A VISÃO DA DIDÁTICA NAS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO:
EDUCAÇÃO, PEDAGOGIA E DIDÁTICA¹
LIMA, Dulcineia Medeiros ²; LEMES, Denise Peralta³
¹ Trabalho de Pesquisa _AJES.
² Acadêmica do Curso de Pedagogia do Instituto Superior de Educação do Vale do Juruena,
Juína,MT, Brasil.
³ Professora orientadora Instituto Superior de Educação do Vale do Juruena, Juína,MT, Brasil.
E-mail: [email protected]
RESUMO
O estudo objetiva contribuir com a compreensão epistemológica da pedagogia a partir da constatação
de mudança do paradigma em torno do significado da docência. Parte do princípio de que a
pedagogia, enquanto ciência da educação precisa passar da racionalidade técnica à racionalidade
prática, reflexiva, formativa e emancipatória. A formação do pedagogo deve enfatizar o aspecto
crítico-reflexivo, que compreenda a pluralidade do âmbito educacional, ficando claro que esta tarefa
ultrapassa os muros escolares, definindo o pedagogo como investigador educacional por excelência,
com características de profissional crítico e reflexivo. Considera que sua constituição teórica
apresenta-se marcada por elevados níveis de complexidade e precariedade. Assim, o que se propõe
é identificar a pedagogia como campo do conhecimento sobre e na educação. “Campo de
conhecimento”, pois não se trata apenas de teorias científicas, na medida em que envolve outras
formas e outros tipos de conhecimento. “Sobre a educação”, por teorizar e sistematizar as práticas
educativas produzidas historicamente na articulação dos diferentes saberes já descritos. E, “Na
educação”, ao materializar-se nas práticas educativas que são fundamentais para a articulação de
todos os conhecimentos produzidos nas ações dos educadores, no âmago da atividade prática. A
ampliação do conceito de pedagogia é justificada a partir da expansão do significado da docência,
que não pode ser simplificada à transferência mecânica de teorias científicas. Daí a necessidade de
se ampliar o entendimento epistemológico da pedagogia, que tem, entre suas diferentes áreas de
investigação, a docência. O estudo conclui com a consideração de que o conceito ampliado de
pedagogia, embora concebido a partir da educação escolar, apresenta-se com possibilidade de
facilitar não apenas a interpretação e intervenção dos processos educativos que ocorrem na escola,
mas também daqueles que ocorrem em espaços não-escolares.
Palavras-chave: Pedagogia; Campo de conhecimento; Educação; Docência
INTRODUÇÃO
Será a Pedagogia um saber (uma ciência) que, como outros, estuda a educação, mas
que com eles não se confunde, fazendo-se necessária a determinação de seu estatuto
científico?
Essa reflexão sobre a Pedagogia como Ciência da Educação remete-nos a
estabelecer as relações entre Pedagogia e Didática.
A Pedagogia e Didática são ciências particulares autônomas? A Didática é um ramo
da Pedagogia ou suas relações são parte de um conjunto de argumentos? Qual é a
verdadeira relação entre Educação e Ensino?
Essas e outras questões serão respondidas resumidamente nesta pesquisa, que por
sua vez é uma síntese de um trabalho maior, “Panorama Atual da Didática no quadro das
Ciências da Educação: Educação, Pedagogia e Didática”.
Há muito se debate a natureza da Pedagogia, sua especificidade em face das ciências
da Educação, bem como a contribuição destas na educação, particularmente ao ensino e à
aprendizagem, área de estudo da Didática.
Respeitáveis autores, como Coelho e Silva (1991), Dias de Carvalho (1988), Estrela
(1980), Estrela & Falcão (1990), Gomez (1978), Not (1984), Quintana Cabanas (1983),
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Schmied-Kowarzik (1983), entre outros, defendem o estatuto científico da Ciência da
Educação, pois entendem a Pedagogia como saber específico que não se confunde com
nenhuma outra ciência da Educação, porém admitem que o tema não tem sido
suficientemente considerado.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRIA
CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO OU PEDAGOGIA?
Estrela (1980) e Estrela & Falcão (1990), discutindo esta temática, consideram as
“ciências da educação” como outras “ciências que também estudam a educação”.
Admitindo que nenhuma ciência se constitui sem que se saiba qual é o seu campo,
indaga-se qual é o campo da Pedagogia, o real pedagógico. Afirma que o conhecimento do
real constitui uma primeira etapa do método científico e que uma forma de conhecê-lo é
observá-lo, para, a seguir, descrevê-lo. Por isso, propõe a necessidade da descrição dos
fenômenos pedagógicos, com instrumentos e métodos próprios e não simplesmente de
outras como tem ocorrido.
Para se constituir como ciência, é necessário que a Pedagogia encontre seu objetivo,
seu concreto, através de um conjunto coerente de teorias explicativas, construídas a partir
de uma prática metodológica específica. Para isso, propõe como caminho a explicitação do
“irredutível pedagógico” que na situação escolar, é o “aluno”. Diferente, portanto, das
“ciências da educação” que estudam a criança, o jovem, o adulto, etc., em si.
Consequentemente, o campo da Pedagogia (ciência da educação), no caso da
educação escolar é o ato pedagógico que envolve o aluno, o professor, a situação
institucional, etc., no qual a análise do comportamento em situação sobrepõe-se à análise
do comportamento em si, o que significa uma modificação radical da fundamentação
epistemológica e da prática da Pedagogia que o autor denomina de ciência da educação
CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO OU CIÊNCIA ESPECÍFICA DA EDUCAÇÃO?
Coelho e Silva (1991) denomina Biologia, Psicologia, Antropologia, Sociologia, etc.,
como ciências com implicações na educação e defende a necessidade de se construir o
estatuto epistemológico de uma ciência específica da educação.
Propõe que, pra a construção de uma epistemologia de uma ciência específica da
educação, se tome como propósito que a educação é, de todas as manifestações humanas,
não só uma das mais importantes, como também uma das mais complexas.
Consequentemente, o desafio para a Ciência da Educação é “construir um
conhecimento que se sobreponha aos conhecimentos dispersos pelas ciências”. Para isso,
há a necessidade de especificar o objeto educativo de forma a não minimizar o processo
educativo, mas sim, desenvolver uma metodologia específica aos “aspectos dinâmicos e
moventes da educação, porque são estes precisamente que lhe conferem a especificidade
humana”.
CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO
Dias de Carvalho (1988), denomina as ciências da educação de prolongamentos ou
aplicações das diferentes Ciências Sociais e Humanas à educação, considera-as
insuficientes, uma vez que não parte do fenômeno educativo como problema de
investigação, senão que lhe emprestam interpretações elaboradas a partir de suas
problemáticas específicas. Assim, por exemplo, o historiador (da educação) é primeiro
historiador, depois da educação. Isso faz com que coloque o fato educativo como
subordinado à ciência histórica. Dessa forma, opera a uma inversão epistemológica, uma
vez que a ciência (História) passa a anteceder o fato (a educação). O fato (o real, o mundo,
o problema), no entanto, é anterior ao conhecimento, à interpretação (ciência) sobre ele.
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DO OBJETO DA CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO: A PRÁTICA EDUCATIVA
Quintana Cabanas (1983), enfrentando a importante questão do lugar e do estatuto da
Pedagogia no seio das ciências da educação, considera que a Pedagogia não se dilui nas
ciências da educação, e afirma-a como ciência prática e normativa da educação,
preocupada com a ação de educar, com o ato educativo e com a intervenção nesse ato,
para o qual se dirige a um só tempo com a intenção de conhecê-lo e de transformá-lo,
munida, portanto, de uma intencionalidade, de um projeto.
Para Dias de Carvalho (1988), a Ciência Prática da Educação, não pode ser apenas
uma ciência descritiva, explicativa e interpretativa, será também uma ciência normativa em
que a utopia (a realidade que se deseja) tem um papel central. É que esta ciência lida com
um objeto inconcluído, não podendo, por isso, bastar-lhe o conhecimento de um objeto já
construído.
Mazzotti (1993 e 1994), em seus recentes estudos sobre epistemologia das ciências
da educação e a especificidade da Pedagogia, denomina da Ciência da Educação de
Pedagogia e justifica o uso da expressão “para distinguir do conjunto dos estudos sobre
a/da educação, mantendo a diferença entre a reflexão sistemática e a atividade
compreendida como educação”.
Para Mazzotti, a Pedagogia é uma ciência da prática, que não se efetiva como uma
tecnologia e, sim, como uma reflexão sistemática sobre uma técnica particular que é a
educação.
Scmied-Kowarzik (1983) define Pedagogia como uma ciência prática da e para a
práxis (prática) educativa, o que também denomina de Pedagogia dialética.
A Ciência da Educação (Pedagogia) será dialética na medida em que, partindo do
interesse libertário do conhecimento de uma teoria crítica da sociedade, voltando à
emancipação e libertação dos homens (humanização), tornar possível à Pedagogia, a
antecipação de uma práxis educacional transformada.
Contudo, a Pedagogia não muda, por si, a práxis. Ela é instrumento para a ação. São
os homens, os educadores que agem.
RESULADOS E DISCUSSÕES
Partindo da colaboração dos diferentes autores citados, conclui-se:
- Todos afirmam a importância, a necessidade e a possibilidade de construir-se uma
Ciência da Educação com estatuto próprio. Alguns a denominam de pedagogia.
- A construção deste estatuto parte da análise crítica do estágio atual de
indefinição/imprecisão/insuficiência das ciências da educação em face ao fenômeno
educativo. Essa análise está colocada como condição de possibilidade para o
engendramento da Ciência da Educação.
- A Ciência da Educação tem como as demais, íntima colaboração, diálogo,
intercâmbio, para o que há a necessidade da revisão epistemológica, “sem o que o estudo
dos fenômenos educativos ficará irremediavelmente condenado a permanecer como
receptor passivo de discursos alheios” (Dias de Carvalho, 1988:96), sem que se efetive a
interdisciplinaridade.
- O objeto/problema da Ciência da Educação (Pedagogia) é a educação enquanto
prática social. Daí o seu caráter específico que a diferencia das demais, que é o de uma
ciência prática – parte da prática e a ela se dirige. A problemática educativa e sua
superação constituem o ponto central de referência para a investigação.
- A educação, objeto de investigação da Ciência da Educação (Pedagogia), é um
objeto inconcluso, histórico, que constitui o sujeito que o investiga e é por ele constituído.
Por isso, não será captado na sua integralidade, mas o será na sua dialeticidade: no seu
movimento, nas suas diferentes manifestações enquanto prática social, nas suas
contradições, nos seus diferentes significados, nas suas diferentes direções, usos e
finalidades. Será captado por diferentes mediações que revelam diferentes representações
construídas sobre si.
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DO MÉTODO DA PEDAGOGIA (CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO) BREVE CONSIDERAÇÃO
A educação é uma ciência prática que tem por objetivo de investigação a educação
como prática social histórica, as razões que apontam para o método dialético.
Por que o método dialético?
Na visão de Vieira Pinto (1969), o modo dialético reflete que o homem pensante, a
criatura lógica, que irá conhecer o mundo natural e explicá-lo, é ele próprio um produto
desse mesmo mundo e tem de ser estendido, em todos os seus aspectos e funções, com as
mesmas idéias gerais que explicam o processo total da realidade. A produção da idéia é
dialética.
A dialética ensina-nos a compreender, primeiro, a natureza contraditória do processo
geral da realidade; segundo, que, em conseqüências desta natureza, todas as coisas e
fenômenos singulares são apenas momentos deste processo, ou seja, são microprocessos
em si mesmos, e, portanto, transportam na transitoriedade do seu ser, a contradição
essencial que os explica como produtos objetivos e momentâneos do processo total.
Frigotto (1989: 73), afirma que a dialética antecede ao método, clara na consistência o
método dialético: trata-se inicialmente de entender que o „método dialético materialista se
explicita mediante a questão: como se produz concretamente um determinado fenômeno
social? Ou seja, quais as “leis sociais”, históricas, quais as forças reais que o constituem
como tal?
Citado por Frigotto (1989), Kosik (1976), afirma que a dialética é um atributo da
realidade e não do pensamento. “O conhecimento da realidade histórica é um processo de
apropriação teórica, isto é, de crítica, interpretação e avaliação dos fatos, processo em que
a atividade do homem, do cientista é condição necessária do conhecimento objetivo dos
fatos”.
Konder (1992) faz uma revisão crítica e contemporânea do pensamento de Marx, após
a queda do socialismo real, recoloca a categoria da práxis como a “mais importante
descoberta de Marx”, “o grande conceito da moderna filosofia materialista”. Ao proceder a
essas afirmações de modo enfático, convida a repensarmos sobre o entendimento da
educação como práxis e, consequentemente, o aprofundamento da Ciência da Educação
como ciência prática.
CIÊNCIA DA EDUCAÇÃO (PEDAGOGIA) E DIDÁTICA
O objeto do estudo da Didática é a problemática do ensino. Como entendê-lo
dialeticamente? Como investigá-lo na direção de nele identificar as possibilidades de
contribuir para o processo de humanização dos homens?
As respostas a esse questionamento não são simples, nem prontas e acabadas. Estão
em construção. Isto é, configuram o próprio movimento histórico de construção e
reconstrução da Didática como área de conhecimento.
CONCLUSÕES
Os autores conceituam a pedagogia como ciência prática da educação porque é uma
ciência envolvida diretamente com a aplicação e análise dos conhecimentos dentro do
contexto educacional.
Através de uma reflexão sobre a educação, busca-se a solução dos problemas
pedagógicos e educacionais, a fim de melhorar e re-organizar a sua práxis no contexto
escolar.
Através da epistemologia e da prática, procura-se redimensionar o enfoque de
investigação baseado apenas na lógica, para um enfoque abrangedor voltado para a análise
crítica da realidade escolar, e também para uma nova visão da pedagogia como Ciência
Prática da Educação.
A maioria das ciências é vista como processo de teoria que após muitos estudos leva
a experimentação na prática, já a Pedagogia apresenta um processo de investigação que
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necessita da prática para melhorar e impulsionar novos direcionamentos e melhorar
gradativamente a práxis de um modo geral.
A prática educativa é um fato social, cuja origem está ligada ao desenvolvimento da
humanidade.
A compreensão do fenômeno educativo fez surgir um saber específico associado ao
termo Pedagogia. A indissociabilidade entre prática educativa e epistemologia (teoria do
conhecimento), elevou o saber pedagógico ao nível científico. Dessa forma, o pedagogo
passa a ser, de fato e de direito, portador de uma função reflexiva, investigativa e, portanto,
científica do processo educativo. Funções estas, que não podem ser delegadas à outro
profissional, pois o seu campo de estudo possui uma identidade e uma problemática
próprias.
A história levou séculos para conferir o status de cientificidade à atividade dos
pedagogos apesar de a problemática pedagógica estar presente em todas as etapas
históricas desde a Antiguidade.
O termo pedagogo surgiu na Grécia, cujo significado é preceptor, mestre, guia, aquele
que conduz; era o escravo que conduzia as crianças até a Palestra (lugar onde praticavam
exercícios físicos acompanhados de orientação moral e ética).
Hoje, denomina-se “pedagogo”, o profissional com formação em Pedagogia, que é
uma graduação e que, por parte do MEC – Ministério da Educação e Cultura é um curso que
trata dos assuntos relacionados à Educação, sendo Licenciatura, conferindo ao pedagogo,
as habilitações em educação infantil, ensino fundamental, educação de jovens e adultos,
coordenação educacional, gestão escolar, orientação pedagógica, pedagogia social e
supervisão educacional, sendo que o pedagogo também pode na falta de professores,
lecionar as disciplinas que fazem parte do Ensino Fundamental e Médio, além de se dedicar
à área técnica e científica da Educação, como por exemplo, prestar assessoria educacional.
O pedagogo não possui um conteúdo intrinsecamente próprio, mas um domínio
próprio (a educação) e um enfoque próprio (o educacional) que lhe assegura o caráter
científico.
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