Reportagem
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TRÂNSITO
Imprudência que
abrevia vidas
Reportagem Local
A
s notícias recentes sobre
o envolvimento de adolescentes e jovens em
acidentes de trânsito que, na
maioria dos casos, resultaram
na morte trágica de pessoas
ainda no início da vida, causam comoção e deixam muitas famílias em alerta. Apenas
no último mês, dois casos chamaram a atenção em Londrina: um jovem de 18 anos morreu após colidir contra um
poste e, em outra situação, o
motorista de um veículo onde
havia dois adolescentes de 13
e 14 anos fugiu após uma colisão que deixou o motorista do
outro carro gravemente ferido.
Em Quedas do Iguaçu, na região sudoeste do Paraná, um
acidente entre dois carros matou oito jovens entre 15 e 22
anos em julho.
Estatísticas do Datasus referentes aos acidentes de trânsito no Paraná reforçam os
motivos para preocupação.
Enquanto no Brasil, em 2010,
houve 28 mortes de jovens entre 15 e 24 anos para cada
cem mil habitantes, no Estado
o índice foi de 45,3 óbitos. Em
números absolutos, as mortes
de jovens desta faixa etária,
entre 1990 e 2010, aumentaram 58% no Paraná. O índice
nacional, no mesmo período,
foi de 61%.
Em pesquisa realizada na
década de 1980, a psicóloga
Julieta Arsênio, especialista em
comportamento no trânsito,
constatou que os jovens reproduziam as condutas dos pais
ao volante. Quase 30 anos de-
pois, ela percebe a continuidaDéborah Malta, diretora de
de desse comportamento. Análises de Situação de Saú“Não basta trabalhar a educa- de do Ministério da Saúde
ção no trânsito, eles precisam (MS), destaca que índices do
ter modelo de educação. Ele Sistema de Informação de
dirige tal qual ele vive em casa. Mortalidade (SIM) apontam
Dizer apenas ‘não beba porque que quase 55 mil óbitos por
é perigoso’ não vai ter resulta- causas externas, dos 145 mil
do, pois grande parte dos jo- ocorridos no Brasil em 2011,
vens não acredita que algo foram na faixa etária de 10 a
grave vai acontecer com eles.” 29 anos (10 a 19 e 20 a 29).
Segundo a psicóloga, vários “Entre as principais causas esitens ainda estão embutidos na tão os homicídios e acidentes
postura dos jovens: a potência de trânsito. Os jovens, sobredo carro que precisa ser exibi- tudo do gênero masculino,
da por meio da alta velocidade continuam morrendo por caue o poder de autoafirmação sas externas.”
que isso representa. “A impulsiO pesquisador Julio Jacobo
vidade e a competitividade, Waiselfisz, responsável pelo
mais afloradas nesta fase, re- Mapa da Violência e coordeforçam o mau comportamento nador da Área de Estudos da
no trânsito.” O que tem de ficar Violência da Faculdade Latinoclaro, de acordo
Americana de
com ela, é que o
Ciências SoEspecialistas
ato de dirigir é
ciais (FLACSO),
cobram mais
um processo
alerta que uma
psíquico complirigor na emissão das principais
cado, que recausas de morda CNH
quer atenção. “E
te de jovens é o
como isso pode
aumento cada
ser feito com música alta, fone vez maior do uso de motocide ouvido, celular, sem falar do cletas por essa faixa etária.
uso de bebida alcoólica e dro- “Entre 40% e 45% das vítimas
gas ilícitas?”, indaga.
de acidentes de trânsito são
Além do exemplo dos pais, motociclistas, em sua maioria
que ela considera ser o “melhor jovens que utilizam o veículo
educador do filho”, Julieta pro- para chegar ao trabalho ou copõe que a primeira fase do pro- mo instrumento de trabalho,
cesso para adquirir habilitação como é o caso dos motoboys.
seja a avaliação e acompanha- A tendência é que, em poucos
mento psiquiátrico por mais anos, as motocicletas respontempo, que vão possibilitar que dam por mais da metade de
mecanismos técnicos aprendi- todos os óbitos em acidentes
dos sejam colocados em práti- de trânsito”, avalia.
ca de forma consciente. “Com
Ele também considera que
tudo isso, aliado ao rigor da fis- o Brasil tem o que chama de
calização, os jovens podem vir “tolerância institucional” às
a se tornar bons motoristas, ou mortes no trânsito, decorrente
pelo menos, a respeitar mais da falta de investimento em
as leis de trânsito.”
estrutura para atender os aci-
‘As rodovias são
verdadeiras roletas russas’
Foi com a voz embargada e lágrimas nos olhos que
a contadora Maria Aparecida Marcato, de Apucarana,
contou os detalhes do acidente de trânsito que levou
à morte o filho dela, Lucas,
de apenas 26 anos, em
maio deste ano na BR-369,
próximo à praça de pedágio
de Arapongas. Segundo a
mãe, o rapaz, que estava de
férias na casa da família e
naquela madrugada pegou
a estrada para retornar ao
Espírito Santo, onde trabalhava, foi atingido por um
veículo ocupado por três jovens alcoolizados que entraram na contramão em um
trecho de pista dupla da rodovia. O motorista que provocou o acidente e um dos
passageiros do mesmo veículo também faleceram.
Três meses após perder
o filho, Maria Aparecida está
convicta de que ele foi assassinado por um motorista
embriagado e engrossa o
coro da campanha “Não foi
acidente”, que quer transformar em crime os atos de
embriaguez ao volante, com
aumento da pena de prisão
tanto para quem dirige embriagado (de 1 a 3 anos de
prisão) como para quem
provoca mortes no trânsito
por estar dirigindo embriagado (de 5 a 8 anos de prisão). Mais informações sobre a campanha estão disponíveis no site www.naofoiacidente.org .
“Lucas era um rapaz super responsável, ajuizado,
que saiu cedo de casa no
dia da viagem para evitar o
tráfego de caminhões. Mesmo sendo tão prudente,
acabou morto porque os
outros motoristas nem sempre são. As rodovias são
Marian Trigueiros
Reportagem Local
A
dentes, fiscalização ineficaz e
até mesmo as regras para
emitir carteiras de habilitação.
“Se a pessoa conseguiu tirar a
habilitação mesmo sem saber
dirigir, de quem é a responsabilidade?”, questiona. (Colaborou Fábio Galão)
Pais atentos e
filhos conscientes
Jovens universitários que
organizam grandes eventos
em chácaras afastadas do
centro da cidade disponibilizam transporte àqueles que
não têm como se locomover
ou querem aproveitar o momento para beber. Isso porquê não é segredo que essas festas são regadas a
muita bebida alcoólica. O
conhecido Transporte Universitário (TU) sai de um
ponto da cidade e volta a ele
no final da festa. Os interessados pagam um valor, em
média R$ 5, para usufruir do
serviço. Já no ponto, utilizam-se dos táxis ou caronas
apenas no perímetro urbano
para voltarem para casa.
O estudante Tauan Rodrigues dos Santos, de 20
anos, costuma usar o TU
com frequência. “É muito
melhor pegar o ônibus e não
ter a preocupação de dirigir
depois, ainda mais por serem festas em lugares bem
afastados”, diz ele, que também afirma fazer rodízio com
os amigos em baladas na cidade. “Sempre tem o motorista da vez que fica sem beber. Já no caso de todos
quererem aproveitar a noite,
vamos de táxi mesmo”, ga-
rante o jovem. Aparentemente mais conscientes, muitos
jovens têm procurado essas
alternativas para não deixarem de aproveitar os momentos de lazer.
O estudante de Direito Samael Martins Corrêa da Silva,
21 anos, não se considera
integrante de um “grupo de
risco” mais suscetível a acidentes de trânsito. Apesar
de jovem, ele e os amigos
tomam precauções para se
manterem seguros no trânsito mesmo quando a noite
envolve consumo de bebidas alcoólicas. “A gente elege o motorista da rodada,
que não bebe nada durante
a noite e se responsabiliza
por levar todos para casa”,
conta.
Além de temer acidentes,
Silva quer evitar, também, as
punições previstas pela legislação. “Quem é pego dirigindo embriagado fica com
maus antecedentes, o que
pode inviabilizar a contratação em caso de aprovação
em concurso público”, exemplifica.
Mas, por trás, há pais
atentos que cobram. A funcionária pública Silvana Santos, mãe de um rapaz de 18
anos, conta que os amigos e
o próprio filho preferem beber em casa em vez de saírem. “Deixo muito bem claro
que se beberem dentro da
minha casa, não vão sair dirigindo depois. Espalho vários
colchões pela sala para que
durmam por lá mesmo”, detalha. A prática é comum em
sua casa, mas ela sabe que
a idade dos jovens não ajuda muito nas atitudes. “Infelizmente, nem sempre temos
o controle de tudo. Porém,
se depender de mim, escondo a chave do carro.”
Atualmente, o filho está
em processo da primeira habilitação e o que a tranquiliza
é que o rapaz tem responsabilidade e ficou chocado
com um acidente recente, no
qual amigos, que estariam
alcoolizados, ficaram gravemente feridos e um conhecido morreu. “Ele me garantiu
que nunca vai fazer isso. Esse triste episódio reforçou o
perigo que pode ser a direção.” Enquanto isso, ele pega carona apenas quando
alguém no carro não tem o
costume de beber. “E se precisar, vou buscar. Comigo
não tem esse negócio de
vergonha”, diz. (M.T.)
verdadeiras roletas russas”,
denuncia a mãe, que também não acredita na eficácia da fiscalização. “Mesmo
a Lei Seca não foi capaz de
impedir o acidente”, lamentou.
Mãe de um adolescente
de 16 anos, ela conta que
sempre foi zelosa com os filhos e faz questão de monitorar as atividades do mais
novo, inclusive levando-o e
buscando-o em festas e
eventos. Os cuidados foram
redobrados depois da fatalidade que causou a morte
do primogênito. Abalada
pela perda, ela espera o endurecimento das leis de
trânsito e faz um apelo aos
pais de outros jovens: “Eduquem seus filhos para não
serem assassinos. Um carro pode ser uma arma perigosa nas mãos de quem
não sabe usar.” (C.A.)
Maria Aparecida Marcato tenta superar a dor da perda do filho Lucas, que teve o carro atingido por outro veículo ocupado por três jovens alcoolizados
Gina Mardones
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Álcool X volante: combinação perigosa
País tem uma das leis mais rigorosas do mundo,
mas precisa aplicar as punições de fato e
rapidamente, avalia pesquisador
Nos últimos 20 anos, número de mortes no trânsito dentro
da faixa etária de 15 a 24 anos cresceu 58% no Paraná
Carolina Avansini e
Marian Trigueiros
Reportagem
FOLHA DE LONDRINA, domingo, 8 de setembro de 2013
combinação entre álcool
e direção não é a única
causa de acidentes de
trânsito entre os jovens, mas
está entre as que mais preocupam. O trabalho e pesquisa
inéditos no Brasil do psiquiatra
Valdir Ribeiro Campos, em seu
doutorado pela Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), levantou que de 2005 a
2007 cerca de 30% dos motoristas - com idade entre 20 e
30 anos - parados aleatoriamente nas cidades de São
Paulo, Belo Horizonte e Vitória
apresentavam índice de álcool
superior ao permitido na época (6 decigramas por litro de
sangue). “Este número era
cinco vezes maior que em muitos países em desenvolvimento semelhante ao do Brasil”,
afirma
A pesquisa em questão foi
realizada em postos de checagem de sobriedade, juntamente com blitze, porém, sem que
as informações fossem compartilhadas com a polícia.
“Nessa época, não existia nenhuma política de fiscalização
com etilômetro consistente
ainda no País.” Segundo ele,
aparentemente, muitos não
apresentavam sinais de embriaguez, “mas com a realização do teste, comprovava-se
o uso de bebida”. “Isso fez
com que as autoridades se
atentassem à importância de
ferramentas como o bafômetro.” No mesmo ano, o psiquiatra teve acesso a uma
pesquisa do Instituto Médico
Legal (IML) de São Paulo que
apontava que mais de 50%
dos corpos eram oriundos de
acidentes de trânsito por causa do álcool.
Já em 2009, um ano após a
antiga Lei Seca, que permitia
até dois decigramas de álcool,
os testes foram repetidos e
comprovou-se que, nos locais
onde a fiscalização permaneceu, os índices caíram pela
metade. “Apesar do número
continuar alto, reforçou nossa
tese de que políticas consistentes e contínuas são eficazes na redução de embriaguez
ao volante.” Para completar,
ele ainda acompanhou a rotina de atividades do Hospital
das Clínicas (HC) de São Paulo, onde os médicos relataram
diminuição considerável no
número de acidentes nas noites de fins de semana ocasionados pelo abuso do álcool.
Para ele, cuja pesquisa foi
considerada de grande relevância social e saúde pública
pelos órgãos fiscalizadores, o
Brasil ainda está em processo
embrionário nas políticas públicas para redução de acidentes. “Temos atualmente,
uma das leis mais rigorosas
do mundo. Precisamos melhorar sua credibilidade aplicando
as punições de fato, mas sobretudo, mais rapidamente”,
sugere.
Outra pesquisa cujos dados
chamam à atenção, segundo
Déborah Malta, diretora de
Análises de Situação de Saúde do MS, é da Vigilância de
Fatores de Risco e Proteção
para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), que
levantou que das 46 mil pessoas entrevistadas nas capitais brasileiras em 2011, 7%
das pessoas afirmaram ter bebido e dirigido em seguida. A
faixa entre 18 e 24 anos ficou
em 10%. Quando separados
por sexo, somente a taxa mas-
culina da mesma faixa de idade subiu para 16,5%. Essa
média ficou em 8% na média
geral e 15% entre o público
masculino.
Diante dos dados, de acordo com ela, os jovens permanecem com os comportamentos de risco, pois têm a sensação de imunidade e que nada
de ruim vai ocorrer. “A falsa
sensação de segurança os
coloca em grande exposição.
Essa faixa de idade combinada ao uso de álcool e direção,
resultam em maior vulnerabilidade.” Ela atenta ainda para
os recursos de fiscalização
acompanhem a tecnologia
que facilitam as fraudes, como
os aplicativos de smartphones
que avisam onde estão acontecendo blitze ou existem radares de velocidade. (M.T.)
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Uso do álcool
não é a única
causa de
acidentes de
trânsito entre
os jovens, mas
está entre as
que mais
preocupam
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folha londrina - Valdir Ribeiro Campos