Utopía y Praxis Latinoamericana
ISSN: 1315-5216
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Universidad del Zulia
Venezuela
FERREIRA PATRICIO, Manuel
Reseña de "Do Sentir e do Pensar. Ensaio para uma antropologia (experiencial) de matriz poética" de
Paula Cristina Pereira
Utopía y Praxis Latinoamericana, vol. 13, núm. 43, octubre-diciembre, 2008, pp. 158-161
Universidad del Zulia
Maracaibo, Venezuela
Disponible en: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=27904316
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do los conceptos fundacionales de la crítica formal,
resuelve en los varios y sucesivos movimientos y
métodos teóricos, del formalismo ruso a la neorretórica y el estructuralismo europeo, las inferencias que
hacen avanzar las nociones teórico-críticas terminales diferenciadas por el autor en términos de literaridad y poeticidad. La edición va precedida de un estudio introductorio del editor Enrique Baena.
El Vol. II, El contenido de las formas
(1985-2005), en preparación, a partir de la «extensión proyectada» desde los logros de los formalismos, formula los presupuestos de una teoría crítica
ampliada de la literatura. Son, en su conjunto, exploraciones en el imaginario de la literatura y el constituyente sentimental de la obra artística, especialmente española moderna, y en la permanencia vertebral
de lo artístico como objeto de significado e interpretación.
Vol. III. Universalidad, singularización y
Teoría de las artes, en preparación, aborda los grandes conceptos terminales de universalismo y la singularización histórica depurados en su teoría, con
consideración de la antropología estética del espacio-tiempo no sólo en ejemplos literarios sino con
muestras representativas de la globalidad de los
lenguajes artísticos. Cierran el volumen trabajos recientes de la singularización crítica referidos a los
dos clásicos mayores de nuestro Siglo de Oro, Calderón y Cervantes, junto a los textos que hacen los
balances y las perspectivas de futuro de García Berrio.
Paula Cristina PEREIRA. Do Sentir e do Pensar.
Ensaio para uma antropologia (experiencial) de
matriz poética. Porto, Edições Afrontamento, 2007,
334 pp.
Manuel FERREIRA PATRICIO (Ex-reitor da Universidade de Évora, Portugal).
O livro Do Sentir e do Pensar – Ensaio para
uma antropologia (experiencial) de matriz poética,
de Paula Cristina Pereira, é quase a dissertação académica de doutoramento da autora.
“Quase” é uma palavra extraordinária. Na
psicologia globalista de Kurt Lewin – que se articula
organicamente com uma filosofia e uma pedagogia
identicamente gestaltistas –, percebemos que o segredo da gestalt, da forma que intuímos no relâmpago do acto pela percepção, reside no “quase”. É no
“quase” que pensa Pascoaes quando, n’ O Homem
Universal, olhando para o mundo que se nos dá na
percepção pensante, se exprime com a luz do relâmpago e diz: “O mundo é mundo por um triz”. Um
pouco menos de potência criadora e não chegara a
ser. Um pouco mais de potência criadora e nadificara
o poder ser. “Quase” não era, “quase” já não era.
Este livro –este belo livro!...– de Paula Cristina Pereira é “quase” a sua dissertação de doutoramento. Quer como objecto, quer como texto. Este livro beneficiou de um “quase” milagroso e aparece-nos como a transfiguração da dissertação.
Fascina-me esta diferença. Porque, no que
toca ao livro-objecto, tem ela que ver com a relação
íntima –de múltiplas dimensões e matizes: ontológica, gnosiológica, estética– do sentir e do pensar. Sentido agora como livro –e primariamente sentido sensorialmente…–, o pensar este livro é um pensar-outro. Basta este “quase” para iluminar radiosamente o
jardim pensante, que é no mesmo lance o pensamento florido, do amplo prado, verde e fresco, de muitos
tons de verde e muitos graus de fresco, que se oferece
para acolhimento d’o que em nós sente, sente o sentir, frui o sentir, pensa sentindo, sente pensando, vivencia tudo na unidade do quase-esplendor do conhecimento que se está conhecendo. Este livro “quase” nos faz sentir e pensar felizes.
Pertenço a uma geração –talvez a última, ou
“quase” a última…– que foi ainda preparada para
aceitar o que era dado como o facto da impossibilidade como que genética dos portugueses de pensar filosoficamente. Uma fatalidade nossa, insuperável. O
mais que podíamos fazer era estudar e aprender a filosofia feita pelos outros: os gregos, os alemães, os
franceses, os ingleses, os italianos. Nós éramos, nós
estávamos condenados a ser, uma sub-humanidade
filosófica. A fatalidade éramos nós próprios e era
logo a seguir a nossa língua, a língua portuguesa.
Por motivos mais políticos do que filosóficos
“gozava-se” com o movimento da “filosofia portuguesa” em geral e com Álvaro Ribeiro em particular.
Ouvia-se falar vagamente de Leonardo Coimbra.
Mais vagamente ainda, de Sampaio Bruno, Cunha
Seixas, Domingos Tarrozo, Silvestre Pinheiro Ferreira. Mais vagamente e como que clandestinamente.
De Pedro da Fonseca só sabíamos que tinha sido cognominado na sua época de “o Aristóteles português”.
Mas no fundo era-nos sugerido ter-se tratado, apenas, de um bom estudante e um bom aluno da filosofia “dos outros”. Pensar filosoficamente, criar filosofia, era actividade vedada a portugueses. Estávamos
limitados à catequese, a decorar e recitar a filosofia
dos outros, dos dotados, dos verdadeiros animais racionais europeus. Nós éramos da ponta, de um resto
da Europa que se podia cortar e deitar fora. Não fazíamos falta para criar. Só fazíamos falta para recitar,
no máximo.
Mas a minha geração foi vendo nascer em si
uma onda céptica desse organizado cepticismo larvar. Falo por mim. Um dia adquiri numa livraria –a
Livraria Universitária, em Lisboa– um livro de Leonardo Coimbra. O Criacionismo. A segunda parte,
“Síntese Filosófica”. Com prefácio de Delfim Santos. Li-o. E vi que o autor, Leonardo Coimbra, sabia
pensar. E ousava pensar por si próprio, aliás com a
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maior das naturalidades, pois não lhe passava pela
cabeça que pudesse ser de outro modo. E estava informado. E criticava bem “os outros”.
Ele, que foi um grande português, era talvez
mais do que isso, e já o escrevi: era um portucalense.
E esses vivem sem medo. Sem temor. Sem complexo
de inferioridade. Sem medo de ser. Sem medo de ser
e, portanto, sem medo de existir. Como portugueses.
Fomos, os da minha geração e os das gerações seguintes, fazendo o nosso caminho. Como a
Paula Cristina gosta de dizer –e diz bem…–, em português. Nessa língua magnífica, afinal de contas, que
é uma das maiores línguas da humanidade. Heidegger não o sabia. Achava que, depois do grego, só o
alemão. Ignorância sua. Mas há o português, a língua
de que o Padre António Vieira foi imperador. Como
o fora Camões. Como vieram a sê-lo Pascoaes e Pessoa. Ela é “nossa pátria”. Assim, pensar em português é veridicamente pensar português. Também
Platão, ao pensar em grego, pensou grego. Mas pensar em uma língua é o caminho inevitável, não há outro, para pensar humano.
Fomos, os da minha geração e os das gerações seguintes, até à geração de Paula Cristina Pereira, fazendo o nosso caminho. Sem medo de ser.
Sem medo de ser quem somos. Chegamos ao início
deste século XXI, que é o primeiro do terceiro milénio da era cristã, e verificamos termos estilhaçado
completamente o maligno calhau da fatalidade filosófica portuguesa. Hoje pensamos filosoficamente
como quaisquer outros povos no mundo. E somos
muitos. E produzimos. Havemos de produzir mais e
melhor, porque o esforço não nos cansou e os resultados nos estimulam. E há portugueses a nascer todos os dias.
Não tinha a Espanha esse problema. Dois filósofos, sobre todos os outros, o tinham resolvido:
Miguel de Unamuno e José Ortega y Gasset. Ambos
muito conhecidos e apreciados em Portugal. Pascoaes e Unamuno foram amigos íntimos, ainda que incoincidentes no seu pensamento filosófico. Leonardo e
Ortega encontraram-se amigavelmente em Madrid,
aquando do convite dirigido àquele pela Residencia
de Estudiantes de Madrid, em 1922. Os dois, acompanhados de Manuel García Morente, deixaram-se
fotografar em conjunto, na altura. Uma espécie de
fotografia de família (filosófica). Em 1922, a Espanha não duvidava da sua capacidade de pensar filosoficamente em castelhano e de, assim, pensar filosoficamente espanhol.
Aqui temos Paula Cristina Pereira: um filósofo português, direi mesmo que portucalense; uma
mulher, portanto sentenciada in limine com uma dupla condenação, a de portuguesa e a de mulher; um
ser humano a respirar confiança, ambição (filosófica) e coragem por todos os poros; a ser, mais do que
sujeito de coragem, sujeito de ousadia; ela ousa, ousa
tudo, como os marinheiros portugueses de quatro-
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centos, que diziam “navegar é preciso, viver não é
preciso”; ela diz “filosofar é preciso, viver não é preciso, viver é preciso para filosofar”; em português; e
em plenitude, em cheio – sentir, pensar, sentir o pensar, pensar o sentir, tudo de todas as maneiras, como
disse Fernando Pessoa, e depois dele Agostinho da
Silva, que é próprio do português. E… –deixem-me
acrescentar, convicto de que estou em consonância
com a Paula– não é próprio de todos.
Também a mulher, como sujeito de pensamento filosófico, se afirmou mais cedo em Espanha
do que em Portugal. María Zambrano antecede a portuguesa, que também se pode caracterizar como
luso-brasileira (viveu e ensinou filosofia na Universidade brasileira durante sete anos…), Maria Helena
Varela, pensadora do hetero-logos. Seguimo-nos
(Espanha e Portugal) um ao outro, diversamente mas
fraternamente, nesta Hispânia comum. A mulher é
hoje, no espaço político cultural dos dois Estados,
sujeito assumido, e qualificado, de pensamento filosófico autónomo. Nesta linhagem se inscreve Paula
Cristina Pereira, com crescente consciência de si e
das suas raízes. Este livro atesta-o.
A vida é uma flor que é flor, que é flor a sentir-se flor, a pensar-se flor, a ser flor sabendo-o. Vamos sentindo o crescer das pétalas, o rescender sucessivo dos perfumes, o pintar contínuo das cores, o
amadurecer perenizador das sementes, o gerar das
flores-filhas. Olho para a minha vida e vejo tantas coisas bonitas. Vejo os meus primeiros contactos com o
Professor Adalberto Dias de Carvalho e, pela sua
mão, da Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, a Faculdade-filha da Faculdade-mãe criada
por Leonardo Coimbra. Vejo a equipa filosófica jovem, juvenil, das meninas do Professor Adalberto.
Andávamos todos a construir uma nova Universidade, uma Universidade que queríamos nova, ocupados na obra, que era dupla, de plantação e organização do canteiro da Filosofia e da Filosofia da Educação. As meninas eram meninas, precisamente. Eu tinha em Évora menos meninas e mais meninos, mas
era tudo o mesmo, afinal. Trabalhávamos na obra da
utopia, a mais desafiante, a mais deslumbrante, a
mais gratificante. O dia de hoje vinha longe. Hoje
essa equipa tem mais gente qualificada academicamente e com obra feita. Hoje essa equipa é digna de
trabalhar na Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, sob a figura tutelar de Leonardo Coimbra.
Falo da equipa que conheço melhor, com a qual fui
criacionistamente convivendo e colaborando, que vi
desenvolver-se e medrar até ao momento presente.
Este. A Paula Cristina, com este seu livro –tão bem
estruturado, tão bem e tão vastamente informado, tão
bem escrito (em português…), tão bem pensado, tão
subtilmente pedagógico–, a Paula Cristina é aqui o
símbolo de uma epopeia de luta pelo pensamento autónomo, pelo direito português de cidadania filosófica plena, sem nacionalismo doentio, com o ser humano “de sempre” por destinatário, com o projecto não
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apenas de o compreender, mas também e sobretudo
de o ajudar a cumprir-se, de o ajudar a ser. Ela mostra
a intencionalidade profunda do seu esforço e do seu
projecto: contribuir para construir (mos) a ponte da
Filosofia para a Pedagogia (eu creio que ela concordará que eu continue a preferir dizer “a Antropagogia”), da margem da compreensão do homem no seu
ser para a outra margem, a margem-outra, que é a da
formação do homem no seu ser, na sua humanitas.
Já se viu que é meu entendimento que não estamos exactamente perante um livro mas, em rigor,
perante uma obra. Apresentar um livro é como apresentar uma pessoa. Leva-se o livro connosco, para
junto do outro, mostra-se o livro ao outro, primeiro
do lado de fora, que é sempre o mais fácil, e depois do
lado de dentro, que é normalmente o bico d’obra.
Entremos um pouco no livro, para uma brevíssima olhadela por ele. Não posso deixar de chamar a vossa atenção, desde logo, para a notável peça
que é a “Nota Introdutória” assinada pelo Professor
Adalberto Dias de Carvalho. São sete parágrafos
que, na sua sucessão, nos fazem viajar pelo livro
quase à velocidade da luz. São sete parágrafos hermenêuticos, que nos dão o livro no seu ser íntimo e
no seu significado filosófico profundo: 1) sobre a
legitimidade e urgência de uma filosofia poética; 2)
sobre a proposta de uma antropologia experiencial
que se cumpra numa e dê estatuto a uma antropologia pedagógica experiencial de matriz poética; 3)
sobre o confronto da autora com os limites paradoxais do racionalismo, corporizado este em Descartes e Kant, chamando para o seu terreno os contributos críticos de Leonardo Coimbra e de Teixeira de
Pascoaes; 4) sobre a opção estratégica e decisiva da
autora pelo êxodo de preferência à opção pelo método, ou seja, a opção pelo caminho que se faz à opção
pelo caminho já feito ou traçado, privilegiando a
projecção hermenêutica em relação à vigilância
epistemológica; 5) sobre, em consequência, a itinerância antropológica erguida enquanto caminho e
projecto; 6) sobre a emergente articulação entre a
condição antropológica e o ideal educativo, ideal
este exigente “de uma experiência total” em que o
“sentido dramático de pensar” se define “pelo projecto de construção de sentido com-sentido porque
com sentidos”; 7) finalmente, sobre a congruência
deste “ensaio” ordenado para uma antropologia
(experiencial) de matriz poética com a necessária
renovação do humanismo e reinauguração da antropologia.
Notável texto é este e notável elogio representa ele da obra de Paula Cristina Pereira.
O livro de Paula Cristina Pereira não representa uma investigação de carácter histórico. É, com
efeito, um livro de pensamento sistemático. A primeira palavra liga-se à última de forma indissolúvel. Há
nele muita referência de carácter histórico, mas todo
o elemento histórico é pensado crítica, sistémica e
sistematicamente.
Procurando configurar o seu problema na
“Introdução”, logo nos adverte a autora de que “a
configuração contemporânea de uma antropologia
experiencial, que não pode deixar de ser pedagógica,
será criticamente estética para que seja verdadeiramente criadora e transformadora.” Ponto é este, precisamente, em que o pensamento português, este
pensamento do “pensar misto” –como é o de Leonardo Coimbra e de Teixeira de Pascoaes–, tem muito a
dar, podendo “constituir-se como instrumento de
crítica e resistência a uma cultura logocêntrica e representativa, assim como a uma cultura imagocêntrica dada em alheamento.” (pág. 28) São claras estas
palavras. Representam, como é visível, uma vontade
de contribuição para melhorar o homem contemporâneo e a sua existência. A autora o diz: “ […] desejamos que o pensamento português contemporâneo
seja uma influência inspiradora, como filosofia poética” (p.34). Para alcançar tal desiderato buscará o
apoio de Pascoaes e de Leonardo Coimbra, tentando
“melhor fundamentar os laços entre a Poesia e a Filosofia, bem como a actividade dramática e amorosa
do pensar poético, que, em português, não separa o
sentir do pensar e que o poeta-filósofo e o filósofo-poeta realizaram nas suas actividades reflexivas”
(p.34). A seu ver, “o pensamento português revela
toda a sua actualidade ao superar o logocentrismo, o
positivismo e o imagocentrismo, no quadro de uma
matriz poético-religiosa capaz de configurar uma antropologia experiencial para a contemporaneidade,
capaz de se constituir como exemplo possível de um
pensamento de acolhimento” (p.34).
A Parte I da obra instala-nos “na genealogia
do pensar ou estórias do sentir”. Termina, significativamente, pelo “Elogio da razão sensível”.
A Parte II tematiza “A sensibilidade: nas teias da representação e desmontando a teia”. Termina,
no capítulo 3, por tentar “uma (re) definição da racionalidade”.
A Parte III tematiza “Filosofia, Poesia e Pensamento-Sentimento”. É neste espaço do movimento
reflexivo de Paula Cristina Pereira que avulta o pensamento misto português, de Teixeira de Pascoaes e
de Leonardo Coimbra, em especial no capítulo 2. Direi, por minha conta e risco: pensamento sentimental, sentimento pensamental. Embora não expressamente mencionado, neste pensamento misto se inscreve ainda, de pleno direito, Fernando Pessoa, que
aliás foi colaborador de altíssimo mérito d’ A Águia
inicial.
A Parte IV, que é a derradeira, intitula-se programaticamente “Para uma antropologia (pedagógica) experiencial”. O parêntese, que acolhe o adjectivo “pedagógico”, está prenhe de intencionalidade. A
autora quer defender o estatuto de autonomia epistemológica e direi que ontológica para a antropologia
pedagógica, designadamente face à antropologia filosófica. Aquela não é uma simples aplicação ou projecção desta. Faz lembrar, parece-me, o propósito de
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Delfim Santos na sua obra Fundamentação Existencial da Pedagogia. Não queria ele nem uma pedagogia científica, nem uma pedagogia metafísica, mas
uma pedagogia pedagógica. Paula Cristina quer uma
antropologia pedagógica que se situe ao lado, e não
debaixo, da antropologia filosófica, bebendo uma da
outra no sentido de uma compreensão do homem que
seja activa e construtiva deste, na integralidade e integridade deste: por isso experiencial e de matriz
poética. São palavras da autora: “A configuração de
uma antropologia pedagógica não se aduz […] a partir das consequências de uma antropologia filosófica, ao aplicar esta última ao campo da educação. Isso
seria reduzir a antropologia pedagógica aos pressupostos e categorias de uma antropologia filosófica
[…].” (p. 278) Seguindo o Professor Adalberto Dias
de Carvalho, o mestre, Paula Cristina Pereira pensa
que, “ao nível do processo, por referência à sua constituição e natureza, a pedagogia comporta […] uma
configuração antropológica que coloca a pedagogia
e a antropologia na partilha da matriz filosófica”
(p.280). Aquele que faz filosofia tem primeiro –penso creio que sintonicamente–, ontologicamente falando, que fazer-se a si. A formação do homem tem
que alimentar-se sempre, em todos os seus momentos e formas, do pensar filosófico, mas o pensar-fazer
paidêutico, formativo, é a acção primigénia, é o acto
principial. Um irmão em pensamento-sentimento de
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Pascoaes e Leonardo, Fernando Pessoa, escreveu assim, sobre o eu, a meu ver melhor do que o tinham feito Fichte e Schelling: “Brincava a criança/ Com um
carro de bois./ Sentiu-se brincando/ E disse, eu sou
dois!”. Precisamente. É aqui que tudo começa. Notemos: sentiu-se. Ou seja: pensou o sentir; sentiu o
pensar; viu-se, em corpo e alma, dois. E como viu
que o segundo eu era “quase” o primeiro, mas não era
mesmo o primeiro, sentiu frustração e fez, desta, alavanca para coincidir consigo. É o nascimento da educação. Pelo drama da frustração original. E talvez da
saudade de si, que só pode ser “matada”, quer dizer,
satisfeita, no futuro de si. Como outra coisa não quiseram dizer Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra. Como outra coisa não queremos nós, hoje –que
tão intensamente sofremos o drama de incoincidirmos connosco– dizer e ser.
Este livro é de tese. Apela-nos desde o âmago
de nós a tomar posição. É um apelo de qualidade, não
um vulgar apelo mediático do recusado mundo logocêntrico e imagocêntrico. Enriquece-nos. Desafia-nos. Provoca-nos. É um exemplo de como é possível pensar superiormente em português. De como é
possível pensar superiormente português. Para o homem: o de hoje, o de amanhã, o de sempre –como diria, e disse, Leonardo Coimbra. O resto, o nosso benefício como portugueses, vem por acréscimo. E
vem para a Hispânia, naturalmente.
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