Tema I: Biologia
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3. Consumo de madeiras e produção de partículas fecais pelas
espécies de térmitas Açorianas da família Kalotermitidae:
Kalotermes flavicollis e Cryptotermes brevis
3. Wood consumption and pellet production by Azorean
Kalotermitidae: Kalotermes flavicollis and Cryptotermes brevis
Maria Ferreira1, Timothy G. Myles2, Annabella Borges1, Orlando Guerreiro1 &
Paulo A.V. Borges1
1
Universidade dos Açores, Dep. Ciências Agrárias, CITA-A, Terra-Chã, 9700-851 Angra do Heroísmo, Terceira, Açores,
Portugal.
2
Director, Urban Entomology Program, Centre for Urban and Community Studies, 455 Spadina Ave., Suite 400, University of
Toronto, Toronto, Ontario M5S 2G8 (416) 978-5755; [email protected]
Ferreira, M., Myles, T.G., Borges, A. Guerreiro, O.& Borges, P.A.V. (2006). Consumo de madeiras e produção
de partículas fecais pelas espécies de térmitas Açorianas da família Kalotermitidae: Kalotermes flavicollis e
Cryptotermes brevis. In: P.A.V. Borges & T. Myles (eds.), WORKSHOP: “Medidas para a Gestão e Combate
das Térmitas nos Açores”- Livro de Resumos. Universidade dos Açores, Dep. de Ciências Agrárias – CITA-A,
Angra do Heroísmo, pp. 34-44.
Resumo: Duas espécies de térmitas da família Kalotermitidae existem nos Açores.
Kalotermes flavicollis é uma térmita de madeira verde e é uma praga urbana menor.
Cryptotermes brevis é uma térmita de madeira seca e é uma importante praga para
mobiliário e estruturas. As espécies de madeira consumidas por cada espécie nos
Açores é revista. Diferenças na cor, tamanho, forma, e modo de despejo das partículas
fecais é descrito . A taxa de consumo de madeira e a produção de partículas fecais para
a espécie Cryptotermes brevis foram estudadas em 49 tipos diferentes de madeiras.
Verificou-se que duas espécies de madeira que são produzidas localmente e muito
usadas na construção, Cryptomeria japonica e Eucalyptus sp., foram das mais
consumidas, indicando a importância do desenvolvimento de um sistema local para
tratamento por pressão em auto-clave das madeiras. Entre as madeiras menos
consumidas (mais resistentes) encontram-se espécies tropicais como Jatoba e
Massundumba. As partículas fecais que são expulsas das galerias pelas térmitas são a
forma mais conspícua de detectar infestações por Cryptotermes brevis, dando bons
meios para monitorizar a localização de térmitas, o tamanho da colónia e a sua
actividade. Foi verificado que a expulsão de partículas fecais é descontinua. Contudo
alguns períodos de expulsão de partículas fecais são contínuos por alguns dias com
taxas de expulsões de 274 partículas fecais por hora com acumulações de até 7.8
gramas num período de duas semanas.
Abstract: Two térmitas species of the family Kalotermitidae occur in the Azores.
Kalotermes flavicollis is a dampwood térmita and minor house pest. Cryptotermes brevis
is a drywood térmita and a major pest of furniture and structures. Records of wood
species consumed by each species in the Azores are reviewed. Differences in the color,
size, shape, disposal of fecal pellets of each species are described. Rates of wood
consumption, pellet production were experimentally studied for Cryptotermes brevis on
49 different wood species. Two wood species that are locally produced and widely
utilized for construction, Cryptomeria japonica and Eucalyptus sp., were found to be
among the most preferred woods for térmita consumption indicating an important need
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for the development of an effective local pressure treatment system for preserving these
woods. Least preferred (most resistant woods) included tropical hardwood species such
as Jatoba and Massundumba. Fecal pellets expelled from galleries by térmitas are the
most conspicuous evidence of Cryptotermes brevis infestations and provide a potential
means of monitoring térmita location, colony size and activity. Pellet expulsion was found
to be discontinuous. However some bouts of pellet dumping were observed to be
continuous for at least several days with rates of pellet expulsion of up to 274 pellets per
hour, with pellet accumulations of as much as 7.8 grams over a two-week period.
1. Introdução
As duas espécies Açorianas de Kalotermitidae (Cryptotermes brevis and Kalotermes flavicollis) são
ecologicamente semelhantes no facto de as suas escavações serem inteiramente feitas em madeira
e não no solo e assim o desenvolvimento das suas colónias é usualmente limitado a um único item de
madeira acima do solo. Devido a esta limitação, estas colónias são normalmente pequenas, apenas
algumas dezenas ou centenas de térmitas. Isto contrasta com a térmita subterrânea (Reticulitermes
grassei) que é capaz de aceder a muitos itens diferentes de madeira formando túneis através do solo
e que possuem colónias nas hordas dos milhões de indivíduos. Contudo estas duas espécies de
Kalotermitidae representam ramos filogenéticos bastante divergentes dentro desta família. K.
flavicollis é uma térmita de madeira verde clássica e é representativa da condição ecológica mais
primitiva que é mais dependente de um grua de humidade mais elevado na madeira. C. brevis, por
outro lado, é o perfeito exemplo de uma térmita de madeira seca e apenas sobrevive em madeira que
está protegida da precipitação. Ambas as espécies são polífagas sendo capazes de consumir uma
grande variedade de espécies de madeira. Existem dados recolhidos na Terceira de K. flavicollis em
videiras, oliveiras, citrinos, salgueiros, metrozideros e incenso (Pitosporum undulatum). Usualmente
esta espécie escava galerias no cerne de ramos mortos, perto de tecido vivo, tirando assim a
humidade necessária da árvore viva. Quando ataca madeira estrutural é normalmente em locais
expostos a infiltrações ou condensações. Em contraste, C. brevis, não tem sido recolhida fora de
casas mas só dentro de estruturas tanto em madeira estrutural como em mobília. Esta espécie ataca
uma variedade de madeiras duras e moles embora com uma clara diferença na sua preferência.
2. Métodos
Para as experiências de consumo de madeira, peças de diferentes tipos de madeira foram cortadas
em pequenos blocos (Fig. 1) que foram secos numa estufa e pesados. Estes foram por sua vez
colocados em caixas de Petri com 10 térmitas cada, sendo feitas observações semanalmente. Nestas
observações semanais as térmitas mortas eram removidas e as partículas fecais eram contadas. As
madeiras usadas nesta primeira experiência de consumo de madeira foram Cryptomeria, Eucaliptus,
Jatoba, Sapel, Takula, Roseira, Pinho, Acacia e Massarundumba. Para todas estas madeiras um total
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de três replicas foram montadas. Ao fim de três meses a Madeira foi de novo seca numa estufa e de
novo pesada.
Figura1. Térmitas num bloco de Cryptomeria japonica.
Para a segunda experiência de consume de Madeira, algumas das mesmas madeiras foram
utilizadas, mas a maioria das madeiras utilizadas eram estrangeiras, trazidas do Canadá. Neste caso
as madeiras foram divididas em blocos e fatias. Os blocos foram colocados em copos de plástico
enquanto as fatias foram colocadas em caixas de Petri. Três replicas para cada madeira foram
montadas e foram usadas 50 térmitas em cada réplica. A mortalidade e a produção de partículas
fecais foi igualmente observada semanalmente.
As partículas fecais das espécies Kalotermes flavicollis e Criptotermes brevis foram observadas numa
lupa binocular para analizar as suas diferenças (Fig. 2).
Figura 2. partículas fecais de Criptotermes brevis (5 filas da
esquerda) e Kalotermes flavicollis (últimas três filas).
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A produção de partículas fecais também foi analisada pela colecta de partículas fecais caídas de um
tecto infestado em períodos de tempo diferentes desde 30 minutos a dois meses em diversos pontos
diferentes no laboratório de campo.
3. Resultados e Discussão
Observações de partes seccionadas de tábuas de várias espécies infestadas indicam que esta
espécie prefere sempre consumir o borne tendo menor preferência pelo cerne, isto é especialmente
observado em Cryptotermia japonica na qual o borne da madeira pode ser quase esvaziado enquanto
o cerne numa mesma tábua tem poucos túneis escavados (Fig. 3).
As taxas de consumo de madeira variam entre 0.8 (Jatoba) e 12.6 (Eucalyptus) mg por mês. Isto
também pode expresso em termos de volume de madeira escavado sugerindo uma taxa máxima de
volume escavado de 0.004 cm3 por térmita por mês em Cryptomeria, sugerindo que demoraria 50
térmitas 40 dias para escavar um cm3 de madeira.
Figura 3. Consumo do borne da madeira pela Criptotermes brevis.
A preferência de madeira também pode ser expressa em produção de partículas fecais. As taxas de
produção de partículas fecais nas diferentes madeiras variaram entre 0.9 e 4.3 partículas fecais por
térmita por semana. A côr, consistência tamanho e forma das partículas fecais variam dentro das
espécies de madeira consumidas. Partículas fecais resinosas são geradas em abundância quando C.
brevis se alimenta de madeira resinosa como o Pinho (Pinus). Crê-se que esta habilidade de
sequestrar resina durante a digestão é uma adaptação importante nesta espécie que permite atacar
madeiras moles resinosas. A forma como as partículas fecais são dispostas difere entre as duas
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espécies K. flavicollis e C. brevis. Em ambas as espécies as partículas fecais têm uma aparência
característica com seis superficies laterais impressas dando uma secção hexagonal. Na espécie K.
flavicollis as pontas das partículas fecais são normalmente planas e a sua côr é castanha ou preta,
nunca clara, esbranquiçada ou resinosa. Na espécie C. brevis as partículas fecais são ligeiramente
mais pequenas e muitas vezes pontiagudas na parte posterior. As partículas fecais de Kalotermes
flavicollis são compactadas em grandes aglomerados formando “plugs” entre as suas grandes
galerias. Amontoados de partículas fecais soltas não são encontrados. Na espécie Cryptotermes
brevis as partículas fecais nunca estão coladas umas às outras mas ficam soltas numa espécie de
areia e muitas (talvez 50% ou mais) são expulsas pelas térmitas por "kick holes". A taxa de expulsão
de partículas fecais de “kick holes” nalguns casos pode ser tão rápida como uma pelota a cada 20
segundos, podendo ser contínua durante vários dias. A taxa de acumulação de partículas fecais foi
medida até cerca de 10 gramas acumulados num período de dois meses.
A primeira série de experiências de consume de madeira produziram os seguintes resultados:
Em termos de peso perdido, Eucalyptus foi a madeira que perdeu mais peso devido ao consumo
pelas térmitas (Fig. 4). Isto poderia indicar que o Eucalyptus é uma das madeiras preferidas pelas
térmitas, mas por outro lado em termos de produção de partículas fecais Cryptomeria foi o tipo de
madeira que deu azo a uma maior produção de partículas fecais como se pode observar na Fig. 5. No
entanto, o Eucalyptus aparece em segundo como o tipo de madeira que criou mais partículas fecais.
Observando a produção de partículas fecais por térmita também é claro que as madeiras que são
mais consumidas pelas térmitas são a Cryptomeria e Eucalyptus (Fig. 6). Isto sugere que estes dois
tipos de madeira são bastante preferidos pelas térmitas e o seu consumo é bastante rápido e deve
ser um factor a ter em conta quando se instalam novas madeiras em casa.
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Média de peso perdido
0.07
0.06
peso (g)
0.05
0.04
0.03
0.02
Roseira
Eucalipto
Pinho
Takula
Acácia
Sapel
Jatoba
Massarundumba
0
Cryptomeria
0.01
Tipo de madeira
Figura 4. Perda de peso devido ao consume por térmitas dos blocos de madeira.
Produção média de partículas fecais
450.0
400.0
Massarudumba
350.0
Criptoméria
Jatoba
Sapel
300.0
N
250.0
Acácia
Takula
Pinho
200.0
150.0
Eucalipto
Roseira
100.0
50.0
2006-07-12
2006-07-05
2006-06-28
2006-06-21
2006-06-14
2006-06-07
2006-05-31
2006-05-24
2006-05-17
2006-05-10
2006-05-03
2006-04-26
2006-04-19
0.0
Semanas
Figura 5. Produção de partículas fecais ao longo de 3 meses.
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Produção média de partículas fecais por térmita por
semana
6
5
4
N3
2
Roseira
Eucalipto
Pinho
Takula
Acácia
Sapel
Jatoba
Criptoméria
0
Massarudumba
1
Tipo de madeira
Figura 6. Produção de partículas fecais por térmitas por semana.
Na segunda experiência de consumo de madeira as madeiras que produziram mais partículas fecais
foram Mahogany, Swiss Pear (Prunus sp.), Oak (Quercus sp.) and Birch (Betula sp.) todas com uma
média de produção de partículas fecais por mês superior a 350 partículas fecais (Fig. 7). Em relação
à produção de partículas fecais por térmita a madeira Birch (Betula sp.) é a madeira que as térmitas
consomem mais com uma média de 3.5 partículas fecais por térmita por semana (Fig. 8). Todas as
madeiras preferidas pelas térmitas nesta segunda experiência são madeiras moles, o que parece
indicar uma preferência de consumo pelas térmitas de madeiras mais moles no geral.
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Média de produção de partículas fecais num m ês
White A sh
So ft maple blo co
M etro zideo
Lirio derdro n
White Oak
Grey Wo o d
P inho blo co
A cácia
Sapel blo co
Crypto méria
Eucalypto
W. Red Ceder
Eucalipto
White P ine blo co
Lauan
Red Oak blo co
Tipo de madeira
B utternut
Wenge
M ako re
jato ba blo co
W. B ruce
B lack A sh
B lack Walnut
Jato bá fatia
Red Oak fatia
P awpaw
Tauri
White P ine
B irch
M adro na
Red A lder
Yello w B irch
P rima Vera
Hicko ry
Lo uro Claro
M aho go ny
B irch B etula
Oak Quercus
M aho gany blo co
Swiss P ear
0
100
200
300
400
núm ero de partículas fecais
500
600
Figura 7. Média da produção de partículas fecais para os vários tipos de madeira num mês.
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Média de produção de partículas fecais por térmita por
semana
White A sh
White Oak
P inho blo co
Lirio derdro n
Grey Wo o d
M etro zideo
So ft maple blo co
Crypto méria
W. Red Ceder
Eucalypto
Sapel blo co
M ako re
B utternut
A cácia
Eucalipto
Red Oak fatia
Tipo de madeira
Red Oak blo co
jato ba blo co
Lauan
B lack Walnut
Wenge
White P ine blo co
W. B ruce
B lack A sh
B irch
Hicko ry
Lo uro Claro
Tauri
Yello w B irch
M adro na
Jato bá fatia
White P ine
P awpaw
P rima Vera
M aho go ny
Red A lder
M aho gany blo co
Oak Quercus
Swiss P ear
B irch B etula
0
1
2
3
4
5
número de partículas fecais
Figura 8. Produção de partículas fecais por térmita por semana num mês.
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O tempo entre a expulsão de partículas fecais é muito variável. Em 30 minutos um total de 138
partículas fecais foram expulsas. A maioria das partículas fecais demorou entre 0 e 15 segundos
entre cada expulsão, embora algumas vezes o tempo entre a expulsão de partículas fecais podia ser
superior a um minuto (Quadro 1).
Tempo (segundos)
Número de
partículas fecais
0a5
48
6 a 10
38
11 a15
17
16 a 20
6
21 a 25
12
26 a 30
7
31 a 35
2
36 a 40
3
41 a 45
1
46 a 50
1
51 a 55
1
56 a 60
0
Mais de 60 segundos
3
Quadro 1. Tempo entre a expulsão de partículas fecais durante um período de 30 minutos.
Também foi observado que a produção de partículas fecais em termos de peso acumulado varia
bastante desde um máximo de 9.1224g recolhido em 2 meses até um mínimo de 1.1756g. Enquanto
que num período de duas semanas recolheu-se desde 7.8035g a 0.2147 (Fig. 9).
Também se pode observar na Fig. 9 que, por exemplo no ponto 2 houve um valor muito similar de
produção de partículas fecais embora o período de recolhas fosse diferente. Isto sugere que a
expulsão de partículas fecais pelas térmitas é um acontecimento bastante variável, não sendo
constante em tempo ou quantidade. Isto pode sugerir que quando se faz uma inspecção a uma casa
para detectar a presença de térmitas, há uma necessidade de inspeccionar a casa a diferentes
alturas porque uma vez poderá não ser suficiente para detectar a presença de térmitas se falhar o
tempo de expulsão de partículas fecais.
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recolha de 2 meses
peso (g)
pesos de partículas fecais recolhidas
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
recolha de 2
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
pontos de recolha
Figura 9. Partículas fecais recolhidas em dois períodos de tempo em 14 pontos
de recolha diferentes.
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