PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO MESTRADO WENDEL JERONIMO DE ALBUQUERQUE FREIRE A PARCERIA JORNAL E ESCOLA EM PROJETO PEDAGÓGICO: UM ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL NITERÓI 2010 WENDEL JERONIMO DE ALBUQUERQUE FREIRE A PARCERIA JORNAL E ESCOLA EM PROJETO PEDAGÓGICO: UM ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre. Orientadora: Profª. Dra. MARY RANGEL Niterói 2010 WENDEL JERONIMO DE ALBUQUERQUE FREIRE A PARCERIA JORNAL E ESCOLA EM PROJETO PEDAGÓGICO: UM ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre. Aprovada em ___ de fevereiro de 2010. BANCA EXAMINADORA _______________________________________________________________ Profª. Dra. MARY RANGEL – Orientadora UFF _______________________________________________________________ Profª. Dra. MARSYL BULKOOL METRAU Universidade Salgado de Oliveira _______________________________________________________________ Prof. Dra. MARISE MARIA SANTANA DA ROCHA Universidade Federal de São João Del-Rei Niterói 2010 À Amanda Pezzino Freire e ao Henrique Pezzino Freire AGRADECIMENTOS Aos professores e pesquisadores com quem convivi. Aos companheiros do Instituto Ary Carvalho. À estimada professora Mary Rangel. “Para se tornar um cidadão livre, é preciso formar opiniões próprias com toda independência de espírito. Para ser um cidadão livre é preciso dominar a mídia.” (Nicole Herr, 1997, p. 12). RESUMO O presente trabalho pretende, através de um estudo reflexivo, investigar os significados construídos pelos educadores sobre o programa de jornal e educação O Dia na Sala de Aula. Para esse entendimento da parceria entre uma empresa de jornal impresso e escolas, a pesquisa recebe a contribuição dos conceitos de Representações Sociais e de Mídia-educação, dois alicerces para a reflexão sobre a relação entre espaço escolar e veículo de comunicação, para a discussão do jornalismo como forma de conhecimento e do conhecimento prático dos educadores a respeito do projeto mídia-educativo O Dia na Sala de Aula. Palavras-chave: jornal e educação, representações sociais, mídia-educação. ABSTRACT This study aims, through a reflective study, to investigate the meanings constructed by teachers about the program of newspaper in education O Dia na Sala de Aula. For this understanding of the partnership between a newspaper and schools, research receives the contribution of the concepts of Social Representations and Media Education, two foundations for this reflection on the relationship between the school and communication vehicle for the discussion of journalism as a form of knowledge and for the compreention of the practical knowledge of educators about the media education project O Dia na Sala de Aula. Keywords: newspapers in education, social representations, media education. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ...............................................................................................................10 1 COMPASSO TEÓRICO ..............................................................................................13 2 MÍDIA-EDUCAÇÃO: REFLEXÕES E PRÁTICAS DE UM TERCEIRO ESPAÇO .........................................................................................................................................18 2.1 Educar para uma ambiência comunicacional ...........................................................19 2.2 Mídia-educação em três momentos: breve relato de uma experiência ....................22 3 MÍDIA-EDUCAÇÃO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS ..............................................27 3.1 Conhecimentos desconsiderados e hierarquias abstratas .......................................28 3.2 Educação: fluidez e complexidade ...........................................................................29 3.3 Mídia-educação: possibilidade de mudança das Representações Sociais ..............31 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ....................................................................37 5 CONSTRUÇÕES E PRÁTICAS ..................................................................................50 5.1 Pré-análise ...............................................................................................................50 5.2 Análise descritiva ......................................................................................................51 5.3 Análise referencial ....................................................................................................53 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................59 REFERÊNCIAS ..............................................................................................................62 10 INTRODUÇÃO Nesta introdução, apresento-me como pesquisador e esclareço meu interesse na realização desta pesquisa. Graduado em Letras (Língua Portuguesa / Literatura) e pósgraduado em Tecnologia Educacional, venho trabalhando, há sete anos, como mídiaeducador em um projeto de Jornal e Educação. A ideia de usar a mídia impressa como um elemento pedagógico não é nova. Já no final do século XIX, educadores espanhóis discutiam o uso do jornal na escola – no intuito de substituir a leitura obrigatória de Cervantes. A primeira pessoa na história a utilizar o jornal na sala de aula foi a italiana Maria Montessori, na segunda metade do século XIX. Depois, no início do século XX, foi a vez do educador francês Célestin Freinet, que levou não apenas a mídia impressa como também a própria imprensa para a educação. O primeiro jornal impresso a utilizar o jornal, sistematicamente, em sala de aula foi o norte-americano The New York Times, em 1932. Nos anos 1970, mais de 350 jornais americanos contavam com educadores na implantação de programas de jornal na escola. Hoje, há mais de 700 empresas jornalísticas patrocinando tais programas nos Estados Unidos. Na Europa, segundo a ANJ (Associação Nacional de Jornais), iniciativas como essa são comuns; na Suécia, Dinamarca e Noruega, por exemplo, 100% dos jornais têm programas educacionais. Destacam-se na América do Sul programas de Jornal e Educação do Brasil, Argendina e Chile (in: <http://www.anj.org.br/?q=node/44> ). No Brasil, o gaúcho Zero Hora, em 1980, foi pioneiro em Jornal e Educação e, hoje, são mais de 60 empresas jornalísticas com esta iniciativa, todas ligadas à Associação Nacional de Jornais, que promove encontros nacionais para intercâmbio de ideias. 11 Assim a ANJ conceitua Programa de Jornal e Educação: É uma iniciativa em prol da leitura, levada a efeito por empresa jornalística associada à ANJ, que envolva necessariamente: a) a distribuição de exemplares diários do veículo ao público leitor por ela selecionado, por um período nunca inferior a um semestre letivo; b) a capacitação dos agentes de leitura envolvidos, de maneira sistemática e permanente; c) a avaliação, pelo menos bienal, do processo e dos resultados, para promover a conseqüente continuidade, em função dos benefícios constatados em termos da formação de leitores qualificados: leitores que tenham ampliada a sua capacidade de serem autores de suas próprias ideias e formas de expressão, conquistando uma autonomia progressiva no seu modo de agir, pensar e ler; leitores que ampliem a sua capacidade de serem cidadãos, capazes de compreenderem o seu contexto e participarem ativamente da vida em sociedade por um mundo melhor. (ANJ, 2004) Faço parte de uma dupla de educadores de uma empresa de comunicação carioca. Juntos, colaboramos com quarenta e cinco escolas públicas da rede municipal do Rio de Janeiro. O projeto “O Dia na Sala de Aula” é uma iniciativa em prol da leitura e da cidadania, através do uso sistemático do Jornal em sala de aula. Desde 1995, o projeto distribui exemplares de jornal, incentiva os professores a utilizá-los como ferramenta pedagógica e objeto de estudo e favorece o encontro de educadores e a troca de experiências. Buscamos formar leitores através: de “Visitas Pedagógicas” com professores (nas escolas), para levantar suas necessidades e dificuldades quanto ao uso do jornal, em uma busca conjunta de soluções para a prática pedagógica; de “Encontros Temáticos” mensais com autores, educadores e pesquisadores discutindo temas relevantes para o cotidiano escolar; de “Oficinas” com alunos, visando incentivar o protagonismo pela criação de rádios e jornais escolares; da “Jornada de Educação O Dia na Sala de Aula”, encontro anual com palestras e oficinas simultâneas, exposições temáticas, feira de livros e apresentações culturais a fim de refletir e divulgar trabalhos que agreguem valor à educação; da “Troca de Experiências”, que é realizada a cada semestre, quando os professores expõem e assistem à exposições de diferentes experiências educativas. Nos últimos anos, temos incluído na agenda do projeto O Dia 12 na Sala de Aula encontros trimestrais sobre a Educação Especial (em parceria com o Instituto Helena Antipoff) e capacitações para professores para o trabalho com Educação Sexual. O trabalho pedagógico realizado pelo Projeto justifica-se pela natureza transdisciplinar da matéria jornalística, pelos diversos gêneros textuais presentes – cuja exploração didática é reconhecida e estimulada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais –, pela aproximação entre conteúdos escolares e cotidiano e pelo enriquecimento que o meio impresso provoca com relação ao vocabulário e ao repertório do aluno. Assim, o jornal pode ser utilizado de modo disciplinar ou multidisciplinar, servir como recurso pedagógico para ensinar determinado conteúdo ou tornar-se objeto de estudo, ser trabalhado inteiro ou em recortes ou, ainda, ser um exercício de cidadania a partir do momento em que os alunos são capazes de escrever seu próprio jornal. Esta pesquisa pretende investigar as representações sociais de diretores, coordenadores e professores sobre a parceria Jornal/Escola em projeto pedagógico, no intuito de avaliar o processo e seus resultados, como é percebida pelos sujeitos a quem O Dia na Sala de Aula se destina e as possibilidades de sua contribuição às escolas. Além do conceito de representações sociais, observados em Moscovici (2003) e Jodelet (2001), o conceito de mídia-educação (BELLONI, 2001; RIVOLTELLA, 2001) atravessará a pesquisa como alicerce para a reflexão sobre a relação entre espaço escolar e veículo de comunicação, para a discussão do jornalismo como forma de conhecimento (MEDITSCH, 1997) e do conhecimento que os educadores construíram (representações sociais) sobre o Projeto mídia-educativo O Dia na Sala de Aula. 13 1 COMPASSO TEÓRICO Na música erudita há diversas velocidades de compasso, são os chamados andamentos. Podemos, numa mesma composição, encontrar diversos andamentos. À guisa de exemplo, a composição Romeu e Julieta, do músico ucraniano Sergei Prokofiev, apresenta, entre outros, os andamentos lento, moderato (entre lento e rápido) e vivace (rápido). Os cotidianos compostos socialmente podem, do mesmo modo, apresentar diferentes tempos, e não só linearmente, um após o outro, mas também de maneira simultânea, sobreposta e complexa. Podemos encontrar noções céleres, lentas e moderadas entrelaçadas, sofisticadamente, num mesmo desenrolar diário de um determinado grupo social. A Representação Coletiva foi apresentada pelo sociólogo Émile Durkheim (1989) como uma construção de diversos espíritos que, combinados, atravessaram gerações, acumulando conhecimentos. Durkheim elaborou uma teoria da religião, do pensamento mítico e da magia, argumentando que tais fenômenos são produto de uma comunidade ou coletividade. Essa consciência coletiva produz, no entendimento do sociólogo, ideias e imagens. O modelo de sociedade contemporâneo a Durkheim era, destaca Guareschi 14 (1994), “estático e tradicional, pensado para tempos em que a mudança se processava lentamente”. Com inspiração na teoria da Representação Coletiva, de Durkheim, Serge Moscovici (2003) inicia, no campo da Psicologia Social, seu estudo sobre o que viria se chamar Representações Sociais. Se Durkheim atravessava um tempo quase estático, Moscovici, por sua vez, formula sua teoria vivenciando uma sociedade em que as mudanças são mais aceleradas pelos avanços tecno-científicos. Entendendo que o conceito de representações coletivas fora criado num mundo de transformações lentas, Moscovici chegava a uma teoria que procurava dar conta de sociedades do mundo moderno. Ainda mais céleres são as mudanças acompanhadas por Certeau (2001): suas reflexões sobre o cotidiano tratam de estratégias fugazes e de redes antidisciplina traçadas diariamente pelos usos dos consumidores. Temos, grosso modo, um Durkheim no andamento cotidiano lento, um Moscovici de tempo moderato e um vivace narrado por Certeau. O tempo moderato da teoria das Representações Sociais, de Moscovici, me parece mais oportuno ao estudo da parceria entre Jornal e Escola. O primeiro, de um tempo largo, maior mesmo que o tempo percorrido pelo programa O Dia na Sala de Aula, que existe há 14 anos, não será objeto desta pesquisa. O cotidiano fugaz de Certeau também não atenderá à pesquisa – embora vá atravessar parte deste texto – pelo fato de O Dia na Sala de Aula não se tratar de uma imposição disciplinar, mas, antes, uma construção aberta às intervenções dos professores que participam desse programa, e por se desenhar a partir de um tempo médio, que abriga construções permitidas por um período de meses ou anos. Sobre a diferença entre representações coletivas e representações sociais, diz Moscovici em entrevista a um jornal paulista: ...as representações coletivas eram algo de institucional – como o sistema religioso ou mesmo o científico – e se referiam a um problema da estabilidade social. O problema da sociologia durkheimiana era o problema da integração e da estabilidade. Já a noção de representação social, que associei ao mundo moderno, tem mais relação com a prática 15 cotidiana, a linguagem cotidiana e a algo que se costuma chamar de “senso comum” (MOSCOVICI, 2003 b). O mundo comete epistemicídios diários (SANTOS, 2007), quando deixa, sistematicamente, de reconhecer formas de conhecimento que não partem do domínio tecnico-científico. O senso comum é uma dessas formas de conhecimento e organização do conhecimento, deslegitimada pelo pensamento único e dominante, tomada como central na teoria das representações sociais, de Moscovici. A mídia tem um papel fundamental como mediadora das representações sociais, mas não tem o poder de criá-las. Diria Certeau (1994) que os “consumidores”, entendidos frequentemente como passivos, são, em certa medida, criadores: os binômios produção-consumo e leitura-escritura são similares nesse sentido. Os leitores tornam o texto habitável à maneira de um apartamento alugado (CERTEAU, 1994). A mídia é um grande produtor e o espectador um consumidor-leitor que constrói sentidos (representações sociais) a partir de suas “bricolagens”. As representações sociais são aproximações de sentido que os consumidores fazem de um determinado objeto. Na sua busca pela verdade, o filósofo iluminista René Descartes (1596-1650) entendeu que o homem a alcançaria, somente, suprimindo radicalmente o imaginário e a vontade. Como afirma Gerard Duveen, no prefácio do livro de Serge Moscovici (2003), Descartes foi contra o relativismo inerente à cultura, proclamando que da razão nasceria a certeza, a verdade. Resgatando a importância dos aspectos cultural e social na produção do conhecimento, Moscovici opõe-se ao cartesianismo em uma ciência da cultura – “desprovida de razão”, como queriam seus críticos – que foi se construindo a partir do texto La psychanalyse, son image et son public, de 1961, dando forma ao campo de estudos em Representações Sociais. Anticartesiana, a noção de Moscovici nos traz uma “teoria geral dos fenômenos sociais” e uma “teoria específica dos fenômenos psíquicos”, defendendo que “o que as sociedades pensam de seus modos de vida, o sentido que conferem a suas instituições e as imagens que partilham, constituem uma parte essencial de sua realidade e não simplesmente um reflexo seu” (Moscovici, 2003, p. 173). 16 Sem multiplicar as gavetas racionalistas, Moscovici, a partir de uma disciplina plural – a Psicologia Social –, constituiu um campo sem lhe dar muros, ou seja, criou um plano teórico amplo sem dar conceitos fechados que pudessem impedir seu crescimento. A prova de que a ausência de muros era profícua está no fato de podermos encontrar referências às Representações Sociais e usos da teoria em diversos estudos de Comunicação, Medicina, Educação, entre outros campos do conhecimento. Esta pesquisa, a exemplo do estudo apresentado em “A representação no enfrentamento do problema da influência social da televisão” (RANGEL, 2004, p. 2948), busca sua sustentação na teoria da representação social com o intuito de agir sobre um problema concreto. Nesta pesquisa, o problema concreto é a parceria Jornal e Escola: como ela se constitui, no entendimento dos educadores, e como ela se faz presente nas suas práticas pedagógicas. As representações sociais constituem uma forma de conhecimento coletivo que facilita a comunicação, a interpretação e, consequentemente, as relações em sociedade. Nas palavras de Jodelet: “elas nos guiam no modo de nomear e definir conjuntamente os diferentes aspectos da realidade diária” (2001, p. 17). Este nomear e renomear cotidiano se desenrola em três aspectos destacados por Almeida (2005): comunicação, reconstrução do real e domínio do mundo. A representação é social, nasce de uma demanda por um entendimento, realiza-se no objeto codificado que permeia as trocas – comunicação – e, neste sentido, as representações sociais são entendidas como moduladoras do pensamento, pois regulam uma dinâmica social (ALMEIDA, 2005, p. 122). As apropriações dos objetos pela prática cotidiana constituem uma reconstrução permanente da realidade, funcionando, assim, como guias de interpretação e organização da realidade (Ibdem). E é justamente esse guia, constituído na comunicação e na reconstrução do real, que permite aos sujeitos (que o elaboram no sabor e labor diário) o domínio do mundo – neste nomear de Almeida eu acrescentaria a palavra simbólico: o domínio simbólico do mundo. 17 À grande teoria (SÁ, 1998) de Moscovici, de perspectiva psicossociológica, somam-se os contributos teóricos de três de seus assistentes de pesquisa – JeanClaude Abric, Willem Doise e Denise Jodelet – que tripartiram o caminho das representações sociais, sem perderem de vista a origem de suas proposições. Abric traz à grande teoria uma dimensão cognitivo-estrutural, Doise faz uma abordagem sociológica das representações sociais e Jodelet, que com sua abordagem processual, de olhar antropológico, manteve-se mais próxima de Moscovici. O andamento moderato de Moscovici, além de permitir variações teóricas, não se prende a um campo de pesquisa, podendo ser compor pesquisas em Psicologia, Comunicação, Saúde, Educação, entre outros. 18 2 MÍDIA-EDUCAÇÃO: REFLEXÕES E PRÁTICAS DE UM TERCEIRO ESPAÇO1 Eu que não sou jornalista, mas sim educador, trabalho no jornal, em um programa de Jornal e Educação, e não tanto na escola. Falarei a partir desse meu entre-lugar – tomo emprestado, aqui, o conceito do indo-britânico Homi Bhabha –, constituído numa negociação permanente de formas e funções entre o comunicacional e o educacional, nem mais aquele espaço da comunicação, nem aquele outro da educação, mas um terceiro espaço. Pretendo refletir nestas páginas sobre a presença maciça da mídia em nosso cotidiano, sobre a velocidade e abundância de informações – graças a eficiência crescente das tecnologias da inteligência e da comunicação2 – e sobre a necessidade de complexificar tais questões, em colaboração com crianças e jovens, para uma compreensão deste ambiente. E também apontar uma prática (nada nova, mas nada dispensável) como possibilidade de transformação do telespectador em protagonista, numa hibridização potencialmente emancipatória. 1 Texto publicado em: FREIRE, Wendel (Org.). Tecnologia e educação: as mídias na prática docente. Rio de Janeiro : WakEditora, 2008. 2 Segundo Iolanda Cortelazzo (2002), Tecnologias da Informação designa toda forma de gerar, armazenar, processar e reproduzir a informação. Exemplos de suportes de armazenamento de informações são: o papel, os arquivos, os fichários, as fitas magnéticas, os discos óticos. Dispositivos que permitem o seu processamento são os computadores e os robôs, e exemplos de aparelhos que possibilitam a sua reprodução são a máquina de fotocopiar, o retroprojetor, o projetor de slides. Tecnologias da Comunicação são as formas de veicular a informação (livro, revista, correio, fax, jornal, rádio, tv, internet etc.). 19 2.1 Educar para uma ambiência comunicacional Tinha os olhos na janela que dava para o escuro. Pensava não sei bem o que, mas o fato é que tive meu pensamento cortado, entre uma estação e outra do metrô, por uma publicidade: uma série de fotos forjando o movimento de um menino, numa corrida que terminava vendendo salsichas. Não há como deixar de reconhecer a criatividade da peça e o sucesso em alcançar o consumidor onde ele menos espera. Mas o que isso provoca? O que produz vivermos cercados nas ruas por mobiliários urbanos anunciando programas para nosso fim-de-semana e outdoors, busdoors, indoors vendendo shampoos, pílulas de felicidade, enterros e tudo o mais? Estamos o tempo inteiro passando através de portas publicitárias abertas à revelia, sem contar as janelas de casa, TV e internet. Há uma poluição visual, sonora, informacional quase insuportável, num excesso de informação (publicitária ou noticiosa) que não nos permitem refletir, ouvir a si, enxergar o outro ou maturar ideias – ou, ainda, sequer tê-las. Nosso modus vivendi está profundamente influenciado pela comunicação, que constitui hoje muito mais que um corpo transmissor de informação, como veremos aqui. Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown compuseram uma canção (O Silêncio) cuja poesia já me serviu para desencadear, entre professores e entre alunos, uma reflexão sobre o conceito de tecnologia e a poluição comunicacional que nos cerca, sobre as mudanças que as tecnologias, precisamente, as tecnologias da informação e da comunicação, geram em nossa sociedade. A poesia diz que antes de existir computador existia tevê / antes de existir tevê / existia luz elétrica / antes de existir luz elétrica existia bicicleta / antes de existir bicicleta existia enciclopédia / antes de existir enciclopédia / existia alfabeto / antes de existir alfabeto existia a voz / antes de existir a voz existia o silêncio / o silêncio / foi a primeira coisa que existiu / um silêncio que ninguém ouviu / astro pelo céu em movimento / e o som do gelo derretendo / o barulho do cabelo em crescimento / e a música do vento / e a matéria em decomposição / a barriga digerindo o pão / explosão de semente sob o chão / diamante nascendo do carvão / homem pedra planta bicho flor / luz elétrica tevê computador / batedeira, liquidificador / 20 vamos ouvir esse silêncio meu amor / amplificado no amplificador / do estetoscópio do doutor / no lado esquerdo do peito, esse tambor (ANTUNES, 2006, p. 253). No silêncio há possibilidade de ouvir a barriga digerindo o pão. Mas o que quebra essa possibilidade (o silêncio) se não o adestramento do aparelho fonador buscando a comunicação oral, se não a escrita, a imprensa e outras tantas tecnologias que se seguiram? Leio o jornal e vejo TV enquanto uma média vai ajudando a descer o pão; meus olhos passam por 27 outdoors no caminho para o trabalho – e também no caminho para o trabalho um livro vai sendo lido para aquele curso que me promete um upgrade profissional –; durante o dia há dezenas de mensagens eletrônicas, documentos, conversas sobre as últimas de Brasília, intervalos para cigarros e lanches rápidos; o dia segue, a vida segue: um dia vai se colando ou sobrepondo ao outro, vamos acumulando horas trabalhadas, corridas, engolidas, com intervalos mal nutridos. Haja saúde para a correria cotidiana! E haja plasticidade cerebral para digerir tamanha fartura informacional! Imagine as crianças e adolescentes; como podem ser capazes de julgar, pensar e contextualizar a montanha de fatos e dados diários que vão surgindo na escola, na rua, em casa, no play etc.? De um modo geral, não aprendem a contextualizar, a pesquisar, a selecionar informação. A sociedade contemporânea está mergulhada num caudaloso fluxo comunicacional e, mediante esse fato, há quem afirme que estamos vivendo a Era do Conhecimento. Entretanto, o conhecimento exige reflexão (tempo e maturação) e seleção (critério, crítica), duas práticas um pouco démodés para nossos dias. Havendo necessidade de um rótulo, chamemos de Era da Informação este cenário pós-moderno. A relação tempo-critério me recorda uma frase de Sêneca: “nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir”. Acontece que – além de não se ter ideia de um destino – a revolução pós-industrial (caracterizada pelo desenvolvimento da informática, das telecomunicações e da automação) tem o pé carregado no acelerador. Chacoalhamos freneticamente no banco de trás – mãos distantes do volante. Em que 21 direção estamos indo? Qual é o nosso projeto de Sociedade? Qual é o nosso projeto de Educação? E a mídia com isso? Já faz algum tempo que a mídia vem sendo utilizada como recurso pedagógico, auxiliando o professor no ensino de Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, História etc. Mas os meios de comunicação devem ser incluídos, sobretudo, como objetos de estudo para que os jovens tenham uma compreensão menos superficial de sua época, da influência midíática no jogo democrático, no discurso ideológico e no consumo. Aristóteles falava em três ambiências da sociedade grega: da vida contemplativa, da vida política, da vida prazerosa (do corpo). Muniz Sodré acrescenta uma quarta ambiência, referindo-se à sociedade contemporânea, o bios midiático: Implica a midiatização, por conseguinte, uma qualificação particular da vida, um novo modo de presença do sujeito no mundo (...) Partindo-se da classificação aristotélica, a midiatização ser pensada como tecnologia de sociabilidade ou um novo bios, uma espécie de quarto âmbito existencial, onde predomina (muito pouco aristotelicamente) a esfera dos negócios, com uma qualificação cultural própria (a “tecnocultura”) (SODRÉ, 2002, p. 24-25). A mídia, mais que transmissor de informação, é uma ambiência, uma forma de vida. O que se passa no mundo é representado no discurso midiático. Esse discurso desenha o real pautando as conversas do dia-a-dia, ditando comportamentos, vestindo os corpos e mentes de cores e formas do interesse de uma lógica global, de um pensamento único. São fundamentais tempo e critério para que a velocidade da informação e da comunicação não nos atordoe. Tempo e critério para processarmos o cotidiano e termos como resultado uma verdadeira Era do Conhecimento. Qualquer projeto de sociedade e de educação deve levar em conta a mídia enquanto espaço público (repleto de discursos – o mais presente deles proveniente da classe dominante) e enquanto ambiência. A mídia-educação não será a solução para as mazelas da sociedade e da educação. No entanto, para o melhoramento da 22 sociedade e da educação, faz-se necessária a transformação do espectador em cidadão - no que a mídia-educação pode contribuir significativamente. 2.2 Mídia-Educação em três momentos: breve relato de uma experiência Já na década de 20, do século XX, o educador Célestin Freinet confeccionava com seus alunos um jornal escolar. De lá para cá, muitas tecnologias surgiram, depois da imprensa, mas os jornais escolares permanecem extremamente válidos, principalmente, no que diz respeito a tomada da palavra – e da palavra crítica – pelas crianças e adolescentes e a sua participação da vida social. Muitos dos jornais escolares que tenho visto dão uma excessiva ênfase no produto, num aparente esforço para “mostrar serviço”. Nota-se que são apanhados de textos encomendados por professores e produzidos, individualmente, pelos alunos. Mas não estará no caminho percorrido pelos alunos, na curiosidade e criação, no espírito da colaboração e no texto coletivo o melhor da experiência de se fazer um jornal escolar? Junto com alunos de 5ª série de uma escola pública do Rio de Janeiro, foi possível a realização de uma experiência extremamente significativa – para mim e, acredito, para eles também. Foram três momentos educativos nos quais os alunos conheceram a produção do jornal, uma breve história das mídias e suas implicações no mundo contemporâneo e, por fim, produziram seu próprio jornal. O primeiro momento aconteceu com a chegada a uma redação multimídia3, onde os alunos conheceram o dia-a-dia4 dinâmico dos profissionais envolvidos no processo 3 Segundo o livro comemorativo dos 50 anos do jornal O Dia, o conceito de multimídia está relacionado ao aproveitamento, num mesmo espaço físico, de mídias diversas. O que significa dizer que, na redação, a informação bruta é trabalhada de acordo com a mídia que irá veiculá-la. A mesma história colhida pelo repórter recebe tratamento compatível com o jornal impresso, on-line, rádio ou TV 4 No mesmo livro, há uma descrição de como corre, aproximadamente, um dia na vida de um jornal: 6:00 - O chefe de reportagem chega à redação e começa a pautar os assuntos do dia, atento à apuração da madrugada e às agendas; 7:00 - Os primeiros repórteres a chegar recebem suas pautas, são orientados e dão início à apuração; 10:30 - A primeira reunião de pauta do dia é feita com o coordenador de produção e os chefes de reportagem repassando suas pautas; 23 jornalístico, as diversas fontes de notícias, as editorias e as rádios. Eles também percorreram o Parque Gráfico e aprenderam sobre os aspectos técnicos e logísticos da impressão e distribuição. O que temos aqui é o mesmo de quando assistimos a um “making off” de um filme: conhecemos escolhas e recortes, montagens, truques, técnicas e efeitos utilizados na sua produção. Não deixamos de usufruir da magia do cinema, mas mudamos enquanto espectadores. Depois da visita ao jornal, os alunos me receberam na escola para uma conversa aberta, sem conclusão, sobre o que é mídia e para que, juntos, refletíssemos sobre os modos como ela afeta nossas vidas. Levei comigo algumas transparências para uma breve história dos meios de comunicação e algumas perguntas para estímulo de outras (deles). Falamos sobre campanhas publicitárias e criamos uma para um produto imaginado – a ideia era, realizando uma campanha, deixar que percebessem alguns artifícios publicitários, como a fabricação de desejos e necessidades. Conversamos sobre programas de TV e, através de uma dinâmica de debate, com um grupo argumentando a favor da TV e outro contra-argumentando, os alunos expuseram suas ideias e desconstruíram qualquer maniqueísmo sobre a mídia com próprias conclusões. A culminância do trabalho veio com o terceiro momento: os alunos fizeram uma aula-passeio, ou melhor, aula das descobertas (lição de Freinet), nos arredores da escola e adotaram a postura de “repórteres”. Eles tomaram nota e fotografaram tudo aquilo que perceberam no seu meio urbano, aspectos positivos e/ou negativos, que fossem digno de registro. Eles notaram o desleixo com as calçadas e com o lixo, o 13:00 - Começam a chegar os editores. Após uma rápida reunião com os chefes, eles iniciam o trabalho de edição da cobertura do dia; 14:30 - Na sala multimídia, editores executivos e editores de área apresentam suas pautas e discutem a edição do dia seguinte; 16:00 - O caderno D e os suplementos estão fechando. Enquanto isso, designers e redatores começam seu trabalho; 17:00 - O mapa da edição, com a posição dos anúncios e horários de fechamento de cada página é distribuído para os editores; 18:00 - Tem início o fechamento do jornal. Segundo o horário determinado, as páginas começam a ser enviadas para a pré-impressão; 18:30 - Os editores apresentam o status das matérias e manchetes para o dia seguinte; 21:30 - A primeira página do jornal é fechada, encerrando a primeira edição. As pessoas começam a deixar a redação. Chega a equipe da madrugada; 23:00 - As últimas notícias e as retificações são dispostas nas páginas que substituem as anteriores; 24 desrespeito dos motoristas que buzinavam em frente a um hospital e criticaram a ausência de uma área de lazer. Aprenderam e ensinaram sobre seu bairro enquanto contavam sobre os transtornos da obra do Estádio Olímpico João Havelange – às vésperas dos jogos Panamericanos – e apontavam canteiros; enquanto entravam e exploravam um espaço que nunca tinham visitado, o Museu do Trem; enquanto observavam com outros olhos o que sempre estivera ali. Voltando à sala de aula, os alunos fizeram a seleção daquilo que julgaram importante (do mesmo modo como as reuniões de pauta decidem as edições jornalísticas), segundo seus critérios, e produziram um jornal. No lugar de “mostrar serviço”, o jornal produzido trouxe prestação de serviço, informação e entretenimento em diversos gêneros textuais5. Protagonismo, cidadania, escrita individual e coletiva, leitura de mundo: alguns pontos que poderiam ser destacados para explicar, mas que não dão conta do que vivi com aqueles alunos. O processo de composição do jornal foi, sobretudo, um exercício de pensar, criticamente, mídia e sociedade. Fossem encomendas de textos, como trabalhos de casa, o exercício e a experiência não teriam acontecido, teríamos apenas preenchido papéis com textos pouco significativos. Impressos em papel especial, coloridos ou não, xerocados ou copiados à mão, postos num mural para a comunidade escolar, distribuídos em malas diretas ou, ainda, disponíveis na internet: são escolhas mediante razões e possibilidades de cada grupo de alunos e de cada escola. As novidades tecnológicas vêm agilizar o trabalho, que antes era feito caracter por caracter, na imprensa, mas nem sempre (quase nunca) são emancipatórias em seus usos. Como os meios lineares e analógicos não desaparecerão com o surgimento das mídias não-lineares e digitais, as práticas pedagógicas que se apresentaram libertadoras no passado não precisam ser esquecidas em nome da novidade, mas renovadas nesses ares. 24:00 - Os repórteres de plantão assumem seus postos e tomam conta da cidade até a manhã seguinte, quando o dia recomeça. 5 O jornal é um veículo rico em gêneros textuais (reportagem, crônica, anúncio, cartaz, quadrinho, artigo, charge etc.), o que contribui para exploração de diferentes linguagens, estruturas e sentidos. 25 O relato aqui tratou de jornal impresso; outros alunos poderiam ter optado pelo rádio, utilizando microfone e aparelho de som ou o podcasting6, disponível na internet; outros, ainda, poderiam ter produzido um vídeo com celulares, exibindo-o na TV ou publicando na rede. A frase de efeito do sítio “You Tube”, broadcast yourself, sugere ao usuário que se vista de mídia, ou seja, que ele próprio se torne um produtor de conteúdos e os veicule nesse espaço de memória extensiva ao seu corpo. Embora o estímulo seja direcionado ao indivíduo, há uma enorme potencialidade de um vestir-se coletivo para mostrar mais que vaidades e fetiches, exibindo fazeres renegados e notícias de pontos de vista vários para que acrescentem algo às crônicas mesmíssimas dos grandes meios. Para encerrar este capítulo, que trouxe mais um relato do que uma narrativa, trago as falas de Sabrina e Thamara, duas alunas que participaram da atividade: Eu achei esta reunião muito interessante, porque desperta uma curiosidade muito legal. É bom porque a gente pode dialogar. Eu acho que esse trabalho tem que continuar em outras escolas. Sabrina (Aluna do 6º ano) Eu gostei muito, pois esta aula nos ensinou que não devemos ser levados por tudo que é bonito e nem pela mídia. Thamara (Aluna do 6º ano) Cabe, ainda, expor as considerações de Elvira e Conceição, educadoras que acompanharam a atividade com os alunos e alunas do 6° ano: Achei interessante o trabalho sobre a “mídia” desenvolvido pela equipe do jornal O Dia com uma turma de 5ª série. É fundamental que esse trabalho tenha continuidade, porque dá oportunidade aos alunos de expressar suas idéias e seus conhecimentos sobre o mundo que os cerca. Foram enfocados os aspectos positivos e negativos da mídia, dando oportunidade aos alunos de serem cidadãos críticos e conscientes da realidade que os circunda. Essa tarefa contribui para o aprimoramento da expressão oral e escrita, que tem apresentado deficiência ao longo dos últimos anos. 6 O podcasting é um veículo para publicação de vídeo, áudio e imagens na internet. 26 Elvira (Professora de Português) O tema abordado, Mídia, foi bastante importante, principalmente por dar uma visão crítica dos diferentes meios de comunicação, despertando nos alunos a importância de sermos consumidores ativos, formando opinião a respeito do que nos é oferecido. Conceição (Coordenadora Pedagógica) 27 3 MÍDIA-EDUCAÇÃO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS Dentro da dinâmica das sociedades modernas, a despeito da supremacia tecnocientífica, diversas maneiras de produzir conhecimento se impõem. Este capítulo pretende abordar as relações entre formas conhecimento – as Representações Sociais, o Jornalismo e outras produções midiáticas – e a necessidade de uma educação voltada para a mudança de postura do leitor/espectador e de suas representações a partir da leitura crítica dos meios de comunicação. Dos anos 1960 guardamos os ecos de um grande vozerio que se impôs, criticamente, às instituições e aos discursos, provocando o que Foucault (1979) chamou de insurreição dos saberes dominados. O estrondo insurreto era contra o poder coercitivo e totalitário da ciência, que, garantida pela visão positivista, figurava – e figura ainda – como o único saber legítimo e a única tradução possível da realidade. Uma das primeiras discussões para quebrar tal monopólio foi encabeçada por Moscovici, que apontava a parcialidade do positivismo e sua insuficiência para tratar de outras dimensões da realidade (GUARESCHI, 1995). Esta crítica epistemológica deu origem, anos mais tarde, à Teoria da Representação Social, que lança luz sobre formas de conhecimento prático construídas pelos sujeitos em suas apropriações cotidianas dos objetos. 28 O conceito de representação social nasce no campo da Psicologia Social, com Moscovici (2003), numa releitura da Teoria da Representação Coletiva, do sociólogo Émile Durkheim (1989), e é composto, além de elementos da Sociologia e da Psicologia, de questões da área de Comunicação. Pode ser compreendido como concepções, percepções, apreensões, interpretações, configurações e acepções (RANGEL, 1994) compartilhadas com a finalidade de dar sentido e movimento à vida social. Moscovici (2003) não levantou os tradicionais muros que se costumam construir ao redor de uma definição, deixando à teoria das representações sociais um campo de pesquisa ampliado. É possível encontrá-la permeando estudos na área de saúde, comunicação, educação, psicologia, sociologia, entre outros. Ainda, a teoria de Moscovici, apresenta desdobramentos em três abordagens: uma antropológica, com Denise Jodelet; outra sociológica, com Willem Doise e uma terceira com a ênfase cognitivo estrutural de Jean-Claude Abric (SÁ, 1998). 3.1 Conhecimentos desconsiderados e hierarquias abstratas No estado resignado em que se encontra o mundo, não falta quem acredite em “fim da História”, quem não dê crédito a movimentos sociais e ridicularize qualquer militância emancipatória. Mas, como bem nos lembra Santos (2007), o ideal tríplice da modernidade (liberdade, igualdade e fraternidade) continua vivo; portanto, a ideia de uma sociedade mais justa permanece de pé. Foucault, em um curso oferecido no Collège de France em 1976, propôs a genealogia dos saberes, cujo projeto era reavaliar saberes locais subalternizados; Santos (2007), no Fórum Mundial Social, propôs uma ecologia dos saberes, que seria o diálogo da ciência com saberes populares e marginais, num exercício de superação das hierarquias epistemológicas. Santos propõe uma crítica à razão indolente, aquela que se considera exclusiva, para compor um fazer contra-hegemônico no combate ao “epistemicídio” – desperdício de experiências sociais. 29 Podemos dizer que as representações sociais consistem em redes de interpretação, construídas na comunicação diária dos grupos sociais para a orientação dos seus fazeres. Explicitar essas redes e fazeres é, sem dúvida, uma prática contrahegemônica, na medida em que valida saberes desconsiderados. A relativização da verdade científica proporciona o rompimento com o que Santos (2007) chamou de monocultura do saber e o aparecimento de formas de conhecimento que estavam excluídas. Dentre esses modos de conhecimento, destacamos neste artigo o senso comum – representação social –, o jornalismo e o conhecimento pop engendrado pela mídia. 3.2 Educação: fluidez e complexidade7 Nos anos 60 e 70, diversos autores procuraram dar conta das diversas mudanças na educação impelidas pela vertiginosa evolução da mídia. Os mídiaeducadores (ou educomunicadores) vieram experimentar a mídia em sala-de-aula, ou em ambientes alternativos a ela, a fim de levar à educação o colorido que ela não teriam sabido acompanhar, tornando-se obsoleta. Marshall McLuhan foi capaz de prever importantes mudanças na Escola, numa época em que ainda não se falava em uma convergência entre comunicação e educação. A visão do papa da comunicação chegou a perceber que as escolas dispensam, mais e mais, energias diversas, preparando os escolares para um mundo que já não existe. E antecipou que haverá um dia - talvez este já seja uma realidade em que as crianças aprenderão muito mais - e muito mais rapidamente - em contato com o mundo exterior do que no recinto da escola. McLuhan também deu conta de que era necessário que a educação fosse permanente, abandonando a cultura do diploma, fechada num corpo de conhecimentos (LIMA, 1978). Felizmente, este mídia-educador avant garde errou ao prenunciar que o professor desapareceria e que o livro daria lugar 7 Trecho publicado no sítio eletrônico da Associação Nacional de Jornais. Disponível em: http://www.anj.org.br/jornaleeducacao/biblioteca/artigos/educacao-fluidez-e-complexidade. Acesso em 11/12/09. 30 às publicações periódicas; mas é incontestável o quanto a informação abundante vem transformando o papel do professor e do livro. Hoje, mergulhados no ciberespaço, estamos nos habituando à maneira de leitura não-sequencial e fluida presente no hipertexto. A aparência do hipertexto pode, à primeira vista, ser fragmentada, mas devemos entendê-lo tomando a semântica o hibridismo internet (inter, do latim, reciprocidade; net, do inglês, rede). Segundo Pierre Lévy (2000), a rede tem uma relação de interdependência, o que nos remete ao esforço de Edgar Morin e seu pensamento complexo. Morin defende que devemos abandonar o pensamento compartimentado, passando a fazer conexões (ou, lembrando a palavra inglesa tão frequente entre os internautas, links) entre a parte e o todo, a buscar relações e inter-retro-ações entre cada fenômeno e seu contexto. A ciência econômica é a ciência humana mais sofisticada e a mais formalizada exemplifica Morin -; contudo, os economistas são incapazes de estar de acordo sobre suas predições, geralmente errôneas (MORIN, 2004). Tal erro acontece porque a economia é a ciência mais avançada na matemática e a mais atrasada humanamente. Morin quer, com seu pensamento complexo, reformar a cabeça cheia - aquela com o saber acumulado, empilhado, sem um princípio de organização e de seleção - e fazê-la bem-feita, dispondo ao mesmo tempo de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas e de princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido (Idem). A cabeça bem-feita esbarra num paradoxo para se efetivar como projeto global: para reformar o pensamento deve-se reformar a escola, mas como reformar a escola sem, antes, reformar o pensamento? Um outro problema com a escola surge com aquela frase feita que diz: a escola prepara para a vida. O aluno que hoje deixa a faculdade, passou cerca de 20 anos de sua vida sendo preparado para um mundo que já não existe, pois é cada vez menor o período em que todos os conhecimentos são redesenhados. Esse anacronismo já foi apontado por McLuhan (apud LIMA, 1978), que antecipou com sucesso o quadro de velocidade informacional que atingiria nossos dias, a celeridade das descobertas, das novidades tecnológicas etc. 31 Para as próximas gerações, necessitamos focar nossos esforços pedagógicos no processo, na busca de soluções comuns, na construção social do conhecimento e não mais nos conteúdos prontos, no conhecimento fechado. Focar no processo significa preparar o aluno para utilizar todos os mecanismos de pesquisa disponíveis e municiálo da memória rizomática da rede de computadores. O sujeito, outrora centralizado, hoje fluido, passou a viver num processo contínuo de mutação, seja no relacionamento com o outro, seja na construção da própria identidade. E essa fluidez atravessa e é atravessada pela informática, que, conforme Pierre Lévy, não é uma tecnologia definida e sim um processo contínuo. Essa metáfora da fluidez, utilizada durante o texto, foi criada pelo sociólogo Zygmunt Bauman (2000) para explicar o estágio presente da era moderna, designado por outros autores como pós-moderno. Segundo ele, a modernidade líquida se caracteriza pela extraordinária mobilidade e inconstância, pela ausência de dimensões espaciais claras. O sujeito educador precisa adquirir a dinâmica do mercúrio: encarnar uma forma mutável produtiva, que acompanhe a nova plasticidade mundial, mas com uma toxidez positiva, que contagie o aluno com o desejo e o prazer pelo conhecimento em movimento. 3.3 Mídia-educação: possibilidade de mudança das representações sociais O conceito de mídia-educação começa a se formar no início do século XX, sob grande influência da Escola de Frankfurt, com a preocupação de defender as crianças e adolescentes dos males midiáticos, em uma primeira concepção da mídia como um vilão para os seus frágeis usuários. Na América Latina, a mídia-educação ganha força com a educação popular, por uma comunicação alternativa e pelo estabelecimento da democracia (RIVOLTELLA, 2001; FANTIN, 2006). Na década de 70, Mário Kaplún, amigo de Paulo Freire, igualmente envolvido com a educação popular, realizava programas de rádio educativos desenvolvendo seus métodos Cassete-Foro e Leitura Crítica. O primeiro levava comunicação participativa aos produtores rurais de cooperativas agrícolas no Uruguai; o segundo, propunha 32 criticidade aos destinatários dos conteúdos midiáticos e dava origem ao termo educomunicação (BORTOLIERO, 2006). A mídia-educação desenvolve-se para além da inoculação, partindo em direção de uma concepção integrada, constituindo um campo confluente educaçãocomunicação de intervenção social. Compreende que as tecnologias de informação e de comunicação, por serem parte indissociável da vida social, devem ser pensadas pela comunidade escolar, em especial a escola pública, atuando “no sentido de compensar as terríveis desigualdades sociais e regionais que o acesso desigual a estas máquinas está gerando”. (BELLONI, 2001, p.10). Pensemos a ação mídia-educativa na observação do jornalismo e das representações sociais. Representações sociais constituem uma forma de conhecimento, uma visão consensual da realidade (JODELET, 2001), que circula nos discursos, está estreitamente ligada à comunicação e tem nas mídias um importante mediador. Moscovici (2003 b) não acredita, entretanto, que as representações sejam produzidas pela mídia; o que ela faz é acelerar, afrouxar e, talvez, dirigir o fluxo das representações. Façamos algumas considerações sobre como as representações sociais são permeadas pelo conhecimento jornalístico ou pop dos meios de comunicação e de que maneira a mídia-educação pode intervir nessa equação. Definido como História escrita à queima-roupa e considerado por uns como ciência mal feita, por outros como ciência menor, o jornalismo é uma forma de produção de conhecimento que não pretende revelar os mesmos aspectos da realidade nem possui o tempo de maturação da ciência (MEDITSCH,1997). Uma questão negativa relacionada ao Jornalismo é, segundo Meditsch (1997), a falta de transparência quanto à produção dessa forma de conhecimento e suas condicionantes – a subjetividade e as condições técnicas e econômicas dos jornalistas somadas aos jogos de poder e interesses. A notícia é apresentada ao público como sendo a realidade e, mesmo que o público perceba que se trata apenas de uma versão da realidade, 33 dificilmente terá acesso aos critérios de decisão que orientaram a equipe de jornalistas para construí-la, e muito menos ao que foi relegado e omitido por estes critérios, profissionais ou não (MEDITSCH, 1997). Embora uma pequena parcela da sociedade reconheça a produção jornalística como recorte da realidade, a maioria entende o jornalismo como reflexo autêntico da realidade. O leitor/espectador consome as notícias, de modo geral, como verdade absoluta. Dada a diferença entre o peso discursivo da pessoa jurídica (empresa midiática) e da pessoa física (cidadão comum), podemos imaginar a influência da primeira sobre as representações da segunda. O conhecimento pop que a mídia engendra teve, recentemente, um exemplo extremo de sua “validade”. Limito-me a citá-lo, pois uma análise iria requerer outro artigo. Em um concurso público para escriturários, realizado pela Prefeitura de Taubaté, situada a 130 km de São Paulo, duas questões “indigestas” – peço licença ao leitor para este juízo de valor – chamaram atenção pelo “conteúdo” abordado: Big Brother Brasil e Casal Global. Transcrevo as questões acompanhadas de gabarito: 78 – Alexandre, Bianca e Fernando participaram de que edição do programa Big Brother Brasil? a) BBB 5 b) BBB 6 c) BBB 7 d) BBB 8 79 – Que famoso casal “global” anunciou, recentemente, o fim do casamento? d) Tarcísio Meira e Glória Menezes e) Lázaro Ramos e Taís Araújo f) Luciano Huck e Angélica g) Rodrigo Hilbert e Fernanda Lima (Folha de São Paulo, 18/04/2008) 34 Certamente, um servidor não deve ser avaliado pelo número de horas que passa assistindo novelas, programas de auditório ou reality shows. Mas o fato é que o cotidiano social é permeável e tais produções circulam e geram entendimentos, interpretações, ideias e metáforas utilizadas – reproduzidas ou transfiguradas – para estar no mundo e digerir sua complexidade. Na pesquisa “A representação no enfrentamento do problema da influência social da televisão” (RANGEL, 2004, p. 29-48), os ditames de padrões midiáticos de beleza puderam ser explicitados a partir das respostas de 32 adolescentes à pergunta “O que você vê na TV?”: “as garotas do Gugu... que corpo... queria ter igual”; “Carolina Ferraz... ela é show! linda! 'quem dera' eu ter aquele corpo...”, ou “Malhação... só que eu não tenho 'grana' nem para 'malhar', nem para conhecer gente assim... dá até tristeza, tenho que ser gorda e pobre”; (...) “Luciana Gimenez e Adriana Galisteu... são lindas, magras, altas, ricas... também... são modelos... coisa que nunca vou ser na vida”; “Gosto mais de ver quando aparece uma modelo... fico 'vidrada' na Gisele.. bonita... rica...também... não posso comer o que ela falou que come... verdura... fruta... só como coisa que engorda... arroz, feijão, batata” (Idem, p. 37). A mídia nada determina, mas prescreve (SODRÉ, 2002); e o faz de modo abundante, visto que é, podemos nos arriscar a dizer, a principal mediadora das representações sociais. A “sociogênese” da representação social do cidadão comum se dá nas interações interpessoais, numa ambiência cotidiana fortemente midiatizada; portanto, nessas interações, muito de como se compreende o mundo é permeado do olhar midiático sobre a realidade. Tal olhar é, grosso modo, direcionado por empresas de comunicação que, a despeito de serem concessões públicas, são pertencentes à classe dominante, com óbvios interesses na manutenção do status quo. Sendo a moral midiática contemporânea apenas mercadológica (SODRÉ, 2002), as empresas de comunicação têm como motivação principal, como em qualquer outro setor, o lucro e o bem estar dos seus acionistas. 35 A mídia fala do mundo para vendê-lo ou para agilizá-lo em termos circulatórios – sua verdadeira agenda é a do liberalismo comercial. Sua moral utilitarista, com o mercado como vetor de mudanças (portanto, um moral liberal de comerciantes, anglo-saxônica em seu velho acento liberal sobre o individualismo e mercado), não contempla a utilidade social, pelo contrário, é privatista e redutora da sensibilidade quanto ao coletivo (Idem, p. 64). O alto volume informacional, próximo da onipresença, não precisa ser abaixado em função disso, mas ser um aliado num fazer contra-hegemônico que explore da mídia o que ela tem de melhor: seu potencial como fator de mudança social. Uma lição dada por Paulo Freire em toda sua obra foi mostrar que educar é um ato político. E não há uma ação verdadeiramente política que não busque uma mudança na sociedade. A “sociogênese” da representação social se dá num cotidiano fortemente banhado no líquido amniótico comunicacional, carregando o misto do que se reproduz e transfigura. Autonomia, tal como democracia, não é algo dado, mas a ser eternamente perseguido. Buscar mudanças representacionais pode significar gerar ambiências sociais em processo autônomo. Flament (1989) discute as possibilidades de mudança, considerando reformulações progressivas, graduais, de percepções e conceitos, ou, então, a forte “ruptura” com a realidade, provocando a “desestruturação” dos núcleos centrais da representação; num e noutro caso, a renovação das práticas do dia-a-dia podem, então introduzir novas representações (RANGEL, 1997, p. 29-30). Entretanto, uma forma libertadora de educação problematiza o que está posto, inculcado, enraizado, não se propõe a introduzir – e, assim, repetir um modelo prescritivo –, mas a favorecer a elaboração autônoma de novas representações. A mídia-educação, em princípio um estímulo ao uso escolar de tecnologias comunicacionais, tendo ampliado seu olhar e aplicação, surge como um campo de intervenção social. Abre-se ao exercício da cidadania, através do incentivo às formas experimentais e alternativas de comunicação e ao pensamento autônomo. Um campo 36 que possibilita ao oprimido desfazer-se das construções imagéticas do opressor, mudando suas representações hospedeiras da ideologia dominante. Uma ação midia-educativa deve levar seus alunos a perceberem a produção jornalística como recorte que é e não como realidade que pretende ser, a recepcionarem as ideias e imagens do conhecimento jornalístico e do conhecimento pop com uma postura ativa, a consumirem-nas como produtores de sentidos e usos diversos – à maneira descrita por Certeau (1994). Obviamente, a mídia educação não tem por fim a suspensão do entretenimento e da informação, mas esmera-se para que – sendo a televisão o chiclete dos olhos8 – os programas pálidos e sem gosto sejam cuspidos ou mascados pela presença crítica. Com a repetição continuada deste exercício, o leitor/espectador tem a oportunidade de refletir, questionar e, por fim, reformular suas representações. Uma reelaboração da realidade, constituída socialmente, deveria se desvencilhar da pauta neoliberal, impressa por empresas de comunicação, e desconstruir representações como aquelas da pesquisa citada. Dois aspectos da representação social destacados por Moscovici (2003), a saber a convencionalização dos objetos e a prescrição de realidades, compõem uma camada cognitiva que permeia nosso agir e pensar. Talvez não seja possível atuar, permanentemente, fora de convenções e prescrições, mas, com esforço crítico frequente, pode-se modificar representações e, então, permitir uma vivência cotidiana mais emancipada de amarras alheias. 8 A frase, citada por Fernando Sabino, já foi atribuída a Frank Lloyd Wright e a John Mason Brown. 37 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS De uma teoria matriz, proposta por Moscovici, temos pelo menos três matizes teóricas, com Denise Jodelet, Jean-Claude Abric e Willem Doise; e com diferentes matizes teóricos, haverá diferentes caminhos metodológicos. A teoria das Representações Sociais acolhe uma gama enorme de possibilidades metodológicas e tem como “característica singular”, amplamente democrática, “não privilegiar qualquer método particular de pesquisa” (FARR apud ALMEIDA, 2005, p. 135). Cada abordagem teórica aponta suas orientações metodológicas (SÁ, 1998; ALMEIDA, 2005): a abordagem cognitivo-estrutural de Jean-Claude Abric, que propõe hierarquias entre os conteúdos da representação, introduzindo a noção de núcleo central e elementos periféricos, onde o núcleo central “é o elemento mais estável da representação, o que mais resiste à mudança” e a transformação da representação se dá pelos flancos, “por uma mudança do sentido ou da natureza de seus elementos periféricos” (ABRIC, 2001, p. 163), aponta o método experimental como caminho para a quantificação e qualificação dos objetos; 38 a abordagem societal ou sociológica de Willem Doise, que procura articular explicações de ordem individual e de ordem societal (em dinâmicas interacionais, posicionais ou de valores e de crenças gerais), realiza estudos relacionais através de métodos quantitativos; a abordagem processual ou culturalista de Denise Jodelet, que mantém atual a proposição original de Moscovici e entende as representações como “definições partilhadas” nos processos e produtos simbólicos dos indivíduos, construídas como uma “visão consensual da realidade” (JODELET, 2001), utiliza técnicas e métodos qualitativos. O pesquisador que estiver trabalhando na perspectiva teórica de Jodelet trabalhará sobre métodos qualitativos. Aquele que venha a optar por Abric, sobre o método experimental. Sob as proposições de Doise, os métodos quantitativos farão maior sentido. Estas relações atribuídas, porém, não devem constituir uma camisa-deforça. Para esta pesquisa, foi tomado como norte a perspectiva culturalista de Jodelet (2001) na investigação qualitativa dos dados obtidos. Considerando-se a mídia como uma importante mediadora das representações sociais, é relativamente comum encontrar pesquisas que tomam a teoria de Moscovici (2003), utilizando o jornal como recurso (há, por exemplo, coletas de textos jornalisticos para constituir um corpus de pesquisas que utilizam softwears de processamento analítico como o Alceste e o Evoc). Aqui, o jornal aparece como elemento constituinte de um projeto pedagógico. O corpus a ser analisado é constituído pelas falas dos educadores a propósito da parceria entre Jornal e Escola. Para o estudo de tal parceria em um projeto pedagógico, foi imprescindível o levantamento de dados. Utilizaram-se, então, entrevistas com 23 educadores, entre coordenadores pedagógicos, professores e diretores, cujas questões e respostas se apresentam a seguir. 39 Entrevistas Questões: 1. O que é, para você, O Dia na Sala de Aula? 2. Como o programa de Jornal na Sala de Aula contribui com o cotidiano escolar? 3. Como o jornal e outras mídias são aproveitados em sala de aula? Todos os entrevistados concordaram com a citação do primeiro nome para a identificação das respostas. Dei-lhes garantia de não expor seus sobrenomes ou a designação de suas Escolas. Respostas: Cristina 1. Eu acredito bastante na seriedade do Programa, em termos pedagógicos. Poderia ser algo para, simplesmente, incentivar o uso do jornal e até, quem sabe, algo que de alguma forma incentivasse o jornal "O Dia", porém, eu sinto que é um trabalho que está sempre abraçando a Educação, principalmente a pública que é realmente o público do Programa. Gosto muito da preocupação o Programa tem com relação ao que o professor busca, a questão da formação, dos interesses. 2. A contribuição do jornal se dá de várias formas: na sala de aula, através das atividades (alunos); através da linha do tempo afixada em um dos murais no corredor principal da escola (esta contribuição está relacionada a toda a comunidade escolar); através dos encontros para os professores (ligada à formação do profissional e, portanto, o ganho é tanto do professor quanto do aluno, indiretamente). 3. De uma forma geral as mídias são utilizadas como recurso para os assuntos tratados pelos professores. Infelizmente, ainda não posso dizer que todo o grupo as utiliza de forma crítica, mas como tudo na Educação é um processo longo, percebo em alguns momentos que este processo está se iniciando. 40 Angela 1. O Projeto "O Dia na Sala de Aula" complementa o trabalho diário do professor junto aos alunos. Vejo este Projeto acontecendo e dando frutos a cada dia. Com o varal da 1ª página do jornal colocado no pátio de nossa Escola semanalmente, os alunos passaram a se interessar e se motivar em relação à leitura de outras mídias. 2. Como o tema do nosso Projeto Pedagógico este ano é o Meio Ambiente, o jornal contribui com notícias ligadas ao tema. Além disso, os professores trabalham todos os cadernos, principalmente classificados, cadernos culturais, matérias ligadas a Ciências, letras retiradas do jornal e encartes de propagandas para Alfabetização de nossos alunos. Este ano, contribuiu muito com a revista sobre os 200 anos da chegada da Família Real, revista sobre a China e notícias ligadas à atualidade em geral. Os professores gostariam que o jornal abordasse mais temas ligados a Ciências, Saúde e Meio Ambiente. 3. Acho que já respondi na questão anterior. A Escola possui um Laboratório de Informática e Oficina de Animação. Os professores utilizam o Laboratório com seus alunos regularmente. Vários trabalhos já foram e estão sendo realizados utilizando o jornal e a internet, assim como vários softwares educativos. Este ano foi realizado um documentário sobre os 200 anos da chegada da Família Real em power point, através de fotos retiradas de jornais, revistas e internet. Márcio 1. Representa a possibilidade de oferecer ao aluno contato com informações atuais e fatos relevantes tanto em relação ao município do Rio de Janeiro quanto em relação ao mundo. 2. Desenvolve o interesse pela leitura de outro tipo de material impresso, incentiva a produção de texto, oportuniza o contato com diferentes linguagens e incentiva a busca de informações. 3. Pesquisas, reescrita do material, construção de texto a partir de charges e de outros materiais, montagem de jornal da turma,etc Douglas 1. Um projeto que apóia a atuação do professor fornecendo material atual e de qualidade para incrementar as aulas. 2. Ajuda nas discussões, nas pesquisas... Podemos estudar as letras, as manchetes... Mantém os alunos e o professor conectados ao cotidiano local e mundial. 41 3. O material é usado como fonte de pesquisas. As fontes iconográficas são usadas como recursos de gêneros literários. As imagens são usadas para produção de texto e descrição. As manchetes são discutidas. Os quadrinhos e jogos servem como apoio didátido e o material ainda serve como auxílio à alfabetização lingüística e matemática. Ana Cristina 1. Possibilidade de contato direto com um veículo de comunicação que contribui para o desenvolvimento da leitura. 2. Auxilia na prática da leitura de diversos tipos de textos. 3. Trabalhos de grupo, pesquisas, lançamento e fixação de conteúdos. Flávia 1. É uma oportunidade única de inserir mídia (jornal), no dia-a-dia na sala de aula. Com isso, podemos ler, nos informar, ver o boletim do tempo, ler e refazer, matérias, títulos, manchetes.. 2. O programa é uma forma de oportunizar a inserção de mídias no conteúdo e no cotidiano escolar. 3. Conseguimos fazer vídeos, jornais e transformar as aulas em momentos prazerosos. Irene 1. É bom é mais um recurso do professor e dos alunos, que nem sempre tem oportunidades de ter acesso aos meios de comunicação. 2. Na exploração de diferentes textos e linguagens. Na análise crítica das informações e pesquisas através de diferentes tipos de textos. 3. Em debates, pesquisas, pontuação e comparando e analisando as diferenças dos textos. Isabel 1. O dia na sala de aula é mais um "instrumento" facilitador na relação ensino aprendizagem . 42 2. O jornal na sala de aula, contribui para desenvolver nos alunos o hábito da leitura e escrita, em pesquisas , em artes, em trabalhar com eles diferentes tipos de textos, em saber dos fatos atuais do cotidiano. 3. Como um suporte, um apoio no processo de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento da leitura, já que temos o projeto da Secretaria: Rio, uma cidade de leitores. Mônica 1. É um Programa do Instituto Ary Carvalho, que proporciona a muitas pessoas (alunos e comunidade escolar) o acesso ao jornal e notícias que estão veiculando na mídia. 2. Um grande auxílio para a formação continuada do professor, o Programa também traz a oportunidade de levantar questões atuais e mostrar que estas questões são lidas por várias outras pessoas e com isso gerar situações de debates e questionamentos. Já com os alunos menores, podemos trabalhar com artes e reaproveitamento do jornal. 3. São utilizadas como fonte de pesquisa, atividades para fixação de conteúdos e tema de produções de textos. Claudia 1. É um projeto que veio acrescentar uma nova dimensão ao ato de ler, interpretar e produzir textos; de utilizar os mais simples textos, até de propaganda, para realizar atividades de diversas áreas do conhecimento. É uma grande brincadeira muito séria. 2. O jornal trouxe para a minha classe a oportunidade de estreitar o contato com a leitura, através das notícias, de debater o seu conteúdo e relacionar os fatos ocorridos com o conteúdo trabalhado na escola, estabelecendo, dentro de suas limitações, relações de causalidade, inclusive com fatos históricos. Estimulou a busca pelos diferentes tipos de textos e a organização do material a ser lido e trabalhado, entre outros. 3. O jornal é utilizado em diversas atividades como algumas que foram citadas na pergunta anterior e até a sobra do jornal recortado é reciclada, estimulando uma postura ecologicamente correta. Usamos também a internet para pesquisas, diversos vídeos em DVD e músicas, onde os temas apresentados nos mesmos são explorados, tornando a aprendizagem mais agradável. Recentemente, vivenciamos o projeto "Momento Bossa Nova", onde usamos músicas da época e que envolveu pesquisas que variaram da origem do estilo e do seu nome, passando pelos compositores e intérpretes até a produção de livro com 43 dobraduras, histórias em quadrinhos e painéis, culminando no Momento Bossa Nova, com apresentação de músicas e a presença dos pais. Luciana 1. Uma possibilidade de ampliar as informações dos alunos, levando-os a conhecer o jornal em todos os aspectos: fotografias, textos, mensagens, arte final, classificados... Na maioria dos casos é o único contado entre o educando e a imprensa escrita. 2. O Programa torna muitas das atividades mais interessantes: oferece a oportunidade do manuseio e leitura de um material diferente que pode ser amplamente explorado. 3. O material é utilizado nas aulas de diversas maneiras: contribui para as atividades de raciocínio matemático, para ampliação de vocabulário, estudo e descrição de imagens, produção de textos, atividades artísticas e artesanais. Robson 1. Um projeto educacional de uma empresa privada que oferece e mantém parceria com escolas públicas. Acredito que um dos objetivos dessa empreitada seja, a longo/médio prazo, criar e estimular um novo público leitor desse tipo de texto específico com o qual uma empresa jornalística, basicamente, lida: o texto informativo. Além dessa particularidade, o projeto proporciona um interessante diálogo com o ambiente escolar, caracterizado pelo fomento de uma consciência cidadã, que as leituras e reflexões que aquele tipo de texto provoca. 2. O jornal chega na escola como mais uma fonte de leitura e pesquisa, acaba assumindo o status de mais um material didático, proporcionando o mesmo apoio que o livro didático oferece, com a vantagem de mostrar conteúdos muito mais próximos à realidade do aluno. Outra característica marcante, é que pelo fato de expormos o jornal no pátio da escola e na entrada do prédio da Educação Infantil, o jornal transformase numa fonte de informação – e em momentos pontuais, como reunião de pais, fonte de formação – para toda a comunidade escolar. 3. Conforme já disse, o jornal assume a condição de material didático, acessível a todos os alunos da escola, na sala de aula e em outros momentos. Jornal, essencialmente, corrobora a importância da cultura escrita na sociedade atual. Apesar de sempre estimularmos a oralidade 44 como um elemento essencial da linguagem, a escrita vira o objeto de muitos momentos de aprendizagem. O jornal vira um estímulo à produção de textos de outros tipos: poéticos, narrativos e imagéticos, entre outros. André 1. É uma parceria de imenso valor, não só na divulgação da mídia, mas também, como auxiliar nas atividades pedagógicas da Escola. 2. Nossa parceria já faz parte do cotidiano da Escola. Durante este ano, o foco do Projeto Político Pedagógico é o resgate dos valores, nas diversas ações do ser humano: no passado, no presente e no futuro. Daí, a importância das discussões e debates provenientes das questões abordadas no jornal. 3. Através de debates, recortes de notícias trabalhadas em sala de aula, assim como, a utilização nos jornais-murais. Também existe, o reaproveitamento dos jornais, como material das oficinas de reciclagem desenvolvidas, não só ministradas pelos professores, mas também, pelo grupo de apoio (merendeiras) da escola. Vitor 1. Um interessante projeto de aproximação e inclusão da mídia jornal ao cotidiano dos alunos e professores e comunidade, que por meios próprios dificilmente conseguiriam ter acesso diariamente as informações veiculadas. 2. Este permite que tenhamos acesso fácil e critico as informações que tratam dos fatos e fenômenos do cotidiano, nos ajudando a entender a realidade. 3. São utilizados em dinâmicas e como fonte complementar de informação. Servem como referência para desenvolvermos projetos em que os alunos se tornem também produtores de mídia. Heloísa 1. O Dia na Sala de aula é um programa que enriquece a prática pedagógica dos professores através das várias capacitações sobre leitura e escrita e necessidades especiais e da entrega do jornal O Dia, 45 para as salas de aula que contribui para o diálogo sobre os acontecimentos no dia a dia e amplia o conhecimento dos educandos. 2. O programa do Jornal na sala de aula contribui para despertar o gosto pela leitura e da pesquisa. Aumenta o vocabulário e enriquece a escrita dos textos narrativos. Motiva o contato com o mundo exterior. Desperta a reflexão, o modo de abordar os conhecimentos e atitude critica. 3. O jornal e outras mídias são aproveitados para desenvolver a lógica e ajudar o educando a emitir hipóteses relevantes a partir dos indicadores aplicados a través da prática de atividades sobre ação, linguagem e imagem. Devem ser estimuladas as relações, as inter-relações e interações que podem ser estabelecidas entre parâmetros como meio ambiente, trabalho e cultura. Podem ser suporte de escrita independente da sua especificidade. O professor após conhecer as mídias existentes deve escolher a que deseja utilizar e observar as necessidades ou expectativas dos educandos e promover um diálogo para que participem da escolha. Andréa 1. Um projeto que busca a formação de leitores críticos de um mundo de notícias subjetivas. Aprende-se também a ler imagens, organizar espaços e lidar com publicações diversas. 2. Os alunos veem registrado nos jornais as coisas que ouviram na TV ou que foram comentadas em seus portões, calçadas... reforçando a idéia de que o que é dito pode ser escrito. As fotos, montagens e efeitos de computador contidos no jornal levam os alunos ao desejo de ler a informação (formação de leitores). 3. Os jornais da semana são colocados expostos na sala de aula num varal com barbante à vista dos alunos. CD’s são utilizados com cantigas e músicas do projeto em questão, DVD’s também são oferecidos com temas pertinentes. Há também o cantinho da leitura com livros para manuseio dos alunos. Ione 1. Excelente oportunidade para o professor desenvolver com os alunos habilidades como ler, escrever, compreender, assimilar e reproduzir. 46 2. Conhecimento do dinamismo do espaço ocupado e/ou utilizado pelo homem. É uma viagem pelo espaço terrestre e pelo espaço sideral estudado pelo homem. 3. O jornal, a televisão e a internet possibilitam a atualização constante do tema abordado na resposta anterior. Joice 1. Para mim é a oportunidade de trabalhar com meus alunos, de forma mais intensa, com o jornal. Trabalhamos com produção de texto, análise da linguagem jornalística, além de utilizarmos os textos para estudos gramaticais. Outros professores da escola utilizam também o jornal de acordo com suas áreas de conhecimento. 2. Os alunos têm mais oportunidade de entrar em contato com as notícias, de saber como elas são produzidas ( visitas guiadas à redação e ao parque gráfico). Além disso, as palestras oferecidas e as trocas de experiência possibilitam a renovação das práticas pedagógicas em sala de aula. As visitas a museus e centros culturais propiciam aos alunos outras oportunidades de aquisição de conhecimento fora do ambiente escolar, ampliando horizontes. 3. Além do jornal, utilizamos em sala de aula outros recursos como vídeos ligados diretamente à matéria e filmes - utilizados como ponto de partida para debates e produções textuais. Algumas turmas já estão tendo acesso também à Internet, mais especificamente a sites educativos, sempre visando à ampliação do conhecimento. A sala de leitura da escola é bem estruturada, permitindo aos alunos mais uma oportunidade para a aquisição do saber. Edilce 1. É um programa de muita importância para o trabalho da escola, pois nos auxilia no desenvolvimento cultural e no aprimoramento das produções orais e escritas. 2. Contribui para ampliar o hábito de leitura, escrita e pesquisa devido à riqueza de informações nele contida, fazendo com que o mesmo se torne um instrumento para a formação da consciência, da percepção e da atenção para os fatos da língua e do mundo. 47 3. Os diversos temas apresentados no jornal são utilizados por professores e alunos no cotidiano escolar. É um trabalho que não se esgota, pois pode ser desenvolvido nas diversas áreas do conhecimento. Através dos textos apresentados no jornal, trabalhamos os diversos conteúdos do planejamento escolar (produção de texto, dicionários, manchetes, passatempos e outros) levando os alunos a perceberem a gramática no contexto do jornal. Sandra 1. É a oportunidade de proporcionar aos alunos o hábito da leitura, colocando-os informados através das reportagens. Com relação aos professores, os encontros que são realizados são bastante acolhedores e esclarecedores. 2. As palestras e as trocas de experiência, que são oferecidas para nós professores, como já disse, são bastante esclarecedoras contribuindo positivamente e com relação aos alunos, estes desenvolvem o hábito de se informar através dos jornais que são expostos semanalmente na linha do tempo (toda vez que são trocadas, eles corres para lê-los). Dependendo da atividade desenvolvida, o jornal é mais um recurso utilizado dentro da sala de aula. 3. As mídias em geral são aproveitadas para informação e pesquisa. Já o jornal, especificamente, além da informação e trabalhos de pesquisa, também são aproveitados para confecção de mural e trabalhos artísticos. Cristiano 1. Apesar de estar ciente que o jornal "O DIA" é uma empresa, o projeto "o dia na sala de aula" tem um cunho realmente pedagógico. Todas as ações são voltadas para o fazer pedagógico do professor, o que gera um grande incentivo para o corpo docente. 2. O projeto possui diversas ações, tais como: palestras, jornadas, trocas de experiências, seminários e o recebimento do próprio jornal. Tudo isto contribui no que diz respeito à formação continuada do profissional e dinamiza a sua prática em sala de aula. Portanto, não tem como dizer que o projeto não contribui no cotidiano escolar. 3. O jornal é aproveitado de diversas formas, tais como: pesquisas, discussões, produções de textos e etc. Além do jornal, mídias como os vídeos, por exemplo, também são aproveitados para fins de discussões, produções textuais e entretenimento. 48 Márcia 1. O projeto O Dia na Sala de Aula é um dos elementos mais importantes no meu planejamento diário. Recebemos os jornais na segunda feira pela manhã bem cedo. Por isso nosso primeiro momento é a separação e distribuição dos jornais paras as outrs 10 salas da escola (Projeto Jornaleiro). Logo depois, a Classe Especial 1 arruma o varal de notícias na frente da escola com as capas dos jornais da semana. Separamos as capas do ATAQUE pois elas são expostas também. Visto o grande interesse pelos esportes da comunidade escolar. As reportagens de saúde e educação são destaques nos murais da secretaria e dos professores. De livre acesso a todos que queiram ler. Depois "lemos" juntos os jornais da semana para separarmos as notícias mais importantes da semana para o "Mural de Notícias". Esta parte é toda feita pelos alunos , sendo que a professora só auxilia como "leitora" das reportagens selecionadas pela turma. No ATAQUE vemos as tabelas dos campeonatos em andamento (carioca e/ou brasileiro,sul americano) para atualização do mural. Mais tarde também abastecemos a Hemeroteca da Escola com fotos, frases, algarismos, jogos, charges e encartes. Eles são usados por todos os professores da escola em pesquisas e trabalhos para exposição nos murais. A Classe Especial 2 faz a distribuição dos jornais no turno da tarde. Como a turma é mais infantil que a da manhã ,eu costumo fazer jogos e brincadeiras com palavras e fotos das revistas do jornal. 2. No cotidiano escolar o uso do jornal é bastante frequente. Matemática: jogos como sudoku, tabelas do campeonato, encartes com preços, etc. Português: Leitura e interpretação de reportagens, artigos, cartas classificados; construção de manchetes, jogos de cruzadinhas e produção de textos. História e Geografia: o jornal leva o aluno a curiosidade dos fatos e lugares diferentes do mundo, como também mostra encartes como destaque em temas históricos. Ciências: Toda semana temos lido o destaque das reportagens sobre reciclagem, lixo, energia alternativa etc. Estas são só algumas das atividades que fazemos no nosso dia a dia. 3. Tanto o jornal, como a TV, o DVD e a Internet são usados nas atividades da escola com os alunos dentro dos projetos trabalhados. O Jornal serve de fonte de apoio para as pesquisas, como também a internet. Nossa sala de leitura também é muito bem estruturada e os alunos se sentem a vontade em usá-la. Já colocamos em nosso planejamento de 2010 uma reformulação do uso e da troca de experiências com o projeto, para que os professores novos se utilizem melhor desta grande fonte de trabalho e apoio. O que percebemos é que os alunos gostam de ver, conhecer e usar o jornal na escola,como também levam este prazer de ler para casa. 49 Eliane 1. Para mim, como gestora de uma escola, uma boa parceria possui valor inestimável. Oferecer aos alunos um meio de comunicação tão rico é uma oportunidade para expandir horizontes e facilitar a compreensão da vida em sociedade e das difíceis relações humanas. Foi uma parceria muito esperada (anos) e muito trabalhada (sempre). 2. Com o programa, os alunos passam a ter chance de manusear jornais, em busca de informações, imagens, ideias... Conseguiram perceber outros espaços e realizações, bem como o desenrolar de alguns fatos. Passaram, também, a analisar, criticamente, o que leem. Enfim, o programa ajuda a tornar mais dinâmico e ativo o dia-a-dia da escola. 3. Como incentivo aos trabalhos, fonte de informação, despertar de aptidões... Em nossa escola, a criançada trabalha com jornal (O DIA), com rádio (Rádio Criança), com revistas (Nós da Escola e Escola e Família - publicações da Prefeitura), além da internet (Laboratório de Informática), TV, animações, cartazes e painéis. Aos poucos, os professores interessados vão dominando a tecnologia e conseguem fazer uso dela em seu dia-a-dia. Vários projetos foram e estão sendo desenvolvidos pelos professores, tendo as várias mídias como instrumento no processo de criação, bem como o resultado final ser a própria mídia. Para exame dos dados acima, será aplicado o método investigativo da análise de conteúdo, uma composição de diversas técnicas de análise, em três fases interpretativas: pré-análise, análise descritiva e análise referencial. No capítulo seguinte, a análise das respostas dos educadores é realizada na busca por semelhanças, palavras e ideias cuja frequência desperta inferências importantes na investigação das representações sociais. Dessa análise é compreendida a construção que se faz sobre o projeto O Dia na Sala de Aula e a meneira como esse conhecimento prático se dá no cotidiano escolar. 50 5 CONSTRUÇÕES E PRÁTICAS O método investigativo da análise de conteúdo tem origem bastante longínqua, nas primeiras tentativas de interpretação para os livros sagrados; mas sua configuração, seus princípios e conceitos fundamentais aparecem bem detalhados no denso trabalho de Laurence Bardin, Análise de conteúdo, de 1977 (TRIVIÑOS, 2006). A análise de conteúdo, composta de uma série de técnicas de análise, tornou-se um eficaz meio para o estudo das comunicações escritas, orais e não-verbais. O método pode, portanto, ser aplicado a textos jornalísticos, documentos, filmes, livros, bem como à observação de gestos e expressões faciais, por exemplo, surgidos durante uma entrevista. Bardin (1986) destaca três fases no trabalho interpretativo: pré-análise, análise descritiva e análise referencial. Essas três fases foram seguidas nesta investigação. 5.1 Pré-análise Na pré-análise, foi reunido e organizado o material para constituição do corpus de pesquisa (os dados primários) para, então, ser realizada a leitura geral, “flutuante” 51 (BARDIN, 1986). Essa leitura teve também a finalidade de realização de uma análise preliminar, introdutória às fases seguintes. 5.2 Análise descritiva Na análise descritiva, aconteceu a exploração do material organizado na préanálise. Nessa fase, foi possível elencar as ideias levantadas pela leitura flutuante, buscando sínteses em semelhanças. A análise descritiva das falas dos sujeitos, coletadas nas entrevistas, permitiu a identificação das seguintes ideias: O projeto O Dia na Sala de Aula, bem como os outros projetos de Jornal e Educação em todo Brasil, tem como objetivo maior a formação de leitor, o fomento ao hábito da leitura. Esse objetivo se vê corroborado em diversos trechos, como se destaca a seguir: O programa O Dia na Sala de Aula contribui para despertar o gosto pela leitura e da pesquisa. (...) apoio no processo de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento da leitura, já que temos o projeto da Secretaria: Rio, uma cidade de leitores. Um projeto que busca a formação de leitores críticos (...) Possibilidade de contato direto com um veículo de comunicação que contribui para o desenvolvimento da leitura. É um projeto que veio acrescentar uma nova dimensão ao ato de ler, interpretar e produzir textos; de utilizar os mais simples textos, até propaganda, para realizar atividades de diversas áreas do conhecimento. Os educadores entrevistados, no entanto, colocam em suas falas, em seu entendimento, um outro objetivo, ao lado da formação do leitor, rompendo, na prática, qualquer hierarquia ou centralidade que exista. Para esses, a formação do professor é percebida como objetivo do programa, como se pode notar nos seguintes recortes: 52 A contribuição do jornal se dá (...) através dos encontros para os professores (ligada à formação do profissional e, portanto, o ganho é tanto do professor quanto do aluno, indiretamente). Gosto muito da preocupação que o programa tem com relação ao que o professor busca, a questão da formação, dos interesses. (...) as palestras oferecidas e as trocas de experiência possibilitam a renovação das práticas pedagógicas em sala de aula. Um grande auxílio para a formação continuada do professor (...) (...) é um programa que enriquece a prática pedagógica dos professores através das várias capacitações sobre leitura e escrita e necessidades especiais e da entrega do jornal (...) Todas as ações são voltadas para o fazer pedagógico do professor, o que gera um grande incentivo para o corpo docente (...) palestras, jornadas, trocas de experiências, seminários e o recebimento do próprio jornal. Tudo isto contribui no que diz respeito à formação continuada do profissional e dinamiza a sua prática em sala de aula. Tudo isto contribui no que diz respeito à formação continuada do profissional e dinamiza a sua prática em sala de aula. Portanto, não tem como dizer que o projeto não contribui no cotidiano escolar. O projeto, que tem uma previsão de realização no espaço escolar, ultrapassa, na prática, as paredes da sala de aula e os muros da escola: (...) através da linha do tempo afixada em um dos murais no corredor principal da escola (esta contribuição está relacionada a toda a comunidade escolar). (...) o jornal transforma-se numa fonte de informação – e em momentos pontuais, como reunião de pais, fonte de formação – para toda a comunidade escolar. Também existe, o reaproveitamento dos jornais, como material das oficinas de reciclagem desenvolvidas, não só ministradas pelos professores, mas também, pelo grupo de apoio (merendeiras) da escola. (...) projeto de aproximação e inclusão da mídia jornal ao cotidiano dos alunos e professores e comunidade, que por meios próprios dificilmente conseguiriam ter acesso diariamente as informações veiculadas. O que percebemos é que os alunos gostam de ver, conhecer e usar o jornal na escola,como também levam este prazer de ler para casa. As palavras mais frequentes nas falas dos educadores foram “contribuição” (nas variações: contribui, contribuindo, contribuiu) e “oportunidade” (acompanhada pelo 53 neologismo “oportunizar”), a primeira com dezesseis aparições, a segunda com onze. Estão presentes, também, algumas palavras com sentidos associados: proporciona, enriquece, desperta, motiva; incentivo, estímulo; auxiliar, acrescentar. A representação social que os educadores constroem de O Dia na Sala de Aula se apresenta, sobretudo, como contribuição (com o fazer docente) e oportunidade (para o fazer docente). 5.3 Análise referencial Na análise referencial, foi feita a associação entre a base teórica e as ideias identificadas e exemplificadas nas falas, trazendo elementos para a argumentação sobre o valor e as possibilidades pedagógicas do jornal. Os professores apropriaram-se do projeto – cujo objetivo maior é o incentivo à leitura – e ressignificaram seu papel na escola. Afinal, uma importante função da pesquisa de representações sociais é, justamente, auxiliar ressignificações, pois “as representações sociais – enquanto sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais” (JODELET, 2001, p. 22). Desse modo, o programa O Dia na Sala de Aula se transforma em um grande incentivo para o corpo docente, um programa que enriquece a prática pedagógica dos professores, indo muito além do estímulo ao hábito de ler e da ferramenta pedagógica para formar leitores altamente críticos. Uma parceria que, em princípio, se limitaria a Jornal e Escola ultrapassa esse âmbito e, a partir de um cotidiano escolar dinâmico, chega às casas, aos vizinhos, pais e avós dos alunos. Trata-se de uma ação que pode trazer de volta o velho hábito de reunião familiar dialógica em substituição ao que temos nas salas onde a televisão ocupa um lugar central. “Contribuição” e “oportunidade” acabam por resultar em uma renovação das práticas pedagógicas em sala de aula, em um processo de ensino-aprendizagem interdisciplinar e dialógico. 54 Tais renovações acontecem quando promovemos trocas de experiências – encontros que reunem educadores de escolas do Município do Rio de Janeiro, em junho e novembro, no auditório do jornal O Dia –, fazendo escolas de diferentes bairros se comunicarem, expondo atividades, propostas de trabalho e projetos diversos não apenas em jornal, mas integrando diferentes mídias. São projetos em mídia-educação que poderiam ser divididas em três propostas pedagógicas, como veremos em Rivoltella (2001), que contextualiza o conceito em três perspectivas: crítica (educação para a mídia, com o olhar crítico sobre o objeto); tecnológica (educação com a mídia, pelo seu uso como instrumento pedagógico); produtiva (educação através da mídia, quando se produz uma comunicação alternativa na apropriação criativa das ferramentas midiáticas), como podemos ver no quadro abaixo9. Contextos e Pedagogias em MÍDIA-EDUCAÇÃO Contexto Educação Mídia como Pedagogia / Proposta Objetivo Crítico “para” a mídia Suporte, objeto Moral, inoculatória Defender os sujeitos Leitura crítica Cultivar o discernimento Ideológica Formar o sujeito consciente Formar o sujeito reflexivo Das Ciências Sociais Tecnológico 9 “com” a mídia Recurso Instrumental Sustentar o processo de ensino-aprendizagem Construtivista Produzir conhecimento colaborativamente Tradução livre da tabela apresentada por Pier Cesare Rivoltella no livro “Media education: modelli, esperienze, profilo disciplinare”. 55 Produtivo “na” mídia Linguagem Psicossocial Refletir sobre as relações entre mídia e fenômenos sociais Funcional Permitir que o sujeito interaja com a mídia Alfabético Promover a consciência da linguagem Expressivo Uso criativo da mídia Fazer uso sistemático do jornal em sala de aula amplia o conhecimento da língua e do mundo, desenvolve o senso crítico, aguça a sensibilidade e a imaginação do aluno. Para o professor, o jornal pode ser um recurso auxiliar de ensino muito valioso, já que permite retratar o mundo e acompanhar sua constante mutação em atualizações diárias. A despeito de darmos acesso ao jornal impresso, nossas iniciativas educativas não ignoram a entrada maciça da TV e do rádio no cotidiano dos educandos, mas trabalhamos simultaneamente todos os meios. Até mesmo porque há no Grupo O Dia de Comunicação outros veículos rádio, internet (jornal on-line) e TV – o que resulta na redação multimídia. O conceito de (redação) multimídia está relacionado ao aproveitamento, num mesmo espaço físico, de diferentes mídias. Isso significa que na redação a informação bruta é trabalhada de acordo com a mídia que irá veiculá-la. A mesma história colhida pelo repórter recebe tratamento compatível com o jornal impresso, on-line, rádio ou TV. A compreensão disso pode alavancar inúmeras possibilidades para um Programa de Jornal e Educação. A prática mídia-educativa nas Escolas que fazem parte do programa O Dia na Sala de Aula ressoa em três frentes: educação para as mídias, educação com as mídias e educação nas mídias. Tais formas não necessariamente se apresentam separadas, podendo surgir em coro. Construindo uma intertextualidade com o quadro de Rivoltella (2001), podemos ter: 56 Prática mídia-educativa das Escolas Contexto Educação Mídia como Atividades Crítico “para” a mídia Suporte, objeto Resgate dos valores Discussões e debates provenientes das questões abordadas no jornal Acesso fácil e crítico às informações que tratam dos fatos e fenômenos do cotidiano Formação de leitores Tecnológico “com” a mídia Recurso as mídias são utilizadas como recurso para os assuntos tratados pelos professores atividades de raciocínio matemático, para ampliação de vocabulário letras retiradas do jornal e encartes de propagandas para Alfabetização de nossos alunos assume a condição de material didático desperta o gosto pela leitura e da pesquisa estímulo à produção de textos reaproveitamento dos jornais, como material das oficinas de reciclagem desenvolvidas desenvolve a lógica e ajudar o educando a emitir hipóteses relevante desenvolve com os alunos habilidades como ler, escrever, compreender, assimilar e reproduzir produção de texto, análise da linguagem jornalística, além de utilizarmos os textos para estudos gramaticais trabalha os diversos conteúdos do planejamento escolar hemeroteca Produtivo “na” mídia Linguagem Utilização nos jornais-murais Cartazes e painéis 57 Projetos em que os alunos se tornem também produtores de mídia O Estado brasileiro, através dos Parâmetros Curriculares Nacionais, admite e incentiva que se introduzam e explorem as mídias nas escolas. Desta maneira, aponta para uma nova organização curricular da Educação Básica no Brasil, definindo os objetivos para o trabalho com rádio, tv, videocassete, câmara fotográfica, gravadora, computador etc. E por que educar para as mídias, com as mídias e nas mídias? Len Masterman nos dá uma lista com alguns bons motivos: o consumo elevado das mídias e a saturação à qual chegamos; a importância ideológica das mídias, notadamente através da publicidade; a aparição de uma gestão da informação nas empresas (agências de governo, partidos políticos, ministérios etc.); a penetração crescente das mídias nos processos democráticos (as eleições são antes de tudo eventos midiáticos); a importância crescente da comunicação visual e da informação em todos os campos (fora da escola, que privilegia o escrito, os sistemas de comunicação são essencialmente icônicos); a expectativa dos jovens a serem formados para compreender sua época (que sentido há em martelar uma cultura que evita cuidadosamente as interrogações e as ferramentas de seu tempo?); o crescimento nacional e internacional das privatizações de todas as tecnologias da informação (quando a informação se torna uma mercadoria, seu papel e suas características mudam). (MASTERMAN, Len apud BELLONI, Maria L. 2001, p.10) A professora Maria Luiza Belloni acrescenta uma razão que julga mais geral e mais importante: (...) a escola deve integrar as tecnologias de informação porque elas já estão presentes e influentes em todas as esferas da vida social, cabendo à escola, especialmente à escola pública, atuar no sentido de compensar as terríveis desigualdades sociais e regionais que o acesso desigual a estas máquinas está gerando. (BELLONI, Maria L. 2001, p.10). Belloni frisa que especialmente na rede pública de ensino devem ser criados e desenvolvidos projetos mídia-educacionais. Entendo que levar jornais às escolas é, sem dúvida, dar a milhares de crianças acesso a uma tecnologia que, normalmente, 58 não chegaria em suas casas – ao contrário do que acontece com a TV e o rádio, que, segundo o IBGE, estão presentes, respectivamente, em 90,5% e 88,1% dos lares brasileiros (IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 2003). A partir do observado nas falas sobre os usos pedagógicos da mídia, é possível observar que o uso tecnológico, ou instrumental, vigora nas escolas. Os dois outros contextos mídia-educativos – crítico e produtivo – são preteridos. A exploração instrumental do jornal pode ser importante em um primeiro instante, mas o uso pedagógico no contexto crítico pode contribuir com a formação de cidadãos com olhares independentes, com capacidade vital de leitura; igualmente, o contexto produtivo é uma oportunidade para a franca expressão desses olhares e para o exercício da cidadania. A ênfase no contexto instrumental, encontrada na observação das entrevistas, será sem dúvida um índice importante para futuras estratégias do Programa, que incentivará o uso crítico e produtivo do jornal no espaço escolar. 59 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS A pesquisa sobre a parceria Jornal/Escola à luz da teoria das representações sociais já tem contribuído significativamente para a organização das ideias acerca do projeto pedagógico O Dia na Sala de Aula. Ideias que serão desenvolvidas a partir do ano de 2010, com uma participação maior dos professores na elaboração do calendário de atividades do Programa. Ao longo das reflexões, foi aumentado o entendimento das atitudes, dos julgamentos de valor e do conhecimento sobre o Projeto O Dia na Sala de Aula. A pesquisa também foi de expressiva importância no sentido de repensar as práticas mídia-educativas e reformular o encaminhamento dos encontros e eventos realizados pelo Projeto. A análise das respostas, empregando-se o método de Análise de Conteúdo, com base em Bardin (1986), com especial atenção às etapas de análise descritiva e análise referencial, revelou a maneira positiva como os professores percebem o uso didáticopedagógico do jornal. Entendendo, como Denise Jodelet, a “representação como uma forma de saber prático, ligando um sujeito a um objeto” (2001, p. 27), podemos dizer que os professores apreendem o projeto Jornal e Educação com as seguintes ideias: de que a presença do Projeto O Dia na Sala de Aula no espaço escolar é uma contribuição ao 60 trabalho do professor e uma oportunidade para a sua formação continuada e de que o jornal, levado à escola, ultrapassa seus muros, uma vez que o Projeto chega às famílias, através dos comentários dos alunos. No capítulo MÍDIA-EDUCAÇÃO E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, afirmo que o campo confluente educação/comunicação é propício à mudanças das representações sociais, que são construídas pelos sujeitos, leitores e ouvintes do mundo comunicacional. As representações sociais elaboradas pelos educadores não deverão, de forma alguma, sofrer alterações – a menos que esse seja o seu curso natural –; muito pelo contrário, tais representações deverão nortear uma série de mudanças no programa O Dia na Sala de Aula. O uso prevalescente da mídia impressa nas escolas é, segundo os educadores, o tecnológico. Valoriza-se, sobremaneira, a utilização do jornal como ferramenta, como recurso para o ensino dos conteúdos curriculares, em detrimento do contexto crítico (formação de um ator social reflexivo) e produtivo (da expressão através de suas próprias mídias). Esse índice aponta a necessidade de redesenhar o Projeto, estimulando, ainda mais, a educação para a mídia, o uso da mídia como objeto de estudo crítico, e a educação na mídia, como produção colaborativa e criativa de meios de comunicação escolares. Qualquer pesquisa só encontra impulso em uma questão geradora, um problema que demande a dedicação reflexiva em busca de contribuições para os envolvidos. A PARCERIA JORNAL E ESCOLA EM PROJETO PEDAGÓGICO: UM ESTUDO À LUZ DA TEORIA DA REPRESENTAÇÃO SOCIAL teve como mola propulsora o seguinte questionamento: O que pensam os educadores sobre o O Dia na Sala de Aula, como este projeto é realizado na prática cotidiana e como esta parceria contribui com a comunidade escolar? O estudo indicou a percepção do projeto como um aliado na formação continuada dos professores e a preferência por um viés mídia-educativo em detrimento de outros que seriam de grande importância para o processo de ensino-aprendizagem. Portanto, depreendo elementos que ajudarão a traçar ações efetivas para o fomento do 61 estudo crítico (na educação para as mídias), para o incentivo da produção de mídias escolares (jornais, rádios, blogs etc.) e para atender ainda mais aos educadores no permanente estudo para o enriquecimento de suas práticas – seja intensificando as oficinas pedagógicas, realizadas nas escolas, ou ampliando os encontros com autores e pesquisadores envolvidos com o cotidiano escolar. Penso ter recebido desta pesquisa apontamentos preciosos que nortearão, desde já, o desenvolvimento desta específica parceria entre Jornal e Escola. 62 REFERÊNCIAS ALMEIDA, A. M. O. A pesquisa em representações sociais: proposições teórico- metodológicas. In: SANTOS, M. F. S., ALMEIDA, L. M. (Orgs.). Diálogos com a teoria das representações sociais. Alagoas, PE: EdUFAL, 2005. AMATO, Fábio. Em Taubaté, consurso para escriturário tem questões sobre BBB e casal global. Folha de São Paulo, São Paulo, 18 abr. 2008. 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