Um cântico na agonia
Prefácio
Tragédias não escolhem hora, lugar ou pessoas. Simplesmente se abatem sobre nós.
Diariamente temos contato ou conhecimento delas.
A diferença consiste em como enfrenta-las, contorna-las e vence-las. Seguindo o
exemplo de Cristo, nós como cristãos devemos observar os seus derradeiros atos em nosso
meio. Diante das mais terríveis adversidades, Jesus enfrentou-as com extrema paz e fé nas
promessas do Pai.
Leia este pequeno livro com a intenção única de aprender a enfrentar as mais
variadas tragédias do nosso dia-a-dia, pois como o próprio autor relata, Viver é correr risco
da tragédia . E seja capaz de sempre poder entoar um cântico na Agonia.
Mauricio Soares
Um Cântico na Agonia
O que você faria hoje, se soubesse que amanhã se encontraria preso a mais terrível e
indescritível crise existencial? Se amanhã você se desse conta de que seu melhor e mais
intimo amigo lhe houvesse faltado ao dever humano e fraternal de solidariedade? O que você
faria se, de repente, aquela pessoa de quem você nem de longe desconfiaria, na qual você
tanto investiu e que tanto usufruiu de sua cultura, seus afetos, inclinações e bens maiores o
traísse?
O que você faria se a religião na qual você foi criado, em meio a qual foi
inspirado,dentro da qual foi instruído, subitamente, estabelecesse uma penalidade contra
você?
Como você reagiria se, de hábito, se visse escarnecido, vilipendiado, com a honra
enxovalhada, a dignidade exposta a uma situação de zombaria, motejo, galhofa e ironia? O
que faria se fosse alvo de grave violência física, de um estupro, por exemplo, ou de uma surra
absurda?
Qual seria a sua atitude se você tivesse certeza absoluta do que lhe aconteceria
nos próximos dias?
Houve um dia, na vida de Jesus, quando, olhando adiante, ele só conseguia ver
coisas absurdas e semelhantes a essas a que acabo de me referir. Seu dia seguinte seria o dia
do Getsêmani; dia da depressão, da agonia; dia do encaramujar da alma; dia da vertiginosa
descida à região mais abissal; dia do choro, gemido, solidão profunda.
O dia seguinte seria aquele no qual faltaria a solidariedade dos amigos. Ele gemeria,
choraria, pediria, reclamaria; solicitaria apoio, companhia, mas os amigos estariam dormindo.
Voltaria a eles e em vão questionaria: Não pudestes vigiar comigo? Não pudestes investir
em mim sequer alguns minutos? Não conseguistes vencer o sono? Será que a minha dor é
menos importante que o conforto e o sossego? Simão, tu dormes? Não pudeste vigiar comigo
uma hora? (Marcos 14:37)
O dia seguinte também foi dia de traição, dia no qual Judas Iscariotes discípulo,
apóstolo, amigo, amado o troca por dinheiro. Judas que fora investido de autoridade, aquele
a quem se descortina sonhar com os que sonham na intervenção de Deus na História; alguém
aquinhoado com poder divino para realizar curas, prodígios, expulsão de demônios; aquele
que vivenciara realidades concretas da chegada e da demonstração do Reino. É justamente
ele que, em função de um bom negócio, trai a amizade; é esse Judas que beija e apunhala. É
ele que dá um susto não um susto no coração de quem não sabia o que ocorreria, mas um
susto naquele que, mesmo ciente do que iria suceder, reserva-se, ainda assim, o direito de
enfrentar cada momento da vida como cada momento da vida, com seus temores, sonhos e
ambigüidades.
O dia seguinte é o dia no qual a religião judaica segundo a qual foi criado, na qual
aprendeu a ler (porque naqueles dias aprendia-se a ler nas escolas rabínicas, lendo a Tora, ou
Escrituras), sendo instruído desde a mais tenra infância após o julgamento, o acusa de
herético , não recebe sua mensagem, rejeita sua proposta, considera-o demoníaco, expurga-o
O dia seguinte é o dia da negação, negação de um dos melhores amigos, amigo que
diante de uma situação pública afirma jamais tê-lo conhecido, não ter com ele a menor
relação, não guardar a lembrança de nenhum encontro; não haver história entre eles, hipótese
alguma de cumplicidade. Amigo que declara: Não sei quem é esse homem; jamais o vi,
nunca lhe ouvi o nome; tampouco andei com ele. Amigo que nega a fraternidade, o
compromisso, a paixão e o sonho comum.
O dia seguinte seria dia de preterição, de troca: que preferes, a Jesus, chamado
Cristo, ou ao ladrão? Seria dia no qual o poder público faria opção pelo corrupto, em vez do
justo; pela devassidão, e não pela integridade. Seria dia no qual os sistemas e a maquina
governamental, por questões políticas, entregariam o inocente para ser condenado e
libertariam com todas as condições de libertação e seus privilégios o assassino. Dia, pois,
de ser trocado de maneira vil; de ser escarnecido soldados lhe poriam uma coroa de
espinhos na cabeça para brincar com a sua realiza (realeza, sim, mas de dor). Colocar-lhe
iam na mão um caniço quebrável, como a dizer que o seu cetro é o cetro da fraqueza. Vestilo-iam com, um, manto aparatoso, para significar que tipo de rei era ele: rei-momo: reipalhaço; rei do festival; debochariam dele expondo-o a cenas ridículas. Para honrá-lo, cuspirlhe-iam. A fim de declararem sua sapiência profética, fechar-lhe-iam os olhos para lhe
perguntar: Quem foi que te bateu?
Sarcasmo, ironia. O dia seguinte é o dia da cruz. Dia da violação. Dia da profanação
física. Dia da agressão. Dia de ser trespassado. Dia de ser objeto.
O que você faria, se soubesse que os três próximos dias da sua vida seriam dessa
qualidade? O que você faria, se soubesse que o que o aguarda é a depressão, a facada, a
traição, o agravo, a perfídia, a barganha, o julgamento, a exclusão da instituição, o desprezo,
a rejeição, a falta de solidariedade e ingratidão dos que se afirmavam amigos?
O que você faria se nos próximos dias você perdesse o emprego, ou lhe roubassem a
posição em favor do maior corrupto, de pessoas mais convenientes àquela posição? O que
faria você, se amanhã fosse o dia do escárnio, do desdém, da injúria, do descrédito, do
enodoamento do seu nome, de sua imagem e do seu caráter?
O que você faria, se amanhã, ao entrar no táxi, fosse vítima de um ato sádico, um
assalto pavoroso, um seqüestro? Ou fosse dia no qual seu marido chegasse bêbado a casa, e
tomado pelo machismo arrebentasse seu rosto, enchendo-a de hematomas, ferindo-lhe os
ouvidos com palavrões e impropérios?
Tenho certeza de que não estou sendo irreal, nem estou falando de coisas que não lhe
digam respeito. Porque todos nós, de um modo ou de outro, corremos sempre o risco de
estarmos na iminência de sofrer algo desse tipo.
Viver é correr o risco de tragédia. Estar vivo é estar assistindo à possibilidade de
conflito, traição, preterimento, negação, fraude, injustiça, roubo, desonra, calúnia, violência,
depressão e ilhamento .
Hoje, não sabemos o que nos pode acontecer amanhã ou depois. Mais o Cristo ao
qual me refiro conhecia o futuro se bem que não do ponto de vista de uma exacerbada
onisciência, que lhe tirasse o direito e o privilégio de rir e de chorar, de alegrar-se ou de
sofrer a cada instante, a ponto de a cada nova situação poder afirmar: Eu já estava esperando
que isso acontecesse... Porque o paradoxo da onisciência de Jesus é que ele sabe tudo, mas
vive tudo o que lhe acontece como se ignorasse que lhe ocorreria. É o mistério que só se
explica em Deus: saber tudo, e, no entanto, viver tudo com a surpresa da chegada de cada
coisa.
E qual a atitude de Jesus na véspera do tudo mal? Na véspera do trágico? Na
véspera do tudo-nada? Marcos conta, no cap. 14, v.22 e 23 que, partindo o pão, ele disse:
Isto é o meu corpo ; e tomando o cálice, acrescenta: Isto é o meu sangue
prova de que
estava plenamente consciente do que o aguardava. O v.26 diz mais: Tendo cantado um
Hino, saíram para o Monte das Oliveiras .
O que esperava por Jesus era o ser ele partido, rasgado, moído, ultrajado, usado. No
entanto, ele canta um hino! E que hino era esse? Era justamente o hino que o judeu cantava
na Páscoa, o Salmo 115, que afirma o amparo de Deus; salmo que admoesta:
não confieis em ídolos. Tem boca e não falam; têm olhos e não vêem; têm ouvidos
e não ouvem; te, nariz e não cheiram. Suas mãos não apalpam; seus pés não andam; som
nenhum lhes sai da garganta .
Ele exorta a que se confie no Senhor em quem há amparo, refúgio, conforto,
segurança.
Parece ironia cantar um hino desses à véspera do que Cristo sabia ser a moenda da
sua alma, o trilhar do seu corpo, o lacerar e escalpelar da sua carne. Sim, Jesus foi neste
planeta o único homem que soube crer no que Paulo articularia teologicamente mais tarde:
sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus,
daqueles que são chamados segundo o seu propósito (Rm 8:28).
Qualquer um só faz arremedar essa prática, somente Jesus de Nazaré cantou antes
da agonia; cantou louvores no gemido. E diga-se: em Cristo, o cantar, antes de tudo, equivale
a cantar depois. Porque ele canta não antes da surpresa absoluta, mas sabendo o que está por
vir. O que significa terminar a cruz em louvor.
O que estará a vida fazendo em nós? Que estará ela fazendo de nós? O que o chicotear,
o deprimir, o esmagar, o humilhar, o tripudiar, o caluniar, o escarnecer, o decepcionar, o
desacreditar, o roubar, o espatifar de ilusões estarão criando em nós? Será que os gestos,
jeitos, modos, palavras e tudo mais que a vida nos negou, não estariam gerando em nosso ser
uma alma desértica, um coração duro, frio, incapaz do amor, da dádiva, da troca, do sossego
e da paz? Será que não teria arrancado de nós a capacidade de sonhar, de crer, de renunciar e
de ser grato? Ou ainda não teriam criado em nós uma mente inepta, paralisada ao fervor e à
adoração?
Será que os fatos e as ocorrências do dia seguinte estão gerando em nós a idéia de
que Deus tem o braço encolhido? Que ele é um Deus impotente, inoperante e alienado; um
Deus-ídolo?
Ou será, por sua graça, seremos capazes de enfrentar o que vier, chorando e
gemendo com louvor, com gratidão, na certeza de que aquilo que dói em nós, magoa e fere
fundo; aquilo que nos embaraça e tonteia pelo impacto; que nos surpreende, decepciona e
assusta, de maneira nenhuma revela e retrata a inoperância e pouco-caso de Deus, que não
traduz sua fuga ou omissão. Ao contrário, espelha a certeza de que, por trás do que se pode
chamar bueiro da dor, espasmo da decepção, negrume da solidão, haverá finalmente a estrada
em direção ao único Pai o único Amigo e à única vitória e certeza.
Certeza que nos capacita a viver apesar do desamor e abandono, da aflição da perda
irrecuperável; apesar do nojo e horror do amigo traiçoeiro e traidor, do tédio da eterna
criatividade vestida de pavão e corpo de gralha; enfim, apesar da tristeza de tanto que iria ser
e nunca foi, ou parece ser e não é nem nunca será.
Cristo canta a ressurreição. Ele canta a intervenção, celebra a vitória antes dela.
Meu grande desejo é que, de alguma forma, o Espírito do Senhor nos ajude a cantar
um hino e sair...Sair para lutar! Sair para batalhar pela felicidade, alegria e independência a
que temos direito. Sair, enfim, para viver a própria vida! Faça a vida a careta que fizer, use
contra nós as armas que usar, empunhe em nossa direção as foices traiçoeiras e devastadoras
que quiser. Pois, apoiados ao muro da esperança, em Deus, iremos de peito aberto contra todo
o choque e toda cilada, celebrando de antemão a vitória, a interferência e o amparo do TodoPoderoso, e meio à agonia.
Saia para glorificar o nome de Jesus, cantando antes, durante e depois!
Um Cântico na Agonia
Depois de ter lido este livro, para melhor entendimento e memorização, reúna-se
com um grupo de amigos de sua igreja, com sua família ou comunidade e discuta este tema
a partir das perguntas aqui formuladas.
Refletindo nas respostas colhidas nesta reunião, você poderá traçar um perfil de
como vem sendo a sua vida cristã. Como poderá modificá-la e colocar os seus objetivos
futuros.
Certamente, após este debate, você poderá ter uma nova visão dos Planos de Deus
em sua vida. Mais, lembre-se que este questionário e esta reunião não adiantarão de nada,
se você não os responder com sinceridade e clareza de coração.
Na verdade, nossa intenção não é saber se você está agindo corretamente ou não.
Mas é poder proporcionar uma forma de meditação e de conhecimento próprio
Perguntas
1 O autor coloca o dia do Getsêmani como o ponto alto do sofrimento de Jesus.
Quais os sentimentos que o aguardavam?
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2
Quais os tipos de rejeições pelas quais Jesus teve que passar nesse dia seguinte?
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3 Como homem, quais as grandes necessidades manifestadas por Jesus quando
próximo à agonia da cruz?
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4
Segundo o autor, qual o paradoxo das duas naturezas
humana e divina
de
Jesus?
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5
Qual a mensagem do hino cantado por Jesus antes da crucificação?
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6 Que benefício divino nos é colocado como solução para o enfrentamento das
feridas causadas pela vida?
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7 Como você enfrenta as diversas tragédias do cotidiano?
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8
De todas as tragédias que se abateram sobre Jesus, qual, Para você, teria sido a
pior?
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9
Você já enfrentou problemas da mesma forma que Jesus, cantando? Como foi?
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10
Você acredita no poder do louvor em transformar situações? Como?
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11
Gostaria de relatar alguma experiência a respeito do tema?
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Um cântico na agonia Prefácio