XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental III-078 - GERAÇÃO DE DADOS UNITÁRIOS PARA OS SERVIÇOS DE LIMPEZA PÚBLICA DE CIDADES DE MÉDIO PORTE: O CASO DE OURO PRETO - MG Renato Andrade Rezende(1) Engenheiro Agrônomo pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL). Especialista em Engenharia Sanitária e Ambiental (PUC/MG). Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos (DESA/UFMG). Professor da Escola Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP). Raphael Tobias de Vasconcelos Barros Engenheiro Civil pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Especialista em Administração Pública (Fundação João Pinheiro/BH). Mestre em Hidráulica e Saneamento (EESC/USP). Diplomado em Estudos sobre Desenvolvimento (Universidade de Genebra). Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Endereço(1): Rua Dr. Cláudio de Lima, 139 A - Rosário - Ouro Preto - MG - CEP: 35400-000 - Brasil - Tel: (31) 551-5652 - e-mail: [email protected] RESUMO Foi estudada a situação dos serviços de limpeza pública (SLP) de Ouro Preto (MG) como elemento para avaliação do potencial de replicabilidade de seus resultados em cidades cuja situação seja semelhante (porte, relevo, atividades econômicas mais importantes, recursos humanos e financeiros disponíveis, etc). O objetivo é discutir, à luz de comparações de um diagnóstico da situação dos SLP de Ouro Preto com outros dados obtidos em cidades diferentes, os valores unitários mais adequados, que possam servir ao dimensionamento dos serviços, ao seu controle, à sua apropriação de custos, de modo a melhorar a eficiência do sistema. Quaisquer análises devem ser feitas com as precauções que uma contextualização detalhada seguramente recomenda. Foram coletadas informações de dados secundários, de dados gerados a partir de questionários e de entrevistas, de observações e de medições 'in loco', de análises de documentos (relatórios, artigos técnicos, etc). Além do distrito-sede, foram analisadas as situações de todos os demais distritos, salientando neles alguns serviços mais importantes (coleta, varrição, capina), típicos das aglomerações de porte semelhante. Foram recuperadas informações dos usuários. Baseado em parte dos dados existentes na Prefeitura e nos outros dados gerados ao longo da pesquisa, foram levantados quantitativos da produção de resíduos sólidos nos distritos, analisados arranjos institucionais, tabuladas opiniões dos moradores, foram calculados rendimentos de funcionários e de equipamentos, calculadas distâncias percorridas e custos dos serviços, etc. Foram considerados e calculados valores unitários da produção 'per capita' de lixo doméstico, das taxas de limpeza pública, dos custos por km rodado de vários veículos, dos deslocamentos médios dos caminhões, de seus rendimentos (em termos de kg de resíduos por viagem). PALAVRAS-CHAVE: Gerenciamento de Resíduos Sólidos, Geração de Dados Unitários. INTRODUÇÃO Uma das dificuldades das administrações municipais de resíduos sólidos é a inexistência de dados sobre valores unitários e sobre sua situação local, que lhes permitam conhecer a realidade e planejar e executar suas tarefas. Quando dados unitários existem, muitas vezes são pouquíssimo confiáveis, visto que gerados por metodologias pouco consistentes, sem grande controle, e baseado em conceitos incompletos e inadequados. Mesmo boas metodologias podem ser bastante diferentes, recomendando que as comparações sejam no mínimo cuidadosas. O Quadro 1 exemplifica a grande diversidade de referências encontradas na literatura ou praticadas por algumas poucas cidades que realizam avaliações dos serviços de limpeza pública. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 1 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental Quadro 1: Rendimento operacional dos serviços de varrição. AUTOR / INSTITUIÇÃO / LOCAL SENGÈS - Limpeza Urbana (1969) FATMA - Fundação de Amparo à Tecnologia e ao Meio Ambiente - Santa Catarina (1985) IPT/CEMPRE (1995) Prefeitura de Tiradentes MG (1996) Prefeitura de Betim MG (1997) SLU - Superintendência de Limpeza Urbana de Belo Horizonte MG (1997) Fonte: referência n.º 16 UNIDADES - 6.400 metros lineares por 3 homens/dia - 1.500 a 2.000 metros/pessoa.dia - 1.000 a 2.500 metros lineares/pessoa.dia - 1.000 metros por dia/servidor em áreas comerciais - 1.200 metros por dia/servidor em áreas residenciais - 1.500 metros por dia/servidor em áreas residenciais - 800 metros por dia/servidor em áreas comerciais com 1 repassagem - 1.400metros de sarjeta gari/dia (média geral) No caso dos serviços de limpeza pública, o que se observa no Brasil é um estágio ainda inicial de equacionamento desta problemática, na maior parte dos casos restritos a cidades de grande porte (capitais estaduais ou pólos regionais) ou a cidades cujos administradores, mais sensíveis ou mais sensatos, resolvem respaldar as atividades deste setor. As raras exceções - cuja divulgação sobre seus feitos é ainda mais rara merecem ser conhecidas e comparadas. Foi estudada a situação dos serviços de limpeza pública (SLP) de Ouro Preto (MG) como elemento para avaliação da proposição de replicabilidade de seus resultados em cidades cuja situação seja semelhante (porte, relevo, atividades econômicas mais importantes, recursos humanos e financeiros disponíveis, etc). Uma primeira parte deste estudo foi apresentada recentemente no Silubesa em Porto Seguro (BA). MATERIAIS E MÉTODOS Ouro Preto tem 61.633 habitantes, dos quais 35.743 na sede (IBGE, 1996), distribuídos em 12 distritos. Os SLP locais têm aproximadamente 140 funcionários, sendo parte destes serviços terceirizados - principalmente o transporte -, ao que se pôde perceber sem especificações e sem muitos controles. A investigação sobre os SLP no município de Ouro Preto ficou concentrada, primeiramente, no distrito-sede (Ouro Preto) que possui cerca de 58% da população total. Numa segunda etapa, foram feitas investigações nos demais distritos que, juntos, representam 42% da população. Foram feitos questionários/entrevistas para levantamento de dados mais específicos (autoridades, encarregados, servidores, prestadores de serviços, população e turistas) visando a obtenção do diagnóstico dos serviços de limpeza pública com relação à estrutura organizacional, custos envolvidos, dificuldades operacionais, deficiências, parâmetros utilizados, arranjos e satisfação pública. Na fase do diagnóstico houve a participação Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP) que obtenção de dados, foram feitas pesagens do urbana do distrito sede (itinerários de coleta distrito sede. de alunos do Curso Técnico de Meio Ambiente da Escola colaboraram nas pesquisas de campo. Ainda com relação à lixo gerado no município; foram analisados mapas da área e varrição); e foram feitas caracterizações dos resíduos do É interessante ressaltar que os dados sobre pesagem, itinerários, rendimentos e custos foram levantados pelos autores, pois a prefeitura, apesar de possuir um departamento específico de limpeza pública, não realiza coleta de dados nem avaliações sobre o desempenho dos serviços praticados. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 2 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental RESULTADOS São citados alguns resultados obtidos após análises dos diversos serviços que compõem a limpeza pública de Ouro Preto, lembrando que essas análises não são feitas com regularidade pela prefeitura local. Por sua importância, constituem-se em fundamentos para o planejamento, execução e fiscalização dos serviços locais. O Quadro 2 abaixo apresenta os elementos utilizados pela Prefeitura Municipal de Ouro Preto (PMOP) para cálculo dos valores das taxas referentes à limpeza pública. Quadro 2: Valores referentes à cobrança da taxa de coleta de lixo. TIPO DE UNIDADES TAXA (*) Residencial 0,25% UPM/m² Comércio/serviço 0,50% UPM/m² Industrial 2,0% UPM/m² Agropecuária 2,0% UPM/m² (*) UPM é Unidade Padrão Municipal = R$ 36,00 (1999) Fonte: Código Tributário Municipal (Lei n.º 106/96 - PMOP) O Quadro 3 abaixo mostra os elementos para cálculo de taxas relativas à limpeza pública para um imóvel residencial de aproximadamente 80m² (0,0025 x R$ 36,00 x 80 = R$ 7,20). O valor das taxas dos serviços de limpeza pública de Ouro Preto é baseado na UPM (Unidade Padrão Municipal), conforme Quadro 2. Sua cobrança é feita juntamente com o IPTU (imposto predial e territorial urbano), anualmente. Quadro 3: Taxas sobre os serviços de limpeza pública (em R$) - IPTU. TIPO DE SERVIÇO Taxa de limpeza pública Taxa de coleta de lixo Taxa de coleta de lixo especial Valor venal do imóvel Fonte: PMOP (IPTU) 1998 2,16 7,02 3.957,55 1999 2,2 7,14 0 3.957,55 2000 2,2 7,14 0 3.957,55 Como não existe uma apropriação de custos no setor de limpeza pública na cidade de Ouro Preto, os valores estipulados tornam-se arbitrários, pois não retratam a real necessidade de arrecadação para execução desses serviços. Não foi possível contabilizar o montante arrecadado no município com as taxas de limpeza pública, pois tais valores não se encontram sistematizados e não foram disponibilizados pela Prefeitura Municipal. A título de comparação, citam-se, como exemplo, os valores estipulados pela Prefeitura Municipal de Itabira MG (Quadro 4), município de médio porte, para coleta de lixo. Essas taxas são cobradas mensalmente junto à conta de água fornecida pelo Serviço Autônomo de Águas e Esgotos (SAAE). Não há outras informações sobre os montantes arrecadados, bem como sobre os custos totais do sistema. Quadro 4: Taxa de coleta de lixo no município de Itabira (MG). TIPO DE COLETA Imóveis residenciais Imóveis não residenciais Coleta industrial Fonte: ITAURB (2000) VALOR (R$) 1,92 a 3,87 3,84 a 7,74 5,78 a 11,61 A apropriação de custos é de fundamental importância para reestruturação dos serviços de limpeza pública, tanto para a melhoria e ampliação da qualidade dos serviços como para servir de referência na cobrança de taxas reais que permita, além da cobertura dos gastos mensais, novos investimentos. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 3 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental Com relação ao rendimento operacional da coleta de lixo, conforme o Quadro 5, verifica-se que os valores estão situados numa faixa inferior aos parâmetros encontrados na literatura e nas normas de algumas prefeituras que realizam este tipo de análise. É claro que a situação de Ouro Preto, ocupação urbana atípica num relevo altamente acidentado, difere bastante da maioria das cidades de porte semelhante, sendo necessário o estudo in loco de parâmetros que melhor retratem a realidade local, pois atualmente parte dos rendimentos praticados é de total desconhecimento dos responsáveis pelo serviço. Quadro 5: Rendimento operacional dos veículos de coleta de lixo em Ouro Preto. PARÂMETRO Peso/trabalhador (Kg/homem.dia) Peso/distância (Kg/Km.dia) Distância percorrida/ guarnição sem o motorista (Km/homem.dia) (*) Horas trabalhadas/dia (h/dia) (*) inclui todo o itinerário (com e sem coleta) Fonte: referência n.º 16 COMPACTADOR 862 63 13,67 VEÍCULO BASCULANTE CAMINHONETE 635 830 35 15 18,25 56 5 6,75 7 O caminhão compactador (tipo Colecom/Fruehaul - 10m³) obteve rendimento superior aos outros veículos de coleta, sendo utilizado apenas para a coleta de lixo (5 a 8 horas/dia). O caminhão basculante é contratado apenas para a coleta de lixo, embora possa ser utilizado para outros serviços, quando pertencente à prefeitura. A caminhonete, apesar do baixo rendimento, é extremamente necessária para as condições de Ouro Preto (ruas estreitas com grande declive). No entanto, um novo dimensionamento do itinerário de coleta de lixo para Ouro Preto deve ser pensado, pois o atual dificulta o controle administrativo contribuindo para um rendimento menos eficaz. Citam-se, como exemplo, conforme Quadro 6, alguns rendimentos obtidos pela Superintendência de Limpeza Pública - SLU, de Belo Horizonte. O exemplo é apenas como ilustrativo, pois as diferenças de rendimento são significativas, reforçando, assim, a necessidade da obtenção de parâmetros locais. Quadro 6: Rendimento operacional - caminhões compactadores. B. Horizonte (*) TRANSPORTE DE LIXO 191,3 Kg/Km.dia 4.030 Kg/homem.dia 8 Horas trabalhadas/dia (*) capacidade: 7 toneladas Fontes: SLU - Belo Horizonte (fev/1997); refer. 16 Ouro Preto 63 862 5 Na literatura especializada encontram-se algumas referências para o dimensionamento da guarnição de coleta, conforme mostra o Quadro 7. Quadro 7: Dimensionamento da guarnição de coleta de lixo. GUARNIÇÃO DE PRODUÇÃO DENSIDADE COLETA (SEM O DIÁRIA POR POPULACIONAL MOTORISTA) TRABALHADOR Alta 3 homens até 6.000 Kg Média 4 homens até 4.000 Kg Baixa 5 homens até 2.000 Kg Fonte: "O que é preciso saber sobre limpeza urbana" ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental TIPO DE VEÍCULO Compactador Compactador s/ compactação 4 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental Durante alguns anos a coleta de lixo em Ouro Preto (distrito-sede) foi praticada em dois turnos. Como podese verificar na figura 1, a coleta diurna, em menor proporção, era feita nos locais de difícil acesso (ruas estreitas) que, durante o período da noite, ficavam ocupados com automóveis estacionados, impossibilitando o recolhimento do lixo. Essa coleta era feita principalmente por caminhonetes. Como resultado da coleta em dois períodos, o lixo permanecia nas calçadas durante todo o dia. A falta de comunicação por parte da prefeitura sobre a freqüência e o horário de recolhimento e a falta de colaboração da população contribuíram para o agravamento da situação. Desde 1999, toda a coleta de lixo do distrito-sede vem sendo feita somente à noite, desmistificando a impossibilidade de acesso pelos veículos coletores durante o período da noite em determinados locais da cidade. Entretanto, seria necessário um melhor acompanhamento dos trajetos praticados visando a sua otimização. Figura 1: Peso do lixo recolhido em Ouro Preto em 1998 (distrito-sede) 25.000 Kg de lixo 20.000 15.000 Coleta noturna (OP) Coleta diurna (OP) 10.000 5.000 0 Segundafeira Terça-feira Quarta-feira Quinta-feira Sexta-feira Sábado dia da semana Fonte: referência n.º 16 Com relação ao levantamento de custos dos veículos pertencentes à prefeitura e aos veículos contratados para realização da coleta de lixo, verifica-se a existência de uma grande disparidade de valores, principalmente entre os veículos da prefeitura que apresentam constantes problemas de manutenção. Uma estimativa de custos referente à coleta de lixo, no município de Ouro Preto, pelos veículos contratados, pode ser observada no Quadro 8. A diferença dos custos praticados entre os veículos compactadores da prefeitura (em bom estado de conservação) e os veículos basculantes contratados chega a ser de R$8,50/t.mês, favorável ao transporte público. Destacam-se como agravantes na composição de custos de coleta de lixo, em Ouro Preto, a falta de controle sobre a definição e a obediência aos itinerários, a qualidade dos serviços prestados pelos veículos contratados e a utilização de equipamentos públicos em mau estado de conservação. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 5 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental Quadro 8: Levantamento de custos dos veículos de coleta de lixo/entulho contratados (jan a nov/98). Distrito (*) Ouro Preto (sede) Tipo de veículo Coleta Coleta de Preço de lixo entulho médio Custos (Km rodados) (Km rodados) pago (R$/Km) anuais (R$) Cam. basculante 101.757 46.426 0,88 130.506,77 Caminhonete 67.873 0,80 54.681,40 Cam. basculante 18.506 0,94 17.478,34 Cam. carroceria 42.792 0,89 38.185,48 Antônio Pereira Cachoeira do Campo, São Bartolomeu e Glaura Engenheiro Correia e Caminhonete 13.808 0,79 10.954,94 Miguel Burnier Santo Antônio do Leite Cam. basculante 19.159 0,76 14.564,92 Amarantina Cam. basculante 14.107 0,78 10.954,90 TOTAL __ 278.002 46.426 277.326,75 (*) não havia informações sobre os dados dos distritos de Rodrigo Silva, Santo Antônio do Salto e Santa Rita de Ouro Preto. Fonte: referência n.º 16 Os serviços de varrição de logradouros também são caracterizados pela falta de coleta, ordenação e análise de dados. Foram encontradas situações onde um gari percorria de 3 a 3,6 Km/dia, enquanto a média girava em torno de 1,2 Km/dia. Entre as principais dificuldades levantadas citam-se: itinerários desproporcionais e pouco detalhados, ausência de pontos de apoio, inexistência de uniformização, falta de campanhas públicas e falta de carrinhos coletores de lixo leve. Como curiosidade, registra-se a utilização de latas de 18 litros (tipo lata de tinta) pelos garis para recolhimento do lixo varrido. Esta prática vem demonstrando bons resultados em locais íngremes e de difícil acesso (becos e escadarias), comuns em Ouro Preto. Numa avaliação sobre os serviços de limpeza pública nos distritos de Ouro Preto - com exceção do distritosede, que possui cerca de 58% da população -, verifica-se a falta de planejamento do setor responsável, ocasionando uma variação significativa nos valores, conforme se observa no Quadro 9. Quadro 9: Comparação entre elementos do serviço de limpeza pública adotados em alguns distritos de Ouro Preto (1998). PARÂMETROS População/coletores (hab/coletor) Freqüência da coleta Custo/habitante.mês (R$) (limpeza pública) (*) Subdistrito de Ouro Preto Fonte: referência n.º 16 Antônio Pereira 910 Stª Rita de Ouro Preto 294 3 vezes/ semana 1,24 2 vezes/ semana 2,35 DISTRITOS Amarantina 446 São Bartolomeu 82 Lavras Novas (*) 233 3 vezes/ semana 1,38 2 vezes/ semana 1,8 3 vezes/ semana 1,57 A disparidade entre os valores adotados nos diversos distritos de Ouro Preto nunca foi analisada pela PMOP, impedindo, assim, que se definam parâmetros e especificações a serem utilizados como referência de custos domiciliares de coleta de lixo, de dimensionamento de mão-de-obra e de equipamentos. ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 6 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental Há resultados que influem nos procedimentos de gerenciamento das atividades. O uso de planilhas permite apropriar corretamente os valores dos serviços, de modo a facilitar a organização e o controle das tarefas, ainda mais quando terceirizadas. O próprio questionamento a respeito da transparência e da competência da iniciativa privada fornece uma indicação da validade deste arranjo. Comparando-se os custos de coleta de lixo estimados para o município de Ouro Preto com valores indicados para países de baixa a média renda, conforme Quadro 10, verifica-se que a cidade de Ouro Preto situa-se na faixa indicada para países de renda média. Infelizmente, tais custos não estão relacionados com investimentos para a melhoria da qualidade e eficiência dos serviços, pois constata-se que a falta de planejamento e de controle administrativo do setor origina falhas na execução das atividades e, conseqüentemente, elevados custos. Quadro 10: Custos de limpeza pública para países de baixa a média renda e estimados para Ouro Preto. Custos (*) de coleta de lixo Local Ouro Preto Município de Países de Países de Indicador (distrito-sede) Ouro Preto baixa renda¹ média renda¹ R$/t (**) 68,00 80,00 27,00 a 54,00 54,00 a 126,00 R$/hab.ano 13,00 17,00 5,40 a 10,80 16,20 a 37,80 R$/domicílio urbano (***) 4,78 5,7 ¹ Cointreau (1992) apud Zepeda (*) para os dados de Zepeda, a equivalência foi US$ 1,00 = R$ 1,80 (jul/00) (**) valores da coleta consideram unicamente salários do pessoal operacional e custos de transporte (manutenção e combustível) (***) números de domicílios: contagem populacional de 1996 (IBGE) A capina das ruas realizadas nos anos de 1998 e 1999 em Ouro Preto se constitui num dos poucos serviços em que foram feitas comparações, pela PMOP, sobre a viabilidade de custos entre a modalidade manual e a química. A capina manual envolvia, em 1998, cerca de 44 pessoas que trabalhavam apenas nas ruas centrais do distrito-sede, formadas por paralelepípedos e pés-de-moleque, que eram mantidas em boas condições. O mesmo não podia ser dito com relação à periferia e aos demais distritos de Ouro Preto que apresentavam situações críticas devido à falta de manutenção desse tipo de serviço. Já no ano de 1999, a PMOP, após levantamentos de custos, realizou a capina química em praticamente todo o município, com produto devidamente licenciado pelos órgãos ambientais. A aplicação foi terceirizada e apresentou bons resultados no controle da vegetação, ao longo do ano. Uma breve comparação financeira pode ser observada no Quadro 11. Quadro 11: Comparação financeira entre a capina manual e química realizadas em Ouro Preto nos anos de 1998 e 1999. Distrito-sede Capina manual Capina química Fonte: referência n.º 16 total/hab.ano (R$) 5,42 2,19 total/m² (R$) 0,52 0,21 No entanto, não basta realizar apenas a apropriação de custos diretamente; teria sido interessante analisar o rendimento operacional da capina manual para o distrito-sede, o que não foi feito, e principalmente para os demais distritos que apresentam, de um modo geral, população inferior a 1000 habitantes, podendo-se aí estudar a utilização de mão-de-obra local. Com relação à destinação final do lixo, observa-se que apesar do município de Ouro Preto apresentar uma situação menos trágica - possui um aterro controlado ao invés de lixão, o que é comum na grande maioria de ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental 7 XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental cidades de porte semelhante -, não são efetuados controles de custos nem monitoramento dos possíveis problemas ambientais decorrentes dessa prática inadequada. CONCLUSÕES Foi constatada a inexistência de parâmetros, de levantamentos de custos e de rendimentos que permitissem às autoridades locais otimizar os serviços. Observou-se, aliás, um desconhecimento técnico generalizado para lidar com situação de lixo do município, talvez resultado da pouca importância que lhe é dado, tanto politicoadministrativamente quanto em termos de reconhecimento da população. Com os dados gerados, pode-se avaliar por comparação as eficiências dos vários serviços de limpeza pública que a prefeitura de Ouro Preto oferece aos munícipes, nos seus vários distritos. Este trabalho tem maior valor face ao seu ineditismo, tendo podido dar a conhecer aos responsáveis pelo serviço informações absolutamente indispensáveis à correta realização de suas atividades, embora até então ignoradas. A inexistência de avaliações sobre a qualidade e rendimento dos serviços permite que ocorram situações injustas na distribuição das tarefas diárias. Portanto, é de fundamental importância que sejam levantados rendimentos unitários para o perfil urbano de Ouro Preto, conforme sugerido para as operações de coleta de lixo. Os valores encontrados situam-se dentro das faixas de variação adotadas para países com nível médio de renda, nos trabalhos internacionais. Alguns, entretanto, situam-se em faixas de países mais pobres, talvez mais devido à desídia com que os serviços são tratados que a outros fatores, tais como dificuldades operacionais ou inexistência de equipamentos. As informações geradas são seguramente úteis a outras municipalidades, que enfrentam a mesma urgência de tratarem mais profissionalmente da problemática dos resíduos sólidos - aqui entendida na sua forma mais ampla, desde da compreensão dos mecanismos de geração dos resíduos até sua forma final de disposição - e, quando é o caso, têm que recorrer a índices mais pertinentes a cidades de maior porte, com realidades próprias bastante diferentes, não sendo raro o uso de valores gerados em países estrangeiros. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. ACURIO, Guido, ROSSIN, Antonio et al. Diagnóstico de la situación del manejo de residuos sólidos municipales en Américal Latina y el Caribe. 2.ed. Washington, D.C., Organización Panamericana de la Salud / Organización Mundial de la Salud,1998. 153p. 2. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENGENHARIA SANITÁRIA E AMBIENTAL - ABES, Rio de Janeiro. Catálogo Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental: Guia do Saneamento Ambiental no Brasil 93/96. 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