Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 ANÁLISE DOS CONHECIMENTOS SOBRE AS ALGAS: AULAS TEÓRICO-PRÁTICAS COMO INTERVENÇÃO DIDÁTICA NO ENSINO MÉDIO Analysis of knowledge about algae: theoretical and practical lessons as didactic intervention in secondary school Natália Gomes de Souza MENDES 1 Adriano Goldner COSTA 2 RESUMO Uma aprendizagem significativa acontece quando se possibilita ao aluno desenvolver a capacidade para uma possível utilização do conhecimento em sua vivência cotidiana. Deste modo, realizar atividades teórico-práticas em Biologia possibilita ao aluno um contato direto e um maior entendimento com relação aos fenômenos biológicos. O presente trabalho objetivou realizar um diagnóstico a respeito dos conhecimentos prévios de alunos do ensino médio sobre as algas em geral, e a partir disto, realizar aulas teórico-práticas com microalgas, a fim de verificar em quais questões deste conteúdo os alunos obteve os melhores desempenhos, mediante a utilização desta intervenção didática. Foi evidenciado através dos resultados do questionário aplicado aos alunos após as aulas teórico-prática de microalgas, um número relevante de acertos nas questões, principalmente daquelas relacionadas ao reconhecimento dos grupos e à morfologia destes microorganismos. Palavras-chave: Diagnóstico. Ensino de biologia. Organismos autotróficos. ABSTRACT Analysis of knowledge about algae: theoretical and practical lessons as didactic intervention in secondary school. A significant learning happens when you enable the student to develop the ability for a possible use of knowledge in your daily life. Thus, perform theoretical and practical in Biology allows the student a direct contact and a greater understanding with regard to biological phenomena. This work aimed to make a diagnosis about the prior knowledge of high school students about the algae in general, and from this, carry out practical classes with microalgae, to check on what issues these content students achieved the best performance, through the use of this didactic intervention. Was evidenced by the results of the questionnaire given to the students after the theory and practice of microalgae, an important hit on issues, particularly those related to recognition of groups and the morphology of microorganisms number classes. Keywords: Diagnostic. Biology teaching. Autotrophic organisms. 1. 2. Mestranda em Ciências Florestais da Universidade Federal do Espírito Santo [email protected] Professor. Mestre em Biologia Vegetal. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo, Campus Santa Teresa - [email protected] Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 167 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 INTRODUÇÃO Uma aprendizagem significativa não acontece somente com a retenção do conhecimento, mas quando se possibilita desenvolver a capacidade para a possível utilização deste conhecimento em um contexto diferente daquele em que se concretizou (TAVARES, 2008). Nesse sentido, os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN’s (2002) ressaltam que o ensino de Biologia não deve enfatizar apenas a compreensão de suas linguagens e conceitos, mas também as vivências práticas dos conhecimentos. Krasilchik (2005) afirma que as atividades práticas desempenham funções únicas no ensino da Biologia, pois possibilitam aos alunos um contato direto com os fenômenos, manipulando os materiais e equipamentos, bem como observando organismos e ampliando seus conhecimentos. O conteúdo de algas no ensino de Biologia possibilita a realização de inúmeras atividades, em razão destas estarem envolvidas sob inúmeros aspectos e importâncias como ecológicas, econômicas e ambientais . No entanto, os seres vivos reunidos sob o nome de “algas” compreendem tanto bactérias (cianobactérias ou algas azuis) como organismos eucarióticos muito diversificados (FRANCESCHINI et. al., 2010), que faz com que este conteúdo seja visto de forma confusa e descontextualizada do cotidiano dos alunos, principalmente referente às algas microscópicas, haja vista que são organismos invisíveis a olho nu, dificultando a compreensão destes quanto à percepção de algumas de suas características como tamanho, forma e cor. Desta forma, o preparo destes organismos microscópicos para realização de atividades de observação no microscópio requer alguns cuidados de preservação, e uma destas maneiras pode ser feitas através da montagem de uma “coleção ficológica” (coleção de algas) em lâminas de vidro. As microalgas utilizadas podem ser preservadas em lâminas de vidro com o auxílio de fixadores, como por exemplo, solução de formalina 4% (BICUDO; MENEZES, 2006). Existem poucos estudos relacionados ao uso de coleções de algas microscópicas em aulas teórico-práticas de Ciências e Biologia, cabendo ressaltar o de Welker (2007), que utilizou alguns grupos de microalgas em aulas práticas para o Ensino Médio, fazendo uma descrição analítica destas atividades e refletindo de que forma estas podem influenciar na aprendizagem dos alunos. Dada a grande importância ecológica e ambiental das algas nos ecossistemas aquáticos, a presente pesquisa teve por objetivos: 1) Realizar um diagnóstico a respeito dos conhecimentos prévios de alunos do ensino médio sobre as algas em geral; 2) Verificar se a utilização de aulas teórico-práticas de microalgas permite aos alunos uma maior aprendizagem sobre morfologia, ecologia, meio ambiente e/ou biodiversidade destes microorganismos. METODOLOGIA Esta pesquisa apresenta características de um estudo qualitativo e quantitativo, onde foram realizadas descrições e interpretações a respeito do tema de algas, com ênfase principalmente nas algas microscópicas, a partir dos conhecimentos prévios dos alunos e da realização de uma intervenção didática com aulas teórico-práticas. O fluxograma metodológico da pesquisa consiste de nas seguintes etapas abaixo, que são descritas na Figura 1. A amostragem da foi realizada com a turma da 3ª série do Curso Técnico em Meio Ambiente Integrado ao Ensino Médio do Instituto Federal do Espírito Santo - Campus Santa Teresa. Cabe ainda ressaltar que no passado a escola era denominada escola agrícola, e mesmo tornando-se Instituto Federal, ainda predomina a educação básica com essência campesina, integrada à cursos técnicos voltados para agroindústria, agropecuária e meio ambiente. Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 168 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Figura 1. Fluxograma com as etapas metodológicas da pesquisa. Primeira etapa. Foi aplicado um questionário inicial a fim de realizar o diagnóstico dos conhecimentos prévios, de uma amostra 20 alunos. O mesmo foi constituído de perguntas abertas e perguntas objetivas acerca do conteúdo de “algas” que eles vivenciaram no ensino regular e em experiências próprias. Também foi solicitado aos alunos que esquematizassem algum tipo de alga que eles já tiveram contato. As respostas dadas às perguntas fechadas foram quantificadas, calculando-se a porcentagem de alunos que responderam ao questionário. Nas respostas às questões abertas foram utilizadas a categorização aberta proposta por Strauss e Corbin (2008), visando extrair significado das respostas apresentados pelos alunos. Segunda etapa. As microalgas utilizadas na intervenção didática foram coletadas do rio Santa Maria do Doce (Santa Teresa, ES), situado nas proximidades da escola. Este rio faz parte do contexto da escola, que mantém cultivos irrigados com a água do mesmo, e ocasionalmente, são desenvolvidas atividades ligadas à educação ambiental. Após a coleta, foram montadas 70 lâminas de vidro com amostras de água do rio preservadas com formaldeído 4% e glicerina, e seladas com esmalte base, constituindo a coleção ficológica. Estas lâminas são semi-permanentes, com duração em média de 12 meses. As microalgas da coleção foram identificadas a nível de gênero, de acordo com o sistema de classificação de Bicudo e Menezes (2006), e fotografadas com câmera acoplada ao microscópio óptico, para utilizar as imagens no questionário após as aulas teórico-práticas.. Terceira etapa. A partir do diagnóstico dos conhecimentos prévios dos alunos foram preparadas e ministradas duas aulas teórico-práticas com a coleção ficológica para uma amostra de 25 alunos. As aulas foram de caráter expositivo-dialogadas, com apresentação em Power Point e com observação no microscópio óptico de alguns representantes das classes Bacillariophyceae, Cyanophyceae, Chlorophyceae, Euglenophyceae e Zygnemaphyceae pelos alunos. Com esta intervenção didática objetivou-se trazer melhorias no processo ensinoaprendizagem, e também um maior conhecimento sobre morfologia, ecologia, meio ambiente e biodiversidade das microalgas, através da utilização de coleção biológica como recurso didático. Quarta etapa. Posteriormente à intervenção didática descrita anteriormente, os alunos responderam à um questionário final, constituído de perguntas objetivas e abertas com relação a questões de morfologia, ecologia e resolução de situações problemas envolvendo as microalgas estudadas. Foi adotado o mesmo critério de classificação de respostas que o questionário diagnóstico. Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 169 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 RESULTADOS E DISCUSSÃO Análise do questionário para diagnóstico dos conhecimentos prévios Levando-se em conta que o ensino deve se articular às experiências de vida dos indivíduos, os PCN’s (2002) enfatizam que as situações de aprendizagem devem se desenvolver a partir das experiências vividas anteriormente pelos sujeitos, na escola ou fora dela, pois elas os levam a construir, mais facilmente, ideias a respeito dos fenômenos científicos. Com relação às classes de palavras evidenciadas nas respostas dos alunos na questão que diz respeito ao questionamento da importância ecológica das algas, 45% das respostas dadas relacionaram estes organismos como “produtores de oxigênio” e 30% como constituintes da “base da cadeia alimentar” nos ecossistemas aquáticos. Estas duas importâncias são as mais destacadas nos livros didáticos de ensino médio regular quanto aos aspectos ecológicos, apesar de não serem as únicas. Cabe ressaltar, que nenhuma resposta para esta questão mencionou impactos negativos relacionados às algas, apenas as evidenciaram como um fator ecológico importante. Na questão que trata da importância econômica das algas, as respostas mais recorrentes foram com relação à sua utilização na “alimentação/culinária” (65%), seguidas da sua utilização como matéria prima em “cosméticos” (15%). A percepção dos alunos sobre a utilização das algas na alimentação humana pode estar relacionada à crescente influência da cultura oriental no Brasil, a qual utiliza as macroalgas (algas verdes, vermelhas e pardas) como um dos principais ingredientes na preparação dos pratos. As algas também podem ser utilizadas como matéria-prima na fabricação de cosméticos, como cremes hidratantes, tinturas para coloração de cabelo, máscaras faciais, dentre outros produtos. Os problemas ambientais relacionados às algas mais citados pelos alunos foram a “eutrofização” (55%), seguido da “poluição das águas” (15%), que também são devido ao aumento da concentração de nutrientes, favorecendo o crescimento excessivo das algas e provocando problemas ambientais como a mortandade de peixes, a alteração da qualidade das águas, o desaparecimento de lagoas, dentre outros. Tais resultados podem ser explicados pelo contexto rural em que os alunos estão inseridos, em que é comum observar-se o processo de eutrofização artificial dos corpos d'água provocado, dentre outros fatores, pela intensa utilização de fertilizantes e lançamentos de efluentes agrícolas, culminando com o evento da floração das algas nestes ambientes. Além dessas respostas, um percentual de 15% das respostas citou a “maré vermelha” como um problema ambiental causado pelas algas, sendo este um assunto recorrente nos diversos meios de comunicação devido aos últimos registros no litoral brasileiro, incluindo a Baía do Espírito Santo. Na abordagem quanto à organização celular das algas, 45% dos alunos responderam que estes organismos podem ser “procariontes ou eucariontes”, 30% dos alunos relacionaram-nas como somente “procariontes” e 25% responderam que as algas podem ser somente “eucariontes”. Podese perceber que os alunos têm conhecimento de que algumas bactérias, como as cianobactérias, embora sejam organismos procariontes, possuem um sistema fotossintetizante semelhante aos organismos autotróficos eucariontes. Esta grande fragmentação nas respostas pode ser em razão de que existem controvérsias a respeito do enquadramento de alguns seres como as cianobactérias, dentro do grupo das “algas”. Alguns autores consideram que os seres vivos reunidos sob o nome de “algas”, são um grupo artificial que compreendem tanto bactérias (cianobactérias ou algas azuis) como organismos eucarióticos muito diversificados (FRANCESCHINI et al., 2010), e isto pode não estar bem esclarecido nos livros didáticos e ter influenciado na aprendizagem dos alunos. A respeito do número de células que as algas podem apresentar, houve um significativo percentual de acertos (65%), em que os alunos relacionaram as algas a organismos que podem ser Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 170 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 “unicelulares ou pluricelulares”. Um percentual de 25% das respostas relacionaram as algas como sendo somente “pluricelulares”, e 10% sendo as algas somente “unicelulares”. Este resultado evidenciou que o maior percentual de alunos possui conhecimentos prévios acerca da existência de formas de algas macroscópicas, bem como também das formas microscópicas. Resultado semelhante foi encontrado por Vieira (2006), em que os alunos entrevistados demonstraram conhecimento de que não existem somente as macroalgas, organismos visíveis a olho nu, dentro do grupo das "algas". Com relação ao questionamento das experiências vividas pelos alunos em relação às algas, onde eles puderam relacionar mais de uma experiência, 80% das respostas demonstraram que os alunos observaram algas no “ambiente marinho”, seguido do “livro didático” (60%), “ambiente de água doce” (50%), “internet” (50%) e “microscópio” (20%). O baixo percentual de alunos que disseram ter observado as algas ao microscópio, evidencia que eles tiveram pouco contato com as algas microscópicas, as quais não podem ser observadas a olho nu, justificando a importância de atividades práticas. Os maiores percentuais de contato com algas do ambiente marinho e através do livro didático devem-se, provavelmente, ao fato de estarem mais relacionados às vivências e ao cotidiano do aluno, bem como através dos conhecimentos adquiridos no ensino regular. Vieira (2006) também evidenciou em seu estudo que a maior parte dos alunos entrevistados tiveram contato com as algas através do ambiente marinho. Nas esquematizações feitas pelos alunos sobre alguma forma de alga que eles já observaram, seja no ambiente educacional ou cotidiano (Figura 2), buscou-se apenas classificar os desenhos em formas microscópicas e macroscópicas. A partir da análise realizada, foi observado que o maior percentual das formas de algas desenhadas pelos alunos foi de organismos “macroscópicos” (80%), seguido dos “microscópicos” (25%). Um percentual de 10% dos alunos desenhou uma “morfologia incerta”, não podendo ser classificada nas classes morfológicas anteriores, e 5% não souberam representar nenhum tipo de alga observada em suas experiências dentro ou fora do ambiente escolar. O fato de o maior percentual das representações ter sido de algas macroscópicas, pode estar relacionado ao maior contato dos alunos com o ambiente marinho e, principalmente, ao fato das algas deste tipo de ambiente serem visíveis a olho nu. Este resultado evidencia a pouca vivência dos alunos acerca dos representantes microscópicos das algas, que somente podem ser visualizados através de imagens nos livros didáticos, internet e revistas ou em microscópios. Figura 2. Esquemas realizados por alguns alunos para representar as formas microscópicas e macroscópicas de algas conhecidas por eles. Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 171 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Os resultados anteriormente evidenciados demonstram pouca utilização do microscópio para o conteúdo de microalgas, embora a escola conte atualmente com 05 laboratórios equipados com microscópios ópticos, para atender aos vários níveis de ensino que a instituição oferece como o Ensino Médio Integrado ao Técnico (concomitante e PROEJA), Técnico Subsequente e Superior. Uma das explicações para a pouca utilização do laboratório para o conteúdo de microalgas, pode ser em razão do conteúdo extenso, que necessita a abordagem de muitos grupos de microalgas, e a demanda de várias aulas para tratar deste conteúdo. O pequeno percentual de estudantes que já observaram as algas no microscópio pode ser devido a atividades além do currículo escolar, como a Semana de Ciência e Tecnologia do IFES, que envolve trabalhos de todos os níveis de ensino que a escola possui. Mas, embora atividades como esta possam ser úteis como experiências no cotidiano do aluno, elas devem ser contínuas e, quando possíveis, integradas ao ensino regular. Análise do questionário após a aula teórico-prática Os alunos foram questionados na questão 1 sobre a localização da parede celular de uma alga diatomácea (classe Bacillariophyceae), conforme mostrado na Figura 3. A parede celular das diatomáceas são constituídas de dióxido de silício (SiO2) ou sílica, que é um mineral com bastante dureza que é encontrado em grande quantidade na natureza, como na areia e na maioria das rochas (KULCSAR-NETO et al. 1995). As diatomáceas incorporam a sílica para formar suas paredes celulares, e a deposição das mesmas no sedimento, por milhões de anos, formam o diatomito, uma rocha que é muito utilizada na construção civil na fabricação de tijolos, produtos abrasivos, e dentre outras. Figura 3. Surirella sp. Fonte: autoria própria. A parede celular da diatomácea mostrada na Figura 3 corresponde à alternativa “2”, e a alternativa “1”, ao cloroplasto, que é uma organela utilizada na realização da fotossíntese. Nesta questão houve um percentual 96% de acertos, o que pode estar relacionado ao trabalho desenvolvido com os alunos durante a aula teórico-prática, em que os mesmos puderam observar no microscópio representantes do grupo das diatomáceas e suas variadas formas de paredes celulares e cloroplastos. Outro grupo de algas tratado durante a intervenção didática, foram as cianobactérias (cianofíceas ou algas azuis). Elas compreendem um grande grupo de bactérias autotróficas, em razão de suas características celulares procariontes, porém com um sistema fotossintetizante semelhante ao das algas eucariontes (HARDOIM; MIYAZAKI, 2010). A questão 2 foi referente à Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 172 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 um dado que foi levantado durante a identificação das algas coletadas no rio Santa Maria do Doce (Santa Teresa, ES), em que foram encontrados gêneros de cianobactérias potencialmente tóxicas nas amostras da água. Quando as cianobactérias encontram condições propícias no ambiente aquático, elas podem apresentar um crescimento exagerado, e produzir toxinas que podem matar peixes quando as ingerem-nas, assim como causar intoxicações nos seres humanos quando a água é consumida sem tratamento. Dentre estas condições propícias estão o processo de eutrofização das águas. Os alunos foram questionados a respeito de quais ações provocadas pelo homem podem contribuir para a proliferação de cianobactérias na água, devido ao problema da eutrofização. Das respostas esperadas para esta questão, está o lançamento de esgotos domésticos e industriais sem tratamento, desmatamento e erosão do solo e utilização de fertilizantes químicos. As causas mais citadas pelos alunos foram os lançamentos de “esgotos domésticos e/ou industriais” (56%), seguidos do carreamento de “fertilizantes” para o ambiente aquático (36%) e do “assoreamento” no entorno do ecossistema aquático, propiciado pela “erosão e/ou falta de vegetação” (32%). De acordo com as respostas do primeiro questionário (diagnóstico), foi possível perceber que os alunos já possuíam conhecimentos prévios acerca do processo de eutrofização, o que os possibilitou relacionar as principais contribuições antrópicas a esta causa. Além disso, o fato do presente estudo ter sido realizado com alunos que frequentam o curso Técnico em Meio Ambiente também pode ter contribuído de forma significativa para que os mesmos identificassem as principais causas da eutrofização artificial e a consequente proliferação de algas e cianobactérias em ecossistemas aquáticos. Durante a aula teórico-prática foi possível perceber a contribuição dos conhecimentos trabalhados no curso em questão para a compreensão dos alunos sobre a problemática relacionada às cianobactérias. Os gêneros de cianobactérias potencialmente tóxicas encontradas no rio foram, Oscillatoria, Aphanocapsa, Phormidium e Pseudanabaena, no entanto, para verificar se há concentrações de toxinas nas amostras de água, necessita-se de estudos qualitativos com esta finalidade. Na questão 3 foi dada a seguinte situação: Você trabalha como Técnico (a) em Meio Ambiente em uma Estação de Tratamento de Água e observou no microscópio as microalgas em uma determinada amostra (Figura 4). Marque a alternativa da imagem que representa uma cianobactéria. Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 173 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 Figura 4. Alternativas referentes à questão 3, na qual pede-se aos alunos que identifiquem nas imagens a cianobactéria. Na respectiva questão, houve um percentual de 84% de acertos por parte dos alunos entrevistados. Tais resultados podem estar relacionados ao trabalho que foi desenvolvido durante a aula teórico-prática, pois nela as cianobactérias, também conhecidas como algas azuis, puderam ser diferenciadas dos outros grupos de microalgas em razão da coloração azul-esverdeada, embora esta não seja uma característica obrigatória do grupo, mas principalmente, em razão da ausência de cloroplastos, presentes somente nas algas eucariontes. Na questão 4, onde foi solicitado aos alunos para relacionarem os grupos das cianobactérias, euglenofíceas (euglenas), clorofíceas (algas verdes) e diatomáceas com algumas de suas principais características, houve um baixo percentual de acertos (32%). Geralmente estes grupos de algas são estudados durante o ensino regular em diferentes momentos, sendo comum a abordagem de cianobactérias juntamente com o conteúdo de bactérias (Reino Bacteria), a abordagem dos grupos das euglenofíceas e diatomáceas juntamente com outros protistas eucariontes (Reino Protista) e a abordagem do grupo das clorofíceas juntamente com as plantas terrestres ou embriófitas (Reino Plantae). Além da fragmentação dos conteúdos trabalhados no Ensino Médio, o baixo percentual de acertos registrado neste estudo pode estar relacionado ao grande volume de conteúdos ministrados somente em duas aulas teórico-práticas. Estes resultados, provavelmente, poderiam ser melhorados caso fossem utilizados métodos pedagógicos complementares à Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 174 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 observação das microalgas ao microscópio óptico, bem como um tempo maior para abordagem dos conteúdos. A análise do questionário de opiniões sobre a intervenção didática mostrou que levar o objeto de estudo para a aula contribui para que os alunos conseguissem resolver a maioria das questões, principalmente àquelas relacionadas à morfologia das microalgas. Estas afirmações puderam ser evidenciadas na fala de alguns alunos quando foram perguntados no pós-questionário se atividades como esta podem auxiliá-lo no entendimento dos conteúdos de Biologia: “A aula teórico-prática é bem válida, pois é uma forma diferente de prender a atenção dos alunos e assim obtendo uma melhor aprendizagem”; “Uma aula como essa pode sim facilitar o processo de aprendizagem, pois demonstra na “prática” os tipos de algas existentes”; “Sim, às vezes o contato só com fotos e livros não é suficiente para fixar o conteúdo. O contato direto, ao vivo, melhora a qualidade do ensino”; “A aula foi muito boa, pois pude aprender melhor sobre as algas, como diferenciá-las, classificá-las, suas importâncias e problemas”. Embora a visualização das microalgas no microscópio possa despertar o interesse nos alunos, possibilitando um maior contato com o objeto de estudo, ela não é superior à outros métodos didáticos, mas sim um método complementar. Podemos constatar essa relação na resposta de um estudante: “Em minha opinião a aula foi bastante proveitosa, além de ser uma aula diferente, porque desta forma os alunos poderão ver que aquilo que foi visto na teoria não é tão diferente na prática”. CONSIDERAÇÕES FINAIS O conhecimento dos alunos diagnosticados neste estudo acerca das algas foi fragmentado. Isto pode ser devido às algas serem um grupo de organismos bastante diversificado do ponto de vista ecológico e morfológico, o que muitas vezes dificulta o entendimento e a aprendizagem deste conteúdo. Embora a maioria dos alunos tenha evidenciado saber da existência das microalgas, esta experiência não se deu com as atividades de aulas teórico-práticas utilizando o microscópio, que podem ser bastante úteis como subsídios a uma maior aprendizagem deste conteúdo em Biologia. A intervenção pedagógica utilizada foi válida no sentido de facilitar o processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos de microalgas na Biologia, como foi evidenciado através do índice de “acertos” da maioria das questões trabalhadas, principalmente daquelas relacionadas ao reconhecimento dos grupos e à morfologia das algas. Deste modo, as atividades de caráter teóricoprático podem contribuir com a ampliação do interesse dos alunos em relação a determinados conteúdos/conceitos, pois, para além do que é retratado nos livros didáticos, estes terão outras oportunidades de contato e manuseio com os objetos de estudo, permitindo a percepção do real tamanho, da variedade de formas dos organismos estudados e dentre outras características, o que contribui de maneira significativa para a criação de novos conhecimentos. No entanto, apesar dos resultados positivos registrados no presente estudo, cabe ressaltar que nenhum “método pedagógico” por si só é completo e imutável, devendo este estar sempre em processo de avaliação, melhoria e transformação. Vivências. Vol. 11, N.20: p.167-176, Maio/2015 175 Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI ISSN 1809-1636 AGRADECIMENTOS À Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo, pelo apoio financeiro para a realização da pesquisa (Processo 57208794/12). Ao IFES Campus Santa Teresa pelo suporte pedagógico e pela disponibilização dos laboratórios de Biologia. Aos alunos que se disponibilizaram a participar da pesquisa. REFERÊNCIAS BICUDO, C. E. M.; MENEZES, M. Gêneros de algas de águas continentais do Brasil: chave para identificação e descrições. 2ª ed. São Carlos: Rima, 2006. 502p. BRASIL. Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Média e Tecnológica (Semtec). PCN Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC/Semtec, 2002. FRANCESCHINI, I.M.; BURLIGA, A.L.; REVIERS, B.; PRADO, J.F.; RÉZIG, S.H. Algas: uma abordagem filogenética, taxonômica e ecológica. Porto Alegre: Artmed, 2010. 332p. HARDOIM, E.L.; MIYAZAKI, R.D. Diversidade e classificação dos seres vivos: características gerais dos microorganismos. Cuiabá: UAB/UFMT, 2010. 93p. KRASILCHIK, M. Prática de ensino de Biologia. 4. ed. 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