonga (BANDEIRA, 2010, entre outros) que são remanescentes de
populações humanas que viveram na região no período pré-colonial. Estes ocorrem em todos
os municípios que circundam a Baía e em várias ilhas e são considerados patrimônio cultural
pela Lei 3.924 de 1961 que proibiu sua exploração para a produção da cal. Os sambaquis, que
ocorrem também ao longo de quase toda a costa brasileira (WAGNER, et al., 2011), foram,
na sua maioria, locais de moradia dessas populações e caracterizam-se por montes
intencionalmente construídos formados predominantemente de conchas de moluscos,
chegando em alguns casos a 30 metros de altura. Nestes montes, em meio às conchas, são
identificados diversos elementos da cultura material destes povos indicando que tinham
conhecimentos para o trabalho com rochas, ossos, conchas e vegetais para a elaboração de
artefatos dos mais diversos tipos, bem como o costume de enterrar os mortos nestes mesmos
locais. Neles são identificados vestígios de fogueiras e cabanas e uma enormidade de restos
faunísticos em que predominam as conchas, embora muitos fragmentos de ossos de diversos
animais ocorram, sendo os peixes os mais consumidos. Por muito tempo acreditou-se que os
sambaquis eram fenômenos naturais e posteriormente passou a vê-los como construções
humanas, mas decorrentes do abandono ao acaso de restos alimentares. Atualmente, estes
sítios e os povos que os construíram são vistos como sociedades semi-sedentárias de relativa
complexidade social que tinham como um dos elementos de sua identidade cultural a
construção dos montes que deveriam servir de marcadores territoriais e altamente
significativos para eles. A partir de pesquisas realizadas na Baía Babitonga, a presença destes
grupos foi datada entre 5.500 e 1.000 anos atrás.
A pesquisa arqueológica envolve, portanto, duas perspectivas presentes no espaço
abordado: a Arqueologia Pré-Colonial e a Arqueologia Histórica. Ou seja, ocupações
anteriores e posteriores a chegada de europeus na América, cronologicamente marcada por
convenção na Arqueologia em 1500. Esta ciência pode ser definida como aquela “que estuda,
diretamente, a totalidade material apropriada pelas sociedades humanas como parte de uma
cultura total, material e imaterial, sem limitações de caráter cronológico” (FUNARI, 2003, p.
15). Portanto, disposta a estudar sociedades de qualquer tempo, onde tanto os “registros
escritos como os materiais se conservam e transmitem fragmentos que se prestam à
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interpretação” (RENFREW & BAHN, 2008, p. 104). A inclusão da abordagem arqueológica
na pesquisa partiu da premissa de que a partir do estudo, por meio da Arqueologia, do
sambaqui poder-se-ia contribuir para a compreensão destes povos na região somando-se os
dados produzidos, tais como a extensão do sítio, sua sequência estratigráfica e sua datação, às
informações conhecidas de outros sambaquis já pesquisados. Quanto ao contexto histórico
que nos remete aos vestígios materiais e construções da Base Naval, bem como ao período
anterior a ela, acreditou-se que seria possível contribuir com informações que permitissem
uma maior compreensão da história da Ilha e de suas diferentes ocupações, de São Francisco
do Sul e da questão militar naval regional e nacional. O estudo desse patrimônio
arqueológico, formado pelo sambaqui e o conjunto arquitetônico, pela Arqueologia, parte,
portanto, da premissa que a cultural material é um terreno particularmente apto à
compreensão das relações sociais, das raízes históricas e culturais dos grupos que ocuparam
este espaço (FUNARI, 1995). A partir de uma dada abordagem, adota-se uma série de fontes
distintas na promoção de uma reflexão sobre a produção humana, perpassando elementos
textuais, iconográficos e orais, além da cultura material.
A pesquisa arqueológica em campo desenvolve-se a partir de sondagens para a
localização e delimitação de sítios, além da escavação na formação de coleções que permitem,
após uma série de análises específicas, inferir sobre a organização social destes grupos e
outros diversos aspectos de sua cultura, vida cotidiana e cerimonial (BICHO, 2006; SCHEELYBERT et al. 2005-2006). O estudo na Ilha da Rita iniciou com um levantamento superficial
sistemático de toda a área, aproveitando os acessos existentes para identificar, fotografar e
registrar vestígios que estavam na superfície e sobre os quais não se tinha informações. Neste
levantamento foi identificada uma estrutura constituída de rochas cortadas alinhadas que
seriam, segundo informações orais, do alicerce de uma edificação de madeira que serviu como
residência dos oficiais (Figura 3). No mesmo local havia grande quantidade de telhas dos
tipos cana-e-canal e francesa fragmentadas e nas imediações foi identificada vala sem
revestimento provavelmente para drenagem de águas pluviais. Esta estrutura está no ponto
mais elevado da Ilha numa área plana resultante de terraplenagem constatada por corte no
morro identificado nas imediações.
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Figura 3. Estrutura constituída de rochas cortadas alinhadas. Fonte: Fernanda Borba, 2011.
No sambaqui fizeram-se, a partir dos locais onde se viam conchas na superfície,
sondagens com cavadeira manual com o objetivo de estimar sua extensão e profundidade.
Também se fez a escavação de uma trincheira a partir de um ponto em que a camada
arqueológica, de aproximadamente 1 metro, era visível devido à erosão provocada pelas águas
da Baía. Em todos os pontos sondados a camada arqueológica não passou de 30 centímetros
de profundidade, sendo coletadas amostras da matriz arqueológica para análises utilizando a
técnica da flotação. Tantos os trabalhos laboratoriais e de mapeamento das intervenções estão
em andamento.
Os trabalhos realizados até o momento no Sambaqui Ilha da Rita indicam uma
situação atípica, pelo menos em relação aos sítios deste tipo na região estudados, pois em sua
parte oeste o material arqueológico, constituído basicamente por conchas e sedimento argiloso
escuro, ocorre na superfície até aproximadamente 30 centímetros de profundidade, enquanto
na parte leste do sítio, a camada arqueológica, só identificada a partir da praia, está há 50
centímetros abaixo de solo argiloso (Figura 4). A camada arqueológica nesta parte do sítio
tem pelo menos 1,25 metros de espessura e se estende para sul por baixo do solo por
aproximadamente 2 metros. Esta situação levou-nos a pensar que o sítio foi soterrado por solo
deslocado da porção mais elevada da ilha ou que o sambaqui foi erodido pelas águas da baía,
restando somente uma faixa que seria sua borda sul ou ainda que o material ali identificado
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tenha sido trazido de outro sambaqui – o que ocorreu em outras ilhas conforme informações
orais levantadas nas pesquisas. Respostas para estas questões deverão ser obtidas com a
conclusão do material coletado bem como sua datação.
Figura 4. Trincheira mostrando a estratigrafia do sambaqui. Fonte: Fernanda Borba, 2011.
Além da pesquisa das representações sociais e arqueológicas para a revitalização e
requalificação do espaço existente, fez-se um diagnóstico abrangente das edificações
considerando as diversas metodologias como levantamento dos elementos arquitetônicos,
análise tipológica e de patologias, entre outras, que permitam dar um direcionamento aos
técnicos responsáveis pelo restauro visando garantir ao local o registro de sua passagem pelos
anos (Figura 5).
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Figura 5. Planta arquitetônica da edificação número 2 – residência do Comandante. Fonte: Roberta Silva, 2012.
Neste sentido, mais uma vez a Carta de Veneza coloca que mais importante do que a
relevância artística e histórica de um bem é a sua ambiência, ou seja, o espaço em que está
inserido (CURY, 2004). Desta forma, o patrimônio passa a ter valor por seu conjunto, pela
paisagem, pelas técnicas construtivas, usos e representações que o compõem. Preservando
este espaço está se permitindo que bens de interesse coletivo possam continuar existindo para
a apreciação das pessoas que fazem parte de sua história e das gerações futuras.
Os espaços de convívio e habitação são repletos de significados, lembranças e
memórias que nos permitem diversas sensações e nos fazem viajar no tempo e nos reconhecer
como parte integrante destes espaços. A relação com os espaços deve se dar de forma técnica
e sensível e nos permitir tirar partido de locais, materiais, paisagens, facilitando o processo
construtivo. Quanto a Ilha da Rita, percebemos claramente esta percepção desde o âmbito da
escolha de sua implantação, até os materiais e funcionamento, além da proximidade com a
parte continental para que houvesse um abastecimento simplificado de água, melhor
transporte de materiais para as obras e uma localização estratégica para a entrada da Baía
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Babitonga. A importância da preservação deste patrimônio, coberto de memórias, reflete os
anseios e necessidades da época, bem como a identidade de uma população que se vê como
parte integrante do seu processo. Pois esta “[...] costura [...] o sujeito à estrutura. Estabiliza os
sujeitos quanto aos mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais
unificados e previsíveis.” (HALL, 2006, p. 10). A Ilha da Rita representa uma parte
importante da história da comunidade de São Francisco do Sul e principalmente do Distrito do
Saí não só pelo seu uso como Base Naval, mas pela proximidade e recordações que transmite
(Figura 6 e 7).
Figura 6. Pórtico da antiga base naval. Fonte: Roberta Silva, 2012.
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Figura 7. Edificação número 1 – residência da Tropa. Fonte: Roberta Silva, 2012.
A revitalização do local não implica apenas em restaurar as suas edificações
(residências, tanques, pórtico), mas também garantir a sua ambiência, ou seja, o contexto em
que foram implantadas, as relações com a natureza, sensações causadas quando se está lá.
Este registro nos permite a leitura do conjunto e a preservação da identidade do local com o
objetivo de desenvolver a consciência da importância do legado que foi deixado do passado.
A construção da significação simbólica é, simultaneamente, um ato de conhecimento
e um ato afetivo. Tanto a cognição e os afetos que estão presentes nas representações
sociais encontram sua base na realidade social. [...] É quando as pessoas se
encontram para falar, argumentar, discutir o cotidiano, ou quando elas estão
expostas às instituições, aos meios de comunicação, aos mitos e à herança histórica
cultural de suas sociedades, que as representações sociais são formadas.
(JOVCHELOVITCH, 2000, p. 20)
O conceito de preservação foi sendo alterado no decorrer dos tempos, o conceito
inicial em que apenas bens considerados monumentais deveriam ser preservados foi, ao longo
do século XX, se ampliando. Em 1964, o ICOMOS (Conselho Internacional de Monumentos
e Sítios) produz a Carta de Veneza que versa sobre a conservação de monumentos e sítios. A
partir da produção deste documento, a discussão sobre a preservação patrimonial amplia seus
discursos e passa a englobar, não só os ditos monumentos, mas conjuntos urbanos inteiros,
homogêneos ou não.
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[...] patrimônios culturais seriam entendidos mais adequadamente se situados como
elementos mediadores entre diversos domínios social e simbolicamente construídos,
estabelecendo pontes e cercas entre categorias cruciais, tais como passado e
presente, deuses e homens, mortos e vivos, nacionais e estrangeiros, ricos e pobres,
etc. (GONÇALVES, 2005, p. 17).
Levando em conta estes contextos, pesquisas e o entendimento de que a Ilha da Rita é
um espaço de memórias onde grande parte da população local se reconhece, é que se propõe
sua preservação e a valorização destes valores tão comentados e comprovados como de
grande importância para o legado futuro. Preservar a Ilha, mais do que permitir que uma obra
de grande valor histórico ligada diretamente à história de um grupo, porém de interesse
nacional, seja resguardada, é na verdade permitir que bens de interesse coletivo possam
continuar existindo para a apreciação das gerações futuras. Acredita-se que o uso adequado do
espaço proporcionará a transmissão do conhecimento sobre o local e o manterá “vivo”.
En este sentido, la conservación del Patrimonio Histórico o Cultural no debe
contemplarse con una visión – diríamos reducionista - en la que sólo se tuvieran en
cuenta los aspectos relativos a su mantenimiento en las mejores condiciones
posibles, sino que debe ser tratado con uma perspectiva mas amplia. Preservación y
“puesta en valor” (es decir, consideración de los elementos que posibilitan la
rentabilización – económica y social - del Patrimonio) son la cara y la cruz – o
mejor, las dos caras - de una misma moneda y como tal, aspectos de un único
problema, indisolublemente unidos. Al hablar de valorización o rentabilización nos
referimos a la conexión entre la oferta que constituyen los bienes culturales – los
valores sociales, educativos y estéticos que llevan incorporados - y la demanda
potencial de usuários que se expresa básicamente en el turismo cultural (HIERRO,
web, 2010).
O entendimento destas ambiências, não somente do espaço físico e sua arquitetura
em si, nortearão o projeto no sentido de que a revitalização não deixe alterar estas percepções
e contatos tão próximos com a natureza que são tão importantes para a identificação do local e
a clareza de seu real uso. “[...] toda a construção patrimonial é uma representação simbólica
de uma dada versão da identidade, de uma identidade “manufacturada” pelo presente que a
idealiza” (MAGALHÃES, 1985, p. 25). Esta percepção mais qualitativa, aberta e
interdisciplinar é que se buscou para a concepção do projeto de revitalização da Ilha. O estudo
do espaço perante a perspectiva de cada profissional em suas áreas específicas e as
contribuições e discussões sobre a Ilha, é que foram condicionando o projeto. São as ciências
sociais e ambientais se articulando com a arquitetura e urbanismo em prol da preservação.
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Embora as edificações ainda mantenham grande parte de suas características
construtivas originais, as reformas feitas no decorrer do tempo foram alterando parte das
características internas, e algumas externas, das edificações. A falta de documentação e
registros específicos contribuíram para a falta de informações precisas de como estas
edificações foram concebidas e alteradas ao longo do tempo. O intemperismo, a falta de
manutenção e reformas ocorridas sem nenhum critério levaram o conjunto a um estado de
conservação precário, que exige intervenções de restauro imediatas (Figuras 8 e 9). Porém,
estes fatos não fizeram com que a história escrita pela implantação, edificações, tanques e
equipamentos necessários para o seu funcionamento como Base Naval, fossem apagados. A
Ilha tem uma importância pelo seu conjunto arquitetônico, implantação e ambiência e deve
ser preservada.
Figura 8. Danos causados pelo intemperismo em uma das construções. Fonte: Roberta Silva, 2011.
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Figura 9. Danos causados pelo intemperismo e vandalismo em uma das construções. Fonte: Roberta
Silva, 2011.
O conjunto remete às arquiteturas militares, principais referências quando se pensa que
o Brasil foi colonizado pelo mar e, foi a partir dele, que as cidades começaram a ser
configuradas. As edificações militares foram uma das primeiras a serem implantadas no
período de colonização, pois se faziam necessárias à defesa do território. Neste contexto,
foram construídas diversas fortificações e serviços de apoio à defesa, onde as escolhas dos
locais para implantação eram feitas conforme a topografia do local, acessos e contornos,
considerando os que permitissem boa visualização do entorno e também favorecessem o
abastecimento. Hoje, na maioria das vezes, são edificações esquecidas, abandonadas ou
totalmente “esmagadas” pelas cidades que cresceram e já não tem as mesmas necessidades de
proteção passada. Porém, a memória de um país, estado ou local, está diretamente ligada a
estas edificações que serviam de apoio às defesas militares, pois, como observamos, foram
elas que iniciaram efetivamente a constituição dos espaços e cidades.
A implantação da Ilha da Rita revela um ajuste às condicionantes locais, bastante
comum na arquitetura militar portuguesa, bem como suas construções trazem espaços
bastante específicos como o Paiol, com o nome ainda devidamente registrado na porta da sala
destinada para a guarda de armamentos e munições. O projeto de revitalização da Ilha está
embasado na metodologia sugerida pelo Programa Monumenta através de seus cadernos
intitulados “Cadernos Técnicos”, onde estão prevista três etapas para a definição de um
projeto de revitalização: análise e conhecimento do bem, diagnóstico e proposta de
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intervenção. Dentro de cada etapa, há subdivisões que determinam o nível de detalhamento e
investigação necessários para uma boa proposta, visando garantir não só a perpetuação do
bem, mas principalmente a sua identidade, identificação, tão importante para o
reconhecimento da população como parte integrante deste contexto, casando perfeitamente
com o objetivo desta investigação sobre a Ilha da Rita.
Relembrar a importância da continuidade do processo cultural a partir de nossas
raízes não representa uma aceitação submissa e passiva dos valores do passado, mas
a certeza de que estão ali os elementos básicos com que contamos para a
conservação de nossa identidade cultural. (MAGALHÃES, A., 1985)
Todo este estudo interdisciplinar irá embasar esta leitura do espaço necessária para a
adequada preservação, não a preservação apenas da arquitetura e dos remanescentes
arqueológicos, mas dos valores embutidos em cada espaço encontrado no território da Ilha da
Rita.
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O PATRIMÔNIO CULTURAL DA ILHA DA RITA (SANTA