REVISTA DE BIOLOGIA E CIÊNCIAS DA TERRA ISSN 1519-5228 Volume 1 - Número 2 - 2001 Perfil de Susceptibilidade Antimicrobiana de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 Flávio Henrique Ferreira Barbosa [1]; Andréia Marçal da Silva [2]; Rinaldo Duarte [3]; Jacques R. Nicoli (ori.)[4] RESUMO As Bifidobactérias constituem um gênero de bactérias reconhecidas como adjuntos dietéticos e que possui propriedades probióticas, tais como a prevenção ou tratamento de distúrbios intestinais infecciosos. Uma característica desejada para um probiótico é a sensibilidade aos antibióticos, descartando assim, a possibilidade de transmissão de resistência no ecossistema digestivo e uma maior facilidade de eliminação do bioterapêutico, se necessário. Neste estudo, testou-se a susceptibilidade de duas espécies de Bifidobacterium a antibióticos de diferentes classes. Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 foram isolados de uma preparação comercial liofilizada (DVS – Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark). Como controle para os testes, fez-se o uso de Bacteroides fragilis ATCC 25285. Foram testados antibióticos beta-lactâmicos (cefalosporinas, penicilinas), lincosamidas, macrolídeos, fenólicos, glicopeptídicos, tetraciclinas e aminoglicosídeos. Os testes de susceptibilidade aos antimicrobianos foram realizados pelo método de diluição em ágar (NCCLS-2000), modificado. Após 48 horas de incubação a 37 oC, em câmara de anaerobiose, foi observada a presença ou ausência de crescimento nas placas. Todos os testes foram realizados em duplicata. Os microrganismos foram sensíveis aos antibióticos testados, excetuando-se a gentamicina (aminoglicosídeo). Constatou-se, dessa forma, extremamente baixa a possibilidade de transmissão de resistência desses probióticos para microrganismos patogênicos. Palavras-chave: Bifidobacterium; probiótico; antibiótico; diarréia. ABSTRACT Bifidobacterium constitutes the most recent group of bacteria used as dietetic adjunct presenting probiotic properties such as prevention and treatment of infectious intestinal disorder. An expected characteristic for the selection of a probiotic is its antibiotic sensibility discarding the possibility of resistance transmission in the digestive ecosystem and allowing the elimination of the biotherapeutic, if necessary. In this study, the susceptibility to antibiotics of two Bifidobacterium species was tested. Bifidobacterium bifidum Bb12 and Bifidobacterium longum Bb46 have been isolated from a commercial lyophilized preparation (DVS – Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark). Bacteroides fragilis ATCC 25285 was used as control. The following antibiotic classes were tested: b lactam, lincosomide, macrolide, phenolic, glycopeptide, tetracycline and aminoglycoside. The susceptibility assays of the antibiotics were performed using the standard agar dilution method (NCCLS-2000), with some modification. After inoculation and incubation during 48 hours at 37ºC, in an anaerobic chamber, the absence or presence of growth on the plates was observed. All the tests were realized in duplicate. The results showed that the both B. bifidum Bb12 and B. longum Bb46 were sensible to all of the antibiotics tested, and for all of the concentrations used, except to gentamicin. Concluding, the possibility of a transmission of antibiotic resistance from these probiotics to pathogenic bacteria can be considered to be low during the use of these biotherapeutics. Key words: Bifidobacteriu; probiotic; antibiotic; diarrhea INTRODUÇÃO 1- Probióticos A palavra probiótico foi utilizada pela 1ª vez por Lilley e Stillwell em 1965 ao se referir a uma substância secretada por um microrganismo que estimulava o crescimento de outro. Mais tarde, em 1989, Fuller modificou o conceito para suplemento alimentar microbiano vivo que afeta beneficamente o hospedeiro animal por melhorar seu balanço microbiano intestinal. O balanço microbiano é responsável pelo efeito protetor estudado por muitos grupos no mundo inteiro. e denominado: antagonismo bacteriano, interferência bacteriana, efeito barreira, resistência à colonização ou exclusão competitiva. Os resultados obtidos em experimentos com probióticos podem ser afetados por vários fatores tais como: tipo de microrganismo probiótico; método de produção; método de administração; viabilidade da preparação; condição do hospedeiro e condição da microbiota intestinal (Fuller, 1995). Deve-se ressaltar que todos os produtos contendo as bactérias probióticas devem ser avaliados para uso geral e, portanto seguros para todos os consumidores, saudáveis ou não (Sanders, 1995). Os microrganismos utilizados como probióticos são usualmente componentes não-patogênicos da microbiota normal, tais como as bactérias lácticas (Lactococcus, Lactobacillus, Pediococcus, Leuconostoc, Streptococcus e Enterococcus), bactérias produtoras de ácido láctico (Bifidobacterium) e leveduras como Saccharomyces boulardii. Existem atualmente no mercado uma série de produtos comerciais e preparações farmacêuticas contendo bactérias probióticas. 2 - O gênero Bifidobacterium 2.1 - Generalidades Bifidobacterium constituem o mais recente grupo de bactérias reconhecidas como adjuntos dietéticos. São semelhantes aos lactobacilos em suas propriedades culturais, exigências nutritivas e de coloração pelo Gram mas, são anaeróbias estritas. Segundo o Manual Bergey (Holt, 1994) estas bactérias são anaeróbias estritas, imóveis, Gram positivas, não esporuladas, em forma de bastonete curvo, caracterizado frequentemente por uma bifurcação em forma de Y. De acordo com Samona & Robinson (1991), a aparência das colônias de B. bifidum varia em tamanho e forma segundo o meio. Além disso, as bifidobactérias fermentam açúcares com produção principalmente de ácido acético e ácido láctico. O gás carbônico não é produzido. Crescem a uma temperatura ótima de 37 - 41ºC e geralmente não crescem a 45ºC . O pH inicial ótimo é de 6 a 7 e, abaixo de 4,5 ou acima de 8,5 não há crescimento (Sneath, 1986; Laroia & Martin, 1990). As bifidobactérias são prevalentes no intestino e podem prevenir a colonização por bactérias patogênicas (Lim et al., 1993). 2.2 - Uso terapêutico O uso terapêutico de uma cepa de B. longum antibiótico-resistente foi benéfico no tratamento de doenças por radiação, por ajudar na "normalização" da microbiota intestinal, inibindo a colonização e crescimento de patógenos oportunistas. Além disso, esta cepa tem sido usada com sucesso no tratamento de enterocolite úlcero-necrótica em crianças, disenteria aguda e doenças intestinais agudas de etiologia indefinida (Korschunov et al., 1996). A administração de substâncias antimicrobianas (antibióticos) pode causar supressão de certos grupos de bactérias benéficas, incluindo as bifidobactérias, que promovem resistência natural do hospedeiro contra infecções. A susceptibilidade das bifidobactérias aos antibióticos deve ser conhecida não somente na pesquisa de agentes seletivos para enumeração de células viáveis em produtos contendo bifidobactérias, mas também na compreensão da alteração da microbiota intestinal normal quando os antibióticos são ministrados. 3 - Os Antibióticos 3.1 - Generalidades Antimicrobianos são substâncias químicas que inibem o crescimento ou destroem microorganismos. Podem ser produzidos por outros microorganismos, como bactérias e fungos, ou sintetizados, total ou parcialmente. Atualmente, os antimicrobianos estão entre as drogas mais utilizadas em terapêutica, tanto em nível ambulatorial como hospitalar. Além de pertubar o equilíbrio das populações da microbiota normal, o emprego indiscriminado destas drogas tem provocado também, o desenvolvimento de resistência bacteriana e, conseqüentemente, o surgimento de superinfecções por germes multiresistentes. Desta forma, para preservar os pacientes, as instituições e a própria utilidade dos antimicrobianos, é essencial a racionalização do seu emprego e o conhecimento dos princípios que regem sua correta utilização (Silva, 1999). Há diversas maneiras de classificar os antimicrobianos. Podem ser classificados: segundo a sua origem, efeito antimicrobiano, espectro de atividade e mecanismo de ação. Os antimicrobianos de uso sistêmico devem reunir as seguintes características: devem ser mais bactericidas do que bacteriostáticos; devem manter-se ativos na presença de plasma e líquidos corporais; é desejável que sejam efetivos frente a um amplo espectro de microorganismos; os microorganismos susceptíveis não devem desenvolver resistência genética ou fenotipicamente; não devem ser tóxicos e os efeitos colaterais devem ser mínimos ao hospedeiro e sua microbiota; a concentração ativa frente aos microorganismos deve ser alcançada com rapidez e manter-se durante um tempo prolongado; devem ser hidro e lipossolúveis (Silva, 1999). Os antibióticos utilizados durante os testes realizados neste trabalho foram escolhidos, levando-se em conta o mecanismo de ação de cada um: * Antibióticos que inibem a síntese da parede celular • • • Penicilinas (b -lactâmicos) - Amoxicilina: é um antimicrobiano geralmente bactericida que interfere na síntese da parede celular, devido a sua união a receptores enzimáticos situados na parte externa da membrana bacteriana, levando à transpeptidação dos polímeros de mureína. O resultado bactericida deve-se a inativação de um inibidor de enzimas autolíticas da parede bacteriana (autolisina), que leva à lise celular. As autolisinas são enzimas finamente reguladas, que em condições normais de crescimento participam na renovação da parede celular. Este tipo de agente antimicrobiano só atua sobre microrganismos em crescimento. Todas as penicilinas possuem basicamente a estrutura do ácido 6-aminopenicilânico, que possui um anel de tiazolina, com um grupo amino livre, unido a um anel b -lactâmico. A amoxicilina apresenta um espectro de atividade mais amplo que as penicilinas, porém são destruídas por b -lactamases. Cefalosporinas (b -lactâmicos) - Cefaclor: é um antimicrobiano similar às penicilinas em relação à estrutura e modo de ação. Possui um anel b lactâmico fusionado com um anel de dihidrotiazina de seis átomos de carbono, ao invés do anel de tiazolina de cinco átomos, característico das penicilinas. As cefalosporinas são ativas contra muitos microrganismos susceptíveis às penicilinas. Historicamente, são classificadas em gerações, segundo seu espectro de atividade frente às bactérias Gram-negativas. O cefaclor é uma cefalosporina de segunda geração. Peptídicos - Vancomicina: é um glicopeptídeo que forma um complexo com a região D-Ala-D-Ala do precursor do peptidoglicano. O complexo formado impede a transglicosilação do precursor dissacárido-peptídico e a cadeia de peptidoglicano. Como conseqüência, há um acúmulo de precursores no citoplasma e na membrana citoplasmática unidos ao lipídeo transportador. A vancomicina não penetra no citoplasma e só atua com a parte terminal do peptídeo quando o precursor é deslocado pelo peptídeo transportador até a região externa da membrana citoplasmática. A vancomicina, além de impedir a transglicosilação, também inibe a transpeptidação destes precursores ao bloquear o sítio de ataque das transpeptidases e carboxipeptidases. Os microrganismos Gram-negativos são naturalmente resistentes a esta droga. * Antibióticos que inibem a síntese de proteínas • Tetraclinas - Tetraciclina: é uma droga bacteriostática e atua sobre bactérias que se multiplicam rapidamente. São introduzidas na célula por um sistema de transporte ativo, formando um complexo com íons Mg++. Dentro da célula, o complexo tetraciclina-Mg se une a radicais fosfato da subunidade 30S dos ribossomas, bloqueiam a união dos RNAt-aminoácido e impedem o alargamento da cadeia peptídica em formação do complexo de iniciação 30S. Em geral, é bem absorvida no trato gastrointestinal, ainda que de forma não totalmente completa. Esta droga se distribui bem por todo o corpo, penetrando no líquor e em outros líquidos como lágrimas e saliva. A tetraciclina atua contra cocos Gram-positivos e Gram-negativos. • • • • Aminoglicosídeos - Gentamicina: é ativo frente a células bacterianas em crescimento. Seu efeito se deve principalmente à união irreversível à proteína S12 da unidade ribossômica 30S. A gentamicina está entre os aminoglicosídeos mais utilizados clinicamente. A entrada destas drogas nas células procariontes é O2-dependente, fato este que explica a resistência natural das bactérias anaeróbias estritas. Este mecanismo de entrada pode ser bloqueado ou inibido por cátions bivalentes como Ca++ e Mg++. A ação bactericida dos aminoglicosídeos se deve a dois fatores: inibem a síntese protéica e provocam erros de leitura do RNAm. Fenólicos - Cloranfenicol: é um antimicrobiano bacteriostático que inibe a síntese de proteínas. O cloranfenicol une-se estereoespecificamente às unidades ribossomais 50S, inibindo a formação de uniões peptídicas (não interfere com a iniciação da síntese protéica). O cloranfenicol se ativa pela ação de lipases pancreáticas. É muito bem distribuído em todos os líquidos corporais, inclusive no líquor. Esta droga é eliminada principalmente por via hepática. É utilizado no tratamento de infecções por anaeróbios como Bacteroides. Lincosamidas - Clindamicina: possui a capacidade de unir-se à unidade ribossomal 50S, compete com o cloranfenicol pelo sítio de união ao ribossoma e sua ação bacteriostática é similar, inibindo a formação das uniões peptídicas, porém ainda produzem uma rápida distribuição dos polirribossomas. A clindamicina é um derivado clorado da lincomicina. Ela se distribui por muitos tecidos e líquidos do corpo, porém não alcança concentrações terapêuticas no líquor. É utilizada no tratamento de infecções causadas por Bacteroides e outros anaeróbios. Macrolídeos - Azitromicina: é um antimicrobiano geralmente bacteriostático, porém pode ser bactericida, atuando sobre a unidade ribossomal 50S. Compete pelo sítio de união com o cloranfenicol. Bloqueia a translocação do ribossoma, não permitindo que o RNAt descarregado abandone o sítio P (peptidil). Geralmente é inativada pelo pH ácido. Distribui-se bem por todos os líquidos corporais, com exceção do líquor e cérebro. Este antimicrobiano é utilizado para o tratamento de infecções causadas por cocos Grampositivos. 4 - Probióticos e a antibióticoterapia Um dos principais usos de probióticos pela espécie humana tem sido também como adjunto dietético, para repor e/ou prevenir o desbalanceamento da microbiota intestinal, e têm sido considerados importantes na modulação de diarréias nosocomiais. A maior parte dos trabalhos já publicados, analisando pacientes que recebiam antibióticos tais como eritromicina, ampicilina, clindamicina, tetraciclinas, beta-lactâmicos, tem mostrado que a introdução simultânea de leites fermentados contendo microrganismos ativos, tais como o Lactobacillus rhamnosus GG, Lactobacillus acidophilus ou Bifidobacterium longum, ou ainda a administração da levedura Saccharomyces boulardii podem reduzir significativamente o risco e a intensidade da diarréia, assim como o desconforto abdominal. A produção de simbióticos (produtos contendo microrganismos probióticos) poderá ser empregada como adjuntos dietéticos primeiramente em instituições hospitalares, para compor a dieta de convalescentes, com a finalidade de recompor sua microbiota intestinal e de protege-la do efeito deletério inevitável do consumo de antibióticos, prevenindo o estabelecimento de diarréias. Diferentes preparações probióticas têm mostrado sucesso no tratamento e prevenção das infecções intestinais incluindo salmoneloses, shigeloses, diarréia induzida por antibióticos e diarréia causada por C. difficile, bem como dos distúrbios associados a aumento da permeabilidade intestinal (gastroenterite viral) ou falhas nas funções de barreira da mucosa (Saavedra et al., 1994). Tratando-se de microorganismos, não existe "risco zero" e, portanto, é preciso aceitar que podem ter efeitos positivos mas também potenciais efeitos secundários. Segundo Marteau & Salminen, 1998, o risco de transferência de genes entre o probiótico e a flora endógena é motivo de preocupação quando se considera o uso futuro de probióticos modificados geneticamente, pois estes poderiam abrigar perigosos genes resistentes a antibióticos. Diversas abordagens complementares podem ser utilizadas para avaliar a inocuidade de alguma cepa probiótica. As propriedades intrínsecas da cepa, especialmente as propriedades enzimáticas, e o perfil da resistência a antibióticos, podem ser facilmente estudados e deveriam ser conhecidos para cada probiótico. 5 - OBJETIVOS 5.1 - Objetivo Geral Avaliar a susceptibilidade das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46, a antibióticos de diferentes classes. 6 - MATERIAL E MÉTODOS 6.1- Microrganismos 6.1.1 - Probiótico Para a realização do trabalho, foram utilizadas culturas lácticas comerciais (DVS - Christian Hansen Lab., Horsholm, Denmark), constituídas segundo o fabricante por Bifidobacterium bifidum (Bb12) e Bifidobacterium longum (Bb46). Essas culturas, do tipo termofílicas, contêm Bifidobacterium de origem humana e são aplicadas principalmente na fabricação de produtos probióticos de leite (fermentados ou "sweet"). A partir das culturas DVS – Bb12 e DVS - Bb46 foram selecionadas colônias típicas de Bifidobacterium bifidum e Bifidobacterium longum, que foram mantidas congeladas a -86°C (glicerina 40%) em Caldo MRS (De Man, Rogosa e Sharpe) (Merck, Darmstadt, Germany). 6.1.2 - Controle Como controle para Bacteroides fragilis Microbiologia Oral congelada a –86 °C Germany). 6.2 - Antibióticos os testes de susceptibilidade, fez-se o uso de ATCC 25285, obtida junto ao Laboratório de ICB - UFMG. Esta cultura, também foi mantida (glicerina 40%) em caldo BHI (Merck, Darmstadt, 6.2.1 - Antibióticos utilizados Os antibióticos utilizados durante os testes foram escolhidos, levando-se em conta o mecanismo de ação de cada um, procurando-se avaliar representantes de cada grupo. Assim, foram utilizados os seguintes: antibióticos que inibem a síntese da parede celular (Penicilinas - b lactâmicos; Cefalosporinas - b -lactâmicos; Peptídicos - Vancomicina), antibióticos que inibem a síntese de proteínas (Tetraclinas - Tetraciclina; Aminoglicosídeos - Gentamicina; Fenólicos - Cloranfenicol; Lincosamidas Clindamicina; Macrolídeos - Azitromicina) 6.3 - Teste de Susceptibilidade Para a realização dos testes de susceptibilidade antimicrobiana, as culturas de Bifidobacterium foram descongeladas e passadas em caldo MRS por duas vezes e incubadas a 37 ° C por 20 horas. As culturas foram testadas em placas separadas, pelo método de diluição em ágar, recomendado pelo National Commitee For Clinical Laboratory Standards - NCCLS (2000), com adaptações, em diversas concentrações. Ágar MRS, foi o meio de cultura escolhido no lugar de Muller-Hinton devido a alta exigência nutricional por parte das culturas de Bifidobacterium. As concentrações dos antibióticos foram determinadas utilizando como referência os seus respectivos pontos críticos. Foram escolhidas diluições seriadas de 1:2 (duas diluições acima e duas diluições abaixo) a partir do ponto crítico de cada droga. Para que fossem feitos os "spots" nas placas, utilizou-se um replicador de "Steers" e as culturas a uma concentração, em caldo (Caldo MRS para as Bifidobactérias e Caldo BHI para o B. fragilis), correspondente a 0,5 na escala de McFarland. Após 48 horas de incubação a 37 ° C em câmara de anaerobiose (Forma Scientific Co. Marietta, USA, contendo atmosfera de N2 85%, H2 10% e CO2 5%), foi observada a presença ou ausência de crescimento nas placas, obtendo-se assim, o perfil de resistência ou sensibilidade das amostras testadas. Todos os testes foram realizados em duplicata. 7 - RESULTADOS E DISCUSSÃO As tabelas indicam os resultados dos testes de susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e longum Bb46, onde (*) significa ponto crítico da droga, (+) significa crescimento bacteriano e (-) significa ausência de crescimento bacteriano. Cefalosporina Cefaclor Controle 8 µg/mL 16 µg/mL 32* µg/mL 64 µg/mL 128 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + + + - - - B. fragilis + + + - - - Tabela 01- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Cefaclor (ß-Lactâmico-Cefalosporinas). Lincosamidas Clindamicina Controle 2 µg/mL 4 µg/mL 8* µg/mL 16 µg/mL 32 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + - - - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 02- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Clindamicina (Lincosamidas). Macrolídeos Azitromicina Controle 2 µg/mL 4 µg/mL 8* µg/mL 16 µg/mL 32 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + - - - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 03- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Azitromicina (Macrolídeos). Fenólicos Clorafenicol Controle 8 µg/mL 16 µg/mL 32* µg/mL 64 µg/mL 128 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + - - - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 04- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Cloranfenicol (Fenólicos). Glicopeptídicos Vancomicina Controle 2 µg/mL 4 µg/mL 8* µg/mL 16 µg/mL 32 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + - - - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 05- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Vancomicina (Glicopeptídicos). Penicilinas Amoxicilina Controle 4 µg/mL 8 µg/mL 16* µg/mL 32 µg/mL 64 µg/mL Bb12 + - - - - - Bb46 + - - - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 06- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Amoxicilina (ß-Lactâmico-Penicilinas). Tetraciclinas Tetraciclina Controle 4 µg/mL 8 µg/mL 16*µg/mL 32 µg/mL 64 µg/mL Bb12 + + + - - - Bb46 + + + - - - B. fragilis + - - - - - Tabela 07- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Tetraciclina (Tetraciclinas). Aminoglicosídeos Gentamicina Controle 2 µg/mL 4 µg/mL 8* µg/mL 16 µg/mL 32 µg/mL Bb12 + + + + + + Bb46 + + + + + + B. fragilis + + + + + + Tabela 08- Susceptibilidade antimicrobiana das cepas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 frente ao antibiótico Gentamicina (Aminoglicosídeos). Com o término dos experimentos, foi possível constatar que as culturas de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46, apresentaram sensibilidade aos seguintes antibióticos testados: Cefaclor (Cefalosporinas), Clindamicina (Lincosamidas), Azitromicina (Macrolídeos), Cloranfenicol (Fenólicos), Vancomicina (Glicopeptídicos), Amoxicilina (Penicilinas) e Tetraciclina (Tetraciclinas), de acordo com as concentrações testadas; confirmando os resultados apresentados por: La Vergne et al., 1959; Miller e Finegold, 1967; Matteuzi et al., 1983 e Scardovi, 1986 (para Vancomicina). As duas culturas apresentaram resistência ao antibiótico testado Gentamicina (Aminoglicosídeos), demonstrado pelo crescimento bacteriano em todas as concentrações a que foram submetidas, confirmando os resultados apresentados por: La Vergne et al., 1959; Miller e Finegold, 1967; Matteuzi et al., 1983. A resistência de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 em todas as concentrações testadas para a Gentamicina (Aminoglicosídeos), poderia ser explicada pela inibição do transporte do antibiótico na célula bacteriana, já que a entrada desta droga nas células procariontes é O2-dependente. Isso explica a resistência natural das bactérias anaeróbias estritas a este antibiótico (Silva, 1999; Murray et al., 2000 e Brooks et al., 2000). Sabe-se também, segundo Brooks et al, 2000 e Murray et al., 2000, que os aminoglicosídeos são mais amplamente utilizados contra bactérias entéricas Gramnegativas e não Gram-positivas como é o gênero Bifidobacterium. O crescimento de Bifidobacterium longum Bb46, em algumas das concentrações testadas (8µg/mL, 16µg/mL), para o Cefaclor (Cefalosporinas), poderia ser explicado após estudos futuros, por uma possível inativação da droga por cefalosporinases (ß-Lactamases), que são enzimas extracelulares e induzíveis em bactérias Gram-positivas. Neste caso, poderia ter sido sintetizada em quantidade insuficiente para neutralizar a ação do fármaco. São encontradas codificadas tanto no cromossoma como em plasmídeos, e há a possibilidade de alterações das PBP (Penicillin Binding Proteins - Proteínas Fixadoras de Penicilina), carboxipeptidases, transpeptidases e endopeptidases implicadas na fase final da formação da parede celular ou a uma penetração deficiente do fármaco nas bactérias (Brooks et al., 2000). Já, para o crescimento de Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46, em algumas das concentrações testadas (4µg/mL, 8µg/mL) para a Tetraciclina (Tetraciclinas), uma pequena penetração do antibiótico na célula bacteriana ou a um efluxo ativo do antibiótico para fora da célula poderia explicar o ocorrido, e que, com o aumento da concentração da droga, tornou-se ineficiente, resultando assim, em morte celular (Murray et al., 2000). Acredita-se, então, que estas cepas possam ser utilizadas como bioterapêutico, desde que, a eliminação deste, caso necessário, seja feita utilizando-se os antibióticos aos quais foi visível a total sensibilidade aos mesmos. Quanto ao risco de transferência de genes entre o probiótico e a microbiota endógena, testes futuros relacionados a presença ou ausência de plasmídeos, poderiam ser de grande valia verificando a possibilidade de transferência genética, já que esta característica está mais associada aos plasmídeos que ao DNA cromossomal. Considera-se dessa forma, de extrema importância, a correta administração dos antimicrobianos testados, caso se faça necessária, a eliminação do bioterapêutico. 8 - CONCLUSÃO Pelos resultados e nas condições em que foram realizados os testes, pode-se concluir que as culturas Bifidobacterium bifidum Bb12 e Bifidobacterium longum Bb46 apresentaram sensibilidade aos seguintes antibióticos testados: Cefaclor (Cefalosporinas), Clindamicina (Lincosamidas), Azitromicina (Macrolídeos), Cloranfenicol (Fenólicos), Vancomicina (Glicopeptídicos), Amoxicilina (Penicilinas), Tetraciclina (Tetraciclinas) e resistência a Gentamicina (Aminoglicosídeos); de acordo com as concentrações testadas, e ainda, as propriedades intrínsecas das cepas testadas, especialmente o perfil de resistência a antibióticos, podem ser facilmente estudadas e deveriam ser conhecidas para cada probiótico, pois, assim, permitiriam que fossem estabelecidas, mais precisamente, as relações risco/benefício de uso destes bioterapêuticos. 9 - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BROOKS, G. 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[1] - Graduando em Ciências Biológicas pelas Faculdades Metodistas Integradas Izabela Hendrix - FAMIH [2] - Doutoranda em Microbiologia pelo ICB / UFMG [3] - Colaborador - Doutorando em Microbiologia pelo ICB / UFMG [4] - Prof. Orientador - Professor titular do Laboratório de Ecologia e Fisiologia de Microrganismos do ICB/UFMG Voltar