XV SEMANA VI CONGRESSO IBÉRICO Contributo dos aerossóis marinhos e continentais para a composição química da precipitação atmosférica na região do Minho (NW de Portugal) Contribution of marine and continental aerosols to the chemistry of the atmospheric precipitation in the Minho region (NW Portugal) Lima, A.S.1, 1 Universidade do Minho, Braga, Portugal Abstract The purpose of this study is to characterize the chemical composition of the atmospheric precipitation in the Minho region (NW Portugal) and to identify the sources of the various constituents found in the rainwater in this area. To accomplish theses objectives a sampling network composed by eight stations was constructed from the littoral of Viana do Castelo to the high mountains of the eastern sector of study area, reaching altitudes as high as 1500 m above sea level in the Gerês Mountain. Sampling period started in August 1997 and was drawn out until October 1998. Collected samples were submitted to chemical analysis for the following parameters: Ca, Mg, Na, K, Cl, SO4 e NO3. The major ions in rainwater showed high Na and Cl concentrations. Precipitation salinity decreases with inland distance and from lower to higher elevation, which is related with the depletion of marine aerosols in the atmosphere of interior areas. Na, Mg and Cl are mostly of marine origin, while NO3, K, Ca and SO4 are essentially derived from continental contributions. Keywords: precipitation, chemical composition, aerosols, Minho Resumo Foi efectuado um estudo da composição química da precipitação atmosférica da região do Minho (NW de Portugal). Para o efeito foi estabelecida uma rede de amostragem constituída por oito estações distribuídas desde o litoral de Viana do Castelo até às terras interiores do Minho oriental, de acordo com um perfil altimétrico que atinge os 1500 m na Serra do Gerês. O período de amostragem situou-se entre Agosto de 1997 e Outubro de 1998, tendo as amostras sido submetidas a análises dos constituintes principais, nomeadamente, Ca, Mg, Na, K, Cl, SO4 e NO3. Em termos médios, a precipitação regional enquadra-se na fácies cloretada sódica e evidencia uma diminuição progressiva da salinidade com o afastamento à linha de costa, o que se explica pela diminuição da concentração dos aerossóis marinhos na atmosfera. Os constituintes de origem predominantemente marinha presentes na precipitação regional são o sódio, o magnésio e o cloreto. O nitrato, o potássio, o cálcio e o sulfato provêm essencialmente de aerossóis de origem continental. Palavras-chave: precipitação, composição química, aerossóis, Minho 10. Hidrogeoquímica/Hidrocheochemistry || 442 XV Semana – VI Congresso Ibérico de Geoquímica Metodologia A rede de amostragem da precipitação atmosférica é constituída por oito estações (Fig. 1), distribuindo-se entre os 41,3º (Caldas da Saúde) e os 42,0º N (Melgaço), em latitude, e os 8,0º (Gerês 2) e os 8,9º W (Viana do Castelo 1), em longitude. Espanha Atlântico A composição química da precipitação é determinada pela fonte do vapor de água e pelos iões adquiridos ou perdidos durante o seu transporte na atmosfera (Appelo e Postma, 1994). Nas zonas costeiras, a principal fonte de substâncias dissolvidas é o “spray” marinho. O rebentamento das ondas liberta para a atmosfera pequenas gotículas de água, ocorrendo precipitação dos sais nelas contidos durante a sua evaporação (Drever, 1988), pelo que, no litoral, a composição da precipitação é semelhante à composição da água do mar. À medida que a distância ao litoral aumenta, diminui a concentração dos elementos derivados do “spray” marinho. A evaporação da água das gotículas produz aerossóis com diferentes tamanhos. As partículas maiores atingem dimensões da ordem de 10 µm e retêm a composição das gotículas parentais. Pelo contrário, nas de menores dimensões, ocorre modificação da composição química inicial. Com efeito, pode haver evaporação do cloreto sob a forma de HCl, provocando depleção neste elemento relativamente ao sódio. Todavia, a composição global da precipitação pode não ser muito afectada, já que o próprio HCl contribui também para o quimismo da precipitação, pelo que a razão Na/Cl é idêntica à da água do mar (Appelo e Postma, 1994). Segundo Berner e Berner (1987), os aerossóis repartem-se, em geral, por cerca de 27% de sais marinhos transportados pelo vento, 17% de sais solúveis de sulfatos, nitratos e amónia formados por emissões gasosas naturais ou antropogénicas, e 41% de poeiras de solo e rocha. Estas percentagens podem ser muito variadas tanto no espaço como no tempo. Os aerossóis incluem ainda uma pequena percentagem de fragmentos produzidos em fogos florestais, partículas derivadas da actividade agrícola, emissões antropogénicas directas e hidrocarbonetos (Langmuir, 1997). O conhecimento da composição química da precipitação numa dada região, a sua distribuição espacial e a variabilidade sazonal são aspectos de maior importância em estudos hidrogeológicos, não só para modelação hidrogeoquímica, mas também no que respeita à avaliação quantitativa de algumas fases do ciclo hidrológico, particularmente da infiltração. Neste estudo, apresenta-se uma síntese da composição química da precipitação da região do Minho (NW de Portugal), baseada em amostras recolhidas em oito estações distribuídas desde o litoral de Viana do Castelo até aos pontos culminantes da Serra do Gerês. A amplitude altimétrica desta rede de amostragem é de 1500 m e a distância rectilínea máxima ao litoral atinge os 70 km. Além da variabilidade espacial, é discutida também a proveniência dos principais mineralizadores, distinguindo-se as comparticipações relativas dos aerossóis de origem marinha e de origem continental. Oceano Introdução Fig. 1 – Rede de amostragem da precipitação atmosférica. O período de amostragem situou-se entre Agosto de 1997 e Outubro de 1998. As amostras foram colhidas em intervalos de tempo variáveis, em função da quantidade de precipitação e foram submetidas à análise dos seguintes parâmetros: condutividade eléctrica (a 25 °C), pH, Ca, Mg, Na, K, Cl, SO4, NO3 e alcalinidade. As determinações analíticas foram realizadas no Laboratório de Águas do Departamento de Ciências da Terra da Universidade do Minho. A verificação da precisão analítica foi efectuada de acordo com o proposto por Oppenheimer e Eaton (1986). Da aplicação dos critérios definidos por estes autores, foram seleccionadas 89 amostras, de acordo com a proveniência apresentada na tabela 1, onde se indicam também a altitude e a distância ao litoral de cada uma das estações. Tabela 1 – Características da rede de amostragem. (h – altitude; Dt – distância ao litoral; N – número de amostras) Estação V. do Castelo 1 V. do Castelo 2 C. da Saúde Braga Caldelas Gerês 1 Melgaço Gerês 2 10. Hidrogeoquímica/Hidrocheochemistry || 443 Refª E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 h (m) 2 10 75 200 570 1000 1170 1500 Dt (km) 0 1.5 22 30 41 53 58 68 N 16 17 14 8 7 8 5 14 XV Semana – VI Congresso Ibérico de Geoquímica Resultados e discussão A composição química das amostras de precipitação recolhidas em cada uma das estações apresenta elevada variabilidade temporal, que se aplica à generalidade dos parâmetros analisados. Os valores de alcalinidade não foram considerados por serem, na maioria dos casos, muito baixos. Os teores mais elevados foram registados durante o Verão, mas as respectivas amostras foram eliminadas por não satisfazerem os critérios de qualidade analítica previamente definidos. Composição química Os valores médios relativos aos diferentes parâmetros considerados estão sintetizados nas tabelas 2 e 3. Tabela 2 – Valores médios da condutividade eléctrica (C.E., em µS/cm), do pH e dos teores dos aniões principais (meq/L) na precipitação da região do Minho. Estação E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 Média C.E. 187 59 70 29 27 21 25 17 54.4 pH 6.46 6.67 5.89 5.42 4.82 5.74 5.40 5.56 5.75 Cl 1.307 0.363 0.187 0.137 0.110 0.095 0.161 0.051 0.301 SO4 0.175 0.096 0.122 0.073 0.036 0.050 0.030 0.038 0.078 NO3 0.057 0.012 0.047 0.020 0.014 0.002 0.017 0.013 0.023 considerado o pH natural da chuva em equilíbrio com o CO2 atmosférico (Charlson and Rodhe, 1982; Galloway et al., 1982). À semelhança da condutividade eléctrica, os valores médios dos catiões e aniões da precipitação regional mostram uma tendência de diminuição com o afastamento à linha de costa. Esta diminuição é mais acentuada nos constituintes de origem essencialmente marinha, nomeadamente no cloreto, no sódio e no magnésio. A tendência antes descrita apresenta alguns desvios relacionados com os valores registados na estação de Caldas da Saúde (E3), particularmente no que respeita ao potássio, ao sulfato e ao nitrato. Este aspecto é interpretado pela influência das áreas industrializadas e urbanizadas do sector meridional da área em estudo, ou seja, o aumento da influência de aerossóis não marinhos na mineralização da precipitação. Origem da mineralização Considerando o Na como elemento indicador da origem marinha (Négrel e Roy, 1998), é possível estimar as proporções marinha e não marinha dos diferentes constituintes da precipitação. O teor da componente marinha de um dado elemento na chuva [Xi (chuva)] é calculado pela expressão (Caboi et al., 1998): Xi (chuva) = (Xi/Na)mar * Nai (chuva) Tabela 3 – Valores médios dos teores dos catiões principais (meq/L) na precipitação da região do Minho. Estação E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 Média Ca 0.193 0.118 0.123 0.053 0.013 0.008 0.014 0.016 0.067 Mg 0.246 0.062 0.038 0.028 0.023 0.019 0.030 0.012 0.057 Na 0.953 0.253 0.135 0.114 0.087 0.067 0.114 0.038 0.220 K 0.042 0.026 0.030 0.011 0.013 0.017 0.010 0.019 0.021 Como se observa na tabela 2, a mineralização média da precipitação regional, avaliada pela condutividade eléctrica, apresenta uma variação espacial assinalável, com os extremos distanciados em cerca de 10 vezes. A diminuição da salinidade da precipitação segue um paralelismo com o aumento da altitude e da distância ao litoral dos locais de amostragem, o que sugere uma diminuição progressiva da influência dos aerossóis marinhos no quimismo da precipitação. Esta tendência é apenas interrompida pela estação de Melgaço (E7), cujo valor médio está influenciado pela elevada mineralização da primeira amostra de neve recolhida neste local. De um modo geral, a precipitação apresenta características ácidas, embora nas estações junto ao litoral o pH atinja valores próximos da neutralidade. No entanto, valores de pH inferiores a 7 poderão ser considerados alcalinos quando comparados com o pH de 5.0, (1) O contributo da componente não marinha é obtido pela diferença entre o teor analisado de determinado elemento e o teor marinho, calculado pela equação (1). As razões entre os diversos elementos e o sódio na água do mar [(Xi/Na)mar] foram calculadas a partir de dados obtidos em Drever (1988), Appelo e Postma (1994), Sigg et al. (1994) e Langmuir (1997), tendo-se adoptado o valor médio. Os valores destas razões estão apresentados na tabela 4 e foram calculados a partir de dados expressos em meq/L. Uma vez que a razão (Na/NO3)mar é praticamente nula, o nitrato será considerado, em todas as amostras, de origem exclusivamente continental. Tabela 4 – Valores das razões (Xi/Na) mar calculados com base em dados expressos em meq/L. Ião (Xi) Ca Mg K Cl SO4 NO3 (Xi/Na) mar 0.0444 0.2283 0.0214 1.1604 0.1207 0 Da aplicação da expressão (1), obtém-se a proporção de aerossóis marinhos responsáveis pela mineralização da precipitação. Os dados relativos às diferentes estações estão apresentados na tabela 5. A proporção de aerossóis de origem continental corresponde à 10. Hidrogeoquímica/Hidrocheochemistry || 444 XV Semana – VI Congresso Ibérico de Geoquímica diferença entre os valores tabelados e a percentagem total (100%). Tabela 5 – Percentagem de aerossóis marinhos na precipitação da região do Minho. Estação E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 E8 Média Ca 21.8 9.3 4.9 9.4 30.8 37.5 36.2 14.5 20.6 Mg 88.6 93.5 81.6 92.9 82.6 78.9 86.8 85.3 86.3 K 47.6 19.2 10.0 18.2 15.4 5.9 24.4 2.3 17.9 Cl 84.6 81.0 84.0 96.4 91.8 82.1 82.2 79.8 85.2 SO4 65.7 32.3 13.1 19.2 30.6 16.0 45.9 11.9 29.3 Em média, os constituintes de origem marinha são, por ordem decrescente, Na, Mg, Cl, SO4, Ca e K. A diferença entre o magnésio (86.3%) e o cloreto (85.2%) não é significativa, verificando-se uma diminuição acentuada entre o cloreto (85.2%) e o sulfato (29.3%). Por isso, na precipitação regional, o magnésio, o cloreto e, naturalmente, o sódio, são os constituintes de origem predominantemente marinha. Os restantes (sulfato, cálcio, potássio e nitrato) têm origem essencialmente, ou mesmo exclusivamente (caso do nitrato), em aerossóis continentais. Considerando a totalidade dos dados, destacam-se as correlações positivas exibidas pelos pares Cl/Na, Mg/Na e Mg/Cl. A relação Mg/Na (Fig. 2) na precipitação (0.238) é semelhante à da água do mar (0.228), com um ligeiro enriquecimento em magnésio (4%). Este facto confirma as interpretações feitas anteriormente, de que o magnésio é quase exclusivamente de origem marinha. ,5 Mg+ + ( meq/l) ,45 ,4 Y = ,003 + ,238 * X ; R^2 = ,984 Mar ,35 ,3 ,25 ,2 ,15 ,1 ,05 N a+ (meq/l) 0 0 ,5 1 Fig. 2 – Diagrama de dispersão do Mg 1,5 ++ 2 + em função do Na . A relação Mg/Cl (Fig. 3) na precipitação (0.165) é inferior à da água do mar (0.197) o que mostra um excesso de cloreto na precipitação, derivado de fenómenos poluentes antropogénicos (incluindo a actividade industrial) ou de origem animal (avifauna). O contributo não marinho do cloreto, deduzido a partir da relação Mg/Cl, é de 16%, ou seja, muito próximo do valor obtido a partir da aplicação da expressão (1). ,5 Mg++ ( meq/l) Mar ,45 ,4 Y = ,004 + ,165 * X ; R^2 = ,979 ,35 ,3 ,25 ,2 ,15 ,1 ,05 Cl- (m eq/l) 0 0 ,5 1 1,5 2 ++ Fig. 3 – Diagrama de dispersão do Mg 2,5 3 - em função do Cl . Conclusões A precipitação atmosférica da região do Minho apresenta uma mineralização dominada pelo cloreto e pelo sódio, ambos constituintes de origem predominantemente marinha. A salinidade diminui acentuadamente com o afastamento ao litoral e com o aumento da altitude, em virtude da diminuição da concentração dos aerossóis marinhos na atmosfera. O sódio, o magnésio e o cloreto têm origem principalmente em aerossóis marinhos, enquanto o cálcio, o potássio e o sulfato provêm maioritariamente de aerossóis continentais. O nitrato é de origem exclusivamente continental. Referências Appelo, C. A. J.; Postma, D., 1994. 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