Deus e Ouro O quanto é suficiente? O Pano de Quaresma Formato Paisagem, tamanho do motivo: 250 x 185 cm, em papel Jia Xuan da empresa Yidege, tinta da china e acrílica. A pintura, em papel Xuan de alta qualidade (feito de fibras vegetais, algodão e propileno, e não de fibras de arroz e bambu, como o papel tradicional) é montada, na última etapa de produção, sobre várias camadas de papel mais grosso e seda - através deste processo os vincos são suavizados e as cores, em todas as suas nuances, são realçadas, ficando ainda mais intensas. Do quadro final é produzido um arquivo de alta resolução - em condições de estúdio - e o motivo é impresso em tecido. O artista Prof. Dao Zi (nome de artista, seu nome de nascimento é Wang Min ou Wang Samuel) nasceu em 1956 em Qingdao e ensina teoria da arte e história da arte ocidental na prestigiada Universidade Tsingua em Beijing. É editor-chefe de várias revistas de arte. Dao Zi é cristão evangélico e se dedica sobretudo a motivos cristãos e bíblicos. O grande público chinês conhece este prestigiado professor de história da arte ocidental, crítico, escritor e poeta sobretudo como crítico de arte. Dao Zi tem contribuído significativamente para o desenvolvimento da teoria da arte chinesa. O que é especial nele é seu enraizamento na história da arte ocidental e chinesa. Utilizando a pintura tradicional chinesa em tinta, associa-lhe conteúdos cristãos. É na meditação que encontra a inspiração para a pintura em tinta da china. O quadro O vigésimo Pano de Quaresma de Misereor distingue-se dos seus antecessores pela sua abstração e redução a só poucas formas e cores. A composição do novo Pano de Quaresma vai além da ilustração de conteúdos bíblicos para alcançar uma contextualização mais vigorosa que torna visível a essência da mensagem cristã. A forma exterior expressa a dinâmica interior. O quadro fornece impulsos meditativos e espirituais. Como meio artístico e visual os Panos de Quaresma da Misereor ocupam uma posição de distinção no âmbito de uma campanha da Igreja. Dão um rosto à Misereor nas comunidades e escolas. Prof. Dao Zi desenvolveu este quadro a partir da meditação sobre os versículos Mt 6:19-24. Ele se limita às formas básicas: cruz, círculo, triângulo, quadrado - símbolos religiosos profundamente enraizados na consciência - e às cores dourado, preto, vermelho e cinza claro como variação de preto. Estas formas se juntam para formar uma cruz que atravessa o quadro na vertical e horizontal. Os braços pretos que aparentam um leve movimento, demarcam o horizonte, separando o céu em cinza claro da terra e água no terço inferior do quadro. Um imponente pedragulho de ouro que, em queda, com suas arestas cortantes, se crava na madeira da cruz, rompendo sua linha para cima e para baixo. Nos contornos, o preto transparece através do ouro. Deus e Ouro O ouro simboliza o Cristo feito homem: Ele é a pedra de tropeço que veio a tornar-se pedra angular (Mc 12:10). Ele é o Filho de Deus, que não veio trazer paz à terra mas, sim, dissensão (Lc 12:51; Mt 10:34). Ele é a pedra em que tropeçamos, que nos causa escândalo e irritação, porque nos exige uma decisão: Quem é o teu senhor? A quem serves tu? A Deus ou ao ouro? Contudo, a rocha de brilho metálico representa também o ouro em todas as suas manifestações o único critério das atividades econômicas, que os homens aspiram ter e ao qual se entregam um ídolo que exerce uma atração mágica. A ganância humana acinzentou a água, a terra e o céu: o mundo não é como Deus o idealizou. Habituamo-nos a aceitar compromissos: Mas onde acaba o compromisso e a partir de que ponto fica comprometida a fé? Quando as coisas que obtemos para nós ganham valor absoluto e o nosso coração se apega exclusivamente a elas: Este é o momento em que nascem os ídolos. A cada um de nós é exigida uma decisão: "Vós não podeis servir a ambos, a Deus e ao dinheiro" (Mt 6:24). O preto da cruz enfatiza a perspectiva de sofrimento e fragilidade da existência humana, porém, ao mesmo tempo abre-se um horizonte de esperança: a cor escura cintila - e, em linhas e padrões finos transmite luz ao observador. Os selos vermelhos sobre o braço da cruz ligeiramente ascendente, simbolizam, na triplicidade dos padrões, os pregos da crucificação e, na relação de três para um, a Trindade de Deus: Cristo é a manifestação visual do Deus Triúno e do Seu amor. Nesta acepção, a obra de Deus no mundo e na história pode ser interpretada como ação carinhosa, que nos deixa vencer barreiras (At 4:3135), criar comunidade e encontrar novos caminhos para o bem comum. A vida humana nunca é meramente viver mas, sim, é sempre conviver. O quadro nos convida, nesta interpretação, a ver no ouro a fraqueza da vida humana: a reconhecer a pedra naquilo que ela é, com a cruz e o sofrimento e com Aquele que esta pregado nele, e a ver NELE a verdade de Deus (Fil 2:5-11). Jesus deu o exemplo: deixou de olhar para cima para ver os que estão em baixo: os excluídos e necessitados. O quanto é suficiente? Os pequenos grãos de ouro, na parte inferior à esquerda e direita da rocha, são o que Deus pôs à disposição de todas as pessoas. No seu número - sete - encontramos uma referência à perfeição e sacramentalidade do que Deus criou: os sete dias da Criação, os sete sacramentos, as sete semanas de quaresma que antecedem a Páscoa. Deus confiou aos nossos cuidados tudo o que é necessário para uma vida digna e satisfatória (João 10:10). Trata-se, hoje, da distribuição justa destes bens e de uma vida como parte de um todo. Quanto é suficiente? Os pequenos grãos de ouro trazem em si o rosto da grande rocha da vida. A questão não é a quantidade: como parte da "boa Criação" participamos em Cristo. Saber ler os "sinais do tempo" (Lc 12:56 ss.) significa hoje reconhecer que o "sempre maior, sempre mais rápido, sempre mais" não é a solução mas, sim, o problema. Na questão de uma "vida boa para todos" reflete-se toda a dialética da convivência neste globo: é uma preocupação genuinamente cristã preservar a Criação de Deus e interceder pelos outros, perto e longe de nós, sobretudo pelos pobres. Dra. Claudia Kolletzki, Misereor