A (RE)LEITURA DA CULTURA CLÁSSICA EM “O ANEL DE POLÍCRATES”
Cláudia de Fátima Montesini
Resumo:
O conto “O anel de Polícrates”, publicado na coletânea Papéis Avulsos, em 1882,
apresenta-se em forma de diálogo entre as personagens A e Z, sobre a vida de um
conhecido em comum, Xavier. Um dos interlocutores, numa de suas falas, realiza uma
referência à Mitologia Greco-Romana, ao episódio do anel de Polícrates, registrado por
Plínio, o Velho, em História Natural. O mito é recontado com detalhes, no texto
machadiano, ao mesmo tempo em que são realizadas, ainda, referências a Homero,
Plínio e Péricles, grandes personalidades da época clássica. Essa análise faz parte de
uma pesquisa que estamos desenvolvendo, em nível de mestrado, na qual buscamos
verificar qual função o constante diálogo intertextual travado pelo discurso machadiano
com a cultura clássica exerce e de que maneira preenche o texto.
Palavras-chaves: Intertextualidade, Conto, Cultura Clássica, Machado de Assis.
Introdução
O conto “O anel de Polícrates”, faz parte da coletânea Papéis Avulsos (1882), publicada
logo após Memórias Póstumas de Brás Cubas, romance considerado “divisor de águas”
na produção literária machadiana.
A maioria dos contos desse livro foi publicada anteriormente em jornais e revistas, entre
eles a “Gazeta de Notícias”, um dos principais veículos de comunicação daquela época.
A Gazeta tinha um formato modesto e colunas estreitas, era um jornal barato, popular,
liberal. “Foi o jornal que iniciou a entrevista, a reportagem fotográfica, a caricatura
diária, o que deu a fórmula a reportagem moderna” (Costa & Vidal, 1940, p, 160).
Ao final de 1882, os contos foram reunidos pelo autor e então, publicados como Papéis
Avulsos, porém antes de qualquer conclusão, Machado fez a seguinte advertência no
início da coletânea (Assis, 1998, v.2, p.527):
“Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade. (...) Avulsos são
eles, mas não vieram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma
hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma
mesa.”
Segundo os estudiosos do autor em questão, Papéis Avulsos representa, para os textos
curtos e médios, o mesmo que Memórias Póstumas de Brás Cubas para o romance, ou
seja, a passagem da fase experimental para a fase de total maturidade. Na coletânea
escolhida para a análise, Machado já apresenta todos os recursos de estilo, de humour e
de fabulação, característicos dessa sua “nova fase”, como aponta Gledson (Assis, 1998,
v.1, p. 31) “O que é mais extraordinário nesta mudança, (...), é que o poder da prosa de
Machado ganha uma intensidade e uma confiança inéditas.”.
Nos contos existe a referência a autores e trechos de obras da literatura mundial,
poderíamos imaginar que tal recurso é simples amostra de erudição do autor, mas para
os que conhecem bem o texto machadiano, fica evidente que nele tudo tem uma função
maior e, nesse estudo mais aprofundado sobre a influência Clássica, buscaremos
verificar de que maneira essas citações preenchem o texto.
A metodologia adotada foi a fenomenológico-hermenêutica já que se trata de análise de
texto literário, com a finalidade de apresentar proposta crítica com interesse nas
possíveis interpretações suscitadas pelos contos estudados.
Por tratarmos de mitologia, achamos necessário definir qual concepção seguiremos;
também há um breve aporte aos principais textos teóricos.
Mito e Literatura
A palavra “mito”, segundo Marilena Chauí (2000), origina-se do grego Mythos que
deriva de dois verbos: mytheyo (contar, narrar) e mytheo (conversar, anunciar, nomear).
A etimologia dessa palavra ressalta o caráter oral do mito, o qual era, em sua origem,
sagrado e proferido em público por um poeta rapsodo, que possuía muita confiabilidade
e autoridade, pois era considerado um escolhido dos deuses, e por isso, podia
testemunhar o que narrava ou conhecia quem testemunhou. Para essa estudiosa, o mito
tem três funções fundamentais: explicar tudo o que existe; organizar as relações sociais;
e compensar ou não as atitudes.
Hoje, o mito possui dois significados distintos, no primeiro, mito seria um fruto da
imaginação, ou seja, como uma fábula ou uma ficção. No segundo, o mito designaria
uma história sagrada e verdadeira. Mircea Eliade (1972, p. 11), baseado nessa segunda
acepção afirma que “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento
ocorrido num tempo primordial, num tempo fabuloso do princípio.” E ainda acrescenta
que o mito “fornece os modelos para a conduta humana, conferindo, por isso mesmo,
significação e valor à existência” (Eliade, 1972, p. 8). Já para esse estudioso, a principal
função do mito é revelar os modelos “de todos os ritos e atividades humanas
significativas” (Eliade, 1972, p. 13). Ou seja, “os mitos revelam que o mundo, o homem
e a vida têm uma origem e uma história sobrenaturais, e que essa história é significativa,
preciosa e exemplar” (Eliade, 1972, p. 22).
No Dicionário de Termos Literários, defende-se que a palavra “mito” deve ser separada
pelas diferentes perspectivas em que é abordada: Filosofia, Lingüística, Psicologia,
Teologia, Antropologia e Crítica Literária. Do ponto de vista da Antropologia, o mito é
uma narrativa do que os deuses ou os seres divinos fizeram no começo do Tempo: “O
mito é encarado como a palavra que designa um estágio de desenvolvimento humano
anterior à História, à Lógica, à Arte” (Moisés, p. 342). Cada mito nos mostra como uma
realidade veio a existir, seja uma realidade total, ou um fragmento dessa realidade. Do
ponto de vista literário, Aristóteles aproxima o mito da narrativa, pois “o mito não só
expressa o sentido profundo das coisas, como também o expressa, particularmente,
através de uma história” (Moisés, p. 345).
Dowden (1994, p. 18) estuda uma “degeneração” do mito, separando-os em quatro
estágios:
Estágio 1: o mito é associado com o ritual religioso e é esta a sua função;
Estágio 2: o mito se torna “história”;
Estágio 3: a “história” se converte em folclore;
Estágio 4: o folclore se presta a objetivos literários.
Esclareça-se que estamos falando da mitologia clássica, pois ainda há mitologias tidas
como sagradas como a judaico-cristã. Então temos que na Grécia Antiga, os mitos
foram sagrados, mais adiante com o advento da filosofia, passam a ser histórias
exemplares, símbolos. Ficam “esquecidos” durante boa parte da Idade Média, por serem
julgados como heresias pela Igreja Católica, foram retomados a partir da Renascença,
como símbolos e/ou alegorias e por sua “arte superior”, e assim nos chegam até hoje.
Esse mito antes oral, só nos foi possível conhece-lo, pela passagem dos mesmos a
literatura escrita. Assim, consideramos o mito greco-romano como uma narrativa que
foi sagrada, que transmitia a realidade, mas que na época de Machado de Assis, já não o
é mais, assim o autor aproveita-as como uma fonte literária, livre para as suas
experimentações, Fiker destaca que um dos principais usos do mito, na literatura, é a
modalidade temática:
“A modalidade temática ocorre de maneira direta quando da utilização –
tradicionalmente imposta ou deliberadamente escolhida – de um tema mítico para
desenvolvimento literário por um autor, ou através de todo um processo de
romanceamento de um mito ou tradição mítica.
Finalmente, se nesta etapa o mito ainda se articula em narrativas, (...) sua articulação –
como foi sublinhado diversas vezes – se dá em termos literários, isto é, em função de
diretivas não mais estritamente religiosas, mas estéticas. Não se trata apenas do grau de
literariedade que a narrativa oral adquire ao ser escrita, impondo ao mito certa[s]
características que lhe são originariamente estranhas. Trata-se aqui de uma mudança
profunda no nível da finalidade mesma da narrativa. Os enredos tradicionais se
desintegram em função de novas estruturas aglutinantes decorrentes das necessidades.”
(Fiker, 2000, p. 57 e 69)
Segue-se agora, uma breve explanação dos estudos de intertextualidade, que engendram
nosso estudo.
O que é intertextualidade?
Para estudarmos a intertextualidade presente nos textos machadianos, com relação à
cultura clássica, nos fundamentaremos na noção de dialogismo e polifonia estabelecida
por Mikhail Bakhtin em Problemas da poética de Dostoiévsky (2005), no qual tal
teórico percebeu, através de seus estudos, que não havia uma voz unificadora, existia
sim uma “pluralidade de vozes” (polifonia) que apontava para uma nova forma de
discurso (dialogismo).
“(...) a representação das personagens em Dostoiévski é acima de tudo a representação
de consciências, que não se trata da consciência de um eu único e indiviso mas da
interação de muitas consciências, de consciências isônomas e plenivalentes que
dialogam entre si, interagem, preenchem com suas vozes as lacunas e evasivas deixadas
por seus interlocutores (...)” (Bakhtin, 2005, p. 7)
Ainda do mesmo autor, utilizaremos o conceito de carnavalização, presente na obra: A
cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais,
que por meio da análise do contexto e linguagem utilizada por Rabelais, verificou que
era recorrente em suas obras o carnavalesco, cuja principal característica é o riso “(...) o
mundo inteiro parece cômico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu
alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas
ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita
simultaneamente” (Bakhtin, 1999, p. 10).
A partir dos estudos de Bakhtin, Julia Kristeva (1978) observou que todos os textos
eram formados por “um diálogo de várias escritas: do escritor, do destinatário (ou da
personagem), do contexto cultural actual ou anterior” (p. 70). E através da teoria sobre
dialogismo e polifonia, Kristeva fundamentou os estudos sobre intertextualidade. Essa
estudiosa foi a primeira a definir, nomear e diferenciar os principais usos e funções da
intertextualidade (p. 72):
“A palavra (o texto) é um entrecruzar de palavras (de textos) onde se lê pelo menos uma
outra palavra (texto). (...) todo o texto se constrói como mosaico de citações, todo o
texto é absorção e transformação de um outro texto. No lugar da noção de
intersubjectividade instala-se a de intertextualidade, e a linguagem poética lê-se, pelo
menos como dupla.”
A intertextualidade é o diálogo de um texto com outros textos e/ou com o contexto.
Esse diálogo/relação pode ser estabelecido pelo conteúdo, pela forma, ou por ambos.
Com o estabelecimento de uma relação intertextual, o autor provoca uma interação ente
o sentido dos dois textos, podendo reafirmá-lo, negá-lo, satirizá-lo, etc. Com isso,
chegamos a principal contribuição de Laurent Jenny, que negando a banalidade de
significação estabelecida por Kristeva, afirmou que “a intertextualidade designa não
uma soma confusa e misteriosa de influências, mas o trabalho de transformação e
assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador, que detém o comando
de sentido” (1979, p. 14). Para esse pesquisador, sem a intertextualidade a obra literária
não teria a mesma importância: “Fora da intertextualidade, a obra literária seria muito
simplesmente incompreensível, tal como a palavra duma língua ainda desconhecida”
(Jenny, 1979, p. 5), ou seja, seria impossível pensar o texto literário fora de um sistema
literário.
Considerando-se o texto como esse “ponto de intersecção de muitos diálogos” (Barros e
Fiorin, 1994, p. 4), há uma possibilidade de compreensão muito mais ampla, propiciada
pelo trabalho intertextual, que Machado de Assis fornece ao seu leitor ao fazer
referências à cultura greco-romana.
Ao amigo
Em nota Machado de Assis afirma que a personagem Xavier é na verdade seu amigo
Artur de Oliveira “Menos a vaidade, que não tinha, e salvo alguns rasgos mais
acentuados, este Xavier era o Artur”. (Assis, 1998, v.2, p. 530)
Artur de Oliveira nasceu em Porto Alegre, veio para o Rio de Janeiro, aos dezesseis
anos, e morreu nessa cidade em 21 de agosto de 1882, aos trinta e um anos. Foi
professor do Colégio D. Pedro e patrono da Academia Brasileira de Letras, por ter
morado na França, introduziu o pensamento parnasiano no Brasil, sobre esta influência,
Manuel Bandeira declarou:
“Artur de Oliveira, curioso tipo de boêmio, que quase nada produziu, mas tendo
residido algum tempo em Paris, exerceu de volta enorme fascinação sobre o meio
literário brasileiro, para o qual foi sem dúvida o revelador da corrente parnasiana já
dominante em França.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_de_Oliveira)
Segundo o site da Academia Brasileira de Letras, outro amigo de Artur, Alberto de
Oliveira, numa entrevista a Terra Roxa e Outras Terras, em 1926, também dá fala da
importância de Artur de Oliveira na introdução do parnasianismo no Brasil: "O Artur lia
Gautier, Banville, Sully-Prudhomme, Baudelaire e empolgava-nos com seu
entusiasmo." Mas, na verdade, conversou mais do que escreveu. Sua produção literária
é escassa e, não corresponde ao que se espera da genialidade apregoada pelos que com
ele conviveram.
O conto
O conto “O anel de Polícrates” foi publicado pela primeira vez em dois de julho de
1882, na Gazeta de Notícias.
Esse conto apresenta-se em forma de diálogo entre as personagens “A” e “Z”, sobre a
vida de um conhecido em comum, Xavier. Porém parece que não estão falando da
mesma pessoa, para “A”, Xavier é um homem rico, fértil em idéias, e muito feliz, já
para “Z”, Xavier é um homem humilde, como ele próprio diz “não é mendigo, nunca foi
nababo”. “A” então adverte que ele está falando do Xavier interior e “Z” está falando do
Xavier exterior. E “A” passa a narrar as diversas idéias de Xavier, até que um dias,
essas se esgotam. É quando Xavier a olhar pela janela, vê um cavaleiro passando...
“De repente, o cavalo corcoveou, e o taful veio quase ao chão; mas sustentou-se, e
meteu as esporas e o chicote no animal; este empina-se, ele teima; muita gente parada
na rua e nas portas; no fim de dez minutos de luta, o cavalo cedeu e continuou a marcha.
Os espectadores não se fartaram de admirar o garbo, a coragem, o sangue-frio, a arte de
cavaleiro. Então o Xavier, consigo, imaginou que talvez o cavaleiro não tivesse ânimo
nenhum; não quis cair diante de gente, e isso lhe deu a força de domar o cavalo. E daí
veio uma idéia: comparou a vida a um cavalo xucro ou manhoso; e acrescentou
sentenciosamente: Quem não for cavaleiro, que o pareça.” (Assis, 1998, v. 1, p. 376 –
377)
“Conhece o caso do anel de Polícrates?” É dessa maneira que “A” introduz o mito de
Polícrates na narração.
“(...) Polícrates governava a ilha de Samos. Era o rei mais feliz da terra; tão feliz, que
começou a recear alguma viravolta da Fortuna, e para aplacá-la antecipadamente,
determinou fazer um grade sacrifício: deitar ao mar o anel precioso que, segundo
alguns, lhe servia de sinete. Assim fez; mas a Fortuna andava tão apostada em cumulálo de obséquios, que o anel foi engolido por um peixe, o peixe pescado e mandado para
a cozinha do rei, que assim voltou à posse do anel. Não afirmo nada a respeito desta
anedota; foi ele quem me contou, citando Plínio, citando...
(...)
Experimentemos a fortuna, disse ele; vejamos se a minha idéia, lançada ao mar, pode
tornar ao meu poder, como o anel de Polícrates, no bucho de algum peixe, ou se o meu
caiporismo será tal, que nunca mais lhe ponha a mão.” (ASSIS, 1998, v.1, pág. 377 –
378).
E então como o anel jogado ao mar e retornado a posse de Polícrates, Xavier quis testar
sua sorte, para saber se um dia sua idéia retornaria a ele. A idéia de Xavier espalhou-se,
mas sempre que alguém a dizia, não atribuía a ela autoria.
Como o próprio narrador já se refere, esse mito é recontado brevemente por Plínio, o
Velho, que nasceu em 23 ou 24 e morreu na grande erupção do Vesúvio; escreveu
muitas obras (quase todas perdidas) sobre oratória, gramática, arte militar e história; seu
trabalho mais importante (e que se conservou) foi o seu História Natural, em trinta e
sete livros, dedicada ao então futuro imperador Tito, o mito de Polícrates está
brevemente contando nessa obra, no livro 33, capítulo VI, da seguinte maneira:
A gema do tirano Polícrates 1
II. I. Assim começou a moda das pedras preciosas. Logo a estima se transformou em
paixão. Polícrates, o tirano de Samos, respeitado na ilha e no continente, querendo
expiar, pelas perdas, o que ele próprio chamava de excesso de prosperidade, acreditou
fazer suficiente sacrifício, e render dom por dom à Fortuna, pela privação voluntária de
uma pedra: ele acreditou que a dor dessa única perda seria o bastante para colocá-lo ao
abrigo da inveja e da inconstância da deusa. Cansado de uma felicidade incessante, ele
embarca, atinge o alto mar, atira seu anel às ondas. Um enorme peixe, grande o
suficiente para alimentar o rei, engole a gema; depois, acaba nas mãos do cozinheiro de
Polícrates, que a deixa reaparecer aos olhos do tirano. Presságio sinistro! Pérfida
restituição da Fortuna! Essa gema, com certeza, era uma esmeralda: a vimos em Roma,
no templo da Concórdia, presa a um chifre de ouro, oferenda de Augusto: é quase a
menor do templo; cem outras mais belas vêm em primeiro lugar.
Porém o mito é muito resumido em Plínio, e recorremos a outras fontes para acessarmos
o mito por completo, segundo Greene e Sharman-Burke (2001), Polícrates, o tirano da
ilha de Samos, parecia ser o homem mais feliz do mundo, governava uma ilha
riquíssima (que foi tomada a força dos seus dois irmãos), raramente se passava um dia
que não recebesse notícias de uma vitória de sua frota ou da chegada ao porto de um
navio seu, carregado de tesouros e escravos.
Buscou aliança com Amósis, grande faraó do Egito, que a princípio acolheu a amizade,
porém o faraó temente aos deuses, depois de algum tempo, mandou a seguinte
mensagem a Polícrates:
“O homem que é sempre feliz tem muito a temer. Ninguém chega a um poder como o
vosso sem fazer inimigos, e até os próprios deuses sentem inveja de um homem tão bem
sucedido (...). Aceitai meu conselho: buscai vosso mais rico tesouro e oferecei-o em
sacrifício aos deuses, para que eles não vos tratem mal.” (Greene e Sharman-Burke,
2001, p. 142)
Polícrates aceitando o conselho do amigo escolheu um anel de esmeralda, muito valioso
e um dos tesouros que ele menos queria perder, e o jogou ao mar, porém antes mesmo
de jogá-lo lamentava sua perda, e durante vários dias, censurou-se por tê-lo jogado com
1
Tradução para o português realizada pela Profa. Dra. Maria Cristina Parreira da Silva, da Área de
Francês do Departamento de Letras Modernas da UNESP de São José do Rio Preto – SP, baseada na
versão francesa (Plínio, 1883, p. 299)
tanta precipitação. Uma semana depois, um pescador levou ao palácio um peixe
enorme, para agradar ao governador da ilha. Quando os criados abriram o peixe,
encontraram em sua barriga o mesmo anel de esmeralda que tinha sido jogado e o
entregaram ao rei. Muito feliz por ter seu tesouro de volta e por achar que os deuses
estavam dispostos a lhe concederem boa sorte, o governante enviou uma mensagem a
Amósis, contando todo o ocorrido. Para sua surpresa, a resposta do faraó egípcio é
desfazer a aliança entre eles, por acreditar que o retorno do tesouro era sinal de que os
deuses não aceitaram a oferenda de Polícrates e estavam dispostos a puni-lo. Mas em
seu orgulho e por se julgar agora invencível, o soberano de Samos continuou a buscar
riquezas e conquistas, até que Orestes, rei da Pérsia, arma uma cilada para Polícrates,
que mesmo contra as previsões do oráculo e os protestos da filha, vai a esse reino em
busca de um grande tesouro que o rei lhe oferecera, e morre crucificado.
Podemos notar que Machado de Assis manipulou o mito, ocultando o final trágico de
Polícrates, para então compará-lo com Xavier, que foi um homem afortunado, possuía
idéias brilhantes, mas não conseguia concretizá-las literariamente. Desconhecendo o
final trágico do soberano, Xavier deseja ser Polícrates e ter sua máxima de volta, para
então materializá-la, mas a idéia nunca retornou ao seu poder, para o seu azar. O texto
de machadiano não considera as relações com o divino, não fala da oferenda, tudo é
uma questão de sorte; Polícrates é tido como um afortunado por ter seu anel de volta,
enquanto o “caiporismo” de Xavier não permite que a sua máxima retorne a ele.
Encontramos também, nesse conto, outras referências, em uma das falas de “A”, sobre
Xavier, temos a seguinte narração: “Sabe quem lhe fazia o café, de manhã? A Aurora,
com aqueles mesmos dedos cor-de-rosa, que Homero lhe pôs.” (Assis, 1998, v.1, pág.
372). A Aurora, deusa do amanhecer, é descrita como ruiva com os dedos cor-de-rosa
tanto na Ilíada quanto na Odisséia. Podemos perceber uma maneira do escritor
brasileiro de fazer alusão à deusa da mitologia grego-romana, e ao mesmo tempo de
demonstrar que ele não vê nela algo sacro, já que se refere a ela através de Homero “que
lhe pôs” os dedos cor-de-rosa.
Há também uma outra referência direta a Homero, pai da literatura latina “Nem tudo era
límpido; mas a porção límpida superava a porção turva, como a vigília de Homero paga
os seus cochilos”. (Assis, 1998, v.1, pág. 375). Encontramos essa referência em
Horácio, na obra Arte Poética.
“Há, todavia, defeitos que devemos estar prontos a perdoar, pois as cordas do
instrumento dão a nota procurada pela mente e pela mão, porém muitas vezes produzem
uma nota aguda quando era buscada uma grave, e a seta nem sempre atinge o alvo.
Quando um poema está cheio de belas passagens, não irei insistir em um defeito que o
poeta descuidadamente deixou escapar, ou que a frágil natureza humana não pôde
evitar. O que concluiremos disso, então? Do mesmo modo que o escriba não merece
indulgência se teima em cometer o mesmo erro, por mais que tenha sido advertido, ou
que se ri do músico se sempre erra na mesma corda, assim também o poeta que erra
frequentemente me parece um outro Cerilo, cujos dois ou três bons versos saúdo com
divertida surpresa, por outro lado, eu me espanto quando às vezes o bom Homero
cochila, embora seja natural que um ligeiro descuido surja ocasionalmente em um longo
poema.” (Tringali, 1994, p. 94)
Homero foi considerado o grande poeta épico grego; há dúvidas tanto do local do seu
nascimento quanto da data correta. Segundo o Dicionário Oxford de Literatura
Clássica, quanto à época podemos situa-lo no século IX a.C, que é a data mais aceita
pelas autoridades. Aristóteles atribui a esse poeta “excelência no estilo sério de poesia”,
e “elocução e pensamentos inigualáveis” (Harvey, 1987, p. 279-280).
Para finalizar temos uma última referência, agora a duas grandes personalidades da
cultura clássica: “O Xavier não só perdeu as idéias que tinha, mas até exauriu a
faculdade de as criar; ficou o que sabemos. Que moeda rara se lhe vê hoje nas mãos?
Que sestércio de Horácio? Que drama de Péricles? Nada”. (Assis, 1998, pág. 375).
Horácio (65 a 8 a.C), segundo o Dicionário Oxford de Literatura Clássica é
considerado um dos maiores poetas latinos, e deve essa posição à perfeição de sua
forma de escrita; foi estratego e protegido de Mecenas, de quem recebeu uma grande
herança, milhares de sestércio, antiga moeda romana, e uma propriedade. Péricles 2 (500
a 429 a.C) foi um grande estadista ateniense, eleito estratego por inúmeras vezes,
“dominou” Atenas pela sua oratória persuasiva e pelo seu caráter, seu objetivo político
era fazer Atenas uma democracia ideal, “em que houvesse equilíbrio entre os interesses
do Estado e os de cada cidadão” (Harvey, 1987, p. 388). Outro motivo para a
consagração de Péricles foram as obras executadas durante sua “administração”, podese destacar entre elas o Pártenon, os Propileus e a Muralha Longa entre Atenas e
Peiraieus.
Buscando uma ligação entre as referências, podemos notar que Homero, Horácio,
Plínio, Péricles foram grandes pensadores da época clássica, e que devem essa posição
em grande parte a sua excelente oratória, talvez ponto que os ligue a Xavier e assim
também a Artur de Oliveira, fazendo um complexo jogo intertextual.
Palavras Finais
Primeiramente, gostaria de esclarecer que essa é uma primeira análise do conto e que ao
contrário do que desejava, infelizmente não tive muito tempo para tal trabalho, por isso,
agradeço críticas e sugestões que me sejam feitas.
Bom, voltemos ao texto, segundo os estudos de Julia Kristeva (p.75) “O dialogismo
bakthiniano designa a escrita ao mesmo tempo como subjectividade e como
comunicatividade, ou melhor dizendo, como intertextualidade; face a esse dialogismo, a
noção de ‘pessoa-sujeito da escrita’ começa a diluir-se, para ceder o lugar a uma outra, a
de ‘ambivalência da escrita’”. Para essa autora a ambivalência é a inserção do contexto
ou de outras obras no texto. Assim cada texto adquire duas significações, ou seja, se
torna ambivalente.
Como vimos no conto “O anel de Polícrates”, houve uma manipulação do mito, sendo
ocultado seu final trágico, servindo assim para ser um exemplo de fortuna, contra
Xavier que seria o azarado. Ramos (2008, p. 80) destaca que “Em geral, a citação ou
alusão tem o objetivo de dar mais credibilidade ao discurso argumentativo de quem a
utiliza. No discurso machadiano, no entanto, muitas vezes ela aparece distorcida ou
truncada e acaba assumindo funções diferentes.” O mito de Polícrates, original,
conforme a definição de Chauí era um mito compensatório, demonstrava como até o
mais afortunado dos homens poderia ser punido se não se submetesse aos deuses com
sinceridade.
2
Dicionário Oxford de Literatura Clássica, página 388.
O texto machadiano tem um tom de paródia, pois “ora, o que o texto parodístico faz é
exatamente uma re-apresentação daquilo que havia sido recalcado. Uma nova e
diferente maneira de ler o convencional. É um processo de liberação do discurso. É uma
tomada de consciência crítica” (Sant’anna, 1988, p. 31).
Como na “Advertência” feita por Machado de Assis no início do livro, vemos que as
referências não foram feitas ao léu, não são avulsas, são sim resultado de um longo
trabalho de escolha.
Referências bibliográficas
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São Paulo, Companhia das Letras, 1998. 2v.
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http://www.academia.org.br/ - acesso em 01/07/08 às 16h03
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(re)leitura da cultura clássica em O Anel de Polócretes