REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA
ISSN 1519-5228
Volume 1 - Número 2 - 2001
Perfil de Susceptibilidade Antimicrobiana de Bifidobacterium bifidum
Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46
Flávio Henrique Ferreira Barbosa [1]; Andréia Marçal da Silva [2]; Rinaldo Duarte [3]; Jacques R. Nicoli
(ori.)[4]
RESUMO
As Bifidobactérias constituem um gênero de bactérias reconhecidas como adjuntos
dietéticos e que possui propriedades probióticas, tais como a prevenção ou tratamento de
distúrbios intestinais infecciosos. Uma característica desejada para um probiótico é a
sensibilidade aos antibióticos, descartando assim, a possibilidade de transmissão de
resistência no ecossistema digestivo e uma maior facilidade de eliminação do
bioterapêutico, se necessário. Neste estudo, testou-se a susceptibilidade de duas
espécies de Bifidobacterium a antibióticos de diferentes classes. Bifidobacterium bifidum
Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 foram isolados de uma preparação comercial
liofilizada (DVS – Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark). Como controle para os
testes, fez-se o uso de Bacteroides fragilis ATCC 25285. Foram testados antibióticos
beta-lactâmicos (cefalosporinas, penicilinas), lincosamidas, macrolídeos, fenólicos,
glicopeptídicos, tetraciclinas e aminoglicosídeos. Os testes de susceptibilidade aos
antimicrobianos foram realizados pelo método de diluição em ágar (NCCLS-2000),
modificado. Após 48 horas de incubação a 37 oC, em câmara de anaerobiose, foi
observada a presença ou ausência de crescimento nas placas. Todos os testes foram
realizados em duplicata. Os microrganismos foram sensíveis aos antibióticos testados,
excetuando-se a gentamicina (aminoglicosídeo). Constatou-se, dessa forma,
extremamente baixa a possibilidade de transmissão de resistência desses probióticos
para microrganismos patogênicos.
Palavras-chave: Bifidobacterium; probiótico; antibiótico; diarréia.
ABSTRACT
Bifidobacterium constitutes the most recent group of bacteria used as dietetic adjunct
presenting probiotic properties such as prevention and treatment of infectious intestinal
disorder. An expected characteristic for the selection of a probiotic is its antibiotic
sensibility discarding the possibility of resistance transmission in the digestive ecosystem
and allowing the elimination of the biotherapeutic, if necessary. In this study, the
susceptibility to antibiotics of two Bifidobacterium species was tested. Bifidobacterium
bifidum Bb12 and Bifidobacterium longum Bb46 have been isolated from a commercial
lyophilized preparation (DVS – Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark). Bacteroides
fragilis ATCC 25285 was used as control. The following antibiotic classes were tested: b lactam, lincosomide, macrolide, phenolic, glycopeptide, tetracycline and aminoglycoside.
The susceptibility assays of the antibiotics were performed using the standard agar dilution
method (NCCLS-2000), with some modification. After inoculation and incubation during 48
hours at 37ºC, in an anaerobic chamber, the absence or presence of growth on the plates
was observed. All the tests were realized in duplicate. The results showed that the both B.
bifidum Bb12 and B. longum Bb46 were sensible to all of the antibiotics tested, and for all
of the concentrations used, except to gentamicin. Concluding, the possibility of a
transmission of antibiotic resistance from these probiotics to pathogenic bacteria can be
considered to be low during the use of these biotherapeutics.
Key words: Bifidobacteriu; probiotic; antibiotic; diarrhea
INTRODUÇÃO
1- Probióticos
A palavra probiótico foi utilizada pela 1ª vez por Lilley e Stillwell em 1965 ao se referir a
uma substância secretada por um microrganismo que estimulava o crescimento de outro.
Mais tarde, em 1989, Fuller modificou o conceito para suplemento alimentar microbiano
vivo que afeta beneficamente o hospedeiro animal por melhorar seu balanço microbiano
intestinal. O balanço microbiano é responsável pelo efeito protetor estudado por muitos
grupos no mundo inteiro. e denominado: antagonismo bacteriano, interferência
bacteriana, efeito barreira, resistência à colonização ou exclusão competitiva. Os
resultados obtidos em experimentos com probióticos podem ser afetados por vários
fatores tais como: tipo de microrganismo probiótico; método de produção; método de
administração; viabilidade da preparação; condição do hospedeiro e condição da
microbiota intestinal (Fuller, 1995).
Deve-se ressaltar que todos os produtos contendo as bactérias probióticas devem ser
avaliados para uso geral e, portanto seguros para todos os consumidores, saudáveis ou
não (Sanders, 1995). Os microrganismos utilizados como probióticos são usualmente
componentes não-patogênicos da microbiota normal, tais como as bactérias lácticas
(Lactococcus, Lactobacillus, Pediococcus, Leuconostoc, Streptococcus e Enterococcus),
bactérias produtoras de ácido láctico (Bifidobacterium) e leveduras como Saccharomyces
boulardii. Existem atualmente no mercado uma série de produtos comerciais e
preparações farmacêuticas contendo bactérias probióticas.
2 - O gênero Bifidobacterium
2.1 - Generalidades
Bifidobacterium constituem o mais recente grupo de bactérias reconhecidas como
adjuntos dietéticos. São semelhantes aos lactobacilos em suas propriedades
culturais, exigências nutritivas e de coloração pelo Gram mas, são anaeróbias
estritas. Segundo o Manual Bergey (Holt, 1994) estas bactérias são anaeróbias
estritas, imóveis, Gram positivas, não esporuladas, em forma de bastonete curvo,
caracterizado frequentemente por uma bifurcação em forma de Y. De acordo com
Samona & Robinson (1991), a aparência das colônias de B. bifidum varia em
tamanho e forma segundo o meio.
Além disso, as bifidobactérias fermentam açúcares com produção principalmente
de ácido acético e ácido láctico. O gás carbônico não é produzido. Crescem a
uma temperatura ótima de 37 - 41ºC e geralmente não crescem a 45ºC . O pH
inicial ótimo é de 6 a 7 e, abaixo de 4,5 ou acima de 8,5 não há crescimento
(Sneath, 1986; Laroia & Martin, 1990).
As bifidobactérias são prevalentes no intestino e podem prevenir a colonização
por bactérias patogênicas (Lim et al., 1993).
2.2 - Uso terapêutico
O uso terapêutico de uma cepa de B. longum antibiótico-resistente foi benéfico no
tratamento de doenças por radiação, por ajudar na "normalização" da microbiota
intestinal, inibindo a colonização e crescimento de patógenos oportunistas. Além
disso, esta cepa tem sido usada com sucesso no tratamento de enterocolite
úlcero-necrótica em crianças, disenteria aguda e doenças intestinais agudas de
etiologia indefinida (Korschunov et al., 1996).
A administração de substâncias antimicrobianas (antibióticos) pode causar
supressão de certos grupos de bactérias benéficas, incluindo as bifidobactérias,
que promovem resistência natural do hospedeiro contra infecções. A
susceptibilidade das bifidobactérias aos antibióticos deve ser conhecida não
somente na pesquisa de agentes seletivos para enumeração de células viáveis
em produtos contendo bifidobactérias, mas também na compreensão da
alteração da microbiota intestinal normal quando os antibióticos são ministrados.
3 - Os Antibióticos
3.1 - Generalidades
Antimicrobianos são substâncias químicas que inibem o crescimento ou destroem
microorganismos. Podem ser produzidos por outros microorganismos, como
bactérias e fungos, ou sintetizados, total ou parcialmente. Atualmente, os
antimicrobianos estão entre as drogas mais utilizadas em terapêutica, tanto em
nível ambulatorial como hospitalar. Além de pertubar o equilíbrio das populações
da microbiota normal, o emprego indiscriminado destas drogas tem provocado
também, o desenvolvimento de resistência bacteriana e, conseqüentemente, o
surgimento de superinfecções por germes multiresistentes. Desta forma, para
preservar os pacientes, as instituições e a própria utilidade dos antimicrobianos, é
essencial a racionalização do seu emprego e o conhecimento dos princípios que
regem sua correta utilização (Silva, 1999).
Há diversas maneiras de classificar os antimicrobianos. Podem ser classificados:
segundo a sua origem, efeito antimicrobiano, espectro de atividade e mecanismo
de ação. Os antimicrobianos de uso sistêmico devem reunir as seguintes
características: devem ser mais bactericidas do que bacteriostáticos; devem
manter-se ativos na presença de plasma e líquidos corporais; é desejável que
sejam efetivos frente a um amplo espectro de microorganismos; os
microorganismos susceptíveis não devem desenvolver resistência genética ou
fenotipicamente; não devem ser tóxicos e os efeitos colaterais devem ser
mínimos ao hospedeiro e sua microbiota; a concentração ativa frente aos
microorganismos deve ser alcançada com rapidez e manter-se durante um tempo
prolongado; devem ser hidro e lipossolúveis (Silva, 1999).
Os antibióticos utilizados durante os testes realizados neste trabalho foram
escolhidos, levando-se em conta o mecanismo de ação de cada um:
* Antibióticos que inibem a síntese da parede celular
•
•
•
Penicilinas (b -lactâmicos) - Amoxicilina: é um antimicrobiano geralmente
bactericida que interfere na síntese da parede celular, devido a sua união a
receptores enzimáticos situados na parte externa da membrana bacteriana,
levando à transpeptidação dos polímeros de mureína. O resultado
bactericida deve-se a inativação de um inibidor de enzimas autolíticas da
parede bacteriana (autolisina), que leva à lise celular. As autolisinas são
enzimas finamente reguladas, que em condições normais de crescimento
participam na renovação da parede celular. Este tipo de agente
antimicrobiano só atua sobre microrganismos em crescimento. Todas as
penicilinas possuem basicamente a estrutura do ácido 6-aminopenicilânico,
que possui um anel de tiazolina, com um grupo amino livre, unido a um anel
b -lactâmico. A amoxicilina apresenta um espectro de atividade mais amplo
que as penicilinas, porém são destruídas por b -lactamases.
Cefalosporinas (b -lactâmicos) - Cefaclor: é um antimicrobiano similar às
penicilinas em relação à estrutura e modo de ação. Possui um anel b lactâmico fusionado com um anel de dihidrotiazina de seis átomos de
carbono, ao invés do anel de tiazolina de cinco átomos, característico das
penicilinas. As cefalosporinas são ativas contra muitos microrganismos
susceptíveis às penicilinas. Historicamente, são classificadas em gerações,
segundo seu espectro de atividade frente às bactérias Gram-negativas. O
cefaclor é uma cefalosporina de segunda geração.
Peptídicos - Vancomicina: é um glicopeptídeo que forma um complexo com
a região D-Ala-D-Ala do precursor do peptidoglicano. O complexo formado
impede a transglicosilação do precursor dissacárido-peptídico e a cadeia de
peptidoglicano. Como conseqüência, há um acúmulo de precursores no
citoplasma e na membrana citoplasmática unidos ao lipídeo transportador. A
vancomicina não penetra no citoplasma e só atua com a parte terminal do
peptídeo quando o precursor é deslocado pelo peptídeo transportador até a
região externa da membrana citoplasmática. A vancomicina, além de
impedir a transglicosilação, também inibe a transpeptidação destes
precursores ao bloquear o sítio de ataque das transpeptidases e
carboxipeptidases. Os microrganismos Gram-negativos são naturalmente
resistentes a esta droga.
* Antibióticos que inibem a síntese de proteínas
•
Tetraclinas - Tetraciclina: é uma droga bacteriostática e atua sobre bactérias
que se multiplicam rapidamente. São introduzidas na célula por um sistema
de transporte ativo, formando um complexo com íons Mg++. Dentro da
célula, o complexo tetraciclina-Mg se une a radicais fosfato da subunidade
30S dos ribossomas, bloqueiam a união dos RNAt-aminoácido e impedem o
alargamento da cadeia peptídica em formação do complexo de iniciação
30S. Em geral, é bem absorvida no trato gastrointestinal, ainda que de forma
não totalmente completa. Esta droga se distribui bem por todo o corpo,
penetrando no líquor e em outros líquidos como lágrimas e saliva. A
tetraciclina atua contra cocos Gram-positivos e Gram-negativos.
•
•
•
•
Aminoglicosídeos - Gentamicina: é ativo frente a células bacterianas em
crescimento. Seu efeito se deve principalmente à união irreversível à
proteína S12 da unidade ribossômica 30S. A gentamicina está entre os
aminoglicosídeos mais utilizados clinicamente. A entrada destas drogas nas
células procariontes é O2-dependente, fato este que explica a resistência
natural das bactérias anaeróbias estritas. Este mecanismo de entrada pode
ser bloqueado ou inibido por cátions bivalentes como Ca++ e Mg++. A ação
bactericida dos aminoglicosídeos se deve a dois fatores: inibem a síntese
protéica e provocam erros de leitura do RNAm.
Fenólicos - Cloranfenicol: é um antimicrobiano bacteriostático que inibe a
síntese de proteínas. O cloranfenicol une-se estereoespecificamente às
unidades ribossomais 50S, inibindo a formação de uniões peptídicas (não
interfere com a iniciação da síntese protéica). O cloranfenicol se ativa pela
ação de lipases pancreáticas. É muito bem distribuído em todos os líquidos
corporais, inclusive no líquor. Esta droga é eliminada principalmente por via
hepática. É utilizado no tratamento de infecções por anaeróbios como
Bacteroides.
Lincosamidas - Clindamicina: possui a capacidade de unir-se à unidade
ribossomal 50S, compete com o cloranfenicol pelo sítio de união ao
ribossoma e sua ação bacteriostática é similar, inibindo a formação das
uniões peptídicas, porém ainda produzem uma rápida distribuição dos
polirribossomas. A clindamicina é um derivado clorado da lincomicina. Ela se
distribui por muitos tecidos e líquidos do corpo, porém não alcança
concentrações terapêuticas no líquor. É utilizada no tratamento de infecções
causadas por Bacteroides e outros anaeróbios.
Macrolídeos - Azitromicina: é um antimicrobiano geralmente bacteriostático,
porém pode ser bactericida, atuando sobre a unidade ribossomal 50S.
Compete pelo sítio de união com o cloranfenicol. Bloqueia a translocação do
ribossoma, não permitindo que o RNAt descarregado abandone o sítio P
(peptidil). Geralmente é inativada pelo pH ácido. Distribui-se bem por todos
os líquidos corporais, com exceção do líquor e cérebro. Este antimicrobiano
é utilizado para o tratamento de infecções causadas por cocos Grampositivos.
4 - Probióticos e a antibióticoterapia
Um dos principais usos de probióticos pela espécie humana tem sido também como
adjunto dietético, para repor e/ou prevenir o desbalanceamento da microbiota intestinal, e
têm sido considerados importantes na modulação de diarréias nosocomiais.
A maior parte dos trabalhos já publicados, analisando pacientes que recebiam antibióticos
tais como eritromicina, ampicilina, clindamicina, tetraciclinas, beta-lactâmicos, tem
mostrado que a introdução simultânea de leites fermentados contendo microrganismos
ativos, tais como o Lactobacillus rhamnosus GG, Lactobacillus acidophilus ou
Bifidobacterium longum, ou ainda a administração da levedura Saccharomyces boulardii
podem reduzir significativamente o risco e a intensidade da diarréia, assim como o
desconforto abdominal.
A produção de simbióticos (produtos contendo microrganismos probióticos) poderá ser
empregada como adjuntos dietéticos primeiramente em instituições hospitalares, para
compor a dieta de convalescentes, com a finalidade de recompor sua microbiota intestinal
e de protege-la do efeito deletério inevitável do consumo de antibióticos, prevenindo o
estabelecimento de diarréias. Diferentes preparações probióticas têm mostrado sucesso
no tratamento e prevenção das infecções intestinais incluindo salmoneloses, shigeloses,
diarréia induzida por antibióticos e diarréia causada por C. difficile, bem como dos
distúrbios associados a aumento da permeabilidade intestinal (gastroenterite viral) ou
falhas nas funções de barreira da mucosa (Saavedra et al., 1994).
Tratando-se de microorganismos, não existe "risco zero" e, portanto, é preciso aceitar que
podem ter efeitos positivos mas também potenciais efeitos secundários. Segundo Marteau
& Salminen, 1998, o risco de transferência de genes entre o probiótico e a flora endógena
é motivo de preocupação quando se considera o uso futuro de probióticos modificados
geneticamente, pois estes poderiam abrigar perigosos genes resistentes a antibióticos.
Diversas abordagens complementares podem ser utilizadas para avaliar a inocuidade de
alguma cepa probiótica. As propriedades intrínsecas da cepa, especialmente as
propriedades enzimáticas, e o perfil da resistência a antibióticos, podem ser facilmente
estudados e deveriam ser conhecidos para cada probiótico.
5 - OBJETIVOS
5.1 - Objetivo Geral
Avaliar a susceptibilidade das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e
Bifidobacterium longum Bb46, a antibióticos de diferentes classes.
6 - MATERIAL E MÉTODOS
6.1- Microrganismos
6.1.1 - Probiótico
Para a realização do trabalho, foram utilizadas culturas lácticas comerciais
(DVS - Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark), constituídas segundo
o fabricante por Bifidobacterium bifidum (Bb12) e Bifidobacterium longum
(Bb46). Essas culturas, do tipo termofílicas, contêm Bifidobacterium de
origem humana e são aplicadas principalmente na fabricação de produtos
probióticos de leite (fermentados ou "sweet"). A partir das culturas DVS –
Bb12 e DVS - Bb46 foram selecionadas colônias típicas de Bifidobacterium
bifidum e Bifidobacterium longum, que foram mantidas congeladas a -86°C
(glicerina 40%) em Caldo MRS (De Man, Rogosa e Sharpe) (Merck,
Darmstadt, Germany).
6.1.2 - Controle
Como controle para
Bacteroides fragilis
Microbiologia Oral congelada a –86 °C
Germany).
6.2 - Antibióticos
os testes de susceptibilidade, fez-se o uso de
ATCC 25285, obtida junto ao Laboratório de
ICB - UFMG. Esta cultura, também foi mantida
(glicerina 40%) em caldo BHI (Merck, Darmstadt,
6.2.1 - Antibióticos utilizados
Os antibióticos utilizados durante os testes foram escolhidos, levando-se
em conta o mecanismo de ação de cada um, procurando-se avaliar
representantes de cada grupo. Assim, foram utilizados os seguintes:
antibióticos que inibem a síntese da parede celular (Penicilinas - b lactâmicos; Cefalosporinas - b -lactâmicos; Peptídicos - Vancomicina),
antibióticos que inibem a síntese de proteínas (Tetraclinas - Tetraciclina;
Aminoglicosídeos - Gentamicina; Fenólicos - Cloranfenicol; Lincosamidas Clindamicina; Macrolídeos - Azitromicina)
6.3 - Teste de Susceptibilidade
Para a realização dos testes de susceptibilidade antimicrobiana, as culturas de
Bifidobacterium foram descongeladas e passadas em caldo MRS por duas vezes
e incubadas a 37 ° C por 20 horas. As culturas foram testadas em placas
separadas, pelo método de diluição em ágar, recomendado pelo National
Commitee For Clinical Laboratory Standards - NCCLS (2000), com adaptações,
em diversas concentrações. Ágar MRS, foi o meio de cultura escolhido no lugar
de Muller-Hinton devido a alta exigência nutricional por parte das culturas de
Bifidobacterium. As concentrações dos antibióticos foram determinadas utilizando
como referência os seus respectivos pontos críticos. Foram escolhidas diluições
seriadas de 1:2 (duas diluições acima e duas diluições abaixo) a partir do ponto
crítico de cada droga. Para que fossem feitos os "spots" nas placas, utilizou-se
um replicador de "Steers" e as culturas a uma concentração, em caldo (Caldo
MRS para as Bifidobactérias e Caldo BHI para o B. fragilis), correspondente a 0,5
na escala de McFarland. Após 48 horas de incubação a 37 ° C em câmara de
anaerobiose (Forma Scientific Co. Marietta, USA, contendo atmosfera de N2 85%,
H2 10% e CO2 5%), foi observada a presença ou ausência de crescimento nas
placas, obtendo-se assim, o perfil de resistência ou sensibilidade das amostras
testadas. Todos os testes foram realizados em duplicata.
7 - RESULTADOS E DISCUSSÃO
As tabelas indicam os resultados dos testes de susceptibilidade antimicrobiana das cepas
de Bifidobacterium bifidum Bb12 e longum Bb46, onde (*) significa ponto crítico da droga,
(+) significa crescimento bacteriano e (-) significa ausência de crescimento bacteriano.
Cefalosporina
Cefaclor
Controle
8 µg/mL
16 µg/mL
32* µg/mL
64 µg/mL
128 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
+
+
-
-
-
B. fragilis
+
+
+
-
-
-
Tabela 01- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Cefaclor (ß-Lactâmico-Cefalosporinas).
Lincosamidas
Clindamicina
Controle
2 µg/mL
4 µg/mL
8* µg/mL
16 µg/mL
32 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
-
-
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 02- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Clindamicina (Lincosamidas).
Macrolídeos
Azitromicina
Controle
2 µg/mL
4 µg/mL
8* µg/mL
16 µg/mL
32 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
-
-
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 03- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Azitromicina (Macrolídeos).
Fenólicos
Clorafenicol
Controle
8 µg/mL
16 µg/mL
32* µg/mL
64 µg/mL
128 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
-
-
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 04- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Cloranfenicol (Fenólicos).
Glicopeptídicos
Vancomicina
Controle
2 µg/mL
4 µg/mL
8* µg/mL
16 µg/mL
32 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
-
-
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 05- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Vancomicina (Glicopeptídicos).
Penicilinas
Amoxicilina
Controle
4 µg/mL
8 µg/mL
16* µg/mL
32 µg/mL
64 µg/mL
Bb12
+
-
-
-
-
-
Bb46
+
-
-
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 06- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Amoxicilina (ß-Lactâmico-Penicilinas).
Tetraciclinas
Tetraciclina
Controle
4 µg/mL
8 µg/mL
16*µg/mL
32 µg/mL
64 µg/mL
Bb12
+
+
+
-
-
-
Bb46
+
+
+
-
-
-
B. fragilis
+
-
-
-
-
-
Tabela 07- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Tetraciclina (Tetraciclinas).
Aminoglicosídeos
Gentamicina
Controle
2 µg/mL
4 µg/mL
8* µg/mL
16 µg/mL
32 µg/mL
Bb12
+
+
+
+
+
+
Bb46
+
+
+
+
+
+
B. fragilis
+
+
+
+
+
+
Tabela 08- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium
longum Bb46 frente ao antibiótico Gentamicina (Aminoglicosídeos).
Com o término dos experimentos, foi possível constatar que as culturas de
Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46, apresentaram sensibilidade
aos seguintes antibióticos testados: Cefaclor (Cefalosporinas), Clindamicina
(Lincosamidas), Azitromicina (Macrolídeos), Cloranfenicol (Fenólicos), Vancomicina
(Glicopeptídicos), Amoxicilina (Penicilinas) e Tetraciclina (Tetraciclinas), de acordo com as
concentrações testadas; confirmando os resultados apresentados por: La Vergne et al.,
1959; Miller e Finegold, 1967; Matteuzi et al., 1983 e Scardovi, 1986 (para Vancomicina).
As duas culturas apresentaram resistência ao antibiótico testado Gentamicina
(Aminoglicosídeos), demonstrado pelo crescimento bacteriano em todas as
concentrações a que foram submetidas, confirmando os resultados apresentados por: La
Vergne et al., 1959; Miller e Finegold, 1967; Matteuzi et al., 1983.
A resistência de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 em todas
as concentrações testadas para a Gentamicina (Aminoglicosídeos), poderia ser explicada
pela inibição do transporte do antibiótico na célula bacteriana, já que a entrada desta
droga nas células procariontes é O2-dependente. Isso explica a resistência natural das
bactérias anaeróbias estritas a este antibiótico (Silva, 1999; Murray et al., 2000 e Brooks
et al., 2000). Sabe-se também, segundo Brooks et al, 2000 e Murray et al., 2000, que os
aminoglicosídeos são mais amplamente utilizados contra bactérias entéricas Gramnegativas e não Gram-positivas como é o gênero Bifidobacterium.
O crescimento de Bifidobacterium longum Bb46, em algumas das concentrações testadas
(8µg/mL, 16µg/mL), para o Cefaclor (Cefalosporinas), poderia ser explicado após estudos
futuros, por uma possível inativação da droga por cefalosporinases (ß-Lactamases), que
são enzimas extracelulares e induzíveis em bactérias Gram-positivas. Neste caso, poderia
ter sido sintetizada em quantidade insuficiente para neutralizar a ação do fármaco. São
encontradas codificadas tanto no cromossoma como em plasmídeos, e há a possibilidade
de alterações das PBP (Penicillin Binding Proteins - Proteínas Fixadoras de Penicilina),
carboxipeptidases, transpeptidases e endopeptidases implicadas na fase final da
formação da parede celular ou a uma penetração deficiente do fármaco nas bactérias
(Brooks et al., 2000). Já, para o crescimento de Bifidobacterium bifidum Bb12 e
Bifidobacterium longum Bb46, em algumas das concentrações testadas (4µg/mL, 8µg/mL)
para a Tetraciclina (Tetraciclinas), uma pequena penetração do antibiótico na célula
bacteriana ou a um efluxo ativo do antibiótico para fora da célula poderia explicar o
ocorrido, e que, com o aumento da concentração da droga, tornou-se ineficiente,
resultando assim, em morte celular (Murray et al., 2000).
Acredita-se, então, que estas cepas possam ser utilizadas como bioterapêutico, desde
que, a eliminação deste, caso necessário, seja feita utilizando-se os antibióticos aos quais
foi visível a total sensibilidade aos mesmos. Quanto ao risco de transferência de genes
entre o probiótico e a microbiota endógena, testes futuros relacionados a presença ou
ausência de plasmídeos, poderiam ser de grande valia verificando a possibilidade de
transferência genética, já que esta característica está mais associada aos plasmídeos que
ao DNA cromossomal. Considera-se dessa forma, de extrema importância, a correta
administração dos antimicrobianos testados, caso se faça necessária, a eliminação do
bioterapêutico.
8 - CONCLUSÃO
Pelos resultados e nas condições em que foram realizados os testes, pode-se concluir
que as culturas Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46
apresentaram
sensibilidade
aos
seguintes
antibióticos
testados:
Cefaclor
(Cefalosporinas), Clindamicina (Lincosamidas), Azitromicina (Macrolídeos), Cloranfenicol
(Fenólicos), Vancomicina (Glicopeptídicos), Amoxicilina (Penicilinas), Tetraciclina
(Tetraciclinas) e resistência a Gentamicina (Aminoglicosídeos); de acordo com as
concentrações testadas, e ainda, as propriedades intrínsecas das cepas testadas,
especialmente o perfil de resistência a antibióticos, podem ser facilmente estudadas e
deveriam ser conhecidas para cada probiótico, pois, assim, permitiriam que fossem
estabelecidas, mais precisamente, as relações risco/benefício de uso destes
bioterapêuticos.
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[1] - Graduando em Ciências Biológicas pelas Faculdades Metodistas Integradas Izabela
Hendrix - FAMIH
[2] - Doutoranda em Microbiologia pelo ICB / UFMG
[3] - Colaborador - Doutorando em Microbiologia pelo ICB / UFMG
[4] - Prof. Orientador - Professor titular do Laboratório de Ecologia e Fisiologia de
Microrganismos do ICB/UFMG
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